Notas iniciais
~LEIAS AS CONSIDERAÇÕES FINAIS, HOJE TEM AVISO IMPORTANTE~ Agora sim, boa tarde meus anjos *o* Como vocês estão? Espero que muito bem, uh! Bem... Então aqui está mais um capítulo para vocês! Agora é a hora em que vocês vão me matar, ou vão pular de alegria como nunca antes nessa fanfiction, hahahaha! Me contem suas reações lá em baixo (até já sei quem vai querer me enforcar, mas tudo bem, hehehehe). E mais uma coisa... OBRIGADA PELO APOIO, PELOS COMENTÁRIOS, PELOS FAVORITOS E POR TOOOOODO O CARINHO ENORME *o* Vocês são foda o/ Amo vocês! Boa leitura meus anjos!! Beijão enoooooooooooooooooorme da Lana-chan! ;********************************************

Sábado — 8h02min

~Kagami Taiga~

— Bakagami... — O timbre arrastado, preguiçoso e inconfundível soou logo ao lado, como se sussurrasse algum tipo de segredo em seu ouvido.

Assustado, o ruivo abriu os olhos imediatamente e deparou-se com o teto de seu quarto, puxando uma golfada profunda e silenciosa de oxigênio. Pesadelos ou apenas sonhos confusos? Fazia tempo que eles não apareciam para conturbar tanto assim suas noites — apesar de que já aparentava ser de manhã, pois uma nesga de claridade diurna teimava em passar por entre a porta aberta de seu quarto, proveniente da cozinha.

— Hm... — Murmurou, sonolento, secando a testa com a palma de sua mão direita, enquanto a esquerda pescava o celular logo abaixo de seu travesseiro.

Assim que o ruivo desbloqueou a tela do aparelho, a luminosidade forçou-o a fechar minimamente os olhos, mas só após verificar que ainda era oito e pouquinho da manhã. Cedo pra caralho. Sábado. Poderia virar-se para o outro lado da cama e dormir pelo menos até as dez horas sem se preocupar com nada... Ou levantar-se, fazer um omelete bem foda e então aventurar-se sozinho na quadra de basquete do Maji, pois durante a tarde não teria tempo. Nunca tinha nos finais de semana.

— Omelete e basquete. — Assentiu para si mesmo com a voz ainda embargada de sono, largando o dispositivo ao sentar-se por entre as cobertas amarrotadas e ainda quentes.

Seu corpo respondia aos poucos, com bocejos preguiçosos e piscadelas demoradas, e todos os seus sentidos clareavam em uma lentidão palpável... Porém assim que Taiga despertou completamente, o choque da realidade bateu mais uma vez em seu íntimo, causando um breve embrulho em seu estômago. Isso vinha acontecendo com uma frequência espantosa, e era realmente assustador quando a verdade o atingia em cheio, já pela manhã.

Há quantas semanas Aomine Daiki perambulava insistentemente por seus sonhos? Uma ou duas? Bem, mais precisamente desde a reunião da Seirin, no Maji Burguer — ou seja, há três semanas e um dia —, quando a merda da esperança furada resolveu levar seu coração a dar mais alguns passos para trás. Kagami não acreditava em sua própria ingenuidade... Eufemismo para burrice, retardo, estupidez, idiotice, teimosia, entre outros adjetivos carinhosos que poderia listar durante o dia todo.

Como era possível? Quase deixara-se levar uma rasteira por causa de um sorriso e um 'oi' indireto (e um tanto inesperado) de Daiki. Sentia-se bem culpado por permitir tal coisa, verdadeiramente sujo e até mesmo traiçoeiro. Não gostava da sensação, e muito menos dos resultados que esses distúrbios de emoção besta poderiam vir a causar em sua vida. Nada disso era saudável para sua atual realidade.

O medo aparecia no exato instante em que a razão batia à sua porta, e nessas horas Kagami pensava única e exclusivamente em Himuro, se dava conta do quão filho da puta estava sendo com esse alguém tão importante, e, mais do que tudo, imaginava o quanto o magoava por agir dessa forma lenta, fraca, indecisa e... Egoísta? Sim, era isso. Egoismo puro e gosmento. Afinal, que espécie de pessoa pede paciência no meio de um relacionamento, apenas para aguardar a evolução de seus próprios sentimentos? Isso não existe. Já estavam se enrolando há quase dois meses e meio sem dar um único passo no relacionamento.

Essa demora era uma camuflagem para sua própria covardia. A verdade precisava ser dita.

Até o momento Kagami não fora capaz de admitir para si mesmo que não conseguiria metamorfosear as vontades do próprio coração — pelo menos não tão cedo quanto gostaria. Agira como um teimoso insistente, mas agora enxergava a realidade... Porém já era um pouco tarde. Fora impulsivo ao reatar com Tatsuya, e, mesmo carregando a melhor das intenções, errara feio ao não pensar nas consequências. Isso não tinha perdão. Queria apenas protegê-lo da rejeição que causara a ele em Los Angeles, mas o que fazia agora era infinitamente pior e a culpa o assolava o tempo todo.

A merda é que, além de todas essas situações chatas, Taiga sabia que precisava de um tempo para si próprio, precisava respirar. Fora pego em combate e agora necessitava de descanso, recuperação e até mesmo de meditação... Do contrário machucaria Tatsuya ainda mais por continuar cometendo infinitos erros em série. Era injusto com o irmão, via a frustração em seus olhos acizentados. Estava fazendo-o esperar por algo incerto, e isso poderia assemelhar-se à uma facada nas costas caso não conseguisse dar o que ele queria... E a chance de isso acontecer era exponencial.

Não podia fazer isso com Himuro, ou com certeza o magoaria demais no final, quando ambos estivessem desgastados e mortos por dentro. Um relacionamento se desenvolve naturalmente, sem pressões... Kagami não tinha direito de ficar impondo essa mudança para si mesmo, e muito menos poderia deixá-lo à merce, apenas aguardando sua boa vontade. Isso era odiável. Sentia-se muito mal ao constatar os fatos e perceber o quão estulto e incoerente estava sendo.

Encontrava-se entre a cruz e a espada, pois o machucaria de qualquer jeito. Agora ou depois.

Se havia uma pessoa no mundo que Kagami amava incondicionalmente, esse alguém era Himuro Tatsuya. Faria qualquer coisa para vê-lo sorrir. Simples. Ele era seu irmão, sempre fora e sempre vai ser... Mas não era à força que isso transformaria-se em algo passional, e a incerteza dessa mudança deixava o ruivo com medo, completamente inseguro e impotente. Sentia-se um verdadeiro bosta — e sem saída —, mas precisava dar um jeito na situação antes que fosse muito tarde. O estrago no coração de Himuro poderia se tornar irreparável.

Se é que já não se tornara...

— Ah! — Rosnou para si mesmo, dando tapas fortes em sua bochecha como uma espécie de autopunição. — Taiga, você merece morrer! Olha o que você fez!

Tatsuya era demais para si, sempre o tratava com carinho, carisma e atenção, tanto como irmão quanto como parceiro. O ruivo sabia que não o merecia, não era digno nem mesmo do sorriso que ele lhe dava quando acordavam juntos. Suas atitudes e pensamentos eram lixosos demais para alguém tão especial e paciente.

Kagami sentia-se o pior ser humano da face da Terra naquele momento, pois cada vez as verdades o atormentavam com mais intensidade — isso já acontecia há dias, não, há semanas. E o maior problema nem eram os sonhos e os sentimentos fortes que ainda tinha por Aomine Daiki (ajudava, claro, mas não era o principal)... O que mais pesava era seu próprio ser, seu coração estagnado, sua cabeça fraca, suas atitudes egoístas, as frustrações seguidas que causava em Tatsuya. Vê-lo triste nunca fora sua intenção.

— Como eu vou fazer isso? — O ruivo murmurou sem emoção, olhando para a porta aberta em sua frente enquanto sentia o estômago se contorcer.

Só havia uma saída, mas Kagami não estava preparado para ela e para o que isso acarretaria. Seria a situação mais difícil de toda sua vida, sem a menor sombra de dúvida, porém não poderia mais fugir da realidade — mesmo estando com muito medo dela.

***

11h11min

~Himuro Tatsuya~

Desde o minuto em que acordara, Himuro sabia que o sábado não seria um bom dia. O mau pressentimento permeava seu âmago e seu subconsciente implorava para que voltasse para a cama e ficasse lá deitado até segunda-feira. Mas não... Tinha que arrumar sua mochila, pois passaria o dia no apartamento de Kagami e dormiria por lá — como vinha acontecendo em todos os finais de semana.

Não tinha como algo dar errado ao lado do cara que amava. Simplesmente não tinha.

Para Tatsuya, assemelhava-se a um sonho ficar tão próximo ao ruivo, ganhar um selinho de bom dia, comer panquecas espetaculares que só ele era capaz de fazer, virar a noite assistindo televisão — mesmo que brigassem constantemente pela programação e pelo sabor da pizza que geralmente pediam. Porém ao mesmo tempo parecia algo rotineiro, quase volátil demais para assemelhar-se à um relacionamento sério... O que era preocupante.

Tatsuya não era burro, sabia que Taiga andava estranho nos últimos tempos. Muito estranho. Ele parecia cada vez mais distante, mesmo o abraçando e o beijando o tempo todo; seu olhar rubro torava-se mais opaco a cada dia, mesmo quando estavam jogando basquete na quadra do Maji ou se divertindo no fliperama; os caninos já não apareciam mais por entre aqueles lábios, mesmo que ele sempre sorrisse e devolvesse suas piadas e provocações.

Kagami estava quieto demais para seu gosto. Era como se ele estivesse se anulando por algum motivo... Ou quem sabe sendo anulado.

— Hmmm... Humm humm... — Tatsuya murmurou os riffs iniciais da música 'Snuff' com a testa franzida, enquanto guardava uma cueca limpa em sua mochila. Era melhor desviar os pensamentos quando eles tomavam esse rumo perigoso e desconfortável. Estava muito feliz assim, apesar da lentidão ridícula dos passos de ambos. Sabia que Taiga também estava... Claro que estava, era óbvio. Quer dizer, por que ele não estaria? — 'Bury all your secrets in my skin... Come away with innocence and leave me with my sins...' — Permaneceu cantando despreocupadamente enquanto escolhia uma calça jeans em seu guarda-roupas.

Sabia que estava tudo bem. Ou quase tudo. E daí que nunca mais tentaram transar, mesmo estando juntos há dois meses e quatorze dias? E daí que Himuro ainda percebia que Taiga lembrava de Aomine de vez em quando? E daí que já se trancara no banheiro para amenizar sua raiva quando o ouvia chamá-lo de 'irmão', 'Bro', 'Brother'? Apenas detalhes insignificantes que mudariam em breve, nem que fosse à força. Dissimulações são necessárias de vez em quando, então era mais fácil pensar que passavam apenas por uma fase complicada e inicial no relacionamento.

'The air around me still feels like a cage... And love is just a camouflage for what resembles rage again.' — Permaneceu cantando, enquanto pegava um moletom escuro de seu cabide.

Se falasse que não se irritava durante esses momentos, Tatsuya estaria mentindo de forma descarada. Amor e ódio são distintos apenas por uma linha muito fina, então diversas vezes já passara raiva com as atitudes burras e inconscientes de Kagami. Ele era extremamente arisco e lerdo — muito mais do que se recordava —, então havia vezes em que Himuro simplesmente não aguentava aquela merda toda de paciência. O punia com gelos, birras, respostas um pouco frias e cortes secos... Mas logo voltava a sorrir, quando ele corria para consolá-lo, como um cachorrinho voltando ao dono com a carinha de culpa. Essa era a melhor parte, receber afeto espontâneo. Tatsuya não se importava se era um pouco cruel de sua parte, pois aquilo tornava-se uma espécie de recompensa por seu esforço de esperar. Uma hora ou outra ele iria aprender por conta própria. Domesticar não é tão complicado quanto parece.

— Tatsuya? — A voz estridente de sua tia soou do andar inferior, tirando-o de seus pensamentos. — O Kagami-chan está aqui.

— Quê? — Franziu a testa, confuso e surpreso, amarrotando o moletom para atirá-lo na cama. Rumou para fora do quarto instantaneamente, descendo apressado as escadas com degraus curtos e estreitos.

Estranho. Será que ele veio me buscar? Se sim, seria perfeito demais para ser verdade, no entanto o pressentimento ruim não permitia um otimismo daquele tamanho. Era hora de armar o melhor sorriso e abraçá-lo com todo o carinho do mundo, para que nada de ruim acontecesse. Chantagens emocionais sempre tornavam-se um mal necessário, e era incrível assistir a forma como Taiga caía em cada uma delas. Tão bobinho.

Assim que surgiu pelo corredor, Himuro avistou Kagami esperando-o no meio da sala com uma bola de basquete embaixo dos braços, levemente transpirante e com os cabelos desgrenhados. Tão perfeito. Provavelmente acabara de voltar da quadra do Maji... E nem pensara em convidá-lo para um mano a mano. Lembraria mais tarde desse deslize, porém agora sua cabeça estava em outro lugar.

— Taiga! — O saudou com um largo sorriso, dando um leve tapa na bola que o ruivo segurava, para que ela rolasse até o chão. — Não sabia que você vinha me buscar. — Adiantou a suposição com a voz entusiasmada, abraçando o corpo ainda quente.

Taiga era a combinação adorável de pecado e gentileza, mas nem imaginava seu próprio potencial. Poderia ser muito mais se usasse a cabeça... Por sorte não usava.

— Tatsuya. — O ruivo sussurrou quase inaudivelmente em meio a um suspiro, retribuindo o gesto com força, apertando-o contra si enquanto apoiava o rosto em seus cabelos.

— É incrível como você consegue continuar cheiroso, mesmo depois de jogar basquete. — Pontuou, aspirando o aroma natural da pele do ruivo, onde tinha um mínimo e necessário toque de transpiração e perfume. A mistura era perfeita, lembrava a quase esquecida essência de sexo.

Taiga nada respondeu, apenas o apertou com um pouco mais de força e soltou uma breve risada, mas sem humor nenhum tranparecendo por ali.

— Tudo bem? — Himuro perguntou com a voz baixa contra a o corpo do ruivo, sentindo a própria garganta fechar. A resposta era óbvia, era como ser pudesse sentí-la no ar.

— Não muito. — Taiga admitiu, afastando-se do abraço ao dar um passo mínimo para trás. — A gente pode... Conversar um pouco?

— Sobre? — Tatsuya foi rápido em perguntar, maneando o rosto para ajeitar a franja que desalinhou com o contato dos corpos.

— A gente. — Kagami respondeu em voz baixa, olhando ao redor da sala, um tanto quanto desconfortável. O ruivo não conseguia encará-lo, parecia preocupado e até mesmo culpado. — Sobre as coisas que estão acontecendo, a forma como estão caminhando... Enfim. Tudo. — Finalizou, erguendo o olhar rubro e apagado para Tatsuya.

— Hm. Ok. — Himuro fechou a expressão, notando que nada parecia sob controle ali. Sentia falta do brilho que os olhos de Taiga possuíam, mas deixou o fato de lado, ainda mais agora. — Vem. Vamos subir. — Comentou com um aceno de cabeça, tomando a dianteira ao seguir para as escadas.

Ouviu o ruivo acompanhando-o de perto, mesmo que seus passos fossem hesitantes e curtos. Pelo menos assim o percurso deu tempo para Himuro pensar em cada situação possível: 01) Taiga estaria em busca de mais paciência — o que parecia improvável, já que não faziam porra nenhuma. Se desaceleracem ainda mais virariam duas crianças de 3 anos brincando de mamãe e papai. 02) Ele realmente estaria arrependido por agir como um lerdo, e agora precisaria conversar sobre o assunto e tantar se redimir — não, se fosse isso a recepção com certeza teria sido mais calorosa. 03) Ele queria um tempo para si próprio — a mais provável opção, já que ele citara isso uma vez, mesmo afirmando o contrário depois. E outra... Ele parecia cansado.

Era isso, com certeza, entretanto Himuro não estava nem um pouco inclinado a deixar Taiga se afastar, não depois de tanto esforço e sofrimento para recuperá-lo. Ainda não fizeram absolutamente nada, Kagami nem se envolvera direito no relacionamento, sequer transaram, ele nunca disse 'eu te amo'... Que espécie de desistência prematura era aquela?

Não seria tão fácil quanto o ruivo pensava. Querendo ou não, Taiga era alguém muito fácil de dominar, mesmo tendo seus 1,90 de altura. Seu cérebro não era lá tão grande assim, então Himuro tinha a vantagem.

Tatsuya constatou que aquele era um pensamento levemente doentio e quase obsessivo, mas era sua arma para não deixar o amor de sua vida escapar por entre seus dedos mais uma vez. Teria que fechar a mão com toda a força, mesmo que o sufocasse um pouquinho no início. Ele seria feliz ao seu lado depois que abrisse os olhos e parasse de enxergá-lo como um irmão, sabia disso.

Desesperar-se agora não seria necessário. Era o que esperava.

~Kagami Taiga~

Não era como se Kagami estivesse indo para a guilhotina, mas, se fosse o caso, a sensação seria exatamente a que ocupava seu estômago naquele momento. Cala a boca, Taiga... Criticou-se mentalmente por pensar nessas bobagens, passando a mão pelo rosto enquanto a madeira da escada rangia abaixo de suas meias.

O ruivo sabia exatamente qual era o motivo de estar ali, e por isso tinha conhecimento de que era o verdadeiro carrasco da história toda. Suas duas horas seguidas de basquete deram uma margem de tempo para pensar melhor nas coisas, tentar encontrar soluções diferentes, caminhos novos e menos complicados... Mas não fora capaz. A resposta final era sempre a mesma.

Suas conclusões foram simples, mas ao mesmo tempo assemelhavam-se a um bicho de sete cabeças que cuspia fogo: Tatsuya era seu irmão, seu amor incondicional e fraterno. Aomine era sua maior paixão, e pelo jeito não sairia de sua cabeça tão facilmente, nem mesmo depois da mágoa. Inverter os papéis de ambos não seria uma tarefa tão simples e romântica quanto imaginara... E esse foi seu maior erro, sua maior ilusão. Kagami estava lidando com algo invisível e muito instável — os sentimentos de uma pessoa fundamental em sua vida —, então precisaria de tempo para abrir os olhos e entender melhor as coisas... Um tempo sozinho, sem pressão, sem autocobranças, sem mais frustrações ou machucados.

Gostaria apenas que Himuro fosse plenamente feliz, e tinha certeza absoluta de que isso não aconteceria se ele estivesse ao seu lado. Não era capaz de dar o que ele precisava. E era isso. Viera aqui para isso, mesmo não estando preparado. Não poderia mais tapar o sol com a peneira e muito menos adiar o inevitável.

— Entra. — Himuro abriu a porta e colocou-se de lado para que Taiga passasse pelo batente estreito. — Eu estava arrumando as coisas para ir ao seu apartamento... Enfim. Jogue minha mochila ali para o lado e senta.

— Ãhn... Estou suado e sujo, fico em pé mesmo. — O ruivo murmurou sem graça, olhando um pouco preocupado para os movimentos bruscos de Tatsuya, que agora trancava a porta. Ele estava bravo, então provavelmente já sacara tudo.

— Então você vai ser breve? — Ele questionou com as sobrancelhas erguidas, sentando-se pesadamente na cama. — Só veio e já vai embora?

— Oe... — Balbuciou, negando com um movimento de cabeça.

— Então senta ali, Taiga. — Ele indicou a cadeira a sua frente com um gesto impaciente de mãos. — Pode falar. Estou te ouvindo. — Himuro prosseguiu, apoiando os cotovelos em seus joelhos ao curvar-se para frente.

— Hm... Não sei bem como dizer. — O ruivo sentou-se, engolindo em seco ao sentir o estômago revirar. Onde estava a coragem agora? Ah, em lugar nenhum. Ela nunca apareceu. — Essa é a coisa mais difícil que eu vou fazer na minha vida... — Comentou antes de qualquer coisa, mordendo os lábios ao encontrar o olhar frio e acinzentado.

— Terminar comigo? Vá em frente... — Ele acenou uma única vez com a cabeça, ríspido. — Me dê seus motivos para eu tentar entender. Se eu vou aceitar ou não, isso é outra história.

Sim, é lógico que ele sabia do que se tratava, era esperto demais e o conhecia como ninguém.

Aquelas palavras francas e até mesmo geladas deixaram Kagami mais apreensivo e nervoso do que nunca, seu coração inclusive pareceu contrair-se rapidamente — e com uma intensidade exagerada. Doeu. Todos os motivos, justificativas e frases em que havia pensado de repente sumiram de sua mente, como se um bloqueio psicológico o dominasse por completo.

— Taiga, conta para mim, o que está acontecendo? — O tom de voz do irmão suavizou consideravelmente, e a aflição transpareceu pela sua feição, parcialmente escondida pela franja. — Por que isso agora? A gente estava tão bem...

— É complicado explicar isso... Porque não é como se realmente estivessemos bem, mas não estávamos mal. — Kagami apressou-se em responder, cerrando os punhos em uma tentativa de se acalmar. Não estava falando coisas com coisa. Tentou recomeçar: — Tatsuya, você é perfeito... A pessoa mais incrível e compreensiva que eu conheço. — Disse verdadeiramente, calculando as palavras que usaria. — E eu acho que não te mereço, porque sou o oposto.

Ele apenas negou com um gesto de cabeça, com um meio sorriso incrédulo e sem humor, mas nada disse. Permaneceu aguardando.

— Tipo... Você sabe que já fiz muitas cagadas até aqui, e parece que estou te enrolando com essa demora. — O ruivo suspirou ao olhar para suas próprias mãos fechadas e unidas. Não estava conseguindo se expressar.

— E você está? — Tatsuya perguntou, antes que Kagami continuasse a falar.

— Não. Não estou... Pelo menos não intencionalmente. — O ruivo respondeu, buscando novamente a face de Himuro. — Você é muito importante para mim e eu te amo de verdade. — Taiga admitiu, vislumbrando uma leve surpresa cruzar o semblante dele, mas que logo se perdeu. — Mas eu te amo como meu irmão, meu melhor amigo. E isso está me deixando bem perdido nos meus sentimentos.

— Essa história de irmãos... Eu sabia... — Ele sibilou, fechando os olhos para conter as palavras. — Enfim... Continue! — Abriu-os novamente, encarando Taiga de forma impassível.

Poker face. Nunca era um bom sinal.

— Tipo, eu não consigo evoluir isso, não consigo te ver de outra forma... E é isso. — Engoliu em seco, sentindo o estômago afundar ao perceber a expressão arrasada de Tatsuya. Era melhor ser honesto, mesmo que não quisesse magoá-lo. — E eu estou com medo de te machucar cada vez mais. Estou sendo um verdadeiro filho da puta, porque estou te fazendo esperar por algo que talvez não venha... Nem eu mesmo consigo entender o que está acontecendo comigo agora. Estou confuso demais.

— Então você não sente nada por mim? — Himuro perguntou, cerrando os olhos perigosamente. — Não existe um maldito sentimento além dessa irmandade idiota?

— Não é idiot-

— Você não sente paixão, tesão, saudade, raiva... Nada? — Tatsuya o interrompeu, seco, levantando-se com calma e caminhando em sua direção. — É só isso aqui que conta para você? Esse anel idiota e essas promessas bestas e antigas? — Ele perguntou, segurando entre os dedos o objeto pendido no pescoço de Kagami.

— Não tente minimizar o que sinto, porque isso é muito valioso para mim. — Kagami pediu em um sussurro triste, levantando-se para ficar frente a frente com ele. Aquelas palavras estavam sendo um pouco cruéis, mas era o esperado. — Tatsuya, entenda que eu estou fazendo isso por você, para te ver bem. Sei que eu não vou conseguir te deixar feliz, dar o que você quer... Eu não sou o suficiente para você. — Disse, engolindo em seco ao encarar o olhar frio logo abaixo do seu.

— Pode deixar que eu decido o que me faz feliz ou não! Obrigado. — Ele foi direto, maneando o rosto com impaciência. — O que te faz pensar dessa forma patética?

— O meu jeito. — Kagami foi sincero, arriscando afastar a franja da frente dos olhos dele. Sua mão foi removida na hora, e esse gesto fez seu estômago afundar um pouquinho mais. Estava na merda. — Eu estou sendo muito egoísta e não suporto ver o que isso causa em você. — Mordeu os lábios, vendo-o negar com um movimento rápido e contínuo de cabeça. — Tatsuya, olhe para a gente. Estamos parados no tempo porque eu pedi para a gente esperar... E um relacionamento não é assim.

— E como é um relacionamento, Taiga? — Himuro estreitou os olhos, avaliando-o com um certo desdém na voz. — Pelo jeito você entende muito bem do assunto.

— Não entendo absolutamente nada... — Kagami engoliu em seco ao olhar para o chão, lembrando-se de Aomine e da droga que aquilo virou da noite para o dia por não ter sido capaz de compreender os fatos. — E justamente por isso sei que não posso estar em um.

— Quanta lógica. Mil pontos para você. — Tatsuya soltou uma única risada nasal e irônica, dando um passo para trás. — Taiga, eu te disse que caminharíamos juntos, que eu iria te esperar, que teria paciência e até te ajudaria a esquecer aquele maldito do Aomine... O que eu ainda preciso fazer? O que você quer de mim agora?

Silêncio. Apreensão.

— Quero que você encontre alguém melhor, que você seja feliz de verdade, sem precisar esperar as minhas mudanças... Porque elas talvez não aconteçam. — O ruivo respondeu, arqueando as sobrancelhas de forma melancólica. Uma espécie de refluxo fechou sua garganta naquele momento, mas mesmo assim continuou: — Não tenho o direito de te pedir essa paciência, essa calma... Isso esta anulando a gente e eu sei que você percebe isso. — Sua voz diminuiu.

— E você realmente tentou mudar? Você se esforçou para que essa merda evoluísse? — Himuro irritou-se, negando continuamente com o rosto enquanto andava pelo quarto. Ele estava muito bravo, mais do que na primeira vez em que brigaram, há alguns anos.

— Lógico que tentei. — O ruivo murmurou verdadeiramente, sentindo o corpo amortecer cada vez mais. Sabia que seria complicado, mas não imaginava que ambos se machucariam tanto. — Estava até agora tentando achar uma outra solução para a gente, enquanto jogava basquete. Você sabe que tenho me esforçado, que eu queria que a gente desse certo! Mas...

— Mas não foi o suficiente. Entendi. — Tatsuya bofou, olhando para o lado com a feição triste.

— Ei... — Kagami murmurou com pesar e culpa, aproximando-se. Queria consolá-lo, pedir perdão e extirpar a dor que ele sentia, mas agora já não era mais possível. Precisava pensar que seria pior se continuassem camuflando a verdade. — Eu não quero te ver assim. Por favor...

— Quer que eu fique aqui pulando de alegria então? — Ele foi ríspido, dando um passo para trás ao perceber sua tentativa de abraço. — Que eu comemore ao ver a pessoa que amo simplesmente me jogar na 'friendzone' e decidir se afastar? Acha que é legal ser partido em dois pedaços depois de ter criado esperanças?

Doeu demais ouvir aquilo, era o maior medo de Taiga. Sabia que não era legal, já que passara pela mesma coisa há poucos meses. Foi o suficiente para o sentimento de lixo humano apenas aumentar em seu íntimo.

— Tatsuya...

— Sabe Taiga, isso me deixou muito puto. De verdade. — Himuro foi sincero, erguendo o tom de voz. — Para mim estava tudo bem até agora, e de repente você vem me falar que não consegue mais seguir em frente porque quer me ver feliz? Por que não é o suficiente para mim? Isso é uma desculpinha bem clichê, não acha? Poderia ter inventado uma outra história.

— Não é uma descu-

— Sim, é sim. Tudo o que você me disse até agora são apenas desculpas para você se livrar de mim. Por algum motivo você não me quer mais. — Tatsuya insistiu, irritado. — Mas ok, vá em frente e volte para aquele bosta do Aomine e seja feliz para sempre da forma que você bem entender. É isso que você quer, não é? Voltar para ele.

— Tatsuya, pára com isso! — Kagami ergueu o tom de voz também, cerrando os olhos com pesar. Ele se fazia de bobo, ou dizia aquelas coisas apenas para cutucá-lo, o que era bem desnecessário, pois apenas piorava tudo. — Não tem nada a ver com o Aomine. Pára de falar essas coisas sem sentido e tenta entender o que eu estou fazendo.

— Faça o que você quiser Taiga. Não posso te obrigar a gostar de mim, certo? — Ele o ignorou, dando-lhe as costas.

— Eu não gosto de você. Eu amo você. É bem diferente. — Kagami assinalou com a maior sinceridade do mundo, apoiando a mão em seu ombro, segurando-o com firmeza para que ele se virasse e não se afastasse dessa vez. — Você é a pessoa mais importante da minha vida, me ensinou tudo o que sei, sempre está ao meu lado quando preciso, sempre sorri e me ajunta quando caio... Acha que não me sinto um bosta por não conseguir dar o que você quer, ou por não conseguir retribuir o que você sente? Acha que eu estou feliz por ser um inútil? — Kagami perguntou com a voz embargada, apoiando a outra mão em seu ombro também. — Eu não estou conseguindo sair do lugar, por mais que eu ande para frente.

Ele nada respondeu, apenas desviou o olhar triste, mas não tentou se mover.

— Isso está acabando comigo, Tatsuya. Estou me sentindo o cara mais horrível e impotente da face da Terra nesse exato momento por estar aqui te falando essas coisas, e por estar sentindo isso tudo também. Mas não consigo mudar o que acontece aqui dentro. — Kagami continuou a abrir-se, erguendo as mãos para apoiá-las nas bochechas geladas de HImuro. — E o pior de tudo é saber que a partir de agora você vai me odiar, que vou te perder para sempre e que não tem mais nada que eu possa fazer. É a maior prova de que fracassei em te fazer feliz, de que te desapontei. Tenta entender como isso está sendo difícil para mi-

— Saia daqui. — Ele interrompeu-o com um tom extremamente seco, tentando afastar-se de seu toque ao empurrá-lo pelo tórax. — Não quero mais ver essa sua cara.

A situação parecia um déjà-vu, um maldito e doloroso déjà-vu. Ele não o ouvia e nem ao menos tentava entender suas razões. Uma briga semelhante já havia acontecido entre os dois, e realmente resultou em um afastamento bem ruim... Mas agora parecia três vezes pior, pois os motivos, causas e consequências eram irrevogavelmente mais sérias do que uma partida de basquete.

— Não vou sair. — Kagami negou em voz baixa, atraindo o olhar acinzentado e arrasado de Tatsuya. — Não vou embora até você compreender tud-

— Tá, eu entendi. Satisfeito? Agora vai embora. — Tatsuya murmurou a mentira descarada, buscando afastar-se de suas mãos com movimentos do rosto. — Você quer ficar sozinho, ou com o Aomine, ou com o caralho. Não me importo mais... Você morreu para mim, e dessa vez não vai mais ter volta.

— Eu não quero que você pense que estou fazendo isso por causa do Aomine ou por qualquer outra pessoa. — Cuidou para as palavras não saírem irritadas ou impacientes, soltando o rosto de Himuro com suavidade. — Não estou fazendo isso por ninguém além de você.

— Ok. Cala a boca e vai embora. — Ele virou as costas mais uma vez, olhando pela janela. — Você decidiu sair da minha vida sem mais nem menos, não precisa ficar se justificando. Apenas suma.

— Tatsuya, pára com isso... Por favor. — Kagami engoliu em seco, fitando a imagem estática e triste do irmão pelo reflexo do vidro. Era de cortar o coração, e sabia que a culpa era inteiramente sua. — Você é tão especial para mim... Por que precisa dificultar tanto as coisas?

— Eu? Dificultando? — Ele virou-se e o empurrou pelo peito, fazendo o ruivo cambalear. — O que você ainda quer de mim? Quer que eu continue sorrindo para você como um trouxa, como se estivesse tudo bem? Que eu fique te chamando de 'irmãozinho', 'Bro', 'Borther'? Isso não existe Taiga, foi uma imagem que só você criou, da qual você não consegue se livrar por pura teimosia... E esse é o nosso problema! Por isso você não consegue se apaixonar de mim. — Disse, puxando o anel do pescoço de Kagami com violência, para que arrebentasse a corrente. — Isso aqui morreu há anos, quando te dei a porcaria do primeiro beijo. Essa bosta desse anel era minha desculpa para ficar perto de você, como se fosse nossa aliança de compromisso. — Sibilou, atirando o objeto no chão. — Por que você precisa ser tão burro? Qual a dificuldade em entender que nós dois nunca fomos e nunca vamos ser irmãos?

Kagami entreabriu os lábios, mas não encontrou palavras o suficiente para responder àquilo. Não estava esperando algo assim. Sentiu-se um pouco patético quando as lágrimas surgiram em seus olhos, mas doeu demais perceber que Himuro estava sendo sincero em cada uma de suas palavras e gestos.

Como assim? A pergunta não saiu por seus lábios, mas ecoava constantemente em sua cabeça.

— Juro que até iria dar um jeito de te chantagear ou fazer algo do tipo para você não ir embora da minha vida... Porque isso é sempre muito fácil. Seu cérebro é tão limitado que constantemente eu me pergunto os motivos de te amar. — Himuro suspirou exageradamente, arrancando a corrente do próprio pescoço. — Mas eu acho que você tem razão. Eu nunca seria feliz com alguém tão estúpido e idiota, alguém que ainda me vê como um irmão, como se fosse a coisa mais normal do mundo... Pelo amor de Deus Taiga. Usa esse cérebro e olhe ao seu redor! O que irmãos fazem? O que namorados fazem? — Ele sorriu de canto, com desdém. — Agora compare com o que a gente faz desde quando era criança. Onde nos encaixamos?

— Tatsuya... — Balbuciou, sentindo a bochecha umedecer com a primeira lágrima que escorreu. Era cruel ouvir aquilo à essa altura.

— Pode até ser que eu me arrependa do que eu estou te dizendo agora, e provavelmente vou, mas quero que você me esqueça, de verdade. E me odiando é muito mais fácil, acredite. — Himuro continuou, atirando o próprio anel no chão, caminhando em direção à porta, para destrancá-la. — Desculpe-me se não fui bom o suficiente para você se apaixonar... Mas saiba que, mesmo você sendo um mongol, eu consegui cometer a proeza de te amar de verdade. Agora vai embora daqui e some da minha vida.

— Por que você... Está fazendo e falando tudo isso? — Kagami perguntou, limpando as lágrimas enquanto olhava para as correntes quebradas no chão.

— Porque é inútil tentar colocar alguma coisa nessa sua cabeça. Já te disse isso antes, na nossa primeira briga... Não sei por quê insisti. — Ele mordeu os lábios, contendo o próprio choro. — E você tem razão, acho que a gente fingiu demais para ter um final bonitinho e alegre. — Himuro comentou, abrindo a porta. — Vai ser feliz da sua forma, e me deixa tentar o mesmo aqui, sem você. É isso que você quer, não é? Foi por isso que você veio aqui hoje. Pronto. Missão cumprida Taiga. Pode ir e me esquecer.

Kagami não respondeu, apenas caminhou vagarosamente, sentindo a garganta secar mais a cada passo. Era complicado assimilar o que ele estava dizendo, não queria entender as verdades e situações que ele expunha; assim como ele também não queria compreender suas razões para terminar... Mas não conseguia sentir raiva ou algo do tipo, pois tudo isso era culpa de sua própria imprudência, por ter começado algo sem pensar nas consequências.

A dedução era simples: Relacionamentos afetivos são uma droga, uma faca de dois gumes que só servem para machucar. A parte boa era muito vaga e curta, quase nem valia o esforço... A pena era dura demais.

— Saiba que, apesar de tudo o que você me disse agora, eu nunca vou ser capaz de te odiar. — Kagami murmurou, parando em frente a porta ao olhar para Tatsuya. — Me desculpe por causar tudo isso. Realmente espero que você encontre alguém melhor que eu, que não te frustre como eu tenho feito desde quando eramos mais novos... Por ser um burro.

Ele nada respondeu, apenas o encarou por alguns segundos, hesitante. O silêncio gritou tantas coisas, mas Kagami não foi capaz de entendê-las por completo. Conseguia ver a raiva e a dor misturandos nos olhos acinzentados e úmidos de Himuro, e isso o partia a alma. Fracassara com a pessoa mais especial que aparecera em sua vida. Era um verdadeiro 'mongol'... Ele tinha razão.

— Você conhece a saída. — Tatsuya fechou a porta do quarto assim que suas primeiras lágrimas desceram por entre a franja escura, deixando o ruivo ali parado, sozinho e arrasado.

A vontade de gritar veio em seguida, mas se conteve.

Não era para ter sido assim... Foi pior do que o imaginado. Infinitamente pior. Já presumira que não ficariam de boa um com o outro depois daquilo — conhecia Tatsuya e já imaginava suas reações —, no entanto não esperava aquela agressividade toda, as palavras duras sobre a irmandade que Kagami tanto prezava, o anel sendo arrancado de seu pescoço... Foi a pior sensação de sua vida, quase equiparava-se às coisas que Aomine dissera há alguns meses.

Kagami não sabia mais se fizera o certo, o errado, e não tinha a mínima ideia do que deveria fazer a partir de agora... A sensação de que perdera seu irmão para sempre assemelhava-se à mil agulhas perfurando seus pulmões insuficientes. Ouvira demais, falara demais. Tatsuya acabara de sair de sua vida por culpa de sua imprudência, e isso era doloroso, prinicipalmente ao constatar que agora não teria volta. Tatsuya o odiava.

O mais cruel era constatar que até mesmo o sentimento de irmandade era unilateral em sua vida... Parecia irônico demais para Kagami suportar. No fim começava realmente a duvidar dos sentimentos que as pessoas diziam possuir. Tudo parecia muito volátil e inconstante. Frívolo demais.

Não sabia mais o que pensar. Queria apenas sumir.

~Himuro Tatsuya~

— Vai se foder Taiga! — Himuro sussurrou assim que permitiu a saída integral de suas lágrimas presas, sentando-se com as costas apoiadas na porta. Seu coração estava bastante dolorido, a prova de que seu mau pressentimento não viera a toa naquela manhã.

Ouvia o ranger dos degraus cada vez mais distante, diminuindo a cada segundo, assim como sua alma e sua capacidade de sorrir. Reduzido à pó. De repente toda a vontade de lutar pelo amor do ruivo foi embora, toda a paixão que sentia por Taiga escorreu pelo ralo, toda a força para aguentar aquelas infantilidades de Kagami desapareceu... Nem chantagens ou manipulações tentara dessa vez. Não adiantaria de nada, não quando ele desistira completamente.

Tatsuya estava com o sangue quente, com a adrenalina em alta, louco para dar um soco na cara de Kagami, gritar-lhe desaforos e mais verdades, entre muitas outras coisas que mal ousava pensar... No entanto o pior era saber que esse sentimento de fúria era momentâneo. Em menos de dois dias o remorso bateria novamente em sua porta, de mãos dadas com o impulso de pedir perdão e querer voltar. Já passara por isso antes e se conhecia o suficiente para saber que aconteceria de novo, porém não estava arrependido de jogar as verdades dolorosas na cara de Kagami. Estava em seu limite há um bom tempo já... Deveria ter falado mais, muito mais.

Era injusto. Taiga não suportara, não fora capaz de amá-lo de verdade e o largara com seu próprio destino, sozinho, julgando saber o que era melhor para Tatsuya. Débil. Ridículo. Mesmo depois de tudo o que passaram juntos, a única merda de sentimento que restou no ruivo foi a irmandade patética e infantil... Porém aquilo também pareceu morrer ali, e agora jazia inerte e despedaçada no chão de seu quarto.

Kagami Taiga se fora pela segunda vez em sua vida, todavia Himuro ainda não tinha vontade de segui-lo... Mesmo depois de tanto esforço para recuperá-lo. O motivo era simples: Lá no fundo da alma, em um ponto que agora estava completamente escuro, Himuro compreendia parcialmente os motivos do ruivo, só não queria aceitar sua própria derrota — e muito menos admitir que fora a melhor escolha a ser feita, já que também não estava completamente satisfeito com a forma que tudo caminhava.

Não era idiota ou cego, apenas teimoso e insistente. Sabia que estava anulando Taiga, que o deixava constantemente para baixo, que abusava das chantagens emocionais... Mas não se importava, fazia isso apenas para ele aproximar-se e o deixá-lo feliz, dar-lhe carinho e afeto. Taiga poderia muito bem ter se acostumado, já que teria tudo o que pedisse, mas apenas se tivesse lutado um pouco mais. Porém ele desistira, não tentara, não se esforçara o suficiente... Era um fraco. Um inútil.

— Merda! — Cerrou os dentes para conter a dor em seu tórax, esticando-se para ajuntar as correntes quebradas do chão. Hoje elas iriam sumir de sua vida com um único puxar de descarga. Gostaria que Kagami sumisse da mesma forma. — Seu estúpido. Morra Taiga!

Não era esse seu desejo, e muito menos que ele saísse de sua vida. Mas por enquanto pensaria assim, permaneceria verbalizando isso como uma autodefesa. Estava quebrado demais para tentar algum tipo de pensamento positivo a respeito de Kagami.

Mas isso também era momentâneo. Não desistiria do amor de sua vida tão facilmente... Mesmo após tendo afirmado o contrário.

***

14h42min

~Aomine Daiki~

Com um suspiro preguiçoso, o moreno finalmente decidiu abrir os olhos. Estava se enrolando há pelo menos meia hora na cama, virando-se de um lado para o outro apenas porque não queria deparar-se com mais um sábado monótono e solitário. Não tinha planos para aquela tarde — graças aos céus Satsuki não o convidara pra fazer compras idiotas dessa vez —, então ficar na cama era uma boa opção de passatempo.

Com um bocejo demorado, Aomine colocou a mão embaixo do travesseiro e buscou por seu celular. Assim que desbloqueou a tela e viu a hora, deduziu que precisava almoçar, pois já era quase 15h... Mas estava com tanta preguiça, e a cama quentinha e confortável praticamente o amarrava ali, mesmo quando seu corpo já estava dolorido de tanto ficar deitado.

— Só mais um pouco... — Murmurou para si mesmo com a voz arrastada, passando a mão por cima dos olhos ainda nublados e sonoletos.

Como de praxe, Aomine começou a fuçar suas redes sociais pelo celular, vasculhou os sites de basquete e pornô em busca de alguma novidade, e quando deu-se conta seus olhos passavam pelo mesmo lugar de sempre: O WhatsApp de Taiga. Lá estava salvo o rascunho da mensagem que não tivera coragem de enviar até então.

Aomine Daiki: Oi Taiga. Beleza? Preciso muito conversar com você, e é bem importante. Quando tiver um tempo me avisa. Se cuide e até mais.

A quantia de vezes que Daiki mudara esse texto não cabia mais nos dedos de suas mãos. Suas mensagens já variaram de um simples 'oi' à extensos parágrafos explicando suas razões para terem essa conversa. No final o moreno já nem sabia mais o que escrever e acabava por não mandar absolutamente nada.

Aomine tinha noção de que estava apenas se enrolando para tomar a decisão, e essa merda parecia ser sua sina. Sabia que era errado ficar adiando o contato com Taiga — ainda mais quando queria desesperadamente estar com ele e pedir desculpas pela mancada exorbital que dera —, então deveria mandar da forma que estava digitado... No entanto, sempre que convencia-se de que assim estava bom e direcionava o polegar até a tecla 'enviar', algo o parava antes de conseguir clicar.

— Hoje eu vou mandar! — Afirmou para si mesmo com segurança, posicionando o dedo na tecla, mas mantendo uma margem de segurança para não enviar acidentalmente. — Oi Taiga, beleza? Preciso muito conversar com você, e é bem importante. Quando tiver um tempo me avisa. Se cuide e até mais. — Releu em voz alta, estreitando os olhos ao perceber que não soava muito bem.

Tinha algo de errado na mensagem. Talvez as suas 'não-abreviações', mas ainda não era isso. E se apenas mandasse um 'oi, como você está' comum, para iniciarem um diálogo? Citar a conversa poderia ser algo um pouco intimidador ou pressionador, ainda mais considerando que Taiga não ia mais tanto assim com sua cara — apesar dequase ter demonstrado o contrário no Maji Burguer, há algumas semanas.

Mas ele ainda tinha o Franjinha... O inconsciente fez questão de lembrá-lo.

— É, tem esse merdinha ainda. — Suspirou, fazendo uma careta ao lembrar dos fatos que o incomodavam de verdade. Apagou a mensagem e começou a digitar novamente.

Aomine Daiki: Oi Taiga, tudo bem?

Será que está bom mandar só assim? Perguntou-se mentalmente, levando o dedo até uma distância segura da tela, relendo a mensagem duas, três vezes com uma concentração que quase não pertencia à sua pessoa. Precisava ter certeza de que estava tudo certo.

— Hora de levantar amor! — Sua porta foi escancarada repentinamente por sua mãe, levando-o a ter um sobressalto imenso na cama.

— Puta que me pariu! — Exclamou horrorizado, vendo que a mensagem fora enviada por acidente. Clicara sem querer quando assustara-se. Justamente o que estava tentando evitar. — Mãe! Fodeu!

— Olha a boca suja já quando acorda. Que feio Daiki! — Ela arregalou os olhos de forma cômica, apoiando-se com as mãos no batente da porta, pendendo o corpo para frente. — Hoje tem estrogonofe. Tira essa bunda da cama e venha aprender a lidar com o microondas.

— Já... Vou... — O moreno balbuciou , relendo a mensagem que agora fazia parte da caixa de diálogos do ruivo.

Ok, não estava tão ruim. Antes assim do que como estava antes. É. Conformou-se com o acontecimento, ainda um pouco alterado pela adrenalina do susto. Taiga em breve veria o texto, e aquilo estava levando o coração de Daiki a acelerar de uma forma ridícula. Era só um Whats... Só um Whats simples.

— Te dou um minuto para largar esse celular e aparecer na cozinha! — Yumiko cantarolou, sumindo novamente pelo corredor. — 57... 56... 55...

— Já vou! — Aomine repetiu, esperando ansioso por alguma resposta. Gostaria que ele não o ignorasse, porém a mensagem nem fora visualizada ainda.

— 22... 21...

— Oh, saco! — Reclamou, saindo da cama com um pulo, mas levando o celular fielmente entre os dedos. Seria sua companhia por um bom tempo, já previa isso. Torcia para que Kagami fosse ele mesmo e o respondesse, mesmo estando magoado. Era justamente isso que queria reverter, e o quanto antes.

Sentia uma puta de uma saudade, e seu remorso realmente estava incomodando.

~Kagami Taiga~

Kagami ouviu o celular vibrar ao longe, mas não encontrou forças para levantar do sofá. Não estava com cabeça para falar com quem quer que seja, por isso permaneceu fitando o teto, pensando nas coisas que acabaram de acontecer.

Sinceramente Kagami não sabia o que faria daqui pra frente... Talvez o de sempre: Jogar basquete com seus amigos, fingir que estudava e comer como um morto de fome. Só servia para isso. Paixão, fraternidade, amor... Essas coisas eram muito complicadas, incertas e voláteis, só serviram para mostrar o quanto ainda precisava amadurecer.

No final das contas ficar sozinho era uma melhor opção. Ninguém se machucava assim.

Notas finais
~ LEIAM ATÉ O FIM ~ Bem... E por hoje é só, pessoal! Acho que foi um capítulo um pouco intenso, mas achei simples ao mesmo tempo. Admito que estava com medo de postar >< Mas qual é, todo mundo sabia que o Taiga iria espanar uma hora ou outra, e as reações do Tatsuya eram bem previsíveis... O melhor é aceitar!!! Só vamos torcer para o Bakagami não se amargurar com todas as decepções amorosas de sua vida, principalmente agora que o Ahomine está correndo atrás (acidentalmente) do tempo perdido... Ops... Falei demais! /o/ Hehehehehhe! MÚSICAS DE HOJE *o* ~ Taiga: Let me Go - Three Doors Down: https://www.youtube.com/watch?v=thc1MtNagC8 // Tradução: http://letras.mus.br/3-doors-down/119097/traducao.html ~ Tatsuya: Snuff - Slipknot (sim, confiem, a música é perfeita - AMO ESSES CARAS): https://www.youtube.com/watch?v=uH_PKQMUyiI // Tradução: http://letras.mus.br/slipknot/1311128/traducao.html ~AVISO IMPORTANTÍSSIMO DE HOJE~ Bem, quem me acompanhou em Inevitável (minha primeira fic AoKaga) sabe que não posso me despedir das histórias sem agradecer apropriadamente cada um de vocês por terem acompanhado... Então no ano passado eu mandei cartões de Natal para alguns leitores que comentaram, e cartinhas para as pessoas mais próximas e íntimas xD Foi muito legal!!! Andei pensando aqui e decidi que com Linha Tênue não vai ser diferente... Não que a fic esteja chegando ao fim, mas já quero me preparar xD Entãoooooo... Vou mandar um presentinho simples para quem quiser, como gratidão mesmo o/ É só me mandar o endereço completo (Rua, Número da casa/ap, Bairro, CEP, Cidade, Estado), seu nome completo e seu apelido no Nyah ou no Social (para eu conseguir identificar a pessoinha, hehehehe) para o meu e-mail: floriani.alana@gmail.com - Vou considerar o que chegar até dia 31 de julho, ok? Ok! Se quiser colocar o assunto como 'Linha Tênue' vai facilitar bastante xD Não estranhem, não sou uma sequestradora ou criminosa que vai mandar uma bomba xD Só quero agradecer de coração quando a história chegar ao fim /o/ Bobeirinha de uma autora viciada em escrever sobre esse bando de bakas xDDD Enfim minha gente, é isso por hoje! Espero que tenham gostado do capítulo, e que eu receba alguns e-mails, hahahahahaha! Beijão enooooooooooooooooooooooooorme da Lana-chan! ;**********************************************************************