Catorze

Uma semana.

Tive uma semana até a celebração alfa. E até Mason sair com Jamie, Jesse e Mike Young (esse último, europeu) para verificar o território. Eles foram os escolhidos para ver se os orientais estavam prontos para atacar. E aquele era meu último dia com ele antes de ele partir e antes de eu virar alfa. Tudo estava acontecendo tão depressa...

– Eu prometo que voltarei antes que você comece a sentir saudades. – disse ele, afagando meu rosto e olhando para a lua cheia.

– Impossível. Já sinto sua falta.

– Volto logo, K.J. – ele beijou minha testa e depois meus lábios. E foi embora.

– Tchau, Mase! – gritei.

– Volto para sua cerimônia! – ele uivou e, num salto, seu corpo foi trocado por um lobo.

Suspirei e voltei para minha cabana, já sentindo falta de Mason. Pela fresta da cortina que ficava na porta, observei o luar e ouvi um uivo dentro de mim. Toquei o pingente de lobo. Em menos de vinte e quatro horas, eu seria a líder de uma matilha de lobos onde os integrantes eram, em sua maioria, mais velhos que eu. Que ironia!

Mas era a hora de aceitar os fatos. Eu seria a líder e eles se submeteriam à mim. Kyla Johnson, a herdeira de Sara Johnson, avó do meu bisavô. (eu acho) E, embora eu ache que Joshua é melhor para o cargo, devo aceitar o destino. É uma pena que se nasce lobo, e não se transforma. Ou eu poderia... Sei lá, transformar Josh.

Quando amanheceu, fui direto à cabana de Paul. Estávamos treinando de verdade agora. Luta direta, ataques limpos e justos. E aquela estranha ligação espiritual que havia entre nós voltou com os treinos. Devia ser porque eu seria a nova... Alfa. (oi, sou uma fêmea alfa! Argh!)

A chuva cessara e o sol surgira, iluminando meu rosto. Um dos motivos para treinar com Paul era que ele poderia me controlar caso Sara retornasse. Eu achei meio idiota , pois não fui possuída de novo desde o dia que quebrei o nariz de Dean Howe. Mas não devemos abusar da sorte.

Paul me esperava em frente à cabana. A dele era enorme, de modo que podíamos treinar lá. Mas vi que hoje seria de outra forma. Nós lutaríamos em campo aberto. Os outros dormiam e poderíamos lutar no interior da floresta. Bem, será divertido.

Segui ele até uma área nova da floresta. Poucas árvores, e isso era bom e ruim. Ruim porque não há esconderijos para nós e nem lugares para encurralar nossos oponentes. Bom porque não há esconderijos para os oponentes e não seremos encurralados por eles. Este será o campo de batalha. E a cada dia que passa essa guerra me apavora mais.

– Pronta?
Assenti com a cabeça e ele pediu para retomarmos a lição anterior. Sem a presença de Sara, ficava difícil atacar alguém em forma humana. E era beeeem difícil atacar Paul – afinal, ele é o alfa! Se eu tiver a força dele quando for a líder, ganharei a batalha.

– Muito bem, Kyla. Lembre-se da primeira lição: mantenha o foco e não se distraia. Agora tente me atacar.

Sempre que eu tentava, ele ganhava. Mas, quando tentei dessa vez, consegui surpreendê-lo. Dei uma pirueta no ar, alcançando uns dois metros acima de sua cabeça, e aterrissei em seu peito, derrubando-o no chão. Ele sorriu, satisfeito com minha primeira vitória, e eu saí de cima dele, virando as costas e preparando-me para o próximo ataque.

Mas Paul me pegou. Ele conseguiu me pegar. E eu ajudei. Quando me virei, ele se levantou e puxou-me pelo braço, me jogando de costas no chão. (e, caramba, como doeu!)

– Segunda lição: nunca se vire se não tiver matado seu oponente. – ele sorriu.

– Certo. – bufei.

Ele estendeu a mão para me ajudar a ficar de pé e vi minha chance. Sem demonstrar nada, peguei sua mão e sorri, puxando-o para o chão e ele caiu.

– Terceira lição: nunca baixe sua guarda. – eu disse, rindo – Parece que finalmente te peguei.

– É, parece. Agora me ajude a ficar de pé.

– Não! – gargalhei – Ei, você podia, sei lá, me ensinar a transformar daquele jeito legal.

– Qual jeito?

Expliquei à ele que eu não conseguia me transformar num salto como todos os outros. Só quando eu corria ou quando tinha perigo. Paul disse-me que eu era muito jovem.

– Então sou muito jovem para ser alfa também.

– Vamos para a cachoeira. – ele bufou.

Ele correu comigo (cara, ele era rápido!) para a cachoeira mais próxima e explicou que se eu pulasse do topo, a adrenalina seria maior e me permitira transformar do jeito que eu queria. Nos transformamos e continuamos a correr. Era bom correr com ele.

Não sei a qual cachoeira chegamos porque não conheço a área. Mas era linda. A água era limpa e caía furiosamente no rio. Paul subiu no topo e ficou na parte terrestre. Imitei-o e fiquei na forma humana. Ele também fez isso.

– Muito bem. Veja como eu faço e tente fazer igual.

Ele tomou distância e correu para a beira. Gritou e girou no ar, se transformando e caindo na água. Depois ele olhou para mim e correu para perto de mim. (Tudo isso em menos de cinco minutos) Voltou à sua forma humana e disse-me:

– Vai.

Assenti e tomei distância do topo. A adrenalina correu por meu corpo e eu me preparei. Corri de olhos fechados para a beira e saltei. Mas não me transformei. Eu abri os olhos e vi que estava caindo na água. Um estrondo e eu caio. Ainda em humana.

Saí da água, bufando, e olhei para Paul. Ele não ria como eu esperava que fizesse. Ele balançou a cabeça e pediu que eu tentasse de novo. Voltei para perto dele ainda na forma humana. (isso levou uns quinze minutos. A subida era longa)

– O quê eu errei?

– Você hesitou. Não pode hesitar.

– Mas é muito grande! – bufei – Como eu poderia pular sem medo?

– Quer mesmo saber? – ele sorriu, se divertindo.

– Claro!

– Bem... Desse jeito.

Ele me empurrou para a queda e eu gritei. A adrenalina preencheu meu corpo e senti os hormônios se unirem à ela. A queda se aproximava cada vez mais do fim e eu ainda não conseguira. Fechei os olhos e uivei. A explosão de calor aconteceu.

Quando caí na água, estava sob a forma animal. Uivei para Paul e ele gargalhou, satisfeito. Sua risada pareceu um trovão e eu gostei disso. Corri ao redor da cachoeira para me secar e senti poder nas patas. Subi a cachoeira e fiquei ao lado de Paul outra vez. Voltei à forma humana e disse:

– E aí?

– Foi perfeito!

– Outra vez!

Repeti a cena cinco vezes e finalmente consegui a perfeição que eu queria. Uivei em cada aperfeiçoamento e recebi um sorriso caloroso de Paul. Mas, quando eu finalmente achei que iríamos descansar, ele disse:

– Vamos voltar.

– Ah, não! Vamos ficar um pouco aqui. Por favor!

– Kyla, precisamos voltar.

– Eu estou morta. – caí na grama e ele riu – Vê? Morri. Agora você vai ficar aqui e cuidar de mim. E falo sério.

– Uma ordem, alfa?

Quis atirar uma pedra na cabeça dele, mas me segurei. Eu estava exausta. O último mês foi bem agitado. Cheio de lutas, treinos, corridas... Eu precisava descansar. E Paul pareceu entender, pois sentou-se perto de mim.

– Por que não quer voltar?

– Porque aí será real.

– O quê?

– A cerimônia. Hoje à noite. Eu não quero ir.

– Mas precisa. Você é a alfa.

– Eu sei. E é por isso. Não quero ser alfa. Por que não escolhe outra pessoa, tipo o Jesse?

– Porque eu achei você.

– Como?

– Pelo cumprimento do alfa.

– O quê isto tem a ver? – bufei, me levantando e encarando ele.

– Tudo a ver.

Ergui as sobrancelhas e ele respirou fundo, se deitando na grama com os braços na cabeça. Paul olhou o céu e eu não tirei os olhos dele.

– Sabe por que o cumprimento do alfa é um toque nos lábios?

– Porque eles são abusados? – arfei, irônica. Ele riu de leve, mas logo voltou a expressão normal de líder.

– Não.

– Por que, então?

– Porque é assim que as almas alfas se reconhecem.

– Então tudo se resume à isto? – revirei os olhos.

– Sim. Tinha outra coisa em mente?

– Bem, sim. Mas não importa.