Linha Tênue
17 Talvez.
Notas iniciais

Domingo . 31 de janeiro . 18h15min
~Kagami Taiga~
A tarde do último dia de janeiro veio acompanhada do sol, para alegria geral em Tóquio. Invernos eram rigorosos demais, isso sem falar que tinham o poder de limitar várias atividades, e isso de maneira alguma animava Kagami, que já estava cansado de ficar em casa. Porém finalmente o clima gelado e acinzentado parecia estar chegando ao fim, trazendo mais uma vez aquele ar gostoso que indicava a troca de estações... Apesar de que, pelos cálculos de Taiga, ainda faltavam algumas boas semanas para a primavera chegar.
Na verdade essa era a última de suas preocupações naquele final de tarde...
O ruivo caminhava pelas calçadas de um bairro um pouco distante do seu, e em cada passo que dava na direção daquela casa, um aviso parecia ecoar por sua mente: "A noite não vai ser boa!", "Você deveria ter vindo sozinho!", "Vai se preparando psicologicamente!", etc. Kagami tinha certeza de que seu receio mor ao ir à festa de Kuroko — acompanhado de Himuro — se dava ao fato de que, provavelmente, Aomine Daiki estaria lá.
O ruivo encontrava-se em um baita conflito interno por causa desse mísero detalhe. Mesmo que lutasse contra isso com todas as forças restantes, seu coração idiota esperava ansiosamente para estar lá, justamente para ver o moreno mais uma vez. Deplorável. Teimosia e masoquismo puro.
Kagami sentia-se completamente nojento ao pensar assim, primeiramente porque Aomine o fizera de palhaço, e também porque agora seus sentimentos teriam que ser redirecionados para o rapaz de preto que caminhava ao seu lado. Mas não, o coração é um troço burro e teimoso, nunca faz o certo, nunca segue os conselhos da mente... Ou seja, a noite teria tudo para ser uma merda, mas era aniversário de Kuroko, então aguentaria o tranco. Seria uma provação para si mesmo.
— Taiga, tem algum problema o fato de eu estar indo até o aniversário com você? — Tatsuya interrogou com a voz baixa, tocando levemente seu braço ao notar seu cerne franzido.
— Não. — O ruivo respondeu rápido e sorriu de forma tranquilizadora, mais para acalmar a si mesmo do que ao irmão. — Não tem problemas nenhum. Relaxa.
— Mas eu não trouxe um presente, e nem sou tão próximo ao Kuroko-kun para chegar de surpresa. — Ele murmurou, erguendo as sobrancelhas.
— Mas você é próximo a mim. — Kagami assegurou, também tocando de leve em seu braço. — Avisei que você viria, e o Murasakibara provavelmente estará lá também.
— Eu sei, ele me disse... Mas... Enfim! — Tatsuya sorriu, compreensivo. — Apenas perguntei porque notei que você está inquieto.
— Ah, eu... Sei lá. — Kagami juntou as sobrancelhas e olhou para a calçada, sentindo o rosto esquentar minimamente. Teria que aprender a ser mais discreto o quanto antes. Não. Melhor... Teria que esquecer Daiki, urgentemente. — Estou. Um pouco.
— É porque o Aomine vai estar lá, não é? — Tatsuya perguntou com um meio sorriso, atraíndo seu olhar assim que viraram a última esquina antes da casa de Kuroko.
O ruivo sentiu-se mal no ato. A última coisa que queria era causar aborrecimentos ou tristeza para Tatsuya... Não estava indo pelo caminho certo, e para deduzir isso não precisava ser muito esperto.
— Espero que não esteja. — Kagami disse, estapeando mentalmente seu coração, que pedia justamente o contrário, por algum motivo idiota. — Mas se ele estiver, foda-se. Não é? — Sorriu da forma mais firme que conseguiu, olhando para Himuro. — Você está comigo agora!
—Sim. Estou com você!— Himuro afirmou de forma radiante, aproximando-se um pouco para que suas mãos roçassem enquanto caminhavam lado a lado. Era fácil se acostumar com o toque.
— Mas mesmo assim me desculpa, ok? — Kagami pediu em voz baixa depois de alguns segundos, fitando a casa no final da rua, sentindo uma imensa dose de culpa e ansiedade ao mesmo tempo. — Não quero avacalhar com as coisas, sendo que elas mal começaram.
— Taiga, já disse que não precisa se preocupar com isso. — Himuro soltou uma breve risada nasal, dando-lhe um cutucão nas costelas. — Eu imagino como você deve estar se sentindo, foi tudo muito recente. Não vou sair por aí cobrando coisas que sei que você não pode me dar agora... Já disse que vamos fazer no seu tempo, e que vou te ajudar a esquecê-lo.
— Não é isso... Não estou com você para esquecer seja lá quem for. — Taiga parou em frente ao portão da casa e avaliou Himuro por um longo tempo, tentando decifrar o que havia por trás daqueles olhos acinzentados. Sem sucesso. Apenas continou: — Só quero que dê tudo certo entre a gente, então vou me esforçar ao máximo. Você é muito importante para mim, saiba disso.
— Taiga...? — Tatsuya murmurou, encarando-o com uma expressão levemente boba.
— Vamos? — Kagami perguntou com um toque de graça na voz, inclinando-se minimamente para dar um selinho em seus lábios entreabertos, sempre gelados. Era sua vez de tomar alguma atitude, de se aproximar...
Quando se afastou, o ruivo notou mais uma pitada de surpresa aparecer no semblante de Himuro. Isso de certa forma o deixou feliz, principalmente quando viu o enorme sorriso surgir naquele rosto sempre tão pálido, mas que agora continha um rubor quase imperceptível. Se conseguisse arrancar, por dia, pelo menos uma reação positiva do irmão, já era mais do que o suficiente para não desistir, para não olhar para trás.
Talvez. A voz lá no fundo de seu consciente sussurrou.
~Aomine Daiki~
Daiki encontrava-se confortavelmente sentado (praticamente deitado, e ocupando dois espaços) no sofá triplo da sala de Kuroko, ouvindo a ladainha infindável de Midorima e Takao sobre o caso ufológico de Roswell, no qual uma nave alienígena supostamente caiu nos EUA e todas as evidências foram encobertas pelo governo americano — para variar. Aomine sempre gostou de ler e discutir sobre teorias conspiratórias, mas no momento não prestava a menor atenção na conversa, pois as palavras pareciam um pouco embaralhadas para si. Estava mais absorto e interessado nas teorias de seus próprios pensamentos confusos.
O moreno chegara na casa de Kuroko duas horas adiantado — única e exclusivamente por chatisse de Momoi, que usara a desculpa de 'querer ajudar a arrumar as coisas' —, e agora o tédio estava sendo sua maior companhia. Kise também chegara cedo e estava ao seu lado desde então, mas no momento ele parecia realmente entretido na conversa alheia e esquecera de sua existência. Era quase um alívio, para falar a verdade.
Novamente a campainha tocou, fazendo seu coração palpitar. Já era a quinta vez desde sua chegada.
Sempre que a melodia característica ecoava pela sala, o interior de Aomine transfigurava-se na verdadeira personificação do caos. O sobressalto era inevitável, porém o moreno procurava disfarçar logo em seguida, muitas vezes sem sucesso. Todo mundo ao seu redor seria capaz de perceber a inquietação, ainda mais se soubessem dos últimos acontecimentos de sua vida.
Lógico que, mesmo odiando o fato com toda as forças, um pedaço enorme de Daiki aguardava ansiosamente a chegada de Taiga. O moreno insistia para si mesmo que queria apenas provar sua força; mostrar a ele que ainda estava em pé, mesmo depois do chifre; que não se abalaria e que sustentaria sua mentira até o último segundo... No entanto a verdade é que apenas desejava vê-lo porque estava com uma minúscula saudade, porque sentia-se ligeiramente culpado e porque queria voltar na porra do tempo para ser abrir antes de ele ter viajado. Mas agora já era. Só restou a raiva e o remorso. Sinceramente, agora mais remorso do que raiva...
Aomine já não sabia de mais nada. Estava confuso consigo mesmo. Tudo era muito contraditório em seu interior.
Contra a vontade, Daiki virou o rosto e acompanhou os movimentos sutis e quase invisíveis de Kuroko, que surgiu pela porta da cozinha e andou em linha reta até o hall de entrada, com a intenção de atender os próximos convidados. Pelos cálculos de Daiki, faltava apenas a chegada de Akashi — que provavelmente não viria —, de mais algum povinho da Seirin e do próprio Taiga, que com certeza estaria acompanhado por aquele franjinha maldito.
Qual a probabilidade de ser ele atrás da porta naquele momento?
Assim que Kuroko girou a maçaneta, Aomine voltou-se novamente para Midorima e fingiu interesse na conversa. O assunto era terciário para o moreno, pois sua audição estava 80% focada na movimentação do hall, enquanto os outros 20% eram bloqueados pelas palpitações de seu coração, que ecoavam em seus ouvidos. Alguma coisa dizia que era ele, meio que podia sentir sua presença naturalmente selvagem. Isso era irritante... Tão irritante quanto seu coração pulando descompassado e suas mãos suando.
Ridículo! Ri-dí-cu-lo! Onde estava seu orgulho agora para ajudar?
Por que diabos tanta euforia, sendo que não eram mais nada um do outro? Levar um gelo no banheiro Maji Burguer já não foi o suficiente para mostrar em que pé andava a situação? O que realmente esperava naquela noite? Kagami estaria acompanhado, não olharia na sua cara... Por que estava agindo como um débil? Ainda sentia raiva dele, então por que diabos o coração era tão teimoso?
— Aomine-cchi? — Kise o cutucou na bochecha, desviando-o imediatamente de seus devaneios disformes e contraditórios.
— Hm? — Perguntou de supetão, olhando para o louro sorridente ao seu lado. — Que foi?
— Tá viajando, como sempre? — Ele interrogou com as sobrancelhas arqueadas, estalando continuamente os dedos na frente de seu rosto como forma provocação.
— Que foi? — Aomine perguntou novamente, ríspido, ainda tentando descobrir sutilmente quem estava entrando na casa. Se virasse o rosto para olhar agora daria muita bandeira, mas sua intenção era deixar Kagami no vácuo... Acabara de decidir isso. Não falaria com ele nem a pau. Não tinha motivos para tentar conversar com ele, principalmente agora que ele estava com o maldito do Franjinha.
— Perguntei se você lembra qual foi o ano da queda. — Takao disse, bem-humorado, rindo de sua falta de reção.
— Que queda? — O moreno fez uma careta confusa e desgostosa, engolindo em seco ao ouvir a voz de Taiga ao longe, desejando felicitações à Kuroko. Sentiu o estômago revirar-se, e no fundo odiou-se por estar agindo como uma menininha, sendo que agora ele supostamente deveria fazer parte de seu passado.
— Da nave, em Roswell. — Kise respondeu e riu também, ao seu lado.
— Ah, vai saber! — Apertou o maxilar, ouvindo os passos atrás de si. Decidiu chutar, como que para disfarçar sua ansiedade: — Acho que... Hm...1947? 48?
— 47! — Takao e Midorima falaram juntos, mostrando um breve alívio por livrarem-se da dúvida.
— Boa noite para vocês! — A voz tão conhecida, até mesmo íntima, soou em algum ponto às suas costas, causando um breve e estranho calafrio em seu corpo. Era ele, claro que era...
— Oi oi Kagami-chii! — Kise virou-se para cumprimentá-lo animadamente, como sempre, apoiando o braço no encosto do sofá e no ombro de Daiki também.
— Boa noite Kagami! — Takao o cumprimentou do outro sofá, seguido por um breve aceno de cabeça de Midorima, que era o foco da visão turva de Daiki no momento. — Himuro, você também? — Kazunari continuou, um pouco surpreso, mas mantendo o bom-humor. — Que engraçado. Achei que você viria com o Murasakibara.
— Pois é... Mas hoje decidi acompanhar o Taiga.— A voz nojenta desceu como uma bola de tênis pela garganta de Aomine, que virou-se no mesmo instante, apoiando-se no sofá também. Era novamente seu orgulho aparecendo para dar-lhe forças. No final era sempre isso que o salvava, mesmo que o levasse a cometer idiotices irreparáveis.
— Boa noite. — O moreno os cumprimentou com um meio sorriso armado, sentindo o coração quase sair pela boca ao ver o ruivo parado à poucos metros de seu corpo.
Ele vestia uma jaqueta verde escura, tipo militar, e uma calça jeans clara. Os cabelos ruivos estavam completamente espalhados, pois provavelmente secaram com o vento, durante o trajeto... A denúncia disso era o cheiro cítrico do shampoo, que se misturava ao perfume que ele usava. Nada havia mudado por fora — talvez apenas o sorriso, que era inexistente — mas por dentro a frieza era palpável.
Daiki não olhou para Himuro em momento algum, apenas encontrou o olhar rubro de Taiga, que sustentou o seu por breves segundos antes de focar em qualquer outro ponto da sala. Ele soltou um frívolo aceno de cabeça, mas a indiferença foi evidente. Doeu... Porém doeu mais ainda vê-lo ao lado daquele cara, como se fosse algo corriqueiro, com as malditas correntes gêmeas penduradas no pescoço. Aquilo sim materializava uma gosma por todo o seu estômago, e isso Daiki não conseguia evitar. Ainda gostava demais de Kagami e estava corroendo-se de ciúme, raiva, culpa... Tudo se misturando ao seu suco gástrico.
— Olá, Aomine. — Himuro o saudou usando uma falsa simpatia enquanto abria um sorriso extremamente cínico nos lábios. Julgaria quase zombeteiro.
Morra! Pensou no ato, mas foi além.
— Oi, Franjinha. — Soltou o apelido com uma fingida inocência, fitando seu olhar com intensidade. Ele parecia saber o que acontecia em seu interior, inclusive aparentava ser capaz de ler seus pensamentos agressivos. — Foi mal. Esqueci seu nome.
— Claro. — Himuro soltou uma breve risada nasal, mas sem humor nenhum. Ele era tão sem graça.— Não faz diferença.
— Vem Tatsuya... Vamos dar oi para o resto do pessoal. — Kagami apenas tocou no ombro dele e saiu da sala o mais rápido possível, em direção à porta da cozinha, onde Kuroko os esperava. O ruivo nem mesmo olhou para trás, mas com certeza sentia o olhar de Daiki queimando em suas costas.
Não precisava ter sido assim...
Antes de adentrar o cômodo com Taiga, Himuro deu uma breve olhada para Aomine e sorriu de canto, como se estivesse provocando. Não, ele decididamente estava provocando. Daiki permaneceu encarando-o, imaginando o quão inchada ficaria aquela cara se a enchesse de socos... Mas nada disso valeria a pena. Perdera o 'jogo' e agora teria que engolir isso para sempre, mesmo à contragosto.
— Aomine-chii. — Kise o chamou em voz baixa, ainda com o braço apoiado em seu ombro. — Tá de boa aí?
— Lógico! — Daiki sorriu de canto, voltando o rosto para fitar os olhos cor de mel do louro. Estava mentindo, óbvio. — Por...?
— Não sei, mas parece que vi alguns raios lasers sairem de seus olhos assim que eles entraram na casa. — Kise zombou, lançando uma olhadela para Midorima e Takao, que agora conversavam com um dos jogadores da Seirin e não pareciam estar prestando atenção nos dois. — Aconteceu alguma coisa entre vocês três? A agressividade foi bem evidente.
— Não te interessa, metido. — Aomine foi seco, desencostando-se do rapaz. Não estava nem um pouco inclinado a falar para um 'ex-quase-namorado' que recebera um chifre de Kagami Taiga, justo com o cara que o acompanhava naquele momento. Era humilhante.
— Você é sempre tão gentil comigo, Aomine-cchi. — Ryouta ironizou, inclinando o rosto para avaliá-lo, com o bico besta de sempre. — Fico lisonjeado.
— Vai cagar, Kise! — O moreno revirou os olhos, mas foi obrigado a sorrir minimamente. Sabia que ele não fazia por mal, só tinha um jeito chato e curioso mesmo.
— Se precisar conversar sobre qualquer coisa, fique a vontade. — O louro prosseguiu, um pouco mais sério agora, endiretando-se no sofá. — Sua cara não está das melhores. Percebi já quando cheguei.
— Valeu, mas não precisa. — Daiki suspirou, olhando para a porta por onde Kagami desaparecera com aquele merdinha. — Não adiantaria de nada. — Sibilou mais para si mesmo do que para o outro.
— Quer se distrair, então? — Kise perguntou, tomando um gole de seu refrigerante, cujo copo estava em cima da mesa de centro. — Sempre ajuda quando a gente está na merda.
— Quem disse que estou na merda, seu idiota? — Aomine resmungou com a voz arrastada, fingindo indiferença.
— Vou repetir, sua cara não está das melhores. Isso só pode significar coração partido. — Ele assinalou com uma expressão ridiculamente sábia, devolvendo o copo à mesinha. — Estou na mesma, então sair para beber ou fazer qualquer coisa sempre é uma boa forma de se distrair.
— Levou um fora de alguma garota importante de novo? — Aomine questionou, esticando os braços por cima do sofá, mas mantendo parte de sua atenção voltada para a cozinha. Sua maior vontade era ir para lá agora, porém seu orgulho o prendia no estofado verde.
— Nah... Antes fosse. — Ele soltou um suspiro manhoso, erguendo as sobrancelhas ao olhar para os retratos da família de Kuroko nas paredes. — Só não sou correspondido, e sei que nunca vou ser. Fui rejeitado mais uma vez, e da forma mais educada possível. Rejeitado... — Ele repetiu a palavra, fazendo um novo bico.
— Oh, tadinho. — Foi a vez de Aomine zombar, passando a mão com força para bagunçar os fios dourados. — Ainda está na mesma ou já é outra pessoa?
— Na mesma... — Kise resmungou enquanto ajeitava os cabelos. — E estar aqui é um pouco ruim, justamente por isso. Não consigo sequer ficar bravo com ele.
— Bem, sinceramente acho que o Tetsu está bem de boa sozinho. É melhor você se distrair e deixar para lá por enquanto. — Aomine comentou, sem graça, dando-lhe um tapinha de consolo nas costas. Era péssimo nisso, então desconversou. — Deu o quê de presente para ele?
— Um livro do autor preferido e algumas flores.
— Flores? — Aomine riu de forma debochada, estranhando o presente peculiar. Imaginou a reação de Kuroko ao receber um bouquê de Kise, e precisou rir um pouco mais, porém internamente. — Que gay! — Verbalizou sua conclusão.
— Flores são demonstrações de carinho. Pessoas apaixonadas fazem isso, sabia? — Kise foi um pouco seco na resposta, lançando-lhe um olhar não muito amigável. — Credo Aomine-cchi. Achei que você já havia amadurecido um pouco mais nesse quesito, mas parece que continua insensível.
— Humpf, receber bronca de você à essa altura do campeonato é foda, né? — Foi a vez de o moreno responder com rispidez, mesmo sabendo que ele tinha certa razão. Ignorou esse detalhe e mudou mais uma vez o rumo da conversa: — Mas e aí, quer fazer o quê para se distrair então? — perguntou sem muito humor, lançando mais um olhar para a porta da cozinha. — Acho que estou precisando também, no final das contas.
— Deixa eu ver o que têm para fazer hoje em Tóquio... — Ele murmurou, pegando o celular de seu bolso e já passando os dedos avidamente pela tela. — Essa é a única vantagem de ser conhecido. Convites não faltam...
Com um suspiro perguiçoso, Aomine fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto sofá. Estava tentando ignorar a sensação, porém tudo em seu corpo parecia ser atraído para aquela cozinha. Obviamente (e teimosamente) queria sentir a presença de Taiga, no entanto era o pior dos masoquismos ir até lá e vê-lo ao lado de Himuro. Claro, não demoraria muito para estarem ocupando o mesmo espaço, e seu maior receio era transparecer a dor que sentia... Sim, sentia, e não era pouca. Ainda não engolira o fato de que os lábios daquele bostinha encostaram nos de Taiga em Los Angeles, e que agora provavelmente estavam encostando em outras partes do corpo que anteriormente era apenas seu. O pensamento o enojou.
O moreno não sabia o que era maior: Seu arrependimento por ter mentido, ou até mesmo por não ter aberto seus sentimentos quando teve chance, ou se era o ódio que sentia por Taiga ter permitido um beijo roubado, mesmo afirmando que estava apaixonado. Essa contradição ficaria passando pela mente de Aomine até o fim da vida se não fizesse nada a respeito. Jamais iria falar com ele, pois a merda surgiu do próprio Taiga, mas queria arranjar outra forma de superar... Uma mais fácil.
Queria um atalho.
— Bem, temos três opções de lugar para ir... — Kise murmurou, atraindo metade de sua atenção. — Olha aí, fica a seu critério. Consigo entrar nas três, mesmo se a gente for de menor.
O moreno pegou o celular na mão sem muito ânimo, mas após ver os possíveis lugares abriu um vago sorriso. Era justamente de uma festa que estava precisando, pelo menos para sair daquele marasmo ridículo no qual se encontrava.
Conhecer gente nova sempre ajudava... Bem, talvez.
~Kagami Taiga~
Apesar de estar rindo com os outros, brincando distraidamente com a manga da jaqueta de Himuro e morrendo de fome devido ao cheiro da comida que estava em cima da mesa, era na sala que os outros 50% de sua atenção se encontravam. Nele. Praticamente deitado ao lado de Kise. Podia ouvir algumas risadas de ambos hora ou outra, e isso o irritava. Irritava-se mais ainda ao perceber que aquilo o irritava, afinal não tinha nenhum mísero motivo para sentir ciúmes ou coisas do tipo... Porém, como já havia percebido anteriormente, seu coração era retardado e masoquista ao ponto de ainda sofrer por causa de Daiki.
Quando essa merda vai passar?
Não seria tão cedo, pelo que percebeu ao revê-lo, há alguns minutos. As reações que seu corpo tivera pareciam uma espécie de piada de muito mal gosto. Por que ficava tão eufórico com o simples fato de encarar aqueles olhos azuis durante cinco segundos?
Aomine dera mais de mil motivos para odiá-lo, para se afastar... Então por que diabos o coração era tão teimoso? Sabia que o seu caminho agora seria trilhado ao lado de Tatsuya, sentia que com ele conseguiria ser feliz mais uma vez, e não havia como negar que estava satisfeito com a decisão que tomara... Mas por que, mesmo com tudo o que aconteceu, aquela maldita fagulha não o deixava totalmente livre para seguir em frente?
Estava cansado de ficar dividido. Queria apenas continuar numa boa com Tatsuya. Ele mostrava-se ser sua verdadeira cura, sempre paciente e atencioso, tornara-se o motivo de seus sorrisos nos últimos dias. Tinha tudo para funcionar. Por que seu coração não entendia que ali era o seu lugar agora? Pra quê se contradizer tanto?
— Você está muito cheiroso, sabia? — Himuro murmurou discretamente em seu ouvido, arrancando-o de seus pensamentos interrogativos. Kagami sobressaltou-se no ato e inclusive teve um leve arrepio, pois o ar gelado chegou em sua cartilagem com muita suavidade. Foi quase bom.
— Ah... Obrigado. — O ruivo sorriu sem jeito, fitando o irmão, que disfarçava a proximidade olhando ao redor, como se nada tivesse acontecido. — Você também está. — Kagami afirmou, aproximando-se um pouco mais para aspirar discretamente o aroma que a pele dele soltava. — Já disse que você tem cheiro de hortelã?
— Não! — Himuro riu e o olhou imediatamente, também sem graça, mas com o olhar límpido e suave. — Acho que o Atsushi falou que eu cheirava à Mentos, mas ouvir algo assim de você é bem melhor. Fico feliz que goste.
— Hm... Ok. É bom. — Kagami finalizou o assunto por ali, tendo um mini ataque cardíaco assim que percebeu alguém entrando na cozinha. Para seu alívio (e teimoso desapontamento), sua visão periférica captou apenas Midorima, Takao e Izuki caminhando até as cadeiras vagas do outro lado da cozinha.
Isso significava que Aomine e Kise estavam sozinhos na sala. Mais aborrecimento.
E dai? Eles que se fodam... Não tenho mais nada a ver com isso. O ruivo reforçou para si mesmo, olhando para Himuro, que agora parecia entretido na conversa que Momoi tinha com Kuroko e Riko. Era ele o seu novo dono, por assim dizer. Teria que focar nisso, em seu irmão. Seu salvador.
~Himuro Tatsuya~
Tatsuya era tudo, menos burro. Lógico que percebia a inquietação de Kagami, assim como sabia exatamente qual era o motivo de tanto rebuliço: Aomine Daiki, lógico.
Apesar de já ter previsto isso tudo há algum tempo, Himuro não tinha sangue de barata para mentir à si mesmo. Com certeza o fato o incomodava, e não era pouco... Mas saberia ser paciente dessa vez, afinal, prometera a Taiga que o daria seu tempo para absorver tudo, se acostumar, se envolver. Tinha certeza que aquelas idiotices emocionais que Kagami ainda nutria por Aomine seriam passageiras, principalmente quando ele se desse conta da dimensão dos seus sentimentos — e quando soubesse de tudo o que era capaz de fazer, em todos os sentidos que a frase poderia englobar. Do mais inocente e doce, ao mais pervertido e ácido.
No entanto, em meio àquele mínimo incômodo havia uma enorme e viva chama que o deixava impassível, sustentando a situação com o maior sorriso possível: Seu doce triunfo perante Daiki. Tatsuya levaria a cara de tacho do maldito em sua mente pela eternidade. O moreno admitira a derrota com aquele último olhar, com a criação do apelido infantil e agressivo, com sua falta de reação... E ainda por cima o fim foi coroado com um chute de indiferença por parte de Taiga. Foi perfeito! Melhor do que estava esperando.
Tatsuya não sabia exatamente o que havia acontecido entre Kagami e Aomine para causar tanto aborrecimento e frieza, mas sinceramente amava tal fato. O ruivo viera tão carente de volta para seus braços, ferido com certeza, em busca de consolo, carinho, amor... E isso apenas Himuro era capaz de dar, com sutis gestos, como o elogio de seu perfume e sua paciência — mesmo que ela não fosse tão verdadeira assim. Estava determinado dessa vez, não faria mais cagadas. Não se daria ao luxo de perder aquele bem tão precioso que insistia em chamá-lo de irmão.
Levantando o canto dos lábios com os próprios pensamentos, Tatsuya voltou a admirar o rosto do ruivo, que agora parecia estar entretido na conversa de Teppei e Hyuuga. Quando ele notou seu olhar, virou-se para encará-lo, sorrindo um pouco.
— Que foi? — Kagami perguntou curioso, com a voz baixa, evitando atrair a atenção alheia.
— Só estou te olhando. — Himuro respondeu, beliscando sutilmente sua mão por debaixo da mesa, longe do olhar de todos.
— Retardado... — Ele riu nervoso, olhando para os dedos que se encostavam.
— I'm head over heels for you*, Taiga. — Sibilou em inglês, fazendo-o corar minimamente e entreabrir os lábios, buscando palavras que não encontraria tão cedo.
Tatsuya precisou rir da falta de reação, dando um tapa discreto na coxa do ruivo para que ele voltasse ao normal de forma descontraída. Foi exatamente o que aconteceu, e aqueles caninos aparentes acabaram por deixar o coração de Himuro levemente descontrolado. Amava verdadeiramente aquele sorriso, sempre tão brilhante e gentil... Assim como ele por inteiro. Perfeito.
Através daquele gesto de Kagami, o rapaz tirou sua maior conclusão: Aquelas simples respostas de Taiga eram sua estamina para esperar o tempo que fosse. Ele era o amor de sua vida, então não havia motivos para ter pressa.
***
20h23min
~Aomine Daiki~
O aniversário de Kuroko transcorria de forma consideravelmente agradável, apesar dos apesares. As pessoas eram legais, a comida estava realmente gostosa e o clima fraterno era o melhor possível, entretanto o moreno não via a hora de ir embora com Kise para sabe-se lá onde. Precisava de uma distração de qualquer espécie. Urgentemente. Principalmente agora que estava na cozinha com todo mundo.
Sua cabeça parecia girar, mesmo encontrando-se sóbreo, e sua vista nublava vez ou outra. Daiki sabia que eram sintomas de sua abstinência. Obviamente sentiria falta de sua droga favorita, ainda mais quando podia vê-la a poucos metros de distância — mas à milhas de seu alcance. E o pior, sob posse de outro alguém. Alguém que a roubara, ou talvez a conquistara... Ou sabe-se lá o que aquele maldito fizera para conseguir Taiga, para tornar-se sua preferência, para levá-lo a trair Daiki de forma descarada.
Ele é só um bostinha sem sal que sustentava uma expressão esnobe e nojenta... E ainda por cima provocava sua ira com aqueles sorrisos cínicos que apareciam apenas em metade de seu rosto, pois o resto estava encoberto por aquela franja sebosa. Maldito!
Para Aomine estava sendo deveras irritante irritar-se com aquilo. Mas acima de tudo machucava e fazia suas entranhas se contorcerem. Sabia que estava com um ciúme absurdo, e isso era a pior parte. Não queria mais se incomodar com aquela merda! Chega, acabou, perdeu!
Os sentimentos traiçoeros de Daiki se chocavam a todo instante, e o resultado era catastrófico. Por mais que não quisesse se importar com Taiga, algo vinha e mudava completamente o rumo das coisas assim que seus olhares se cruzavam acidentalmente naquela cozinha. Parecia uma praga, um parasita de intenso vermelho que de alguma forma agarrara-se em seu coração e não saía dali de forma alguma. Em breve faria um mês e Aomine ainda estava remoendo, enquanto ele já seguira em frente.
Por quê? Era quase injusto. O que fizera para merecer isso? Bem... Fizera uma merda bem grande e estava com remorso, apesar de o erro ter sido de Kagami. Ponto.
— Aomine-cchi, quer ir embora? — Kise perguntou em seu lado direito, como se lesse seus pensamentos. — Você está bufando sentado aí há pelo menos uns dez minutos.
— Vamos logo com essa merda, antes que eu desista e volte para casa! — Murmurou com mau-humor, atraíndo o olhar curioso de Momoi, que sentava ao seu lado esquerdo.
— Vai à algum lugar? — Ela foi rápida ao perguntar, com a testa franzida.
— Sim. — O moreno falou, levantando-se com Kise. — Vou sair com ele. — Explicou minimamente, apontando para o louro ao seu lado.
— Heh, vamos dar uma volta para distrair um pouco. — O louro sorriu e coçou a nuca durante a explicação, olhando para os presentes na sala, demorando-se em Kuroko. — Sabe como é, não sabe? — Voltou a encará-la.
— Dai-chan... — Ela ignorou Kise e voltou a encarar o moreno com os olhos estreitos. O tom de aviso na voz foi mais do que perceptível.
— Vou me comportar, falou? — Aomine revirou os olhos, já pegando a jaqueta que estava no encosto da cadeira. — E outra, você não é minha mãe, não precisa se preocupar comigo. Cuide dos seus interesses aqui, se é que me entende. — O moreno sorriu de canto, arrancando um rubor da menina. Sabia que a pessoa que ela gostava encontrava-se naquela cozinha.
— Vou te buscar pela orelha se souber que você fez merda. — Ela resmungou, sem jeito, olhando para a pessoa em questão. — Vai logo, idiota.
— Sarna... — Aomine soltou uma breve risada nasal, bagunçando os cabelos da menina.
Antes de começar a despedir-se de todos, Aomine lançou um último olhar à Taiga. Para sua surpresa ele também o encarava, mas de forma curiosa e discreta. Assim que os olhares se cruzaram, o ruivo desviou rapidamente, focando em algum ponto em cima da mesa. Ficou no ar a sensação de que ele ainda se importava, de alguma forma ou de outra... Mesmo que minimamente. Talvez.
Esses momentos confusos despertavam em Daiki uma imensa vontade de atirar Himuro pela janela e chamar o ruivo para conversar num canto qualquer daquela casa enorme — nem que fosse à força —, para poder despejar em seu colo toda a verdade e beijar aqueles lábios mais uma vez como pedido de desculpas. Mas não... Ele não merecia sua compaixão, pois fizera a cagada inicial.
Seria assim de agora em diante, Daiki manteria seu orgulho e sua dignidade intanctos. No entanto tudo era tão contraditório e complicado. Como era possível sentir raiva e remorso? Amar e odiar uma pessoa ao mesmo tempo?
Dane-se... Acabou. Independente do culpado.
Assim que Aomine e Kise deram um 'tchau' parco para o pessoal que ainda estava ali, saíram da casa e seguiram pelas ruas de Tóquio, conversando sobre o que fariam naquela noite. Apesar de estar um pouco mais animado (e aliviado) com a liberdade do ar fresco da noite, Daiki mantinha parte de seus pensamentos teimosos naquela cozinha, em Kagami, naquele último olhar que ele lhe lançou... Era algo que esqueceria hoje, nem que fosse de forma forçada.
Já estava cansado desse ciclo de pensamentos iguais. Enfiara-se em um labirinto e agora precisava achar a saída. O problema é que estava escuro e as paredes pareciam se mover o tempo todo, na intenção de prendê-lo ali para sempre. Como foi acabar assim?
Sabia a resposta, mas era melhor fingir que não.
***
~Kagami Taiga~
Acompanhado de Himuro, o ruivo subia as escadas da estação de metrô, aproximando-se do portal de concreto que daria acesso à calçada movimentada. O vento os atingiu em cheio, mas mesmo assim estava um clima bem agradável para uma noite de final de inverno.
Com bastante esforço, Taiga focava seus pensamentos na conversa que tinha com Tatsuya, e não nas hipóteses e conjecturas sobre o que Aomine e Kise estariam fazendo naquele momento, juntos, em qualquer canto de Tóquio. Ciúme há essa altura do campeonato soava de forma ridícula e bem inapropriada, ainda mais quando estava com seu irmão. Ou melhor, com seu... Companheiro? Namorado? Não sabia classificar. Ainda era irmão, mesmo com os raros beijos na boca.
A situação soava como um deja-vú. Remetia aos anos passados.
— Até que foi um aniversário divertido... — Himuro disse por fim, colocando as mãos no bolso. — Não é?
— Sim, com certeza! — Kagami sorriu de canto, aproximando-se de Tatsuya para que seus braços se encostassem. — A comida estava boa pra caralho. Foi a melhor parte. — O ruivo sorriu, lembrando do gosto dos doces.
— Sim. Comi tanto quanto você! — Himuro disso com um mínimo ar irônico, olhando de esguelha para o ruivo.
— Não! — Exclamaram em uníssono, com o tom mais descrente que conseguiram usar. Riram logo em seguida e assim permaneceram por um bom trecho que percorriam, atraíndo o olhar de algumas pessoas com quem cruzavam.
Era fácil se divertir com Himuro, de alguma forma ele o deixava tranquilo. Kagami queria muito fazer as coisas darem certo dessa vez, e não apenas porque seu coração rejeitado implorava por uma cura, mas também porque tinha um carinho gigante por Tatsuya, e vê-lo sorrindo era um tipo de remédio para si. Ele era especial, fraternamente, sim, mas poderia vir a ser mais do que isso. Chegaria novamente ao estágio de paixonite, e então viraria realmente uma paixão. Kagami só precisava permitir, e depois de ver Aomine mais uma vez a decisão de seguir em frente veio com mais força.
Taiga ainda não entendia onde errara para o moreno simplesmente não sentir nada por si, para ele enxergá-lo como um ninguém, um passatempo... Então o mais certo era olhar para frente, para a pessoa que o estendia a mão com um enorme sorriso, pedindo sua companhia, para ser seu protetor. Ali parecia ser o lugar mais certo e aconchegante no momento. Um refúgio? Talvez, precisava admitir, mas poderia ser feliz assim. Talvez.
— Tatsuya, vai fazer o quê agora? — Taiga perguntou após muito tempo, coçando a nuca e tirando coragem de algum lugar que nem mesmo conhecia.
— Hm, 21h30min... — Ele sussurrou de forma distraída, olhando para o relógio no pulso, fingindo estar pensando. — Por incrível que pareça, dormir. — Ele riu uma única vez, erguendo as sobrancelhas. — Domingo é sempre entediante.
— Quer ficar lá em casa? — O ruivo perguntou, atraindo um olhar instantâneo e surpreso de Himuro. — Quer dizer... A gente pode assistir alguma coisa, você dorme lá comigo e amanhã podemos nos aventurar na cozinha... Passar o dia juntos. Sei lá.
Assim como Tatsuya, Kagami não acreditava em suas próprias palavras, todavia se fosse para seguir em frente, firme, estava na hora de começar.
— Claro! — Ele abriu um sorriso enorme e satisfeito, quase incrédulo. — Lógico que sim.
— Mas vamos devagar, ok? Sem atropelar as coisas. — O ruivo pediu pela milésima vez, apressado, percebendo onde estava se metendo.
Sabia que Himuro havia entendido onde quis chegar, ele era cinco vezes mais esperto. Estava falando de sexo e coisas do tipo, e fazer aquilo com o irmão parecia ser algo muito errado no momento, quase um pecado. Kagami não conseguia sequer visualizar a cena, pois a imagem se distorcia em sua mente. Aomine aparecia no lugar que Tatsuya supostamente deveria ocupar... Prova real de que não estava preparado para dar um passo tão grande.
— Não se preocupe com coisas bestas, Taiga. Quanta paranoia! — Himuro soltou uma risada sacana, empurrando-o com o corpo. — Só ficar perto de você já é mais do que o suficiente para mim.
— Ok... — Taiga respondeu, sentindo um leve alívio em seu interior, misturado com um breve embrulho no estômago. — Fico realmente feliz com isso. — Disse, olhando para Tatsuya, ao seu lado. — Dessa vez vai dar certo! — Reforçou, arrancando um novo sorriso dele.
— Claro que sim. Já está dando...
— É!
E assim tudo iria começar de verdade. Estava finalmente entrando em um novo relacionamento, apesar de ainda olhar para trás enquanto percorria o caminho. Ou melhor, enquanto percorria labirinto sem fim para escapar de Daiki. O problema é que o moreno parecia seguí-lo, e em momento algum se distanciava. Quem sabe as coisas começariam a mudar a partir daquele momento.
Talvez. A voz lá no fundo de seu consciente sussurrou pela segunda vez naquela noite... Mas estava longe de ser a última.
***
00h02min
~Aomine Daiki~
O moreno não imaginava que festas caseiras como as de filmes de comédia americana realmente existissem — muito menos em Tóquio, e em um domingo.
Aquela noite parecia ser o clichê de sempre: Pais saíram de casa para viajar, o filho riquinho resolve chamar os amigos (e os amigos dos amigos) para beber e fazer bagunça, a música alta incomodava a vizinhança, gente de todos os tipos vomitava pelos cantos e se esfregava em outros, copos vermelhos com interior branco eram vistos por todo o chão e cheiro de cigarro impregnava o ar. Aquele era um ambiente novo, bem adulto e surreal... Estava divertido para a grande maioria das pessoas que estavam na casa. Para o moreno nem tanto.
Escorado na parede entre a janela e a porta de saída, Daiki sentia-se como o personagem frustrado de American Pie, apesar de querer muito fazer parte do time dos bacanas embriagados pegando meninas com pouca roupa. Estava bêbado, com certeza, mas não via graça nenhuma em estar ali... Não quando o Aomine Daiki Número Dois vinha encher o saco com aquelas bobagens sentimentais. Se ele desse as mãos para Momoi, seriam os Campeões Mundiais de Verdades Atiradas na Cara.
No início estava um clima ótimo, divertido de verdade, tinha tudo para ser uma noite diferente e muito bem aproveitada. Assim que chegaram na casa — que parecia pertencer à algum 'amigo' importante de Kise —, as meninas ficaram loucas, afinal o louro era bem famosinho por ser modelo... Daiki foi apenas na onda. Bastou um único sorriso de canto para chamar atenção, no entanto depois do terceiro copo cheio daquela bebida com gosto de menta, a situação começou a mudar. Aomine reparou que todas as garotas aparentavam ser iguais, que ninguém tinha uma conversa decente, o álcool começou a perder o gosto, a pouca comida estava gordurosa e a música era chata e repetitiva. Tudo tornara-se um cu, de um minuto para o outro... Só queria ir para casa agora, porém perdera Kise de vista há alguns bons minutos.
Daiki percebera que uma garota tentava se aproximar desde o momento em que entrara na casa, mas a infeliz era ruiva. Por acaso virara um chamariz para coisas vermelhas? Aquilo era irritante, com certeza não iria rolar... Sem chance. Não quando o Aomine Daiki Número Um — orgulhoso e egoísta — estava vagando no limbo de sua própria mente, dando espaço para o Número Dois — sentimental e sorridente — assumisse seu lugar original. Aquelas personalidades opostas ainda iriam enlouquecê-lo, principalmente quando se misturavam e tranformavam todos os seus pensamentos em um caos contraditório... Mas no momento só vinham as verdades que tentava esconder de si mesmo.
O famoso 'tapar o sol com a peneira' estava caindo por terra.
— Saco... — Resmungou, desencostando-se da parede gelada para sair da casa. Precisava respirar direito, e o cheiro de maconha começava a irritar seu olfato. A 'festa' chegara em seu limite...
Aomine caminhou pacientemente em direção à varanda escura, sentindo uma leve tontura ao sair do ambiente claro para entrar em um escuro, parcamente iluminado pela meia luz do poste. Um casal estava se agarrando ali por perto, e mais duas meninas riam como bobas na escada que dava acesso ao jardim, porém Daiki continuou seu trajeto até o muro da residência, onde sentou com um pouco de dificuldade. Se não cuidasse, cairia para trás. Estava bem zonzo.
O moreno permaneceu fitando a rua por longos minutos, tentando deixar a cabeça relaxada. Precisava de seu universo paralelo, do seu vazio, de sua fuga... Entretanto o Aomine Daiki Número Dois, bobinho, não conhecia atalhos para chegar lá. Bem pelo contrário, ele forçava seu cérebro bêbado à pensar em coisas que queria evitar... Nos erros que cometera, no arrependimento por não ter aberto seus sentimentos para Taiga nas várias oportunidades que teve, na possível inocência do ruivo à respeito do beijo roubado, no ciúme que sentiu quando ele chegou na casa de Kuroko acompanhado de Himuro Tatsuya. Tudo aquilo vagava em sua mente, como antes, porém agora parecia elevado ao nível épico.
— Aomine-cchi... — A voz afobada e distante de Kise soou às suas costas, mas Aomine não se moveu. Cairia na grama se o fizesse. — Ah, achei que você tinha me abandonado. — Ele resmungou, mais próximo, ofegante e com a voz um pouco embaralhada. — Tudo bem?
— Não... — Admitiu com um breve risada, vendo-o deixar um copo cheio de lado para tentar subir na mureta. — Você também não me parece muito bem. — Riu mais ainda, ajudando-o a sentar com um pouco de esfoço e equilíbrio.
— Esse troço de menta... — Ele soltou uma risadinha engraçada, pegando novamente o copo. — É bom.
— É. — Aomine murmurou sem muita emoção, sentindo preguiça até mesmo de falar.
O silêncio que se instaurou entre os dois era cortado apenas pela música abafada que vinha da casa e pelos goles audíveis que Kise dava em sua bebida. Tornava-se quase tranquilizador estar na companhia de alguém, mesmo que fosse um Ryouta bêbado que parecia querer chorar a qualquer instante.
— Quer falar? — Aomine perguntou à contragosto, virando o rosto para observá-lo. Ele parecia não estar muito bem mesmo.
— Não tem o que falar... — Ele murmurou, agitando o conteúdo em seu copo quase vazio. — Só estou triste. Hoje foi a terceira vez que me abri para o Kuroko-cchi... Ele diz 'não' de uma forma tão polida, agradece os presentes, me fala algumas coisas legais e fim. Nada mudou, continua sendo uma rejeição... Mesmo que educada.
— É foda? — O moreno indagou após alguns segundos, com receio.
Com sua pergunta, Aomine estava buscando entender o lado de Taiga. Ele também fora descartado, rejeitado, mesmo que não verdadeiramente... O problema é que ele não sabia disso. E pelo visto não saberia nunca. Agora parecia ser tarde demais.
— Ser rejeitado? — Kise soltou uma única risada nasal, erguendo as sobrancelhas. — Muito foda. Não tem como descrever. Pense comigo, Aomine-cchi... A pessoa que você mais quer ao seu lado não sente o mesmo, não te quer... Ela tem outros planos, ou outro alguém, ou... Sei lá... Só não quer você e não há nada mais para fazer a respeito. — Kise foi simplista, dando de ombros. — Você ama e não é amado. Machuca.
— Hm... — O moreno não encontrou mais palavras, então voltou a olhar para a rua, instaurando novamente o silêncio entre os dois.
Sim, ele respondera a sua pergunta... Era foda.
Daiki notou que nunca analisara as coisas pelo outro lado da situação, não parara para pensar na forma como Kagami se sentiu ao ouvir todas as merdas que disse. Seu orgulho ferido não o deixava ir tão longe assim, porém agora percebia o tamanho de seu erro, de sua estupidez, e isso estava deixando-o enjoado. Perdeu Kagami por pura burrice, por egoísmo... Agora ele estava com outra pessoa e Aomine estava ali bebendo para esquecer que sentia falta dele.
Mas ele beijara o Franjinha em Los Angeles... Murmurou sua única defesa interior, que já não estava mais tão forte assim. Ela também caía por terra.
— Kise... — Aomine o chamou, com um suspiro. Criara coragem para perguntar o que estava com medo de responder por si só. — O que você pensa sobre beijos roubados? Que são uma desculpa ou simplesmente não se pode evitar?
— Hm... — Ele pensou por um instante, encarando o olhar de Aomine.
Quando o moreno deu-se conta, os lábios de Ryouta encostaram-se brevemente nos seus e ali ficaram por um tempo. Daiki não soube como agir, apenas arregalou os olhos e esperou, quase que assustado. Sentia o gosto de menta da bebida e o frio dos lábios dele, mas era estranho. Forçado. Não encontrou uma ação momentânea.
— Respondido? — Ele questionou, afastando-se, como se nada tivesse acontecido.
— O que foi isso? — Aomine murmurou, levemente boquiaberto e horrorizado, limpando os lábios com a manga da jaqueta. —Sai daqui, azar!
— Idiota, só respondi sua pergunta. — Ele deu de ombros, também limpando a boca. — Depende de pessoa para pessoa, mas acho que não se escapa de um beijo, mesmo quando não se quer. É quase como perguntar se você consegue evitar um assalto... A resposta é obvia.
— Só não precisava ter demonstrado! — O moreno irritou-se, pegando o copo da mão dele com certa violência para dar um gole na bebida esverdeada.
— Você sabe que adoro fazer um drama! — Kise riu de sua reação, com a voz ainda embargada. — Mas enfim... Você também está mal. Quer falar logo duma vez sobre isso ou vai esperar eu te bater?
Aomine suspirou novamente, abaixando o copo e fixando o seu olhar em um poste de outro lado da rua. Não sabia se queria se abrir ou não, ainda mais agora que estava completamente vulnerável, sem um único escudo para defendê-lo das revelações que escapavam da Caixa de Pandora escondida em seu interior. Tudo estava um caos, principalmente após aquele último momento inesperado e assustador... Mas era assustador porque o fez olhar a situação de outro ângulo, o de Taiga.
Daiki cometera um grande pecado, mas não queria admitir para mais ninguém além de si mesmo. A verdade era absoluta, porém era mais fácil jogar a culpa nas costas de Kagami, no beijo que ele recebeu, em Himuro, em Momoi, em Kise, na bebida, no mundo... Nunca em si mesmo, em sua egocentrismo, em sua razão. Agora era tarde, tudo chegara ao fim. Estava sozinho, com saudade, assustado... Perdido.
— Ah cara, eu falei sem pensar. — Aomine disse em voz baixa, mordendo os lábios em um sinal de nervosismo. Sua boca movia-se sozinha, mesmo quando não queria confessar verbalmente seus erros. — Eu magoei ele e fodi com tudo...
— Ele quem? — Kise perguntou, apressado e interessado. Evidentemente bêbado.
— O Taiga... — Daiki murmurou, apreciando a forma como aquele nome saía por seus lábios. Percebeu uma movimentação exagerada e surpresa de Ryouta, porém ele não se pronunciou verbalmente. Continuou: — A gente saiu por dois meses e pouquinho. Tinha tudo para se tornar sério, iria até pedí-lo namoro... Mas acho que ele foi lerdo demais para perceber e eu fui muito covarde para assumir que estava apaixonado. Em momento algum consegui falar o que eu sentia. — Aomine admitiu seu primeiro pecado, mais para si mesmo do que para Kise. — Isso sem falar que não fui nada sensível no tempo em que estávamos saindo... Disse que ele sujou minha cama, mas que eu estava acostumado com isso... Falei também que eu não sentia ciúmes e que era desnecessário ele achar que isso existia entre a gente. Só que não fui capaz de esclarescer as coisas quando tudo virou uma bola de neve. Aí ele foi para Los Angeles passar o Natal com os pais... — Seu segundo pecado acabara de ser confessado. — E quando ele voltou me contando aquelas coisas eu... Meu caralho... Quando ele voltou eu fiz a pior merda da minha vida. Ele estava com remorso, mas eu não o escutei e fodi com tudo.
Pela primeira vez a vontade de chorar estava vindo com força total, quase não queria mais segurar as lágrimas presas... Todavia não seria fraco, não agora que já estava tudo na merda, não quando tinha um papo de bêbado com um ex-quase-namorado. Seu olhos umedeciam cada vez mais, porém não permitiria que nada caísse deles. Era tarde demais para isso.
— Aomine-cchi...
— Vou para casa! — O moreno disse repentinamente, fungando e devolvendo o copo vazio para Ryouta. Com um mínimo e cuidadoso impulso para frente, Aomine conseguiu parar em pé na calçada. O muro nem era tão alto assim, apenas o álcool dava essa sensação. — Valeu por me ouvir e por me fazer enxergar direito as coisas. — Disse, sem virar-se para olhá-lo, já seguindo em frente. — Se cuide quando voltar para casa, e se comporte ai com seus amigos.
— Aomine-cchi! Vou com você. — Ryouta também saltou do muro, e após cambalear um pouco, acompanhou seu caminho. — Você não terminou.
— Não quero mais falar sobre isso. — Disse, limpando o nariz gelado com a manga da jaqueta. — Já foi o bastante para eu ver que fiz merda. Está de bom tamanho por hoje, ainda mais depois da festa do Kuroko.
— Continue a me contar. Faz bem se abrir... — Kise franziu as sobrancelhas, minimamente cambaleante.
— Faz bem ou você só é um curioso de merda? — O moreno perguntou da forma mais sarcástica que seu estado mental permitia.
— Ambos? — Ryouta simplificou, dando de ombros. — E outra, amanhã não vou lembrar de metade das coisas que você for me falar.
— Idiota. — Sorriu de forma forçada, revirando os olhos. — Não tem muito mais o que dizer a respeito. Eu o perdi para mim mesmo antes de perdê-lo para aquele bostinha. — O moreno franziu a testa, inconformado com sua própria estupidez. — Só isso. Falei um monte de merda para ele, praticamente o humilhei...
— Por quê? Como assim?
Chato... Pensou, mas decidiu continuar a falar. Já que estava ali, iria até o final.
— Taiga voltou de Los Angeles falando que Himuro o beijou de surpresa, como essa bosta que você acabou de fazer comigo. — Aomine franziu a testa, com desgosto. — Fiquei puto, com ciúme e não pensei direito na situação. Perdi a cabeça com ele.
— Mas vocês não estavam namorando, né? — Kise perguntou, confuso, fazendo uma careta. — Você teoricamente não tinha o que cobrar... Ainda mais se não falou nada sobre o que você sent-
— Eu sei, caralho. Mas na hora nem pensei nisso! — Aomine o interrompeu com uma explosão, percebendo a semelhança daquelas palavras com o discurso chato de Momoi. — Comecei a inventar coisas estúpidas, dizer que ele era um passatempo para mim, que não teríamos nada sério, que eu não me importava com nada e que era para ele ficar de boa com o Franjinha. — O moreno fez uma pausa, cerrando os próprios dentes para conter a raiva que sentia de si mesmo. — Menti. Menti e acabei me fodendo, porque ele me odeia e agora está realmente com aquele bosta lá... Eu perdi a pessoa que mais gostei na vida, Kise! E por burrice!
— Ai, Aomine-cchi! — O rapaz o olhou um pouco preocupado. — Mas você já conversou com o Kagami-cchi depois disso?
— Lógico que não. — Daiki irritou-se com a ingenuidade do louro, apertando o maxilar. — Como vou falar com ele agora? Chegar todo feliz e dizer: "Oi Taiga, eu menti para você e agora estou arrependido, vamos voltar?". Olha pra minha cara, Kise... Você me conhece, sabe do meu jeito. Jamais vou fazer isso!
— Por que não? — Kise questionou com a testa franzida, assim que viraram a primeira esquina em direção à estação de metrô. Ainda estavam bem zonzos, mas o caminho era fácil de recordar.
— Porque Taiga parece estar muito bem sem mim. — Disse, ríspido. — Ele que continue com a vida dele lá e eu continuo aqui. Não faz o meu estilo ficar chorando pelos cantos, me lamentando ou coisas do tipo... Já foi.
— Sei muito bem que você é um orgulhoso, mas se você gostasse mesmo dele falaria a verdade. — Kise comentou, abraçando o corpo para se esquentar. — Não precisam voltar... Mas só esclarescer.
— Já decidi que não vou ficar me estressando com isso. — Daiki suspirou, sentindo o estômago embulhar um pouco mais. — Estou cansado de pensar sempre a mesma coisa.
— Então morra de remorso, seu teimoso! — O louro foi seco na resposta, atraindo seu olhar curioso. — Você acha que ele não gosta mais de você só porque está magoado? Que ele vai apagá-lo da memória do dia para a noite, como se fosse mágica? Burro. Ele foi atrás de outro para te esquecer, óbvio. Acho que você não deveria desistir!
— Estou cansado, Kise! Fodi com tudo e sei que não vai adiantar de nada. — Aomine admitiu, franzindo as sobrancelhas. — Nunca passei por isso antes, e agora estou me arrepiando até os ossos com a dimensão que esse relacionamento tomou. Estou perdido.
— Fala tudo isso para ele, idiota. — Kise insistiu, dando um tapinha em suas costas, fazendo Daiki se sentir mais ridículo ainda. — Eu nunca desisti do Kuroko-cchi, mesmo após receber três 'nãos' em letras garrafais.
— Somos diferentes, você sabe muito bem. — Aomine desviou-se do contato, descendo as escadas para a estação de metrô. — Preciso de um tempo para mim agora.
— Um dia você vai aprender que sozinho não chegará a lugar nenhum. — O rapaz afirmou, novamente com uma expressão ridiculamente sábia, acompanhando-o até o subterrâneo.
— Talvez. — Aomine suspirou, finalizando o assunto com um movimento de ombros.
O moreno não sabia se deveria ou não desistir do ruivo, mas com certeza precisava de um tempo para pensar nas coisas que aconteceram — ou melhor, deixar de pensar nelas por um tempo. Sentia-se exausto, gravemente ferido em combate.
Como sempre foi uma pessoa individualista, gastou toda a sua estamina se dedicando à paixão louca que sentia por Taiga, mas fez tudo da forma errada. Aprendera a lição, se queimou após tocar no fogo. Não cometeria o mesmo erro, porém agora precisava recarregar, como se fosse uma bateria... Ficaria sozinho para pensar e amadurecer, principalmente.
Talvez um dia voltaria a procurar Kagami para terem essa maldita conversa, mas enquanto isso deixaria ele livre para procurar seu próprio caminho, sua própria felicidade e superação. Faria o mesmo e colocaria tudo nas mãos do destino, já que as suas estavam atadas. Se fosse para ser, então seria... Não precisaria interferir em nada, apenas continuar.
Daiki não esperava que fosse fácil abrir mão de algo tão importante — tão importante que chegara a amar —, pelo menos não agora que sabia de quem era a maior parte da culpa. Teria sua penitência, ou melhor, já estava recebendo-a.
Acabou. Perdeu o possível amor de sua vida para si mesmo. Só esperava que Tatsuya cuidasse bem dele... Pelo menos enquanto estivesse longe, tentando esquecer e superar.
Mas será conseguiria manter-se longe? Perguntou-se, econtrando uma incógnita como resposta.
Talvez...
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