Linha Tênue
23 Desintegrar.
Notas iniciais

Duas semanas depois — Quinta-feira, 17h23min
~Aomine Daiki~
O moreno cortava morangos, cocos, laranjas e bananas coloridas em seu joguinho Fruit Ninja, no celular, enquanto caminhava distraidamente pelas calçadas movimentadas de Tóquio. Ao seu redor, todo o time da Academia Touou debatia estratégias, táticas e jogadas que realizaram no treino, meia hora antes. Aomine nunca tinha paciência para esse tipo de conversa, afinal, seu estilo de basquete não seguia regras ou formas. Estava ali apenas corporalmente, acompanhando os passos dos parceiros, mas por dentro concentrava-se em bater seu próprio recorde no modo 'Arcade' do game... E estava bem difícil!
Como de praxe antes de campeonatos, todos os membros do clube de basquete dirigiam-se ao Maji Burguer para uma reunião 'descontraída', por assim dizer. Na verdade só era interessante porque o treinador pagava os lanches dos jogadores (um para cada, lógico), como uma forma de incentivo para se eforçarem no Interescolar. Aomine nunca participara dessas confraternizações em time antes — pois ficar em casa coçando o saco, ouvindo música e/ou assistindo pornô era infinitamente mais divertido —, no entanto a insistência brutal de Momoi (e Wakamatsu) não deixou espaço para fugas. E agora ali estava.
Pelo menos comeria de graça. Era essa sua consolação.
— Falando com o Kagamin de novo? — A voz animada e esperançosa de Satsuki surgiu em algum ponto à sua direita, fazendo-o sobressaltar-se e cortar uma bomba, explodindo todo o seu desempenho no game. Não estava com uma boa pontuação, então nem ligou muito, apenas bufou por bufar.
— Ainda não falei com ele hoje. — Daiki murmurou com a voz arrastada de sempre, clicando no ícone onde estava escrito 'Novo Jogo', sem nem ao menos olhar para amiga. Pura preguiça.
Por mais que eu tenha tentado... Completou mentalmente com um muxoxo, assim que o som característico e oriental anunciou o início de uma nova partida de Fruit Ninja. Satsuki o abandonou no mesmo momento com um 'entendi' vago, dando alguns passos apressados para se juntar ao restante do time, que ainda debatia sobre como Sakurai deveria se comportar na jogada de número dois (Aomine não fazia a menor ideia de qual jogada era aquela).
Momoi o conhecia perfeitamente bem para saber que estava um pouco chateado naquele final de tarde — frustrado, mais precisamente —, então ultimamente não o bombardeava com perguntas desagradáveis e incômodas, apenas o dava espaço. A amiga sabia que sua dose de conselhos e soluções para uma vida já se esgotara, então tudo ficara por conta de Aomine a partir de agora...
E isso estava sendo uma grande, gigante, colossal merda.
O moreno não sabia muito bem o que fazer, e muito menos como fazer. Descobriu-se um verdadeiro leigo no assunto 'correr atrás de um amor perdido'. Lógico, tinha noção de que precisava conversar pessoalmente com Kagami e contar tudo o que estava entalado em sua garganta há meses, no entanto o ruivo não dava muita abertura para isso... E Aomine não queria pressionar ou parecer um chato, pois isso apenas o afastaria mais uma vez. Já chegava suas mensagens contínuas o perturbando o tempo todo.
Por essas e outras não tinha muito do que reclamar. Querendo ou não, estavam se aproximando novamente (mesmo que à distância, mesmo que ele estivesse um pouco relutante), o que era irrevogavelmente melhor do que o status que sustentavam anteriormente — borbulhando de ódio e rancor um pelo outro. Agora conversavam duas ou três vezes por semana no WhatsApp, mas sobre coisas irrelevantes, como o Interescolar, a nova temporada dos Lakers na NBA, as matérias chatas da escola... Nem pareciam ser um casal secretamente (?) apaixonado antes de tudo virar de cabeça para baixo.
Com um suspiro, Daiki desistiu do jogo, fechando o aplicativo para guardar o celular no bolso da calça. Se ao menos não se sentisse tão idiota ou amedrontado, poderia aparecer de surpresa na casa de Taiga. Não. Soava invasivo demais...Então ele bem que poderia cair na frente de seus olhos, quem sabe no Maji Burguer, ou em qualquer outro lugar. Onde estava o destino para dar-lhe uma ajuda agora?
Aomine tinha certeza que há essa altura Kagami já sabia que o moreno estava apaixonado, que se arrependera e que corria atrás para mudar os fatos, que queria uma segunda chance... Será que ele não se importava? Ou estava desconfiado demais para simplesmente permitir uma aproximação intensa? A segunda opção era a mais provável. Agiria da mesma forma se estivesse na pele de Taiga.
Daiki era obrigado a fazer uma careta para si mesmo toda vez que lembrava das merdas que dissera a ele... Agora estava pagando por isso.
Mas situação vai se reverter assim que eu conversar com ele! Pensou com um otimismo rasgado, colocando as mãos no bolso da calça de uniforme ao focar sua atenção em Sakurai, que agora pedia desculpas por qualquer babaquice que cometera em quadra. O repertório dele era bem chato e repetitivo, mas engraçado ao mesmo tempo. Talvez por causa da sua feição infantil.
E assim o time da Academia Touou seguiu o trajeto até a lanchonete, que estava bastante lotada naquela tarde de quinta-feira. Infelizmente ele não encontrava-se ali, Aomine constatou com um meio sorriso besta e pesaroso, juntando-se à fila dos pedidos, onde time inteiro solicitava seus respectivos lanches de forma organizada e contabilizada por Satsuki — a guardiã do dinheiro do treinador.
Naquele momento Daiki deu-se conta de que sentia uma puta saudade do tempo em que ia até o Maji Burguer com Kagami, após os mano a mano que disputavam quase diariamente, antes de correrem para transar no apartamento dele. Bons tempos que jogara fora. Claro, tivera seus motivos na época — ciúme, raiva, impulsividade, decepção —, no entanto foram motivos vazios, sem fundamento. Hoje enxergava a situação com novos olhos. Olhos um pouco mais maduros e menos individualistas.
Não. Não vou voltar nisso mais uma vez... Chega! Suspirou, aproximando-se da atendente para pedir seus clássicos vinte hambúrgueres de Teryaki — um deles pago pelo técnico. Assim que entregou o dinheiro contado e apanhou sua bandeja, Daiki olhou ao redor e rapidamente encontrou o conjunto de mesas onde seus parceiros estavam reunidos. Murmurando qualquer melodia de Nickelback, o moreno rumou até lá com sua paciência monótona de sempre... Até olhar despreocupadamente pela janela.
Aomine quase derrubou tudo o que tinha em mãos ao ver Taiga correndo e quicando a bola de basquete na quadra, ao longe, além do vidro e do asfalto triplo onde os carros passavam. Seus batimentos imediatamente começaram a acelerar, e o aperto gostoso de apreensão subiu por seu estômago.
Chance maior do que aquela não iria surgir nunca mais em sua vida.
Obrigado, destino. Sorriu de canto, buscando imediatamente por Satsuki na lanchonete, virando o rosto de um lado para o outro. Assim que a avistou pagando pelos lanches do time, o moreno caminhou apressado em sua direção, mal escondendo o quão agitado estava. Foi um verdadeiro contraste com suas atitudes anteriores, e ela logo percebeu, erguendo uma das sobrancelhas rosadas.
— Distribua isso e diga a eles que estou com dor de cabeça, ou que fiquei com diarreia, ou que morri. — O moreno sorriu como um bobo, olhando de esguelha para os membros da Touou enquanto entregava a bandeja cheia de hambúrgueres para a amiga. Ela estava confusa, evidentemente, quase irritada por causa de sua retirada brusca e repleta de desculpas esfarrapadas. Aomine logo explicou: — O Taiga está ali, caramba. — Sorriu, direcionando o olhar para a quadra, janela afora. — Vou tentar. Tem que ser hoje!
— Ah, Dai-chan. Vai lá! Eu distraio eles. Pode deixar. — Ela sorriu com uma manifestação clara de incentivo, assim que percebeu do que se tratava. Era a melhor amiga que poderia existir no mundo. — Boa sorte. — Com uma breve piscadela, Momoi segurou a bandeja com mais firmeza, permitindo que Aomine a largasse e saísse da lanchonete.
...Praticamente voando.
~Kagami Taiga~
— Não é como se... — Pensou e verbalizou quase inaudivelmente, quicando a bola por entre suas pernas entreabertas, em um drible. — ...Eu não tivesse... — Quicou novamente, dando um passo ágil à frente, agachando-se no mesmo instante. — ...Culpa! — Finalizou a linha de raciocínio que o invadia durante todo aquele tempo em que trocara mensagens com o moreno. A frase era uma espécie de mantra que o fez abrir os olhos para a realidade.
Kagami chegara à conclusões assustadoras sobre seus passos em falso nos últimos dias. Nada que já não soubesse em seu íntimo, mas ainda assim era complicado aceitar que cometera tantos erros... Que caíra em várias armadilhas... Que também fora egoísta (tanto com Aomine, quanto com Tatsuya)... E que também precisava se redimir de muita coisa.
Aumentando gradativamente a aceleração, Taiga correu até a tabela, onde saltou majestosamente e enterrou a bola na cesta, com apenas uma das mãos — e sem a menor dificuldade. O barulho ressonante da vibração que o aro emitia nos últimos tempos levava Taiga a crer que talvez estivesse destruindo a quadra do Maji Burguer, já que visitava o lugar todos os dias. Massacrava-se violentamente jogando basquete e pensando durante horas, mas valia a pena, pois tudo fluía magicamente no conjunto das ações. Parecia até mesmo um filósofo quando o fazia.
Foram tantas teorias, hipóteses, considerações, negações, conspirações, bobeiras, verdades, mentiras... E apenas uma única (e óbvia) resposta: 'Converse com o Aomine Otário Daiki e resolva essa merda de uma vez por todas'. Não havia outra solução, por mais complicada e difícil que ela fosse... Mas, apesar da mágoa, uma coisa Kagami não podia negar; a empolgação urgente e exacerbada se mostrava presente a cada novo Whats que recebia de Aomine, mesmo que não conseguisse responder como deveria. Ele estava atencioso e 'fofo' demais para simplesmente passar a perna em si mais uma vez. Era o que achava.
Isso sem falar que nunca deixou de estar irrevogavelmente apaixonado por Daiki. Ponto. A batalha épica chegara ao fim, e seu coração não só vencera a guerra, como também ajuntara a razão caída e começara a andar de mãos dadas com ela. Uma mistura saudável e equilibrada, que surpreendeu até mesmo o ruivo... Sempre tão burrinho e lerdo, agora conseguia pensar claramente. Milagres acontecem.
Estava com receio de quê então? De se machucar? A pergunta soou irônica em sua mente. Taiga já estava craque nisso, cheinho de cicatrizes para contar a história dos últimos de cinco meses de sua vida — período em que quase fora mutilado por dentro. Descobrira-se quase um mutante na regeneração, pois novamente estava ali, em pé, com um sorriso na face, quase pronto para outra. Sim. Podia muito bem tentar de novo se estivesse realmente confiante de que tudo daria certo com o moreno... Mas para isso precisavam conversar muito bem antes. Muito bem. MUITO BEM!
E sobre Himuro Tatsuya... Kuroko tinha razão, como sempre. Tatsuya era um ser humano um pouco difícil, duplo, gelado. Taiga não o culpava pela reviravolta em sua vida, mas não o inocentava tampouco. Decidira deixá-lo de lado, assim como ele também fizera consigo — pela segunda vez. A dedução era quase simples demais para ser ignorada: Não tinham nada a oferecer um ao outro, a não ser espinhos e espadas. Aprendeu isso com a dor (recebida e causada). A triste realidade o assolava, mas agora com um pouco menos de força, já que conseguira finalmente enxergar através da fumaça. E o diálogo que tiveram em seu apartamento deixou tudo muito claro... Eram opostos, não estavam destinados à nada... Nem a serem irmãos. Infelizmente.
Caindo pesadamente na quadra de cimento, com os pés firmes, o ruivo secou a testa com a gola da camiseta branca que vestia — estava quase preta de tanta sujeira que a bola captava do chão. Assim que parou de se mover por alguns segundos, a fadiga começou a aparecer. Não era para menos. Acabara de sair de um treino puxadíssimo da Seirin, mas nem sequer pensara em descansar. Tinha um Interescolar no final de semana, então repousaria apenas no dia seguinte, sexta-feira... Hoje ainda tinha muito o que fazer. Queria demais essa vitória, pois seu desejo maior era ver o sorriso no rosto dos senpais uma última vez enquanto eles ainda podiam competir ao seu lado.
Ao virar-se despreocupadamente para buscar a bola — que rolou para o lado oposto da quadra após sua sensacional enterrada —, Taiga presenciou de camarote tudo, simplesmente TUDO, abandoná-lo de uma só vez: Sua razão, sua emoção, sua confiança recém-adquirida, sua maturidade, sua coragem, seus fios de cabelo, suas células, sua alma, sua vida... A sensação de ter se desintegrado por completo apareceu assim que seu olhar encontrou-se com o de Aomine Daiki, que girava a bola entre os dedos longos. Mal deu tempo para Taiga se assustar. Morreu muito antes disso...
— E aê. — O moreno sorriu de canto, levando embora todo o resto, se é que sobrara alguma coisa em seu corpo e mente.
— O-oi. — Respondeu, um pouco desconfortável e atônito. Quase assombrado.
Caralho. O. Que. Diabos. Eu. Faço. Agora? Foi o que Taiga conseguiu raciocinar com os poucos neurônios que reintegravam-se novamente ao seu cérebro. Por infinitos segundos era apenas audível o som dos carros nas ruas, um leve burburinho de pessoas que passeavam pelas calçadas, e, ironicamente, o grito estridente das cigarras ao longe.
Lógico, era quase verão, elas estavam voltando. O pensamento aleatório surgiu em sua mente.
— Mano a mano? — Aomine perguntou com a voz acelerada e abafada, erguendo um pouco a bola como sinal de incentivo.
Sim ou não? Sim ou não? Mente, me ajude agora, cacete... Taiga pensou com um certo desespero, sentindo a respiração acelerar da forma mais ridícula que se pode imaginar.
Conforme puxava o ar com mais força, Kagami percebeu que estava começando a feder de suor, e que Aomine provavelmente perceberia o odor e acharia nojento... Isso sem falar que já estava totalmente cansado, então levaria uma surra fenomenal do oponente... E outra, era Aomine Daiki quem estava ali, levando-o a crer que o resultado desse mano a mano seria catastrófico, pois provavelmente se embasbacaria mil vezes ao vê-lo correr em sua direção... E ainda precisavam conversar antes de terem liberdade um com o outro. Não confiava inteiramente no moreno, apenas começava a dar uma mísera credibilidade devido às mensagens, mas isso não significava que poderiam jogar basquete como nos velhos tempos.
— Pode ser. — Respondeu quase sem voz, contrariando todos os seus pensamentos anteriores.
O ruivo mal acreditou nas palavras que saíram de sua boca, mas policiou-se para não esboçar essa reação. Provavelmente era o coração derrubando a razão, já que ele tinha a vantagem de ter vencido a guerra.
Ele sempre teria a vantagem...
~Aomine Daiki~
Impassível por fora, em frangalhos por dentro. Essa era sua realidade desde o momento em que saíra correndo do Maji Burguer. E agora estava ali, em frente ao cara que deixara ir, em frente ao cara que tentaria trazer de volta para si. Hoje era sua maior e melhor chance... Sem mais enrolações, procrastinações, tempos ou impulsividades. Era o dia de se abrir pela primeira vez em sua vida, de coração, coisa que nunca tivera coragem de fazer — nem para si mesmo.
Aomine mal acreditou quando ele abriu espaço para si, aceitando jogar o bom e velho mano a mano... Ah, o basquete! O grande motivo de terem se cruzado naquele mesmo lugar, há mais ou menos um ano. O destino sabia ser sacana nesses pontos.
Era bem nostálgico lembrar do desastre que fora a primeira impressão que tiveram um do outro, e era quase ridículo pensar que dissera que a luz de Taiga era fraca demais, na ocasião. Mordera a língua bonito alguns meses depois, quando levara a maior surra de sua vida na Winter Cup, quando o dera o tênis mais caro e legal de sua coleção, quando percebera-se apaixonado pelo ruivo, quando estava morrendo de tesão na cama dele, quando sorvia o cheiro gostoso de sua pele enquanto dormiam juntos, quando comprava um par de alianças de compromisso para ambos... Quando o perdera para si mesmo.
Pensamentos aleatórios demais. Foco Daiki, foco! Pensou imediatamente, encarando o ruivo enquanto deixava a bolsa de lado, arremessando-a sem muito esmero em um canto qualquer da quadra. Taiga agachava-se minimamente para receber seu ataque — estava na defensiva, mas será que apenas no basquete? Provavelmente não. Ele ficaria naquela zona por pelo menos um ano inteiro, já que era paranoico ao extremo e não confiava mais em Daiki.
Mas pelo menos ele não foi embora dessa vez, e nem me ignorou... Apenas aceitou jogar. O moreno sorriu com uma espécie de confiança, quicando a bola no chão.
Gostava de desafios. Taiga sabia ser o melhor deles. Por isso o amava. Muito.
***
18h46min
~Kagami Taiga~
O céu já estava bem escuro àquela altura, então deveria estar perto das 19h. Os refletores eram as únicas fontes de iluminação na quadra, no entanto eles já apagavam-se aos poucos pela falta de movimento brusco em seus sensores. Logo estariam em meio à uma verdadeira penumbra, porém isso era a última preocupação de Taiga no momento.
— Vai ficar doente... — O ruivo murmurou após pensar muito na frase, sentado com as costas apoiadas na grade, ao lado de Aomine (afastado vinte centímetros, para falar a verdade). Arrependeu-se de falar no instante seguinte.
— Hm? — Daiki pareceu despertar de um mundo paralelo e longínquo, virando-se para encará-lo com as sobrancelhas minimamente arqueadas.
— Se você não vestir uma blusa vai ficar doente! — Kagami repetiu, pigarreando em seguida, um pouco desconfortável. Parecia um dèja-vú.
Não queria ser legal com Aomine (seria muito vulnerável de sua parte naquela altura do campeonato), mas, mesmo na primavera, o vento estava bem gelado e poderia causar alguma espécie de friagem se contrastasse com a pele quente de ambos. E outra, provavelmente iria chover em breve, o cheiro adocicado da umidade estava espalhado pelo ar, então o óbvio seria vestir um agasalho para se proteger. Daiki continuava desatento e preguiçoso...
— Você já me disse isso antes. — Ele sorriu de canto, pegando a jaqueta em cima de sua bolsa, que agora também encontrava-se largada contra a grade. — Lembra?
— Lembro. — Kagami murmurou com um sorriso mínimo, olhando para as mãos que envolviam as próprias canelas, já que estava com as pernas cruzadas.
Era estranho. Tudo ali estava muito estranho. Quase parecia natural demais para o seu gosto, e isso dava medo.
Taiga sentia-se tão a vontade perto de Aomine que aquele episódio da separação parecia um pouco distante agora, como se as palavras de humilhação e raiva fizessem parte de outra dimesão, ou até mesmo de outra vida. Talvez fizessem... Essa era a sensação mais errada para se ter em um momento como aqueles, e acontecia simplesmente porque Taiga encontrava-se embalado pela nostalgia, pelo pós-mano-a-mano, pela saudade e pela porcaria da paixão que deixava seu peito fumegando. Era como se as mensagens aleatórias no Whats já tivessem sido o suficiente para convencer-lhe de que Daiki mentira, que estava arrependido e que queria voltar, tentar de novo... Mas isso se levasse em consideração sua antiga ingenuidade. Hoje não era mais assim.
Foi então que Taiga percebeu um pequeno grau de maturidade em sua pessoa, e no fundo orgulhou-se disso. Não deixaria-se levar tão facilmente dessa vez, apesar de querer com todas as forças do mundo ficar ali sentado ao lado de Aomine até o fim dos tempos.
— Hm... Então eu vou para casa... — Anunciou com a voz baixa e compassada, fazendo menção de se levantar, descruzando as pernas lentamente, pois seus músculos estavam muito fatigados.
— Não! — Daiki foi rápido ao se pronunciar, segurando seu pulso no mesmo instante. — Fica... Mais um pouco.
O toque intenso e firme levou o ruivo a erguer os olhos imediatamente, de encontro aos azuis de Daiki. Era a segunda vez no dia que Kagami se desintegrava por completo. A pele quente de Aomine entrava em contato com a manga da jaqueta de seu uniforme, mas os últimos dois dedos do moreno tocavam as costas de sua mão. Queimava muito, tornando-se bom e ruim ao mesmo tempo. Mais bom do que ruim...
— Eu preciso realmente conversar com você, Taiga. — Aomine sussurrou com a voz lenta, como se contasse um segredo que apenas os dois poderiam saber no mundo inteiro.
'Taiga...'. O nome ecoou informalmente em seus ouvidos. O medo de ser passado para trás voltou naquele exato instante para o ruivo, quando lembrou-se do encontro acidental que tiveram no banheiro do Maji Burguer — onde pedira para ele chamá-lo de 'Kagami' a partir de então, onde Daiki pedira para jogar o Air Jordan no lixo, onde Taiga o mandara para a morte e batera em retirada sem olhar para trás.
Apesar dos fantasmas do passado, o ruivo respirou fundo decidiu ser um pouco forte (e teimoso), dando-lhe a chance para se explicar. Aomine não estaria fazendo tudo isso se não houvesse um motivo... E a verdade é que queriadesesperadamente conhecer esse motivo.
— Certo... — Kagami respondeu no mesmo tom baixo de voz, voltando à sua posição inicial, com as pernas cruzadas. Ele liberou seu pulso assim que assentara-se novamente, e então mais uma dose imensa de silêncio se instaurou entre os dois.
Um silêncio eterno e difícil de suportar, parecia inclusive criar uma certa pressão no ar.
Kagami não conseguia encarar Aomine por muito tempo, mas sabia que ele não desviava o foco de si. Havia algodiferente no azul dos seus olhos. Pareciam mais límpidos, quase mais claros, não tão agressivos quanto há minutos atrás, no desastroso mano a mano. Perdera feio na breve partida, mas isso não era novidade... A proximidade o distraíra completamente, mal era capaz de se mover quando ele estava há poucos centímetros de si. Tipo agora.
— Bem... Eu sinceramente não sei como começar, porque estou bem... Ansioso. — Ele coçou a nuca, mordiscando continuamente o lábio inferior. — Não estava esperando isso tudo hoje. Achei que você não queria mais me olhar na cara. — Daiki riu, sem jeito. — E de repente você aceitou meu mano a mano. Foi um pouco inesperado, mas bem legal.
— ... — Kagami engoliu em seco, apertando as próprias canelas, em busca de um pouco de calma. Obviamente não encontrou nada.
— Tá. Deixa eu começar. Já me enrolei demais com isso... Agora preciso confessar meus pecados à você. — Daiki comentou, virando o rosto para encará-lo de frente, com uma expressão de culpa e dúvida, como se esperasse alguma espécie de esporro ou relutância. Nada disso veio.
Taiga não sabia como agir, então apenas aguardou com o coração na mão. Queria muito ouvir o que ele tinha a dizer, por isso ergueu o olhar para fitá-lo diretamente também. Olho no olho. Estremecia a cada movimento de retina ou piscar que ele dava, e aquilo era quase vergonhoso, para não dizer irritante. Por que precisava ficar tão vulnerável na presença de Daiki? Ou estava assim só porque aquele era o momento que mais temia, e o que mais almejava até então? Talvez os dois motivos.
— Então... É bem complicado vir até aqui e falar um monte de coisas desse nível... Porque sou muito fechado e... E orgulhoso. Você sabe bem. — Ele deu de ombros, sorrindo de canto com uma dose de culpa no olhar. — Mas estou segurando isso tudo há tanto tempo... Já pensei até em escrever uma verdadeira redação no WhatsApp, só que decidi esperar para falar pessoalmente. E vai ser agora. — Daiki murmurou, brincando com a manga da própria jaqueta. Voltou-se para Taiga segundos depois, um pouco sério e apreensivo, como se estivesse escolhendo mentalmente as melhores palavras. — Eu sou muito apaixonado por você. Muito. — Reforçou com a voz meio trêmula, arqueando as sobrancelhas. — E eu realmente estou sentindo sua falta, porque parece que as coisas não fazem mais sentido para mim se você não está por perto.
Kagami entreabriu os lábios, sentindo seu sangue correr mais depressa no mesmo instante. Desitegrou-se pela terceira vez naquela noite, violentamente, mal acreditando nas palavras que sairam por entre aqueles lábios perfeitos. Simplesmente não sabia que reação esboçar... Setia-se tão radiante, e então desconfiado. Eufórico, e então acuado. Verdadeiramente perdido no caos que seu coração provocava dentro de si. Foi tão repentino. Intenso. Mas... Será que era verdade? Caralho! O que tinha que fazer agora?
Ele continuou antes que encontrasse as respostas:
— Eu fiz essa mesma cara quando me dei conta dos fatos. — Ele sorriu, sem graça, coçando a nuca mais uma vez. — Quando a gente começou a ficar... Eu me senti muito... Hm... Perdido? Sim. Perdido, porque nunca tinha acontecido algo parecido antes, entende? — Daiki continuou com a voz arrastada e grave de sempre, agora olhando para o próprio colo. — Você é a única pessoa no mundo que se encaixa em todos os meus requisitos. Lembra que te falei sobre eles? — O moreno perguntou, erguendo as sobrancelhas, mas sem desviar o olhar de seus próprios joelhos.
— Uhum... — Kagami balançou positivamente a cabeça, meio que de forma mecânica, já que ainda estava embasbacado e explodindo por dentro. Conseguia lembrar apenas do basquete e do pornô.
— Pois é... Só que, tipo, você superou minhas expectativas. Você tem algo diferente, e eu até deixei aquela lista de lado, porque parecia um troço meio... Frio, quando eu comparava com você... Ãhn, sei lá o que eu tô falando aqui. — Ele riu de si mesmo, balançando a cabeça em forma de repreensão. — Tá... Isso não vem ao caso... É... Só que em momento algum eu consegui me expressar ou dizer algo assim quando estávamos juntos, sabe? E então realmente pareceu que eu não estava nem aí pra gente... O que não é verdade. — Daiki ergueu o rosto, como se buscasse apoio em algum ponto da quadra. Após alguns segundos ele encontrou, focando o olhar na bola jogada ali perto. — Hm... Eu achei que tudo estava acontecendo muito rápido, essa nossa sintonia, mas só porque eu não conseguia entender essas coisas de sentimentos. — Daiki começou a gesticular. — Admito que estava até assustado por precisar tanto de você, porque era tudo novidade para mim, já que sempre fui bastante autossuficiente... E... E então fui adiando, e no fim não fui capaz de dizer o quanto gostava de você, sendo que isso estava acontecendo desde o nosso primeiro beijo. — Daiki soltou uma breve risada de canto, nitidamente sem graça e nervoso. — Você tem o melhor beijo do mundo e eu nunca te disse isso. Eu nunca te disse nada, e hoje me arrependo... Porque te perdi. — Ele afirmou, encarando Taiga, fazendo-o corar. Por sorte estava escuro.
O ruivo estava paralisado, sentindo cada uma das palavras fortes do moreno reverbarem em seu cérebro. Seu coração estava tão acelerado que os batimentos refletiam em sua audição, ensurdecendo-o parcialmente. Daiki provavelmente poderia ouví-los também, se chegasse um pouco mais perto... E isso significava que ele estava levando embora todas as suas defesas, com uma facilidade preocupante.
Se tudo aquilo fosse verdade, o que provavelmente era, Kagami teria uma síncope e acabaria morrendo por ali mesmo. Estava parecendo uma garotinha que sentia pela primeira vez aquele aperto gostoso no peito, aquele frio na barriga, aquela nuvem consumindo o cérebro. Em resumo, estava perdido... E completamente entregue. Problemas.
— Bem... Aí você foi viajar sem saber de nada, porque eu não consegui falar... E então voltou de Los Angeles contando... Contanto sobre o beijo roubado. — Ele engoliu em seco, olhando agora fixamente para os olhos de Kagami, com as sobrancelhas arqueadas. — Taiga, eu preciso que você acredite em mim. Todas as merdas que eu te falei naquela noite eram mentiras! As piores que já contei na vida. E eu me arrependo pra caralho de cada palavra que disse para você... Só que eu realmente fiquei puto na hora, e com muito ciúme também. Tipo, cego mesmo. — Daiki acrescentou, com a voz extremamente acelerada, nitidamente nervoso. — Por isso não consegui te ouvir direito ou tentar te entender. — Ele suspirou muito fundo, e depois de uma gigantesca pausa, ele continuou: — Eu meio que achava que nós já estávamos juntos, sabe? Mesmo que eu nunca tivesse dito o quanto gostava de você... Só que... Não tinha como você adivinhar as coisas ou ler minha mente. Né? Então... Me desculpa. Por favor. — Daiki pediu, mordendo os lábios com apreensão. — Eu fui um idiota, mas hoje faço qualquer coisa pra me redimir.
— Calma... Eu... Eu preciso pensar. — Kagami decidiu se pronunciar, pela primeira vez, mesmo que sua voz fosse quase inexistente naquele momento. Olhou para a bola no meio da quadra, que já estava bem escura agora, e então continuou, voltando-se para Daiki. — Eu... Hm... Tá! — Respirou fundo, buscando as palavras certas. Seu cérebro estava em pane, seu coração gritava como um doido, então dificultava tudo. — Eu acho que não tenho direito de exigir desculpas, sendo que também tenho grande parcela de culpa na história e... Hm... Tipo... Eu fui muito burro e ingênuo por não ter percebido os sinais que o Tatsuya me dava. — Engoliu em seco, tentando manter o olhar firme. — E eu não soube fugir quando ele me beijou, porque... Hm... Eu estava muito bêbado, e com pena por ter dito não a ele, quando ele se confessou para mim. — Admitiu, franzindo a testa. Daiki permanecia impassível, e isso era quase tranquilizador, já que da última vez ele explodiu quando contara sobre o fato. — Acho que... Fiz muita merda também. Estive pensando nisso durante alguns dias. — Suspirou fundo, passando a mão com força pelo rosto. Aquele assunto era desgastante. — Então... Eu sei lá! Tô bem perdido. Não sei o que fazer agora.
— Taiga, me escuta. A única coisa que disse que não era mentira naquela noite é que você não me devia satisfações... Porque nós não estavamos juntos, de fato. Então não foi culpa sua, entende? — Ele murmurou, diminuindo a distância entre os dois com uma jogada de corpo, levando Kagami a reagir instantaneamente, alarmado. — Só que eu demorei para entender isso, e mais ainda para entender que beijos roubados são praticamente inevitáveis... Por isso eu... Hm, não acho que você tenha muita culpa... E... Taiga, não dá pra gente só esquecer isso tudo? — Daiki questionou de repente, sério. — Tipo, anular?
— Oi? — Kagami perguntou, com a mão em meio ao seu trajeto de esfregar-se na face, tapando apenas um olho ao paralisar.
— Tipo, esquecer isso tudo que passamos e começar do zero. — Ele murmurou, esperançoso, encostando os joelhos de ambos. Taiga pareceu receber um choque elétrico através do toque. Já estava sem defesas, totalmente vulnerável... Se ele continuasse assim, tão intenso, Taiga não conseguiria pensar direito e acabaria cedendo por impulso. — Claro... Meu erro foi infinitamente pior e eu sei que você não confia mais em mim por causa disso. — O moreno revirou os olhos, coçando a nuca mais uma vez. — Só que eu sinto muito a sua falta. E eu... Quero realmente tentar de novo. — Ele subiu o tom de voz, bastante nervoso. — Posso estar parecendo um idiota desesperado aqui, mas... Não vou fazer merda dessa vez.
— Ah... — O ruivo engoliu em seco, assim que Daiki apoiou a mão quente em um de seus ombros.
— Se você olhar para mim agora e dizer que é tarde demais para isso, eu juro que não vou insistir. Vou realmente te deixar em paz, porque sei que fui o maior culpado de termos perdido tudo o que tínhamos. — Aomine murmurou em voz baixa, aproximando o rosto de ambos. — Mas... Se você ainda sentir alguma coisa e quiser tentar me dar uma segunda chance, eu vou te provar que você pode confiar em mim... Porque eu realmente sou apaixonado por você. Eu... Eu sinto tanto sua falta Taiga. — Ele mordeu os lábios, arriscando passar os dedos por sua face, mas logo abaixou a mão, relutante. — É estranho, mas eu descobri que preciso muito de você. Muito.
Por que ele tinha que ser assim? Quando Aomine dizia aquelas coisas, Taiga sentia-se extremamente mexido, nem sabia como ainda respirava. A proximidade era quase sufocante, como se seu corpo precisasse tocá-lo de uma vez por todas para continuar vivo. Mas... Confiar novamente ou não confiar? Eis a questão... No entanto a resposta era esboçada por seus olhos, por seu corpo trêmulo, por seu coração desesperado, por seu sorriso teimoso surgindo em seu rosto. Era óbvio que queria ele por perto, que queria tentar de novo... Porém precisava usar um pouco de razão agora. Só um pouquinho.
— Eu... — Kagami murmurou, suspirando fundo ao desviar o olhar para a quadra. Foi torturante sorver aquele aroma da pele de Daiki, misturado com um mínimo de transpiração do basquete. Era um cheiro tão bom, nostálgico. Droga, como sentia falta. — Eu supostamente deveria olhar para você e dizer que é tarde demais para a gente tentar de novo. — O ruivo sibilou, dando-se por vencido, ao voltar a encará-lo. — Mas eu não quero fazer isso, porque eu nunca deixei de gostar de você, mesmo depois daquilo tudo... E também sinto sua falta. O tempo todo. — Admitiu, arqueando as sobrancelhas. — Eu acho que... Podemos tentar de novo. Do zero.
Um sorriso besta e gigante surgiu no rosto de Daiki, que sinceramente parecia outra pessoa naquele momento. Aquilo levou as últimas resistências de Taiga embora, junto com todas as coisas ruins que guardava dentro de si. Não enganava ninguém com essa atitude durona e resistente. Quando as coisas estavam prestes a se resolver, tudo mudava. Parecia um sonho, ou até mesmo uma pegadinha... Mas não. Era real. Estava acontecendo.
Amava aquele idiota, só precisaria de algum tempo para confiar nele mais uma vez. Ainda tinham MUITO o que conversar... Mas pelo visto acabara de encontrar a saída de seu labirinto infernal. Kagami caminharia com calma até ela, e tinha certeza que durante esse trajeto, as memórias desagradáveis seriam deixadas para trás.
Por algum motivo tinha certeza de que Daiki não iria desapontá-lo... Talvez por sua inocência natural. Nada disso importava agora. Só queria ser feliz, e com a pessoa por quem era irrevogavelmente apaixonado.
Dando um passo de cada vez...
***
Sexta-feira — 01h22min
~Aomine Daiki~
Beirando ao êxtase. Esse era o estado de Aomine Daiki no momento, o que o impedia de pegar no sono.
Deitado sozinho em sua cama, o moreno não sabia se aquilo tudo era um sonho utópico, ou se era o melhor dia de sua vida. Será que iria cair alguma bomba de algum lugar para explodir toda sua alegria, ou estava tudo bem mesmo? Aomine ainda tinha suas dúvidas, pois parecia incrível demais para ser verdade. Quase fácil demais. Não importava. A única coisa em que valia a pena pensar naquele momento é que Taiga o aceitara de volta, por algum milagre. Cada vez que lembrava desse fato, Aomine percebia suas bochechas doerem de tanto sorrir... E, sinceramente, nunca havia tido essa sensação antes.
Daiki parecia desintegrado, com todas as emoções voando ao seu redor, como se estivessem soltas em um lugar sem gravidade. A verdade é que se via como um ser patético naquele momento, já que esquecera-se de dizer várias coisas para Kagami... Isso sem falar que gaguejou o tempo todo, mal conseguiu se expressar, nem mesmo lembrou de comentar sobre as alianças e sobre vários outros pontos importantes que havia repassado em mente zilhões de vezes. Um verdadeiro débil mental, ridículo, retardado... Mas ainda assim, bem sucedido.
Agora teria uma nova chance para se redimir e falar tudo o que sentia. Aos poucos, como ele pedira.
O alívio que dominava Daiki naquele momento era gigante, imensurável, no entanto a saudade era maior ainda. Constantemente o moreno tocava os lábios com a ponta dos dedos, buscando restaurar a sensação do selinho relutante de despedida que ganhara de Kagami. Mal acreditara que aquele dia tão monótono se transformaria na grande perfeição do universo.
— Ai meu caralho! Ai meu caralho! Ai meu caralho! — Riu para o teto escuro do quarto, revirando-se de um lado para o outro na cama. Patético, mas feliz. Ninguém estava vendo. Seria sua eterna desculpa. — Eu não ACREDITO! — Sorriu, debatendo-se no colchão, socando-o e chutando-o em um evidente sinal de euforia e pura empolgação. — Taiga! — Sorriu ao relaxar o corpo, pronunciando o nome apenas para sentir o prazer do ar roçando em seus lábios. — Meu Taiga. — Arriscou dizer, sorrindo com uma espécie de culpa secreta.
Em breve ele seria seu de verdade, e então jamais o deixaria ir novamente. Jamais!
~Kagami Taiga~
Taiga não encontrava sono em lugar nenhum, estava contente demais para isso. Como dormir, quando sabia que Aomine Daiki estava em algum lugar de Tóquio, deitado, sozinho, pensando em si? Ou era presunção inocente demais de sua parte imaginar algo do gênero?
Não. Não era.
— Puta que me pariu, ele realmente gosta de mim. Ai meu caralho! Ai meu caralho! Ai meu caralho! — O ruivo sentiu os caninos roçarem os lábios mais uma vez, assim que abriu seu maior sorriso dos últimos tempos. — Isso não pode ser real. — Fechou os olhos, suspirando fundo, já que a euforia mal o deixava respirar.
Por mais que tentasse fazer-se de durão, Kagami não conseguia enganar ninguém — era transparente demais para isso. O ruivo delirava por dentro, louco de curiosidade, saudade, vontades. Lógico, ainda precisava de um pouco de tempo para que sua vida ficasse realmente nos eixos — as conturbações eram variadas demais para tudo se ajeitar da noite para o dia —, mas Daiki prometera provar que estava apaixonado, que era de confiança, que não iria decepcioná-lo mais uma vez...
Quase nem precisava de provas ou qualquer outra manifestação de Daiki, precisava apenas sentí-lo perto de si mais uma vez. Assim que deu-lhe um selinho impulsivo de despedida e saiu da quadra, Taiga arrependera-se de não ter dado um beijo de verdade — lento, longo, carinhoso —, no entanto isso contrariaria completamente a decisão que tomaram. Seguiriam com calma, naturalmente, sem pular etapas, sem cometer erros. Estavam começando do zero, afinal.
— Isso não parece verdade. Caralho!— O ruivo sibilou pela milésima vez naquela noite, animado, buscando o celular em baixo de seu travesseiro com a mão direita.
Como sempre, a claridade praticamente o cegou assim que seu polegar deslizou pela tela, desbloqueando o aparelho. Quando abriu os olhos novamente, Kagami constatou que já era muito tarde — perto das duas da manhã. Precisava dormir, pois teria aula no dia seguinte, no entanto o sono não chegava nem perto de sua pessoa naquele momento. Teve outra ideia (mil vezes melhor que dormir), mas algo o fez hesitar quando abriu o WhatsApp.
— Será? — Perguntou para o ar, abrindo a caixa de diálogos vagos que mantinha constantemente com Aomine Daiki. — Sim, e que se foda tudo. — Sorriu de canto, digitando uma mensagem.
Kagami Taiga: Está acordado?
A resposta veio quase de imediato, como se Daiki estivesse com o celular em mãos.
Aomine Daiki: Tô sim!
Kagami Taiga: Não consigo dormir.
Aomine Daiki: Tbm ñ. Tô feliz demais pra isso.
— Idiota. — O ruivo riu, digitando a resposta logo em seguida.
Kagami Taiga: Digo o mesmo.
Aomine Daiki: Qro q chegue logo sábado :D
O ruivo sabia que ele se referia ao Interescolar. Também encontrava-se muito animado e ansioso para esse dia, antes apenas devido ao campeonato, mas agora encontrara um novo motivo, que era quase maior... Não, não era maior. Era apenas diferente, igualmente intenso. Não devia misturar as coisas, já que também amava o basquete com todas as suas forças.
Kagami Taiga: Eu também quero que chegue. Estou bem ansioso.
Aomine Daiki: Vai jogar d manhã ou só d tarde?
Kagami Taiga: Os dois. De manhã contra Reitaku, de tarde contra Shutoku. E vocês?
Aomine Daiki: Só d tarde. Vamos jogar contra Kirisaki qqr coisa, e dps contra Yosen.
Aquilo fez Taiga diminuir um pouco o tamanho de seu sorriso. A partida 'Aomine x Himuro' era um detalhe que havia esquecido devido à empolgação de seu dia. Kagami decidiu deixar aquele assunto momentaneamente de lado... Provavelmente era paranoia sua ficar imaginando desastres para esse jogo. Não devia misturar as coisas.
Kagami Taiga: Tô sabendo.
Aomine Daiki: Só q qro q chegue p/ eu t ver, e não só p/ jogar.
Kagami Taiga: Digo o mesmo, porque também quero te ver.
Aomine Daiki: Tô c/ saudade.
A mensagem repentina fez Kagami quase cair da cama, mas logo recompôs-se e começou a digitar, mais bobo do que antes. Parecia bom demais para ser verdade... E isso quase dava medo. O ruivo afastou logo essa ideia de sua mente. Não tinha como algo dar errado dali para frente... A menos que Daiki fosse um verdadeiro filho da puta, psicopata, doente. O que provavelmente não era.
Kagami Taiga: Também estou com saudade.
Aomine Daiki: Vlw por me dar uma 2ª chance.
Kagami Taiga: Valeu por ter pedido uma, e por ter falado tudo aquilo para mim.
Aomine Daiki: Na vdd esqueci d falar mil coisas.
— Oi? — O ruivo ergueu uma das sobrancelhas, curioso. Muito curioso.
Kagami Taiga: Tipo...?
Aomine Daiki: Sábado t falo tdo.
Kagami Taiga: Injusto .-.
Aomine Daiki: É só pra vc ficar morrendo d curiosidade. Sei q já tá. Rsrsrsrs.
A frase fez Kagami rir sozinho, mal acreditando na pretensão imensa ali contida. Uma vez Aomine Otário Daiki, sempre Aomine Otário Daiki. Kagami precisou digitar sua frase clássica.
Kagami Taiga: Convencido de merda.
Aomine Daiki: Foi mal. Ñ tenho moral p/ isso ainda, né?
Kagami Taiga: Não. Kkkkkkkk.
Aomine Daiki: Bosta. Dps dessa vou dormir. Rsrsrsr.
— Seu idiota! — O ruivo ria como um bobo trocando aquela mensagem mais boba ainda durante uma madrugada de quinta para sexta-feira. Sabia que estaria virado em um trapo no dia seguinte, mas a animação permitiria que ficasse ali até amanhecer, e que a aula fosse para o inferno.
No fundo Kagami apenas desejava que o sábado chegasse o quanto antes. Tipo, agora! Se estava sendo imprudente, precipitado ou ingênuo, nem ligava mais. Estava feliz. Era um idiota apaixonado, e isso não iria mudar tão cedo.
***
3h33min
~Kuroko Tetsuya~
O rapaz despertou assustado, sentindo uma única vibração em seu travesseiro. Após passar alguns segundos com a mente nublada, Kuroko começou a raciocinar, virando-se para seu relógio, na cômoda ao lado da cama. As letras verdes e digitais mostravam três números idênticos, levando-o a ter um breve calafrio por toda a espinha. Foi impossível não lembrar do filme 'Contatos de Quarto Grau'*, e aquilo o deixou bastante irritado.
— Você fez por querer, não é? — Sibilou indiretamente para o remetente da mensagem do celular, unindo as sobrancelhas. Ele manipulava seu psicológico de um jeito muito estranho. Era o único que sabia de seu medo ridículo de extraterrestres... E gostava de provocar.
Com um suspiro aborrecido, Kuroko buscou pelo celular e desbloqueou a tela logo em seguida. Após alguns segundos de desconforto com a luminosidade da tela, o rapaz revirou os olhos ao abrir o WhatsApp.
Akashi Seijurou: Tetsuya, precisamos conversar. Agora.
Há tempos Kuroko enojara-se daquele modo imperativo, absoluto e dominante que Akashi usava para dirigir-se à qualquer pessoa, no entanto, quando era consigo, o tratamento parecia multiplicar-se por cem. Insuportável. Hoje, após muita meditação e raciocínio, Kuroko não acreditava deixara-se envolver por uma figura amigável que fantasiara em cima do verdadeiro Akashi Seijuro, que doou-se mais do que deveria por uma máscara, que fora perdidamente apaixonado por uma mentira.
É como as pessoas falam: O amor é cego, surdo, mudo e principalmente teimoso. Aprendera da pior forma. Com a dor e com o terror
Kuroko Tetsuya: Não Akashi-kun. Nossos assuntos em comum se resumem aos campeonatos de basquete e você sabe disso.
A resposta não demorou à chegar.
Akashi Seijuro: Não gosto da maneira como você tem me tratado ultimamente. Por que está fazendo isso?
Kuroko Tetsuya: Porque eu cansei de ser seu brinquedo. Estou seguindo em frente agora.
Akashi Seijurou: Como assim Tetsuya?
Kuroko Tetsuya: Está decidido. Me deixe em paz.
Sem pensar muito mais, Kuroko desligou o celular e o devolveu ao seu lugar de origem. Seu olhar dirigiu-se novamente ao relógio, que agora apontava 3:35 da manhã. Pronto, perdera o sono e agora estava com aquela sensação incômoda do medo no peito. Mais uma vez ele conseguira deixá-lo ansioso... E não só por causa dos ET's.
— Cretino. — Kuroko suspirou, fechando os olhos para pensar em coisas boas e conseguir dormir novamente. Isso não aconteceu.
Conhecia Akashi há anos para imaginar o que ele planejava. Seijuro estava circundando-o mais uma vez, preparando território, tentando conquistar novamente... Seria inútil. Kuroko já caíra duas vezes na mesma armadilha, acreditando que ele voltaria a ser gentil como antes, quando se conheceram. Ingenuidade pura. Por isso entendia o lado de Kagami como ninguém.
Kuroko enganara-se com a personalidade de Seijurou mais de uma vez... Sabia que após se aproximar, ele começaria a sugar-lhe, exigir, persuadir, amedrontar-lhe por achar 'excitante'. Com ele era sempre a mesma história. Akashi simplesmente pedia coisas impossíveis de serem realizadas, manipulava, tentava controlar através de jogos psicológicos que nem mesmo Kuroko conseguia compreender. Ele o dava uma espécie de pavor, mesmo que por trás de tudo ele esboçasse aquele sorriso gentil.
Era bipolar e intenso, enquanto Kuroko era calmo e centrado. Uma mistura que não daria certo, pois opostos NÃO se atraem. Não valia a pena tentar uma terceira vez, ainda mais agora que seu coração finalmente começava a bater por outra pessoa.
Kise... Ele sim gostava de si pelo que era, e não pelo que gostaria que fosse. Jamais o assustaria por prazer próprio.
O pensamento bom foi tomando a mente de Kuroko e a lembrança das declarações que recebera logo o fizeram sorrir. Hoje talvez estivesse preparado para estar com Ryouta sem ficar preso à um fantasma do passado. Em hipótese alguma gostaria de magoar o loiro, por isso não prometia coisas que não seria capaz de cumprir, por isso sempre recusava suas confissões... A partir de agora isso começaria a mudar. Quem sabe?
Não demorou muito para Tetsuya fechar os olhos e adormecer. Esquecera-se completamente dos extraterrestres, de Akashi e de todas as coisas que o colocavam medo. Só conseguia lembrar do cheiro de baunilha que o cabelo de Kise exalava.
Gostava muito de baunilha.
...
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