Logo existo
2 Próximo inverno
Notas iniciais
O banho não poderia ter-me feito melhor. Mesmo tendo que esperar por Meg para toma-lo, e mesmo depois de estar adequadamente vestida, eu ainda podia sentir o calor da água quente em minha pele.
Nunca gostei de usar vestidos apertados, e para a minha sorte, eu estava tendo que usar um. Mal conseguia esperar para poder tira-lo, apenas a sensação de algo dificultando a sua respiração era horrível. E assim que pronta, pedi para Meg me acompanhar até a cozinha, aonde minha mão se encontraria.
Segurei sua mão por todo o trajeto, do quarto até a cozinha. Quando chegamos à escada senti Meg estremecer, pois sabia que ela temia que não conseguisse me segurar caso eu viesse a tropeçar em algum degrau. E como um ato de falsa segurança apertei mais sua mão, e assim, descemos com todo o cuidado. Uma das minhas mãos escorregava lentamente pelo corrimão enquanto a outra apertava com cautela a mão de Meg.
Quando chegamos ao ultimo degrau me ouvi dando um rápido suspiro. Eu consegui.
Andamos rapidamente para a cozinha, e quanto mais chegava perto, mais eu conseguia sentir o cheiro das frutas recém-colhidas no jardim, e conseguia sentir o calor do fogo. Meg colocou-me sentada em alguma cadeira vaga perto do mesmo, aonde segundo ela eu me encontraria mais aquecida.
Passei minhas mãos com cuidado sobre meu colo pensando como seria o vestido que eu estava usando. Qual seria a sua cor? Será que era de renda? Acho que o primeiro nunca saberei, mas eu sabia que este era de renda, apenas pelo modo como minha mão passava por ele.
Ainda perdida em meus pensamentos, não consegui ouvir os passos que se aproximavam, e que paravam ao meu lado.
– Espero que a mamãe tenha lhe dado um belo sermão Briena, não sabe tudo que tive que ouvir por sua causa.
E assim minha irmã entrava na cozinha. Se eu não estivesse tão concentrada pensando em meu vestido, eu provavelmente a teria ouvido chegar, pois sua presença era única, juntamente com cheiro de primavera que a cercava.
Desde pequena eu tentava comparar pessoas ao cheiro das coisas que eu mais amava, e entre elas estava o cheiro do começo da primavera, a estação preferida de Eliza que a carregava consegue. E assim, depois da alguns anos eu conseguia pensar no cheiro da minha mãe como o cheiro de uma bela rosa, de meu irmão Peter o cheiro de grama molhada e do meu pai... Eu ainda não havia descoberto.
E assim começamos nossa rotina, que começava a se mostrar entediante não somente para mim, mas também para Eliza. Eu sentia como se ela estivesse fazendo aquelas coisas por obrigação há algum tempo. Em alguns momentos eu pensava em falar que ela não precisava cuidar de mim como uma criança, afinal temos quase a mesma idade, sendo ela só um ano mais velha que eu.
Mas ao pensar nisso me calava, pois sabia que isso só a faria ficar mais irritada e a faria calar-se e não mais conversar comigo.
Nosso dia pareceu passar rápido, visto que já estávamos no final da tarde quando meu irmão regressara de uma visita a sua noiva. Encontrávamos-nos na sala de visitas quando este chegou e eu sabia que ele se encontrava um tanto nervoso quando chegou a passos fortes. E eu soube. Algo tinha acontecido.
Sempre que meu irmão não se apresentava ao chegar, algo estava errado, pois ele sempre nos alertava de sua presença antes de entrar em nossa aula de piano, e naquele dia, ele não o fez. Cogitei a possibilidade de talvez ele ter se desentendido como nosso pai, que já era de costume.
– Tenho algo a compartilhar com vocês — avisou-nos ele, com uma voz apreensiva.
– Esta acontecendo alguma coisa Peter? — perguntou minha irmã, já pensando o pior.
– Ainda não Eliza, mas acontecerá.
Neste instante eu desejei poder ver o seu rosto, talvez dessa forma eu conseguisse entender o que estava acontecendo, ou aconteceria... E assim, um silêncio se derramou sobre a sala, pelo que pareceram horas, nos três nada dissemos. Até que decidi impor-me.
– Peter, não fique de suspense e nos conte logo, antes que Eliza desmaie.
Assim, o ouvi se aproximar de onde nos encontrávamos perto da janela e logo após senti sua mão em meu ombro.
– Ouvi papai conversando com a mamãe quando cheguei, eles por sorte não me viram, mas parece que nossos primos estão chegando...
– E por que isso seria ruim Peter? — começou Eliza, mas foi logo interrompida.
– É ruim, pois, eles irão levar uma de vocês consigo.
E assim, eu soube, no instante em que ele aumentou seu aperto em meu ombro, que aquela que meus primos iriam levar, era eu.
Fale com o autor