Linhas da Vida
7 Tempos Perdidos
Era uma noite calma, acabara de tomar banho. Para não perder o costume, eu não me secara totalmente, sentia algumas gotas de água caindo sobre meus ombros, escorrendo pelos meus olhos. Decidi que, por uma única noite, eu precisava sentar em frente à minha janela, precisava admirar aquela noite tão calma que estava me proporcionando alguma paz.
Era estranho, apenas estranho. Encarando a enorme imensidão azulada, com poucas estrelas alumiando o céu... Era tudo muito estranho.
Ficar muito tempo parado era sinônimo de refletir sobre a vida. Tudo para estranho quando estamos distantes dos nossos sonhos, sempre pensamos que tudo está longe demais, nada está na palma de nossa mão. Claro, nenhuma batalha se vence enquanto estamos calmos ou sentados, mas tudo precisava causar um sentimento ruim?
Sentimento ruim é tão peculiar de se dizer, pois significa que há sentimentos bons, e de fato existe: tomar uma caneca de café recém passado, aquele vapor cheiroso adentrando nas nossas narinas apenas para o nosso belíssimo prazer de aproveitarmos aquele gosto levemente amargo que se mistura com o açúcar para podermos refletir.
Também tem aquela sensação boa de poder conversar com as pessoas, dar risadas dos assuntos mais aleatórios, sentir o corpo todo tremer com aquele ar saindo de nossas bocas, saindo de nosso ser, apenas aquela sensação da necessidade daquele momento repetir diversas vezes, nossa mente ser apagada para vivermos cada segundo de uma forma nova e inédita.
Entretanto, como eu disse, nada é tão duradouro, nada é tão sutil... A não ser aquela pausa que precisamos dar ao nosso tempo. É tão estranho, muito estranho.
Gastamos tanto o nosso tempo com atitudes tão simples, gastamos a nossa esperança em assuntos tão bobos. Por que ficamos parte do nosso tempo nos perdendo em pensamentos nada condizentes? Por que eu preciso sentir essa pressão toda em me colocar diante de provações que me fazem tremer de desespero?
Sabe, é um pouco angustiante eu me colocar diante de uma situação apenas para eu me ver feliz, numa idealização de que eu sonho que é possível ser feliz numa ideia minha perdida, uma própria realidade que eu criei para eu me fazer não tão cruel comigo mesmo.
Retornemos ao tempo, ele é curioso. Quando digo tempo, não falo do clima, como esse aqui que eu tenho comentado, sobre a imensidão estelar que me cobre. Não tem muitas estrelas, infelizmente passo mal com isso, mostra que possui mais luzes e neblina por cima de mim, não bem uma neblina, mas fumaça, o que me faz pensar muito em como cheguei aqui e porque eu quero ir para lugares ainda mais infestados com essa fumaça.
Uma fumaça que remonta de tempos, não uma fumaça física, mas uma que eu mesmo criei dentro de mim. É estranho, muito estranho.
O tempo, na verdade, foge de nossas mãos, ele cai como areia da praia por nossos dedos, e não há meios de fazê-lo frenar, eu apenas vejo ele correndo diante dos meus olhos, e o corpo dói, a mente se cansa e, quando menos esperamos, estamos cansados por não fazer absolutamente nada quando queríamos fazer tudo.
Nada é simples, sabemos que nada é simples, mas tudo se complexa de uma forma que nossos sentimentos nos enganam, colocam-nos sem força depois de anos de persistência. Porém, mesmo atingindo nosso destino, nossa prova final, nada não fica grandioso, apenas vamos descendo ainda mais, para uma escuridão que não gostaríamos de viver, porque já estamos nela.
E não digo de uma escuridão boa, aquela alumiada por estrelas, ou aquela nem se percebe porque nossos olhos se fecham, mas aquela que nos consome e que, mesmo com a visão cerrada, ainda imagino, sonho com tais provações.
Bom, acho que é hora de entrar, o vento ficou violento, as poucas árvores que restaram em minha frente estão balançando fortemente, meus cabelos molhados fazem com que meu resfriado venha com mais força. Se for para eu chorar, que seja numa cama, num lugar confortável.
Se for para chorar, que não seja nessas areias que escorrem por minhas mãos e de nada posso fazer para contê-las, pois elas se chamam tempo, e nele só podemos parar quando se tiram as pilhas de um relógio para termos essa falsa ideia de que podemos controlar um pouco dessa nossa conturbada vida.
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