Quinze

– Como assim? Não vai me dizer?

– Não. É uma bobagem.

Ele ficou me olhando com uma expressão diferente. Pensei que fosse porque ele me achava bonita, mas percebi que ele olhava para o corte em meu pescoço. Mordi o lábio inferior e abaixei o olhar.

Senti a mão dele em meu rosto e ergui a cabeça. Ele estava a centímetros de mim. Seus lábios estavam tão perto... E aquela atração voltou. Se eu pelo menos tocasse naqueles lábios...

Paul fez isso por mim. Sua mãos seguraram meus ombros e seus lábios estavam nos meus. Mas não era um toque leve. Era um beijo urgente, furioso e quente. Nossas línguas estavam se tocando e meu corpo molhado estava colado ao corpo quente dele.

– Kyla...

Ele gemeu meu nome com paixão. Percorreu meu corpo com a mão e, quando eu ia fazer o mesmo, ele parou.

– Isso é errado.

– Por quê? Você não me quer?

– Eu quero. E por isso é errado.

– Não estou te entendendo. – choraminguei.

– Eu estou apaixonado por você, Johnson. Mas eu não me permito te amar.

– Por quê? – arfei, tristonha. Era a primeira vez que Paul me beijava de verdade – É pela diferença de idade? Porque, se for, quando eu fizer 21 anos, eu vou parar de envelhecer por uns tempos.

– Não. É porque eu posso ser seu pai.

– Como é?

– Eu tive um caso com sua mãe.

– Mas você... Você não pode ser meu pai. Só é alguns anos mais velho que eu e...

– Tenho mais de 21 anos. E, como você disse, lobos param de envelhecer aí.

Não, não, não, nãããããão! Ele não pode ser meu pai! NÃÃÃÃÃÃO! Ele me amava e eu o amava! Droga! E isso não ocorre! Não, não, não! Eu queria tanto estar naqueles braços, mas... Parecia errado.

Depois da surpresa e da tristeza, fui tomada pela raiva. Como ele faz isso desse jeito? Me beija e diz isso? Cretino! Um pai não faria isso!

– Então é isso? você me beija desse jeito e diz que é meu pai? O quê mais, hein? Abusou de mim todo esse tempo!

Rosnando, saí correndo de perto dele e fui tomada violentamente pelo ataque de hormônios. Me transformei em um salto e corri mais ainda. Precisava chegar em minha cabana. Precisava ligar para vovó. Precisava de Mason. Precisava sair de perto de Paul.

“Kyla, espera!”

“SAIA DA MINHA CABEÇA!” ordenei, furiosa. Não odiava tanto alguém assim há tempos. Nem o quê eu sentia por Nate era assim.

“Por favor, Kyla. Espere. Eu...”

“Não! Eu não quero ouvir. Eu odeio você!”

Continuei correndo e não me importei com o lobo negro atrás de mim. Eu só queria ficar longe daquele monstro! Não podia acreditar que ele me usara daquele jeito. Tentei chamar minha mãe para confirmar tudo, mas não podia chamá-la com raiva. E eu não queria ouvir que Paul era meu pai.

À noite, vesti um short jeans e um top preto. Vesti uma camisete preta por cima do top e soltei os cabelos. Paul disse que eu iria cortá-lo na altura dos ombros e isso me doía. Eu me acostumara a tê-los na altura dos cotovelos.

Ouvi o som de tambores e resolvi sair da cabana. Paul trouxera tambores da cidade para a cerimônia. Caminhei até o enorme circulo no interior da floresta e vi todos os outros sentados ao redor de uma fogueira. Vi Mason encostado à uma árvore e sorri para ele, indo a seu encontro.

– Você veio.

– Eu não perderia isso por nada. Alfa Johnson.

– Obrigada, Stanley.

Ele sorriu e beijou-me apaixonadamente. Depois fomos nos sentar ao redor da fogueira com os outros e esperamos começar. Primeiro, Mike Young (irmão gêmeo de Angel Young, a ruiva musculosa) seria nomeado o novo alfa. (ou mestre, como eles chamavam) E aí seria minha vez.

– Boa noite à todos. – disse Paul e os tambores pararam de bater neste exato momento – Hoje serão nomeados os dois novos alfas: Michael Young e Kyla Johnson.

Mike se levantou e os tambores voltaram a bater. Essa seria a primeira vez que eu veria um alfa ser nomeado. Dean surgiu atrás de seus lobos e tirou a camisa de Mike. Depois, Dean se transformou e Mike se abaixou, ficando com as costas nuas no focinho de Dean. Dean lambeu as costas dele e cravou os dentes na pele de Mike. Ele não gritou.

Dean se afastou e voltou à forma humana. Mike ergueu o olhar para nós e eu vi. O lobo dourado corria em seus olhos. Ele era o novo alfa.

Nas costas de Mike, bem na marca da mordida, se formou uma tatuagem negra de um lobo uivando para a lua. Dean entregou seu colar à Mike e todos o cumprimentaram com reverências e palmas. Aí chegou a minha vez.

Paul e eu fomos para o meio do círculo e ele pegou uma faca. Não, espera. Era uma estaca. Era a hora de dizer adeus à meu cabelo. Com um aperto no coração, abaixei-me em sinal de respeito a Paul até sentar-me no chão. Ele pegou meus cabelos e passou a estaca por eles. Que péssima maneira de cortar cabelo! Quando meus cabelos ficaram na altura dos ombros, ele jogou a estaca e ela acertou uma árvore. Assovios foram soltos e eu revirei os olhos.

Me levantei e tirei a camisete preta, ficando apenas de top e short. Paul abaixou-se, colocando os lábios em meu ouvido e murmurou:

– Se doer, não grite. É questão de segundos para passar.

E depois disso se transformou. Fiquei de quatro no chão e fechei os olhos, preparando-me para a dor. Senti os dentes dele perfurando minha carne e mordi o lábio para não gritar. A dor era insuportável, mas durou apenas alguns segundos. Meus olhos arderam e eu soube que o lobo estava uivando dentro deles.

Me levantei e todos bateram palmas. Não precisei ver para saber que havia um lobo tatuado em minhas costas pelo sangue alfa de Paul. Recebi abraços de meus colegas de matilha e um beijo demorado de Mason. Depois, Mike e eu saltamos e giramos no ar, nos transformando em uma explosão.

Uivamos para a lua e a batida dos tambores aumentou. Todos uivaram e se transformaram também. Exceto Dean e Paul. Eles conversavam perto da fogueira, mas ninguém, exceto eu, notou-os ali. Mase disse-me que estava orgulhoso (por seus pensamentos, quer dizer) e eu uivei. Todos uivaram para a lua outra vez, me imitando e assim acabou a cerimônia.