Loki e Sigyn: Um conto secreto
2 Capítulo 2: Fúria
Na manhã seguinte, Loki abriu os olhos e viu Sigyn dormindo agarrada ao seu corpo, o braço dele estava na cintura dela. Sem entender como eles ficaram desse jeito ele parou para observar a beleza da moça. O perfume dela penetrava em suas narinas, era um cheiro viciante. Lentamente ela abriu os olhos e se deparou com os olhos brilhantes como esmeralda do Loki, ela olhou em volta e percebeu que estava abraçada a ele. Imediatamente ela se afastou.
– Me perdoe, eu não queria...
– Não se preocupe... Sabe, aproveitando que estamos juntos, na cama, nós bem que poderia fazer algumas coisinhas pra nos aquecermos.
Sigyn num pulo só saiu da cama, ele ainda deu uma piscadela pra ela. O corpo da estudante se estremeceu com o olhar malicioso do deus, apenas com os olhos ele a despia em sua imaginação.
– Prefiro ser estuprada por um cavalo do que me entregar a você
– Sinceramente, nem mesmo um cavalo sentiria atração por ti. Eu estou fazendo-lhe um favor.
Ela saiu do quarto em repulsa e bateu a porta, Loki se levantou. A presença da humana tinha se tornado uma pequena diversão em sua vida, para ele era engraçado atormenta-la e se algo acontecesse e precisasse de dinheiro ele poderia vender ela para um vendedor de escravos por algumas peças de ouro.
– O que você quer agora? Vai lá dar o cú pra um cavalo e me deixa em paz.
– Quieta-te humana, quer atrair os guardas? Pare de gemer alto como uma puta de preço baixo, precisamos nos mantermos escondidos
– Admita, você gosta da minha presença, talvez até tenha se apaixonado. Mas não sou chegada ao seu tipo.
Loki sorriu e mordeu o lábio, estava se segurando para não estourar com esses desaforos da humana. Por séculos as admiradoras do Thor rejeitavam ele, porém não nesse nível, ele é um príncipe. E sua posição social, apesar de não ser o mais educado dos príncipes, exigia respeito.
– Tu falastes que eu não sou educado, vejo que tu és uma hipócrita.
– Nunca ouviu falar que para ser respeitado você precisa respeitar? Você me menospreza, está igual aquelas meninas mimadas que me maltratavam na escola, só porque eu não tinha boas condições financeiras.
– Oh, pobre sofredora, tu deves ser bem do tipo que sonha desde criança em se casar com um príncipe e viver no castelo dos sonhos.
Foi a gota d'água, Sigyn tentou dar um tapa na cara do Loki, mas ele foi mais rápido e segurou a mão dela e num só movimento prendeu ela na parede segurando as duas mãos dela com apenas uma mão, a respiração furiosa de ambos estava muito próxima um do outro. Ambos olhavam diretamente nos olhos sem desviar o olhar.
– Você passou toda a sua vida no luxo e na riqueza, agora que está vendo como a vida é cruel fica todo estourado como uma maldita diva. Para de reclamar como um garoto e haja como um homem.
– Claro que eu fico estourado, minha vida foi toda por água abaixo e pra piorar tenho que ouvir suas calúnias ao meu respeito. Não é a toa que Asgardianos desprezam os humanos, vocês são uma raça inferior.
– Sempre tentando colocar os outros abaixo de você para que se sinta melhor, mas não passa de um garoto desesperado por atenção.
A briga havia chamado a atenção dos outros hóspedes, em todas as portas do corredor tinha gente observando com atenção.
– Preste atenção reles humana, se eu fosse outro com certeza já ter-lhe-ia abusado e teria decepado essa sua cabeça.
Um dos homens que estavam assistindo a discussão atrás da soleira da porta gritou.
– Ei cara, calma aí, ela é sua mulher. Eu sei que esposas são chatas as vezes, mas matar é exagerado.
Loki e Sigyn olharam pro homem e falaram ao mesmo tempo em fúria.
– Nós não somos casados.
Seus olhares se encontraram e voltaram e começara a praguejar novamente.
– Eu jamais casar-me-ia com uma mulher tão ridícula e tão mal educada.
– Eu jamais me casaria com um homem... Não um homem, um garoto. Tão arrogante e desrespeitoso.
Loki mantinha as mãos de Sigyn presas, a fúria toda tinha deixado seus corações muito acelerados. Os dois permaneceram num silêncio enquanto se encaravam, até que eles ouviram as vozes dos guardas do lado de fora do estabelecimento.
Imediatamente correram, eles desceram as escadas e correram para a porta dos fundos que dava para os estábulos. Loki montou num berbere marrom de crina preta e Sigyn num andaluz branco de crina cinza. Ambos dispararam para fora da vila. Loki não compreendia porque a humana ainda o seguia mesmo depois da briga que tiveram.
Sigyn não conhecia essas terras, sua única chance de sobreviver era seguir o homem que tanto odiava. Eles galoparam pela planície e mais tarde tiveram de reduzir a velocidade para não exaurir as forças dos cavalos.
– Onde aprendeu a andar a cavalo humana? Achei que vocês Midgardianos preferissem carros e motos.
– Eu gosto de andar a cavalo, pratico hipismo quase todos os dias.
– Mulheres que andam a cavalo sabem montar em outras coisas.
Loki sorriu malicioso, ele observou por alguns instantes o corpo dela se movendo sob o cavalo. Seus quadris eram graciosos e harmônicos com os movimentos do cavalo, os seios balançavam levemente com o trotar do animal e o vento acariciava os cabelos como uma mãe que afaga os do filho. A visão era inegavelmente sensual aos olhos do príncipe. Sigyn estava cansada de brigas, preferiu permanecer em silêncio.
– Nossa que estranho, tu não me respondestes. A saliva acabou de tanto me insultar?
Ela olhou o horizonte e tentou mudar de assunto, aquela viagem não daria certo se eles continuassem a se atacar daquele jeito.
– Loki, quanto tempo vai levar para nós sairmos desse reino?
Apesar de querer provocar ele achou que estava na hora de levar o momento a sério, ambos eram procurados por todo o reino. A última briga quase resultou na prisão dos dois.
– Quatro ou cinco dias, depende das condições do clima, como estamos no outono vai ficar complicado, ocasionalmente chove, nessas horas nós temos que reduzir bastante o passo de outro modo os cavalos podem quebrar as patas.
Agora que as coisas se acalmaram ambos viajantes perceberam que comeram nada desde que acordaram, suas barrigas roncavam por causa da fome, Loki mudou a rota e entrou na floresta para caçar. Enquanto isso Sigyn buscava madeira seca para fazer uma fogueira. Os cavalos estavam amarrados numa árvore enquanto bebiam água de um córrego. Como havia peixe na água, Loki improvisou uma rede de pesca e ficou se gabando por ser o criador da rede de pesca, por um longo período, Sigyn apenas fingia que ouvia. Ele era um pescador habilidoso, não demorou para pegar peixes o suficiente para saciar a fome dos dois. Sigyn ajudou a cortar os peixes e tirar as vísceras e as escamas. Eles falavam nada, apenas trocavam olhares de vez em quando. Ambos pensavam em insultos, mas nenhum queria iniciar uma discussão.
– Está pronto acho que podemos começar a assar esses peixes.
Loki pegou gravetos e empalou os peixes para assa-los na fogueira, Sigyn ajudou para agilizar as coisas. Ela estava cansada de tanto silêncio, a moça tentaria uma nova abordagem com ele, sem insultos.
– Como é Asgard?
– Ah como eu posso descrever... Asgard é "como o farol de esperança, brilhando através das estrelas. E apesar de ter caído em mitos e lendas do homem, era Asgard e seus guerreiros que trouxe a paz ao universo." Assim disse-me Odin, mas se tu quiseres algo mais técnico eu te digo, o reino é bem mais desenvolvido do que qualquer cidade midgardiana. De noite podemos ver bilhões delas por entre as nebulosas. As nebulosas divergem em suas cores como o carmesim, o azul royal, o laranja e o verde. Nenhuma é igual a outra, essa singularidade é um dos encantos de nosso céu estrelado. Sempre gostei de andar a cavalo em Asgard, quando garoto eu cavalgava pelas planícies, por entre colinas e por vezes na praia. Era bom sentir a maresia em meu rosto e ouvir o quebrar de ondas na areia. Mas nem tudo é rosas, ninguém falava comigo, a maioria me encarava com ódio nos olhos. As mulheres distanciavam-se na menor aproximação que eu tivesse com elas. Ah como eu queria mandar para Hel esses malditons asgardianos.
– Nossa, esse lugar realmente parece um paraíso, quem sabe nas férias eu te visite.
Sigyn conseguiu tirar um leve sorriso do deus, era a primeira vez que não era por deboche ou por malícia, definitivamente a imagem que ela ainda não tinha desse deus tão arrogante.
– Nem pense que serás minha hóspede, tu só me causas problemas. Se quiseres ser minha hóspede vai ter que atender aos meus desejos carnais todas as noites.
– Nem pensar, prefiro armar um acampamento e vagar sozinha em Asgard, até porque eu duvido que você possa me fazer gritar de prazer.
Sigyn virou o rosto tentando esconder suas bochechas coradas pela vergonha, nunca havia se deitado com um homem antes, ela falou aquelas palavras da boca pra fora.
– Isso foi um desafio? Eu posso provar agora que estás errada, humana.
– Pra começar eu tenho nome, e é Sigyn, pare de me chamar de humana. Se continuar vou te chamar de Jotun.
– Já perdi a vontade, acho que os peixes estão prontos para serem degustados.
– Nisso eu concordo com você.
– Pelo menos agora eu posso dizer-lhe que não discordamos em tudo.
Ambos começaram a comer os peixes, a fome era tanta que nenhum pensava numa ofensa ao outro, tudo em que pensavam era saciar a fome e seguir com a viagem. Os cavalos comiam a grama que restava e não era muita por causa do outono. Assim que terminaram bateu aquela sonolência após o almoço, loki se deitou para tirar um cochilo, Sigyn foi até a beira do córrego e tocou na água. A água estava fria, porém era suportável. Ela olhou pra trás e ao se certificar que Loki estava dormindo ela começou a remover as roupas, assim que estava como veio ao mundo ela deu um pulo na água, o córrego não era tão fundo, cobrindo apenas até a cintura Ela começou a se deitar na água para lavar o cabelo e embaixo da água ela passava a mão no corpo para remover as impurezas, a correnteza não muito forte ajudava a remover.
Loki acordou, ao abrir os olhos ele a viu de costas na água, ela estava de pé, ele olhou as curvas molhadas que eram iluminadas pelo sol da tarde. Por um momento ele achou que tinha morrido e que acordou em Valhalla, para ele a mulher que estava na água era uma Valkíria se banhando. Sigyn se virou e viu que Loki a olhava, imediatamente ela tentou cobrir os seios, porém ficou estática ao imaginar as coisas horríveis que ele poderia causar a ela.
– Por que te envergonhas? Tens um corpo formoso, cheio de curvas que fariam até um Asgardiano achar que está em Valhalla.
– Pare de me olhar, eu... Eu não costumo ficar nua na presença de homens.
– Exato, e como dissestes antes, eu sou um garoto. Ou tu se esquecestes das calúnias que dissestes sobre mim?
– Você entendeu o que eu quis dizer, pare de olhar pra mim.
– Não é culpa minha se resolvestes ficar nua na água.
Sigyn não tinha outra escolha, ela se levantou e vestiu a roupa, Loki ficou observando ela a todo momento, ele não sabia quando seria a próxima vez que veria uma mulher nua tão sensual. Ela se sentia desconfortável, mesmo já vestida ele a olhava como se ainda estivesse sem roupas.
Já era hora de seguir com a viajem, os dois montaram em seus respectivos cavalos e saíram da floresta para galopar numa área aberta. Não muito tempo depois eles chegaram a uma das maiores cidades de Vanenheim, as roupas de Sigyn era muito diferentes e isso chamava a atenção. Loki mandou ela se sentar num banco de pedra e tomasse conta dos cavalos. Por entre as ruas ele se esbarrava nas pessoas e roubava suas bolsas com prata, ouro e cobre, assim que roubava ele se misturava a multidão desta forma ele não era pego no flagra. Ele retornou para a praça onde Sigyn aguardava com os cavalos.
– Consegui dinheiro para passarmos duas noites em estalagens, comida e uma roupa menos chamativa para ti, tuas vestes midgardianas vão chamar atenção indesejada.
– Mas eu gosto dessa roupa... Se bem que está toda em trapos graças a essa aventura louca.
Eles começaram a caminhar pelas ruas agitadas guiando os cavalos por entre as pessoas, até encontrarem uma alfaiate, após ela experimentar alguns vestidos, um violeta, igual ao de seus olhos, com decote em 'V' e mangas até o cotovelo serviu perfeitamente nela, a cintura tinha detalhes delicados em dourado. Loki barganhou com a alfaiate e conseguiu pagar por um preço bom. Saindo dalí, ele foi atrás de um certo contato, Sigyn seguiu ele sem titubear, eles chegaram num ferreiro chamado Roy de Ferro.
– Boa tarde Roy, acho que tu se lembras de mim.
Roy olhou para o Loki e o reconheceu imediatamente, depois voltou a martelar uma espada que estava vermelha por ter sido tirada recentemente do fogo. O homem tinha traços rudes, estava só de calça, seus braços eram fortes e o tronco era só músculos, obviamente adquiridos por anos de trabalho árduo.
– Eu me lembro de você, príncipe de Asgard. Um garoto problemático, só causava problemas. Porém você me ajudou quando minha mulher estava prestes a descobrir que eu traía ela com a filha do padeiro.
– Tu dissestes pra mim que me devia uma, eu preciso de uma espada e armadura nova. A minha armadura foi arruinada por armas Vanir com bruxaria antiga, e minha espada se perdeu durante a luta.
– Isso eu posso fazer, amanhã a tarde venha me visitar, sua armadura e espada estarão prontos até o entardecer.... Vejo que você está bem acompanhado, mas não vejo um anel no dedo dela, se quiser eu posso fazer.
– Ela é só uma conhecida, não pretendo casar-me com isso.
– Se eu fosse você querida, eu largaria esse garoto e me casaria com algo melhor. Corra antes que seja tarde demais.
– Obrigada, mas não possuo vontade de me casar com esse palerma.
Roy sorriu, ele via algo que ambos não eram capazes de enxergar. Ele colocou a espada dentro de um recipiente com água fria, fazendo um chiado agudo. Ambos se despediram de Roy de Ferro, já havia anoitecido quando chegaram a uma estalagem, um cavalariço levou os cavalos aos estábulos enquanto os dois se dirigiam ao saguão. E sentaram-se numa mesa no canto onde era possível observar a movimentação sem chamar atenção.
– Vou ser franco com contigo, nesse exato momento não estamos indo para Asgard.
– O que, seu maldito você me enganou, disse que estava indo para Asgard. Mas que merda eu segui você como uma tonta, achei que estávamos no rumo certo. Qual é o seu problema.
– Hey, fale mais baixo, não queremos chamar atenção indesejada. Olha, preciso adentrar ao castelo de Theoric, ele tem chave que abre qualquer tipo de algemas, até as encantadas. Necessito remover essa coisa do tornozelo para que possamos ir pra Asgard, é necessário que distraias o rei enquanto eu pego a chave emprestada.
– Não, eu não vou fazer isso, você enlouqueceu? Nós estamos sendo procurados e você quer ir exatamente onde desejam nos enforcar. Loki, esse seu plano não é muito bom.
– Presta a atenção, vai haver um baile de outono no castelo Quero que não permitas que o rei deixe o baile, enquanto Theoric estiver ocupado não ocorrerá problemas. Contudo caso ele esteja desacompanhado é preciso que tu o cortejes.
– Uma velha numa caverna disse que esse rei é cruel, se ele descobrir estamos ferrados.
– Funcionará. Terás de confiar em mim. Desejas ir para Asgard ou não?
Sigyn ponderou olhando ao redor, para ela isso era uma loucura sem tamanho, como se estivessem sendo seguidos por uma alcateia e resolvessem se esconder na toca dos lobos. Algo lhe dizia que isso não terminaria bem, porém sua vontade de voltar pra casa era maior do que o medo.
– Eu aceito, porém você ficará novamente em dívida comigo.
– Fechado, logo tudo isso vai acabar e tu estarás livre de mim e eu estarei de ti.
Ambos jantaram sopa e beberam vinho quente, a noite seria fria, era melhor dormir com barriga quente. Nessa estalagem não tinha duas camas de solteiro em um só quarto, novamente tiveram que alugar um quarto com cama de casal. Sigyn estava exausta e se deitou na cama, quando Loki ia falar com ela a moça já estava dormindo. Ele ordenou a um empregado da estalagem que preparasse uma banheira com água quente. Não demorou muito para a banheira do quarto ser enchida de água. Loki removeu as roupas revelando suas feridas da batalha contra os vinkings, acidentalmente ele deixou cair o peitoril. Sigyn acordou, ela ia reagir ao ver ele nu. Porém sua atenção foi voltada aos ferimentos.
– Loki, você precisa cuidar desses machucados, estão horríveis.
– Eu sei, mas eu não alcanço as minhas costas.
Ele falou com raiva, era só o que faltava, uma humana com pena dele. Nunca ele havia caído tanto. Realmente estava no fundo do poço.
– Eu posso te ajudar se você quiser.
– Não quero ajuda, principalmente de uma humana.
Loki entrou na banheira e gemeu de dor ao sentir a água tocando em suas feridas, contra a vontade do deus, Sigyn pegou uma espoja e a molhou na água quente. Suas mãos eram leves e delicadas, ela começou a passar sob as feridas. Mesmo sem causar dor Loki continuou a reclamar.
– Sinceramente, tu és uma mula, eu falo que não és para ajudar-me, porém teimas em continuar. Saia daqui, maldita seja por sua petulância.
Ela continuou a limpar os ferimentos ignorando todas as maldições que o príncipe de Asgard proclamava. Assim que terminou ela voltou pra cama e puxou o cobertor para dormir. Loki se levantou e se enxugou com uma toalha que tinha disponível no quarto, ele vestiu apenas a calça e se deitou do lado da humana. Depois de se revirar diversas vezes ele olhou pra ela e sussurrou.
– Obrigado.
Torcendo para que ela estivesse dormindo, porém Sigyn ainda estava acordada, ela falou nada, apenas sorriu.
Fale com o autor