Linhas da Vida
5 Desesperança
Desesperança é o prato amargo que nos faz pensar se realmente importa a indecisão, desesperança é o sinal de sofrimento que jamais queremos imaginar a nossa pele passando, desesperança não atinge cor nem raça, gênero ou nação, age como um todo de quem não sabe para qual direção deve correr. Um ponto final indeciso sobre as indecisões do mundo atual, de um grito gutural, de uma força nada natural, de um semblante nada angelical.
Desesperança é uma ávida guerra que duelamos dentro de nós mesmos com aquela pequena história de que "A esperança é a última que morre". Mas, se ela é a última que morre, o que sobra? Não tem como agirmos sem ações, não há como conversarmos sem notar a tristeza no olhar do outro, é raiva, ódio, angústia, depressão, ansiedade.
Desesperança é não conseguir respirar mais, sentir cada músculo enrijecendo como uma amargura que amarra a boca com ânsia de gritar um som nunca antes interpretado, sentar no chão rígido, gelado e seco com a intenção de somente chorar e chorar e esquecer do que o mundo pode nos entregar, um mundo cinza sem árvores, com ácidos e óxidos no ar, com morte a cada esquina e fome a cada casa.
Desesperança não atinge cor, ela tem cor. É o azul do céu que não conseguimos mais ver, é o verde da planta que lembra vômito porque não conseguimos mais comer, é andar de ponta cabeça e sentir que a ingratidão tomou forma e mora ao meu lado, ela é vizinha, não tem paciência, não tem coerência e coesão, não tem nada mais do que aquilo que a moldaram: cinzas de destruição a fim de cairmos ao seu lado e implorarmos pelos mesmos motivos que decidimos abraça-la.
Desesperança é não ver o lar completo e único, é uma raiz quebrada, outra intoxicada, um olhar mais cego, um ardor nas vistas e no pensamento, é uma oração que não se conclui, é um pandemônio que esconde atrás das cortinas a mais perfeita harmonia... Ora, quem eu quero enganar? Hoje tudo se mostra, das veias entupidas do coração às maldades de nossas palavras.
Desesperança é perda, é falta de argumentos. Pois, então, por que se cala? Como posso falar se com a água que me nutria para falar eu decidi regar a planta morta para que meu irmão possa viver mais um dia. Eu economizo, eu guardo, eu almejo o mundo mais amarelo, contra tudo e contra todos que me bendigam o mal.
Desesperança é ver a pele vermelha, vermelho marfim, vermelho felpudo, vermelho áspero, vermelho rublo, vermelho sangue. Sangue do pai que deu à vida para o filho comer, sangue da mãe que se esforçou para o filho nascer em um mar de solidão complexa de um mundo que não aceita o dizer do não, sangue da avó que correu a ensinar como leem os livros e como cantam os pássaros, sangue do avô que, por amor à família, decidiu sujar as mãos de lama esburacada pelas raízes malditas que trazem sensações de perda e insolação, sangue de quem não tinha onde cair morto, mas decidiu dar a mão para você não cair morto.
Desesperança são bombas destro de si, não sabe se aqui, ali ou acolá, não saber com quem entrega a sua mão para amparar com receio de sentir quem ao seu lado estará, explosão de uma multidão furiosa que grita rancores de um passado que jamais saberemos o que aconteceu. Tudo não passa de um sonho... pesadelo... realidade aumentada... realidade fragmentada... realidade irreal?
Desesperança é aquilo que jamais devemos sentir, pois um lapso pode nos fazer descer mais e mais fundo, desesperança é o ponto fraco do ser humano. Reze, meu filho, reze. Rezo aqui, rezo ali, começo do anjo, foi ao terço, encerro no rosário e, se me sombra tempo, eu chego na novena ou na trezena. São tantas preces que somente acalma meu coração, somente retira o peso momentâneo de um asco que fica preso na garganta.
Desesperança é aqui a minha lição, não a leve para a vida, nem para o caixão, não esperemos que seja fácil. Afinal, sabemos que de fácil nem um mais um que pode ser dois quanto pode ser nenhum, de vazio ao cheio, meu coração já afundou e naufragou. Não sabemos quem anda ao nosso lado, se de sua fala sai amor ou compaixão, sai ódio ou inveja, sai de lá, ó homens de alma santa, um pingo de passado que deixou feridas profundas na história para a nossa salvação.
Desesperança...
Essa rima com esperança...
Uma palavrinha pequena, um prefixo simples que muda tudo. Um 'des' aqui para outro 'des' ali, um abraço aqui, uma fome acolá, um beijo assim, outro soco a cá, um respiro e uma visão de futuro melhor agora, um sentimento de desistência, aqui não.
Fale com o autor