Lobos.
4 Quatro
Notas iniciais
Quatro
Passei a noite inteira acordada e dormi muito pouco no domingo. Meu corpo me odiava quando fui para a escola segunda-feira. Me joguei na cadeira, afundando-me lá. A pior coisa do mundo naquele momento era me sentar atrás de Nataniel na aula de química. Nataniel ou Nate (apelido pelo qual seus amigos o chamam) é um garoto irritante (I-R-R-I-T-A-N-T-E) e insuportável (I-N-S-U-P-O-R-T-Á-V-E-L) da turma de química. Ele tinha dezoito anos e tinha comportamento (e raciocínio) de alguém da quinta série. Ele fizera o primeiro ano umas três vezes e mesmo assim era um idiota. Tentei ignorá-lo quando ele começou com seus “e aí, Kyla?”, “tudo bem, Kyla?”, seguidos de sua risada abobada e tonta que me fazia pensar que nada era pior do que aquilo.
Quase agradeci aos céus ao ver Kate entrar na sala com seus cabelos ruivos na altura dos cotovelos presos em uma trança embutida. Ela sorriu e veio em minha direção. Quando Nate fez um de seus comentários idiotas – tipo “aí, Kate! Está mais sexy hoje, hein?” e “whoo-hoo” – ela revirou os olhos e sentou-se do meu lado.
– E aí, vai me dizer o quê?
– Eu conheci um gato ontem. – murmurei, quase aos sussurros – Sem noção, ele é L-I-N-D-O!
Ela abriu seu sorriso zombeteiro e curioso.
– Ah, é? E daí? O que mais?
– Tipo assim, ele quase me beijou. – lancei-lhe meu sorriso misterioso. Como eu nunca beijara alguém de verdade (tipo, os cumprimentos entre Paul e eu não contavam), Kate ficou muito curiosa.
– U-A-U!
– Vocês duas aí! – disse Nataniel, tentando parecer sedutor – Parem de sussurrar. Eu quero...
– Ah, cale a boca! – bufei.
– Ah, qual é, Kyla?
– Qual é você! – fiz uma careta.
– Sabe, eu te acharia muito sexy se você fosse mais legal.
– E eu te acharia menos idiota se você não fosse um babaca. Ah, não. Não faria diferença.
Meu corpo trabalhou bem na educação física. Jogamos vôlei e eu era boa nisso. Me mexia graciosamente pela quadra e era melhor (sem querer me gabar) que muitas alunas. Meus saltos eram melhores também, mas isso não vem ao caso. Logo tirei Paul e Mason da cabeça e Kate também. Ah, e o babaca do Nataniel me deixou em paz.
Senti uma fome danada no almoço. Evitei pegar tudo o que via e me contentei com um sanduíche e um refrigerante. Não soube se a fome era efeito da caça (quando se caça e se transforma em humana depois, o estômago, assim como o resto do organismo, fica estranho) ou se era porque não comia desde o almoço do dia anterior. Kate comeu apenas sua salada de grutas de sempre e as garotas que se sentavam à nossa volta comiam sanduíches com molho de carne e- estranhamente, muuito estranhamente – senti mais fome. “Cale a boca, estômago!” ordenei mentalmente. Caramba, que fome!
– Kyla, – disse Kate, pegando uma maçã e mordendo-a – você não terminou de me falar do tal garoto. O que...
– Shhhh! – repreendo-a e ela abaixa o olhar.
– Ahn, tudo bem.
As garotas que sentavam-se conosco me olharam e deram de ombros. Agradeci mentalmente à Deus por sei lá o quê e voltei a fitar minha amiga.
– Eu vou para a aula.
– Ta. – ela disse, ríspida.
Me levantei e caminhei rapidamente para minha próxima salda de aula. Pude ouvir alguns sussurros vindos de Kate e Sue, a garota ao seu lado. Ignorei, balançando a cabeça, e implorei para meu dia não piorar.
Segurei o inesperado ataque de hormônios quando saí da escola. Tipo, era realmente uma droga conviver com isso todo entardecer, mas quando eu saí da sala de aula foi pior. Meu corpo lutava para manter a forma humana e o calor me possuía. Corri para fora da escola e, cambaleando, peguei meu celular e liguei para vovó. Caiu na caixa postal.
– Vó, está piorando. Estou lutando para não... Você sabe.
Desliguei e corri mais. Precisava chegar em casa. Precisava me livrar da horrível sensação de calor em meu corpo – o calor de uma queima. “Corra, Kyla, corra!” ordenei para mim mesma.
Cheguei em casa cerca de cinco minutos depois. Hesitante, abri a porta e joguei o material no sofá. Fui para a cozinha e devo ter ficado com o rosto de uma retardada ao ver Mason conversando com minha tia.
– Oi Kyla. Esse rapaz disse que precisa falar com você.
Forcei um sorriso para Mason e ele retribuiu o sorriso. Se levantou da cadeira e veio em minha direção. Pegou minha mão e a levou aos lábios. Depois inclinou-se para meu rosto e sussurrou:
– A corrida, lembra? – riu de leve e eu ri também – Vamos?
Disse à minha tia que ia dar uma volta com Mason e foi basicamente o que fizemos. Ninguém viu nossa transformação e eu soube porque senti os hormônios mais... Agitados mais cedo. A presença de outro lobo me deixou assim.
“Mostre-me o que sabe, princesa!” o grande lobo cor de chocolate rosnou para mim e eu ri – quer dizer, a parte humana riu.
“Com prazer” posicionei-me para a corrida e logo estava invisível aos olhos humanos. A velocidade em que estávamos era muito alta. Mason estava em meus flancos e (tenho de admitir) ele era mesmo rápido. Uivei e ele riu (ou emitiu som parecido). Cravei as unhas na terra e me lancei para frente.
“Você é muito interessante. Tal como eu devia esperar da herdeira de Sara Johnson!”
“Ahn, valeu, eu acho. E aí, como me achou?”
“Foi moleza. Rastreei você até aqui. Tipo, meus instintos me guiaram e... Pronto! Te achei!”
“Legal” só pude pensar nisso. Caramba, como eu sou burra!
“Ainda prefiro a floresta.” ele admitiu “É mais... Aberta.”
“Concordo com você...” gani baixo e parei de correr.
“O que foi?”
“Nada. É que... Sinto falta Shoshone.”
“Uau. Você realmente morava lá.” não havia surpresa em sua voz.
“É.”
Notei que ele também parou de correr. Estávamos um de frente para o outro agora. Eu via o homem por trás de seus olhos castanhos de lobo. (e desejei que ele visse a mulher por trás dos meus) Eu arfei e voltei a correr; ele me seguiu. Minhas patas esmagavam o chão com força enquanto eu corria. O fogo ardeu em meu corpo, mas era um calor bom. A velocidade ideal logo foi conquistada e eu senti Mason em meus flancos de novo. Mais que isso. Ele estava do meu lado.
“Bom... Você é veloz mesmo.”
“Está zombando de mim?”
“Não.” arfei “Houve momentos de dúvida, só isso.”
“Ah, claro!”
Eu gostei da companhia de Mason, de verdade. Ele me animava e parecia gostar de mim. E, tipo assim, não era um babaca como Nataniel. Mason era muito mais lindo e simpático que ele. Apostar uma corrida realmente foi divertido.
“Acho que desisto!” menti “Estou exausta!”
Mason parou de correr para olhar para mim e voltou à sua forma humana. Passou a mão por minha cabeça e eu disparei à toda velocidade. Ele gargalhou e um rosnado saiu de seus lábios quando ele voltou a ser um lobo.
“Traidora!” ele riu e eu gostei do som.
Continuamos correndo em alta velocidade e foi divertido demais. Cada músculo de meu corpo trabalhou para não me cansar e distrair. Mason quase me venceu e, se eu não tivesse parado antes, ele poderia ter vencido. Voltamos à nossa forma humana e ele admitiu ter perdido. Sorriu para mim e nós voltamos para casa.
– Boa corrida. – disse ele, arfando – Você é rápida.
– Obrigada. Você também.
E, voltando para casa, aconteceu a pior coisa do dia. O idiota do Nataniel estava passando por ali e nos viu. Sua cara de babaca abriu um sorriso abobado e ele lançou-me uma provocação.
– E aí, Kyla? – ele riu e aquele som foi mais abobado que seu sorriso – Quem é teu amigo?
Segurei a vontade de mandá-lo para o inferno e revirei os olhos. Mason reprimiu o riso e aumentou o ritmo de seus passos. Tentei não vomitar ao ouvir de novo a risada idiota de Nataniel e ignorei-o por completo.
– Não vai responder não, é? Você é tão tonta! Eu devia imaginar que alguém selvagem como você fosse escolher outro selva...
O som do punho forte e pesado de Mason contra o maxilar de Nataniel me surpreendeu. Em um momento Mason estava do meu lado e no outro estava em cima de Nate.
– Quero ver se tem a coragem de repetir! – um silvo baixo, seguido por um rosnado, saiu de seus lábios. Ele me assustou – Anda, fale!
– Vocês, selvagens, são todos uns babacas!
Dessa vez eu vi o sangue escorrer pela boca de Nataniel quando Mason o golpeou. Ele caiu no chão, quase derrotado, e puxou Mason consigo. Fiquei paralisada e não consegui dizer nada. Nate acertou Mason uma vez e ele sangrou, mas Mason revidou e Nataniel perdeu a briga.
– Da próxima vez, aprenda a calar a boca! Babaca! – ele rosnou, cuspindo as palavras. Trêmula, passei a mão por seu ombro e ele afagou meu rosto – Venha, Kyla. Vamos embora.
Andamos depressa para minha casa e eu a encontrei vazia. Os outros deviam ter saído. Levei Mason ao banheiro e peguei um kit de primeiro socorros. Com um algodão molhado, limpei seu corte nos lábios.
– Ai! – gemeu ele – Pare com isso, dói!
– Ai, desculpe, desculpe, desculpe! – mordi o lábio e fiquei de joelhos para ele, de modo que nossos olhos ficaram à mesma altura. (ele estava sentado no banquinho ao lado do vaso sanitário)
– Eu agi bem?
– Aham. Se eu fosse um alfa, te nomearia o, ahn... Beta? – ele riu e eu sorri.
– Então acho que mereço o cumprimento do alfa.
Ele se inclinou para meu rosto e seus lábios de leve tocaram os meus. Não pude evitar de sentir que algo nos unia, como quando Paul me cumprimentava. Ele separou-se de meus lábios e disse:
– Foi com sangue. – ele parecia magoado – O primeiro beijo não pode ser com sangue.
Ele limpou bruscamente a boca com as mãos e se inclinou para mim de novo. Havia mais calor e desejo em seus lábios urgentes dessa vez. Ele me pegou no colo e entrelaçou seus dedos em meu cabelo, puxando minha nuca para ele. Nunca fui beijada daquele jeito. Hesitante, agarrei-me à seu pescoço e moldei seus lábios nos meus.
– Isso é mais do que um cumprimento. – eu disse a coisa mais idiota do mundo.
– Não estou nem aí.
Seus lábios desceram para meu pescoço, subindo para os meus depois. Ouvi seu riso meio sufocado quando eu gemi seu nome. Meu corpo estava repleto de calor e de desejo. Tateei por seu peito até achar os botões de sua camisa. Os abri e a tirei de seu corpo. Seu peito estava completamente nu e eu passei a mão por seu tanquinho definido.
– Quantos anos tem? – perguntei, arfando.
– Isso realmente importa? – ele me olhou, rindo, e eu sorri.
– Não.
– Dezenove. Tem dezesseis, não é? – assenti com a cabeça – Bom... Gostei do jeito que se livrou daquela camisa.
Nos afastamos ao ouvir os passos de minha tia. Mason foi comigo para a sala e deitou no sofá. Me sentei no outro sofá e liguei a TV para disfarçar o que estávamos fazendo. Seus jeans desgastados iam até os calcanhares. Mason me olhou e sorriu.
– Devo voltar?
– Fique.
Minha tia entrou na sala e sorriu para nós. Uma sacola de mercado nas mãos e um sorriso estranho no rosto bastou para Mason. Ele ficou de pé em um salto e se abaixou para meu rosto.
– Preciso ir. Vejo você em breve.
E saiu após beijar meu rosto.
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