Linha Tênue
49 Capítulo 46: O Início de uma Nova Partida
Notas iniciais


Há muito tempo, Albert Einstein disse que o tempo é relativo e, desde então, as pessoas passaram a interpretar essa frase de diferentes maneiras, não apenas através da física, mas também atribuindo-a aos pequenos momentos da vida. A ideia de que períodos tristes e difíceis parecem passar mais lentamente do que os felizes tornou-se quase uma premissa sobre como o ser humano deveria aproveitar melhor os bons momentos, já que eles passam rapidamente, e de que, embora os momentos difíceis pareçam intermináveis, eles também terão um fim.
E, atualmente, a cada dia que passa, tenho mais certeza disso.
Afinal, quatro meses haviam passado de forma extremamente rápida e lenta ao mesmo tempo. Seria hipocrisia fingir que não tinha sido cansativo. As noites em claro, as cólicas, as horas dando de mamar e, quando o sono finalmente chegava e a exaustão batia, ainda assim bastava vê-la ali, crescendo saudável, para tudo parecer valer a pena.
Então havia todos aqueles momentos felizes que pareciam passar em uma velocidade imprevisível. O despertar dela para o mundo, ficando cada vez mais atenta a tudo e a todos ao redor. O primeiro sorriso, o primeiro balbucio, aquela pequena viradinha de lado que nunca pareceu uma conquista tão grandiosa até acontecer diante dos meus olhos. O primeiro ensaio fotográfico, que arrancou lágrimas insistentes de mim no primeiro, no segundo e até no terceiro clique. O primeiro Dia de Ação de Graças, que aconteceu em casa e no qual pude agradecer, de forma genuína, simplesmente por tê-la ali.
E então pensar no sentimento que tive exatamente um ano antes, ao descobrir a gestação de Annie e acreditar, naquele momento, que talvez eu nunca tivesse meu próprio bebê.
O primeiro evento social dela foi justamente a festinha de aniversário do Alex, onde ele, mesmo sendo um pré-adolescente, estava todo orgulhoso, levando todos os amigos que chegavam até ela apenas para apresentá-la. E, se existe algo impossível de negar, é o quanto ela fica feliz só de vê-lo se aproximar, o que fez com que ele rapidamente se intitulasse como o primo favorito.
Também houve a primeira viagem para o Distrito 12 para passar o Natal na casa dos avós, e acho que nunca vi Effie tão feliz. Em meio ao caos das madrugadas, com Kai chorando em um dos quartos por causa dos dentinhos que já davam sinais de que em breve nasceriam e Rayna aos berros com cólicas no outro.
Aliás, embora tivesse nascido absurdamente calma e quieta, Rayna possuía um excelente pulmão, capaz de sustentar longos e impressionantes períodos de choro quando queria.
Mas os Mellark pareciam um verdadeiro esquadrão tático, se revezando para que todos conseguissem dormir ao menos um pouco, cada um com seu próprio método. Fosse andando pela casa, balançando no colo das mais diferentes formas, oferecendo mordedores gelados ou até dando voltinhas de carro pela propriedade, não importava o meio. O importante era a certeza de que eles formavam uma rede de apoio única.
Foram tantos momentos felizes passando em uma velocidade tão impressionante que os percalços e os dias difíceis acabaram se tornando apenas detalhes inevitáveis em meio a tudo aquilo.
Claro, não era um conto de fadas perfeito.
Em meio a toda a alegria que a minha pequena proporcionava, houve também o julgamento e todo o caos que o acompanhou, se arrastando de forma muito mais lenta do que eu gostaria. O time de relações públicas da M.Company havia se empenhado ao máximo para manter tudo longe da imprensa e, em um julgamento de portas fechadas, eu prestei meu depoimento. Tentando não olhar nem para Gale na mesa do acusado, com seu eterno sorriso irônico e seu time de advogados, nem para Hazelle, completamente destruída, sendo uma das poucas pessoas assistindo a tudo ao lado do marido.
Eu sabia que ela era uma boa pessoa e que não concordava com o que ele havia feito, mas entendia que, como mãe, ela estava devastada.
A defesa tentou, a todo momento, tratá-lo como alguém psicologicamente instável, incapaz de responder pelos próprios crimes. Alguém que, supostamente, precisava de ajuda e tratamento, e não de uma sentença. Entretanto, aquilo não havia sido suficiente.
Ele recebeu o veredito de culpado após poucas horas de deliberação do júri.
Embora eu estivesse passando por um novo processo de terapia, confesso que nenhuma sessão me proporcionou o alívio que aquela sentença trouxe. Saber que ele estava atrás das grades me permitia até mesmo dormir um pouco mais tranquila. A terapia ainda continuava sendo um caminho longo que eu precisava percorrer novamente, mas, dessa vez, eu tinha um motivo para ficar bem.
Ela.
Um passo de cada vez. Mas um passo mais perto de ficar bem novamente. Nas primeiras semanas, principalmente depois do que aconteceu na porta da delegacia, minha mente parecia incapaz de existir longe da minha filha. Era uma sensação que ia muito além do medo pelo que havíamos passado. Passava pelo terror constante de ser uma mãe ruim, pelo medo silencioso de me transformar nos meus próprios pais.
Eu estava sempre ao lado dela, sempre alerta, mesmo sabendo que ela ficaria com pessoas em quem eu confiava plenamente. Ainda assim, até mesmo o tempo longe durante as sessões de terapia parecia doloroso demais.
Mas, aos poucos, comecei a recuperar parte da segurança e permitir pequenas distâncias. Estava aprendendo que ser uma mãe presente não significava estar ali a cada segundo, mas garantir que ela estivesse cercada de amor e segurança, mesmo quando estava nos braços de outras pessoas. E que eu não podia me transformar em uma barreira entre ela e o mundo.
Claro que eu ainda acordava no meio da noite depois de sonhos assustadores e corria até o berço apenas para ter certeza de que ela estava bem. Ainda havia dias em que eu não queria tirá-la da minha vista por sequer um segundo e outros em que a mantinha nos braços por tempo demais, como se colocá-la no berço significasse perder parte daquela segurança que eu mesma tentava construir.
Ainda assim, meu terapeuta reforçava que aquilo fazia parte do processo. Que, depois de tudo o que aconteceu, meu cérebro ainda estava tentando entender que estávamos seguras.
Havia também a questão dos meus pais e a minha escolha de romper definitivamente com eles. Não havia desculpa para o que tinham feito e, mesmo minha mãe garantindo que não sabia sobre o dinheiro, o fato de ainda defender meu pai havia sido a gota d’água que faltava para encerrar aquele ciclo.
Eu não os queria mais na minha vida. Não conseguia mais olhar para os meus pais da mesma forma e, acima de tudo, não os queria perto de Rayna.
Mas eu também sabia que aquele seria outro assunto para enfrentar no futuro, dentro da terapia. E, quem sabe, um dia eu pudesse revisitar essa decisão. Não por eles, mas por mim.
Fazer coisas por mim, sem culpa e apenas porque eu queria, também havia se tornado um ponto importante. No fundo, passei boa parte da adolescência fazendo escolhas que acreditava serem minhas, mas que, na verdade, eram pelos meus pais, pelos meus amigos ou pelo que eu acreditava que as pessoas esperavam de mim.
Então eu estava focada em aprender a cuidar de mim por mim mesma. Queria voltar ao meu corpo de antes, mas agora através de uma alimentação adequada e sem transformar isso em uma obsessão cruel. Tentando lidar melhor com o meu corpo atual, mesmo que, involuntariamente, ainda me criticasse ao me olhar no espelho algumas vezes.
Havia também colocado um aplique, um pouco menor do que o comprimento que meu cabelo tinha antes de tudo, em um tamanho que me agradava. Uma escolha minha e unicamente minha sobre o meu próprio cabelo.
E talvez parecesse algo pequeno para qualquer outra pessoa, mas, para mim, existia algo extremamente libertador em finalmente tomar decisões pensando apenas no que me fazia bem e isso me deixava feliz como não me sentia havia muito tempo.
E em meio a todo aquele caos, Peeta havia sido simplesmente incrível. Se eu já tinha me apaixonado pelo homem que comecei a conhecer de verdade, passei a amar ainda mais o homem e o pai que ele havia se tornado.
Desde os dias no hospital, ele parecia se mover de forma completamente natural ao redor dela, como se aquilo sempre tivesse feito parte dele.
Durante as três primeiras semanas após a alta, Peeta trabalhou de casa, mas, independentemente do trabalho, estava sempre presente. Nas madrugadas, acordava junto comigo sem que eu precisasse pedir. Quando a pediatra indicou complementar a alimentação com fórmula, ele passou a preparar as mamadeiras e, aos poucos, encontramos pequenos momentos de revezamento durante as mamadas noturnas.
E uma das coisas mais lindas que já vi era a maneira como ele deitava com Rayna sobre o peito depois das mamadas para fazê-la arrotar ou simplesmente dormir.
Às vezes eu acordava no meio da madrugada e encontrava os dois recostados na cama, ela completamente espalhada sobre ele enquanto Peeta cantarolava baixinho qualquer melodia aleatória que surgisse na cabeça dele. Em outras, ele simplesmente ficava conversando com ela como se estivesse tendo uma discussão extremamente importante, divagando sobre qualquer assunto enquanto ela o encarava com uma atenção impressionante.
Era quase uma extensão das conversas que ele tinha com ela ainda quando estava na minha barriga.
E era incrivelmente bonito justamente porque era natural. Nunca performático. Nunca forçado.
Quando eu dizia que ele podia descansar ou que não precisava acordar comigo todas as vezes, Peeta apenas franzia a testa, genuinamente confuso, antes de responder que não estava fazendo nada demais.
Que só estava sendo pai.
A dinâmica entre os dois se tornou ainda mais extraordinária quando Rayna começou a ficar mais atenta ao mundo ao redor. Principalmente nos momentos em que ele falava com ela e ela simplesmente parava para encará-lo, olhos azuis presos em olhos azuis, como se existisse uma conversa silenciosa acontecendo entre os dois.
E, honestamente, para mim, aquilo era uma das coisas mais incríveis do mundo.
“Ela dormiu?”
Me virei a tempo de vê-lo parado na porta do quarto dela, a gravata já frouxa no pescoço.
“Sim. Acho que agora só acorda daqui umas três horas… quatro, se dermos sorte.”
Observei enquanto ele se aproximava devagar, os olhos imediatamente presos nela. Ficou alguns minutos apenas observando ela dormir antes de inclinar levemente a cabeça.
“Desculpa, princesa. O papai ficou preso numa reunião longa hoje… mas eu vou estar aqui quando você acordar, tá bom?”
Sorri sem perceber diante da cena.
“Vou pedir para servirem o jantar em uns trinta minutos. Tudo bem pra você”
“Sim. Eu vou só tomar um banho. A Prim já chegou?”
“Não. Foi para a casa do William. Como é sexta, ela disse que vai ficar lá essa noite.”
E, por mais que eu ainda não concordasse cem por cento com algumas escolhas da minha irmã, precisava admitir que aquele relacionamento fazia bem para ela.
Outro tópico constantemente trabalhado na terapia. Entender que eu não precisava aprovar todas as escolhas das pessoas que amava para aceitar que elas eram felizes com elas. E, sem dúvida, William fazia bem para Prim.
Peguei a babá eletrônica antes de descer para verificar o jantar, outra grande mudança na minha rotina. Agora eu sempre esperava Peeta para jantarmos juntos. Sem perceber, havíamos criado toda uma rotina ao redor da nossa filha.
O jantar naquela noite ocorreu de forma tranquila.
Conversamos sobre coisas simples e rotineiras. Sobre Rayna ter descoberto que gostava de bater os pezinhos durante o banho enquanto me molhava inteira, como se estivesse fascinada pela própria capacidade de fazer bagunça. Sobre o fato de Effie aparentemente ter decidido transformar o quarto de hóspedes em um quarto fixo para os netos.
Mas, em algum momento durante o jantar, comecei a perceber olhares diferentes dele em minha direção, como se estivesse tentando se decidir sobre alguma coisa.
E aquilo começou a me deixar inquieta.
“Podemos conversar?” ele perguntou assim que terminamos a sobremesa. Franzi levemente a testa.
“Aconteceu alguma coisa?” Ele negou quase imediatamente.
Ainda assim, meu estômago apertou.
Seguimos em direção ao escritório dele em silêncio. E, pela forma como Peeta manteve a mão na porta esperando que eu entrasse primeiro, percebi que não era um assunto corriqueiro.
Sentei na cadeira em frente à mesa dele, esperando que ocupasse a própria cadeira ou talvez me chamasse para sentar no sofá. Entretanto, Peeta apenas deu a volta na mesa e abriu uma das gavetas.
Observei enquanto ele retirava uma pasta preta de dentro dela.
Meu estômago apertou ainda mais.
Ele respirou fundo antes de fechar a gaveta novamente e, ao invés de se sentar, apenas se apoiou na mesa ao meu lado, segurando a pasta entre os dedos enquanto me observava em silêncio por alguns segundos antes de estendê-la na minha direção.
“Acho que está na hora.”
“Na hora?”
“De acabar com o nosso contrato.”
Olhei para ele, surpresa, antes de abrir a pasta devagar. Meu coração disparou no instante em que reconheci os documentos.
E então entendi.
“Papéis de divórcio?”
“Não se preocupa.” A voz dele saiu calma demais. “Você cumpriu sua parte. Eu que estou pedindo isso, então só estou colocando um fim nisso.”
Meu olhar caiu imediatamente sobre a babá eletrônica em cima da mesa.
“Não…” balancei a cabeça quase automaticamente. “Não faz isso. Eu não…”
“Ei, não.” Peeta se apressou em dizer, se aproximando um pouco mais. “Katniss, calma. Não é isso.” Engoli em seco enquanto ele puxava a pasta de volta, abrindo alguns dos documentos. “Esquece o pré-nupcial. Eu não vou tirar a Rayna de você.” Meu peito subiu e desceu rápido demais mesmo com as palavras dele. “Se você olhar os papéis, vai ver que é um acordo justo.” Continuou com cuidado. “Principalmente pra ela.”
“Justo?” Os dedos dele passaram pelas folhas enquanto explicava.
“Uma pensão justa, guarda compartilhada igualmente. Agora ela ainda é muito pequena, então obviamente fica com você e eu vou continuar o mais perto possível.” A voz dele suavizou um pouco. “Depois, quando ela estiver maior e tudo estiver mais organizado, a gente divide da melhor forma. Uma semana com cada um, talvez parte da semana com um e parte com o outro… finais de semana alternados, feriados também. Podemos chegar a um acordo e ver o que fica melhor para ela.” Os dedos dele apertaram levemente a borda da pasta antes de continuar. “Eu já comecei a procurar algumas casas aqui perto pra vocês.” Levantei os olhos para ele imediatamente.
“Uma casa?” Peeta assentiu devagar.
“Sim. Você vai poder escolher. Se quiser algo mais perto do centro também não vejo problema. Talvez um apartamento, se preferir. Eu pensei em algo aqui perto pela logística, escola, rotina, horários… eu não quero que nada disso seja difícil pra ela.” O olhar dele encontrou o meu outra vez. “Mas o que você preferir. Afinal, vai ser sua casa.”
O silêncio que tomou conta da sala pareceu pesado demais. Porque ele falava sobre aquilo de forma prática. Cuidadosa. Pensada. Como alguém que vinha organizando cada detalhe fazia tempo.
“E eu vou continuar presente.” Acrescentou rapidamente, como se precisasse deixar aquilo claro. “Todos os dias eu vou passar lá pra vê-la até ela conseguir ficar comigo também.” Engoli em seco enquanto ele respirava fundo outra vez. “Eu só…” A voz dele vacilou pela primeira vez. “Não acho justo continuar com esse contrato. Nossa filha merece mais.” Meu peito apertou imediatamente. “Nós merecemos mais.”
“Peeta… as coisas estão dando certo.” Minha voz saiu mais baixa do que imaginei. “Estamos indo bem com ela.”
“Sim.” Ele assentiu quase no mesmo instante. “Somos bons pais.” O silêncio durou apenas um segundo antes que ele continuasse. “Mas não somos só os pais dela.” Senti meu estômago afundar. “Katniss… nosso casamento não é real.” Falou com cuidado, como se tentasse não me machucar. “E a gente merece um dia encontrar outras pessoas. Você merece formar uma família de verdade.” Levantei os olhos para ele imediatamente.
“Eu tenho uma família de verdade, Peeta.” Algo no rosto dele vacilou. “Sua família. Eu sei que Delly e eu ainda temos um caminho a percorrer, mas Annie e eu compartilhamos tantas coisas agora por causa das crianças… e seus pais…” Minha voz vacilou um pouco. “Eles são o mais próximo de uma figura paterna que Prim e eu já tivemos. Lavinia e eu deixamos o passado para trás… Alex e eu nos damos bem. Dá até pra dizer que ele gosta de mim.”
O silêncio voltou, ainda pior dessa vez.
Porque, por um instante, ele apenas me encarou, como se aquelas palavras tivessem atingido algum lugar que eu não conseguia enxergar.
“Ela vai continuar sendo.” Respondeu mais baixo. “Você sempre vai ser a mãe da Rayna. E sempre vai ser bem-vinda, Katniss.” Ele colocou a pasta na minha frente sobre a mesa antes de voltar o olhar para mim. “Mas além do que existe por causa da nossa filha… você precisa ser feliz por você também.”
“Eu estou feliz.” Minha resposta saiu rápida demais. “Peeta, não faz isso.”
Vi os dedos dele apertarem levemente a borda da mesa.
“Olha… lê tudo com calma. Procura um advogado e, se precisar, a gente negocia.” Sua voz permanecia controlada demais. “A faculdade da Prim também está inclusa. Eu disse pra ela não se preocupar com o valor dos estudos e ela esta indo muito bem. Prim vai ser uma médica incrível um dia.”
Balancei a cabeça imediatamente, sentindo meu peito apertar cada vez mais.
“Peeta…”
“A única coisa não negociável é o meu tempo com a Rayna.” Interrompeu baixo, mas firme dessa vez.
Levantei da cadeira antes mesmo de perceber o que estava fazendo e parei na frente dele.
Na frente do homem que eu amava em silêncio fazia muito mais tempo do que tinha coragem de admitir.
“Peeta… não é possível que você não sinta nada.” Minha voz falhou um pouco. “Não é possível que não exista nenhuma parte sua que consiga imaginar um futuro pra nós. Um futuro de verdade.”
Ele fechou os olhos por um segundo breve demais.
“Katniss…”
“Não.” Balancei a cabeça imediatamente. “Me deixa terminar…”
Eu precisava fazer aquilo. Precisava me desculpar. Vi o maxilar dele tensionar discretamente.
“Eu sei que te magoei no passado.” Minha garganta apertou imediatamente. “E eu sinto muito por isso. Pelo jeito que eu te tratei. Por ter usado você só porque precisava da sua ajuda quando estava na cara que você teria me ajudado sem esperar nada em troca.”
As palavras começaram a sair antes que eu pudesse impedir.
“Eu era uma adolescente idiota tentando sobreviver e descontando nas pessoas erradas.” Dei uma risada fraca, sem humor algum. “Mas isso nunca foi justo com você.”
Ele continuava em silêncio.
Só me olhando.
E aquilo era pior.
“Você me amava de uma forma tão simples… tão honesta.” Minha voz vacilou outra vez. “E me tratou como ninguém nunca tinha tratado. E eu peguei esse amor e tratei como se não valesse nada.” Senti meus olhos queimarem. “Mas eu preciso que você saiba que eu vejo isso agora.” Peeta respirou fundo, mas não me interrompeu. Os olhos azuis presos nos meus atentamente. “Você foi a primeira pessoa que me fez sentir segura de verdade em anos.” Admiti quase em um sussurro. “E eu acho que passei tanto tempo tentando sobreviver que nunca parei pra entender o que isso significava.”
O silêncio entre nós ficou pesado outra vez, mas dessa vez não parecia distante.
“Então não.” Balancei a cabeça devagar, sentindo as lágrimas finalmente escaparem. “Eu não quero assinar um divórcio porque isso deixou de ser um contrato pra mim faz muito tempo.”
“Katniss…” Dei um passo à frente.
“E não querer o divórcio não é pela nossa filha.” Minha voz saiu trêmula. “Eu não tenho dúvida de que vamos fazer um bom trabalho com ela, juntos ou separados.” Respirei fundo, tentando reunir coragem suficiente para continuar. “Eu quero ficar casada com você porque quero que o nosso casamento seja real.” Admiti finalmente. “Quero tudo de verdade com você. Sem contrato. Sem obrigação. Só… nós.”
Vi algo vacilar no rosto dele pela primeira vez. E aquilo me deu coragem para continuar.
“Eu te amo, Peeta.” As palavras saíram baixas, mas firmes. “E se você não sente nada por mim… tudo bem.” Mentira. Não ficaria tudo bem nem de longe, mas eu precisava dizer mesmo assim. “Mas se sente alguma coisa…” minha voz quebrou de vez. “Qualquer coisa… me diz.”
“Você tem ideia do que está fazendo comigo agora?” A voz dele saiu rouca. “Eu passei tanto tempo tentando apagar isso… tentando aceitar que nunca seria real. Eu nunca devia ter te proposto aquele contrato.” Confessou baixo. “Nunca. Eu estava com raiva, estava magoado e queria te machucar também.”
“Peeta…”
“Eu só…” Ele soltou uma risada fraca, sem humor algum. “Ver você magoada e machucada acabou comigo. E eu fiquei com raiva de mim mesmo porque sei que também te feri com tudo isso.” Ele respirou fundo antes de continuar. “Não posso dizer que me arrependo, porque a Rayna é tudo pra mim. Ela é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida.” Os olhos dele encontraram os meus outra vez. “Mas isso não significa que a forma como tudo aconteceu foi certa.”
Levei a mão até o rosto dele devagar.
Os olhos azuis imediatamente se fecharam por um segundo ao sentir meu toque.
“Então esquece tudo.” Sussurrei. “Vamos começar de novo, do zero.”
Ele abriu os olhos lentamente.
“Começar do zero?”
“Meus erros, seus erros, nossos erros ficam no passado.” Minha voz saiu mais firme dessa vez. “Vamos fazer as coisas sem pressa. Sem contrato. Só… nós dando uma chance pra nós.”
E antes que pudesse pensar no quão ridícula aquilo parecia, estendi a mão na direção dele de uma forma quase infantil.
“Prazer, Katniss.”
A risada que escapou dele dessa vez foi genuína.
Pequena. Incrédula. Linda.
“Desculpa.” Murmurou, balançando levemente a cabeça. “Eu não consigo começar do zero com você.” Meu coração vacilou imediatamente. “Porque nós já temos uma história.” A forma como ele falou aquilo fez meu peito apertar. “Uma bagunçada, complicada e provavelmente meio traumática… pelo menos até aqui.” Ele continuou, se aproximando mais um pouco. “Mas ainda é a nossa história.”
“Peeta…”
Foi então que ele me interrompeu.
A mão dele deslizou firme para minha cintura, puxando meu corpo contra o dele e eliminando qualquer distância que ainda existia entre nós.
E então ele me beijou.
Com força. Com urgência. Como alguém que tinha passado tempo demais se impedindo de fazer aquilo.
Meus dedos foram automaticamente no cabelo dele enquanto o beijo se aprofundava, intenso e carregado de tudo o que nunca tivemos coragem de dizer.
Quando nos afastamos, nossas respirações estavam completamente descompassadas.
A testa dele encostou na minha enquanto uma das mãos subia até meu rosto.
“Eu te amo e sinceramente nem sei quando esse sentimento voltou… ou se algum dia realmente foi embora.” Confessou em voz baixa. “E foi exatamente por isso que eu tentei te deixar ir.” Os dedos dele acariciaram minha pele devagar. “Porque eu queria que você fosse feliz… mesmo que não fosse comigo.” Meu peito apertou diante da vulnerabilidade na voz dele.
Então balancei a cabeça devagar, segurando o rosto dele entre minhas mãos.
“Eu juro que vou ser mais feliz com você.” Sussurrei. “Porque, pela primeira vez em muito tempo… eu tenho certeza de algo. É com você que eu quero estar.” Beijei os lábios dele acabando com qualquer barreira entre nós.
O beijo era intenso e leve ao mesmo tempo, como se finalmente estivéssemos permitindo sentir tudo aquilo sem medo. Meu peito parecia estranho e leve, como se eu conseguisse respirar direito pela primeira vez em muito tempo. Como se colocar aquele sentimento para fora tivesse destrancado algo dentro de mim.
Não era só desejo.
Era pertencimento.
E foi nesse momento que ele me ergueu levemente, invertendo nossos corpos até me colocar sentada sobre a mesa do escritório. Alguns objetos foram afastados sem cuidado enquanto uma das mãos dele percorria minha cintura devagar, subindo pelas minhas costas como se precisasse confirmar que eu realmente estava ali.
O beijo desceu lentamente pelo meu pescoço.
E aquilo quase acabou comigo imediatamente.
O desejo de tê-lo era quase desesperador, intenso de um jeito que chegava a doer. Como eu queria aquele homem. E ele parecia perceber apenas pela forma como meu corpo reagia ao toque dele. Principalmente enquanto tirava minha blusa devagar demais, lentamente o suficiente para parecer parte de uma tortura calculada.
Peeta conhecia meu corpo bem demais para alguém que insistia a minutos atrás que aquilo não tinha sido real.
Os lábios dele tocaram minha pele de forma lenta, arrancando arrepios que atravessaram meu corpo inteiro enquanto os dedos dele apertavam minha cintura um pouco mais firme, me puxando ainda mais para perto.
Soltei o ar devagar quando senti a respiração quente dele contra meu pescoço antes de um beijo leve no ponto exato que sempre fazia minha linha de raciocínio desaparecer completamente.
“Peeta…” Meu sussurro saiu fraco demais.
A risada baixa dele vibrou contra minha pele antes que voltasse a me beijar, agora mais devagar, como se estivesse aproveitando cada pequena reação minha.
Minhas mãos deslizaram pelo peito dele até alcançarem o zíper da calça.
“Katniss…” ele interrompeu o beijo com dificuldade, ainda perto demais da minha boca. “A última vez que fizemos isso numa mesa foi incrível…” O sorriso apareceu devagar nos lábios dele. “Mas o resultado tá lá em cima dormindo.”
A risada escapou dos meus lábios junto da lembrança daquela noite na biblioteca. Porque, independentemente do casamento ser real ou não, a concepção da minha filha havia sido uma das melhores noites da minha vida.
“Eu amo nossa filha e amo ser pai…” continuou rouco, os dedos desenhando círculos lentos na minha coxa exposta. “Mas acho que ainda não é um bom momento pra um segundo filho. E eu definitivamente não tô preparado pra evitar uma gravidez aqui.”
“Sem camisinha, senhor Mellark?” brinquei baixo, vendo ele concordar levemente com a cabeça.
“Tem uma farmácia não muito longe daqui. Preciso de um momento pra ir lá depois que terminar aqui com você.”
Sorri de leve, acariciando a nuca dele. Porque, honestamente, eu não estava surpresa que ele não fosse me deixar no meio do caminho. Não sendo o tipo de amante que ele era.
“Não se preocupa. Dessa vez a injeção tá em dia.” Murmurei perto demais da boca dele. “Você não vai precisar ir lá. Mas você está certo… vamos deixar ela filha única por mais um tempinho.”
Aproximei meus lábios dos dele outra vez, sorrindo de leve.
“Antes de falar em mais filhos, acho que quero aproveitar só a parte de praticar por enquanto.”
Ele mordeu o próprio lábio de leve antes de sorrir daquele jeito que sempre acabava comigo.
E então voltou a alcançar meus lábios outra vez.
“Seu desejo é uma ordem senhora Mellark.”
Eu era uma Mellark… e ouvir aquilo da boca dele, carregado daquele tom baixo, rouco e carinhoso, parecia indescritivelmente certo. E só aquela frase já foi suficiente para me fazer sorrir contra os lábios dele.
O jogo havia acabado.
Ou talvez estivéssemos apenas começando uma nova partida. Dessa vez, finalmente jogando do mesmo lado.
Fale com o autor