Loki e Sigyn: Um conto secreto
1 Capítulo 1: Trovão
Em 9 de Fevereiro de 1995, a garoa era incessante na capital paulista. Sarha, estava em trabalho de parto no hospital Santa Joana, trovões acompanhavam seus gemidos de dor. O dia se passou e nada da criança nascer. Johann permanecia inquieto na sala de espera, andando pra lá e pra cá. Até que no telão finalmente nasceu sua filha, Sigyn. Os médicos levaram ele para o quarto para que pudesse ver sua esposa e filha. Era uma bela menina, de cabelos castanhos levemente avermelhados e olhos raros, num violeta igual ao da famosa atriz Elizabeth Taylor.
4 anos se passaram, era julho de 1999. Boa parte da população acreditava que o fim estava próximo. Todos achavam que era o apocalipse por causa do 666 invertido e porque acreditava-se que os computadores do mundo inteiro iriam zerar. Exceto pela pequena Sigyn, ela acreditava que isso não aconteceria. Que havia muitos anos para ela viver. Essa menina tinha traços diferenciados de outras garotas, enquanto as meninas sonhavam em ser princesas, Sigyn sonhava em ser guerreira. Em seu mundo imaginário ela era uma feroz guerreira desbravando batalhas, liderando exércitos e salvando vidas. Até que ela cai num desnível de um metro e meio, porém um rapaz alto a segura a tempo.
– Deverias tomar mais cuidado.
O homem tinha cabelos negros como penas de um corvo em uma noite sem luar. Sua pele branca como leite e olhos verdes como esmeraldas.
– Obrigada.
– Por nada querida... Estavas estava brincando de quê?
Sygin ficou tímida com a presença do rapaz.
– Eu estava numa batalha pra salvar o reino.
Ele sorriu e seus olhos ficaram vermelhos como fosse chorar. O rapaz se ajoelhou e falou.
– Eu preciso salvar uma donzela, e para isso preciso que me dê uma mecha do seu cabelo.
A menina estranhou, mas aceitou de bom grado. Até porque o homem havia salvado ela de uma queda feia. Ele pegou uma adaga e cortou uma mecha da nuca para que ninguém notasse a falha.
– Muito obrigado querida.
– Por nada.
Ele beijou a testa da menina e sumiu da vista dela.
Anos se passaram, a menina havia crescido e agora era uma mulher. Alta e esbelta, seu corpo eram um violão. Homens viviam tentando conquistar ela, mas ela sabia que as intenções deles eram impróprias. Era outubro de 2014, Sigyn já tinha 19 anos quando estava a caminho de uma apresentação de projeto da faculdade, ela fazia Engenharia Elétrica na USP.
Chovia muito forte, trovões tamborilavam no céu e o vento a molhava toda. Ela começou a correr, seu guarda-chuva virou, e ao parar para ajeitar um raio atingiu ela. Seu corpo ficou quente e tudo o que viu antes de a visão ficar escura foi ummegaclarão.
Ao acordar ela estava em um tapete velho e desgasto dentro de uma caverna, uma velha mexia o caldeirão. O cheiro que vinha dele era muito bom. A velha olhou ela e sorriu.
– O jantar está quase pronto minha criança.
– Quem é você? Onde eu estou? Por que estou aqui?
– Calma criança, eu estava colhendo ervas para o ensopado de bode quando vi um raio atingir uma área descampada. Vi algo que não estava lá antes e caminhei com minha muleta. Encontrei você deitada, achei que estava morta. Mas você respirava. Então eu te trouxe com a ajuda das cabras.
– Obrigada... Mas onde eu estou?
– Em Vanenheim.
Sigyn riu, era um lugar das histórias de seu pai. Mais precisamente mitologia nórdica.
–Vanenheim não existe, é só uma história.
A velha olhou feio pra ela e voltou a mexer no caldeirão.
– O raio deve ter mexido com sua cabecinha, estamos em Vanenheim.
Ela se levantou e olhou fora da caverna, o lugar era totalmente diferente, o ar era limpo. A pressão do ar era diferente, árvores e montanhas cercavam a caverna. Algo que ela tinha visto apenas em filmes como O Senhor dos anéis.
– Esse lugar é muito bonito.
– Bonito, mas o rei é muito cruel. Você não vai querer conhecer ele.
Sigyn voltou para a caverna e se sentou.
– Qual é o nome desse rei cruel?
–Theoric.
A velha proferiu o nome dele como se fosse uma escória que deveria ser esquecida.
– Já sei quem evitar... E a sopa? Ela já está pronta?
– Quase, tenha paciência.
Ela bufou e voltou a se deitar e pensou que tudo aquilo provavelmente era um sonho. Mas tudo era real demais, a velha terminou de fazer o ensopado, apesar de ser de bode até que estava muito bem temperado. Na manhã seguinte ela acordou e conversou com a velha antes de partir.
– Pra onde eu vou? Preciso voltar para Midgard.
Sigyn tinha certo conhecimento sobre mitologia nórdico o que facilitava as coisas.
– Siga pela trilha que vai para oeste, logo você vai encontrar uma vila, existem alguns guardas que moram lá, eles podem te mostrar o caminho para Asgard.
A moça se despediu, mas antes a velha deu uma capa verde musgo pra ela usar para proteger ela do frio do outono. Sigyn seguiu pela trilha. Depois de quatro horas de caminhada ela finalmente conseguiu encontrar a vila.
Mas algo agitava aquele lugar, ela ouvia vozes proclamando maldições e pragas. Ao seguir as vozes ela se deparou com desocupados incentivando uma briga. Dois vinkings brutamontes estavam armados e cheios de fúria nos olhos. A universitária resolveu perguntar ao povo do lado dela o que exatamente estava acontecendo. Uma senhora com um filho de aproximadamente dois anos no colo respondeu.
– Pelo o que eu entendi aquele rapaz arrumou briga com os dois caçadores de recompensas.
Um velho desdentado e sujo se juntou a conversa.
– Aquele alí é o Loki, Odin baniu ele de Asgard. Aparentemente só pode voltar se provar que é digno. Aqueles dois eu conheço, vivem bebendo e jogando. Vi Loki ganhar deles nas cartas e eles acham que ele está trapaceando, o que não duvido já que ele é o deus da trapaça.
– Só porque ele é o deus da trapaça não quer dizer que ele tenha feito. Isso não são provas para incriminar alguém.
Sigyns e aproximou para ouvir o que eles estavam falando na briga.
– Seu Jotun maldito, você roubou. Eu sei que sim.
– É, você nos roubou.
– Como ousam proclamar tal calúnia sobre mim, eu sou o príncipe de Asgard.
– Você é um merda, Odin fez bem em te expulsar.
– É, Thor é o verdadeiro príncipe e futuro rei.
– Vocês são tolos em acreditar que meu irmão será um bom rei.
– Chega de conversa, sua língua de prata não vai nos enganar filho de Laufey.
O vinking começou a desferir golpes com espada e o outro com uma maça de guerra. Loki usou a espada que carregava para se proteger dos golpes, por vezes desviava dos golpes mais pesados. Porém havia algo diferente naquelas armas, eram armas antigas feitas por Vanirs, carregadas de bruxaria antiga.
– Alguém precisa ajuda-lo, não é uma luta justa, dois contra um.
– Ele é um vagabundo, merecia pior. Loki foi pego no flagra entregando informações aos Jotuns, aparentemente ele é um deles. Odin ficou furioso, ele removeu os poderes dele e o baniu de Asgard. Pelo o que eu ouvi da mãe de um primo meu. As informações eram sobre o esquema de segurança. Imagina, o cara traindo a própria família. Se bem que a casa de Odin não é mais a família dele, ele é tão insignificante que o próprio Laufey rejeita ele.
Sigyn ficou chocada. Loki era brutalmente espancado pelos dois vinkings, o príncipe de Asgard lutava ferozmente. Porém aquelas armas eram mil vezes superior a espada desgasta dele. No meio da batalha ele ouviu uma Valkíria sussurrar em seu ouvido. "Tu jamais terás um lugar em Valhalla Laufeyson, mesmo se tu lutastes com bravura. Ninguém tem compaixão por alguém como tu.". Aquelas palavras eram como uma facada, a maça de guerra atingiu seu ombro, trincando a clavícula. Se ele não fosse resistente, aquele golpe teria sido mortal. O outro fez uma fenda nas costas dele, o sangue escorria pelas costas. Ele abaixou a guarda e levou um chute no rosto, ele caiu no chão quase inconsciente. Sangue escorria de seus lábios, o vinking que estava com a maça de guerra chutou pra longe a espada dele. "Impossível, anos de treinamento e agora sou morto por dois bêbados... Essas armas... Alguém deu elas para esses dois, é impossível que eles tenham ouro o suficiente para pagar por elas."
– Sabe quem nos deu essas armas feitas por Vanirs? Sua mãe, aquela puta que pariu você. Ela se arrepende de ter dado a luz a você, sem falar que para ela você é uma vergonha para os Jotuns.
Lokificou paralisado, ele acreditava que sua mãe biológica o amava. Que Odin tinha levado ele de sua casa. Contudo, as armas provavam a verdade. Ele não se movia, tentava entender o que estava acontecendo.
Ela não poderia deixar ele morrer, ela teve de pensar rápido. Ela correu e pegou um isqueiro do bolso de um fumante sem ele perceber. Deu a volta e ficou perto de uns barris que estavam ao lado de uma taverna. Sigyn assoviou alto, chamando a atenção dos vinkings.
– Vocês se acham tão macho batendo em um homem desarmado. Vocês jamais serão levados pelas valkírias para Valhalla.
Ela cuspiu no chão, uma representação clara de desprezo por eles. Os dois vinkings ficaram furiosos e partiram pra cima dela. Loki a olhava espantado, não entendia porque alguém se daria ao trabalho de ajudar ele.
No momento exato, Sigyn deu um chute bem forte em um dos barris que estava mal posicionado. O amontoado de barris caiu sobre os dois vinkings, molhando os dois de vinho. Sem pensar duas vezes ela acendeu o isqueiro e colocou fogo no chão, as chamas se espalharam como uma doença venérea. Ambos os vinkings estavam gritando de dor, ela correu e tirou o Loki de perto. Sigyn puxava ele pela mão, Loki a acompanhou.
Depois de atravessarem quatro quarteirões eles se sentaram ofegantes em um beco. Loki olhou para a sua salvadora, e contra tudo que ele sempre foi ele falou.
– Obrigado.
Sigyn olhou nos olhos dele, e sorriu ainda ofegante.
– Por nada... Por que você não reagiu? Sabe... Desistiu de viver.
Loki de um segundo para outro estourou de raiva.
– Eu não desisti de viver, eu estava pensando... Tu és uma maldita humana estúpida. O que veio fazer aqui tão longe? Se passar por uma boa samaritana para me enganar e me esfaquear pelas costas? Estou farto disso tudo.
– Eu te salvei porque eu não estava mais aguentando ver você apanhar daquele jeito. Sinceramente, você é um puto de um ingrato. Que droga, eu não tenho intensões de te matar. Se eu te quisesse morto eu teria deixado morrer na mão daqueles dois idiotas
Longe dali, guardas do rei de Vanenheim tiveram começaram a interrogar os cidadãos, perguntando quem havia causado tamanha confusão. O velho desdentado, abriu a boca.
– Foi o Loki e uma puta, ele puxou briga com os caras e ela que fez esse fogo todo.
– Então estamos lidando com uma feiticeira, pela lei de nosso rei Theoric é proibido usar magia em Vanenheim, esses dois serão presos e terão a morte que merecem.
Os guardas começaram a vasculhar, pelas ruas. Até encontrarem os dois no beco.
– Em nome de nosso rei, vocês dois estão presos por causar caos e utilização de magia.
Loki se levantou junto com Sygin, sem tempo pra pensar, ambos correram em desespero. O guarda praguejava e amaldiçoava por trás. Por instinto, a paulistana seguiu o deus.
– Pare de me seguir sua humana estúpida.
– Ah, cala essa sua boca. Nós dois estamos sendo seguidos.
Rapidamente o guarda foi ficando pra trás, sua barriga imensa por ser um glutão não lhe deixava correr longas distâncias. Loki entrou numa estalagem e a puxou para dentro. Guardas passaram reto pela rua, já estava anoitecendo, eles retornariam as buscas pela manhã.
– Pronto, estamos quites, agora vai embora.
– Eu não vou, está frio lá fora. Vou morrer de hipotermia.
– Você tem dinheiro pra dormir numa estalagem?
–Não.
–Então esqueça, ninguém dorme de graça.
Em fúria pela falta de consideração,Sigyndeu um tapa na cara doLoki.
– Não te ensinaram que um príncipe deveria ter bons modos? Você é um filho da puta arrogante e só está nessa situação porque não dá valor a quem te ajuda. Me falaram sobre você traindo sua família.
Loki enrubesceu de fúria, todos o achavam culpado, ninguém sabia da verdade.
– As informações eram falsas, os Jotuns morreriam se seguissem as recomendações. Eu quero que todos os Jotuns morram. Até a vadia da minha mãe biológica mandou me matar.
Ela suspirou e saiu sem dizer uma palavra, não queria perder tempo. Sigyn entrou nos estábulos e se deitou no feno. Como o lugar estava lotado de cavalos seria difícil notar a presença dela.
Por causa do céu nublado não demorou muito para escurecer. A estalagem funcionava como uma taverna. Loki se sentou numa mesa e pediu algo para comer, estava com fome e por sorte não tinha perdido o ouro que roubou dos dois vinkings. Enquanto comia ele começou a pensar na humana, ele balançou a cabeça para se livrar dos pensamentos, até que dois guardas entraram na taverna. A dona do local apontou pra ele, foi uma questão de segundos para a confusão começar.
Loki começou a lutar, isso acabou envolvendo outras pessoas, levando a uma reação em cadeia. A pessoas começaram a brigar entre si, por terem acidentalmente atingido umas as outras. Sigyn se levantou ao ouvir o barulho da confusão, ao entrar na taverna uma cadeira voou para cima da cabeça dela, por sorte ela conseguiu se desviar a tempo. Um cara tentou dar um murro nela, ela desviou e deu um soco na barriga dele, fazendo o corpo dele se projetar para baixo. Assim que ele estava se agachando ela deu uma joelhada na cabeça dele fazendo o homem ficar inconsciente. A esposa desse cara partiu pra cima dela, fazendo Sigyn se envolver na confusão.
Um homem de dois metros pegou o Loki pelo pescoço e o deixo com os pés no ar. O príncipe de Asgard se debatia tentando se livrar das mãos do homem. Sigyn viu aquela situação e atingiu uma garrafa de cerveja na cabeça do homem, porém ele não desmaiou, ele soltou o Loki e se virou furioso para ela. Infelizmente Sigyn ficou contra a parede. O homem de dois metros desembainhou a espada, e antes que desferir o golpe mortal, Loki esfaqueou o homem pelas costas com uma faca de cortar comida. O homem cuspiu sangue e caiu, Loki segurou a mão de Sigyn e a tirou da confusão, os guardas estavam ocupados demais para notar eles escapando.
– Quem é tu? Por que me segues?
– Meu nome é Sigyn... Eu não estou te seguindo, você que fica sempre no meu caminho como uma princesa em perigo. Eu pretendo ir para Asgard, quero voltar pra casa.
Loki riu, e a olhou nos olhos. Eram olhos diferentes, ele havia reparado só agora, eram de um violeta incomum.
– Também pretendo ir para Asgard, mas só posso voltar se eu provar que sou digno. Não pretendo seguir essa regra e pretendo restaurar meus poderes. Essa porcaria retém os meus poderes
Loki tirou a bota de couro e mostrou um pedaço de metal preso um pouco acima do tornozelo, havia runas inscritas por todo o aro. Sigyn olha analisando as runas entalhadas.
– Já tentou quebrar?
– Claro que já.
– Esquece, eu estou indo para Asgard e tu também, eu permitirei que me acompanhe se fizer o que eu ordenar. Entendeu?
– Eu não sou sua serva, mas vou te ajudar.
– Então venha comigo.
Depois de andarem bastante Loki usou o pouco do ouro que roubou para alugar um quarto, para o preço que ele queria só havia o de casal. Um se deitou de costas para o outro. A chuva caia intensamente do lado de fora, trovões iluminavam quase a todo momento o quarto.
Fale com o autor