Logo existo
1 A primeira manhã
Notas iniciais
Ouvi o barulho de passos no corredor, provavelmente os passos de Meg, nossa governanta.
Suspirei baixo, tomando todo o cuidado para não acordar minha irmã Eliza que dormia ao meu lado. Eu sabia que ela odiava ser acordada cedo, e pelo modo como os pássaros estavam cantando, o dia mal havia começado. Levantei-me com cuidado para não acorda-la, e tomei o dobro de cuidado para não bater ou esbarrar em nada, para não correr o risco de ser pega saindo da cama sozinha.
Mamãe insistia para que Eliza dormisse junto a mim desde quando tínhamos cinco anos. Talvez eu gostasse disso quando tinha cinco anos, mas agora só me fazia parecer mais dependente de todos. E isso me matava.
Devagar, encostei meus dedos na parede para que pudesse me guiar por eles, e assim, consegui chegar à porta, aonde suavemente girei a maçaneta.
O frio da manhã pareceu chegar até mim. O inverno estava sendo rigoroso esse ano, sabia disso, pois ouvi papai falando com meu irmão mais velho Peter sobre os danos que a estação estava causando em nossa propriedade.
Mesmo dentro de casa, com as lareiras acessas ainda era possível sentir a brisa gelada que insistia em atravessar as frestas e as janelas e que logo fazia todos os nossos pelos do braço levantar.
Continuei seguindo o corredor comprido que por mim já era conhecido. Conforme andava, conseguia sentir o cheiro forte que vinha da cozinha, com toda a certeza, logo minha mãe estaria lá para supervisionar o serviço de Meg. Assim continuei até contar dez passos. Parei e tateei a porta até encontrar a maçaneta, e ao gira-la já sabia que alguém estava me aguardando.
Aquele não seria o primeiro nem o último dia em que eu me esquivara do quarto para ir ali. Esse estava sendo meu ritual todos os dias desde que completara dezenove anos.
Fechei a porta com cuidado para que mamãe não conseguisse me escutar, e para que não corresse o risco de ser pega. Depois caminhei lentamente até conseguir sentar em uma confortável poltrona que ficava a poucos passos da porta. Assim que cheguei nela, me sentei e aguardei como fazia todos os dias.
Devagar, consegui escutar alguém se aproximando, e calmamente se sentando em outra poltrona ao lado de onde a minha se encontrava. Assim que se acomodou, meu pai procurou e segurou minha mão.
Ele ficava ali quase o dia todo, e nas poucas horas da manhã eu conseguia aproveitar a sua companhia. E ali, na biblioteca junto a ele, eu conseguia esquecer, pelo menos por um segundo, de que era dependente de todos a minha volta. Ali, junto a ele, eu só sabia meu nome e o quanto eu era feliz por aproveitar sua companhia.
Sempre que eu pensava que podia ser independente alguém conseguia me lembrar de que andar na escuridão é um sinônimo de se estar sozinho, de que sempre iria precisar que alguém esticasse sua mão para mim, para me guiar... Mas isso iria mudar, sim, por mais que tudo ao meu redor fosse uma escuridão sem fim, eu sabia que nunca estaria sozinha, e que sempre poderia me mostrar capaz.
Desde que era criança, meu pai costumava me contar historias, sempre ressaltando a beleza das coisas, e esse, era um dos principais motivos para eu estar ali. Escutar. Mesmo que nunca poderia chegar a ver a beleza do por do sol ao vivo, mesmo nunca conseguindo ver a vibrante cor de uma rosa, eu estava ali para escuta-lo. Para sentir, da forma como ele contava, de um modo tão cativante que me levava a pensar como seriam tais coisas. E isso me deixava feliz.
E assim que estivesse pronto, sem nenhuma palavra antes, ele começava com sua narrativa, tão lúcida quanto minha mente conseguisse ir, se rasgando por horas a fio, até que o toque na porta nos fizesse levantar.
–Bre não lhe disse para esperar sua irmã para poder se levantar?
A voz de minha mãe vinha ríspida e carregada de pesar, e eu sabia, que logo não poderia mais voltar ali sozinha, e que o restante do meu dia estava contado a vestidos, piano, dança, costura e todas as outras coisas que minha irmã conseguisse me acompanhar. Resumindo, nada espontâneo da minha parte.
– E eu já lhe disse que não preciso de Eliza como uma babá. Sei muito bem onde estou indo, e se a senhora ainda não percebeu, conheço essa casa como a palma de minha mão!
Assim que disse aquilo me arrependi. Não por não querer dizer, mas por tudo que teria que escutar como forma de castigo.
– E isso é modos de falar com sua mãe? — começou ela, a principio calmante, mas aos poucos comecei a sentir a amargura e o medo em sua voz. — Sabe que eu me preocupo como você, sabe que poderia ter errado o caminho e chegado até a escada. E diferente do seu pai, que continua sentado ai, incentivando as suas fugas matinais, eu prezo pelo seu futuro.
– Vamos com calma Donna, Briane não esta fazendo nada de errado ao tentar sair de sua própria cama sozinha, e me recuso a levar em consideração ao que você acabou de falar — assim que terminou de falar isso, meu pai gentilmente colocou suas mãos sobre as minhas e disse. — Querida, por um lado sua mãe tem razão, acho que devemos diminuir nossas vindas matinais aqui.
E a conversa estava terminada. E mesmo que eu tentasse completar a minha versão do ocorrido, de nada teria adiantado. Sendo assim, ouvi meu pai se retirar do aposento e minha mãe se aproximar de mim.
– Agora vamos, não quero mais escutar sobre isso hoje, a partir de agora, vamos nos concentrar em arrumar você para o café, para que possamos começar a preparar a chegada de seus primos.
E assim que terminou de falar isso, já estava me arrastando de volta para meu quarto, aonde Eliza ainda se encontrava, provavelmente ainda dormindo, pois não ouvi nada além de sua respiração pesada.
– Vou mandar Meg chamar o resto das criadas para dar um banho e coloca-la em um belo vestido. Espere aqui querida.
E ali estava eu, mais uma vez, dependendo de alguém para uma necessidade tão básica, como um banho.
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