Linha Tênue
35 Capítulo 32: Fagulha e Fogo
Notas iniciais
“Gostei dessa. Acho que ficaria ótima com uma calça do Cinna que eu tenho.” Concordei com a cabeça e tentei esboçar um sorriso para Madge, enquanto ela puxava outra peça do cabideiro com empolgação. Aceitar o convite para o almoço e uma tarde de compras após uma ida ao salão tinha sido, no início, uma boa ideia, mas depois de algumas horas andando pelo shopping, meu corpo começou a dar sinais de cansaço. “Você está bem? Parece meio pálida... Você não comeu quase nada no almoço.”
“Estou bem. Só um pouco cansada. Meio sem apetite esses dias.” Falei com sinceridade, observando uma calça elegante que a vendedora estendeu diante de nós. Era bonita, com um corte reto e um tom mais claro, uma possibilidade para usar em um dos eventos de final de ano, nas próximas semanas.
“Você devia procurar um médico. Isso não é normal, Katniss. Acho que você emagreceu uns três quilos nas últimas semanas.”
“Estou bem. Só tem muita coisa acontecendo nos últimos tempos.”
“Peeta deve estar correndo com a empresa esses dias, não é?” Confirmei com a cabeça, se ela soubesse que os momentos em que Peeta estava cheio de trabalho eram na verdade meus momentos de paz, mas pra ser sincera o que realmente estava me consumindo não era ele, mas todo o resto como as ligações da minha mãe sempre carregadas de drama, tentando me fazer sentir culpa, e meu pai, que seguia com o mesmo discurso de obrigações e responsabilidades sobre a empresa como se fosse um legado sagrado que eu tinha a obrigação de salvar.
“Sim. Ele está envolvido com os lançamentos do início do próximo ano. Mas logo as coisas se normalizam.”
“E os preparativos para o aniversário da empresa? Já começaram? Ano passado foi incrível. A M. Company sabe organizar um evento... sem contar que todos estão ansiosos para descobrir quais empresas vão receber investimento esse ano. As do ano passado estão indo super bem, ouvi dizer...”
Tentei manter a atenção, mas as palavras de Madge começaram a soar abafadas, como se ela falasse debaixo d’água. Então meu campo de visão começou a se estreitar e o chão parecia se afastar, os sons ao redor a diminuíram ainda mais. Senti o suor frio percorrer meu corpo sem aviso. Instintivamente, levei a mão ao encosto de uma das poltronas da loja, tentando manter o equilíbrio. Mas meus dedos mal encontraram apoio antes de tudo escurecer por completo.
Quando abri os olhos, por um breve momento não reconheci onde estava. A última imagem clara que tinha era da loja no shopping. Mas o teto próximo e o som abafado de motores indicavam que não estava no mesmo lugar. Aos poucos, percebi que estava em um carro em movimento.
“Ela acordou.” Ouvi Madge ao meu lado, com uma voz de alívio.
“Senhora Mellark, a senhora está bem?” Darius, perguntou atento à direção enquanto olhava rapidamente pelo retrovisor.
“Estou... acho que minha pressão caiu. Quanto tempo fiquei desacordada? Estamos longe de casa?”
“Acabamos de sair do shopping. Mas você desmaiou, Katniss. E levou alguns minutos para recobrar a consciência. Vamos direto ao hospital.”
“Não precisa... só estou cansada. Acho que preciso de um pouco de descanso. Tenho que acompanhar Peeta a um jantar de negócios hoje à noite.”
“Darius, continue para o hospital.” Madge disse firme, antes que eu insistisse em ser levada para casa. “Você precisa ser avaliada por um médico. Se não for nada, você vai para casa, mas você precisa de uma avaliação profissional.”
Não estava com forças nem disposição para disutir, então apenas fechei os olhos novamente e deixei que me levassem. Poucos minutos depois, o carro parou na entrada principal de um dos hospitais mais sofisticados da Capital. A recepção com painéis digitais de alta tecnologia estava quase vazia, uma fragrância levemente amadeirada no ar e um ambiente tão sereno que quase não parecia um hospital. Uma enfermeira me chamou pelo nome logo que passei pela recepção e não demorou até que eu estivesse em uma sala de atendimento particular, ampla, iluminada, com uma poltrona confortável em frente a uma mesa de mogno elegante, no canto uma maca. O médico chegou minutos depois, impecável em seu jaleco branco e sorriso contido.
“Sou o doutor Charles, e vou atendê-la hoje. Pode me dizer o que está sentindo senhora Mellark?” Falei sobre o que havia acontecido e o que vinha sentindo nas últimas semanas e como esperado, veio a pergunta clássica. “Alguma chance de gravidez?” Revirei os olhos discretamente, afinal aparentemente esse era o primeiro possível diagnostico para uma mulher.
“Não. Uso injeção anticoncepcional. Ainda faltam cerca de duas semanas para a próxima dose.” Comentei sem entrar em muito detalhe.
“Certo. Vamos solicitar alguns exames de sangue, como você não bateu a cabeça e suas pupilas estão normais não há necessidade de exames de imagem, mas enquanto aguardamos os resultados, vamos te manter no soro.”
Suspirei e deixei a enfermeira me conduzir até uma sala de coleta, onde tudo aconteceu com uma precisão quase cirúrgica. Depois, fui levada a um quarto privativo com vista para os jardins onde me conectaram ao soro me deixando sozinha, mas não demorou para que Madge aparecesse para me fazer companhia.
“Quer que eu avise o Peeta? Não liguei ainda, não sabia se você iria preferir ligar para ele pessoalmente.”
“Não precisa. Melhor não preocupá-lo. Vai ser algo simples.” A verdade é que a última coisa que eu queria era vê-lo fazendo sua melhor atuação de marido dedicado. Mas, como ultimamente a sorte não estava ao meu favor, menos de uma hora depois ele entrou no quarto com uma expressão de preocupação que sabia que era puro teatro.
“Katniss, o que houve?” Não sei como tive esperança dele não saber o que estava acontecendo, afinal obviamente Darius entraria em contato para avisar onde estava.
“Foi apenas um mal-estar. Madge se assustou e achou melhor me trazer aqui. Um exagero acredite.”
“Não foi exagero, ela desmaiou e ficou desacordada por vários minutos. Tivemos que colocá-la no carro ainda desacordada.” Antes que a conversa se prolongasse, o médico retornou com um tablet nas mãos.
“Senhora Mellark, o resultado dos seus exames estão prontos.” Madge prontamente avisou que esperaria na recepção e saiu discretamente.
“Boa tarde, doutor. Peeta Mellark, o marido.” Ele estendeu a mão, e o médico apertou em um comprimento educado.
“Sou o doutor Charles. Bem, os exames no geral estão dentro do esperado. Contudo, há uma deficiência significativa de ferro e sua hemoglobina está bem abaixo do esperado. O que significa uma anemia consideravelmente avançada. Por isso a fadiga constante, tonturas, falta de apetite e o desmaio.” Suspirei involuntariamente, definitivamente eu não precisava de mais isso para lidar naquele momento. “Você vai tomar uma injeção de ferro agora e vou prescrever um suplemento para as próximas semanas e também agendaremos uma segunda aplicação para daqui a quinze dias, acredito que isso vá ajudar, mas recomendo uma dieta com carnes vermelhas, vegetais e alimentos ricos em vitamina C para aumentar a absorção de nutrientes. Seria bom marcar uma consulta com um nutricionista para ele elaborar um plano alimentar mais preciso.”
“Ela precisa fazer repouso ou algo assim?” Peeta perguntou na sua melhor atuação colocando sua mão no meu ombro.
“Não exatamente, mas evite atividades intensas nos próximos dias. Também preciso alertar que em casos como o da senhora Mellark, não é indicado tentar engravidar até que os níveis estejam normalizados. A anemia, especialmente nesse estágio, pode ser perigosa para a mãe e o bebê.”
“Não estamos com esse tipo de plano no momento.” Comentei rapidamente.
“Perfeito. E sobre o uso do anticoncepcional como comentou que usa, é raro, mas em algumas mulheres a anemia pode surgir como um efeito adverso, sugiro que converse com seu ginecologista antes da próxima aplicação para avaliar o método contraceptivo mais seguro nesse momento. A enfermeira Lockwood vai aplicar a medicação agora. Como o soro já foi finalizado, a senhora está liberada.”
“Obrigado, doutor.” Peeta agradeceu com um sorriso educado antes de se voltar pra mim. “Vou acertar a conta do hospital enquanto aplicam a medicação.” concordei com a cabeça e observei ele sair do quarto.
A aplicação foi incômoda, dolorida até, mas suportável. Encontrei Madge me esperando na recepção com seu habitual sorriso tranquilo. Nos despedimos com um abraço breve e recomendações para que me cuidasse. Darius a levaria de volta ao shopping, onde seu carro estava enquanto Peeta me levaria para casa. Entramos em silêncio no carro, e por um momento desejei poder adormecer ali mesmo.
“Acho que consigo me arrumar rapidamente e saímos a tempo do jantar.”
“Pedi para Delly me representar hoje. O médico disse que você precisa descansar. E não se esqueça de marcar o acompanhamento para tratar isso direito.” Ele falou sem tirar os olhos da estrada. Eu não tinha energia para prolongar a conversa e, francamente, não via motivo para isso. Apenas olhei pela janela, deixando o silêncio se estender até chegarmos em casa.
As semanas seguintes foram um verdadeiro borrão e, em meio a tudo que estava acontecendo, quando percebi, já estávamos na terceira semana de dezembro, com todo o caos das festas de fim de ano. Confesso que fiquei realmente grata por não precisar ir ao Distrito 12 para as comemorações, já que, devido à loucura das vendas de Natal e aos lançamentos da M. Company, meus sogros vieram para a Capital.
Dessa forma, embora a rotina tenha ficado ainda mais corrida, precisei incluir os acompanhamentos médicos, as compras de presentes de Natal e, claro, do amigo secreto, porque, sim, os Mellark insistem em seguir todo tipo de tradição familiar que encontram, de qualquer lugar possível na vida deles. Mas no fim, apesar da correria, tudo acabou dando certo. Mesmo tento que me reunir com minhas cunhadas e minha sogra para organizar a ceia de Natal, que aconteceu na casa dos Odair e se estendeu da noite da véspera até o almoço do dia 25.
Por sorte, o Ano Novo foi comemorado em uma grande festa no clube, com a nata da sociedade da Capital, e minha única preocupação foi encontrar um vestido adequado para a ocasião. E isso, por si só, já foi suficiente para que nem mesmo as incessantes investidas de Clove no loiro durante o evento, tampouco seus comentários irritantes e provocativos, conseguissem mudar meu humor ameno e minhas promissoras perspectivas para o novo ano.
Embora a entrada de um novo ano não tenha trazido mudanças significativas para a minha vida pessoal, para a M.Company veio uma maré de sorte gigante. A empresa se destacou ainda mais com o sucesso estrondoso da pré-venda do novo console, que esgotou 24 horas após o início e logo nos primeiros dias do ano teve a liberação de um segundo lote de vendas antecipadas que não durou muito. Isso manteve Peeta cada vez mais ocupado, ficando até mais tarde todos os dias na empresa, o que me permitiu dedicar mais tempo aos estudos das finanças da Mockingja e traçar um plano de negócios. E, embora não tenha sido nada fácil, consegui enxergar uma luz no fim do túnel em forma de uma possível salvação para a empresa da minha família.
Assim, ao término do prazo de três meses, eu estava com tudo devidamente pronto para a apresentação da proposta. De forma muito profissional, agendei um horário na empresa para apresentá-la. Em casa, Peeta não fez nenhum tipo de comentário, pelo contrário, apenas ignorou ou fingiu ignorar que o prazo combinado estava se encerrando. Mesmo assim, não me surpreendi ao vê-lo entrando em nossa reunião. A surpresa de fato foi ele não entrar sozinho, mas acompanhado de Johanna Mason. Ele sentou na ponta da mesa com o profissionalismo e a postura de quem não me conhecia. Como aquele era um jogo que dois podiam jogar, mantive minha surpresa escondida antes de começar a apresentação e mostrar tudo o que havia preparado nos últimos meses. Com todo o profissionalismo que adquiri ao longo dos anos, tentei esquecer quem era a pessoa sentada à ponta da mesa e fiz o que, para ser sincera, posso considerar minha melhor apresentação.
"Como podem ver, embora os lucros possam levar alguns meses para começar a aparecer, é possível que, em três anos, todo o investimento nesse projeto tenha rendido pelo menos 150% em nosso melhor cenário. No pior deles, nesse mesmo período, já será possível recuperar pelo menos o valor investido. Além disso, como benefício, será possível manter a fábrica e o emprego de 100% do quadro atual de funcionários, com a perspectiva de gerar ainda mais empregos nos próximos anos no Distrito 12."
"Senhora Mellark, você não acha que seria muito arriscado investir esse valor com uma perspectiva tão longa de retorno? E que esse belo cenário apresentado tem uma grande chance de não se concretizar, visto a economia do Distrito e o ramo de investimento?" Johanna perguntou, de forma provocativa olhando as anotações em seu computador.
"Talvez isso seja incomum para a senhorita, entretanto, os investimentos de alto risco são imprevisíveis. Porém, apresentei o que seria o pior cenário, pensando de forma fria."
"Na verdade, esse não seria o pior cenário. Pensando friamente, a pior possibilidade para um investimento de alto risco seria não recuperar o valor investido, ou até a perda total do capital inicial. Isso se não for necessário investir ainda mais nos meses subsequentes."
"De fato, mas esse é um risco para qualquer investimento, seja ele de alto risco ou não. E acredito que isso já esteja subentendido em qualquer proposta. Pensando no cenário e nas possibilidades com a economia atual, minha projeção para o pior cenário não é tão ruim, considerando o impacto muito maior que seria o fechamento de uma fábrica tão conhecida e que gera tantos empregos, apoiando a economia de um dos menores Distritos de Panem."
"Acredito que seu último argumento faria muito sentido se essa proposta fosse voltada a pessoas do ramo político, com foco em manter ou investir na economia do Distrito 12. Entretanto, o investimento que você busca vem 100% de um investidor privado. Pensando como investidor, você acha mesmo que o impacto financeiro em um Distrito distante é relevante para essa proposta?” Ela fez uma pausa como se me desafiasse a levar para o lado pessoal, como se espera-se que menciona-se que era o Distrito onde o investidor cresceu e onde seus pais ainda moravam. “Estamos falando de um investimento considerável para uma empresa que tem pouquíssimo a oferecer. Senhora Mellark, você acha que qualquer outro investidor aceitaria essa proposta?"
Johanna era boa e havia formulado questões capciosas, tentando medir se minha proposta estava de fato focada em valores, investimentos e lucros, ou se era apenas uma tentativa de influenciar por ser esposa do possível investidor.
"Bom, qualquer investidor talvez não. Mas um investidor que pensa em um cenário futuro, sim. E esse, definitivamente, é o perfil do atual acionista majoritário e possível investidor deste projeto."
"E qual exatamente é o meu perfil, senhora Mellark?"O loiro perguntou, falando pela primeira vez desde o início da apresentação.
"Um perfil que investe pensando na qualidade e no resultado positivo, mesmo que os lucros não sejam imediatos. Entretanto, que enxerga a probabilidade de lucro futuro, além de crescimento e satisfação no processo. E também, um bom resultado ao público final. Aqui, no caso, não somente o consumidor, mas também os funcionários envolvidos."
Mantive o olhar firme enquanto ele me observava atentamente, como se tentasse ler algo além de mim. Interiormente, desejei muito que aquela reunião desse certo, e que toda a apresentação fosse vista de forma profissional, independente de qualquer rancor ou vingança que houvesse entre nós.
"Agradeço sua apresentação. Entraremos em contato assim que tivermos um posicionamento em relação à proposta." Foi Johanna que finalizou a reunião enquanto Peeta, assim como entrou na sala como se não nos conhecêssemos — como se não tivéssemos um contrato que me forçava a ser sua esposa — saiu, levando consigo toda a pose de um empresário que participa de várias reuniões ao longo do dia.
Embora eu não quisesse pensar muito sobre o resultado, nem sobre o que poderia ter feito de diferente durante a reunião ou de melhor na proposta, não pude deixar de me autoavaliar ao longo do dia.
Naquela noite, ao chegar em casa, ele não fez nenhum comentário sobre a reunião ou sobre a decisão referente à minha proposta, o que só aumentou minha curiosidade e ansiedade. Ainda assim, mantive a postura indiferente e não toquei no assunto enquanto jantávamos com minha irmã, que sequer fazia ideia do que estava acontecendo.
Como se quisesse me torturar, a resposta veio apenas uma semana após a reunião, por meio de um e-mail formal, muito profissional e até educado, agradecendo pela proposta, mas recusando o investimento. Para minha surpresa, o e-mail terminava com a assinatura de Johanna.
Meu primeiro impulso foi ir até a empresa confrontar o loiro e questionar por que ele havia me feito acreditar que havia alguma chance, quando na verdade parecia nunca ter tido intenção de aceitar minha proposta. Mas me contive. Eu sabia que era exatamente isso que ele esperava que eu fizesse e era esse tipo de atitude que ele usaria contra mim, me fazendo perder a razão. Em vez disso, apenas revi mentalmente tudo o que apresentei naquela tarde e esperei ele voltar para casa. Como se soubesse que eu estava esperando, Peeta não apareceu para o jantar, chegando mais tarde do que o habitual.
"Eu poderia mentir e dizer que estou surpreso em te ver acordada. Mas o dia foi extremamente cansativo, e eu não tenho energia para isso."
Observei-o por um momento. O terno em uma das mãos, o nó da gravata ligeiramente frouxo. Ele realmente parecia cansado. Ainda assim, mantinha a postura séria e superior.
"Eu preciso falar com você sobre a minha proposta."
"O dia foi realmente longo, e eu estou exausto. Você pode falar diretamente com a Johanna ou com qualquer responsável de lá. Neste momento, a única coisa que quero, e vou fazer, é tomar um banho e dormir."
E, como se desse o assunto por encerrado, subiu as escadas. Fiquei sem reação por um minuto. Embora quisesse muito ir atrás dele para discutir, parei. No fundo, eu sempre soube: ele nunca teve a intenção de dar uma chance à empresa da minha família. Não havia argumento que pudesse mudar a decisão dele. Então, apenas me sentei, pensando no que fazer. Em como ajudar meus pais, e todas aquelas pessoas que não tinham culpa alguma dessa situação e muito menos das minhas ações do passado.
Não sei quanto tempo fiquei ali, sentada no sofá da sala, pensando em tudo. Mas quando entrei no quarto, ele já estava dormindo com uma tranquilidade que eu não conseguia entender. Por mais que demonstrasse me odiar, Peeta não parecia o tipo de pessoa que prejudicaria os outros sem um motivo real. O homem deitado naquela cama era o filho modelo, o irmão amoroso, o amigo para todas as horas... e, ainda assim, não parecia ter limites para se vingar de mim.
Não foi difícil evitá-lo nos dias seguintes. Com tudo o que estava acontecendo na empresa, Peeta saía cedo — geralmente antes de eu acordar — e voltava tarde.
"Senhora Mellark, seu pai está aqui e deseja vê-la. Devo pedir para que volte outra hora?"
Apoiei o copo na mesa e olhei para Prim, sentada do outro lado, por um momento. Estávamos terminando a sobremesa, e, ao pensar na visita inesperada, agradeci mentalmente por Peeta ainda não ter chegado do trabalho, como vinha acontecendo nos últimos dias.
"Não, eu vou recebê-lo na biblioteca." Falei, tentando desviar o olhar da expressão cheia de interrogações que Prim me lançou. "Vou ver o que o papai quer. Caso ele queira falar com você, peço para chamarem, tudo bem?"
"Não precisa. Não acredito que ele queira falar comigo ainda. Você sabe o quanto ele e a mamãe são orgulhosos. Além do mais, amanhã tenho prova, então vou para o quarto estudar assim que terminar essa torta. Mas... você sabe o que ele quer, a essa hora?"
"Não sei, mas não deve ser nada sério. Caso contrário, a mamãe já teria ligado." Tentei sorrir, transmitindo uma calma que, na verdade, eu não sentia. "Termine sua sobremesa, e não estude até tarde. Você precisa dormir bem, senão não vai conseguir se concentrar amanhã. Passo no seu quarto mais tarde."
"Pode deixar."
Respirei fundo antes de seguir para a biblioteca, um cômodo que raramente era usado, mas que, nos últimos meses, havia se tornado praticamente meu escritório enquanto preparava a proposta. Era ideal para conversar sem interrupções. Assim que entrei, vi meu pai de pé ao lado da mesa que eu vinha usando para trabalhar, examinando atentamente alguns papéis.
“Boa noite, pai. A que devo o prazer da sua visita inesperada?” Ele deu um pequeno sobressalto ao ouvir minha voz.
“Um pai não pode visitar as filhas?”
“Uma visita social, então? Devo chamar a Prim?”
“Não será necessário. Minha prioridade hoje é falar com você.”
“Claro. Sente-se.” Indiquei um dos sofás e me acomodei no outro. “Posso te oferecer alguma coisa?” Ele negou com a cabeça e observou o ambiente por alguns segundos antes de se sentar.
“Peeta tem um belo local de trabalho em casa. Bem amplo.” Observei meu pai com atenção. Ele parecia mais velho do que da última vez que o vi. Mais magro. Os cabelos grisalhos estavam mais evidentes. Aquilo me atingiu como um soco.
“Ele não usa a biblioteca para trabalhar. Tem um escritório pessoal. Quem usa esse cômodo sou eu. Prim raramente entra aqui, ela prefere estudar no quarto.” Eu sabia que aquela não era uma visita social. Queria perguntar diretamente o que ele queria, mas não o fiz. Conhecendo-o como eu conhecia, sabia que ele não demoraria a chegar ao ponto. Meu pai nunca foi de rodeios.
“Tivemos uma reunião hoje. Anunciaram o fechamento da empresa. Sabia disso?” Neguei com a cabeça e vi a expressão dele mudar levemente. Eu sabia que, em breve, ele deixaria de tentar disfarçar a irritação.
“Devo entender, então, que seu grande plano de apresentar uma proposta milagrosa para salvar a empresa do seu bisavô não deu certo?”
“Sim. Minha proposta não foi aceita.”
“E...” Ele me olhou, esperando algo mais. “É só isso que tem a me dizer? A proposta não foi aceita e agora a empresa que passou por quatro gerações de Everdeen vai simplesmente fechar as portas? Meu pai deve estar se revirando no túmulo agora.”
“O senhor tem algum dinheiro para investir? Porque eu não tenho. E não se preocupe com o vovô, ele foi cremado.”
“Olha como fala comigo, Katniss.”
“O que eu disse de errado? Eu tentei, ok? Mas não deu certo. Estou de mãos atadas aqui.”
“Mãos atadas? Olha pra sua casa. Olha pra sua vida. Você realmente não percebe o quanto está sendo egoísta?” Senti meu estômago revirar. Tentei respirar fundo, manter a calma, mas as palavras dele me acertaram como um tapa.
“Eu estou sendo egoísta? Você por acaso tem ideia do que está falando?”
“Sim, egoísta e burra!” Ele cuspiu as palavras com raiva. “Será que você não percebe que, se esse casamento acabar, você não vai ter nada? Foi você mesma que disse que assinou um contrato pré-nupcial! Acha mesmo que, com esse contrato, onde ele protege cada centavo que tem, ele vai te deixar alguma coisa?”
“Eu sei exatamente os trâmites do meu casamento, pai. E não estou preocupada.” Minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
“Pois devia!” Ele falou mais alto. “Se o seu conto de fadas acabar, o mínimo que podia fazer era pensar na empresa da família! Estou falando do nosso patrimônio, seu e da sua irmã! Mas você não tá nem aí, né? Tá tudo bem ver tudo ruir enquanto você se esconde atrás de um casamento onde seu marido banca sua vidinha como uma dondoca!”
“Pai, a empresa está falida. Não tem mais o que ser feito. Eu tentei! Fiz tudo o que pude, mas não deu certo.” Percebi que minhas mãos tremiam e tentei controlar o máximo possível.
“Você não é mais criança e sabe muito bem que algumas coisas são simples, Katniss. Você que complica. Peça ao seu marido que invista na empresa. Não apresentando uma proposta ridícula que você não é capaz de fazer direito, mas sim como mulher. Não é difícil! Estamos falando de um homem com dinheiro suficiente pra comprar empresas maiores, se quiser. Se você pedir direito, sei que ele não vai negar. Ou você esqueceu que é esposa dele? Entre um casal, muitas coisas funcionam assim, como uma troca de interesses. É assim que o casamento funciona!”
“Você quer que eu use meu casamento como moeda de troca?” Eu queria não estar entendo o que ele estava falando, queria não compreender que basicamente ele estava pedindo para basicamente me vender em troca de um investimento.
“Você acha que tudo o que eu fiz foi por mim? Não, foi pra garantir que você, sua irmã e sua mãe tivessem o melhor! Foi pra garantir que a empresa sobrevivesse, que o nome da nossa família ainda significasse alguma coisa!” Fechei os olhos por um segundo, sentindo o peito apertar. Mais uma vez a desculpa de que “fez por nós”, como se quisesse que me sentisse em dívida com ele, uma dívida que eu nunca conseguiria pagar.
“Sério, pai? Vai justificar o que fez de novo dessa forma? Como se cada escolha sua fosse somente por nós?”
“E por quem mais seria? Eu me matei pela empresa, por esse legado! Até quando você vai fingir que isso não é responsabilidade sua também? Eu apostei tudo em você. Mesmo querendo um herdeiro homem... quando sua mãe não quis mais tentar, eu pensei que poderia ter uma filha pronta pra assumir tudo. Então, apostei que você seria capaz de manter o sobrenome Everdeen vivo. Mas estava errado, né? Nem pra isso você serviu. Nem meu sangue vai passar pra frente.”
Não era um segredo que ele queria um filho homem. Por anos, ouvi discussões entre ele e minha mãe sobre isso, como se a culpa fosse dela por ter tido duas filhas. Ainda assim, sempre que ouvia algo nesse sentido, doía. Mesmo que não tivesse o menor cabimento. Então levei um instante para conseguir responder.
“E o que um filho homem faria diferente? Ele poderia passar seu sobrenome adiante se casaria com uma milionária? Faria o simples no casamento... como é mesmo? Ah, sim: uma troca de interesses?”
“Um filho me daria orgulho! Você tem ideia do quanto investi em você e na sua educação? Foi muito dinheiro, as melhores escolas desde que você era pequena, atividades extracurriculares, todos os brinquedos e roupas que queria... Eu mimei você desde o momento que nasceu, e aí tive que engolir você investir o seu tempo e o meu dinheiro, sendo líder de torcida, tentando ser modelo, e fazendo escolhas idiotas! Que eu tive que ir consertando pra você ao longo dos anos.”
“Escolhas idiotas? Sempre fiz o que você e a mamãe queriam! Você tem ideia do quanto é difícil ser a filha que os dois queriam? Até porque vocês queriam filhas diferentes. E eu sou só uma.”
“Difícil? Você não sabe e nem vai saber o que é difícil. Ser pai é difícil. Investir em alguém, e esperar o mínimo, se decepcionando a cada dia... isso é difícil! Eu só queria que você fosse talentosa, que continuasse com o legado dos Everdeen. Mas você é burra demais e mesmo sem precisar de muito, você nem ao menos se esforça para salvar a empresa da família!”
As palavras dele tinham sido mais baixas do que eu esperava, e isso me pegou desprevenida.
“Eu tenho que salvar a empresa? Sozinha? Já parou pra pensar que talvez... talvez não haja mais nada a ser feito? Que manter essa empresa de pé só vai gerar mais dívida, mais dor, mais frustração?”
“Você está destruindo o nome da nossa família! Se depender de você, os Everdeen acabam aqui!”
“Vamos ser honestos, pai. Quem acabou com tudo foi você. Você destruiu essa empresa com sua arrogância, sua ganância, sua incapacidade de ouvir e de administrar. E agora quer pegar o caminho fácil e jogar a culpa em mim, como se eu tivesse criado esse desastre. Mas não fui eu. Essa culpa é sua. Se alguém decepcionou nossos antepassados, foi você!”
Pude ver a fúria no olhar dele, e, em uma fração de segundos, vi ele levantar, a mão estendida. E embora soubesse que o tapa viria, não tentei me defender. Mas, antes de sentir o ardor, ouvi a porta abrir.
“Então é verdade, temos uma ilustre visita hoje. Como vai Phillip?”
A voz do loiro preencheu a sala com o tom natural e espontâneo de quem chega a um ambiente familiar e amigável. Vi meu pai recuar ligeiramente, embora tentasse manter a compostura ao cumprimentá-lo com um sorriso leve e uma voz casual. Inspirei fundo soltando o ar levemente, forçando um sorriso no rosto antes de me virar para a porta, onde Peeta estava com um largo sorriso. As roupas casuais e o cabelo ainda úmido indicavam que ele já estava em casa havia algum tempo, e eu apenas não havia sido avisada da sua chegada.
“Não sabia que já tinha chegado, querido.”
Ele passou pelo meu pai, apertando sua mão com naturalidade, antes de se aproximar de mim e beijar minha testa como se fosse algo rotineiro.
“Cheguei durante uma ligação, então fui direto pro quarto. Pedi pra não atrapalharem o jantar de vocês. Encontrei a Prim no corredor, e ela me disse que seu pai estava aqui, então resolvi vir dar um oi. Espero não estar atrapalhando.”
“Você nunca atrapalha, Peeta. Vim apenas ver um pouco minha filha. Com tudo o que está acontecendo, ela não vai mais lá em casa. Como eu dizia, Katniss, sua mãe sente falta de vocês, sua e da Prim. Devíamos tentar resolver as coisas. Somos uma família, afinal... e esse fim de ano foi doloroso sem vocês.”
Não sei se ele realmente acreditava que aquele discurso enganaria Peeta, mas ele falava com tanta naturalidade que alguém mais ingênuo poderia até acreditar.
“Vou ligar para a mamãe, marcar alguma coisa... falar com ela.”
“Isso seria ótimo. Sei que você será sensata e fará o que for melhor pra nossa família. Acho melhor eu ir agora.”
“Tão cedo? Não quer beber alguma coisa? Tenho um whisky excelente, doze anos.”
“Obrigado, Peeta, mas deixo para outra ocasião. Paula não sabe que estou aqui, ela deve estar me esperando, já preocupada com meu atraso.”
Peeta se ofereceu para acompanhar meu pai até a porta principal. E forcei um sorriso ao me despedir e, assim que a porta da biblioteca se fechou, deixei qualquer resquício de compostura desmoronar. Recostei na mesa, exausta, como se o peso de tudo finalmente tivesse me alcançado.
Se meu pai tivesse conseguido me dar o tapa, talvez doesse menos do que aquelas palavras. Eu conhecia aquela ardência — a física —, que queimava e passava. Sempre passava. Mas as palavras… As palavras ficavam. Pairavam no ar como fantasmas teimosos, prontos para me assombrar quando menos esperasse.
Soquei a mesa sem pensar. Uma, duas, três vezes. Os punhos cerrados abafaram o impacto, e embora não tenha colocado força suficiente para me ferir de verdade, senti a dor. Uma dor pequena comparada ao que estava sentindo, ela era física, e servia como desculpa para as lágrimas que vieram logo depois.
“Katniss...” O universo, é claro, não tinha nenhuma intenção de me poupar. Em vez de sumir ou se ocupar com outra coisa qualquer, Peeta apareceu bem a tempo de ver minha ruína.
“Me deixa sozinha, Mellark. Por favor.” Fechei os olhos, apoiando as mãos trêmulas na madeira fria da mesa. Ouvi o clique suave da porta se fechando e soltei o ar com alívio com o momento de silêncio.
Mas então senti o toque frio em minha mão. Ergui o olhar devagar e encontrei aqueles olhos azuis atentos, silenciosos, observando as manchas avermelhadas dos meus dedos machucados.
“Parece que não teve nenhum grande dano, mas você poderia ter quebrado seus dedos.”
“E quem se importaria se tivesse quebrado?” Ele não respondeu. Apenas suspirou, como se já estivesse cansado. “Ah, claro. Me esqueci. Temos compromissos demais nas próximas semanas. E não cairia bem sua esposa com a mão enfaixada, não é? Não haveria vestido que combinasse com o gesso, e a aparência sempre vem primeiro, não é mesmo? Da próxima vez que eu tiver um ataque de raiva, prometo não danificar seu quadro caro. Assim seus momentos de exposição ao público continuam impecáveis.” Minha voz estava trêmula. O caos com meus pais, o casamento, a vida inteira desabando... Era demais. E, para completar, as lágrimas se recusavam a parar de cair, como se eu finalmente tivesse esquecido como se segura-las.
Sem dizer nada, Peeta se aproximou. Puxou meu corpo devagar, com uma delicadeza que me desarmou. Os braços dele me envolveram num abraço suave. Por um instante, resisti. Mas só por um instante antes de me render, as mãos dele deslizavam em círculos lentos pelas minhas costas, como se tentasse me acalmar. Deixei o meu corpo ceder, a cabeça encostada no peito dele, inspirando o perfume que já me era familiar nos últimos meses. Não sei quanto tempo fiquei ali. Só sei que, quando ele me afastou com cuidado, as lágrimas haviam finalmente cessado. Ele olhou nos meus olhos antes de falar, com uma calma que eu definitivamente não esperava.
“Você não é burra, Katniss. E, definitivamente, aprendeu muito ao longo dos anos. Você é inteligente e boa no que faz, sabia?” Fiquei sem entender por um momento. “Sua proposta era muito boa. Bem feita. Era arriscada, sim... mas muito boa.”
“Então por que você... por que recusou?”
“Recusei, sim. Mas não por ser ruim. Recusei porque é inviável.” Olhei para ele, ainda sem compreender. “Suas projeções estavam erradas. Não por causa do cálculo, mas pelos números.”
“Como assim? Usei os dados mais atualizados, peguei tudo com o Gloss.”
“E você realmente acha que seu pai fez todos aqueles desvios sozinho? A situação descrita naqueles papéis está longe da real situação da Mockingjay. Fiquei sabendo que a Johanna ofereceu ajuda. Devia ter aceitado.” Senti uma raiva crescente. Meu pai e o contador haviam me feito de tola. E eu... fui ingênua demais ao acreditar que aqueles números eram reais.
“De qualquer forma... você não é burra. E definitivamente não é ruim no que faz.”
“Por que está me dizendo tudo isso?”
“Não sei. Acho que é o certo. O justo. Afinal, você pode ser fútil, ligeiramente narcisista, um tanto individualista. Egoísta em alguns casos — embora não com sua família.”
“Agora está parecendo mais você. Por um minuto, achei que estava me elogiando.”
“Oh, não. Só estou dizendo a verdade mesmo. E você tem muitos defeitos, Katniss. Mas é mais esperta e inteligente do que deixa transparecer.”
“Obrigada!” senti que deveria agradecer. Tínhamos nossos problemas, nosso casamento nem era real, mas ainda assim as palavras dele foram um conforto.
“Não precisa agradecer.” Ainda estávamos perto um do outro. Minha semana tinha sido caótica, meu dia ainda pior, estava me sentindo muito mal, mas de alguma forma naquele momento eu me sentia melhor. Saber que meu trabalho não estava ruim, que não tinha errado no projeto, trouxe um alívio.
Me ergui na ponta dos pés involuntariamente e selei meus lábios aos dele. Uma ação simples, singela, e embora geralmente o beijo entre nós fosse algo intenso e quente, aquele foi muito mais calmo, uma dança lenta que ainda assim me fez sentir um formigamento no estômago.
Senti os braços dele ao redor da minha cintura, e involuntariamente levei minha mão aos seus cabelos, bagunçando-os levemente, enquanto a fragrância do shampoo dele ficava mais presente no ambiente. Então, o calmo se agitou, e lá estava a fagulha, como se quisesse ver o fogo, Peeta riscou o fósforo. Ele me afastou um pouco, suficiente para, com uma mão, jogar os papéis e objetos pequenos da mesa no chão antes de erguer meu corpo, colocando-me sentada em cima da mesma. O calor começava a consumir meu corpo.
Peeta se colocou entre minhas pernas, as mãos em minha cintura, enquanto seus olhos, de um azul mais intenso e escuro, me fitavam com intensidade. Nossos lábios se uniram novamente, desta vez sem qualquer vestígio da calma de antes. Era um beijo profundo e exigente, cada movimento dos nossos lábios e línguas buscando mais, prometendo um incêndio.
Meus dedos se apertaram em sua cintura, sobre a camisa, antes que, com um movimento rápido, eu a erguesse, livrando-me da peça. O beijo se aprofundou ainda mais, tornando-se mais voraz e nem percebi o momento em que ele tirou minha blusa, só quando ele desceu os beijos, agora fazendo uma trilha no meu pescoço e senti seus dedos no fecho do meu sutiã que notei que estava sem ela. Um arrepio percorreu minha espinha e eu inclinei a cabeça para o lado, dando-lhe livre acesso à minha pele sensível. Minhas mãos voltaram ao cabelo dele.
O cheiro de shampoo se misturava ao dele. Peeta gemeu, me puxando ainda mais para perto, a pressão do seu corpo contra o meu.
Real ou não, aquela sensação, o prazer envolvido naquele momento, era a única coisa que importava. Eu só queria que aquele fogo nos consumisse por completo.
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