Livro I - A viagem a Netuno
4 IV – Maldita vida mestiça
Notas iniciais
Eu não me lembro muito sobre como era minha vida antes do Metrô. Nem deveria, afinal, estou aqui desde os meus quatro anos. Lembro de ter pensado que minha mãe tinha me exilado por ter me cansado de ter cabelos cacheados e cortado meus cachinhos eu mesma. Eu estava errada, mas de certa forma, foi a melhor coisa que fiz. Meus cabelos nunca mais voltaram a se cachear.
Quando vim pra cá, Olaf foi indicado como meu mestre. Disso eu não posso reclamar. Na Terra jamais existiu homem mais bondoso e dedicado. Mestre Olaf ensinou-me ciências, matemática, história e literatura do mesmo modo que ensinava-me, desde cedo, como manusear uma espada, um punhal, dar nó de escoteiro e a jogar xadrez. Aprendi a ser uma guerreira e a ser uma pirata, mas foi só na minha primeira classe, quando eu tinha dez anos, que me contaram detalhadamente o que eu realmente era. Filha de um homem, que pode ser mulher, e de algum lugar da galáxia influi sobre minha vida, a de qualquer um e a de todos.
Eu ainda culpo minha mãe por ter envolvido-se com ele. Caso eu não soubesse que minha mãe havia sido uma péssima mulher no passado, até a julgaria ingênua. Hoje vejo o quanto é importante nos valorizarmos antes de qualquer um, o quanto a autoconfiança conta. Eu gosto de ser como sou, mas ser filha do meu pai é algo que me incomoda. Não que algum outro regente seja melhor ou pior. Todos eles são horríveis, nenhum liga para os humanos em geral. Não é como se eles fossem nossos protetores e sim, como se estivessem apenas aguardando para terminar com tudo.
Mestre Olaf sempre tentou mudar minha opinião a respeito de meu pai e seus irmãos, mas foi algo que eu moldei sozinha, é algo que não será facilmente mudado. Ainda mais que eu, como todo mundo, não sei de onde mestre Olaf surgiu. Existem até mitos sobre o isso.
Mas voltando à minha família, se dona Lisa queria uma filha de cabelos cacheados, agora ela tem. Em 2009, quando as folhas das árvores começaram a ficar tristes, no dia em que mestre Olaf terminaria de me contar a estória da menina que tinha um mundo inteiro só para ela, recebi a notícia de que minha mãe havia dado a luz à sua segunda filha. Bem, eu ainda pensava que minha mãe havia me abandonado aos cuidados de mestre Olaf então, como imagina-se, minha reação não foi das melhores.
Dois anos depois de minha irmã nascer, minha mãe me enviou duas longas cartas. Cartas essas que contavam detalhadamente sobre Err Digamos, o caso que ela teve com meu pai. Constamos que foi uma única noite. Minha mãe não mediu palavras. Fiquei apavorada.
Até então, eu não imaginava o quanto minha mãe havia sido uma filha desvirtuada. Eu tinha dela a melhor imagem possível, imaginava que ela fosse a mulher perfeita e que só havia me deixado no Metrô por circunstâncias extremas. Chegava a me culpar sem imaginar o quanto ela havia sido fraca.
Contava ela, em carta, que após meu nascimento, começaram a acontecer coisas estranhas ao seu redor. Contou sobre um suposto enviado de algum planeta divergente, sobre um incêndio e atribuiu a morte de meu avô, o único de seus pais ainda vivo na época, a alguém que ela chamou de demônio. Esse foi o motivo pelo qual me enviou para o Metrô. Eu ainda não entendia nada. Após a chegada daquelas cartas, seguiram dias difíceis para mim.
Em 2010, pela primeira vez em sete anos, eu revi minha mãe. Passei uma semana com ela e Rachel. Rachel já me chamava de mana e me perguntava coisas que eu nem imaginava como ela sabia. Minha mãe parecia meio preocupada, perguntando-se se eu estava sendo sincera ou a qualquer instante colocaria fogo nela, em minha irmã e na casa. Ela não deveria saber que eu não tenho essa habilidade.
Eu fui porque precisava de respostas. Eu já havia superado a dor que aquelas cartas me causaram e estava mais forte. Talvez, se naquele instante ela tivesse me revelado coisas mais impactantes que nas cartas, eu desse de ombros. Só que não foi isso o que aconteceu. Minha mãe mostrou ser o oposto de tudo o que eu pensei que ela fosse quando li as cartas. Ela foi gentil, amorosa, e demonstrou que queria ser minha mãe, que queria que nós três formássemos uma família. E eu acreditei. Acreditei mais por querer que ela fosse assim, do que pelas provas que eu tinha de que ela nunca o foi antes.
Lembro-me de ter ficado maravilhada com a semelhança que havia entre elas. Seus cabelos cacheados alcançavam o mesmo tom castanho que o meu, porem eram cacheados. Tinham olhos castanho-mel diferentes dos meus verde-água. Mas nossos rostos nos faziam parecidas. Três faces compridas com testas e queixos pequenos. Os traços dos olhos eram os mesmos. E o sorriso franco.
Às vezes ainda me pego pensando naquela semana, em como Rachel era parecida comigo. Eu contei a ela minhas estórias preferidas e dona Lisa fez pudim. Foi uma semana incrível.
E eu devo tá de TPM. Por que diabos desenterrei essa história?
Fui pra sala só pra ouvir o babaca do Fred falar sobre o novo amiguinho de Mercúrio. Dizia ele que o cara era bizarro. Depois chamou o tal de brother e logo entrou em bad trip e se calou. Estou até agora tentando entender que diabos isso significa. Começo a pensar que nem mesmo ele saiba o que diz.
Quando vim pra cá, dividia as as aulas com uma menina desse planeta, ela se chama Leona. Passei a odiar todos eles por culpa dela. Certa vez colocou fogo nos meus cabelos. Depois disso ela nunca mais cortou os próprios. À princípio pensei que fosse pra esfregar na minha cara que tive que cortar os meus pelo ombro, mas depois que meus cabelos alcançaram o meio das minhas costas e mesmo assim ela não cortou os seus, comecei a pensar em indicar um cabeleireiro à ela. Sério, tá horrível.
Nesse tempo, quando tinha idades entre quatro e dez anos, nem todos os meus irmãos estavam aqui. Na verdade, no inicio nenhum deles estava. Foram chegando, um a um, a medida em que iam se descobrindo, começando a agir estranho ou quando coisas começavam a acontecer.
Yasmin foi a primeira a vir para cá. Eu tinha sete anos quando ela chegou. Cabelos escuros e compridos como os meus, com o diferencial em suas pontas, essas eram encaracoladas. Ela tem os mesmos olhos verde-água que eu pensava ter herdado de meu avô materno. Quando apareceu na porta de meu dormitório, acompanhada por um garoto mais velho, um filho de Mercúrio, tive a impressão de que seriamos grandes amigas. Eu estava parcialmente certa. A princípio, fomos como unha e carne, céu e mar, mas com o tempo passamos a ser mais como yin e yang. Como Yasmin passou a ter aulas também e eu não podia priva-la de fazer novas amizades. O que eu não esperava era que ela e Leona fossem ficar tão próximas. A confiança que tinha nela, se perdeu com o tempo e hoje o que sinto eu poderia até chamar de aversão, caso não sentisse também um sentimento como um amor fraternal.
Quando tinha em torno de onze anos, participei de um passeio pedagógico, juntamente com Yasmin. Quando retornamos ao Metrô, foi nos dada a notícia de que havia alguém aguardando em nosso dormitório para nos conhecer. Era Eddie. Ele não tem a mesma coloração de nossos cabelos, os dele tomam um tom dourado, mas os olhos novamente, assim como viriam a ser os de Frederico, eram os mesmos. Ao contrário de Yasmin, Eddie mostrou-se fiel a mim. Chegou na época certa, em uma época em que eu me encontrava perdida, tendo perdido minha única companhia para minha única inimiga. Ele sempre esteve a meu lado, me dando atenção e apoio, mesmo que no inicio, eu que tenha o proporcionado isso.
Frederico uniu-se a nós no ano passado, trazendo com ele todas essas gírias de escolas públicas de regiões metropolitanas e da internet. Gírias as quais eu jamais tinha tido contato. Frederico, com seus cabelos castanhos mal cortados, veio cheio de estilo e é, certamente, o garoto mais descolado que conheço. Me irrita quase tanto quanto Yasmin, mas ele, pelo menos, só me irrita enquanto fala. Yasmin irrita-me até mesmo respirando.
Em geral, nós quatro não nos damos tão mal. Procuramos evitar brigas por motivos fúteis. Mas, acima de qualquer coisa, somos irmãos e irmãos brigam. Eu sou extremamente cabeça quente. Da mesma forma que censuro o comportamento de Yasmin, eles o fazem comigo dizendo que já bastam os filhos de Marte para causarem brigas em nossa morada. Tenho impulsos de proteger Fred, por ele ser o mais novo no grupo e não ter se adaptado totalmente a nós. Eddie, esse ciumento, é a pessoa que melhor me conhece, não só no Metrô, mas em toda a galáxia. Um dia darei uma estrelinha para ele por isso.
Logo soou a campainha que indicava que era hora do jantar. Ultimamente eu não vejo o tempo passar. Tudo anda tão monótomo. Os mesmos corredores estreitos, as mesmas salas abafadas, o mesmo saguão mal habitado, o mesmo refeitório.
O refeitório é a pior parte. Lembra os mostrados em filmes americanos em que o mocinho é um desengonçado que gosta da gostosa e a gostosa gosta do jogador de basebol. Uma mesa comprida aonde nos servimos e somos servidos, dezenas de mesas brancas, redondas de oito lugares, ventiladores de teto e janelas de dois metros de largura apenas com vidraças.
Esse é um dos momentos em que ninguém liga pra quem é seu pai. Em questão de comida, todos somos iguais. Sentamos onde queremos e com quem queremos, mas eu e meus irmãos sentamos juntos sempre. Nós quatro em uma mesa com capacidade para oito pessoas. Queria eu que Yasmin tentasse socializar com alguém de outra mesa e não se reunisse conosco para as refeições. São sempre os seus comentários que me irritam por completo.
Toda a vez que junta-se à nós um novo mestiço o jantar é um imenso burburinho. Eu fui cansando disso com o passar dos anos. Não entendam mal, eu amo esse lugar, é minha casa, só acho que ela está precisando de uma boa faxina.
– Ele até que é bonitinho — comentou Yasmin, julgando nosso novo inquilino.
– Ele é muito legal, caras — Quando será que o Frederico vai parar com essa mania de ficar falando gírias o tempo todo? — Quer saber? Eu vou apresentar ele pra vocês. EZRA! — Meu senhor regente, por que eu ainda assumo ser irmã desse estrupício?
Do outro lado do refeitório vi o garoto de olhos rubros procurar por quem o havia chamado. Nossa, como é lerdo!
Fred fez sinal com o braço para que o novato compreendesse que tinha sido ele quem o havia chamado. E lá veio, vagarosamente, o filho de Mercúrio.
– Vou te apresentar meus irmãos, djow — começou Fred, passando o braço por cima dos ombros do menino e se escorando nele. O garoto, o Ezra, ele estava com uma cara de quem não entendia o que Frederico tinha na cabeça. Se ele soubesse a quanto tempo eu tento descobrir Fred disse nossos nomes, indicando cada qual.
Quando me dei conta, estávamos nós quatro o fitando, um de cada maneira. Yasmin estava com um olhar tão, mas tão estranho que eu poderia jurar que ele estava tentando seduzi-lo. Eddie o olhava como se esperasse por um pouco de educação. Ou por outra pessoa. Ou que Ezra se afogasse em nossa frente, naquele mesmo instante, e caísse duro. Fred continuava com aquele olhar e jeito eufóricos de sempre. E eu? Eu estava tão constrangida com aquele silêncio e odiando tanto aquela situação que decidi quebrar o silêncio com a primeira coisa que me passou pela cabeça.
– Ezra, não é? Essa é a parte em que se diz: Prazer em conhecê-los e nós respondemos: Não, quê isso? O prazer é todo nosso — remendei vozes enquanto falava.
– Alice! Não seja tão mal educada com o garoto — Yasmin, Yasmin. Sempre defendendo quem não possui respostas a meu nível.
– Tô ensinando ele a ser educado.
– Na minha opinião, um oi já é bom o bastante — o constrangimento dele se foi rapidinho.
– Oi, Ezra. Não liga pra ela não -Yasmin saltou em minha frente, agora apoiando-se na mesa, com um sorriso sedutor nos lábios — Ela é sempre assim — disse antes que eu ousasse usar novamente meu dom de fazer as pessoas serem melhores. Se Yasmin pertencesse a Vênus, planeta onde predomina a sedução, com certeza seria mais feliz.
– Tem por todo o canto, não é?
– Me deem licença, é melhor eu me retirar antes que algo ruim ocorra — com vocês, quis acrescentar.
Ouvi nosso incrível vizinho murmurar algo que me pareceu um vai tarde. Insolente.
Especificando novamente o motivo pelo qual não iria achar Ezra um menino simpático, mesmo que ele tivesse sido: Leona é filha de Mercúrio, irmã de Ezra, ambos tem sua personalidade moldadas pelo fogo, acredito eu. Se eu sei o que é ódio, é o que eu sinto por essa garota. Quando me deparo com Leona, tenho vontade de fazer uma tsunami engoli-la e apagar todas as chamas que existentes em cada parte dela. Esperando que isso tirasse a vida dela.
Eu não queria voltar para nossos aposentos, mas não me restara opção. Ao entrar na sala, pude observar que tudo ali ela bem definido. Como se cada parte pertencesse à um de meus irmãos. Não conseguia encontrar o que fazer ali, então fui para o meu quarto, a preguiça tomando conta de meu corpo.
Já revirando-me na cama há alguns minutos, comecei a refletir sobre o comportamento de Yasmin nos últimos tempos. Se ela não tivesse quase tanta habilidade quanto eu, poderia jurar que ela é adotada. Menina atirada! Peguei no sono pouco depois de concluir que ela poderia ter adquirido seus poderes em um caminhão de lixo tóxico.
Pela manhã, como de costume, acordei mais tarde do que todos do meu dormitório. Eles já haviam saído para o saguão principal, o bosque ou qualquer lugar que fosse. Com exceção de Eddie, que permanecia sentado à sala.
– Sabe, Alice, os outros estavam te chamando de grossa e afins, mas eu achei maneira sua posição ontem — disse ele, enquanto pulava por sobre a escora do sofá, onde antes estava sentado.
Eu parei, estranhando a colocação dele mas, de súbito, percebendo que eu já devia saber. Afinal, lia-se no rosto dele que Ezra não havia conquistado sua simpatia. Mesmo assim, optei por me fazer de sonsa:
– Assim? Sem me comparar com nenhuma vilã de quadrinhos? — minha expressão momentaneamente demonstrou surpresa. Esperava que maneira fosse algo legal. As gírias de Fred iam afetando todos e eu me perdia em meio as explicações dos significados.
– Ah, Alice, sem drama — Eddie deu um meio sorriso e virando-se saiu pela porta, me deixando sozinha. Mal pude piscar antes de perceber que ele voltava. — Tem uma carta em cima da mesinha pra você. Todos nós recebemos.
Sozinha novamente, sentei-me em uma especie de escrivaninha. Pensei que talvez aquele fosse meu ponto da sala.
Cara Alice,
Seu pai Netuno a convoca a reunião anual de família.
Seguem as instruções de como chegar a Netuno pelos dois caminhos possíveis a mestiços.
As linhas seguintes foram preenchidas com o que me pareciam códigos, nomes de ruas e cidades. À princípio não vi sentido nenhum. Eu não sabia aonde aquelas coordenadas me levariam. A única coisa que eu sabia, que havia aprendido logo que minhas aulas começaram, é que o modo mais simples de sair do planeta era através de um portal. E que esse portal era aberto em algum lugar relacionado ao planeta destino. Com isso conclui que deveríamos ir até algum Oceano.
Observei a clara caligrafia. A carta havia sido escrita por uma mão leve. Meu pai nem se prestou a escrever pessoalmente nossas cartas.
Respirei fundo, ainda com a carta em mãos quando dava as costas a mesinha, permanecendo sentada. Enquanto digeria a mensagem, examinei a sala. No canto oeste pude visualizar uma mala feita. Fred. Me perguntei se Eddie iria.
Eu não tinha percebido ainda, mas meu pai jamais havia feito uma reunião anual. Minha curiosidade sobre o caso foi algo que me atingiu imediatamente, fazendo-me decidir que eu iria.
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