Linha Tênue

37 Capitulo 34 : A Grande Noite


Notas iniciais
Boa noite, meus queridos! Um novo mês começa, e com ele também um novo capítulo. Sei que a espera foi longa, mas algumas situações pessoais acabaram me afastando da escrita. E mesmo com o capítulo já bastante adiantado, eu sentia que ainda faltava algo, e com isso demorei a trazer para vocês. Quero agradecer de coração à Bel, que fez essas imagens maravilhosa eu simplesmente me apaixonei! Obrigada, Bel, pelo carinho e por sempre criar artes que fazem minha mente borbulhar de ideias. Mas agora, sem mais demora... vamos ao capítulo.

Observei o loiro pelo espelho de corpo inteiro no closet. Ele estava parado diante do divisor de vidro onde guardava os relógios, todos alinhados em fileiras milimetricamente organizadas. Após alguns segundos avaliando, escolheu um modelo com pulseira de couro marrom escuro e mostrador dourado discreto. Encaixou no pulso com a precisão de um gesto que repetia inúmeras vezes.

“Você está pronta?” Ele perguntou, pegando o paletó pendurado o deslizando sobre a camisa já impecavelmente alinhada em seu corpo. O terno Portia, feito sob medida, moldava perfeitamente no corpo dele e a gravata, de um azul acinzentado, complementava o visual com sobriedade. Ele ajeitou a lapela com um movimento tranquilo, mantendo o mesmo ar controlado de sempre.

“Estou.” Ele olhou para mim e, por um instante, não houve nenhuma palavra. Nenhum comentário. Mas o olhar... O olhar disse tudo. Havia escolhido bem, meu vestido era um Cinna elegante e minimalista, justo na medida, modelando a silhueta com leveza. O tecido acetinado off-white tinha um corte clássico à frente, mas com um pouco mais de ousadia nas costas com tiras que terminavam em um laço discreto na base da coluna.

Uma escolha que me deixou na dúvida no início, mas que Madge garantiu que seria perfeita agora que segundo ela eu havia recuperado os quilos perdidos e voltado a parecer saudável novamente.

Descemos as escadas e encontramos Prim no sofá da sala, recolhida sob um cobertor macio de lã creme, com as pernas dobradas atenta em um livro, os cabelos estavam presos de qualquer jeito, num coque desalinhado. Ela logo sorriu assim que nos viu.

“Uau. Vocês estão realmente elegantes. Sem dúvida, serão o destaque da noite.” Ela comentou com uma voz tranquila e um sorriso verdadeiro que me fez sorrir de volta.

“Certeza que não quer mesmo ir, Prim? Posso pedir para o Darius voltar e te buscar.”

“Ah, não... Will está trabalhando hoje e eu estou num relacionamento sério com esse sofá. Não estou no clima pra multidão.” Ela respondeu, se encolhendo um pouco mais debaixo do cobertor. “Mas aproveitem. Vocês estão lindos.”

Seguimos para o evento em silêncio. No banco ao meu lado, Peeta estava tranquilo como sempre, atenção voltada para o celular, em uma troca de mensagem. Tentei me distrair observando as luzes através da janela, mas uma parte de mim se mantinha em alerta. Por mais que tentasse afastar o pensamento, de que Gale estaria lá, não consegui.

Darius conduziu o carro com a mesma precisão habitual, contornando os engarrafamentos com calma até chegar a um dos salões mais elegantes da Capital onde uma longa fila de carros de luxo, se formava do lado de fora, a imprensa se espremia atrás de cordões de segurança, tentando capturar qualquer imagem ou declaração relevante.

Sem seguir o fluxo comum, ele desviou pela lateral do edifício, contornando a movimentação e acessando um portão nos fundos. Um segurança apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça e logo entramos. Fomos recebidos por uma funcionária da empresa organizadora, que nos conduziu por um corredor reservado até uma sala de apoio onde o restante da família Mellark já nos aguardava.

O ambiente era calmo, com poltronas estofadas e bebidas sendo servidas em bandejas de prata. Os cumprimentos foram breves e afetuosos. Delly, logo recebeu uma rápida orientação da assessoria de imprensa e foi a primeira a sair, pronta para dar uma entrevista rápida. Embora não fosse frequente era ela quem mais aparecia na mídia e, admito, fazia isso muito bem.

Uma assessora se aproximou de Peeta, oferecendo-se para auxiliá-lo com nomes ou informações durante a noite. Ele agradeceu, vi que Annie também estava com um assessor dando instruções . O loiro conhecia bem aquele papel e o cumpria com calma, como se fosse rotina, ele estendeu o braço na minha direção e seguimos juntos em direção ao salão.

Descemos por uma escada caracol de degraus de pedra escura, ladeada por uma estrutura metálica com iluminação embutida. À medida que nos aproximávamos, o som das conversas se intensificava, e a iluminação se tornava mais quente. O primeiro salão se abria em um grande espaço dedicado ao coquetel.

O ambiente era sofisticado e tecnológico na medida certa. Paredes de vidro com iluminação âmbar envolviam o espaço. Telas integradas nas paredes exibiam discretamente conteúdos institucionais, intercalados com cenas ao vivo do evento. Garçons circulavam com precisão, vestindo uniformes escuros e bandejas finas repletas de taças e petiscos elaborados. No centro, pequenas mesas altas de apoio, permitiam que os convidados se agrupassem em rodinhas discretas de conversa. O bar, iluminado por trás com luz suave, oferecia drinques autorais, servidos com gelo seco.

Os convidados, todos impecavelmente vestidos, conversavam com aquela animação contida e calculada que acompanha eventos de prestígio. Moviam-se com elegância, como peças bem posicionadas em um grande jogo social, com sorrisos estratégicos e gestos medidos. O ambiente vibrava em elegância, com trilha sonora instrumental de fundo.

Todos os demais membros da família foram entrando sem alarde, sem anúncio, apenas presença. Ainda assim, enquanto descíamos as escadas, pude sentir os olhares se voltando para nós discretos, mas constantes. Peeta caminhava com confiança. Cumprimentava os convidados com familiaridade e fluidez, como se conhecesse cada um pessoalmente. Não o vi consultar a assessora em nenhum momento. Reconhecia rostos, lembrava nomes e fazia associações com uma naturalidade quase impressionante, sem perder a leveza e a simpatia.

E embora tenha levado algum tempo, avistei Gale com Rory e Alana, em uma das mesas altas próximas à área de transição, onde os convidados logo seriam conduzidos ao espaço reservado para o jantar. Involuntariamente, meus dedos apertaram o braço de Peeta com mais força. Nos aproximamos como esperado e trocamos cumprimentos rápidos.

“Katniss, você está linda.” Alana comentou com um sorriso sincero e agradeci com um aceno leve. “Acabei de dizer ao Rory como vocês formam um belo casal. “ Evitei olhar diretamente para Gale, ficando levemente de costas para ele , mas podia sentir seu olhar sobre mim como se estivesse cravado nos meus ombros.

Logo depois, Rory foi chamado por um outro empresário para falar sobre a empresa, Alana o seguiu animada. E antes que conseguíssemos nos afastar, vi outro homem se aproximar.

“Mellark, acho que você conhece meu pai. Lian Hawthorne. Ele comentou que encontrou vocês no 12.” Porque se existe algo ruim, sempre pode piorar afinal se um Hawthorne já era suficiente para me tirar do eixo, agora eu teria que lidar com dois. “Não sei se sabe,” continuou Gale, “mas meu pai é um empresário muito respeitado. Tem sido um grande apoiador ao crescimento da minha empresa e, por isso, achei que seria interessante trazê-lo esta noite.” Traduzindo ele estava pagando pela empresa e Gale estava inseguro, ele sempre recorria ao pai quando estava inseguro ou com algum problema. Peeta manteve o sorriso calmo e estendeu a mão com naturalidade.

“Claro que me lembro. Como vai?”

“Surpreso, confesso. Mas bem.” Ele segurou a mão de Peeta e sorriu, mas havia algo de provocação disfarçada no tom. “Você me enganou direitinho, senhor Mellark.” O loiro arqueou uma sobrancelha.

“Enganei?”

“Sim. Aquela conversa simples, o jeito informal... e agora descubro que estava falando com o presidente da M.Company. quando Gale comentou quem era o marido da Katniss e que tinha encontrado em uma reunião de negócios, pensei que ela tinha se casado novamente.” Seu tom sugeria uma brincadeira, mas Peeta não sorriu.

“ Pelo que me lembro, não disse nenhuma mentira. Meus pais vivem na área rural. E não disse em nenhum momento qual era minha carreira. Você que supôs. “ O olhar de Lian ficou mais atento, como se quisesse entender algo além das palavras ditas.

“Mas quando mencionou os Everdeen , não disse que já fazia parte do círculo social deles.”

“Não disse porque não faço,” Peeta replicou, sorrindo de lado. “Como mencionei, prefiro meu próprio mundo. Mas, se me permite um conselho, formar conclusões apressadas sobre as pessoas raramente é uma boa ideia, nunca se sabe quem pode ser.”Lian pareceu surpreso com a resposta, mas manteve a pose.

“Vou refletir sobre isso.” E então ele se virou para mim. “Katniss... você está bem diferente hoje. Nem parece a mesma que encontrei no Distrito 12.”

Sorri por educação, ciente do tom subentendido. Provavelmente ele achava meu vestido exagerado demais, ou a minha presença ao lado de Peeta algo improvável, por que no fundo ele estava muito mais confortável em acreditar que a ex do filhinho amado dele estava com um homem inferior financeiramente falando, era mais simples assim, saber que estava com alguém mais rico o incomodava, até por que me lembrava bem dele dizendo que não acharia um partido melhor do que Gale. “Só... tente não chamar mais atenção que o anfitrião, sim? Essa noite foi idealizada para ele.”

Antes que eu pudesse responder, Peeta passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou levemente para perto.

“Devo discordar, minha esposa é deslumbrante. Seja com um vestido caríssimo ou com jeans. “ Ele beijou meu rosto. “ Não dá pra competir com ela.”

Antes que qualquer resposta pudesse ser dada, a assistente se aproximou com discrição e informou sobre o horário do jantar. Peeta agradeceu com um gesto cortês, pediu licença e logo fomos conduzidos até o salão principal.

O espaço era deslumbrante. Lustres de cristal esculpido pendiam do teto alto, espalhando uma luz morna e elegante. As mesas, redondas e perfeitamente alinhadas, estavam decoradas com arranjos florais em tons neutros, branco, bege e toques sutis de laranja suave que traziam frescor e sofisticação ao ambiente combinado perfeitamente com a entrada da primavera. No centro do salão, um palco 360º chamava atenção. Sua estrutura metálica era leve, quase flutuante, e os painéis de LED mudavam lentamente em meio à a música do ambiente.

Enquanto os convidados começavam a ser guiados aos seus lugares com precisão e fluidez, nos acomodamos na mesa principal, junto aos demais membros da família Mellark. O clima ali era leve, familiar. Sorrisos discretos, pequenas piadas entre irmãos, olhares trocados com naturalidade. Até mesmo Haymitch, que normalmente desprezava eventos formais, parecia genuinamente confortável aquela noite.

Minutos depois, Annie subiu ao palco. Seu vestido longo realçava a gravidez, mas o que mais chamava atenção era sua serenidade. Com a postura de quem sabe exatamente o peso e o valor do que está conduzindo, ela agradeceu a presença de todos, desejou uma excelente noite e deu início ao jantar. Ao fundo, Finn a observava com uma espécie de devoção inquieta, contraste perfeito com a calma da esposa.

Sentada à direita de Peeta, tentei me envolver nas conversas ao redor. Lavinia comentava algo com Finn sobre um projeto promissor, enquanto Thresh e Delly discutiam com entusiasmo o impacto do investimento nas pequenas empresas. Peeta, conversava com Haymitch sobre o próximo evento . Effie e Annie estavam falando sobre a decoração, e tentavam me incluir no assunto eu sorria, respondia com frases curtas, mas mal absorvia o que estava sendo dito.

Porque a sensação… estava ali. Persistente. Incomodando.

Como se alguém me observasse com atenção demais.

Inclinei levemente a cabeça, fingindo ajustar o brinco. Deixei o olhar vagar pelo salão, sem pressa.

E foi aí que vi.

Três mesas atrás. Ligeiramente à esquerda.

Gale. Sentado com uma postura relaxada ao lado do sócio, mas os olhos... estavam em mim.

Não abertamente. Não fixos. Mas atentos.

Como quem observa sem querer ser notado.

Ao lado dele, Lian Hawthorne. Sério. Avaliador. O olhar de um homem que não estava ali apenas por formalidade. Ele observava a todos como se analisasse um jogo novo e tentasse entender as regras antes de fazer o movimento.

Respirei fundo. Tentei ignorar.

Mas o aperto no estômago estava ali, junto com a lembrança incômoda de um passado que por mais que se tente enterrar, parecia saber o caminho de volta.

Pratos delicadamente montados chegavam à mesa, cada um uma pequena obra de arte, mas eu quase não senti o sabor, estava comendo no automático e o nó na minha garganta tornava tudo ainda mais sufocante.

As luzes do salão haviam sido suavemente ajustadas para o próximo momento da noite. A equipe se movimentava de forma quase invisível entre as mesas, recolhendo os pratos enquanto alguns convidados comentavam animadamente sobre os sabores. Uma expectativa leve pairava no ar, acompanhando da expectativa da sobremesa.

Senti o peso do olhar novamente sobre mim, persistente, incômodo. Tentei manter a compostura. Levei o copo de água à boca, lentamente, mesmo com as mãos um pouco trêmulas. Um erro. O olhar de Peeta veio imediatamente. Rápido. Afiado. Ele olhou para mim, depois para minha mão. Por um momento, achei que ele ignoraria. Mas não.

Uma luz mais intensa iluminou o palco, agora com o letreiro da M.Company projetado discretamente nos painéis. Um breve sinal sonoro ecoou, marcando o início do próximo momento formal da noite.

Delly se levantou com elegância e seguiu até o centro do palco. O salão silenciou, aos poucos. Senti então Peeta pousar sua mão sobre a minha o gesto parecia distraído, casual, mas não era. Seus dedos se fecharam levemente ao redor dos meus e, com calma, ele levou minha mão até os lábios. Um beijo suave. Demorado o suficiente para ser notado, mas ainda assim contido. Um gesto clássico, antigo, quase romântico… e perfeitamente encenado.

Delly sorria com segurança. Sua voz firme preencheu o ambiente.

“Embora muitos pensem que estamos comemorando aqui sete anos… a M.Company começou um pouquinho antes do nosso primeiro grande sucesso “ Ela lançou um olhar breve a Peeta. “Começou com uma ideia ousada do meu irmão… e um sonho. Tudo em um pequeno apartamento, com um computador antigo e uma vontade absurda de criar algo novo.” Ela fez uma pausa. “ Nossa empresa vem sendo pioneira. Em soluções, sim. Mas principalmente em coragem. Coragem de abrir espaço, de investir em quem está começando. Nosso programa de estágio é uma das nossas maiores conquistas. E o retorno que recebemos do público a cada lançamento nos mostra que vale a pena. Hoje, celebramos mais do que um marco. Celebramos um ciclo. Um novo momento. E por isso, queremos compartilhar com vocês um pouco da nossa jornada “ Ela sorriu, visivelmente emocionada, e deu um passo para o lado. As luzes do palco mudaram mais uma vez. Os painéis de LED se unificaram em uma única tela panorâmica. “Oito anos... em oito minutos”.

As imagens começaram a passar: o primeiro logo desenhado à mão, cliques de bastidores, protótipos sobre mesas improvisadas, noites longas, pequenas vitórias. Premiações, campanhas de sucesso, rostos conhecidos, lançamentos. Tudo embalado por uma trilha instrumental sensível e crescente.

Enquanto o vídeo avançava, Peeta se ajeitou levemente ao meu lado. O movimento foi discreto, contido, preciso e intencional. Sem dizer uma única palavra, ele pousou a mão sobre meu ombro. À primeira vista, um gesto distraído. Mas seus dedos permaneceram ali. A pressão era sutil, firme o bastante para marcar presença, suave o suficiente para parecer apenas um carinho espontâneo.

Ele começou a deslizar lentamente o polegar sobre a minha pele, sem jamais desviar os olhos da tela à frente. Eu sabia. Havia cálculo naquele toque. Um gesto vestido de ternura, cuidadosamente medido.

Com a expressão impecável, ele acenou de forma cortês para um casal na mesa ao lado e sorriu com naturalidade ao fotógrafo que captava registros da plateia. Nada fora do tom. Nada que pudesse ser apontado como exagerado. E, ainda assim, ele não interrompeu o gesto no meu ombro nem por um segundo.

Quando os painéis exibiram a imagem de uma das premiações da empresa, ele se inclinou levemente, como se fosse comentar algo casual. Não disse uma palavra. Apenas se aproximou. O rosto ficou junto ao meu, tempo suficiente para parecer íntimo… e visível o bastante para ser notado por quem estivesse observando com atenção.

Então, com a mesma calma, ele deixou os lábios tocarem de leve meu ombro tão próximo do meu pescoço que senti um leve arrepio. Um beijo breve. Quase imperceptível para quem não prestasse atenção. Mas o bastante para ser registrado. E alguém estava prestando atenção.

Não precisei virar o rosto para saber. Gale ainda mantinha os olhos fixos em mim. Peeta manteve a mão onde estava e ergueu a taça de espumante num brinde contido com um empresário à nossa frente. Quando se recostou novamente, deixou o polegar deslizar uma última vez sobre minha pele como quem finaliza uma assinatura. Então sorriu. Um daqueles sorrisos discretos, elegantes, que dizem tudo.

Assim que o vídeo terminou, Delly encerrou seu discurso com a mesma classe e segurança com que havia começado. O salão aplaudiu calorosamente enquanto ela descia do palco e retornava à mesa. A sobremesa começou a ser servida logo em seguida uma seleção refinada de doces circulava pelas mesas em bandejas. O chef, mais uma vez, havia superado expectativas.

Com o fim do serviço, as luzes do salão foram levemente atenuadas mais uma vez. Lavínia foi a próxima a subir ao palco. Seu estilo era mais discreto, a voz um pouco mais contida, mas o conteúdo de sua fala capturou a atenção de todos. Ela anunciou, com orgulho contido, que a M.Company havia alcançado o primeiro lugar do segmento em Panem, um marco surpreendente e quase inacreditável, considerando o curto tempo de atuação da empresa no mercado.

A surpresa tomou o salão com aplausos. Em seguida, ela sorriu e disse: “Mas agora chegou o momento que muitos aqui esperavam... e, para falar sobre isso, nada melhor do que aquele que deu início a tudo isso. Peeta, o palco é seu.”

A salva de palmas que se seguiu encheu o ambiente de entusiasmo e expectativa. Peeta levantou com elegância, o sorriso discreto nos lábios, e caminhou até o palco com a postura de quem conhece bem aquele espaço. Cumprimentou Lavínia com um beijo no rosto e, sem recorrer a nenhum papel ou teleprompter, iniciou seu discurso com naturalidade.

“Eu não sei se tenho palavras suficientes pra descrever o que estou sentindo esta noite…” Sua voz era firme. “Minhas sócias já foram brilhantes em tudo que disseram até aqui. Mas já foi dito, tudo começou com uma ideia. E um sonho, mas quero dizer que esse sonho se tornou realidade, porque eu tive sorte. Sorte de ter pais que acreditaram em mim, quando muita gente dizia que era loucura. Eles investiram. Literalmente. Acreditaram mais do que eu mesmo. E quando eu falo ‘investiram’, não é só apoio moral. Eles apostaram tudo, tudo mesmo nesse sonho.” Um sorriso nostálgico surgiu em seu rosto, sorriso que sempre estava ali quando ele falava dos pais. “A M.Company começou com um computador velho e muita vontade de fazer diferente. Mas o que fez tudo funcionar… foram as pessoas. Gente que estava ali desde o início, gente que veio depois, e que acreditou comigo. E se eu pudesse dizer uma única coisa pra qualquer pessoa aqui que tenha um sonho... é não pare. Não desista. Acreditar não garante que vai dar certo, mas parar garante que não vai.” Os aplausos começaram novamente, mas ele levantou a mão com delicadeza, pedindo que esperassem. “Hoje é uma noite de celebração. E olhando para cada rosto aqui é impossível não pensar que tem muita gente que faz parte dessa historia e que não está aqui. Mas que também estão comemorando com a gente esta noite, porém à distância.” Nesse momento, ele virou levemente para os telões, que exibiram imagens ao vivo de outras unidades da M.Company em diferentes locais no que parecia um ambientes decorados como pequenas réplicas do evento principal. “Eu queria pedir uma salva de palmas para os nossos times dos escritórios e das fábricas dos Distritos 3, 6 e 8, que estão acompanhando nosso evento de longe e comemorando lá também, pro pessoal das nossas lojas e todos que fazem essa engrenagem girar todos os dias.” As palmas ecoaram mais uma vez, tanto no salão quanto do outro lado da transmissão. Peeta deixou que o momento fosse absorvido e, quando retomou, fez isso com seu carisma habitual. “Bom, ainda temos muita coisa boa pela frente. Um show incrível daqui a pouco, brindes, novidades exclusivas , nosso lançamento que já esta sendo entregue pra quem comprou na pré venda e mais celebrações...” Ele sorriu de lado, com naturalidade. “Mas antes, tem algo que todos aqui estão esperando. Especialmente aquelas duas mesas ali.” Algumas risadas discretas se espalharam enquanto ele apontava para mesa onde Gale estava sentado e a que estava ao lado. “Está chegando o momento de revelar quais serão os três projetos que receberão o nosso apoio e investimento ao longo desse ano. Essa ação, que começou pequena, tem crescido mais a cada edição. Foram mais de 1.500 inscrições este ano, um número impressionante para o período curto de inscrição.” Ele fez mais uma pausa e o salão se manteve em expectativa. “E, pela primeira vez, tivemos inscrições internacionais. Isso mostra que estamos no caminho certo. Então, antes de revelar os escolhidos, quero dizer aos cinco finalistas que vocês já são vencedores. Chegar até aqui não é fácil. Foi uma escolha difícil. Muito difícil. Mas vamos lá vamos conhecer um pouco dos nossos finalistas.

As luzes do palco mudaram novamente, e por um momento, tudo pareceu desacelerar ao meu redor. O painel de LED se dividiu em cinco partes, cada uma exibindo pequenos vídeos com os projetos finalistas. Eu assistia ou tentei, mas as imagens passavam rápidas demais pra mim, ouvi palavras como inovação, impacto, sustentabilidade ecoando em meio a trilha sonora cuidadosamente escolhida. Mas minha mente estava em outro lugar. Ou melhor, em outra mesa.

Tentei parecer natural. Uma das mãos apoiada sobre o colo, a outra em volta da taça de água. Mantive o queixo erguido, os olhos fixos nas telas, mas meus dedos estavam gelados. A verdade era que eu estava torcendo. Não para ele. Mas contra. E isso me fez sentir ainda pior, por que não era só ele, Rory que era tão jovem e que carregava esse projeto estava envolvido.

Assim que o vídeo acabou pensei que Peeta iria anunciar os vencedores , mas ao invés disso uma contagem regressiva começou no centro do palco. Dez segundos. Uma trilha crescente. Os convidados se inclinaram discretamente para frente. Era um dos momentos mais aguardados da noite.

Nove.

Oito.

Sete.

Eu não queria o gosto amargo de ter que sorrir com ele ali, sob os holofotes, como se não houvesse um passado entre nós. Meu coração acelerou num ritmo desconfortável. Por um instante, não consegui respirar direito. A pior parte era a dúvida. O “e se”. Se o nome dele aparecesse. Se o projeto dele fosse chamado. Se ele subisse ao palco, com aquele sorriso que eu conhecia tão bem, se ele viesse morar na Capital, se estivesse a cada evento social.

Três.

Dois.

Um.

E então… o primeiro nome surgiu.

Não era o projeto dele.

O segundo. Também não.

O terceiro e último anunciado em uma explosão de aplausos.

Não. Gale não venceu.

Soltei o ar em silêncio. Não me permiti reagir, mas senti os músculos relaxarem levemente. Por dentro, o alívio era quase cruel. Do outro lado do salão, pude vê-lo imóvel. Um espectador entre tantos. Mas só eu sabia o quanto aquela derrota queimava dentro dele.

Peeta aplaudiu e cumprimentou os vencedores no palco, voltando a falar assim que a euforia no ambiente começou a diminuir.

“Parabéns aos nossos vencedores. Vocês têm agora um novo caminho pela frente com o nosso apoio total. Aqueles que chegaram até aqui e não foram escolhidos hoje, saibam que isso não é o fim. O caminho continua. As vezes, não ser escolhido pode ser a melhor chance de repensar e voltar ainda mais forte. Aos meus colegas empresários, deixo aqui uma ótima oportunidade afinal vocês têm diante de vocês projetos promissores.” Ele deu sorriso educado, cortês e naquele instante, seus olhos encontraram os meus rapidamente. “Agora, vamos dar continuidade a esta noite abrindo oficialmente nossa pista de dança ao som de The Capitol Collapse.”

O salão irrompeu em aplausos mais uma vez, muitos se levantando. Peeta agradeceu com um gesto antes de descer do palco. Com naturalidade, estendeu a mão na minha direção e antes que chegássemos à pista de dança, um fotógrafo se aproximou. Ele parou naturalmente, uma das mãos no bolso da calça e a outra na minha cintura e sorriu como se tivesse sido treinado para aquele exato momento. Eu fiz o mesmo ficando de lado a mão levemente colocada na cintura dele, a aliança reluzindo propositadamente e meu melhor sorriso, enquanto o flash disparava. Outra imagem registrada. Outra encenação perfeitamente calculada.

A banda já muito conhecida na Capital por unir estilo clássico com energia moderna iniciou a primeira música, uma melodia lenta, elegante, feita para casais. Annie dançava com Finn a poucos metros. Delly girava com Thresh com leveza e alegria. Meus sogros balançavam no ritmo com uma familiaridade terna. Tudo parecia cuidadosamente orquestrado em meio aos outros casais.

Peeta me puxou pela cintura com precisão e começamos a dançar. Cada passo era guiado com firmeza, nossos corpos alinhados em uma coreografia que aos olhos de qualquer espectador seria interpretada como pura intimidade. Mas eu sabia. Era atuação.

Ele inclinou o rosto e murmurou perto do meu ouvido, a voz baixa demais para ser ouvida por quem estivesse por perto.

“Desapontada com a premiação da noite?”

“Não posso dizer que estou surpresa, não é?” menti.

“Não? Seu amigo parecia surpreso e decepcionado.”

“Quer mesmo falar sobre isso aqui? Vai fazer alguma diferença? E, só pra deixar claro, ele não é meu amigo.” Os olhos dele pousaram nos meus. Havia algo ali. Dúvida? Confirmação? Ou apenas provocação.

“Ele sabe disso? Que não são amigos? Porque ele não consegue tirar os olhos de você.”

“Isso você teria que perguntar a ele, não acha?” O loiro sorriu. Um daqueles sorrisos contidos, perigosos. E me puxou ainda mais para perto. A mão deslizou sutilmente, mas com firmeza, até o limite aceitável para uma dança na minha cintura.

“Só não se esqueça do nosso contrato. Enquanto ele estiver em vigor, eu não divido meu quadro com ninguém.” Inclinei meu rosto, encostando os lábios em sua orelha como se retribuísse o carinho de um casal apaixonado.

“Não se preocupe, querido. Mesmo que eu quisesse, você sabe exatamente cada passo que dou. E aprendi a não lutar batalhas que não posso vencer. E nesse momento, não seria inteligente lutar contra você.”

“Eu disse que você era esperta, Katniss. Agora… será que todo mundo é esperto assim?”

Ele girou meu corpo com leveza e no movimento meus olhos encontraram os de Gale. Parado ao lado do bar, um copo de whisky na mão, ele observava. Não o salão. Não a pista. A mim.

Assim que meu corpo encontrou o do loiro novamente ele diminuiu os passos com calma sem parar de dançar a mão subindo para o meu rosto, com um toque quase carinhoso. Seus lábios tocaram os meus em um beijo discreto, breve, elegante, perfeitamente apropriado para a ocasião.

A dança seguiu, mas naquele instante, cada movimento parecia pesado. Eu sentia os olhos de Gale fixos em nós, como se cada passo, cada giro, fosse uma afronta pessoal. Por mais que nosso casamento fosse uma apresentação pública constante, o olhar dele me incomodava mais do que qualquer outra coisa. Era diferente dos encontros anteriores, diferente até do início da noite. Estava mais incisivo. Mais presente. E, de alguma forma, mais perturbador.

Quando a música terminou, voltamos a circular pelo salão, nos integrando novamente aos pequenos grupos, parando para conversas mais longas com rostos familiares do nosso círculo social. A programação da noite continuava, entre sorrisos, taças e discursos e danças com rostos conhecidos como Thesh e Finn, que embora não gostasse de admitir já eram rostos conhecidos suficientes para que ficasse a vontade.

"Te falei que esse vestido era a escolha certa, não te disse?" Magde apareceu ao meu lado com entusiasmo genuíno. Sorri em resposta, observando Peeta conversando com o pai dela. O governador parecia animado com algum comentário feito por ele, gesticulando com entusiasmo moderado. “Parece ate que Cinna o desenhou pra você, um verdadeiro espetáculo. Amo as roupas dele, definitivamente a fama faz jus ao trabalho.“ Concordei com um aceno e ela se aproximou falando mais baixo como se conta-se um segredo. “E Peeta não tira os olhos de você essa noite, acerto duplo.” Sorri e ficamos ali por alguns minutos, conversando com casualidade até que Clove surgiu.

"Parabéns pela noite. Realmente impecável." A entonação era admirável, mas algo em seu sorriso denunciava o veneno. Assim que o governador se afastou para cumprimentar outro convidado, Clove se dirigiu a Peeta com naturalidade. "Vai recusar uma dança?"

Ele não recusou. Ofereceu o braço com a mesma elegância cortês de sempre e a conduziu até o canto da pista, onde outros casais dançavam. O espaço entre eles era respeitoso, quase protocolar, mas o sorriso dela era como sempre provocativo.

“Como vai, Katniss?”

A voz me atingiu com um peso que não combinava com a suavidade do tom. Meu estômago se contraiu antes mesmo que minha mente processasse as palavras. Ainda assim, forcei um sorriso educado.

“Senhor Hawthorne, vou bem. E você?” Respondi, tentando manter a compostura.

“Senhor Hawthorne? Quanta formalidade... não acho que seja preciso. Sempre foi, no mínimo, Gale.”

Madge, ao meu lado, arqueou discretamente as sobrancelhas, surpresa com a abordagem repentina. Pela etiqueta, não tive escolha senão apresentar os dois.

“Madge Undersee, esse é Gale Hawthorne. Estudamos juntos. A empresa dele tinha um projeto concorrendo hoje.”

“É um prazer.” Ela disse polida, trocando um aperto de mão breve.

“Undersee... como do governador?” Gale perguntou em tom leve, quase divertido. Madge apenas assentiu, acostumada ao comentário, e ele sorriu ainda mais.

“Ah, é a Jen ali. Me deem um minuto, por favor.” Sem prolongar, ela se afastou em direção à filha de um deputado.

O silêncio que se instalou foi quase sufocante. Eu ponderava se devia sair dali quando ele se inclinou levemente em minha direção, falando baixo, apenas para mim.

“Então esse vestido vale o preço.”

Não me surpreendi por ele estar ouvindo escondido, mas não lhe dei a satisfação da resposta. Mantive o olhar fixo na pista de dança, onde Peeta conduzia Clove com elegância.

“Então você conseguiu a vida que queria. Vestidos caros, pessoas influentes, motorista, cartão Black... e uma casa enorme em um bairro de luxo da Capital.”

“Pois é... no fim, você e seu pai estavam errados. Havia algo melhor pra mim. Acho que venci na vida, afinal.”

“Será?” Ele sorriu torto. “Dinheiro não é tudo. Onde foi parar aquela mulher que queria uma carreira, independência, sucesso profissional? Você dizia tantas vezes que não queria ser um troféu.”

“Falou o homem que vive às custas do pai.” Minha voz permaneceu controlada, ainda que baixa. Vi o olhar dele escurecer, mas o ambiente ao redor, me dava a garantia de que ele não perderia a linha em público. “E onde está o astro do basquete? O jogador de primeira divisão, famoso, vivendo na Capital?”

“Gosto quando é petulante, sabia? Sempre com uma resposta pronta. Faz isso com o Mellark também ou, como ele te banca, você releva? Quanto ele te dá de mesada, por assim dizer? Talvez eu possa cobrir a oferta. Você seria mais feliz comigo.”

“Você não está no nível dele. Olhe ao redor, Gale. Acha que faço ideia de quanto gasto? Acredite eu não sei, mas é mais do que você recebe do seu pai. E o mais importante sei que o cartão nunca deixou de passar... e nunca precisei ouvir uma única reclamação sobre isso.”

“Posso ver que se parece mesmo com sua mãe.” A comparação foi calculada para me ferir, mas mantive a expressão firme.

“A fruta não cai longe do pé, não é? E veja você... cada vez mais parecido com o seu pai. Pena que demorei tanto a notar.”

“O que tínhamos ia além disso. Foi épico. Tínhamos química. Somos iguais, Catnip.” A voz dele baixou ainda mais, quase como se quisesse me prender naquele sussurro.

“Não somos iguais, Gale. E o que tivemos não foi épico. Pelo contrário. Ou já esqueceu como terminou?”

“Aquilo foi um erro. Um momento ruim.”

“Momento ruim?” Meu olhar deixou claro tudo o que minha boca não disse.

“Me arrependo. E sempre vou me arrepender, já disse isso.” Ele se inclinou, um sorriso frio nos lábios. “Ele não te ama. Só quer exibir você. E você sabe disso. Ainda assim acha que venceu na vida.” Sorri, irônica.

“Falando em vencer... lamento pelo seu projeto. Uma pena não ter levado o patrocínio. Você não devia estar tentando falar com os empresários em vez de perder tempo aqui?”

Antes que ele respondesse, Madge retornou, radiante, e se colocou novamente ao meu lado, falando algo sobre um evento no próximo mês. Vi Gale virar o copo de whisky de uma vez e o largar na bandeja de um garçom que passava.

“Você aceitaria dançar a próxima música? Pelos velhos tempos.” A pergunta veio baixa, acompanhada de um sorriso calculado. Ele havia esperado Madge voltar para fazer o convite. O cheiro do álcool no seu hálito me atingiu antes mesmo que a dúvida sobre a recusa tomasse forma.

“Sinto muito... vamos ter que deixar para outra ocasião.” Não era muito educado, mas estava no limite.

“Seu marido está na pista com outra mulher, ele não vai se importar.”

“Não por ele. Só não consigo dançar mais nada esta noite. Sapatos elegantes nunca são confortáveis.” Mantive o sorriso ensaiado, mas por dentro só havia urgência em encerrar aquela conversa.

“Fica para a próxima, então. Espero não demorar tanto pra te ver. Você sabe o quanto gosto da Capital. Me liga para marcarmos algo. Ou eu te ligo.” A ideia dele conseguir meu número me deixava inquieta, então apenas sorri de leve.

Ele se afastou devagar, mas com os olhos ainda presos em mim e isso fez meu estômago revirar.

“Katniss, você está bem?”

“Sim. Só preciso retocar a maquiagem.”

“Quer que eu te acompanhe?”

“Não precisa. Eu sei o quanto você adora essa banda… e eles estão encerrando o show. Eu já volto.”

Me afastei com calma, tentando manter a compostura enquanto cruzava o salão em direção à sala de apoio. Subi as escadas de pedra sem ser detida. Nenhum funcionário me questionou. Eles apenas sorriram, e sabia que era por ser uma Mellark.

Assim que entrei na sala, fui tomada pelo alívio do silêncio. Afundei em uma das poltronas e deixei o corpo relaxar. A noite tinha sido longa, intensa demais. Alguém da equipe perguntou se eu gostaria de algo. Neguei com um gesto sutil. No fundo, só queria estar sozinha por um tempo.

Uma leve pontada atravessou meu estômago. Suspirei. Cólica outra vez? Não podia ser, era muita falta de sorte. Fechei os olhos por um instante, tentando ignorar o desconforto, enquanto uma tontura discreta começava a se formar. Talvez fosse a troca brusca das luzes vibrantes do salão para a claridade calma da sala.

Ou talvez fosse tudo. A porta se abriu atrás de mim.

“Katniss?” A voz de Peeta veio baixa, mas firme.

“Já vou voltar… só precisava de um minuto e um retoque na maquiagem.”

Abri os olhos e me levantei ao mesmo tempo e isso foi um erro. A sala girou de imediato. O ar sumiu dos meus pulmões. Tentei alcançar o encosto da poltrona, mas minha mão não encontrou nada. As pernas falharam. O salto parecia alto demais. Ou talvez eu estivesse leve demais.

Então, os braços dele me envolveram com firmeza.

“Katniss…” O mundo escurecia. A voz dele parecia longe. A sala não parava de rodar. Meu corpo não me obedecia mais. Tentei dizer algo, mas não consegui. Era como ser puxada para dentro de mim mesma, sem resistência, sem tempo. No último instante, senti um braço embaixo dos meus joelhos, o outro nas minhas costas. E depois, nada. Acordei em um dos sofás. Ou achei que tinha acordado. Era como se o corpo estivesse ali, mas não comigo. Os sons estavam abafados. Vi o loiro falando com um homem de terno provavelmente da segurança e tentei me mover, mas não consegui. “Katniss, consegue me responder?”

Queria dizer sim. Mas minha boca estava seca. E o frio… o frio era estranho. Não vinha do ambiente.

“Senhor Mellark, o carro está pronto.”

Uma voz desconhecida soou, e então senti Peeta me erguer com cuidado. Instintivamente, me aconcheguei contra o peito dele. O calor e o perfume dele contrastava com o gelo que corria por mim. Eu não entendia, mas meu corpo reagia como se buscasse abrigo.

Ele caminhava com pressa, mas com o cuidado de quem carrega algo frágil. Dois seguranças o acompanhavam. E embora meus olhos se mantivessem semiabertos, só consegui entender que estávamos deixando o evento quando reconheci a entrada dos fundos onde o carro havia ficado. Ele me acomodou no banco e sentou ao meu lado.

“Darius, segue pro hospital. Por favor.”

Não sei quanto tempo se passou até chegarmos ao hospital, mas senti como se tivessem tomado um sedativo leve, a mente flutuava, o corpo parecia alheio. Senti que estava sendo carregada e reconheci o perfume de Peeta , podia ouvir a voz de Darius adiante, anunciando nossa entrada pela ala de emergência. Logo depois, Peeta me deitou numa maca então parei de resistir e fechei os olhos.

Quando voltei a mim, o quarto estava levemente escuro, iluminado apenas pela luminária minimalista ao lado da cama. O ambiente exalava luxo, paredes revestidas em painéis de madeira clara, lençóis de algodão acetinado, monitores embutidos no mobiliário, tudo lembrava uma suíte de hotel, não um quarto de hospital. Tentei me erguer, mas a voz de Peeta me deteve.

“Melhor continuar deitada. Está sentindo alguma coisa?”

Ele estava sentado na poltrona ao lado da cama, agora sem o paletó, a gravata solta, mangas dobradas.

“Quanto tempo estou aqui?”

“ Você dormiu cerca de uma hora e meia mais ou menos.”

“Dormi?”

“Sim, você desmaiou no evento. Veio o caminho levemente consciente, mas apagou assim que chegamos. Os médicos disseram que foi um sono profundo.”

Minha cabeça latejava demais, então apenas fechei os olhos, tentando controlar a náusea leve que subia. Alguns minutos depois, bateram na porta e um médico de cabelos grisalhos, ar sério e impecavelmente vestido entrou, pediu licença e acendeu a luz. Peeta se levantou e ficou ao lado da cama.

“Vejo que acordou, senhora Mellark.” A voz dele era firme e carregada de autoridade, enquanto passava os olhos pelo tablet nas mãos. “Sou o doutor Gaiman. Como está se sentindo?”

“Cansada”, respondi.

“Isso era esperado. Seu corpo chegou ao limite, por isso desmaiou. Também percebi que trata uma anemia que está controlada, mas continua exigindo cuidados.” Ele falou como ar de quem sabe de tudo. “Mas há outro ponto ainda mais relevante no seu diagnóstico.”

“Outro ponto?”

“Sim.” Ele levantou os olhos, sério. “Parabéns. Você está grávida.”

“Como?” Perguntei quase rindo. “Isso deve ser engano, doutor. Eu não estou grávida.”

“Engano?” Ele arqueou a sobrancelha, quase debochado. “Os exames não erram, senhora Mellark. Os níveis hormonais são claros. Não há nenhuma dúvida.” Disse com calma, como se fosse óbvio demais.

Peeta ficou imóvel, como se as palavras demorassem a chegar até ele. Antes que eu conseguisse pensar em algo, novas batidas soaram na porta e uma mulher entrou, sorridente, com um avental rosa por baixo do jaleco branco.

“Boa noite “ o tom dela era gentil e acolhedor e o sorriso cativante como quem quer transmitir calma.

“Esta é a doutora Porter, obstetra de plantão.” Ele disse nitidamente cumprindo o protocolo, sem dar importância, apenas lidando com formalidades. Ele fez uma pausa breve antes de acrescentar, com um leve ar de superioridade: “É competente na área dela.”

“Não preciso de obstetra.” Retruquei, sentindo o coração acelerar. “Não posso estar grávida. Esse exame não é meu.”

A doutora Porter manteve o tom gentil, representando perfeitamente aquele hospital de elite.

“Senhor e senhora Mellark, nossos testes seguem protocolo rígido. As amostras são rastreadas. Posso garantir que não houve troca. Entendo, pelo que parece, que o bebê não foi planejado, mas os métodos contraceptivos falham, ainda que raramente. Mesmo usados corretamente, não são 100% seguros. Alguns pais têm a sorte ou surpresa de fazer parte desse pequeno percentual.”

“Não existe a possibilidade” Repeti, com a voz mais firme, aquele engano só poderia ser um pesadelo.

“Vocês usam anticoncepcional? Preservativo?”

“Eu confesso que, por conta da anemia, não tomei minha injeção na data... mas esse não é o ponto aqui.” Peeta levou a mão à cabeça, ainda em silêncio. “Não tem como eu estar grávida.”

O doutor Gaiman lançou um olhar à colega, um olhar que mais parecia um aviso. Aquilo me incomodou. Ele já estava começando a me irritar.

“Talvez eu deva acompanhar seu marido até a sala de espera, para que a senhora converse com mais privacidade sobre... datas de concepção com a doutora Porter.”

“Eu não vou sair.” Foi a primeira palavra de Peeta desde a entrada dos médicos.

“Muitos pacientes se sentem mais à vontade sem o parceiro. Caso exista... digamos... qualquer dúvida sobre possíveis datas de concepção.”

Ele só podia estar brincando. Olhei para Peeta e vi a surpresa misturada a algo que se parecia com raiva, a ousadia do médico tinha ultrapassado os limites.

“Você por acaso está sugerindo que ela pode estar grávida de um filho que não é meu?” Peeta cruzou os braços devagar, a voz carregada de sarcasmo. “Me diga, doutor Gaiman, o protocolo desse hospital cinco estrelas inclui insinuar que minha esposa teve um caso? Que elegância. “Ele baixou os olhos e conferiu o próprio relógio de pulso, como se tivesse todo o tempo do mundo. Um sorriso frio surgiu em seus lábios. “Será que já posso acionar meu time jurídico, ou espero mais um pouco, só pra ver até onde vai essa sua ousadia disfarçada de profissionalismo? Talvez eu deva falar diretamente com a diretoria... mas te garanto se eu fizer essa ligação, não importa a hora, mas tenho a certeza de que amanhã cedo você estará respondendo a um processo.”

Vi o médico perder a cor. Pela primeira vez, a segurança arrogante vacilou. Ele desviou os olhos e olhou para a doutora Porter, quase como se pedisse ajuda.

“Acredito que não foi exatamente Isso o que meu colega quis dizer”, ela disse, a voz suave, tentando conter o clima.

“Você acha que mandando meu marido sair eu vou admitir algum caso ou coisa assim? Como se isso resolvesse? Por acaso se falasse isso vocês aceitariam dinheiro pra dizer que estou com outro tempo de gravidez?” Estava sentido o coração acelerar, mas tentando manter o tom controlado. “ Mas a questão não é essa.”

“Não quis dizer isso, senhora. Só sugeri que você ficaria mais à vontade sozinha com a médica. Talvez seja uma gestação avançada... conversar ajuda.” Aquela conversa estava me cansando.

“Quando eu digo que não posso estar grávida, não é porque eu não transei com meu marido recentemente, mas porque eu não posso engravidar.” Soltei rapidamente aquilo que enatava queimando na garganta nos últimos minutos. “Alguns anos atrás eu tive um aborto, e com ele, complicações graves, incluindo uma hemorragia que resultou na retirada de uma das minhas trompas e um dano considerável no meu útero. Na época, me informaram que eu não conseguiria engravidar de novo. Então esses exames estão errados.”

Notas finais
É isso, meus queridos! Espero de verdade que tenham gostado do capítulo. Vocês sabem o quanto adoro ler a opinião de vocês, então não deixem de me contar o que acharam. Prometo que não vou demorar tanto no próximo, afinal, vocês são incríveis. Um beijo enorme e uma semana maravilhosa para todos!