Notas iniciais
Eu vejo quantas pessoas acompanham a fic, mas essas mesmas pessoas não estão comentando a fic... Isso me deixa, realmente, chateada.

Caminhar pela pista de dança lotada meio desnorteado, ser grosseiro com os fotógrafos e esbarrar em algumas pessoas era típico de Malfoy. Mas hoje ele não estava bêbado. Seu peito estava ardendo. Queria gritar com todo mundo ali e colocar a culpa em alguém. Mas, peraí, seus pais não teriam morrido. Draco e Astoria eram imortais. Não morreriam nunca. Scorpius nunca pensou nesse dia. Achou que o dia não chegaria.

_Scorpius? – a mão o agarrou, mas ele não parou. Continuou andando de cabeça baixa tentando chegar à saída. – Bom, eu não tirei muitas fotos... Quer mesmo ir embora?

_Vem — e girou o braço para trás, puxando os de Rose para caminhar junto a si.

A caminhada até o estacionamento nunca fora tão longa. Colocar a chave na ignição, então, nunca fora tão complicado.

_Tá tudo bem? – Rose não parava de perguntar.

A atmosfera no carro pareceu pressionar Scorpius. Suas mãos apertaram violentamente a cabeça, como se ele não conseguisse suportar.

_Meus pais morreram! Droga... – berrou, sentindo o peito inflar com o grito. Porque contar isso a um estranho? Ele nem sabia se isso era verdade. Aquela ali do lado dele por acaso traria os pais dele de volta? Ou diria que era apenas uma pegadinha, e que eles poderiam voltar para o evento? Rose apenas pousou a mão no colo, e olhou para os pés. Seu coração acelerou e não soube o que dizer. Acabara de reencontrar o ex-colega de colégio e de repente sentira como se o peso caísse para cima dela. Ela era a única pessoa com ele, e aparentemente a única a poder ajuda-lo.

_Eu... sinto muito.

Mas, por dentro pensava “Draco e Astoria Malfoy mortos? Isso era impossível!”.

***

Rose dirigiu até Heathrow no lugar de Scorpius, após ele concordar que não estava bem para dirigir. Caminhou até a entrada do aeroporto, ainda meio desnorteado, quando viu uma equipe de policiais e homens que aparentemente trabalhavam no aeroporto. Eles vieram a seu encontro.

_Sr. Malfoy, por favor, por aqui. Tudo bem? – um policial o pegou pelo ombro.

Scorpius não sabia se ele realmente se importava ou se perguntava somente porque era seu trabalho.

_Seus avós estão aqui, por favor, por aqui... A senhorita é sua esposa?- Scorpius se perguntou para quem o rapaz estava perguntando, mas não quis virar o pescoço para ver. Apenas fitava a frente.

_Ãhm... Não, sou só... Não.

Scorpius ouviu Rose responder atrás dele, mas seus ouvidos estavam zumbindo.

A caminhada até o saguão de espera foi curta, e mais homens e policiais estavam reunidos. Ao passar por eles, sentiu o caminho se abrir. Ouviu poucas palavras do que os homens diziam mas não dera a mínima importância. Sentados em duas cadeiras, bem ali, à sua frente, estavam seus avós.

_Oh. Querido... – sua avó pulara em seus braços, e ao sentir seu colarinho molhando, Scorpius percebeu que ela estava chorando.

Ele nunca viu sua avó chorando. Narcissa era uma mulher tão recatada, tão séria, que ele nunca imaginaria ela em uma situação dessa. Sentado atrás, Scorpius pôde ver, estava Lucius, a expressão serena e em choque.

Quando sua avó o soltou, ele olhou para o chão e colocou as mãos nos bolsos. Seu avô apenas deu um tapinha na cadeira ao lado para que ele se sentasse. Scorpius o fez.

Foi só aí que viu que Rose o acompanhara, e estava agora abraçando sua avó.

_Eu sinto muitíssimo, sra. Malfoy. – ela murmurou, em tom ameno, tranquilizador.

***

_...mais ou menos, nessa região, foi que o avião caiu. Não sabemos ao certo o motivo, vamos verificar a caixa preta. Pode ter colidido com outra coisa, seja um avião ou alguma torre, não sabemos ainda... Mas, sabemos que o avião explodiu, deixando somente destroços. Enviamos um pessoal especializado até a área, eles estão averiguando, mas a informação que eu tenho é de que pouco se salvou. – Narcissa uivou, e debruçou a cabeça no ombro de Lucius.

_Nós sentimos muito. – um representante da companhia aérea murmurou.

_Nós vamos averiguar os motivos, mas por enquanto, só temos isso a dizer. Talvez tenha ocorrido algum problema ao piloto – um policial falou.

_Bom, pilotos mal qualificados não se pode esperar outra coisa, não é? – Lucius bufou.

_Sr. Malfoy, nossos pilotos são extremamente qualificados... – um rapaz moreno respondeu. Scorpius não daria mais de 25 anos pra ele.

_Quantas vidas estão sendo desperdiçadas quando vocês jogam nas mãos desses pilotos? Alguns nem sabem como levantar voo! E acaba se explodindo por aí. Eu perdi meu filho, sr. Walters. Outras pessoas perderam seus pais, seus filhos, seus maridos... Vocês já pararam para pensar nisso?

_Esse assunto é tratado com a companhia aérea, sr. Malfoy...

_O senhor é o quê? Um representante da companhia. Ou achou que chegaria aqui, diria que eu perdi meu filho por imprudência de vocês e eu aceitaria? – o rapaz murmurou alguma coisa, mas Lucius o interrompeu mais uma vez – É claro que não. Vocês trarão meu filho de volta? Vocês estão estraçalhando famílias. Não só a minha, mas a de várias pessoas.

Scorpius nem sabia se a queda do avião dos pais era por imprudência de pilotos ou da companhia aérea. Na verdade, não mastigara a situação inteira. Estava apenas ouvindo tudo, tentando pensar no que dizer. No fundo, não acreditava que seus pais estivessem mesmo mortos. O som das provocações do avô e das respostas tranquilizantes dos policiais começou a ficar distante, e ele agora só enxergava o piso branco do saguão. Nem percebera que mais pessoas haviam chegado, e que sua avó não era a única a chorar.

_... Olhe a sua volta, sr. Walters. Olhe bem a sua volta...

A voz do avô começou a martelar na sua cabeça como se só houvesse ele ali. Queria gritar que seus pais não estavam mortos, mas não tinha força para nada. Com o celular na mão, viu que o relógio marcava 23:56. Rose agora estava sentada ao seu lado.

Suas pernas se ergueram sozinhas, e ele saiu caminhando pelo saguão, esbarrando em alguns representantes ao passar. Seus ouvidos estavam fundos, como se tivesse tampões neles. Sentiu tocarem seu ombro mas isso não o fez parar.

A caminhada até o carro não foi longa nem curta, na verdade ele não vira nada até chegar até o banco do carona. Rose entrara ao seu lado, e ele enfim, a ouviu:

_Você está bem?

O jeito cordial com que ela perguntou trouxe calma para seu coração, mas ele ainda estava sem reação nenhuma. Ela segurava às chaves junto à bolsa. Scorpius olhava o painel do carro, os olhos turvos.

_Meus pais estão mortos. – ele falou, a voz rouca e ligeiramente falhada.

Rose foi quem ficou sem ter o que falar dessa vez. E Scorpius pareceu perceber, porque ergueu seus olhos que finalmente se encontraram com os dela. Ela tinha a sobrancelha franzida e parecia prestes a chorar.

_Você precisa ir pra sua casa. Está tarde. Não há mais o que fazer aqui, não é?

_Seus avós...? – ela questionou, erguendo um dedo para trás deles, indicando o aeroporto.

_Eles também não têm nada pra fazer aqui. Mas Lucius tem uma sede de discutir com qualquer um desde que se aposentou. Deixa ele brincar. E minha avó, ah, ela vai ficar bem.

_Scorpius, você não está bem. – Rose pousara a mão dela no braço de Scorpius, que parou ligeiramente de puxar o cinto de segurança. – Eu entendo isso que você está passando, de verdade, mas fugir do problema não é deixar de resolver.

_O que você quer que eu faça? Ressuscitar eles é uma boa solução, né? – sua voz começou a altear – Não há mais nada que eu possa fazer aqui. Eles vão me ligar depois, disso eu sei, vão negociar alguma coisa do tipo de indenização, ou sei lá o que eles fazem nesse caso, mas por enquanto é só.

Rose balançou a cabeça negativamente, e não demonstrou se mover para ligar o carro.

_A gente acabou de se encontrar, você mal me conhece e quer dizer o que eu posso e o que eu não posso fazer? Rose, eu sou adulto. Se você não se importa, eu prefiro dirigir agora.

Mais uma vez, ela permaneceu imóvel. Apenas olhava pra ele, seus olhos desconfiados fitando Scorpius. Ele começara a se sentir incomodado.

_Mas que droga, o que foi?

_Scorpius, não é assim que alguém reage à morte dos pais...

_Ah é? E como eu deveria reagir?

Ela balançou a cabeça. Scorpius estava abrindo a boca para recomeçar a falar, mas ela foi mais rápida. Abriu a porta do carro e desceu, levando consigo a bolsa que carregava a máquina fotográfica. Por reflexo, Scorpius também saiu.

_Ei... Aonde você vai?

_Embora. – disse, e nem ao menos olhou para trás, apenas se afastou no vasto estacionamento. Scorpius irritou-se, bateu a porta do carro e correu atrás dela, seguindo-a por poucos centímetros.

_Você ficou louca? Sabe quantos drogados devem estar à solta por Londres agora? Volta pro carro, Weasley! Eu não vou te deixar sair assim, que porra... volta aqui!

Ao simples toque da mão de Scorpius no ombro dela, a fez virar bruscamente. Seus olhos estavam em chamas, as sardas firmemente vermelhas e o peito inflado.

_ Você mal me conhece e quer dizer o que eu posso e o que eu não posso fazer? É, Scorpius, eu também sou adulta.

_E como adulta deveria ter a consciência do que acontece em Londres à noite... Volta aqui, garota! – ela acabara de se virar de novo. – Rose, eu te busquei na Malfoy, e agora eu vou te deixar lá. Está melhor assim? Você pode ser sequestrada e morta e que se foda o que mais, só me deixa te levar até lá. Quero agir como um adulto responsável. Pelo menos, uma vez nessa... porra de vida.

***

A saída do estacionamento do aeroporto Heathrow não foi fácil, com tantos carros chegando – que Scorpius imaginou ser de outros parentes de tripulantes mortos, mas ele não quis pensar nisso. Olhava de relance para Rose, que aceitara ser levada – até em casa, depois de alguns minutos de discussão, em que Scorpius foi literalmente surrado – e agora olhava pra janela, com a cabeça apoiada no banco.

Scorpius estava sentindo a atmosfera do carro começar a ficar tensa de novo, e quando parou em um farol, às 00:07, começou a morder os nós dos dedos. Queria falar com ela. Qualquer coisa que deixasse a lembrança de seus pais sorrindo, brincando com um Scorpius pequeno num largo jardim, pra trás.

Tentou seguir o olhar dela para o alto, e desconfiou de que ela estava olhando para o céu estrelado.

Olhou para o teto do carro, e socou o volante. Tinha que ter trocado o Maseratti Gran Cabrio por uma Lamborghini Gallardo Valentino. Poderia estar olhando para o céu, em vez de olhar para o teto do carro.

_O meu antigo carro era um conversível. – falou, achando interessante contar isso pra moça. – Era legal olhar para o céu por ele. – achou importante complementar também. – bem melhor que olhar pela janela, sabe...

E começou a desconfiar de que a moça estivesse dormindo.

_Eu tenho uma Chrysler. – a ouviu dizer. – não é tão potente quanto esse, mas dá pro gasto.

_Deve ser um carro muito bom.

_É...

E a viagem seguiu-se em silêncio. Scorpius tentando se distrair com os prédios altos e os poucos carros que passavam ao seu lado. Estavam próximos ao apartamento de Scorpius, e ele se segurou pra perguntar se ela não queria passar a noite com ele. No momento não pensou em nada demais, mas depois se sentiu envergonhado com a ideia. Ela pensaria que ele era um tarado. Mas, ele só não queria ficar sozinho durante a noite, quando a ficha cairia.

O endereço de Rose ficava no subúrbio de Londres, em Bexley. Ela foi indicando à rua, o caminho certo até sua casa.

_É aqui... Obrigada. A gente pode se encontrar na segunda-feira, ou eu te mando por e-mail as fotos...

_Amanhã eu preciso ir à revista, se quiser dar uma passada lá... – mentiu. Não trabalhava de sábado.

_Tudo bem, então. Passo lá às 10.

_Boa noite, srta. Weasley.

_Boa noite, sr. Malfoy. – ela respondeu. E nesse momento, mesmo tendo passado quase 10 anos sem ver aquela garota, ele se sentiu feliz de ter passado um tempo com ela. E enquanto rumava para seu apartamento, dirigindo devagar para demorar mais tempo a chegar, ele pensava.

Evitou ir ao apartamento dos pais, onde esteve mais cedo, e seguiu para o seu. Não tinha muita coisa ali que lembrasse os pais, exceto à cozinha que a mãe sempre frequentava – exceto as garotas que dormiam de fim de semana com ele, elas também gostavam dali. O caminho até a cobertura, a procura das chaves no bolso e o jeito com que trancou a porta, foi o mais natural possível, como se chegasse de uma festa qualquer. O relógio de pulso marcava 01:13. Largou-se no sofá largo, abrindo os botões do paletó. Foi então que o peso caiu sobre seu peito, e a descrença o atingiu bem na cara. Só lhe restou lágrimas.

Notas finais
espero que aqui tenha algum comentário. hahaha bjsss