Linha Tênue

50 Epílogo


Notas iniciais
Boa noite, espero que vocês estejam bem. Chegando aos 45 do segundo tempo, mas ainda dentro da data prevista… vamos ao epílogo.

Certa vez li que, depois de tantas batalhas, descobrimos que vencer nunca foi destruir o outro, e sim sobreviver sem perder quem éramos.

Ironicamente, eu estava tão focado nas peças que precisava mover para vencer o jogo que não percebi o quanto estive perto de perder a mim mesmo no processo. Felizmente, a vida me deu chances suficientes para voltar e enxergar tudo com clareza.

Chance de deixar o passado de lado e viver o presente da melhor forma possível.

E agradeço todos os dias por isso. Pelo meu presente. Pela vida que tenho.

O som de risadas me fez olhar para a velha casa na árvore no jardim da propriedade dos meus pais. Lugar onde, no passado, eu e minhas irmãs brincávamos incansavelmente, onde um dia meu pai também brincou, assim como Alex, e que agora se tornava palco das brincadeiras, sonhos e imaginação da nova geração. Vê-la sendo ocupada pela minha filha e meus sobrinhos tornava tudo ainda mais especial.

Ver aquela casa que foi meu primeiro lar, um lugar que estava na família havia gerações, cheia de vida, era um sentimento de paz e alegria inexplicável. Minha filha corria pelos mesmos lugares onde um dia eu corri, tinha as marcações de crescimento na pilastra da sacada em frente à pilastra que continha as minhas e fazia daquele lugar tão dela quanto era meu.

Observei Delly com a pequena Rue no que parecia ser um chá da tarde com as bonecas. Aos três anos, a pequena estava na fase de querer descobrir o mundo sozinha, correr de um lado para o outro e não parar quieta por um único segundo… exceto quando era hora do chá com as bonecas. De todas as crianças da família, ela era a que tinha mais energia, algo que atribuíamos completamente à genética de Thresh, que sorria de orelha a orelha sempre que comparavam a filha a ele.

Aliás, Thresh, com todo aquele tamanho, sentado em uma mesinha rosa minúscula rodeado de bonecas, ainda era a cena mais icônica e a foto do perfil do grupo da família até hoje

Não que fosse a primeira vez que ele fazia isso. Afinal, Rayna foi a precursora em fazer não só a mim, mas todos os tios tomarem chá com suas bonecas quando era mais nova. E aparentemente ainda faríamos isso por muito mais tempo, como o próprio Thresh reforçava.

Na verdade, durante o chá revelação de Annie algumas semanas atrás, era a única coisa que ele repetia desde que Kai abriu uma caixa cheia de balões rosa anunciando a chegada de mais uma menina à família.

O que, segundo ele, nos deixava em desvantagem, já que estávamos em menor número comparado às mulheres da família. Meu pai, por outro lado, dizia que elas dominariam tudo independentemente da quantidade.

Ainda assim, eu sabia que meu cunhado queria era um segundo filho. Não necessariamente um menino, apenas mais um bebê. Ele havia crescido como filho único e já tinha comentado o quanto queria mais de um filho e que eles crescessem juntos, sem uma diferença de idade tão grande.

Delly, entretanto, estava inclinada a parar em Rue. Como mãe ela era maravilhosa, mas eu estive lá durante toda a gestação e, segundo ela, fui o primeiro a saber da gravidez. E foi logo em meio aos parabéns, que ela também me confessou os medos e inseguranças além do que, nas palavras dela, era o que mais preocupava.

O fato de que o bebê iria precisar sair… e que iria doer.

Eu não podia ajudar muito com aquilo. Tinha consciência de que doeria e, embora não pudesse mensurar quanto, sabia que Delly nunca teve muita resistência para dor.

E por mais que eu tenha sugerido que ela conversasse com nossa mãe ou com Annie, ela não quis. Achava que elas diriam que ficaria tudo bem, que ela conseguiria, quando na verdade ela só queria alguém para compartilhar seus medos. E durante aquelas semanas eu a vi feliz e animada na frente de todos, enquanto escondia o medo do jeito dela. Então, eu fiz aquilo que fazia desde que nos conhecemos. A abracei e ouvi. Porque éramos o porto seguro um do outro.

Sendo que a única coisa na vida que não dividi com ela foi toda a questão envolvendo o contrato por trás do meu casamento. Mais por saber que ouviria horrores sobre o assunto, mesmo depois de tudo resolvido, do que por qualquer outro motivo.

O som de cascos preencheu o ambiente e olhei em direção aos três cavalos que se aproximavam, sorrindo ao observá-los cada vez mais perto.

“Pai, eu ganhei a corrida de novo”, Rayna contou empolgada, descendo agilmente do cavalo preto com tanta facilidade que me fez sorrir.

“É mesmo? Parabéns, princesa. Sua mãe vai ficar empolgadíssima ao saber disso”, comentei, vendo Alex segurar o riso enquanto acariciava a crina de Cometa. Ele sabia que Katniss tentaria disfarçar diante dela, sorrindo e parabenizando, mas que ficaria apavorada ao descobrir que ela estava, mais uma vez, apostando corrida em vez de apenas cavalgar apreciando a paisagem, como insistia em sugerir à pequena.

“Não é muito justo, já que Canela não é um corredor como Relâmpago”, Kai comentou, embora não parecesse realmente chateado ao descer do próprio cavalo. “Mamãe diz que os Haflinger são cavalos de lazer, não são tão bons corredores.”

Sorri ao pensar que Annie repetia aquilo desde a juventude, quando apostávamos corrida e ela sempre terminava em último.

“Papai, o cavalo da Rue vai ser um bom corredor?”

“Não, meu bem. O dela vai ser um Haflinger, assim como o do Kai e das suas tias.”

Observei enquanto eles discutiam as qualidades de seus respectivos animais sem realmente me preocupar com a pequena disputa. Eles eram próximos demais para aquilo gerar qualquer preocupação.

Delly estava certa quando disse que eles seriam como eu e ela. Mesmo não sendo irmãos, era como se fossem. Estavam crescendo juntos e nunca se desgrudaram desde muito cedo. Estudavam na mesma turma e era comum encontrar Kai brincando de boneca lá em casa da mesma forma que Rayna brincava de carrinho em meio às inúmeras pistas espalhadas pelo quarto dele. No fim, havia brinquedos que já nem sabiamos mais o dono específico, porque não era incomum um pedir algo de presente apenas para brincar com o outro.

Meu sobrinho tinha a calma e a paciência de Annie, além do jeito protetor que Finn tinha absoluta certeza de que ele herdaria da mãe. O loirinho parecia ter nascido com a necessidade de cuidar de todos. Principalmente da prima.

Algumas semanas atrás fui chamado à escola e não me surpreendi ao encontrar minha irmã no elevador da empresa, indo para lá também. Afinal, onde um estava, o outro geralmente estava junto. Ou seja se um tinha aprontado o outro estava envolvido.

No final, aparentemente Kai havia empurrado um coleguinha. O motivo? O garoto não queria deixar Rayna brincar e ainda disse que futebol era “coisa de menino”. Rayna, com o temperamento geralmente dividido entre o meu e o de Katniss, claramente puxou mais a mãe naquele momento e não deixou barato, com uma resposta afiada. Mas, embora o garoto sequer tenha tocado nela, o simples fato de ter avançado mais irritado fez Kai entrar na frente da prima e empurrá-lo para trás com força suficiente para fazer o garoto cair no chão.

E embora eu tivesse sentido orgulho do meu sobrinho por protegê-la daquela forma, e ele fosse ganhar um excelente presente sem motivo assim que o assunto fosse esquecido, mantive o sentimento guardado diante do olhar cortante da minha irmã mais velha enquanto ela explicava ao filho que não era certo empurrar um colega. Ao mesmo tempo, Katniss dizia a Rayna que ela precisava conversar e explicar as coisas sem acabar respondendo ou discutindo com as pessoas.

Finn, por outro lado, precisou praticamente ser convidado a sair da sala da diretora, já que começou a usar argumentos demais para defender a atitude do filho, como se estivéssemos em um tribunal. Acusou o pai do outro garoto de machismo, disse que ele estava criando uma criança preconceituosa e ainda quis saber quais eram os protocolos da escola para bullying diante daquela situação. Mas a frase “futebol não tem gênero” foi suficiente para Annie fazê-lo sair antes que ele começasse um discurso ainda maior na frente das crianças.

Entre outras coisas que definitivamente estavam mais latentes agora que ele seria pai de menina.

Claro que, depois que as crianças saíram da sala, tanto Annie quanto Katniss assumiram muito bem o papel de advogadas de defesa. Principalmente quando o outro pai resmungou sobre como uma escola de alto nível agora “permitia qualquer coisa”.

E embora eu quisesse dizer algumas coisas, deixei as duas falarem. Annie sobre leis e respeito. Katniss sobre como meninas não precisavam ser limitadas ao que os outros achavam apropriado para elas. Honestamente, depois de alguns minutos, eu quase senti pena do homem. Quase.

Os professores chegaram a sugerir separá-los na escola para que fizessem novos amigos. Entretanto, não era como se eles não tivessem outras amizades, apenas eram melhores amigos um do outro. Então, depois de uma conversa entre nós quatro, decidimos manter tudo como estava.

“Pai, a tia Prim não vem hoje?”

“Não. Ela não conseguiu trocar o plantão da residência, querida.” Vi Rayna suspirar. Ela era apegada demais à tia e aquele período da residência estava sendo difícil, já que Prim vivia presa em plantões. “Mas a tia Lavinia chega amanhã e vem direto pra cá.”

“Sério?” Ela olhou para Alex, que confirmou com a cabeça, sorrindo.

Apesar de já ser um homem feito, eu sabia que ele sentia saudade da mãe. Minha melhor amiga havia saído em uma lua de mel prolongada, com tudo que tinha direito, e eu estava feliz por ela finalmente ter encontrado alguém para dividir a vida. Alguém que a fazia sorrir como eu nunca tinha visto antes.

“Sim, mas vocês deveriam levar os cavalos até o estábulo e ir se arrumar ou vão perder a sessão. Lembrem que o cinema daqui não tem tantos horários porque é menor.”

Os menores logo subiram nos cavalos e saíram animados em mais uma corrida, com Alex atento logo atrás.

Sorri ao ver minha pequena tão confiante em cima do cavalo que amava tanto. A cena era assustadoramente parecida com o sonho que tive quando descobri a gravidez de Katniss, antes mesmo do chá revelação onde descobrimos que seria uma menina.

Eu ainda me lembrava perfeitamente dele.

O sol iluminava os campos ao redor da propriedade enquanto uma garotinha corria em um cavalo preto idêntico a Tempestade. Os cabelos escuros, longos e ondulados balançavam com o vento e ela ria alto, daquele jeito leve e despreocupado que parecia preencher tudo ao redor, enquanto cavalgava sem medo algum, completamente à vontade, como se tivesse nascido para aquilo.

Lembro que, no sonho, eu não conseguia enxergar o rosto dela com clareza. Apenas tive aquela sensação estranha e intensa no peito, como se eu já a conhecesse.

Na época, tive certeza de duas coisas: seria uma menina e eu precisava providenciar rapidamente um filhote da Tempestade.

E ali estava ela agora. Uma das rainhas do meu tabuleiro. Meu mundo inteiro concentrado em um único ser. Um pouco de mim vivendo em outra pessoa.

Com meu nariz, meus olhos e, claro, tantos traços da mulher que eu amava. Os cabelos escuros, o sorriso fácil, aquela mistura tão nossa com pequenas partes inteiramente dela. Forte, intensa, livre… e impossível de não amar.

Às vezes ainda me assustava perceber como alguém tão pequeno conseguiu ocupar um espaço em mim que eu nem sabia que estava vazio. Verdade seja dita Rayna se tornou a parte mais importantes da minha vida simplesmente por existir.

Foi então que senti o perfume inconfundível antes mesmo de sentir os braços em volta da minha cintura.


POV Katniss


Observei os cavalos seguindo em uma velocidade que, para mim, ainda parecia alta demais, e senti meu coração apertar ligeiramente. Ela precisava de espaço, precisava crescer, ser criança e descobrir sozinha quem queria ser. Ainda assim, parte de mim provavelmente jamais deixaria de enxergar todos os perigos possíveis ao redor dela.

Me aproximei do loiro parado observando os mais novos se afastarem e o abracei por trás. Senti o corpo dele relaxar quase imediatamente enquanto o perfume conhecido invadia meus sentidos, me fazendo encostar o rosto em suas costas e fechar os olhos quase por instinto.

“Onde eles estão indo?”, perguntei ainda de olhos fechados.

“Aos estábulos ou vão perder o horário do cinema.”

“Eles estão apostando corrida, não estão?”

“Estão. A última a Rayna ganhou.” Senti meu coração apertar e o abracei mais forte. “Amor, ela está segura. Você sabe que eu nunca deixaria ela fazer essas coisas se não confiasse que ela e Kai estão prontos.”

“São animais grandes, Peeta. Pessoas caem. Ele pode sair em disparada e ela não conseguir controlar…”

Ele segurou meus braços com cuidado e me puxou para frente dele, fazendo meus olhos encontrarem os seus. Um movimento nosso de olhar nos olhos como se para passar confiança.

“Amor, Rayna anda comigo desde os dois anos.” Concordei em silêncio, lembrando do quanto era bonito ver os dois cavalgando juntos pela propriedade. “Ela começou a andar sozinha aos cinco e, em dois anos, já tem mais confiança que muito adulto. E o Relâmpago tem uma ligação com ela desde que nasceu.” Ele sorriu de leve. “Sem contar que ele é muito bem treinado.”

Eu sabia que ele tinha razão. Nossa filha amava cavalos exatamente como ele.

Minhas suspeitas durante a gestação estavam completamente certas. Rayna amava a casa dos avós, amava passar férias ali, os feriados e qualquer ocasião que nos trouxesse de volta ao 12. Sem a menor dúvida, aquele lugar também era um lar para ela.

Principalmente por causa dos cavalos. Principalmente do dela. Aliás, cavalo ou “bocotó”, como costumava chamar quando menor havia sido uma das primeiras palavras que ela aprendeu, vindo antes até de alguns nomes importantes da família.

Thresh nunca superou aquilo. Mesmo depois de explicarmos que o nome dele era muito mais difícil de pronunciar, continuou tratando o assunto como um tópico extremamente sensível e fazia questão de trazer aquilo à tona sempre que tinha oportunidade, apenas para se fazer de vítima.

“E o Alex está de olho. Eu ensinei o garoto e o cavalo dele é tão bom e rápido quanto Relâmpago agora. Ele vai cuidar daqueles dois.” Peeta sorriu convencido antes de completar: “Aliás, ensinei nossa filha também. Ela é praticamente uma amazona, querida. Confia em mim, ela vai ficar bem.”

Os dois haviam feito aulas de equitação na Capital também, mas tanto Peeta quanto Annie insistiram em dar as primeiras aulas e foi impossível não me emocionar vendo os dois irmãos ensinando os filhos juntos.

“Você é tão convencido”, brinquei, colocando a mão contra o peito dele.

Peeta abriu aquele sorriso largo que eu amava tanto e levou minha mão até os lábios, beijando meus dedos com carinho antes de roçar os lábios nos meus em um beijo leve e demorado.

Meu olhar caiu automaticamente sobre o anel em meu dedo.

O segundo anel de casamento era um pouco mais discreto que o primeiro. Ainda assim, para mim, era infinitamente mais bonito.

Talvez porque tivesse sido escolhido por ele em um momento em que éramos realmente nós. Sem contratos, obrigações ou aparências. Apenas Peeta e eu.

Ou talvez porque aquele anel representasse exatamente o que nos tornamos depois de sobreviver a tudo. Não o começo da nossa história… mas a escolha consciente de continuarmos juntos mesmo depois de conhecer todas as partes quebradas um do outro. Mesmo depois dos erros do passado.

E honestamente. Eu amava essa versão da gente.

Claro que não era um conto de fadas. Tínhamos nossas diferenças e, depois de tudo que vivi, Peeta me ensinou que um relacionamento não precisava ser perfeito para ser feliz. As diferenças não precisavam ser um problema, bastava saber lidar com elas. E era exatamente isso que fazíamos todos os dias.

Não concordávamos com tudo, e estava tudo bem. Apenas aprendemos a respeitar um ao outro e conversar. Conversar de verdade.

Esse talvez fosse o maior ponto de equilíbrio do nosso relacionamento.

O diálogo.

Depois de tantas coisas que aconteceram entre nós, conhecer um ao outro pouco a pouco e abrir o coração não apenas sobre sentimentos, mas também sobre medos, angústias, passado e erros, foi primordial para chegarmos até ali.

O homem à minha frente, que foi se revelando aos poucos, em pequenas camadas, mostrando suas fragilidades sem medo, só me fez me apaixonar ainda mais por ele. E, de certa forma, aquilo também me obrigou a olhar para mim mesma. Para quem eu era além das minhas dores.

Saber sobre o passado envolvendo o acidente de carro que ainda o fazia temer águas escuras me fez pedir desculpas mais de uma vez. Porque Peeta era um sobrevivente, mas também um guerreiro. Afinal, mesmo carregando tantos medos e receios, ele enfrentava seus próprios fantasmas.

Fosse entrando no lago comigo e com os outros. Fosse entrando na piscina durante as aulas de natação da nossa filha ainda bebê. Ou até mesmo aceitando viajar para apresentar o mar a Rayna, que, assim como o primo, achava a imensidão azul uma das coisas mais espetacular do mundo.

Talvez tenha sido justamente nesses pequenos momentos, que percebi o quanto nós dois havíamos mudado. Não de forma dolorosa como antes, mas crescendo juntos pouco a pouco, aprendendo a reconstruir nossas vidas em meio às marcas que carregávamos.

Depois de tudo, eu nunca mais vi nem o anel nem a aliança que me foram levados. E não demorou muito após nossa reconciliação para que Peeta providenciasse um novo jogo de alianças junto de um pedido de casamento e um novo anel.

Não imediato, até porque já éramos casados no papel, mas como uma promessa. A promessa de uma cerimônia planejada com calma dessa vez. Nossa. No religioso. A representação de que, independentemente de tudo que aconteceu antes, nossa união seria para sempre.

Escolher esperar nossa filha ter idade suficiente para participar acabou sendo a decisão perfeita.

E com quase quatro anos, Rayna foi a daminha mais linda do mundo.

A cerimônia aconteceu apenas para familiares, alguns amigos próximos e poucas pessoas realmente importantes para nós. Exceto, claro, Clove, que continuava extremamente irritante e foi convidada unicamente para presenciar aquele momento. Afinal, não fazia mal deixar meu lado mais mesquinho aparecer de vez em quando com certas pessoas.

Ainda assim, nossa troca de votos foi muito mais bonita do que qualquer coisa que um dia imaginei.

Desde os preparativos, com Effie praticamente me ajudando em tudo junto das outras mulheres da família, até Delly comentando entre risadas sobre a ironia e talvez meu planejamento inconsciente de fazê-la achar um vestido elegante nas últimas semanas da gravidez. Exatamente como aconteceu comigo no dela.

Mas acho que nada me marcou tanto quanto entrar na cerimônia ao lado de Haymitch.

Ele ficou genuinamente emocionado quando o convidei para me acompanhar até o altar substituindo meu pai. E honestamente, não existia ninguém melhor para aquilo.

Porque, assim como Effie, Haymitch foi uma das pessoas que abraçou a mim e Prim depois de tudo. Sem obrigação, sem interesse ou esperando algo em troca.

E apesar de, naquele momento, sentir a ausência dos meus pais, aquilo também me marcou porque, mesmo sem eles ali, ainda parecia completo.

Doía mas ainda era completo. Naquele momento eu entendi aquilo que os Mellark demostravam o tempo todo.

Que família nunca foi apenas sobre sangue.

Às vezes era sobre quem escolhia ficar.

Quem segurava sua mão quando tudo desmoronava.

Quem permanecia mesmo conhecendo as piores partes de você.

Então caminhar até Peeta ao lado de Haymitch não pareceu estranho em momento algum. Pelo contrário. Pareceu exatamente como deveria ser.

“Um beijo pelos seus pensamentos.” Sorri antes de alcançar seus lábios rapidamente, roubando um selinho.

“A vantagem de ser sua esposa é que posso ter quantos beijos quiser.” Ele sorriu daquele jeito convencido que ainda mexia comigo mesmo depois de todos aqueles anos.

“Você tem um ponto.”

“Mas eu estava só pensando sobre a vida… e agora estou pensando na reunião de segunda.”

“Ah, não. Sem trabalho, por favor. Estamos de férias.”

“Você está de férias, eu não. Segunda tenho que entrar em uma agenda online que facilmente poderia ser um e-mail.”

“Escolha sua. Porque, se você trabalhasse na empresa, estaria de folga ou no mínimo transformaria essa reunião em um e-mail.” Revirei os olhos, divertida.

“Engraçadinho. Gosto de trabalhar fora da M.Company. Você sabe… trilhar meu próprio caminho, essas coisas.”

“Você sabe que poderia trilhar seu próprio caminho dentro da empresa também.”

“Hum…”

“Mas eu entendo.” Ele beijou minha testa com carinho. “Ainda assim, você sempre será muito bem-vinda lá.”

A escolha de voltar a trabalhar quando Rayna ficou um pouco maior não foi fácil. Uma parte de mim queria desesperadamente passar cada segundo ao lado dela, aproveitar cada fase, cada descoberta, cada pequeno momento. E eu podia fazer isso sem o menor problema. Não era o dinheiro que movia minha vontade de trabalhar novamente.

Era o sonho da carreira que um dia eu escolhi para mim.

Uma das poucas escolhas do passado que fiz pensando exclusivamente no que eu queria para minha vida.

Obviamente, quando conversamos sobre isso, Peeta imediatamente sugeriu um cargo na empresa. Mas, no fundo, eu sentia que precisava trilhar meu próprio caminho.

E ele entendeu isso desde o início.

“Mudando de assunto, o que vamos fazer essa noite?”

“Verdade… noite de folga.” Ele fingiu pensar por alguns segundos. “Temos um vale night. Quer sair?”

“Não sei. Talvez dar uma volta pela cidade… ou podemos simplesmente ficar juntinhos, trancados no quarto.”

Peeta abriu um sorriso imediato.

“Essa definitivamente me parece uma ótima ideia.”

Não demorou muito para Rayna voltar e eu segui com ela até a casa para ajudá-la a se arrumar antes de sair.

“Onde estão os gêmeos fake?” ouvi a voz de Alex questionar um pouco mais tarde naquele dia. “Se vocês não se apressarem, vamos perder a sessão e é a última do dia.”

“Não esquece de tomar cuidado na estrada, principalmente na volta”, ouvi Peeta comentar enquanto os observava pegar as coisas para sair.

“E não usa meu filho para conquistar garotas”, Finn brincou logo em seguida.

Alex soltou uma risada baixa enquanto Kai revirava os olhos de forma quase idêntica à de Annie.

“Ah, não. Eles já estão grandes demais pra isso. Mulheres gostam de crianças menores, acham fofo. Pra conquistar alguém usando criança eu saio com a Rue.”

“Esse garoto anda muito petulante”, Finn se indignou imediatamente, arrancando risos de todos ao redor.

Foi nesse momento que o telefone de Peeta tocou. Ele apenas beijou o topo da cabeça da nossa filha antes de se afastar um pouco para atender.

Segui as crianças até o carro junto de Annie, conferindo o assento elevado e se estava tudo corretamente preso.

“Não exagerem nos doces, se cuidem e, principalmente, divirtam-se”, avisei me despedindo dos três.

Assim que o carro se afastou, voltei para dentro da casa, onde encontrei meus sogros sentados na sala assistindo algum desenho com a neta mais nova enquanto Finn pegava a chave de outro carro para sair com Annie. Os dois também haviam decidido aproveitar a noite sozinhos.

Delly e Thresh já tinham saído alguns minutos antes.

Subi para o segundo andar procurando Peeta, que havia desaparecido para atender o telefone. Quando entrei no quarto, o encontrei parado perto da janela com o celular ainda na mão e uma expressão surpresa no rosto.

“Aconteceu alguma coisa?”, perguntei, me aproximando.

“Acho que sim.”

“O que foi?”

Peeta passou a mão pelo rosto ainda parecendo tentar processar a informação antes de finalmente me olhar.

“Amor… era um número desconhecido. Um assistente social.”

Senti meu coração acelerar imediatamente.

A ideia de aumentar a família havia surgido alguns anos antes. Claro que, no início, pensar em uma nova gravidez me assustava um pouco. Era tudo muito recente, havia acontecido coisa demais e eu sabia que Peeta também se preocupava com isso, principalmente comigo. Mesmo sem falar diretamente, eu conhecia o suficiente dele para saber que parte do medo vinha do receio sobre como eu ficaria emocionalmente passando por tudo outra vez.

Por um tempo, cerca de três anos atrás, nós até tentamos. Ou melhor… “não tentamos evitar”. Suspendemos os métodos contraceptivos e deixamos as coisas acontecerem naturalmente, caso fosse para acontecer.

Mas não aconteceu.

Claro que procuramos médicos. E embora o veredito fosse que eu ainda poderia engravidar novamente, também sabíamos que talvez não fosse algo simples.

A ideia da adoção partiu de mim. Mesmo sabendo que aquilo já passava pela cabeça de Peeta há muito tempo.

Apesar de tudo, adoção estava longe de ser algo simples. Todos os trâmites, entrevistas, papeladas, visitas, avaliações e assistentes sociais analisando nossas vidas e condições não foram fáceis. Mas sabíamos que era necessário afinal aquilo era sobre a vida e o bem estar de uma criança. Ainda assim, depois de enfrentar tudo aquilo, a fila de espera conseguia ser ainda mais torturante.

“O que ele disse?”, perguntei tentando controlar a ansiedade na voz.

“Existem… dois irmãos.” Ele falou devagar, como se ainda estivesse assimilando a informação. “Cinco e dois anos. Eles estão priorizando casais dispostos a mantê-los juntos e, como nosso perfil dizia aberto a possibilidade de mais de uma criança…” Ele estendeu o celular e me entregou. “Ele mandou as fotos.”

Peguei o aparelho sentindo minhas mãos tremerem levemente. Uma menina e um menino apareciam abraçados em uma foto simples, sorrindo tímidos para a câmera.

Meu coração apertou imediatamente.

“Ela disse que gostaria que fôssemos conhecê-los na próxima semana… se tivermos interesse.”

Foi então que nossos olhares se encontraram em uma conversa silenciosa, porque nós dois sabíamos exatamente o que estava acontecendo naquele momento.

Observei Peeta outra vez e ele apenas confirmou levemente com a cabeça, como se dissesse que também sentia aquilo.

Então corri para os braços dele.

Nossa família estava crescendo.


Notas finais
Bom, é isso. De coração, espero que vocês tenham gostado desse final. No dia 13 de maio de 2016 eu comecei esse enredo sem imaginar que levaria exatamente 10 anos para concluir essa jornada. E eu quero agradecer imensamente a todos vocês que chegaram até aqui comigo. Quando voltei a escrever, comentei algo sobre a vida mudar… e mudar de novo. E acho que foi exatamente isso que aconteceu aqui. E eu amei, de verdade, escrever e compartilhar tudo isso com vocês. Mas principalmente acompanhar o carinho em cada comentário, cada mensagem e cada interação. Sei que alguns estão aqui desde o primeiro capítulo. Leitores que começaram essa história ainda adolescentes e hoje são adultos extraordinários. Mães com filhos pequenos que hoje já estão quase adolescentes. Pessoas que nem pensavam em maternidade e hoje já são mães. E também aqueles que chegaram há pouco tempo, mas decidiram embarcar nessa jornada comigo. Obrigada a cada um pela leitura, pela paciência e pelo carinho. Me desculpem pela demora. Espero, de coração, não ter decepcionado vocês. Pra mim, essa história passou por muitas fases diferentes. E embora muita coisa tenha permanecido como pensei lá no começo, outras mudaram no caminho. Novos momentos surgiram, personagens cresceram e minha forma de escrever mudou junto. Fui de capítulos com duas mil palavras para capítulos gigantescos de dez mil. E honestamente. Só tenho a agradecer por vocês terem permanecido aqui mesmo assim. Muito obrigada por tudo. Beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!