Oito

Katheryn tagarelou a aula toda e mal notou a tempestade de emoções que se passavam por minha mente e coração. Ela e Andrew deviam ter ficado. Não que ela me deixou perguntar (pois não parava de falar nem para respirar), mas ela se empolgava assim quando beijava um cara.

Eu estava à caminho de minha terceira aula quando esbarrei em Nataniel. Eu fiquei meio surpresa; não o via há dias, desde que apanhara de Mason. Nate usava um jeans novo, camisa de flanela e a jaqueta do time de futebol da escola. No rosto, um óculos escuro. Não sabia se Mason batera tão forte (e pelo visto batera), mas devia ser exagero dele.

Quando me viu, Nataniel me empurrou contra meu armário e disse, em tom ameaçador:

– Olha aqui, se seu namorado se meter comigo de novo, ele está ferrado! E se você ousar contar pra alguém, você já era!

Fiquei com mais raiva dele do que imaginei quando ele se afastou e se virou para seguir para sua aula. Sabia que Nate só queria se exibir; tanto eu quanto ele sabíamos que Nate não sabia bater nem em uma garota.

– Como é? – respondi, incrédula.

– O quê você ouviu! Eu...

Não deixei ele terminar. Esmurrei seu queixo, provavelmente quebrando seu nariz, e golpeei-lhe no rosto, lançando seus óculos escuros para perto do banheiro masculino. Ele tentou me bater, mas meu corpo era rápido demais, então me esquivei.

– Sua selvagem! – rosnou ele – Você me paga.

Cuspi no rosto dele, fazendo Nate cambalear para trás.

– Da próxima vez, pense duas vezes antes de me ameaçar, seu babaca repetente! – disse, com ignorância – Se quiser parecer melhor, Nataniel, pense duas vezes.

Eu sabia que provavelmente iria para a diretoria se um inspetor me pegasse. Mas fingi não me importar e virei-me e saí para o banheiro. Tentei não demonstrar ao babaca o quanto eu estava apavorada.

Quando cheguei ao banheiro, joguei meu material na pia e tirei o celular do bolso. Liguei para casa, rezando para quê vovó atendesse. Se tia Linda atendesse, eu estava ferrada.

– Alô? – vovó atendeu, meio rouca.

– Vó, sou eu, Kyla. Responda apenas “sim” ou “não”. Tia Linda está aí?

– Não.

– Ahn, certo. Vó, vai haver uma guerra entre os lobos. Eu vou me ausentar por uns dias.

– Por que não me disse antes?

– Não era... Seguro. Mas o problema é este: o quê direi à escola? E à tia Linda e Josh?

– Não se preocupe, querida. Quando for, deixe um bilhete embaixo de seu travesseiro e eu darei um jeito.

– Obrigada, vó. Agora eu preciso ir para a aula.

– Kyla, acorde! Acorde, Kyla!

Anne me sacudiu na cama, me despertando. Eu sonhava com a guerra. Eu lutava com um lobo cinza-avermelhado; ele me olhava com desejo sobrenatural, um desejo que eu nunca vira antes, nem mesmo nos olhos de Mason. Abri lentamente meus olhos e fitei o rosto preocupado de Anne.

– O quê houve? – perguntei, sonolenta.

– O chamado. Você não ouviu? Paul precisa de nós.

– Ai, meu Deus! Eu... Eu já vou! Só vou separar umas coisas.

– Certo. Mason vai nos encontrar perto da Colômbia. Temos meia hora para sair.

– Que horas são?

– Meia-noite. – ela sorriu, suando. Seus cabelos ruivos colavam-se em sua testa.

Anne saiu de meu quarto e eu levantei-me depressa. Na mochila da escola, joguei umas trocas de roupas e uns livros. Arranquei uma folha do caderno e escrevi um bilhete para vovó.

“Vó, precisam de mim. Os lobos vão atacar. Não sei quando volto e nem se volto. Anne está comigo. Cuide de Josh e de tia Linda. Eu amo vocês. K.J.”

Levei o bilhete aos lábios e beijei o papel, sem perceber que estava chorando. Limpei as lágrimas bruscamente com a mão e deixei o bilhete embaixo de meu travesseiro. Desliguei o celular e joguei-o na mochila. Fechei a porta de meu quarto, fui no quarto de vovó e beijei-lhe o rosto. Caminhei cautelosa e silenciosamente até Josh e beijei-lhe na cabeça. Anne estava no quarto de tia Linda e eu aproveitei para me despedir dela. Após despedir-me de todos, fiz um gesto à Anne para que saíssemos de casa. Ela me seguiu até a porta da frente e sussurrou:

– Vamos?

Assenti uma vez e pulei o muro. Lancei a mochila para o céu e saltei. Quando caí no chão, já estava sob minhas quatro patas. Peguei a mochila pela boca e rosnei, avisando Anne que devíamos partir. Ouço um rosnado baixo e em seguida vejo Anne em meus flancos. Pisco para ela e começo a correr, já rapidamente. O uivo ecoa no vento outra vez e nós duas uivamos em resposta.

“Ele parece preocupado...” gani baixo, fechando os olhos.

“E está. Paul está com medo. Somos apenas vinte lobos. Os orientais são em torno de cinqüenta. Ele tem medo de fracassar. Você sabe, todos esperam o melhor dele.”

“Mas e os lobos europeus?”

“Com eles, seremos em torno de cem. Mas nós não sabemos lutar tão bem e nem sabemos se os franceses vão aceitar isso. Eles são meio... Anti-sociais. Não aceitam a mistura de exércitos.”
“Que cretinos!”
rosnei, começando a ficar furiosa “Mas por que os orientais querem tanto desafiar Paul?”

“Pelo que sei, tudo começou há duzentos anos. Se não me engano, Sara Johnson era a... Ahn, você pode chamar de beta.”

“Quer dizer a segunda do alfa?” sugeri.

“É, isso! Sara Johnson ia se tornar alfa, mas havia um problema: ela tinha dois rivais. Como era a favorita do alfa, Sara não se preocupou muito com isso. Mas Brandon e Nicholas tinham seus talentos. Sara podia ter a marca do alfa...”

“O lobo nos olhos...” pensei, interrompendo Anne.

“Isso. Mas não é só isso que conta para escolher um alfa. Brandon Cohen era o mais habilidoso, digamos, e tinha uma perfeita linhagem. Seria um magnífico alfa. Nicholas Howe era o mais rápido, mais forte e mais sábio, mas não possuía a marca do alfa. Porém, Samuel Stanley não sabia que escolha fazer. Quer dizer, Sara não tinha apenas sua marca. Tinha uma forte personalidade e sua força de vontade era... Bem, é difícil descrever. Mas ela tinha muitas qualidades.”
“Hum, está bem. Mas ainda não entendi sobre a guerra.”

“Calma, Kyla. Você é igual à sua ancestral!” Anne riu. Não creio que uma garota de treze anos me disse isso!

“Desculpe.”
“Continuando, Samuel não sabia quem seria seu alfa. Velho, ele já ficara anos como líder. Seu plano foi este: propor uma competição entre os três. Aquele que vencesse, seria o líder. Mas a competição era meio violenta. Os três, exceto Sara, que era a favorita, como eu já disse, lutariam entre si e o eu vencesse lutaria com Sara. Na luta, valia tudo. Quero dizer coisas como arrancar a cabeça do outro fora e dilacerar...”

“Já entendi!” interrompi-a, com nojo.

“Certo. Bem, Brandon e Nicholas lutaram até a morte ou que um desistisse. Nicholas atacava-o sem pensar, levando em consideração a força bruta. Mas Brandon raciocinava. Ele podia não ser o mais forte, porém sabia se defender. Sara via as batalhas sentada ao lado de Samuel, sem ligar. Os dois lobos quase se matavam, e ela só fechava os olhos, assustada. Aí, quando finalmente ela teve sua chance de lutar com Brandon Cohen, ela levantou-se e cumprimentou-o com um aceno de cabeça. Sei que parece que sua ancestral era uma sem coração, mas a história não termina assim.”

A cena toda se passou por minha cabeça. Imaginei minha ancestral lutando com um lobo negro dez vezes maior que ela. Imaginei ela dilacerando-o em várias partes. Imaginei ela saltitante, feliz pela vitória, e sendo nomeada a nova alfa. Mas como nunca presenciara uma celebração para escolher um novo líder, imaginei absurdos. Anne riu, creio que da minha imaginação fértil, e eu mudei de pensamentos.

“Continue.”
“Obrigada. Bem, Sara disse à seu rival para esperar um dia, pois ele poderia estar exausto. Ele aceitou e foi descansar. Enquanto isso, Sara treinava por horas para derrotá-lo. Acho que já imagina o final.”
“Ela venceu?”

“Venceu, mas por outros motivos. Infelizmente, Brandon foi encontrado morto enquanto Sara e Samuel treinavam. Como não havia mais nenhum candidato, Sara foi nomeada a alfa.”
“Uau! E ninguém achou que ela fosse culpada por matar Brandon?”

“Sim, mas descobriram que ele tinha sido envenenado por Nicholas durante as refeições que antecederam as batalhas. Você sabe, o veneno tem um efeito retardado em nosso organismo. Diferente dos humanos, nossa morte é lenta.”

“Mas e o motivo da guerra?”

“Ah, é! Bem, Nicholas era francês, então seu herdeiro é o atual alfa da França, Dean Howe. E Brandon era oriental. Seu herdeiro deve estar furioso. Aí resolveu guerriar.”
“Mas depois de tanto tempo?”
questionei, confusa.

“As gerações estão aumentando, então muitos lobos só descobrem seu passado agora. Antigamente, todos os povos eram ligados por um alfa só.”

“Samuel Stanley.”

“Nesse caso, sim.”

Ao avistarmos Mason, paramos de pensar nisso. Embora ele devesse saber sobre isso, pois podia captar isso em nossa mente. Juntos, corremos como uma pequena matilha. Eu era a alfa, Mase o segundo e Anne a terceira. A sensação que me tomou era de familiaridade. Isso estava no meu sangue. Obrigada, Sara Johnson! Agora serei uma droga de alfa!
Ouvimos outro uivo e nos entreolhamos, surpresos. Uivei de volta, de modo que Paul soubesse nossa localização.

“E então... A guerra vai acontecer mesmo, não é?”

“É...” Anne ganiu.

“Bom, e quais são as estratégias de batalha?”

“Não sabemos, Mase. Paul ainda vai dizer, lembra?” tentei soar séria.

“Johnson está levando uma mala? UAU! Quantos séculos você vai ficar fora?” ele riu.

“Muito engraçado, Stanley! Só não bato em você porque tenho pena!”

“Ah, claro! Tenho certeza de que não me bate porque está apaixonada por mim!”
“Mase, você vai deixar Anne constrangida e...”

Mase não me deixou terminar. Partiu para cima de mim e me lambeu na cara. Seu focinho tocou no meu, como em um beijo. Pude ver o sorriso em seus olhos. Arfei e continuei a correr.

“Você joga sujo, Stanley!” rosnei.

“Ora essa, princesa!” ele ria, zombando de mim, provavelmente “É só um beijo!” aproximou-se de mim e ganiu. Ele parecia se divertir “Nunca ouviu que no amor e na guerra vale tudo?”