Notas iniciais
OI GENTEEEEEEEEEEEE /o/ Pois então... Mudança de planos! Vou dividir o último capítulo de Linha Tênue em duas partes e que se foda tudo o que eu disse antes! Não estou preparada psicologicamente para terminar isso aqui, então melhor dois de 8.000 palavras do que um com 16.000... Tenho dito! HUASHUASASHUASHUASH! Acho que vou postar o vídeo também, embora ele tenha sido feito para o último capítulo... Mas não faz mal, vou colocar da descrição do último só, mas vai estar no meu canal hoje ou amanhã... Enfim, é a despedida e tals, mas foda-se também, hauashuashushuas. Sem mais delongas, boa leitura meus anjos!

Um ano e pouquinho depois...

Sábado — 19h58min

~Aomine Daiki~

— Que orgulho do meu bebê! — Aomine Yumiko disse com um tom infantil e embaraçador, correndo de um jeito inacreditavelmente gracioso em cima de seus saltos escuros e enormes para abraçar o filho. — Finalmente se formou no ensino médio. — Ela o apertou, apoiando a cabeça em seu peito. — Juro que achei que ia reprovar esse ano, Daiki. Estou tão feliz e aliviada.

— Hm, obrigado pelo voto confiança. — O moreno riu da reação da mãe, retribuindo o gesto no meio daquela multidão que encontrava-se no ginásio da Academia Touou. — Agradeça a Satsuki também. As melhores colas vieram dela. — O moreno murmurou de forma cômica, afastando-se para olhá-la de frente.

A mulher estava linda naquele vestido branco. Ela sempre se produzia diariamente para o trabalho, com maquiagem e coques impecáveis, mas naquela ocasião era diferente... Ela estava simplesmente maravilhosa, nem parecia a mãe de Daiki, e sim uma irmã mais velha.

— Já agradeci e inclusive fui abraçar a família toda. — Yumiko afirmou com graça, ajeitando a gravata azul que o filho usava por baixo daquele terno desconfortável e quente. — Ai Daiki, não canso de dizer que você está lindo vestido assim, todo formalzinho!

— Me sinto ridículo. Muito ridículo. — O moreno fez uma careta, passando a mão pela milésima vez no cabelo duro de gel, como se pudesse desfazer aquela droga de penteado com um passe de mágica. — Isso tudo é desnecessário. Sério. É só uma formatura.

— Bobo, não é só uma formatura, é a sua formatura. E você está lindo, seu namorado também vai achar, aposto. Mas chega de enrolar, corre lá para se despedir dos seus amigos porque parece que já estamos atrasados para o jantar. A senhora 'Kagami Taiga' já está esperando. — A mulher soltou uma risadinha com a piada que acabara de fazer. — Como é o nome dela mesmo?

— Cho... Eu acho. — O moreno respondeu com uma evidente incerteza, buscando lembrar o nome da sogra. — É. Kagami Cho. — Confirmou, olhando ao redor.

Além do atraso, Daiki também tentou ignorar o fato de que estava nervoso pra caralho com aquele maldito encontro. Sinceramente, estava apreensivo desde o dia em que o ruivo anunciara que sua mãe viria para a celebração da formatura e que depois jantariam juntos, já que ela queria muito conhecer pessoalmente o namorado de seu filho — nem que fosse um ano e meio depois de terem ficado juntos, como no caso.

Mandar um 'oizinho' por Skype para a sogra era uma coisa, mas um diálogo cara a cara (durante a refeição em um restaurante foda) seria uma verdadeira prova de fogo. Kagami falara bastante sobre ela e explicara que bastava ser educado, simpático e sorrir com frequência para que tudo desse certo, já que ela tinha a cabeça cheia demais para se preocupar com outros detalhes. Além do mais, no dia seguinte Kagami Cho voltaria para Los Angeles — levando Taiga junto consigo para passarem as férias por lá... Para a infelicidade de Aomine.

— Cho. Ok. É fácil. — A mãe balbuciou para si mesma, como se buscasse memorizar o nome. — Cho.

— Vou lá dar tchau então. — Daiki murmurou, vendo os amigos (não tão próximos assim) despedirem-se uns dos outros. — Já venho.

— Ok! Mas vai bem rapidinho, vou te esperar na porta.

— Uhum...

Conforme se aproximava do pessoal, um peso começou a afundar violentamente seu estômago, e nada tinha a ver com o jantar da sogra. Era a realidade.

Tudo iria mudar a partir de agora... Sem escola, sem provas, sem aulas, sem basquete, sem cochilos no meio da tarde e teoricamente sem a liberdade com a qual estava acostumado. Tudo era uma verdadeira incógnita, e aquele clima pairava no ginásio inteiro, apesar da alegria da formatura e a tristeza das despedidas encobrirem tudo. Era o adeus à juventude e as 'boas vindas' à vida adulta e cheia de responsabilidades.

— Dai-chan! — A voz de Satsuki sobressaiu-se naquele burburinho. Aomine mal teve tempo de olhar, apenas sentiu alguém o abraçando pelas costas com um baque que o fez cambalear. — A gente se formou, Dai-chan! Acabou!

— É, é. — Disse, coçando a orelha com o dedo mindinho enquanto ela ainda esmagava seu estômago com os braços finos.

— Ai, estou tão feliz. — Ela disse, chorosa, soltando-o finalmente. — É emocionante, não acha?

— Hm... Sei lá. Acho que é mais assustador do que emocionante. E um saco também. — Daiki foi sincero, virando-se para fitar a amiga. Ela também estava muito bonita, usava um vestido roxo escuro e uma maquiagem forte que a deixava diferente, mais adulta, sem aquela expressão infantil do dia-a-dia.

— É. Também acho. — Momoi concordou por fim, ajeitando uma mecha solta de seu penteado elegante. — Você não vai para a faculdade mesmo, não é?

— Nah... — Daiki olhou para a mãe, que conversava animadamente com os pais de Satsuki, mas o olhava constantemente para apressá-lo. — Vou entrar para a Academia de Polícia, mas os testes finais só começam no final do mês que vem. Já me inscrevi e tal, e agora estou fazendo um treinamento com o Taiga em alguns finais de semana... Estou me esforçando. Agora vamos ver.

— Ah, é lógico que você vai passar. — Momoi sorriu com simpatia, dando-lhe um tapinha no braço.

— Vou sim, e você também vai se dar bem. Sei que está nervosa com a universidade, mas Arquitetura vai ser fichinha para você. — O moreno afirmou, acenando distraidamente para um grupo de amigos que já saíam do ginásio.

— Nem fale sobre isso. Não hoje. Não quero borrar mais a maquiagem. — Ela fez um gesto de apreensão com as mãos. — Já estou chorando como uma boba por causa das despedidas aqui, nem quero lembrar que vou me mudar para longe de todos vocês.

— Retardada. É só pegar o metrô e voltar para nos visitar quando quiser. — Riu discretamente, revirando os olhos. Sua mãe o apressava com um gesto de mãos, na porta. — Hm... Viu... Vou jantar com a mãe do Taiga hoje, então preciso ir. Acho que já estou atrasado. — Conferiu no celular. — É. Estou. — Sorriu de canto, vendo que o ruivo ligara duas vezes, mas como o aparelho estava programado no silencioso, Aomine não atendeu.

— Ah, claro. A formatura da Seirin também é hoje. — Momoi sorriu de forma trêmula, repentinamente abraçando Daiki, causando um impacto que o fez cambalear novamente. — A gente vai se falar sempre, não vai?

— Claro que sim. — Retribuiu o abraço de um jeito embaraçado, percebendo que ela estava chorando. — Sabe que vou te infernizar pra sempre, não sabe? — Disse, dando tapinhas desengonçados nas costas dela, como que para consolá-la.

— Sei sim. — Momoi riu contra seu terno preto, apertando o abraço brevemente antes de soltá-lo. — Bem... Boa janta para vocês e boa sorte com sua sogra. Manda um beijo para o Kagamin. E me liga nas férias. Não só nas férias. Me ligue sempre. É sério. — Ela começou a tagarelar, fazendo gestos com as mãos. — Estou querendo organizar um piquenique com todo mundo na primeira oportunidade que surgir, então é bom você me atender.

— Pode deixar. E você sabe que vou estar por aqui, então é só chegar lá em casa quando quiser... — Comentou vagamente, olhando-a com calma. E então a realidade bateu com mais força ainda. Aquilo era uma despedida, já que dali para frente as coisas seriam completamente diferentes. Por mais próximos que tivessem sido no ensino fundamental e médio, agora estavam indo por caminhos completamente opostos. Era complicado assimilar isso. — Hm... Boa sorte Satsuki. Vai dar tudo certo para você. — Disse, disfarçando o peso esquisito e dolorido que se instalou em seu peito.

— Obrigada. Para você também, Dai-chan! — Ela sorriu, com os olhos rosados ainda um pouco marejados.

Silêncio. Os dois continuaram se encarando. O moreno odiava aquelas situações, principalmente quando não sabia muito bem o que fazer. Mas ela era sua melhor amiga, sabe-se lá quando a veria novamente... Precisava falar alguma coisa. Sabia que precisava.

— Ei, Satsuki... — Murmurou com certa pressa, coçando a nuca com um desconforto estampado na face. Era o pior com as palavras, mesmo que estivesse sentindo os significados delas circulando por seu corpo. — Obrigado por tudo. Tipo, por tudo mesmo, desde sempre... Com a escola, com o Taiga, com o basquete. Com tudo. Você é... Muito importante... É a minha melhor amiga, e acho que sempre me fez enxergar as coisas direito. Vou sentir sua falta, de verdade.

— Ah, vou sentir sua falta também Dai-chan. — Ela desabou novamente, abraçando-o com força. — Você também é meu melhor amigo. Eu amo você!

— Eu... Também.

Dessa vez Aomine retribuiu o gesto à altura, apertando-a contra si, quase a erguendo do chão, já que a amiga era baixinha. Só não chorou porque seu orgulho o segurou na hora H. Além do mais não era uma despedida para sempre... Era apenas por um tempo. Seus caminhos ainda iriam se cruzar muitas vezes dali para frente, tinha certeza disso.

Suas vidas estavam apenas no início. Agora sim era o início de tudo.

***

~Kagami Taiga~

O ruivo olhava pela janela do restaurante com a esperança de ver o carro da senhora Yumiko estacionar ali o quanto antes, para que finalmente pudesse respirar direito. O garçom já viera duas vezes até a mesa onde sentava-se com sua mãe para perguntar se já gostariam de fazer o pedido, e isso apenas deixava o estômago do ruivo mais embrulhado ainda. Sabia que Kagami Cho não era muito fã de esperas, e que apreciava a pontualidade e organização.

Infelizmente, pontualidade e organização não eram nem de perto os fortes dos Aomine.

Apreensivo, Kagami soltava o nó da gravata bordô aos poucos, sentindo-se completamente desconfortável com aquele terno preto que provocava duzentos tipos de coceira em seu corpo, principalmente quando suava frio. Não era para menos. Hoje sua mãe — rigorosa, ocupadíssima e estressada — finalmente conheceria pessoalmente seu namorado — orgulhoso, impulsivo, que falava palavrão o tempo todo.

E se ela não gostasse dele? E se não apreciasse o jeito espontâneo da senhora Yumiko? E se tudo desse errado? Cho amara de paixão o jeito suave e sutil de Kuroko quando os dois foram apresentados na formatura, então com certeza se assustaria com o modo de agir de Daiki. Essa que era a verdade.

— Taiga, querido, eles já estão vindo? — A mulher perguntou com um tom curioso e leve de voz, ajeitando o óculos que escorregavam pela ponta de seu nariz fino.

Cho não parecia irritada, mas o ruivo tinha certeza de que ela não sentia-se confortável com aquela espera. Kagami quase conseguia pressentir que a mãe estava pensando diversas coisas não muito boas a respeito de Daiki e da senhora Yumiko, apenas por causa daquela falta de pontualidade desgraçada.

— Então... Ele me mandou uma mensagem agora a pouco. A cerimônia lá na Touou atrasou, por isso ele não me atendeu antes. — O ruivo respondeu, encarando o rosto da mãe. Ela estava muito bonita com aquela maquiagem e aquele penteado, mesmo com as linhas de expressão sobressaindo-se em seu rosto. A idade a atingia lentamente. — Mas eles já estão vindo. — Acrescentou com pressa, torcendo mentalmente para que aquilo fosse verdade.

— Tudo bem. — Ela sorriu, estendendo a mão para ajeitar as mechas ruivas e rebeldes que insistiam em cair na testa de Kagami, mesmo que houvesse passado quase o pote inteiro de gel fixador para que o cabelo ficasse para trás. — Filho, precisamos conversar. — Cho assumiu um tom um pouco mais sério repentinamente, levando o ruivo a endireitar-se na cadeira. Com certeza agora seria a sessão de insistências sobre qual profissão seguir. Kagami achava aquilo uma chatice inútil, pois já havia tomado sua decisão, mas mesmo assim ouvia até o fim antes de se pronunciar a respeito. Ela continuou: — Eu e seu pai estamos muito orgulhosos pela sua formatura. Nós sempre procuramos o melhor estudo e as melhores oportunidades para você, e por isso ficamos realmente satisfeitos com o seu crescimento nos últimos anos, tanto nas notas quanto na questão de responsabilidade. Você amadureceu muito, muito mesmo filho.

— Obrigado. — O ruivo sorriu sem jeito, vendo a mãe encostar brevemente em uma de suas mãos, com carinho, aliviando o clima tenso que estava esperando.

— E por isso achamos que chegou a hora de entregarmos o nosso presente. A intenção era fazer isso quando você atingisse sua maioridade, mas não queremos esperar até lá, então será adiantado, de formatura mesmo. — Ela sorriu de canto, retirando da bolsa um envelope preto e lacrado. — É a chave do seu apartamento e o número de uma conta no banco que criamos e alimentamos desde o seu nascimento. — Cho explicou, colocando o objeto em suas mãos, com cuidado. — Não é muito, mas é o suficiente para você começar sua vida aqui no Japão sem depender de nós dois, pelo menos até conseguir arranjar um emprego fixo nos Bombeiros. Sei que é isso que quer amor, e por isso não posso mais tentar ir contra a sua decisão, e seu pai concorda.

— Jura? Mãe... Obrigado. Sério. — Balbuciou, incrédulo e realmente aliviado. — Eu nem sei o que dizer. Obrigado!

Sorrindo um pouco sem graça, o ruivo observou o envelope com atenção, mas não o abriu. Era possível sentir a o relevo da chave , uma cópia da que estava em seu bolso, e um papel grosso, timbrado provavelmente. Eles o estavam dando sua liberdade, mesmo depois de tanta insistência para que voltasse para Los Angeles e assumisse uma vaga na empresa de Comércio Exterior que seu pai liderava. A persistência dos pais chegara a ser brutal no início do terceiro ano, mas o ruivo conseguiu contornar isso (depois de muito estresse) para seguir seu próprio caminho, andando por suas próprias pernas.

Taiga começara com um voluntariado de final de semana nos Bombeiros, participava constantemente de treinamentos físicos — com Daiki, que queria entrar para a Polícia — e começou a se dedicar um pouco mais aos estudos para que pudesse passar nas provas teóricas do Batalhão. Devido ao seu novo objetivo, infelizmente o basquete tornou-se apenas um hobby, mas as amizades permaneciam intactas e o mano a mano no Maji Burguer era um ato sagrado, pelo menos quatro vezes por semana.

Tudo mudou, com certeza, mas não para pior. Era um novo início na sua vida, sua vida adulta, e seus pais finalmente entenderam isso.

— Não é como se eu não quisesse voltar para Los Angeles, sabe? Mas não levo jeito com a empresa... E... Gosto tanto daqui... Tenho meu amigos, meus planos. Já participo do voluntariado dos Bombeiros... E eu tenho o Daiki comigo. — Justificou-se em meio à gaguejos, agora olhando para a mãe, realmente agradecido. — Meio que já comecei minha vida, do meu jeito. Entende? Não quero deixar isso para trás e fazer algo que não gosto. Não vou ser feliz longe de... Tudo.

— Nós sabemos. Agora entendemos, querido. — Ela afirmou com compreensão, passando os dedos em seu rosto. — Sei que fui muito rigorosa com você a respeito, sempre tentando levar você para o lado dos negócios, obrigando você à tirar boas notas e fazer a faculdade de Comércio Exterior... Mas esse não é você. Não é, Taiga?

— Não. — O ruivo sorriu sem jeito.

— Eu e seu pai conversamos em casa e decidimos que apoiaremos você em qualquer decisão. Quero que saiba disso. — Ela deu-lhe um beijo estalado no rosto. — Guarde bem esse dinheiro e use com sabedoria. Promete?

— Prometo. — O ruivo sorriu, sentindo-a limpar o resquício de batom que deixara em sua pele. — Obrigado mãe. Não sei como agradecer.

— Apenas seja feliz e aja sempre com responsabilidade. — Cho simplificou, sorrindo, ainda ocupada com o guardanapo e a bochecha de Taiga. — Sei que fomos pais muitos ausentes desde quando você era pequeno, por causa do trabalho, mas pode ter certeza que sempre estaremos lá em Los Angeles te esperando, caso mude de ideia. — Ela disse, ajeitando mais uma vez os cabelos do ruivo, assim que terminou de limpar seu rosto. — Bem, chega de conversa séria, hoje é um dia de comemoração e amanhã é dia de viagem. E eu acho que... Seu namorado chegou. São eles?

O ruivo virou o rosto em direção à porta do restaurante com tanta violência que seu pescoço chegou a estalar, dando-lhe uma dor incômoda que com certeza ficaria ali por longas horas... Mas isso foi algo esquecido em segundos.O sorriso que brotou em seu rosto foi inevitável, principalmente quando era retribuído por Daiki com tanta facilidade. O moreno vestia um terno muito parecido com o seu, estava lindo, e também tinha o cabelo lambido e brilhante do gel... Mas para ele ficava legal, muito legal, o que era injusto. Precisava ver de perto.

— Vou buscá-los. — Comentou com a mãe, que acenou positivamente, olhando com certo receio para uma Aomine Yumiko que acenava de um jeito exagerado, como se ela e o filho ainda não tivessem sido vistos. — E não fala nada sobre a surpresa, ok? O Daiki não suspeitou de nada ainda.

— Você me pediu isso mil vezes desde ontem, quando cheguei. — Cho sorriu, balançando a cabeça. — Pode ir lá, vai dar tudo certo.

— É, vai sim. Obrigado por tudo, mãe. — O ruivo ampliou o sorriso, sentindo o estômago revirar-se um pouco mais, tanto pela ansiedade da janta quanto pela surpresa que vinha bolando em segredo com Aomine Yumiko. A hora chegava, e com certeza tudo seria muito bom... As melhores férias de sua vida, no mínimo.

Uma porta de entrada digna para sua vida adulta.

***

23h12

— Cara, achei que esse dia não iria acabar nunca. Tô mortão. — O moreno murmurou em meio à um bocejo alto, desabotoando a camisa social preta e então jogando-se com tudo na cama de Taiga, como se fosse a sua própria.

Na verdade o moreno dormia ali com tanta frequência que até parecia. Tinha até várias mudas de roupas, toalhas de banho e uma escova de dentes separadas na casa... Até lugar no sofá e na bancada ele proclamou como propriedade de Aomine Daiki.

— Meu, fica quieto seu bocudo! — Kagami disse baixinho em forma de repreensão enquanto desligava a luz, tirando a própria camisa para deitar-se com o moreno. — A minha mãe está dormindo no quarto do lado e a gente vai precisar acordar cedo pra caralho amanhã.

— Putz, foi mal. Esqueci.— O moreno soltou uma risada culpada assim que o ruivo se aproximou e deitou-se ao seu lado. — Você ainda está com cheiro de gel. — Daiki notou, aspirando o aroma dos cabelos recém lavados de Kagami.

— Você também. — O ruivo afirmou, sentindo aquele cheiro sintético pairando perto de seu nariz. — O shampoo não funcionou.

— Não. Essa bosta nunca vai sair. — Daiki murmurou, passando a mão distraidamente nos cabelos de Taiga assim que ele aninhou-se em seu corpo, apoiando a cabeça entre seu ombro e sua bochecha.

— Não. — Kagami concordou, bocejando.

— Ei... Será que sua mãe foi com minha cara? — Aomine sussurrou um pouco preocupado após alguns segundos de silêncio. — Ela parecia meio quietona na janta, então... Eu acho que não. Né?

— Ah, se você está dormindo aqui agora e vai até o aeroporto comigo amanhã então pode ter certeza que ela foi. Você se saiu bem. — O ruivo respondeu, olhando para a porta aberta, esperando algum movimento do lado de fora. Com aqueles sussurros sua mãe não acordaria, então não teria problema nenhum conversarem um pouco mais. — Ela tem um jeitão meio fechado, mas gostou de você sim. Conheço ela.

— Hm, sei lá. Tomara que sim. — O moreno resmungou com a voz arrastada. — Mas se ela tivesse realmente gostado de mim então não iria te levar pra Los Angeles amanhã. Ainda mais sabendo que a porra do avião sai as cinco da manhã e que eu não vou junto.

— Mas são só por uns oito ou dez dias. — Kagami disse, envolvendo as coxas de Daiki com a perna. — Passa rapidinho.

— Rapidinho é o seu cu! São dez fucking dias. — Ele sibilou com a voz um pouco mais alta. — Não passa rápido não, e você sabe disso.

— Shhhhh... — O ruivo limitou-se a rir, fingindo empurrá-lo para fora da cama.

Foi o suficiente para começarem uma lutinha silenciosa pelo espaço do colchão. Quando a cama rangeu violentamente contra o assoalho, os dois pararam bruscamente, buscando dar risadas completamente inaudíveis, já que um movimento no quarto ao lado fez com que ambos tivessem mini ataques cardíacos.

— Cala a boca! — Taiga sibilou com graça, tapando os lábios de Daiki, que não parava de rir da situação.

Ambos foram se acalmando aos poucos, soltando risadas pausadas, e então apenas o som de suas respirações tornou-se audível no quarto. Já era tarde, tinham que dormir para acordar super cedo, mas o sono não vinha de jeito nenhum, não depois daquele dia agitado

— Vou sentir sua falta, idiota. — O moreno murmurou baixinho, dando-lhe um tapa silencioso na coxa, por debaixo das cobertas.

— Também vou. — Taiga afirmou, aproximando-se de Aomine na cama, passando novamente uma das pernas por cima das dele.

— Acho que odeio despedidas. É. Eu decididamente odeio. — Ele disse em tom baixo, pensativo. — Hoje tive que dar um tchau para a Satsuki e foi foda pra caralho. Ela vai estudar longe.

— Sim, você comentou alguma coisa. Arquitetura, né?— O ruivo sussurrou, olhando para a silhueta dele no escuro, vendo ele acenar positivamente. — Foi foda dar tchau pro pessoal da Seirin também. Mas para você deve ser pior, já que vocês cresceram juntos.

— É. Foi meio estranho e ruim. Mas são só alguns meses. — Ele deu de ombros, virando-se para o lado de Kagami. — Não é como se nunca mais fôssemos ver essas pessoas...

— Sim sim. E no nosso caso são só dez dias, o que vai ser mais fácil ainda. — O ruivo provocou-o, sorrindo.

— Hm... Então isso significa que tenho que me despedir apropriadamente de você, certo? — Ele sorriu de canto. Taiga sabia onde ele queria chegar quando usava aquele tom de voz arrastado e lento.

— Sim, tem. — Murmurou em meio a um suspiro, sentindo a mão dele subir suavemente pela sua coxa. — Mas minha mãe está dormindo aqui no quarto ao lado. — Lembrou-se, franzindo a testa de forma alarmada.

— É só a gente fazer bem devagarzinho. — Daiki sussurrou contra seus lábios de forma provocante, dando-lhe um selinho silencioso e demorado. Totalmente excitante.

— Hm... Não sei... — O ruivo sibilou entre os beijos úmidos que o moreno distribuía em seus lábios, já sentindo aquele formigamento conhecido e gostoso em seu baixo ventre. — Ela pode ouvir... — Gemeu baixinho, sentindo-o passar os dedos de leve por cima do seu membro quase duro.

— Você quer, sei que quer, Taiga. Fica de costas pra mim... Vai. — Ele pediu em um murmúrio, agora subindo a mão firme por suas costas, esfregando-se sutilmente em seu corpo. — Prometo que faço com bastante calma, bem gostoso, bem quietinho.

Sem ter como recusar aquilo, Taiga suspirou de satisfação e obedeceu com um sorriso sacana e entregue, virando-se na cama para que ficassem de conchinha. Não estava enganando ninguém, estava louco pelo sexo... Sempre estava, principalmente quando Daiki praticamente implorava daquela maneira, com o membro duro encostando em seu corpo de um jeito insinuante.

Kagami tinha plena certeza de que se tornara um pervertido sem limites depois de ter conhecido Aomine, mas isso nunca foi um problema. Chegou perto de ser um problema no início do terceiro ano, quando quase foram pegos transando no vestiário da Touou após o último amistoso entre as escolas. Se esconderam na hora certa. No entanto, mesmo se desse merda, não seria tão merda assim... Era só Momoi entrando no local em busca de uma toalha para secar o chão, e ela nem os viu atrás do armário metálico dos fundos.

— Pega o lubrificante pra mim. — Daiki pediu com jeitinho contra sua orelha, dando-lhe um beijo úmido na nuca enquanto o ruivo estendia o braço trêmulo até a gaveta do criado mudo.

No movimento de volta, Taiga esbarrou o tubo de lubrificante em seu celular, que espatifou-se no chão e quebrou o silêncio, produzindo um barulho equivalente ao de uma bomba naquela quietude. Uma simples questão de segundos fez com que os dois gelassem e ficassem imóveis por mais de um minuto. Até na hora de respirar os dois estavam evitando emitir ruídos, mas nenhum sinal de movimento veio do quarto ao lado. Por algum milagre, Kagami Cho não acordara.

— Shhhh... — Daiki ironizou com um sorriso besta, beijando mais uma vez sua nuca para que restaurassem o clima quase arruinado. Foi uma combustão instantânea, como uma faísca sendo atirada em uma poça de gasolina.

— Pega. — Taiga deu-lhe o lubrificante com um meio sorriso, porém ainda um pouco nervoso com o acontecido.

Na verdade o ruivo adorava a adrenalina do proibido, e isso era mais uma consequência da convivência com o moreno. Aprendera que aquilo apenas aumentava o tesão, e aumentava muito.

— Mas antes eu vou tentar uma coisa. — Aomine sussurrou contra seu ouvido, mordiscando a nuca e as costas de Taiga conforme descia pelo colchão, levando a coberta junto consigo, para descobrir os dois.

— O que... Daiki? — O ruivo sibilou em um tom bastante baixo, pressentindo o que ele iria fazer. Sentiu-se eufórico e ao mesmo tempo receoso assim que ele abaixou sua cueca, no entanto não teve tempo para protestar. — Ah... — Segurou o gemido na hora certa, tapando a boca com uma das mãos assim que sentiu a língua de Daiki roçar de leve em sua entrada, uma única vez.

— É bom? — Ele perguntou com um sussurro curioso, afastando as nádegas de Kagami para repetir o gesto, ainda de leve. — É gostoso Taiga?

— Muito. — Foi obrigado a responder rápido para não gemer ou arfar.

A sensação era realmente indescritível, nova, diferente. Taiga foi obrigado a cerrar os dentes para que não soltasse algum ruído desnecessário... Mas era tão difícil segurar-se quando sentia a língua do moreno o invadir bem devagar, úmida e quente, o explorando aos poucos, com cautela e curiosidade. Era um gesto tão erótico e inesperado que o ruivo quase sentia aquela fisgada do orgasmo se aproximar, inclusive uma tremedeira leve em suas pernas fazia-se presente conforme Aomine acelerava os movimentos. Se não se segurasse, poderia gozar facilmente com aquilo.

Kagami começou a contorcer-se levemente na cama na intenção de se conter um pouco mais, inclusive apertava seu membro latejante para frear o orgasmo. Não queria gozar assim, no entanto estava tão molhado, apenas sentindo o moreno lamber sua entrada, penetrá-la com a língua, apertar sua pele com força. Era quase tortura. Sinceramente, a melhor tortura que poderia existir na face da Terra.

Ao mesmo tempo em que estava chegando ao céu com aquilo, o ruivo queria que acabasse logo e partissem para o sexo.

— Meu Deus, Daiki, me fode... — Kagami quase implorou em voz baixa quando estava chegando ao seu limite, sentindo o membro gotejar contra seus dedos.

— Adoro quando você fica assim. Vou fazer isso mais vezes. — Ele sorriu de um jeito safado, voltando novamente para cima, trazendo o ruivo para mais perto do seu corpo com os braços quentes. — É bom?

— Muito. Sente aqui. — O ruivo sibilou, guiando a mão de Daiki até seu membro, para ele mesmo ver como ficara molhado.

— Caralho, Taiga... — Ele sussurrou contra sua orelha em meio a um gemido baixo, um pouco surpreso e bastante excitado, masturbando o ruivo lentamente. — Pra quê lubrificante?

Sem dizer mais nada, Aomine passou a mão por toda a extensão do membro de Taiga e removeu o pré-gozo, inserindo em seguida dois dedos com cautela em sua entrada já úmida. Novamente o ruivo foi obrigado a tapar a boca para não fazer barulhos. Deslizava tão gostoso, tão fácil, chegava tão perto de sua próstata... Queria mais.

— Chega de enrolar Daiki. Anda logo com isso... — Pediu em meio à um sussurro urgente, deixando clara a sua real necessidade.

Arfando contra sua nuca, Aomine apressou-se em remover a própria cueca com uma das mãos, posicionando seu membro contra o local que em breve iria invadir. Mas, como sempre, ele tinha que provocar, tinha que levar Taiga ao seu limite.

— Você quer meu pau aí dentro? — Ele perguntou em um murmúrio quase inaudível, empurrando seu membro contra a entrada do ruivo.

— Vai. — Kagami cerrou os dentes com o contato, sem responder a pergunta diretamente, mesmo desejando aquilo com todas as forças.

— Quer que eu meta lá no fundo? — Aomine continuou, empurrando um pouco mais, iniciando a penetração vagarosamente.

— Sim... — Taiga suspirou, fechando os olhos enquanto sentia a cabeça do membro dele entrar completamente. Era bom demais.

— Quer que eu te foda bem devagar, para a gente não fazer barulho? — Ele perguntou com a voz rouca e completamente excitada, mas ainda baixa, dando-lhe um chupão na nuca enquanto empurrava lentamente seu membro para dentro, segurando-se no quadril do ruivo. — Assim?

— Daiki... — Kagami fechou os olhos e soltou uma lufada de ar pelos lábios entreabertos, lutando para não fazer barulho.

— É gostoso? — Ele soltou a pergunta retórica, chegando até o fundo com uma lentidão gostosa e extremamente torturante. — É, né?

— Pra caralho. — Taiga sorriu com gosto reparando na situação de ambos, naquele silêncio internamente barulhento, não conseguindo ficar uma mísera noite sem transar. Não estava reclamando, adorava isso. Adorava mesmo.

— Taiga... — Daiki sorriu contra sua nuca, dando-lhe uma mordida gostosa quando começou a se mover para fora, com uma velocidade que chegava a ser ridícula de tão lenta... Mas era tão gostoso, o sentia tão bem, por inteiro, com tanta intensidade. E o melhor... Ficavam quietinhos.

Apenas os suspiros de ambos eram audíveis no quarto. Mal dava para ouvir Daiki se mexer na cama, mas ele apertava o ruivo com tanta força para se conter, para não perder o controle... Era quase possível prever a vermelhidão que os dedos de Daiki deixariam na pele de seu quadril, devido a força que fazia enquanto entrava e saía de seu corpo, movendo-se lentamente para frente e para trás, hora mordendo a orelha do ruivo, ora dando-lhe chupões deliciosos na nuca, ora segurando os gemidos mais eróticos do mundo.

Taiga ajudava na hora do movimento, empurrando o corpo para trás quando ele vinha para frente. O membro dele acertava em cheio sua próstata, mesmo com aquela lentidão proposital... Era delicioso. Poderia ficar a noite inteira ali, sentindo Aomine o comer daquele jeito. Queria aquilo para sempre, mas o orgasmo estava rondando seu corpo há longos minutos.

— Taiga, aperta mais para mim... — Ele pediu contra sua orelha com certa devoção, abraçando o ruivo com força enquanto sua respiração se entrecortava. — Eu estou quase gozando.

— Me fode mais rápido, Daiki. — O ruivo murmurou, fazendo o que ele mandava.

— Ah... Não pede assim... — Ele sibilou com a voz tremida contra sua orelha, gemendo assim que a pressão aumentou, ainda durante o movimento lento de vai e volta. — Não dá...

— Dá sim. Só uma vez. — Taiga pediu quase inaudivelmente, cerrando os dentes, prestes à chegar ao seu ápice. — Vai... Vai Daiki. Eu vou gozar.

Sem dizer mais nada, Aomine aumentou a intensidade e a força das estocadas, mordendo o ombro de Taiga para conter os próprios gemidos de prazer. Era o fim. Chegaram juntos ao orgasmo, a sensação era indescritível, realmente sublime. Os corpos de ambos arrepiavam-se conforme o movimento descompassava e os jatos de sêmen jorravam de seus membros, hora atingindo o lençol, hora preenchendo o interior de Kagami.

— Eu te amo, Taiga... — Daiki sorriu contra a pele do ruivo, logo no final do orgasmo, com a voz totalmente nublada de satisfação.

— Eu também te amo. — O ruivo sorriu de orelha a orelha, arfando com o próprio gozo, sentindo a cama úmida em sua frente.

Após limparem um pouco os resquícios do sexo com os lenços de uma caixinha estrategicamente posicionada embaixo da cama — e após terem certeza de que não acordaram a mãe do ruivo com aquela acelerada repentina no final —, os dois permaneceram naquela posição, de conchinha, Daiki apoiando a testa em sua nuca, os braços passado ao redor de seu corpo. Ele dormiu bastante rápido, como sempre, apertando Taiga contra si enquanto murmurava aleatoriedades. Entre essas palavras ininteligíveis, saiu um 'boa noite Bakagami'.

Taiga sentia-se tão feliz ali naquela situação, tão completo. Tudo estava dando certo com sua família, seus amigos, sua futura profissão, e principalmente com seu relacionamento. Daiki era o melhor, o seu parceiro, seu verdadeiro ídolo (mas jamais diria a ele essa última parte, claro). Sinceramente, não se importava com o passado esquisito que tiveram, com as brigas, as interferências, os longos meses que passaram separados, o ódio que sentiram um pelo outro que logo voltou a ser aquela paixão do início... Era uma linha tênue mesmo, mas que agora não estava mais tênue, e sim firme, sem a mínima possibilidade de romper.

Dali para frente ambos enfrentariam uma vida diferente, Kagami tinha certeza disso, uma vida com mais responsabilidades e afazeres, repleta de mudanças. No entanto antes de tudo aquilo teriam as férias em Los Angeles...E a surpresa de Daiki. Kagami mal esperava para que o momento chegasse. Ficou imaginando as possíveis reações de Aomine por longos minutos, até que dormiu, sentindo a respiração calma dele em sua nuca.

***

Los Angeles — Sexta-feira — 12h18

~Himuro Tatsuya~

O dia estava lindo em Los Angeles, com um clima bastante agradável e alegre. Era o início do período de férias, e isso animava qualquer ser humano no mundo, sem exceção. Afinal, quem em sã consciência não fica relaxado com o ócio e com a preguiça tomando conta do corpo? Quem não se delicia com a sensação da maresia sendo trazido até a sombra pelo vento do mar? Quem?

O sol quente e brilhante iluminava as pessoas que passavam pelas ruas com enormes sorrisos de satisfação, o vento ameno balançava as palmeiras altas que ladeavam as calçadas à beira mar, e o burburinho contente dos turistas passeando e provando pratos apetitosos animava qualquer um... E dava muita fome também, principalmente quando Himuro Tatsuya encontrava-se sentado dentro de um restaurante, sentindo aquele cheiro familiar de massas e molhos ao seu redor, mas sem poder pedir nada por enquanto.

Aquele arzinho alegre e italiano que envolvia o ambiente aconchegante e pequeno foi uma ótima escolha de Alex, um bom lugar para rever um amigo, uma maravilhosa opção para uma conversa nostálgica e um almoço agradável. Seria uma pena se, como sempre, ela estivesse atrasada...

Tatsuya sorriu com o pensamento, balançando a cabeça enquanto pegava em sua mochila algumas folhas com os questionários de seu grupo semanal de apoio, do qual saíra há mais ou menos uma hora. Respondia aquilo duas vezes por mês, perguntas corriqueiras que no decorrer das reuniões mostravam seu avanço ou retrocesso com o tratamento da Bipolaridade. Os resultados estavam cada vez mais positivos, até o Dr. Quentin, seu psiquiatra, apontava sua melhora com bastante orgulho na voz. Por mais que não gostasse dos remédios e as restrições que eles traziam, Tatsuya sentia-se infinitamente mais seguro e feliz quando os tomava. Sabia que tudo aquilo era necessário. Agorasabia.

— Se eu preencher isso, fico livre pelo resto da semana... — Murmurou distraidamente para si mesmo, prestando atenção naquela música calma de fundo enquanto respondia ao questionário com uma caneta que sempre levava consigo... Já que criara o hábito de anotar em uma agendinha quando estava se sentindo ansioso, feliz, zangado, angustiado ou qualquer outra emoção que tivesse relação com sua Bipolaridade. Agora que estava tomando os remédios e se tratando há mais de um ano, quase não precisava mais anotar nada a respeito. Estava se sentindo ótimo, de verdade.

Não demorou muito mais para Alex chegar, escandalosa como sempre, chamando atenção de todo mundo no local que já era pequeno por si só.

— Tatsuya! — O grito animado fez o rapaz erguer os olhos da folha em sua frente, sorrindo para a mulher. — Que saudade do meu bebê... Que nem é mais tão bebê assim!

Himuro mal teve tempo de guardar suas coisas e se levantar, simplesmente foi puxado para um abraço apertado e caloroso, recebendo um beijo estalado na bochecha.

— Oi Alex! Eu também senti sua falta. — Retribuiu o abraço com um enorme sorriso no rosto, aspirando o cheiro familiar dos cabelos loiros de sua antiga treinadora de basquete, eterna amiga. — Você está ótima!

— Ah, eu que o diga. Olha esse visual novo! — Alex disse com um tom animado, passando os dedos com longas unhas pelos cabelos de Tatsuya, que agora estavam um pouco raspados nas laterais, com os fios mais curtos e jogados na parte de cima. — Ficou lindo! Quase não te reconheci sem a franja.

— Eu também demorei para me reconhecer sem ela. No começo parecia que faltava um pedaço de mim, como se minha identidade tivesse ido para o ralo. — O rapaz riu de sua própria piadinha, passando a mão para ajeitar o cabelo curto, jogando-o com os dedos para o lado certo. — Mas é melhor assim. Vejo as coisas de uma outra maneira, sem nada obstruindo. — Soltou a frase ambígua, sentando-se de frente para ela.

— Ah, me desculpe a demora. — Ela piscou por trás dos óculos, deixando a bolsa apoiada na cadeira em que sentou também. — O Nick não quis me largar hoje cedo. Sabe como é... Dengoso que só.

— Seu namorado misterioso e perfeito que te levou para viajar? — Tatsuya perguntou com interesse, erguendo as sobrancelhas assim que um garçom simpático de meia idade aproximou-se com os cardápios.

— Obrigada! — Alex sorriu para ele, abrindo o caderninho bordô à sua frente. — Sim, esse mesmo, o Nicholas. Ele não é misterioso, só perfeito. Conheci há alguns meses. Muitos meses na verdade, quase um ano já. — Ela fez uma pausa, escolhendo seu prato antes de voltar-se para Tatsuya, que também escolhia algo para comer. — Mas não quero falar de mim, vamos falar de você, moço sumido. Como você está? — Alex perguntou com um tom mais sério, apoiando os braços na mesa quadrada de madeira. Himuro sabia exatamente onde ela queria chegar.

— Infinitamente melhor. Já não tenho mais crises há vários meses. Nem de mania, nem de depressão. — Himuro disse com certo orgulho, sorrindo de canto ao olhar distraidamente para o cardápio, mais uma vez. — No começo estava relutante com isso tudo, sabe? Mas os remédios são bastante eficazes. Mês passado reduzi a dose do Lítio, de dois comprimidos para um só. Isso significa que estou melhorando. — Afirmou contente.

— Fico feliz que você tenha aceitado o tratamento. — Ela ergueu as sobrancelhas, com uma expressão aliviada e séria ao mesmo tempo. — Sua mãe me contou sobre a sua primeira reação, como ficou irritado, mas isso já faz um tempo. É muito bom saber de sua melhora, na verdade é bem visível, sabe?

— Sim, me falam isso o tempo todo, e é bom de ouvir... Mas enfim, eu fiquei irritado no começo porque eu não aceitava de jeito nenhum a ideia de que eu era bipolar. Imaginei que todos estavam querendo me ferrar, me ver na merda, se livrar de mim, me internar. Ou algo do gênero... — Tatsuya maneou negativamente o rosto, lembrando-se das crises e de suas atitudes erradas na época. — Eu não tomava os remédios, jogava tudo na privada e dava descarga... E então vinham as crises. Mais mania que depressão, sempre. Eu ficava irritado, comecei a fumar, ouvir vozes e falar coisas sem sentido... Até que houve um dia em que eu tentei fugir de casa no meio da madrugada porque achei que minha mãe estava vindo me sacrificar com uma faca. Eu tinha ouvido alguém conversando com ela no corredor, mas lógico que não tinha ninguém.

— Sim, ela me contou que você pulou da janela do segundo andar e quebrou o braço. — Alex murmurou, encarando-o com o olhar brilhante e amigável. — Na verdade ela estava tão assustada, me mandava e-mails e mensagens quase todas as semanas pedindo conselhos sobre o que fazer. Foi uma pena eu não estar por perto quando tudo isso aconteceu, queria tanto ter te ajudado também. Me desculpe Tatsuya.

— Não se desculpe Alex, está tudo bem agora. — Himuro murmurou um pouco envergonhado, olhando para a mesa vizinha. — Minha mãe sempre gostou de você, por isso te contatava. Eu é que peço desculpas pelo incômodo.

— Bobo. Isso jamais será um incômodo. — Ela sorriu com compaixão, dando-lhe um tapinha na orelha. — Continue a me contar.

— Pois é. — Sorriu, olhando para ela. — E foi nessa situação da fuga e do braço quebrado que eu percebi que estava tendo algumas alucinações pesadas, e então veio a pior crise de depressão. Foi tudo meio junto, bem horrível. Mas depois comecei a tomar certinho o Lítio, a participar do grupo e fazer as sessões de psicoterapia. Não tive escolha, mas hoje vejo que foi preciso, foi o que me salvou.

— Sim. Tudo isso é para o seu bem. — Alex concordou, passando a mão gentilmente sobre a sua. — Ninguém quer o seu mal Tatsuya, ninguém nunca quis. Você sabe disso.

— Eu sei. Agora eu sei. — Himuro sorriu com sinceridade.

Ainda se arrependia das coisas que havia feito e dito para sua mãe, para sua família em geral, para o próprio Dr. Quentin, seus amigos no Japão e aqui em Los Angeles, e principalmente para Taiga. Isso era o que mais pesava, sinceramente. Se estava ali hoje, se tratando, apresentando melhoras, devia isso ao ruivo, que, mesmo depois das brigas e desentendimentos, não desistiu de ajudar-lhe e ligou para sua mãe contando sobre a possível bipolaridade. Ele o salvara indiretamente.

Himuro nunca mais entrara em contato com Kagami depois do Japão, mas sabia que ele falava constantemente com sua mãe, perguntando sobre seu tratamento. Era evidente que Taiga ainda se preocupava bastante, mas Tatsuya não sentia-se digno disso, ou de ir atrás dele para pedir desculpas pela milésima vez... Tinha vergonha até mesmo de agradecer. Preferia ficar aqui e deixar ele lá. Já causara muitos problemas. Não tinha mais com o que se preocupar, sabia que ele estava feliz.

— Vamos comer? — Alex bateu uma palma animada, cortando seus pensamentos. — Estou morrendo de fome!

— Não é só você! — Tatsuya sorriu, erguendo sobrancelhas em uma afirmação acentuada.

E então os dois chamaram o garçom e pediram uma lasanha a bolonhesa grande para dividirem. Himuro estava com tanta fome que quase podia sentir o gosto do queijo e da carne se misturando em sua boca, mas a conversa com Alex desviou sua atenção disso — momentaneamente. E então a comida finalmente chegou.

— E a faculdade, como está indo? — Ela perguntou com a boca cheia, puxando o queijo que ficara pendurado em sua boca, com o garfo.

— Olha, está interessante e bizarro ao mesmo tempo. — Tatsuya admitiu com uma risada, tomando um gole longo de sua água. — Tipo, uma pessoa com problemas mentais cursando Psicologia é um prato cheio. Não sou apenas um aluno, sou um verdadeiro objeto de estudo lá. — Riu, já que agora levava a situação numa boa. — Mas estou gostando bastante, o curso combina comigo, dificilmente durmo nas aulas. E... No fundo acho que também me ajuda de alguma forma, sabe? A entender um pouco melhor o meu problema.

— Sim. Imagino que sim. Que bom Tatsuya. — Ela comentou, tomando seu suco de laranja, sorrindo de forma marota em seguida. — E o coraçãozinho, como anda? — Alex partiu direto para o assunto que provavelmente estava pensando em tocar desde quando chegara ali. — Tem alguém na jogada, não tem? Esse seu olhar...

— Ah... — Himuro sorriu também, focando nos pedaços de carne que estavam espalhados no recipiente da lasanha, sem graça. — Tem alguém sim, mas... Não é nada sério ainda. Saímos algumas vezes.

— Hm, e esse sorrisinho bobo aí no rosto? Acha que me engana? — Alex provocou com bom humor, fazendo com que seu sorriso se ampliasse pelo menos três vezes. — Vai contando sr. Tatsuya, vai contando. Quem é o responsável por essa sua carinha feliz aí?

— Retardada. — O rapaz balançou a cabeça com o rosto corado, brincando com o garfo. — Dylan é o nome dele. Estuda Psicologia também, uns dois anos mais velho que eu.

— Hm, um homem feito. Me conte tudo! — Ela pediu, interessada, deixando a lasanha de lado. — Como se conheceram, em que patamar estão, como vocês se apaixonaram, onde vão morar...

— Wow, calma. — Himuro riu exageradamente da reação dela, abaixando o garfo. — Não é para tanto. Estamos nos conhecendo ainda. — Afirmou, tentando controlar a euforia, que estava grande. Ficava assim quando o assunto era Dylan.

— Fala, fala. — Alex disse com os olhos brilhando, provavelmente notando sua alegria repentina.

— Bem... Nos conhecemos na faculdade, óbvio. Foi no começo desse último semestre. — Tatsuya começou a contar, sentindo aquele calorzinho gostoso espalhar-se dentro de si. Estava irrevogavelmente apaixonado por Dylan Faulkner, e agora entendia que era completamente o contrário do que sentia por Taiga. Com o ruivo era totalmente fraterno. — Foi bem estranha a forma como tudo aconteceu. — Himuro riu das lembranças. Nunca se sentira assim antes, então se policiou um pouco para não agir como um abobado. Tarde demais. — O Dylan me procurou do nada, no intervalo das aulas, acho que era uma quarta-feira. Eu nunca tinha visto o sujeito na minha vida, e então ele surgiu do além falando que tinha um trabalho fodido sobre bipolaridade para entregar, e então perguntou se eu topava responder algumas questões a respeito, porque contaram que eu tinha a doença e ele achou válido tentar. Ele falou bem assim. Válido tentar!

— Ah meu Deus... Que indelicado. — Ela ficou boquiaberta, rindo um pouco.

— Pois é. Na hora fiquei puto, achei que era uma piada de mal gosto. — Himuro afirmou, um pouco mais animado do que deveria estar. — Mas topei. — Deu de ombros. — O cara estava usando uma camiseta do Bullet for my Valentine, então devia ser uma boa pessoa. Foi o que pensei na hora. Que idiota, né? — Riu sozinho, arrancando um sorriso maior ainda de Alex. — E então beleza, marcamos de nos encontrarmos na biblioteca, depois da aula. Começamos a falar sobre a doença, mas logo o assunto mudou para música e filmes. Ele também curte terror, então saímos de lá quando estava quase fechando. E... Foi assim. Estamos saindo sempre agora, andamos de skate, ficamos até tarde só falando merda, tomamos café da manhã juntos antes das aulas... Enfim. estamos ficando e nos conhecendo.

— Você gosta dele, não gosta?

— Muito. — Himuro admitiu, suspirando um pouco, quase que involuntariamente. — Ele é diferente, sabe? Não é como as outras pessoas.

— Ah, eu imagino. — Alex afirmou, interessada. — E como ele é?

— Bonito. — Tatsuya disse na hora, ficando um pouco sem graça depois, assim que ela riu de sua resposta. — Não, mas falando sério, ele é bonito de verdade. É alto, mais alto que eu. Olhos castanhos meio claros, cabelo escuro, quase preto, tipo o meu... Hm... É magro. E tem um piercing na língua, o que é bem interessante. — Acrescentou de forma marota, levando-a a dar-lhe um tapa cômico no braço. Ambos riram. — Mas fora isso ele é bem atencioso, tipo, pergunta se já tomei meu remédio, me ajuda com isso tudo. Acho que... É a primeira vez que me apaixono de verdade Alex. É quase assustador, mas estou gostando.

— Que bonitinho! — Ela afinou a voz, fazendo uma carinha fofa. — Fico tão feliz por você Tatsuya, você não tem ideia. Sua melhora é tão nítida, me enche de orgulho. Está estudando, namorando...

— Não estamos namorando. Ainda. — Pontuou, coçando a parte raspada de seu cabelo.

— Que seja. — Ela fez uma caretinha engraçada. — Você está bem, Tatsuya, é o que importa. E isso me deixa muito, mas muito feliz. Minhas duas crianças cresceram e agora são dois homens feitos. — Alex pousou a mão em seu braço. — Vocês dois não se falam mais, não é?

Ela estava se referindo a Taiga.

— Não. — Himuro diminuiu consideravelmente o sorriso, limitando-se a dizer aquilo.

— Por que? — Ela ergueu as sobrancelhas. — Vocês eram tão próximos, até namoraram um tempo, pelo que sei.

— Ele... Eu estraguei tudo, falei e fiz algumas coisas simplesmente imperdoáveis. — Himuro deu de ombros, segurando a base da cadeira com uma das mãos, como que para se sentir mais firme. — Eu o magoei diversas vezes, então acho que não sou digno de ter a amizade dele novamente. Sei que tem muita relação com a bipolaridade, mas mesmo assim...

— Acho que isso é coisa da sua cabeça, sabia? — Alex afirmou com um tom sério, mas compreensivo. — Ele sempre pergunta de você. Se vocês conversassem tudo se resolveria, tenho certeza.

— Eu sei, imagino que sim. Mas é complicado. Eu avacalhei mesmo. — Himuro suspirou, pronto para se explicar, pelo menos parcialmente. — Ele é apaixonado pelo Aomine, você sabe, e eu tentei tirar isso dele à força. Tentei fazer ele mudar na marra, fazer ele gostar de mim porque eu achei que era o dono dele. Isso é errado. Eu queria controlar o Taiga nesse aspecto, ter a atenção dele só para mim. Levei eles a se separarem. — Tatsuya afirmou com pesar, olhando para a amiga com as sobrancelhas arqueadas em uma demonstração de culpa que jamais sairia dali por completo. — Sabe Alex, não gosto nem da ideia de alguém tentando fazer isso comigo agora, em relação ao Dylan... Então... Sei que não tem volta. Eu não posso. Eu não me perdoo pelo que fiz.

— Eu entendo. — Ela baixou o olhar para o próprio prato. — Mas valeria a pena tentar. Conversem, apenas conversem.

— Não sei se consigo. — Himuro sorriu um pouquinho, tomando mais um gole de água.

— Você sabe que ele está vindo passar as férias em Los Angeles? — Alex perguntou, como se tivesse lembrado do fato naquele momento. Ela estava maquinando algo.

— Hm... — Tatsuya a olhou, repreendendo-a. — Não tente nada Alex, sério.

— Tente você então! — Ela sorriu em retorno, tocando novamente seu braço. — Vamos nos encontrar no Jimmi's, todos nós, como nos velhos tempos. Leve o Dylan.

— Não sei... — O rapaz olhou janela afora, onde várias pessoas caminhavam animadas. — Não sei se consigo. É uma atitude muito... Difícil.

— Eu estarei lá. — Alex garantiu, sorrindo de canto. — Vai dar certo. Confia em mim?

— Confio. — Himuro sorriu como ela, suspirando com derrota. Ela sempre conseguia o que queria.

Tatsuya não sabia o que iria acontecer, sabia tampouco se estava preparado para que algo acontecesse. Mas não estaria sozinho, estaria com Alex, levaria Dylan. Estaria seguro. Se tudo desse errado teria proteção.

Será que daria certo? O clima com certeza ficaria estranho, apesar de estar bem agora... Controlado. Não tentaria nenhuma merda. Mas... O que teria que dizer para Taiga?

Obrigado. Diga simplesmente obrigado. Uma voz calma e amigável em sua mente respondeu.

Notas finais
Argh, as coisas se resolvendo! O tempo passou, Kagami e Aomine felizes da vida teoricamente trilhando o futuro, Himuro apresentando melhoras gritantes por estar seguindo o tratamento bonitinho... Eita, os finais felizes e clichês da Lana-chan /o/ Admito que depois da OVA de KnB me senti um pouco arrependida de não ter feito o Muro-chin ficar com o Atsushi, mas o nosso titã não teria paciência para tanto, sério mesmo... E o Dylan é tão fofinho... Vai por mim, Himuro teve um baita de um crush ali. Bem... vamos ao que interessa! Músicas do capítulo... Hm... Merda, aqui bugou também porque eu estava preparada para o último capítulo, mas dividi em dois. Então deixa eu pensar... Hmmm... OK. Himuro Tatsuya: Não existe música mais apropriada do que essa... I Lived - OneRepublic: https://www.youtube.com/watch?v=KINfQbfZwik // Aqui vai o link do clipe mesmo, que é muito emocionante: https://www.youtube.com/watch?v=z0rxydSolwU Gente, e por hoje é isso. O próximo definitivamente é o último xD OBRIGADA A TODO MUNDO QUE TEM ME ACOMPANHADO, DESDE O COMEÇO, A PARTIR DE AGORA, OU QUE AINDA VAI LER ISSO... Obrigada por tudo, pelo carinho, pelos depoimentos das cartinhas que me fazem flutuar, pelos comentários maravilhosos que vocês me deixam, pelos favoritos, pelas recomendações, pelos segundos que vocês passam lendo as minhas viagens! OBRIGADA MESMO... Feliz Natal atrasado e um ótimo 2016 a todos vocês. I love you, guys! Beijão enooooooooooooooooooooooooooooooooooorme da Lana-chan!