Livro I - A viagem a Netuno
5 V – Sempre pode ser pior
Notas iniciais
O táxi deu algumas voltas por Nova York a uns trezentos quilômetros por hora durante uns cinco minutos, foi emocionante. Mais emocionante ainda foi quando ele simplesmente sumiu e eu fui arremessado ao chão. Rolei por mais de dez metros. Quando consegui abrir os olhos, ainda com a visão extremamente embaçada, vi dois caras enormes. O cara de cabelos negros e longos havia sumido também, imagino, assim como o motorista bizarro.
Eles deviam ter uns cinco metros de altura e, um deles, um pouco mais alto, tinha o rosto cheio de bolhas que estouravam e se recriavam aleatoriamente. Os cabelos de ambos eram brancos e lisos, porém diferentes. O mais baixo tinha cabelos mais escorridos, já o das bolhas parecia levantá-los com alguma coisa nojenta que os deixava brilhantes.
Ambos caminhavam na minha direção, com largos sorrisos de satisfação. Boa coisa não seria. Tentei ficar de pé, mas uma dor estonteante parecia amassar meus pulmões, como se eu tivesse uma costela quebrada. Fiz o esforço que pude e sentei, escorado no paralelepípedo, e gritei:
– O que querem de mim? – eles gargalharam juntos, como se eu tivesse contado a melhor piada de todas.
– O que nós queremos garoto? Nós? Nós não queremos nada. Mas Netuno quer, e como quer... Não é mesmo Fobos? – a voz do cara dos cabelos escorridos era engraçada. Parecia grossa, porém forçada, como se ele estivesse imitando alguém.
– É, é sim Deimos – concordou o que tinha bolhas no lugar de um rosto normal. Sua voz era quase igual à do outro, mas era possível diferenciar.
Bem, eu havia enfrentado um demônio naquele mesmo dia, e um demônio que parecia inteligente. Talvez lutar com aqueles dois não fosse tão difícil assim. Tentei ficar de pé de novo e, dessa vez, consegui superar a dor.
Minha respiração estava tão trancada que eu tinha que fazer força para poder puxar o ar. Aquilo me deixava cada vez mais tonto, mas fiquei lá, olhando para eles, esperando por seus movimentos. Eles pareciam se divertir com o quão prejudicado eu estava, me deram tempo para pensar.
A rua contava, assim como a maioria das ruas da cidade, com muitos fios interligando os postes. Se eu pudesse usar meus poderes mais uma vez para invocar as correntes elétricas que por ali passavam, poderia prendê-los e matar tempo. Mas e depois?
Esse era o problema. Eles poderiam ficar até desacordados, mas eu não teria para onde correr, e nem conseguiria correr. Pelo endereço que constava no cartão de Lillian, o tal Metrô Mestiço ficava no Brooklyn, do lado contrário à fronteira com o Queens, que era onde eu estava. Mas eu não ia desistir tão fácil.
Aqueles dois pareciam não ter pressa de acabar comigo. Caminhavam lentamente sem fazer menção de me bater ou me segurar, talvez porque não precisassem. Pela lógica, um garoto de um metro e oitenta de altura não teria chance contra dois homens de cinco metros.
Chegaram perto de mim. Os dois ficaram parados, me encarando como se esperassem pelo meu movimento, mas eu não havia feito nada. Pelo menos nada que eles pudessem perceber. Deimos decidiu tentar me pegar. Veio em minha direção com as mãos estendidas e um sorriso, como se estivesse prestes a pegar um bebê no colo. E foi aí que eu agi.
Rolei para o lado antes que ele pudesse me tocar e me concentrei para lançar contra ele toda a eletricidade dos fios do lado esquerdo da rua. Não deu certo. Todo o meu esforço fora jogado no lixo. Eu pude sentir toda a eletricidade, mas a parte que o atingiu foi como um choque, dos que qualquer pessoa leva em casa e nem sequer desmaia.
– Ah! Vamos garoto. Você não tem mais força e nós não temos paciência. Venha por bem ou teremos de apagá-lo – quando disse “apagá-lo” Fobos estalou os dedos e sorriu. Enquanto isso, Deimos coçava o peito onde a minúscula carga elétrica o havia atingido. Provavelmente sentira cócegas.
O que mais me admirava era o fato de que nenhum dos moradores da redondeza percebia os ruídos ou olhava pela janela. Já era madrugada e nenhum outro som se fazia presente. Éramos apenas eu e dois gigantes conversando entre prédios residenciais e um terreno que parecia não ser habitado havia séculos. A vegetação do terreno era tão alta quanto eu, e isto me deu uma ideia brilhante. Se eu conseguisse me esconder poderia matar tempo até que alguém que realmente fosse do metrô viesse me salvar.
Corri, desajeitado, em direção ao lugar. Deimos pareceu perceber o que eu queria fazer e começou a correr atrás de mim, mas não parecia ser capaz de me alcançar a tempo. Seus passos faziam a rua tremer e os estrondos eram altos como uma bigorna atingindo o chão após ser arremessada do décimo quinto andar. Fobos parecia ser a parte pensante da dupla e apenas observava.
Por fim, entrei nos intermináveis arbustos e corri de jeito aleatório até me sentir perdido. Eu podia vê-los e eles não podiam me ver. Ambos estavam parados à frente do terreno olhando por toda a extensão, mas não poderiam me ver, pois era escuro demais. Foi então que começaram a discutir.
– Viu só, Deimos? Seu inútil! Você deixou o garoto escapar!
– Não fale assim comigo!
– Falo sim, seu idiota! – os dois gigantes se jogaram um contra o outro como duas crianças de cinco anos. Seria uma cena engraçada se eles não tivessem caído bem do meu lado. Teriam rolado sobre mim se eu não tivesse saído no momento certo. E foi então que me ferrei: Deimos ouviu o som que fiz ao rolar.
Fobos estava sobre ele prestes a socá-lo, mas ele segurou a mão do outro com uma mão esquerda e pôs o dedo indicador da outra nos lábios em um pedido de silêncio.
– Acho que ouvi algo, Fobos – disse ele –, veio daquele lado – e apontou exatamente para onde eu estava agachado e apavorado.
Fobos saiu de cima dele resmungando alguma coisa que eu não pude ouvir e gritou:
– Vamos logo garoto, se entregue. Não vai poder fugir da gente.
– É. Não vai – concordou Deimos, se levantando do jeito mais atrapalhado que alguém poderia fazê-lo.
E eu fiz a coisa mais sensata: me entreguei. Pense bem, eu não estava em condições de lutar e eles disseram que eu não seria morto. Por mais que odiasse a ideia de ser levado sabe-se lá para onde por duas criaturas enormes e esquisitas, parecia “menos pior” do que apanhar delas antes disso.
– Está bem. Eu vou por bem – me levantei dos arbustos com as mãos abertas apontadas para cima. Os dois se encararam primeiro depois encararam a mim. Me fitaram com aquela expressão de “você está certo do que está falando?” – É sério, eu vou.
Eles se aproximaram e Deimos fez questão de estender as mãos para me pegar no colo como uma criança de novo, mas então, de repente, uma mão me acertou onde ficaria minha moleira se eu fosse um bebê e eu simplesmente apaguei. A última coisa que me lembro de ter visto foi Deimos virando para ele incrédulo como se me bater não fosse parte do plano, mas não pude ouvir o que ele disse.
Quando acordei, me vi dentro de um lugar totalmente fechado. Não tinha vista para nada. Era simplesmente um cômodo cinza e sem vida. Minha situação era como a de um presidiário que não tem direito a ver o Sol nascer quadrado.
Minha cabeça ainda latejava um pouco, mas era uma dor normal, acho que Fobos havia pegado leve comigo para não fazer com que o osso do meu cóccix saísse do lugar.
Depois de eu ter ficado algum tempo sentado, ou melhor, atirado, um buraco se abriu no cômodo e um homem entrou.
Ele era alto e musculoso, e tinha preso à mão o que parecia um arco feito de água. Seu cabelo era comprido e amarrado num rabo de cavalo que ia até metade das costas. E negro, seu cabelo era tão negro que parecia feito de sombras. É eu tinha medo daquele cara, e não me acho medroso por isso.
Imaginei que agora que eu havia acordado pretendiam me torturar. Mas não foi bem assim. Ele começou a falar.
– Imagino que saiba por que está aqui.
– Na verdade, não.
– Deimos e Fobos se esqueceram de contar... Que novidade – ele deu um sorriso sarcástico e se sentou no chão, bem na minha frente, e prosseguiu. – Então, por onde começar... Parece que os regentes estão prestes a travar uma batalha e você, como único filho de Júpiter, é alguém importante. Parece-me que Netuno “te quer no time dele”. Ou talvez você prefira ficar aqui dentro até apodrecer, a escolha é sua – e levantou-se, dando mais um sorriso sarcástico. Acho que ele estava com pressa. Falou sobre aquilo como se não desse a mínima. Não que tenha motivos para se importar.
Eu nem tinha percebido, mas o buraco na parede esteve ali o tempo todo durante nossa conversa, eu poderia ter fugido, ou pelo menos tentado. Não levo a sério minhas chances em luta contra um cara musculoso com um arco feito de água que não se desmancha. Acabei não fazendo nada. Ele saiu e o buraco se fechou, me deixando a sós com meus pensamentos.
Haveria uma guerra de regentes e os regentes são nossos pais, então, sendo assim, nós lutamos ao lado deles. Eu acho. Sei lá que regente faria aliança com que regente, mas me parece que Netuno e Júpiter não se gostam. Eu não sei se estaria disposto a lutar com outros adolescentes pelas vontades idiotas de nossos pais místicos.
Obrigado Netuno. Obrigado por me fazer escolher entre apodrecer numa cela cinza ou enfrentar outros adolescentes numa batalha até a morte. Eu poderia até mesmo enfrentar Ezra. Isso seria o fim para mim. Não conseguiria lutar com ele. Nem mesmo se ele tentasse me matar.
Apodrecer parecia o melhor a se fazer. Ou, novamente, o “menos pior”.
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