Lobos.
3 Três
Três
Acordo ao anoitecer. Me levanto depressa, coloco o celular no bolso do jeans desgastado e saio da cabana. Com uma tontura leve, pego uma maçã, mordo e me apresso para sair da floresta.
– Epa! Aonde vai com tanta pressa? – voz de Mason me fez parar a corrida.
– Ah, oi. – sorrio para ele – Me desculpe, Mason. Eu preciso ir para casa.
– Já? – ele segura meu pulso e sinto um arrepio pelo corpo.
– Ahn, é. Me desculpe.
Tentei me livrar de seu toque, mas meu corpo não queria. Era como se Mason fosse ligado à mim. (e parte de meu corpo queria isso) Nossos olhos se encontraram e ele mordeu o lábio inferior, soltando meu pulso.
– Tudo bem. Então, eu, ahn, vejo você, ahn, logo.
“Eu espero” quis dizer, mas só assenti com a cabeça. Mason era um cara legal e, tipo assim, era o primeiro garoto que era realmente bonito e gentil comigo – sem contar que não era um pateta qualquer que imagina todas as garotas à sua volta nuas. Mason lançou-me um sorriso largo e beijou minha mão (cavalheiro!) antes de sair. Devo ter ficado com um sorriso besta no rosto.
– Espere, Mason! – gritei. Uma espécie de uivo saiu de meus lábios e eu levei à mão à boca.
– Sim, Johnson? – disse ele, usando um tom de gozação.
– Eu.... – engoli em seco e fui até ele. Com a face quente por causa do rubor, beijei seu rosto e mordi o lábio inferior – Queria teu número. Quero dizer, de celular.
Mason abriu um sorriso radiante e piscou para mim. “Burra! Não devia ter beijado ele!” bronqueei em pensamentos. Dei meu celular à ele e ele anotou o número rapidamente. Entregou-me o celular com seu sorriso estampado no rosto. “AAH!” suspirei.
– Ei, quando quiser apostar uma corrida, não hesite em me chamar.
– Claro. – sorri para ele, corando.
– Beleza. A gente se vê, Kyla.
Ele me beijou de leve no rosto e saiu correndo. Ouvi uns “whoo-hoo” sair de seus lábios e gargalhei. Virei-me para me despedir de Paul e ir embora. Vovó sentia minha falta – bom, eu acho –, assim como meu irmão – ah, claro! – e minha tia. “Eu gostei daqui” refleti. “É calmo, lindo...” suspirei. talvez eu voltasse aqui qualquer dia.
Sem perceber, cheguei à cabana do alfa e, hesitando, espiei pela fresta da “cortina” (certo, era uma porta de folhas, tecnicamente) para ver se era uma boa hora. Vi Paul sentado em sua cama (pelo menos ele não beijava outra loba...) e suspirei.
– Ahn, alfa? Eu posso entrar? É Kyla Johnson.
– Oh, entre, Kyla!
– Eu, bem, vim me despedir. – disse, entrando em sua cabana.
– Mas já? Bem, eu espero que faça uma boa viagem. – ele ficou de pé em um salto e beijou minha testa – Aliás, ótima. – seus lábios tocaram de leve nos meus e eu fiquei meio tonta.
– Obrigada, Paul. Quero dizer, alfa. – balancei a cabeça, meio confusa.
– Só Paul.
– É, certo. – mordi o lábio e tentei sorrir – Eu já vou. Adeus, Paul.
– Até, Kyla Johnson.
Sorri (tipo, de verdade) para ele e saí de sua cabana. Com o coração acelerado, corri pela floresta esperando os hormônios tomarem conta de mim. A fervura interior começou e o fogo correu por minha pele. Um ganido baixo é solto por meus lábios e a transformação começa. Corro sobre quatro patas pela floresta e o calor de meu corpo se espalha. Minhas patas esmagam o solo e eu aumento a velocidade.
Logo passo pela fronteira com Colômbia e um certo prazer me invade. Tipo, por ser rápida. Não sou a mais rápida da alcatéia (ou matilha, sei lá), mas sou bem rápida. Acho que se apostasse com um guepardo, por pouco eu ganharia. Passei por Bogotá com o dobro da velocidade inicial. Ainda tinha um longo caminho pela frente. Seattle estava MUUUIITO longe.
“Isso, Kyla. Continue assim!” a voz era de minha bisavó.
“SHHHH! Não atrapalhe a garota!” reconheci a voz de minha mãe. Uma alegria me invadiu e minha alma humana sorriu. “Oi Kyla."
Gani baixo e senti vontade de chorar. Mamãe estava presente para mim apenas no mundo espiritual e eu só ouvia sua voz enquanto era loba.
Passei pelo México quatro vezes mais rápida que minha velocidade anterior. Eu gostaria de participar das corridas algumas vezes, mas sabia que seria trapaça. Então deixava a vontade de lado. Me concentrei novamente em meu objetivo – a mente do lobo se distrai muito – e tentei encontrar minha mãe de novo.
“Kyla...”
Sua voz ecoou por minha mente e eu encontrei forças para continuar a correr. Mas, com a velocidade alta demais, tropeço em uma pedra e caio no chão. Arfando, balanço a cabeça e volto a correr (quero dizer, trotar) pelo caminho.
“Perdão...”
A voz soou triste e arrependida. Tentei pensar em coisas do tipo “não foi nada” e imagens de minha mãe me vieram à cabeça. Senti outra vez uma vontade de chorar imensa, mas continuei a correr. ARGH! Sentimentos humanos nesse corpo são péssimos! Bom, pelo menos eu não me sentia mais tonta por causa do beijo de Paul. (única coisa boa que pensei no momento)
“O cumprimento do alfa a incomoda?”
“Não.” respondi em pensamentos “É só que... Algo estranho acontece com o lobo que há dentro de mim.”
“Algo como seu espírito se manifestasse com o dele?”
“É. Acho que é isso, mãe.”
“Talvez seja um sinal...”
“Qual? Que eu e ele seremos um casal?” bufei, em pensamentos.
“Não. Bom, talvez. Mas o que quero dizer é que talvez você seja a próxima alfa.”
“Há!” gargalhei “Essa é boa!” passei voando por Portland e a imagem de minha família em casa invadiu minha mente.
“Sério, Kyla. Você é muito talentosa e seus olhos...”
“São estranhos!” completei, interrompendo-a.
“Especiais.” corrigiu ela “Eles são especiais. Como você.”
“Certo. Use o termo que quiser. Prefiro estranhos.”
“Em Shoshone não seria assim...” minha bisavó se intrometeu.
Diminuí a velocidade à medida que me aproximava de Seattle. Meus pensamentos se fixaram no que minha mãe dissera, sobre eu ser uma alfa. Os lobos escolhem os machos alfas e algumas vezes as fêmeas alfas (não gosto de pensar nessa palavra. “Fêmea alfa” é tão... Cruel. Prefiro “mulher”. Ninguém diz “oi, sou uma fêmea alfa” e sim “oi, sou uma mulher alfa”) aos quais os outros se submetem. Os alfas são, geralmente, os mais fortes fisicamente e com boa personalidade e força de vontade. Ninguém ousa desafiar um alfa – a menos, é claro, que se esteja louco ou queira morrer. Mas, como dissera Paul, devíamos nos conhecer melhor e gerar nossos lobos – e geralmente o alfa é o unic que tem relações (isso é tão... Arrogante). Eu não queria isso. Não queria ser a alfa. Queria uma vida normal.
Pulei o muro que cercava minha casa e me transformei em humana de novo. Arfando, entrei em casa, tentando parecer normal. Minha família sorriu ao me ver e Josh cochichou algo para minha tia. Minha avó me abraçou e sussurrou em meu ouvido:
– Como foi com o alfa? Estou feliz que tenha voltado.
– Legal. – sorri, mais para mim mesma do que para ela – Senti saudades.
Me separei de vovó e fui abraçar minha tia. Ela me fitava de um jeito estranho – como se tentasse desvendar um mistério – e seu rosto ficou mais iluminado ao me ver andando em sua direção. Depois de abraçá-la, baguncei os cabelos castanhos de Josh e fui tomar um banho.
Entrei no banheiro calmamente. Era uma calma estranha até para mim. Me despi e entrei no chuveiro. A água escorreu por todo meu corpo. “AAH...” Aquilo era tão bom... Meus longos cabelos negros (molhados!) ficaram mais leves (acho que é porque a água do rio é diferente da água do chuveiro) e eu fiquei dez minutos no chuveiro. Me enrolei na toalha e sentei-me no chão do banheiro, encostada na porta. Meu corpo quente estremeceu ao toque do chão frio. Minha cabeça girava com as múltiplas emoções.
Primeira: eu estava atraída por Paul. Seus cumprimentos (se eu pensar que são beijos, vou me iludir) me deixam tonta. E às vezes ele parece gostar de mim (o que não ajuda em nada).
Segunda: Mason me deixava intrigada e atraída. Eu gostava dele. Sério, de verdade, ele me lembrava os cavalheiros de filmes antigos – só que ele era bem mais sexy. E cada vez que me lembrava dele uma dose de prazer jorrava em meu corpo.
Terceira: eu falei com minha mãe. Eu sentira tanto a falta de uma mãe nos últimos dez anos e agora eu a sentia comigo. Com a loba que eu me transformara.
– Kyla? Tudo bem aí?
Assustada, me levanto depressa e abro a porta. Saio, ainda enrolada na toalha, e sigo à meu quarto. Visto uma camisola (algo muito estranho, considerando que é sábado à tarde) e me deito na cama. Preciso dormir. Meu corpo está cansado da corrida. A alma de lobo estava agitada e meu lado humano implorava por sossego.
Josh entra no quarto. Ele não quer discutir comigo. Parece apenas curioso. Me levanto depressa e meus sentidos de loba percebem uma onda de preocupação em sua expressão. Ele se senta do meu lado e eu me preparo para seja lá o que for que ele vai dizer.
– Ei, onde você esteve? Vovó disse que passou os dois dias com uma amiga, mas tia Linda não acreditou.
Ri sem humor algum e ele cruzou os braços junto ao peito, fazendo pose de quem falava sério.
– Ahn, eu fui visitar uma, ahn, amiga.
Ele não pareceu acreditar, mas deu de ombros e saiu do quarto. Josh era legal, mas me irritava às vezes – como qualquer irmão caçula. Quando ele saiu, peguei meu celular e liguei para Kate.
– Até que enfim! Garota, por que sumiu assim? Tipo, existe celular, sabia?
– Katheryn Archibald, você precisa ser mais razoável. – falei, ríspida – Tipo, preciso te contar uma coisa. Segunda, na escola.
Desliguei o celular e abracei meus joelhos. “Foi um dia louco” concluí. Consegui pegar no sono depois de um tempo e quando acordei de novo meu corpo já não reclamava tanto. O cheiro de batatas fritas invadiu o ambiente e eu corri para a cozinha. Devorei um prato de batatas fritas, alface e carne. Bebi uns dois copos e meio de suco e Linda (minha tia) serviu sorvete de creme depois do jantar. Meu estômago me agradeceu muito por comer algo saudável para ele (e não uns coelhos ou aves) e eu assisti alguns filmes com Josh.
– Não é o Tom Cruise, tia. – Josh revirou os olhos e eu ri.
– Está bem... – ela bufou e virou o rosto para o lado oposto à TV.
O vento bateu em meu rosto quando vovó fechou a janela (o que foi estranho) e eu vasculhei-o, procurando um uivo. Nada. Relaxei no sofá e passei a mão pelo pingente de lobo em meu pescoço. Imagens da reunião com os lobos me vieram à cabeça e juro que senti o toque de Paul. Tipo assim, senti seu corpo no meu e a onda de calor espiritual que nos possuía durante os cumprimentos. Aquilo era de fato estranho e eu cheguei a considerar a teoria de minha mãe para isso.
Fale com o autor