Lobo e o gato selvagem
5 Capítulo 5 - O passado de Yuki
Notas iniciais
Era necessário viajar fora das estradas para evitar que os homens de Tsurumi pudessem rastreá-los. Um grupo tão distinto como eram, seria fácil pessoas confirmarem terem visto o grupo se questionadas. Ora, uma garota ainu, três ex-soldados e um homem alto de terno e gravata, musculoso, era um tanto quanto chamativo. Por isso, decidiram que o melhor seria irem por dentro da floresta até a prisão de Kabato.
No caminho, avistaram algumas galinholas. Eram pequenas aves um pouco parecidas com kiwis. Estavam ali por causa da época reprodutiva e buscavam por comida para alimentar os filhotes, assim explicou a pequena Asirpa. Os ainus sempre foram ótimos caçadores, então o conhecimento sobre a vida da natureza era passado através das gerações.
No entanto, aquelas galinholas serviriam para alimentar o grupo. Nessa necessidade de caçá-las, Ogata armou-se com o rifle e estava a ponto de disparar quando foi impedido pela Asirpa dizendo que o fizesse.
— Por que não? Você quer comê-las, não é?
— Mesmo se você acertar uma delas, as outras irão sair voando assustadas. – Asirpa explicou a ele. – Galinholas voam de maneira confusa e sem destino, então é difícil acertá-las com esse tipo de arma.
Ogata ajeitou o cabelo para trás, insatisfeito, soltando um “hmph”. Asirpa então explicou que a melhor maneira de caçar galinholas era usar armadilhas e mostrou como prepará-las.
No dia seguinte, de tantas armadilhas que foram armadas, haviam capturado apenas duas galinholas. Não seria o suficiente para todos. Yuki achou graça do jeito aborrecido da Asirpa ao depenar uma galinhola porque as armadilhas não deram certo como esperava.
Enquanto eles tiravam as penas, Yuki resolveu adiantar o resto, acendeu a fogueira e preparar os legumes para colocá-las na panela, nesse momento, Ogata chegou com três galinholas capturadas e as soltou no chão.
Yuki virou a cabeça para observar a cena quando Ushiyama o elogiou e Ogata estufou o peito todo orgulhoso.
— Aposto que você fez tudo isso porque a Asirpa disse que você não iria conseguir… – provocou Sugimoto, sorrindo maldosamente.
O sniper fez uma expressão amarga ao ouvir isso, de costas para Sugimoto. “Esses dois…” Yuki suspirou e ficou de pé, abrindo a boca para falar, mas Asirpa foi mais rápida:
— Você deve estar com ciúmes, né, Sugimoto, já que você tem uma mira muito ruim, não é? – disse a pequena ainu em defesa do sniper, sorrindo e com um brilhinho perto do rosto. Isso fez Yuki dar um meio sorriso.
Sugimoto nada disse e voltou a tirar as penas, agora com raiva, e parte de seu rosto escondido pela sombra da boina militar.
Algum tempo depois disso, com as galinholas devidamente preparadas, todos se sentaram ao redor da fogueira para apreciar aquela refeição. Asirpa ofereceu o cérebro da ave para Ushiyama que logo expressou estranheza e hesitação. Para os ainus, os cérebros dos animais eram uma iguaria culinária deliciosa e sempre que tinha a oportunidade, a jovem oferecia para todo mundo. Além disso, tinham a filosofia de que tudo deveria ser aproveitado, do contrário era um desrespeito ao espírito do animal que foi sacrificado.
— Você não gosta de comer cérebros, professor pênis? – perguntou ela, fazendo uma cara exagerada de pedinte, os olhos brilhando. – Sugimotoooo, é hinna, certo?
— Hinna, hinna! – respondeu ele, o rosto tal qual uma criança se deliciando com sua comida favorita. Era uma típica palavra usada pelos ainus que significava gratidão pela comida.
Asirpa ofereceu novamente ao Ushiyama que aceitou dessa vez. Quando olhou para Yuki e Ogata, ambos recusaram. Uma gota desceu pela cabeça de Yuki perante os olhares de julgamento de Ushiyama e Sugimoto. A pequena ainu estava preparando as entranhas das galinholas em cima da tábua improvisada e, com um facão e uma baioneta, começou a picar.
— Hora de picar tudo no citatap (lê-se shitatap)! – disse ela. — Professor pênis, por favor, diga citatap enquanto você tritura.
— Citatap, citatap…– ele obedeceu enquanto triturava a carne.
O citatap era como os ainus chamavam o ato de fazer carne moída. Quando entre grupos, era necessário que todos participassem, como se fosse uma forma justa de colaboração pela refeição. Yuki, na sua vez, se recusou a falar, mas quando estava terminando, soltou um baixo “citatap”, para alegria de Asirpa. Ogata triturou a carne sem dizer nada, o rosto inexpressivo.
— Asirpa! Ogata não está dizendo citatap! – Sugimoto levantou a mão como uma criança que dedura o colega para o responsável.
— Ogataaaa~... Qual é o problema hein? – ela perguntou, com uma expressão travessa. – Todo mundo disse citatap, você tem que dizer também…
— …
Ela, com um suspiro, desistiu por ora de fazê-lo falar.
Enquanto comiam, ao cair da noite, Asirpa contou sobre uma fofa história de amor dos ainus sobre as galinholas para o grupo. Estava sendo agradável esses momentos. Assim pensava Yuki, observando a animação de Asirpa, Sugimoto e Ushiyama enquanto conversavam. Uma caçada a um ouro roubado, mortes atrás de mortes, tanta tragédia envolvida, mas que estava proporcionando esses pequenos momentos calorosos e tranquilos. E não somente isso, Yuki respirou fundo com os próprios pensamentos, olhou para Ogata com o canto do olho, e se surpreendeu ao ver que ele fazia o mesmo. Teve a impressão de que havia alguma curiosidade em seu olhar. Yuki fechou um poucos os olhos e voltou a atenção para sua própria comida.
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Agora era madrugada, e o fogo havia apagado. Yuki dormia de barriga para cima e se mexia com inquietação, rangendo os dentes durante o sono. Quando as lágrimas surgiram, acordou de repente com um grito silencioso e ofegante. Outro pesadelo. Acontecia todas as noites e sempre acordava chorando. Detestava isso, mas não podia controlar. Sentou-se e olhou para os lados para se certificar de que ninguém ouviu ou acordou com sua agitação, suspirou de alívio ao notar que todos ainda dormiam. Seus olhos então pousaram em Ogata. Estava com os olhos fechados, sentado com as costas contra uma árvore, e o rifle entre os braços.
“Nem mesmo dormindo ele solta esse rifle…”
Sentiu a garganta e a boca seca e se levantou para ir beber água no riacho que tinha ali próximo do acampamento. Desabotoou os dois primeiros botões de sua camisa para não molhar enquanto lavava o rosto com a água fria. Sentou-se ali na margem e contemplou o céu noturno, as estrelas.
— Com sede também? – Yuki perguntou de repente.
Yuki ouviu sons de folhas sendo pisadas e Ogata surgiu por entre o arbusto, apontando o rifle com a baioneta quase encostando em sua nuca. Numa difícil posição para reagir, então permaneceu como estava, ainda olhando para o céu.
— Por que você tem feito isso? – a voz dele era inexpressivamente calma.
— Isso o que? – Yuki perguntou, a voz de repente fria. – Ah, então você percebeu naquele dia… Que descuido o meu.
Desde aquele dia na casa de Edogai, desde que descobriu o segredo de Yuki, Ogata não tinha como não ver os detalhes. Como todo esse tempo não havia notado? Como em todos os momentos que passara pelo Segundo Tenente Hagiwara nos corredores do exército, e até dias atrás, não havia percebido? Era ridículo.
— Aonde quer chegar se vestindo de homem? – ele perguntou, sério e inexpressivo. — Se está tentando se esconder de alguém acho que já se passou tempo demais, não acha?
Yuki se levantou com cuidado e para encarar Ogata de igual para igual, o rifle apontado para o seu rosto. O sniper era mais alto um palmo.
Seus traços eram tão óbvios que a ideia de que ninguém nunca percebeu era ridícula. O contorno levemente arredondado do rosto de Yuki, os cílios alongados e os lábios um pouco mais carnudos que os de um homem. Até a fineza no timbre da voz era óbvia para ele agora. Como raios ninguém naquele maldito exército, incluindo ele mesmo, foi capaz de notar todo esse tempo?
— Você é uma mulher. – Ogata afirmou, a voz um tom mais grave. – Por que se alistou e fingiu todo esse tempo ser um homem?
Ela o encarou, inexpressiva, e ele pensou por um mero segundo se era assim que os outros o viam. Era um inconveniente para Yuki que estivesse tendo aquele diálogo, logo com o Ogata. Havia sido descoberta, foi descuidada e agora não tinha outra alternativa a não ser explicar. Era isso ou matá-lo ou ser morta. E Yuki não desejava nenhuma dessas duas opções.
— Faço isso por mim mesma, isso é um problema por acaso? – a voz dela era tão fria quanto gelo. – Não havia outra forma melhor de viver.
— Difícil de acreditar como poderia o exército proporcionar a alguém uma vida melhor de viver. Porque escolher isso do que uma vida normal?
— Tão observador e esperto, mas, ainda assim, um idiota. – disse e, quando viu que ele estreitou o olhar ainda esperava a resposta, continuou. – Minha mãe morreu no parto quando eu nasci. Ela era uma prostituta então, após sua morte, fui criada pelo cafetão que administrava o bordel que era 'trabalhava'. Ela teve o infortúnio de se apaixonar por um dos clientes. — Yuki baixou o olhar. — O homem ficou furioso com ela e a aprisionou no porão para que minha mãe nunca mais tivesse contato com esse cliente por quem se apaixonara; e ela jamais soube que esse cliente veio tentar encontrá-la dia após dia até parar depois de mentirem para ele dizendo que ela havia ido embora...
Yuki tensionou o maxilar e respirou fundo antes de continuar:
— Meses depois a barriga ficou mais evidente e não havia mais como esconder que havia engravidado. O amor havia arruinado ela, pois não apenas a aprisionara como dera um fruto indesejado, como pode ver... — Yuki sorriu levemente e voltou a olhar Ogata nos olhos. — Pelo menos, é a história que me contaram quando completei idade suficiente para entender tudo. As outras mulheres no bordel que ajudaram a me criar e me educar durante todos esses anos e agradeço muito a ajuda delas... Mas quando completei sete anos, fui forçada a trabalhar como batedora de carteira no bordel, pois precisava pagar pelo teto e a comida por todos os anos desde meu nascimento. Sempre fui um custo indesejado, mas que enfim poderia ter alguma serventia, assim me dizia o cafetão, porém, mesmo assim...
Yuki olhou por cima do ombro dele para verificar se os outros ainda dormiam.
— Eu apanhava todos os dias. Todo. Maldito. Dia. Apanhava tanto que depois de algum tempo já não sentia mais nada, e tentar me defender só o deixava mais irritado e o fazia me bater por mais tempo. Quando não me batia, me chicoteava e me queimava com pontas de cigarro. Todos ali eram seus escravos, seus capachos e podia fazer o que quisesse. Porém eu tinha esse tratamento especial de levar surra, para que pudesse entender que não deveria ser fraca e me apaixonar por alguém como minha mãe fez, quando chegasse a época de ser obrigada a... — Yuki não disse mas Ogata entendeu muito bem o que ela iria dizer. — Sabe o que é engraçado? Eu sempre tive medo de fugir porque temia que isso pudesse ser pior, mas... um dia ele foi encontrado morto. As mulheres no bordel foram embora e então me vi sozinha e abandonada. Vaguei pelas ruas por meses, só com a roupa do corpo, não tinha sequer uma lembrança de minha mãe além de minhas memórias do que me contaram sobre ela. Quando estava com fome, eu implorei por um pouco de comida. Quando sentia sede, bebia a água junto com os cavalos...
Ogata finalmente baixou o rifle. O céu começava a mudar sua cor escura para uma cada vez mais clara. Estava perto do dia amanhecer.
— Ao vagar por uma cidade, ouvi alguém falar que o exército estava recrutando. Estavam aceitando todos os homens que pudessem lutar, não importava como eram. Isso era bom, pois, veja, estava magra e desnutrida. – algo começou a ficar mais evidente no olhar de Yuki. – Em troca, o Exército me daria cama, roupa e comida. Só que eu sou mulher… Roubei roupas masculinas, cortei meu cabelo e me alistei.
Yuki encarou Ogata com uma intensidade melancólica. O vislumbre de uma contida escuridão naqueles olhos azuis fizeram-no se arrepiar. Não havia remorso naquele olhar feroz e penetrante, mas havia dor.
— Então sim, o exército pode proporcionar uma vida melhor. Além disso, um tempo depois, achei a vida de soldado muito mais interessante. Estaria desperdiçando o que já provei que sou capaz de fazer se tivesse escolhido um destino diferente...
Os primeiros raios de sol surgiram no horizonte. Ogata sustentava o olhar de Yuki. Ele conseguia ver melhor agora. Via o que antes não sabia ao certo o que era, apenas tinha a estranha sensação… Seus olhos de obsidiana agora podiam ver melhor o que estava escondido no fundo daqueles frios olhos de pedra da lua. Um forte desejo de sobreviver e passar por cima de tudo e todos. Mais fundo do olhar dela, havia uma frieza cortante. Podia ver a capacidade dela em matar sem hesitação, como testemunhou lá na casa de Edogai.
O canto da boca de Ogata se ergueu involuntariamente em um sorriso. Seus olhos reconhecendo o olhar de uma guerreira. Uma pessoa quebrada…
Igual a ele.
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