Lobo e o gato selvagem
6 Capítulo 6 - Um plano arriscado
Notas iniciais
Com um meio sorriso debochado, Ogata se aproximou uns passos na direção de Yuki, ficando agora a menos de uma braçada de distância. Ele a encarava ainda com curiosidade e ardil.
— E quanto a Hijikata? Antes você se colocou entre ele e ainda enfrentou Sugimoto.... – agora ele ficou sério, os olhos estreitando-se. – Por quê faria isso por um velhote como ele?
Ela arqueou ambas as sobrancelhas com aquela pergunta e fechou os olhos. Já esperava por aquilo também. Com certeza estava curioso sobre tudo como um gato desde que se juntou ao grupo em Barato, e quando Hijikata a chamou por seu sobrenome. Ogata era um homem astuto e ardiloso, não era à toa que era um Superior Privado na 7ª Divisão.
— Tão irritante... – respondeu Yuki, abrindo os olhos para o chão, recordando-se desse dia. – Ele é o líder e eu sou sua guarda-costa. — ela disse como se isso explicasse tudo.
— Mas enfrentar Sugimoto? – ele não se esforçou para esconder a descrença na voz. – Heh… se isso é confiança, ouso dizer que ela ainda vai te matar um dia, Hagiwara…
— Não tenho medo do Sugimoto. Não, nenhum um pouco. — disse ela, cruzando os braços, irritada. — E aliás, pra que você achar que serve um guarda-costas afinal?
Hagiwara tinha muito respeito por Hijikata, a história dele e seu papel como samurai da temida Shinsengumi. As pessoas falavam e conversavam sobre o passado com os samurais e isso sempre a impressionou, os via como heróis.
— É incrivelmente curioso como você, de todas as pessoas, está trabalhando agora como guarda-costas depois de todo o esforço para se alistar e se manter no exército todos esses anos. — Ogata tinha um sorriso ardiloso nos lábios.
— Você, certamente, é bem metido, sabia... Já ouviu o ditado, " a curiosidade matou o gato"?
— Vocês dois já estão acordados… – disse Asirpa de repente, com uma voz sonolenta ao se aproximar. Yuki agradeceu mentalmente por sua intromissão. – Aconteceu alguma coisa?
Sugimoto veio logo atrás da pequena ainu, ajeitando a alça do rifle no ombro, observando aqueles dois. Ogata, que estava de costas para eles, se virou e passou a mão nos cabelos, ainda sorrindo.
— Não, Asirpa, apenas acordei e não consegui mais dormir. Então vim lavar o rosto. – ela respondeu, sorrindo amigavelmente somente com a boca, olhando para Sugimoto. – Ogata acordou com o barulho que fiz sem querer com os arbustos e veio verificar se não era um dos homens do Tsurumi, mas sabe como ele gosta brincar com o rifle…
Sugimoto estreitou o olhar diante dessa resposta. Ele obviamente não confiava em Ogata, mas não tinha certeza ainda quanto ao Segundo Tenente Hagiwara. Sugimoto tinha a impressão de que aqueles dois estavam conversando sobre alguma coisa antes e isso só o deixou mais ainda com a pulga atrás da orelha. Hagiwara era o mais perigoso entre aqueles dois, seus feitos na guerra eram realmente memoráveis e impressionantes.
Ogata se limitou a fazer que sim com a cabeça, e Yuki teve a impressão que o maldito se divertia com a situação. Procurou manter a inexpressividade em seu rosto como sempre, sentindo o olhar intenso de Sugimoto nela.
Ogata acompanhou Yuki com o olhar quando ela deu as costas e andou na direção do acampamento improvisado, ignorando o olhar desconfiado de Sugimoto.
Ele não acreditava nas palavras dela. Pelo menos, não tudo o que foi tido. Como um soldado da inteligência, ele podia perceber que havia mentira e informações ocultas naquela história que ela queria esconder por alguma razão. Faltava detalhes importantes sobre sua infância, mas seu alistamento fora uma mentira total. Não havia como ter se alistado daquele jeito, não mesmo, principalmente sendo uma mulher. Com certeza alguém a ajudou... Mas quem?
Segredos sob segredos. O que Yuki poderia estar escondendo?
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Então seguiram viagem para se encontrarem com o grupo do Hijikata no local combinado. Durante o percurso, o grupo encontrou uma pequena vila Ainu, porém, havia algo de estranho com o líder e seus homens. Yuki foi a primeira que percebeu que algo não estava certo. Acontece que, após algumas horas, descobriram que se tratavam de vigaristas, todos fugitivos da prisão de Kabato, que tinham assassinado os homens ainus, tomado o controle da vila e feito das mulheres e crianças seus reféns.
O que, diga-se de passagem, era muito azar desses criminosos que justo Yuki, Ogata, Sugimoto, Ushiyama e Asirpa estivessem de passagem por ali e se tornassem seus hóspedes. Eram como hienas que pensavam estar a encurralar um bando de frágeis ovelhas quando, na verdade, estavam diante de uma alcateia de lobos perigosos.
No final, o grupo de criminosos foi brutalmente massacrado, inclusive dois homens tatuados da prisão de Abashiri. Um deles era o falsificador que estavam indo procurar na prisão de Kabato. Fato que iria complicar o plano de infiltração de todos. As mulheres e crianças, ao final, foram libertas e o grupo seguiu sua viagem para o ponto de encontro com o Hijikata e os outros.
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— Shiraishi foi capturado?! – Sugimoto e Asirpa bradaram ao mesmo tempo, surpresos.
Todos haviam se reencontrado no local combinado. O grupo de Hijikata contou o que havia acontecido nesses dias separados e de como Shiraishi havia sido um tapado e capturado pelos homens de Tsurumi da 7ª Divisão.
— A essa altura eles já devem tê-lo levado para Asahikawa. – disse Hijikata. – E mesmo que pensemos na possibilidade dele ser capaz de fugir, não sabemos quando será isso.
A 7ª Divisão do Exército Imperial Japonês havia estacionado suas tropas em Asahikawa para atender um chamado urgente para criar um baluarte defensivo contra as tropas Imperiais Russas na região sul.
— Não podemos simplesmente sentar e esperar que ele escape. – disse Yuki inexpressivamente, segurando o queixo com a ponta dos dedos, os braços cruzados.
Todos ficaram em silêncio por um momento.
— Mesmo ele sendo o Rei das Fugas, não sabemos quais são as condições dele para conseguir ou não fugir. – o senhor Nagakura observou.
— Ogata, vá verificar isso. – Ushiyama disse. – Você é da 7ª Divisão, não é?
— Até onde eles sabem, eu sou um desertor.
O silêncio total pairou novamente. Cada um lembrou de seus momentos com Shiraishi, sérios. Ponderavam se valia a pena ou não resgatá-lo. Ele já ajudou tanto na causa, divertida a todos em seus breves momentos de estupidez. “É isso, então? Bem…” todos pensaram. “Pelo menos temos a cópia da tatuagem dele…”
Haviam desistido de ir ao resgate.
— Não, eu quero salvá-lo. – Sugimoto disse de repente, com determinação.
— Eu posso ajudar. – disse Yuki, para surpresa de todos. Então, seus olhos azuis encontraram os sorridentes olhos negros de Ogata. – Será arriscado, mas vale a pena tentar. Até onde sei, apenas o Sargento Tsukishima sabe que desertei.
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Em um lugar reservado onde pudessem descansar um pouco, o grupo discutia sobre os detalhes do plano após a arriscada e ousada ideia de Yuki para tentarem resgatar o Rei das Fugas. Segundo Tenente Hagiwara cuidava da parte superior de seu uniforme que até então estava bem guardada no fundo de suas coisas pessoais.
Enquanto trocava de roupa em um local mais reservado, pensava como foi que tudo chegou ali. Toda a sua caminhada nessa vida conturbada desde sua infância, o momento que se alistou no exército e adquiriu uma nova identidade, e agora meses depois de ter decidido desertar e entrar nessa emocionante caçada ao ouro. Se questionava porque estava ali, se ainda era aqueles mesmo objetivos, o que realmente queria nisso tudo, o que desejava... A cada pensamento, mais fundo era puxada para dentro de si.
Quando se perdia dentro de sua própria mente, em seu âmago, Yuki se via diante daquele abismo sombrio, e a crise de identidade começava e sua visão escurecia. Tantos anos sendo obrigada a se defender, a fingir, a se adaptar quando necessário, a receber ordens, matar, matar e matar… Que a máscara de Hagiwara Yuki passou a ser quem realmente é, enquanto sua antiga eu, aquela criança fraca, sem amor, abandonada e machucada, é, agora apenas um alter ego, trancada dentro de si, como todo o resto.
— Impressionante essa sua confiança nesse plano e em si mesma. Como eu disse, vai acabar morren-...!
Yuki arregalou os olhos vazios e desfocados e virou-se em menos de um segundo, fechando sua mão no pescoço da presença atrás de si. Reagiu por puro instinto. Ogata se engasgou sem ar, surpreso tanto por aquela reação quanto pela força. Ele abriu mais os olhos quando viu aquele olhar intenso e selvagem. Era como se visse os olhos de um lobo bravio.
Ela piscou algumas vezes, Ogata reparou, enquanto seus pulmões pediam ar, e então viu aqueles olhos azuis claros se suavizarem e voltarem a ter foco. Yuki soltou o pescoço de Ogata e virou-se de costas.
— O que faz aqui? – ela perguntou com aspereza. – Não vou morrer fácil como acha. Ninguém facilmente conseguiria isso. Além disso, Sugimoto irá junto, disfarçado. Então, apenas me deixe em paz, Ogata. Agora não é um bom momento.
Ogata encarou as costas nuas de Yuki em silêncio. Havia algo na voz dela nessas últimas que havia chamado a atenção dele, principalmente depois do que acabou de acontecer. Depois do que viu no olhar dela. Seus olhos negros percorreram toda a extensão daquelas costas bem definidas, reparando nas poucas cicatrizes que ela tinha. Estreitou o olhar ao pensar como aquelas marcas eram desajeitadas por terem sido tratadas sem ajuda. Reparou também nas bandagens usadas para apertar e esconder os seios sob o uniforme.
Ogata fechou os olhos, ajeitando os cabelos para trás com a mão. Em silêncio deu meia volta para a saída para deixá-la terminar de se vestir. Mas, antes de atravessar a porta, parou e disse:
— Enquanto estiver lá, também estarei observando.
E fechou a porta atrás de si, deixando Yuki com os olhos arregalados, fitando o chão. Então sorriu.
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— Eu sou o Segundo Tenente Hagiwara Yuki, da Divisão Zero. – disse, com uma postura bem imponente e sisuda em seu uniforme negro da alta patente. Além disso, Yuki penteou seu cabelo todo para trás, com exceção de alguns fios que escapavam para frente. – Viemos a pedido do guardião da prisão de Abashiri, Inudou Shirosuke.
— Inudou. – Sugimoto repetiu o nome, a voz abafada pela máscara de couro que usava para esconder sua identidade.
— E quem seria esse? – perguntou Yodogawa, olhando estranho para Sugimoto.
— Esse é Sugimoto, um dos guardas da prisão de Abashiri. – Yuki respondeu prontamente. – Inudou o enviou como seu representante. Parece que cinco anos atrás, um violento prisioneiro chamado Ienaga retalhou seu rosto com os dentes. A visão sem essa máscara não é agradável.
— Inudoooou…
Yodogawa ficou desconfortável diante do olhar aterrorizante de Sugimoto por trás da máscara, enojado com a imagem mental da pele sendo puxada a dentadas.
— Entendo… Então, Hagiwara-dono, me diga, qual é o pedido de Inudou? Isso é um tanto incomum, devo dizer. – as palavras de Yodogawa fizeram Yuki fechar levemente mais os olhos e Sugimoto suar sob a máscara de couro.
— Viemos escoltar Shiraishi Yoshitake de volta para a prisão. – isso deixou o coronel surpreso e de repente tenso. – Ele obteve a informação de que esse prisioneiro teria sido capturado pela 7ª Divisão e está sendo mantido aqui.
Um dos homens que estava com o tenente coronel saiu para ligar e avisar ao Tsurumi o que estava acontecendo imediatamente.
— E por qual razão Inudou pediria de um sem divisão para fazer essa escolta? Aqui é jurisdição da 7ª Divisão, são nossos soldados que devem realizar a escolta. Conheço sua fama, Lobo Solitário, mas não vejo motivos para que ele tenha feito esse pedido a você, senhor.
Sugimoto ficou tenso e olhou na direção de Yuki que parecia estar calma. Havia algo em sua aura que estava começando a deixar o Coronel inquieto e apreensivo.
— Hagiwara-dono, entenda que não posso fazer nada
Yuki era de patente abaixo de Yodogawa, mas isso não foi de nenhuma importância quando se aproximou do coronel, curvou-se para ficar com o rosto próximo o suficiente para falar em seu ouvido. Sua aura era intensa e sufocante para o tenente coronel. Sugimoto observava com muita atenção.
— Shiraishi já conseguiu fugir da 7ª Divisão outras vezes. – a voz de Yuki era cortante. – Inudou sabe que esse prisioneiro, sob minha vigilância, nunca seria capaz de fugir... Me diga… Você conseguiria fugir com ambas as pernas e os braços quebrados, Tenente Coronel?
Sugimoto arregalou os olhos ao mesmo tempo que o Tenente Coronel que estava agora se esforçando para não parecer tão apavorado. Yuki se afastou e Yodogawa viu atrás dele a aura como a de um lobo feroz e assustador, com aqueles olhos azuis intensamente frios.
— Foi o que pensei… – Yuki sorriu apenas com os lábios. – O senhor não gostaria de atrapalhar os interesses nacionais, não é, Tenente Coronel Yodogawa? Como acha que as pessoas pensariam se soubessem o quão fácil é um criminoso fugir constantemente das mãos do exército e da temida e famosa prisão de Abashiri? Então, onde está Shiraishi?
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Em uma árvore, não muito longe da base onde Yuki e Sugimoto estavam, Ogata vigiava o que acontecia através de seus binóculos. Sua boca esboçou um sorriso ao observar Yuki de longe, em sua postura de Segundo Tenente, naquele imponente uniforme preto. Vê-la daquele jeito o fez sentir aquela engraçada sensação atormentá-lo novamente. E mais... A imagem de seu irmão mais novo, Yuusaku, que também fora um Segundo Tenente, veio à sua mente por um segundo.
Foi quando recordou-se de algo que havia se esquecido. O momento que conhecera Hagiwara Yuki. Foi antes da batalha de Port Arthur. As habilidades de combate de Yuki foram requisitadas nos montes 174 e 203, assim como foi-lhe pedido para treinar os soldados mais despreparados, a maioria camponeses, que estavam como soldados de Primeira Classe.
Ele a via quando ela saia do escritório do General Hanazawa em seu primeiro dia após ser requisitada para a 7ª Divisão temporariamente.
Então avistou algo que seria, certamente, um inconveniente. “Então mandaram chamá-lo… Agora estamos com problemas.” pensou com um rosto agora preocupado.
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— O que está acontecendo? – perguntou um confuso Shiraishi.
Logo entendeu ao reconhecer Yuki, mesmo que razoavelmente diferente por causa do uniforme e o cabelo penteado para trás. As cicatrizes no rosto eram bem distintas, no entanto. Olhou para o homem mascarado ao seu lado e, a julgar por suas roupas, percebeu que devia ser Sugimoto.
— Ótimo. O alto escalão e o Inudou-dono ficarão satisfeitos em saber de sua colaboração, Yodogawa-san. – disse Yuki, encarando Shiraishi.
Foi quando a porta se abriu novamente e um soldado alto, de uniforme caqui, pele morena, cabelos negros azulados bem ajeitados e sobrancelhas um tanto estranhas apareceu. Yuki demonstrou surpresa, mas prontamente disfarçou, estreitando os olhos diante daquele homem recém chegado.
Yodogawa, tão surpreso quanto eles, se dirigiu ao soldado que chegara: Koito Otonoshin, o pet do Primeiro Tenente Tsurumi.
— O que foi, Segundo Tenente Koito?
O rosto de Yuki ficou sombrio. Sugimoto estava preocupado. Shiraishi não entendia nada. Lá fora Ogata observava com certa preocupação através de seus binóculos.
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