Linhagem Interrompida
2 Súplica
Notas iniciais
Em corrida desabalada Inuyasha não demorou a entender a magnitude do poder que assomava ao longe. Uma fumaça negra subia espiralada, porém sem se dissipar, acumulando-se abaixo do sol de meio de tarde, sobre toda a região à frente. Como pudera não perceber? Como pudera se distrair com tanta facilidade? E se algo tivesse acontecido... Não! Ela ainda não podia ter chegado, apesar de, muito provavelmente, estar correndo para o local e descobrir o que acontecia lá, Kagome fora a pé. Ele a alcançaria rapidamente, tinha certeza.
À medida que se aproximava de seu objetivo, o youkai percebeu algo inusitado: aquilo não era fumaça. Não havia fogo e o cheiro de podridão era quase insuportável para seu faro aguçado. Um leve toque do perfume de Kagome vinha com a brisa sufocante e pútrida apontando a proximidade dela, fazendo-o acelerar a disparada.
***
Depois de alguns minutos de corrida, Inuyasha avistou uma Kagome assustada que se escondia atrás de uma árvore larga e esguia; um cedro. Ele achegou-se à garota e sem que ela o tivesse notado a abraçou brevemente causando um sobressalto na “pequena”.
– Inu...yasha – Ela tremia, bem como sua voz, enquanto encarava o cenário que se descortinava à sua frente, através da margem da floresta.
– Ka... – Pela primeira vez ele prestou atenção à cena. Corpos, centenas de corpos espalhados pelo campo, jogados por sobre a plantação de Jinenji, completamente desfigurados. E bem ao centro de seu foco de visão havia um homem. O homem era magro e alto, mesmo sentado, sobre algo que não pôde distinguir, Inuyasha percebeu que deveria ter, no mínimo, 15 centímetros a mais que ele mesmo.
Ainda encarando a cena, Inuyasha reparou que o objeto em que o homem sentava, agora ele via que o tal possuía uma pele amarronzada, era a cabeça de Jinenji.
– Ei, seu maldito! – provocou o meio-youkai, saindo das sombras da árvore, deixando Kagome para trás – O que você fez? – sacando a Tetsusaiga.
– Ah, enfim chegaram meus mais esperados convidados... Esplêndido! – O youkai bateu duas suaves palmas e abriu um sorriso que mostrava todo o seu sadismo.
– O que quer dizer com “convidados”? Está tão ansioso para provar o poder da Tetsusaiga? – O garoto meneou a presa do pai na mão direita, desafiando o assassino.
– Ora, Inuyasha... Contenha-se, rapaz. Não preciso machucá-lo, apesar de ter certeza de que poucas coisas me dariam mais prazer... Exceto, talvez, devorar sua companheira: A Shikon No Tama. – Ele apontava para Kagome que ainda escondia-se atrás do antigo cedro nos limites da floresta.
– Do que está falando? A Shikon No Tama foi destruída! Nós nos certificamos disso, portanto pare de falar besteiras! – Inuyasha tremia de raiva, mas algo o impedia de se mexer. Ele precisava ouvir o que o outro tinha à dizer; antes de matá-lo, claro.
Antes que Inuyasha pudesse fazer qualquer coisa o homem atacou; lançou-se como um projétil na direção de Kagome, correndo à toda velocidade e apenas interrompeu o ataque ao ouvir o berro do hanyou
– Kaze no Kizu! – Sua expressão determinada mostrava que impediria o desejo do maldito youkai se pudesse. Todavia, sua confiança minguou ao notar que sua “Ferida do Vento” não havia sequer arranhado o youkai e que isso apenas o irritara.
– Está realmente disposto à lutar pela mulher? – desdenhou o sujeito que sorria sinistramente – Que seja, então.
O sorriso do “bandido” tornou-se um esgar por um átimo de segundo e sua fisionomia distendeu-se. O corpo esguio, porém musculoso, e alto do homem tomava proporções estranhas e seus membros vazavam a intervalos por frestas em seu kimono completamente negro. “Membros demais” pensou Inuyasha. À medida que a transformação seguia, as roupas do sujeito rasgavam-se em farrapos ao passo em que ele passara a apoiar-se sobre quatro patas. Sua pele clara assumia um tom esverdeado e seu tamanho já superava, em muito, o de Jinenji.
Vários pescoços uniam-se num mesmo ponto do tronco da criatura, subindo por mais de 3 metros e terminando, cada um, em uma cabeça de serpente verde-esbranquiçada.
Os olhos ofídicos e vidrados encaravam, todos eles, Inuyasha com um tremeluzir âmbar quase hipnotizante.
***
“Merda”, pensou Inuyasha, “esse sujeitinho não parece estar para brincadeiras e nem parece ser fraco, tampouco. Maldição! Justo hoje que não haverá lua no céu... Tenho que acabar com isso logo, antes que a Kagome se machuque. Se isso acontecer... Eu não vou me perdoar”
***
Kagome estava aterrorizada demais para fazer qualquer coisa. A energia maligna daquele monstro era muito mais poderosa do que qualquer uma que já vira. E Inuyasha ia lutar com ele. Por ela.
– Isso é tão errado – engasgou-se
“O que será que o youkai quis dizer sobre a Shikon No Tama? Não faz sentido... Simplesmente não faz.” Ela havia feito o desejo correto, com certeza. A joia sumira para sempre. Não?
Depois de algum tempo perdida em pensamentos, algo a chamou de volta à Terra. Inuyasha estava sendo seguidamente atacado pelas cabeças do youkai monstruoso e parecia estar coberto por uma substância venenosa que consumia suas vestes de pelos de Rato-de-Fogo. Ela prendeu-se por alguns segundos no rosto de seu amado, o que desejou não ter feito; ele estava muito escoriado, com múltiplas lacerações graves e muita perda de sangue.
Quando pôs-se de pé, por fim, o sol já se punha por completo, o que a fez, desesperadamente, desejar morrer pois no momento em que se voltou para Inuyasha ela pôde testemunhar o sangue de youkai do rapaz adormecer. Seus cabelos prateados tornavam-se negros assim como seus olhos dourados. As orelhas de cachorro encolhiam para dentro da cabeça, como se ali houvesse uma reentrância.
***
Em sua forma humana, Inuyasha ainda empunhava a Tetsusaiga, mas em vão. O canino voltara a ser uma espada velha e enferrujada com a qual não conseguiu evitar um golpe direto contra seu peito.
***
O coração de Kagome vacilou ao ver o peito do inu-hanyou que amava ser dilacerado por uma mordida feroz de seu oponente. Sem pensar mais, Kagome ergueu o arco e lançou sua primeira flecha purificadora e errou por muito. Suas mãos tremiam, mas isso não a impediu de lançar todas as suas flechas e quando sua última flecha meramente resvalou no peito daquele ser hediondo, suas pernas fraquejaram e deixou-se cair de joelhos, chorando.
Sentiu o chão tremer sob seus joelhos quando ouviu o youkai correndo em sua direção, pronto para devorá-la. Ergueu os olhos, preparada para a morte, apenas para ver um vulto de cabelos negros e vestes vermelhas esfarrapadas lançar-se à sua frente e amortecendo o ataque. Inuyasha aparou o golpe com o próprio corpo que foi rasgado do topo do peito ao abdômen, expondo seus órgãos internos, mas de alguma maneira ainda mantinha-se de pé.
– INUYASHA! – o desespero da miko era evidente em sua voz entrecortada
– Eu. Vou. Te. Proteger. – a resposta dele calou Kagome, apesar de ela ter sido entredentes.
– Inuyasha, acho apropriado que não interfira em minha refeição. Mas se insiste em se tornar meu aperitivo, realizarei seu desejo sem demora! – a voz do demônio causava um eco colossal, saindo das inúmeras bocas que possuía.
Ela estava à ponto de desmaiar. Não sabia se aguentaria mais um segundo desse pesadelo odioso...
Enquanto tentava, em vão, reunir forças para fazer algo que não gritar, viu Inuyasha ser assaltado de um golpe que o engoliu e seus olhos se encontraram antes do fim.
O garoto fora engolido pelo monstro num décimo de segundo e, mais do que nunca, ela desejou morrer; ir junto com ele.
Sem saber de onde tirava energia, Kagome ergueu-se e encarou o monstro diretamente nos olhos da cabeça que havia engolido seu amado. Era difícil dizer, no meio da noite, se o que ela via era um sorriso de triunfo estampado nos múltiplos rostos da criatura.
– Vamos então! Me mate também! Afinal... Não tenho mais motivos para permanecer neste mundo. – Sem desviar os olhos, ela arrumou a postura, ficando ereta, e com a expressão neutra. – Não era isso que queria? Vamos! – Por um segundo percebeu que a expressão arrebatada pela vitória vacilou no rosto do inimigo quando, em seguida, uma explosão de cores vibrantes eclodiu de seu dorso.
Uma tempestade de furações despedaçou-o de dentro para fora, rasgando-lhe a carne, decepando as cabeças e espalhando restos por todo o local. O fedor que se desprendia deixava Kagome tonta e com ânsias de vômito e só então percebeu Inuyasha caído no chão, desfalecendo, com a face branca como giz.
– INUYASHAAA! – Ela correu e debruçou-se sobre ele, com o decote do kimono já banhado por lágrimas.
– Eu pude cumprir minha promessa, afinal. Com a minha... Vida. – A voz soava fria; mortuária, como se trouxesse à vida todos os sonhos mais sombrios de Kagome.
– Não, Inuyasha, você vai... – ela se calou quando ele ergueu o dedo até tocá-la os lábios.
– Gomen, Kagome... Aishiteru. – Inuyasha suspirou, deixando seu braço cair molemente ao lado do corpo já lívido. O coração exposto do hanyou falhou repetidas vezes e parou antes que Kagome pudesse reagir.
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