Linhagem Interrompida

3 Alma e sacrifício


Notas iniciais
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Kagome não se lembrava de quando pegara no sono, mas tinha certeza que estava dormindo; afinal, aquilo só podia ser um pesadelo. Além disso, havia uma coisa que a entristecia – por que Inuyasha não estava tentando acordá-la? – mais do que o próprio sonho.

A escuridão era profunda demais para que pudesse ser real e a ausência de sons era opressora. Um grande vazio estendia-se para adiante do alcance de sua visão.

Ela tateou no escuro, engatinhando, à procura de alguma coisa – qualquer coisa – que pudesse tocar, ver ou ouvir, mas depois do que lhe pareceu muito tempo, horas talvez, deu-se por vencida. Estava perdida e desorientada e – não querendo pensar nisso – sem Inuyasha.

– Ah, menina, você parece perdida. Que coisa lamentável! – uma voz profunda e estranhamente distorcida ecoava dentro de sua mente, fazendo com que sua circulação acelerasse e pudesse ouvir seu coração martelando contra as costelas.

– Quem está aí? – Kagome volta-se de um lado para o outro à procura dos donos da voz. Sim, havia chegado à conclusão de que deveria haver mais de um... Uma só pessoa não poderia ter um timbre daquele. Ele ecoava.

– Acho que está procurando no lugar errado, meu bem. Sabe... Estamos preocupados com você; bem... Não todos. – o tom da voz beirou a hilaridade.

– Eu... Estou morta? – havia uma nota de amargura – por que ele não viera salvá-la? — nada característica na voz da menina.

– Se é isso que a preocupa, minha cara, afirmo-lhe que não está morta. Mas onde poderia estar, não é?

Ela não sabia o que fazer e seus pensamentos não clareavam de maneira alguma: “De onde vem essa voz? Dá-me arrepios. E se não estou morta... Acho que não posso confiar neles”.

– Bem, dê uma olhada mais de perto, se acha que está morta. – o tom de riso era irritante.

– Co-como pode ler meus pensamentos? – o medo de Kagome parecia aumentar exponencialmente.

– Eu SOU você. Bem, uma parte, na verdade. – inferiu a voz.

– Voc... O quê? O que está acontecendo, então? – tentou imprimir mais segurança na fala, mas notara o fracasso assim que as palavras saíram de sua boca.

– Digamos que estamos dormindo. Desmaiados, melhor dizendo. Perdemos os sentidos assim que o coração do Inuyasha parou de bater. – a resposta fora direta e soava inflexível.

– Não... Ele não pode... – ela tentava sufocar as lágrimas que brotavam enquanto insistia na tentativa de falar – É MENTIRA!

– Não, não! Lembre-se, Kagome Higurashi! Ele morreu nos seus braços, protegendo-a. Você desejou morrer com ele; e é por isso que estamos aqui. Se acha que estou mentindo, sinta. E você ainda pode salvá-lo, mas tem pouco tempo.

– Eu posso...? Mas eu não tenho esse poder! Eu não tenho... – os soluços já tornavam os dizeres da jovem em resmungos engasgados.

– Você sozinha não poderia, não. Mas pode usar o MEU poder. Sabe que pode e sabe como fazê-lo. Tente se lembrar do que aquele youkai medonho a chamou quando a viu.

Kagome permaneceu em silêncio por um muito tempo, tentando lembra-se do que havia acontecido antes de ser tragada para aquela escuridão, mas sua memória não cooperava. Ela podia rememorar algumas coisas, principalmente sentimentos, bem dolorosas de seus últimos momentos de vigília, mas nada que pudesse fazer uso. Sentia-se impotente e fraca. Nua. Algo muito precioso fora arrancado dela...

“Inuyasha”

Ao visualizar, em sua mente, o rosto do hanyou, algo estalou em seu âmago e uma torrente de imagens brotava aos borbotões diante de seus olhos: Um homem sentado sobre a cabeça de Jinenji; Inuyasha abraçando-a antes de entrar em combate; o mesmo homem que matara Jinenji chamando-a de “Shikon No Tama”; o meio-youkai perdendo seus poderes ao cair da noite; seu corpo dilacerado estendido à sua frente, lívido e frio. Sem vida.

“Shikon No Tama?”

– Você é a Shikon No Tama!? Mas como? – nada mais fazia sentido para Kagome

– Sim e não. Quando você desejou, menina, que a Shikon No Tama desaparecesse parecia que tudo ia se ajeitar, não é? Bem, esse não foi o desejo correto. O que aconteceu foi que a estrutura física da Shikon No Tama deixou de existir, sim, e todo o seu poder ficou lacrado dentro de você, todavia. Isso significa que, de certa maneira, você é o “recipiente” da joia. – o que antes assustara a jovem; a multiplicidade da voz reduzira, tornando-se um timbre mais ameno e feminino.

– Então quer dizer que eu posso usar o seu poder quando quiser? – não pôde deixar de ter esperanças, mesmo demonstrando dúvida ao vincar as sobrancelhas.

– Novamente lhe digo: Sim e não. Sim, porque de fato pode. Não, porque se você fizer o desejo correto, verdadeiramente, sumirei para sempre. Se não o fizer, permanecerei dentro de você e tudo continuará como era: sofrimentos, dúvidas, mortes, dor.

– Mas eu não sei o que devo pedir.

–Ora, peça o que quiser. Mas basta saber que o que a trouxe aqui foi seu desejo de morrer no lugar do seu precioso amado.

“É verdade. Ele se sacrificou para me proteger. Agora quem vai salvá-lo serei eu. Eu quero, mais do que tudo, que ele viva e seja feliz. Pode me levar em troca.”

***

Inuyasha estava num lugar muito bem iluminado. Iluminado demais, de fato. Sentia-se leve e vazio. Como se nada jamais tivesse acontecido. Como se não houvessem memórias ou experiências. Parecia-lhe, até, que seu corpo estava leve demais, como se estivesse oco. Pressionou, rapidamente, vários pontos do corpo para verificá-lo. Normal. Nada fora do esperado.

E foi então que ouviu alguém chamando por ele:

– Inuyasha! Por favor, Inuyasha, acorda!

Ele se lembrava, claramente, de ter morrido, ou seja; não poderia acordar. Ou pelo menos, achava que sim. Mas tudo doía. Será que é assim “estar morto”? Não tinha muita certeza. Mas mais importante: Por que não podia se lembrar do que acontecera depois de ter sido golpeado no peito ao proteger “sua mulher”? De súbito sentiu suas vestes sendo puxadas para baixo, como que por cordas invisíveis, e sentiu seu corpo pesado; suas pálpebras se fecharam.

***

Quando o hanyou acordou, encontrou Kagome caída ao seu lado, aparentemente desmaiada. A garota segurava os cotovelos com visível força, mesmo desacordada, como se tentasse proteger-se de algo. Ela tremia e suava frio.

Pegando-a no colo, Inuyasha correu para dentro de um dos casebres da vila, ignorando os cadáveres espalhados pelo local, e deitou Kagome cuidadosamente sobre um tatame. Deitou-se ao lado dela, abraçando-a e sussurrando em seu ouvido.

A noite ainda reinava sobre suas cabeças e Inuyasha repassava, mentalmente, tudo o que havia acontecido naquela ocasião. Não se lembrava muito bem, porém, de muitos aspectos como: como saíra de dentro do corpo do youkai após ser engolido? Como sobrevivera sem um arranhão? Por que Kagome estava naquele estado, apesar de parecer perfeitamente saudável?

Resolveu que seria melhor esperar que a garota acordasse; então recostou-se contra a parede, ainda deitado, e adormeceu.

– Tudo ficará bem. Mesmo que não saiba, eu te amo.

Notas finais
Tch.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.