Linha Tênue

36 Capítulo 33: O Rei Isolado


Notas iniciais
Olá, meus queridos! Espero que estejam todos bem. Vamos seguir com esse enredo... Bora para o próximo capítulo, que tem novidade.

As semanas que se seguiram à visita do meu pai foram, sem sombra de dúvida, intensas. A agenda de Peeta estava lotada, fossem jantares beneficentes, lançamentos de produtos ou encontros de negócios, estávamos sempre interpretando nosso melhor papel de casal apaixonado pelo menos três vezes por semana.

Além disso, onde quer que fôssemos, o clima e as perguntas sobre a festa de aniversário da M.Company eram constantes. Pelo que soube, nos últimos três anos esse evento se tornou um dos mais aguardados fosse pelo tamanho da celebração em si, fosse pelo anúncio dos investimentos voltados a pequenas empresas, que vinham ganhando cada vez mais destaque e inspirando outras companhias a adotar o mesmo modelo.

Chegamos ao restaurante no centro da cidade no horário combinado para o jantar daquela noite. Mais um momento em que meu papel era socializar com as acompanhantes enquanto os demais discutiam negócios e estratégias de mercado.

Assim que Peeta deu nossos nomes na recepção, um maître nos conduziu até uma sala privativa, comum em restaurantes desse nível, muito usadas para jantares mais íntimos e reservados. A mesa circular, para seis pessoas, estava posta de forma elegante, preparada para um jantar completo de alto padrão.

“Senhor Mellark, é um prazer revê-lo.” O jovem se levantou com um grande sorriso ao cumprimentar meu marido, e por um momento ele me pareceu familiar.

“Como vai, Partner? Se lembra da minha esposa? Ela estava comigo durante nosso breve encontro, mas não tive a oportunidade de apresentá-la. Katniss, esse é Rory Partner. Nos encontramos rapidamente no Distrito 12.” Sorri educadamente e o cumprimentei, lembrando da abordagem do jovem em uma sorveteria um dia após o dia de Ação de Graças. “O projeto dele é, de fato, muito promissor”, completou Peeta. “É uma grande aposta para ser um dos financiados deste ano.”

Ele sorriu com o comentário e logo apresentou a namorada, uma jovem simpática, bem vestida, com um sorriso gentil.

“Peço desculpas, meu sócio está a caminho. Ele vai se atrasar um pouco por causa de um voo adiado hoje cedo, mas falei com ele e ele já está quase chegando.”

Sentamos em nossos lugares, e observei uma conversa leve se formar. Nada relacionado a negócios ainda. Já tinha acompanhado Peeta o suficiente nesses jantares para saber que ele sempre preferia criar um clima mais confortável, falando de amenidades antes de mergulhar nos assuntos de trabalho .

Alguns minutos depois, pedi licença e sai da sala em direção ao banheiro. Aproveitei para verificar a maquiagem. Ao retornar e virar o corredor das salas privativas, vi algo que me fez congelar. Gale estava entrando na mesma sala da qual eu havia saído minutos antes. Meu coração parou por um segundo enquanto tentava identificar se ele havia me visto, mas foi fácil perceber que não pois ele nem olhou para os lados. Estava apressado ao passar pela porta que o maître gentilmente mantinha aberta.

Senti o mundo girar , e meu coração que a segundos atrás parecia ter parado disparou de repente. Uma sensação sufocante me invadiu sem aviso. Dei dois passos para trás, as costas se encostando na parede fria. Quis recuar, desaparecer.

Eu não podia entrar naquela sala. Eu não podia passar por ele, olhar pra ele. A possibilidade dele sair foi o combustível para que voltasse cambaleando para o banheiro. Encostei-me ao espelho, o reflexo revelando meu rosto pálido, quase sem cor, mesmo sob a maquiagem bem feita.

“Senhora, está tudo bem? Quer que eu chame alguém?”

A voz suave de uma funcionária me alcançou como um sussurro distante. Seu rosto expressava gentileza e preocupação.

Tentei responder, mas nenhuma palavra saiu. Na verdade, eu queria apenas que alguém me levasse dali. Mas minha boca não se movia, minha voz não saia.

Ela pareceu entender que algo estava errado. Provavelmente já ia sair para buscar ajuda quando, com certo esforço, consegui recuperar um pouco da voz.

“Estou bem... Acho que tive uma leve queda de pressão. Só preciso de alguns minutos. Não se preocupe.”

“Tem certeza, quer que eu pegue algo para a senhora?”

Balancei a cabeça lentamente. Eu só precisava respirar. Peguei o celular na bolsa para chamar um carro de aplicativo e sair dali sem ser notada. Se me movesse com cuidado, sem chamar atenção, poderia escapar discretamente, mas assim que abri o aplicativo, parei.

A realidade me atingiu com um soco no estômago. O problema não era só o incômodo de deixar Peeta sozinho em um jantar de negócios, nem as possíveis consequências sociais de sair no meio de um evento sem aviso, isso eu podia lidar depois. Mas sim o fato de que Peeta não era burro e logo entenderia o que havia por trás da minha súbita fuga. E o pior: usaria isso, afinal ele não perderia a oportunidade de me manter desconfortável, principalmente se percebesse o quanto eu queria Gale longe de mim.

Demonstrar qualquer reação só daria a ele o prazer de explorar meu desconforto, ele daria um jeito de manter Gale por perto só para me desestabilizar. Eu não podia deixar transparecer. Eu precisava me recompor e voltar o mais breve possível .

Lembrei das palavras da minha mãe: “Não deixe que os outros percebam o quanto frágil você está , mantenha a postura e o controle.” A teoria era mais fácil que a prática e precisei de um longo momento antes de conseguir guardar o celular, ajeitar o cabelo com os dedos e caminhar de volta para meu campo de batalha. Cada passo parecia um teste de equilíbrio entre o autocontrole e o caos, no fundo eu ainda me apegava a esperança de ser um engano e de não encontra-lo ao abrir a porta. Mas não era , é assim que entrei pude vê -lo sentado ao lado de uma mulher de longos cabelos castanhos quase de frente para o meu marido em meio a uma conversa casual com os presentes.

Meus pés vacilaram por um instante. Mas não deixei que isso chegasse ao meu rosto.

“Olha ela aí. Está tudo bem, querida?” Peeta se levantou com aquele gesto perfeitamente treinado, o cavalheirismo que parecia real, mas era só mais um papel na peça.

“Sim... me desculpe pela demora. Precisei atender uma ligação.” Podia sentir minhas pernas tremerem no curto trajeto até a cadeira, mas me obriguei a manter passos firmes, como se tudo estivesse sob controle. Rory começou a falar no instante em que me sentei.

“Gale, esta é...” O moreno finalmente olhou na minha direção.

“Katniss...” Seu olhar carregava uma mistura de surpresa e algo mais que eu não consegui decifrar. Por um breve momento, achei que ele diria alguma coisa. Mas então, ele apenas sorriu um sorriso contido e calculado.

“Você conhece a senhora Mellark, Gale?” Rory perguntou, curioso, assim como as outras mulheres sentadas à mesa, Peeta observava tudo com atenção. Gale olhou para mim, depois para Peeta. Por um instante, notei que ele estava pensando no que dizer a seguir.

“Sim. Estudamos juntos. Quando ela era uma Everdeen.” Respondeu de forma vaga, uma fração mínima da verdade que nos envolvia. “Faz tempo que não nos vemos, não é?” completou. “Eu… ouvi por aí que tinha se casado.” Claro que ouviu. Não me surpreendi. Era evidente que o pai dele havia contado.

“Sim, muito tempo.” Torci para minha voz não falhar.

“Uau, que mundo pequeno, não é?” Rory comentou, rindo, totalmente alheio ao peso silencioso que pairava sobre a mesa.

“Aliás, deixa eu apresentar, minha namorada, Megan Stalen.” Gale abriu um largo sorriso ao dizer isso. Cumprimentei Megan com um sorriso.

Nesse momento, os garçons chegaram com as entradas. O ambiente foi preenchido com o tilintar suave dos talheres e o aroma delicado dos pratos recém-preparados. Um deles se aproximou e, com um gesto elegante, colocou à minha frente um prato lindamente montado e apresentou o mesmo.

“ Carpaccio de beterraba em finas lâminas, arranjadas como pétalas de rosa, com lascas de parmesão curado, um fio de pesto de sementes de abóbora.” Fiquei um instante confusa, e ligeiramente surpresa, havia saído antes de recolherem os pedidos.

“Pedi pra você, é uma das recomendações do chef, e é rico em ferro.” Peeta sorriu com naturalidade, como se aquele gesto fosse casual, mas sabia que não era. Era atenção calculada, um cuidado para parecer afeto. O garçom se aproximou novamente para servir o vinho. Peeta provou primeiro, como de costume, e após seu aceno de aprovação, as taças começaram a ser preenchidas ao redor da mesa. Quando chegou à minha vez, ergui a mão, recusando discretamente. Além dos remédios que vinha tomando, a última coisa que meu corpo precisava naquele momento era álcool. “Uma tônica de mirtilo e limão para ela, por favor,” a voz de Peeta surgiu antes mesmo que eu respondesse.

“Você não bebe, Katniss?” Alana perguntou do outro lado, educada.

“Dificilmente.” Respondi, tentando manter o tom leve, mas sabia que Gale me observava. Ele tinha testemunhado minha fase festeira onde o álcool era quase uma extensão da minha mão durante todo final de semana.

A conversa começou a fluir com mais leveza pela mesa. Eu me esforçava para participar, mastigando lentamente enquanto lutava contra o incômodo que ainda tomava meu corpo. Cada garfada era controlada, quase ensaiada, como se fazer parte daquele jantar fosse uma prova de resistência.

“Sou modelo fotográfica no Distrito 13, mas Gale tem ótimos planos e, se tudo der certo, vamos morar aqui na Capital. Afinal, aqui tem muita oportunidade na minha área.” Megan sorria constantemente, o tipo de sorriso que busca aceitação, doce, e cuidadosamente mantido. E aqueles planos me pareceram muito familiares.

“E você, Katniss, trabalha com o quê?”

“Me formei em marketing. Atuei na área como gerente de marketing até o ano passado.”

“Nossa, por que parou?” Senti o olhar de Gale sobre mim novamente. Ele sabia melhor do que qualquer um o quanto eu era apaixonada pelo meu trabalho e o quanto parar era a última coisa que eu queria fazer.

“Atualmente, Peeta tem uma agenda tão corrida que adicionar a minha própria rotina a tudo isso acabaria sendo inviável… e isso refletiria no nosso casamento. Além disso, ainda não completamos nem um ano de casados. Queremos aproveitar ao máximo esse tempo. Mas considero como uma pausa, não um fim definitivo pra minha carreira.” Tentei sorrir ao dizer isso, tentando ao máximo ser convincente.

A conversa fluiu bem durante o jantar, com Gale frequentemente voltando o olhar em minha direção. Após a sobremesa, nos sentamos no conjunto de sofás no canto da sala, enquanto os homens permaneceram à mesa, ainda conversando. Notei quando o garçom trouxe whisky, Peeta recusou, assim como Rory. Gale, porém, hesitou por alguns instantes antes de também negar. Ele estava sendo cauteloso.

“Acho que vou seguir o exemplo das moças e ficar na tônica agora.” Ele comentou, em um tom de piada. Por mais que eu tentasse prestar atenção ao que Megan e Alana diziam, minha atenção se voltava para a conversa na mesa. Limitei-me dar um sorriso ou outro, acompanhando a expressão delas. “Você curte basquete?”

“Na verdade, não. Sempre fui mais do time da matemática.” Peeta respondeu com um sorriso calmo, observando Gale com atenção.

“É mesmo? Bom, eu joguei profissionalmente até pouco tempo atrás. No Outlaws. Um grande time.” Na realidade, era um time de terceira divisão, mas isso era algo que Gale jamais admitiria. Sua trajetória no basquete era um ponto delicado, um capítulo que ele reescrevia conforme sua própria narrativa. “Jogo desde muito jovem, mas chega uma hora em que a gente precisa pensar no futuro. Por isso, dei uma pausa na carreira e decidi focar na empresa com o Rory.”

Outra mentira. Gale não havia “dado uma pausa”. Ele simplesmente não conseguiu renovar contrato. Por mais que ele jogasse bem na época de escola, jogar profissionalmente exigia muito mais. E ele não conseguiu acompanhar.

“Mas você pretende voltar? Algum contrato à vista?” Peeta questionou, mantendo a postura neutra.

“Neste momento, não. Estou realmente focado em fazer a empresa dar certo.”

“Entendo. Eu gostaria de entender melhor a estrutura da empresa de vocês. Rory, pelo que vi, é bem jovem e parece estar à frente de praticamente todo o projeto. E você, Gale, qual exatamente é sua parte nisso tudo?”

“Bom... o meu apoio está muito mais voltado aos contatos. Como ex-jogador, conheço muita gente. E você sabe como contatos são valiosos nesse meio.”

“E hoje, a divisão da empresa está 50/50?”

“Não exatamente. Rory entrou com a ideia inicial, e eu entrei com o capital. Então decidimos que a divisão seria 85% para mim e 15% para ele.” Peeta arqueou uma sobrancelha, surpreso.

“Uma diferença significativa.”

“É uma diferença justa. Afinal, investi muito dinheiro. Rory só trouxe a ideia.”

“Somente com a ideia?” O loiro inclinou levemente a cabeça, observando-o, Gale, definitivamente, não estudou a fundo o funcionamento da M.Company... ou não teria usado uma frase dessas. “Um investimento não surge sem uma ideia.”

“Não me entenda mal, só acho que... sem dinheiro, uma ideia não vale nada.”

“Sem a ideia e sem alguém que saiba colocá-la em prática, o dinheiro não vale nada.” Gale ficou em silêncio por alguns segundos.

“Bom... ainda estamos no começo. Nada impede que, no futuro, Rory tenha uma parte maior da empresa.”

“Claro. Caso a M.Company decida investir nesse projeto, teremos uma porcentagem da empresa contratualmente garantida, que pode ser readquirida depois, como previsto. No entanto, como a divisão entre vocês não é igualitária, precisamos saber: quem estaria disposto a ceder parte do percentual?”

“Conversei com meu sócio. Embora eu estivesse disposto a ceder da minha parte, achamos que seria mais justo se ambos abrissem mão de um percentual. Afinal, é uma grande oportunidade para os dois, se conseguirmos esse investimento.”

“Entendo. Nessa fase, a M.Company não avaliará apenas o projeto, como nas anteriores. Meu time jurídico irá analisar cuidadosamente a estrutura da empresa, seu posicionamento no mercado e, principalmente, seus valores. Precisamos garantir que qualquer empresa em que investirmos esteja alinhada com os princípios da companhia. E, claro, que não haja riscos à reputação da M.Company.”

Eles seguiram falando sobre negócios e o projeto. Acabei não conseguindo prestar tanta atenção, afinal, Megan parecia determinada a ter minha atenção a todo custo, falando sobre sua carreira, seus interesses... tudo em um tom ensaiado. Um jogo que eu conhecia bem, afinal, era exatamente assim que Gale funcionava. Quantas vezes ele mesmo me dissera que eu devia ampliar meus contatos, chamar atenção de pessoas influentes... e que em um jantar de negócios como esse meu papel da acompanhante era justamente encantar a acompanhante de quem ele queria atenção.

Quando finalmente o jantar terminou, Peeta segurou minha mão com firmeza. Um gesto pequeno, ensaiado, mas que dizia muito era uma forma sutil de deixar claro que eu era dele. Senti o olhar de Gale sobre nós naquele momento. Ainda assim, embora fosse puro teatro, pareceu uma âncora naquele momento. Seguimos juntos até a porta do restaurante.

“Muito obrigado por tudo, senhor Mellark. Foi um prazer conversar com você.” Rory agradeceu no exato momento em que Darius parou o carro à nossa frente. Era impressionante como ele sempre sabia a hora certa de aparecer.

“Eu que agradeço. Foi muito informativo. Meu time vai manter contato com vocês e nos encontramos novamente no próximo mês, na divulgação do resultado.” Darius deu a volta no carro e abriu a porta com naturalidade, um gesto que ele repetia várias vezes por dia, mas que, para mim, trouxe um alívio enorme. Como se, ao abrir a porta, ele também me oferecesse uma saída. Me despedi apenas com um aceno de cabeça e deslizei para o banco de trás. Quando a porta se fechou, senti o ar voltar aos meus pulmões. Só então percebi que Peeta já estava ao meu lado.

Enquanto o carro ganhava velocidade, olhei pela janela. Gale estava parado na calçada, olhando na direção do carro. Seus olhos pareciam atravessar os vidros escuros, me alcançando de um jeito que eu não queria que acontecesse. Havia algo naquele olhar um lampejo, uma lembrança do que fomos um dia.

“O destino é realmente engraçado.” Foi tudo o que Peeta disse durante o trajeto. Havia algo em seu tom... não era ironia, nem raiva. Era algo parecido com uma reflexão. Olhei para ele, tentando decifrar se aquela frase carregava também o conhecimento da presença de Gale. Será que ele sabia que ele estaria lá?

Assim que chegamos em casa, fui direto para o quarto. Não disse nada. Apenas me tranquei no banheiro. Não que fosse realmente necessário, Peeta nunca ultrapassou esses limites, mas, naquela noite, eu precisava de barreiras físicas.

Foi ali, sozinha, que finalmente me permiti respirar. Meu corpo inteiro tremia, não de frio, mas sim por tudo. Minhas mãos se moveram sozinhas até a gaveta, buscando o frasco de comprimidos. Uma receita que o médico havia indicado há algum tempo, mas que eu sempre guardei para momentos de estresse intenso. Havia tomado poucas vezes, talvez duas ou três no máximo. Mas hoje... hoje ele desceu como um pedido de socorro.

Enchi a banheira, me despindo de tudo das roupas, fachada, resistência. A água quente envolveu meu corpo e tentei, de verdade, não pensar na noite. Tentei não lembrar do olhar de Gale. Do passado que, por mais enterrado que estivesse, ainda pulsava sob a pele. Tentei esquecer o quanto tudo estava fora de controle naquele momento.

Não sei quanto tempo fiquei ali, imóvel. Só sei que, quando finalmente saí a água estava fria, o cansaço era maior que a dor. Então me rendi aos pesadelos que sabia que viriam

Os dias que seguiram ao jantar foram, em aparência, tranquilos. Por dentro, eu me forçava a repetir que Gale já tinha voltado ao Distrito 12… ou ao 13, no fundo não importava. O importante era que ele estava longe. E mesmo sabendo que o reencontraria na festa de aniversário da M.Company. Sabia que seria um evento grande e repleto de gente e isso me dava esperança de que as chances de ficar frente a frente com ele eram mínimas.

Minha mãe, em um gesto inesperado, propôs um dia relaxante em um dos spas mais luxuosos da Capital, um hotel exclusivo com jardins suspensos e piscinas térmicas de pedras claras, parecia o cenário ideal para algo quase impossível: uma tarde tranquila entre mãe e filha.

E, para minha surpresa, nos primeiros momentos, foi exatamente isso. Massagens, máscaras faciais, chás exóticos com pétalas e frutas, tudo em meio a um silêncio confortável me lembrando uma época não tão distante onde tínhamos esses momentos e por um instante, quase acreditei que poderia ser assim. Só nós duas. Sem cobranças. Que ela estava apenas sentindo minha falta. Mas a fantasia se desfez no instante em que nos sentamos para o Brunch tardio à beira da piscina. O lugar era silencioso, requintado. Discreto, do tipo que minha mãe adorava. Foi então que ela pousou delicadamente sua xícara no pires, como quem se preparava para atacar.

“Seu pai me contou que você recusou ajudá-lo nos negócios da empresa.” Não respondi de imediato. Tentei respirar fundo e manter o controle. Ela só conhecia parte da história. Só via o que queria ver. “Katniss, eu não sei o que você pretende… Mas, sinceramente, nunca imaginei que pudesse ser tão mesquinha. Você sabe o quanto a empresa significa para ele. Por que não pode ajudá-lo? Ele sempre sonhou em te ver na presidência.”

“Engraçado, mãe. Até pouco tempo atrás, esse não era o seu sonho pra mim.”

“O ponto é que você não fez nem o que eu queria, nem o que ele queria. Você só faz o que quer. Sem pensar nas consequências. Casou-se impulsivamente, assinou aquele contrato pré nupcial ridículo antes de se casar, e agora se recusa a ajudar seu pai quando ele mais precisa. Ele não me conta, mas eu vejo. Está cansado. Está sofrendo.” Ela estreitou os olhos. “Você não acha que já temos problemas demais? Sua irmã, por exemplo, com aquelas escolhas… ridículas.”

“Mãe, a gente não veio aqui pra falar da Prim.”

“Não, claro que não. Nunca é sobre a Primrose. Você a protege tanto que a mantém embaixo das asas como uma criança. Mas vou te dizer uma coisa, Katniss... Espero, de verdade, que seu casamento dure por muito tempo. Porque se não durar... não tenho certeza se haverá um lugar para você voltar.” Fiquei alguns segundos em silêncio.

“Era só isso que queria dizer? Porque, se for, acho que acabamos por aqui.”

Ela se levantou com a elegância meticulosa que sempre exibia em público. Pegou a bolsa de couro e virou-se sem dizer mais nada. A frieza com que se afastou fazia parte de seu velho jogo emocional um que eu conhecia bem, mas para o qual, naquele momento, simplesmente não tinha energia.

Observei ela sumir pelo corredor de plantas ornamentais, os passos firmes e ritmados como se marchasse para uma guerra silenciosa.

Suspirei. Tomei um gole do chá, agora morno, e deixei o olhar se perder na superfície calma da piscina. O vapor subia em espirais suaves, e o som leve da água sendo filtrada era quase hipnótico. O lugar era bonito e delicado.

“Veja se não é Katniss Everdeen. Ou devo dizer… Mellark?” Meu coração deu um salto. A voz era inconfundível. Grave, segura e familiar demais. Virei o rosto e o vi se aproximando, com a confiança de quem sabe que não deveria estar ali, mas que não se importa. Gale se sentou com naturalidade na cadeira que minha mãe, havia ocupado minutos antes, como se fosse dele por direito. Com um sorriso largo em seu rosto. “Katniss Mellark,” repetiu, com uma ênfase leve no sobrenome. “Ainda estou tentando me acostumar com o som. Não sei se combina.”

“Não estou com cabeça pra isso, Gale.” Mantive o tom seco, tentando parecer confiante e agradecendo por estar sentada.

“Pra mim… ou pra conversa com a Paula?” Ele apoiou os braços no encosto da cadeira, como se se instalasse ali para ficar. “Sei que ela não é exatamente… gentil com você.” Revirei os olhos, eu conhecia esse jogo, fingir que me entendia melhor do que qualquer um. Como se isso ainda fosse verdade. Com calma, ele se inclinou e pegou um dos macarons da bandeja de prata sobre a mesa. Comendo como se estivesse em casa . “Você está diferente.”

“O que ainda faz na Capital? Achei que já teria voltado pro 12.”

Ele deu de ombros.

“Tenho algumas coisas pra resolver. Estou pensando em alugar um apartamento pequeno por aqui. Você conhece bem a cidade… algum bairro que valha a pena? Onde você mora?”

“Por que você moraria aqui?” perguntei, cruzando os braços. “Sua empresa é no 12. E sua namorada, pelo que sei, mora no 13.”

“A empresa está no 12, sim. Mas, com o investimento da M.Company é questão de tempo até tudo mudar. Achei melhor me adiantar. Ver alguns prédios. Estar… mais perto.” Senti um aperto involuntário no estômago.

“Não acha que está se precipitando? Até onde sei, você ainda está concorrendo ao investimento. E a quantia deve ser pra apoiar os projetos, não para vida pessoal dos empresários .”

Ele deu um risinho discreto.

“Você sempre foi esperta Katniss. Mas me diga… como alguém lidera um projeto desse porte de longe? Se for aprovado, sei que vai ser, será muito mais fácil com base aqui.”

“Você ao menos sabe do que se trata o projeto, Gale?”

Por um instante, a expressão dele fechou. Um instante só. Mas suficiente para me mostrar que minha pergunta havia acertado em cheio. Ainda assim, ele voltou ao modo neutro rápido demais.

“Claro que sei,” respondeu em um tom baixo, mas firme. “E sei também o quanto essa ideia tem a cara da M.Company. Meu sócio é um pequeno gênio, entende dessas coisas como ninguém.” Ele falava com a confiança de quem se vê como o capitão da equipe, aquele que comanda as jogadas. “E fui muito bem no jantar com o presidente. Você sabe que tenho jeito com as pessoas.” Essa última parte não era mentira. Gale tinha lábia. “E você poderia ajudar... Falar bem de um velho amigo, não acha? Éramos praticamente família, Catnip.” Aquilo me pegou desprevenida. Gale era mais habilidoso que Peeta na arte de me desestabilizar.

“Não acho que falar de você ao meu marido vá trazer alguma vantagem.”

“Ah, qual é... Sei que errei com você. Não vou fingir que não. Mas em todos esses anos, não foi tudo ruim. Fomos amigos, parceiros. Nos amamos. Você foi a mulher mais importante da minha vida.” Soltei uma risada nervosa, carregada de ironia.

“Acredite, o melhor para seu projeto é que eu não diga nada sobre você.”

“Você não contou pra ele sobre o nosso relacionamento, contou? Não acredito. Pra quê, Katniss? Achei que tivesse dito que iria me esquecer.”

Foi então que percebi o óbvio: Gale não havia reconhecido Peeta.

“Não precisei dizer nada. Talvez você devesse ter feito melhor seu dever de casa ao pesquisar sobre o atual presidente e cofundador da M.Company.” Ele me lançou um olhar confuso, buscando respostas. “Peeta estudou conosco no Einstein. Acredite, ele conhece muito bem a natureza do nosso passado.” Vi, com certa satisfação, o temor brotar nos olhos dele. Ele estava tentando lembrar do loiro, talvez pelo nome, talvez pela aparência .

“Bom... é passado. A gente não deu certo. Ele deve ser maduro o suficiente pra entender isso. Além do mais, quem eu sou ainda pesa, especialmente no Distrito 12. Minha família tem reputação. Eu era um bom aluno, destaque nas quadras...”

“Você ainda não se lembra dele, não é?” Descruzei os braços, paciente, tomando mais um gole de chá, agradecendo mentalmente por manter as mãos firmes. “Acho que você não deixou exatamente uma boa impressão... Muito pelo contrário. Você o tratou muito mal.” Ele franziu o cenho, tentando puxar da memória algo que provavelmente nunca considerou importante, ou talvez de fato o número de pessoas que ele tratou mal no colégio fosse grande demais. “Você é inacreditável Gale. Último ano. Últimas semanas de aula. Festa na minha casa… Você humilhou ele.” Foi então que vi, com um prazer amargo, o momento em que a lembrança lhe atingiu.

“O nerd?” Ele riu, incrédulo. “Não. Você tá brincando. Aquele garoto era um fracassado. Te ajudou com a prova e achou que podia desfilar ao seu lado nas últimas semanas da escola queria namorar você. Ele não tinha nada. Nem dinheiro pra pagar a escola e nem pra comprar roupa decente.”

“Pra você ver como as coisas são... Hoje ele é um dos homens mais bem-sucedidos de Panem.”

“Não é possível. Ele deve ter recebido alguma herança, só pode. Ninguém faz fortuna assim do nada.”

“Mas ele fez. E agora você entende por que eu disse que não preciso contar nada pra ele?”

“Éramos jovens, inconsequentes... Naquela época, todo mundo cometia uma besteira ou outra. Quem nunca?” Ele parecia desconfortável. Preocupado. Aquilo me chamou a atenção. Pelo que percebi, o projeto era importante pra ele. A empresa que abriu não era grande, e por mais que ele tenha sido o único a investir dinheiro, o investimento não deveria representar muito para o patrimônio dos Hawthorne.

Era estranho ver Gale tão envolvido. Ele nunca foi do tipo que se preocupava em construir negócios. Havia investido tempo e dinheiro no basquete mesmo quando as coisas já não andavam bem pra ele nas quadras, com a segurança de quem sempre soube que, um dia, assumiria o lugar do pai na empresa da família. Havia sim uma vontade de se mostrar superior aos outros, de ser o melhor em tudo, mas nada que justificasse esse nível de inquietação.

“Talvez devesse tentar outra empresa... Ou pedir mais dinheiro ao seu pai.”

“Espera aí. Eu não fiz tudo sozinho. Você também estava envolvida até o pescoço nisso, Katniss. E, veja só, agora está casada com ele. O Mellark deve ser alguém que não leva essas coisas pro lado pessoal. Deve entender que éramos jovens.” Ri, com deboche.

“Quer mesmo comparar, Gale? Obviamente ele tem motivos pra desconsiderar o que fiz que não se aplicam a você. Foi outra motivação que o levou a se casar comigo.”

“Dinheiro não é, pelo que ouvi, os Everdeen não são mais os mesmos.” Ele provocou. Não fiquei surpresa dele saber a situação do meu pai. A notícia do fechamento da empresa começava a circular entre os empresários.

“Nosso casamento é baseado em algo maior que dinheiro.”

“Você não vai me vir com esse papinho de amor, né?” Ele parecia se divertir.

“Ah não... essa ideia de casar por amor é coisa de adolescente iludido. Casamento é uma troca.” Por um momento, me lembrei das palavras do meu pai.

“Troca de quê?” Ele riu. “Sabemos que ele te dá luxo e dinheiro. Mas e você? Faz o papel da mulher bonita ao lado dele?”

“Podemos dizer que sim. Ainda assim, me manter por perto pode ser bem mais prazeroso do que apenas desfilar comigo por aí.” Dei um sorriso cínico. E vi os olhos dele escurecerem no mesmo instante, como se uma nuvem tivesse passado. Sua expressão mudou. Ele não respondeu. Olhei em volta, desconfortável com o silêncio súbito.

“Senhora Mellark.” A voz de Darius surgiu ao meu lado. “Desculpe interromper, mas está quase na hora do seu próximo compromisso. Seria prudente irmos agora para evitar o trânsito.” Antes mesmo que eu respondesse, ele já sinalizava para o garçom, que se aproximou rapidamente com a conta.

“Obrigada por avisar, Darius.” Gale lançou a ele um olhar de quem queria mandá-lo embora, mas Darius apenas recuou alguns passos com tranquilidade, ficando ao lado da mesa.

“Eu pago.” Gale se prontificou, puxando a carteira.

“Não precisa.” Sem sequer olhar o valor, peguei meu cartão na bolsa e aproximei da máquina.

“Tchau, Gale.”

“Foi ótimo te ver, Katniss. Espero te rever em breve.”

“Não posso dizer o mesmo.” Levantei e caminhei com firmeza até a saída, meu motorista logo atrás. “Darius... Eu não tenho nenhum compromisso hoje.” Comentei, já dentro do carro, checando minha agenda no celular. Não havia nenhum evento social do qual deveria acompanhar Peeta. Minha agenda social era sempre alinhada a dele no painel do veículo. Sendo a dele com endereço, perder um compromisso era quase impossível.

“Sinto muito, senhora. Devo ter me confundido.” Ele disse, após dar alguns cliques no painel, provavelmente verificando a informação e lançando um olhar rápido pelo retrovisor. “Deseja que eu retorne?”

“Não, não tem problema. Pode seguir para casa.” Ele assentiu, era estranho pois Darius nunca se confundia, mesmo assim, agradeci silenciosamente por esse engano.



POV Peeta.

Olhei para os cinco arquivos organizados à minha frente. Tudo milimetricamente disposto sobre a mesa, como se a ordem externa pudesse compensar a confusão dentro da minha cabeça. Cinco finalistas. Três seriam escolhidos para receber um investimento considerável, além do apoio estratégico da M.Company. Mas agora que o momento da decisão se aproximava, tudo parecia mais complicado do que nunca.

“Esse ano vai ser difícil... Temos bons concorrentes.” Finn comentou, largado no sofá da minha sala, os olhos focados no celular.

Tínhamos acabado de sair de uma reunião com o jurídico, para falar sobre as empresas. Nenhuma pendência. Nenhuma irregularidade. O setor financeiro já havia dado parecer semelhante. Eu mesmo vasculhei o histórico dos fundadores, revisei relatórios. Tudo... limpo. E ainda assim, havia algo que me incomodava em especial sobre a empresa do Distrito 12.

“Sim, temos.” Respondi, ainda encarando os papéis com atenção.

Normalmente, tomar a decisão final não era tão complicado. Eu ouvia a opinião da minha família, ainda que, no fim, todos empurrassem a responsabilidade para mim. Mas desta vez, os concorrentes estavam mais fortes. Mais preparados. Mais difíceis de ignorar.

“Imagina pro pessoal da seleção,” Finn continuou, levantando os olhos da tela. “Mais de mil e quinhentas inscrições esse ano. Algumas bizarras, claro, mas teve muito projeto bom. Chegar a esses cinco... foi difícil .”

Assenti. A equipe de triagem fez um excelente trabalho. Sem eles, eu jamais teria sobrevivido nem à primeira edição do programa. O que começou como uma ação discreta se transformou numa das ações mais respeitadas da empresa e, pessoalmente, uma das que mais me orgulho.

“No próximo ano vamos precisar de mais gente pra dar conta.” Finn se ajeitou no sofá e em seguida, me lançou um olhar mais atento. “Você tá estranho hoje. Aconteceu alguma coisa?”

“Não. Só não quero tomar a decisão errada.” Ele sorriu com aquela tranquilidade típica e se levantou.

“Você se cobra demais. Mesmo os dois que não forem escolhidos vão estar cercados de gente poderosa naquele salão. Oportunidade é o que não vai faltar.” Ele esticou os braços com preguiça. “Vou deixar você pensar. Vou ver a Annie. Mandei mensagem e ela ainda não respondeu.” Sorri.

Annie havia estado conosco na reunião do jurídico minutos antes, provavelmente não respondeu por ainda estar ocupada finalizando algum assunto com o time dela. Mas era típico de Finn ficar alerta com qualquer silêncio. Desde que souberam da gravidez, ele andava sempre por perto, como se um campo magnético o mantivesse ao redor da minha irmã. Não era raro encontrá-lo trabalhando da sala dela, levando frutas, trazendo água ou simplesmente... olhando pra ela. Como se o mudo dele estivesse ali. E, pra ser sincero estava.

A verdade é que a chegada do bebê mexeu com todos. A revelação de que seria um menino virou uma espécie de evento pré feriado de natal, com direito a apostas, reunião familiar, bolo e lágrimas da minha mãe. Agora o foco estava no nome. E, embora Annie e Finn vivessem pedindo moderação, ninguém parecia capaz de conter os impulsos consumistas. Bastava algo relacionado a bebê aparecer na vitrine para alguém da família comprar, e eu incluso. Mas nesse quesito, minha mãe era imbatível.

Assim que Finn saiu, voltei minha atenção aos finalistas. Mais especificamente a Carbōn Systems. Me recostei na cadeira, pensativo. Quando pedi para minha secretária entregar o número deles à equipe, fiz sem qualquer pretensão. Rory parecia jovem, empolgado e, de certa forma, autêntico. Quando soube que haviam chegado à final, fiquei surpreso. Mas também satisfeito. Pela primeira vez, o Distrito 12 teria uma empresa representada na ação. O projeto era bom , promissor. Mas com tanta coisa acontecendo na empresa, não tinha parado para me aprofundar nos empresários. E então sem esperar durante o jantar vi Gale Hawthorne entrando pela porta.

Ele parecia não me reconhecer, mas obviamente reconheceu Katniss assim que a viu. Ela evitava seu olhar havia algo ali. Algo que eu não sabia, mas que era impossível ignorar. Meu primeiro pensamento foi: sentimentos mal resolvidos. Mas, no segundo seguinte, descartei. Katniss estava pálida, mesmo sob a maquiagem. Tensa. Cada músculo do corpo atento. O tipo de expressão corporal que não se manifesta por saudade, ela estava alerta.

O caminho de volta foi silencioso, não que fossemos de conversar, mas era um silêncio diferente. Ela chegou e não verificou Prim, outro sinal de alerta, verificar se a irmã estava segura em casa era um ritual. Então ela ficou um tempo muito maior do que o costume no banheiro. Naquela noite ela teve um sono agitado.

Eu sabia que eles tinham assumido a relação depois do colegial. Rei e rainha como esperado , eles haviam até ficado noivos. Mas então acabou e o motivo do fim... não foi divulgado.

Hawthorne não estava na minha mira. Afinal, a vida parecia já ter dado a ele o que merecia nos últimos anos, da mesma forma que o rei quando perde sua proteção. Ele era ou pelo menos se achava a peça mais importante do tabuleiro. Mas embora capturar o rei adversário seja o objetivo do jogo. Ela esta longe de ser a melhor peça. Pelo contrário ela é a mais limitada. Uma peça que só sobrevive porque todos ao redor se movem por ela. Sozinha, não é nada não faz parte da estratégia de ataque só da de fuga.

Gale sempre esteve rodeado pelos supostos amigos na escola, mas as coisas começaram a mudar quando ele entrou na faculdade. Quando precisou caminhar sozinho, o inevitável aconteceu. Soube que ele havia entrado para o time da universidade, mas em um cenário completamente diferente do que estava acostumado já que jogou pouco, passou muitos jogos no banco, e não chamou a atenção dos grandes times. O único contrato que conseguiu foi por parte de um pequeno time de terceira divisão do Distrito 13, que parecia ter envolvido uma quantia considerável de dinheiro de Lian Hawthorne.

Ainda assim, não durou muito. Mesmo em um time pequeno, ele não se destacou. Até apareceu em algumas matérias na internet, mas nos últimos anos seu nome só surgia em colunas de fofoca, namoricos com modelos em início de carreira ou, em casos mais raros, com algumas mais conhecidas. Meu celular vibrou sobre a mesa. Um número conhecido piscou na tela. Atendi sem hesitar.

“Oi, Darius.”

“Chefe. O Hawthorne apareceu.” Não fiquei surpreso. O olhar dele já dizia tudo. Ele procuraria por ela. E faria isso como quem tenta garantir uma vantagem na reta final.

“Onde?”

“A senhora Mellark saiu com a mãe hoje. Foram ao Lotus. Notei o Hawthorne nos seguindo desde o apartamento dos Everdeen. Ele circulou o hotel por algumas horas... depois entrou, pediu um drink no bar e ficou esperando. Quando viu as duas no restaurante da piscina, ficou observando. Se aproximou, mas se manteve escondido. Esperou a senhora Everdeen sair. E aí... abordou sua esposa.” O cenário era quase cômico de tão previsível. “Acompanhei de longe, mas achei melhor intervir quando a situação começou a parecer incômoda. Disse a ela que estava na hora do próximo compromisso. Estranhamente, ela não se lembrava que não tinha nenhum compromisso hoje. Só notou no carro, fingi que foi um engano da minha parte. Acabei de deixá-la em casa.”

“Ele seguiu vocês?”

“Não, senhor. Fiquei atento no caminho.”

“Certo, Darius. Obrigado. Continue de olho nela, por favor.”

Encerrei a ligação e coloquei o celular de volta sobre a mesa. Eu precisava pensar com calma no meu próximo passo.


Notas finais
E é isso, Gale finalmente retornou e duas vezes em um único capítulo. Confesso que, nos planos iniciais, isso seria dividido em dois capítulos, mas tenho curtido escrever capítulos mais longos ultimamente. E o retorno positivo de vocês em relação a esse tamanho me animou bastante. Outra “novidade” por aqui foi incluir um POV do Peeta no final. Quem me acompanha há mais tempo sabe que costumo separar os pontos de vista, mas dessa vez resolvi arriscar... e espero de coração que tenham gostado. Me contem o que acharam do capítulo! Adoro ler os comentários, me digam o que acham sobre esse trechinho com POV do Peeta. Acham que vale a pena continuar trazendo esses momentos ao longo dos capítulos? Ou preferem que mantenha um bônus mais pra frente ? Beijos e até o próximo!