Notas iniciais
Apareci. Bem, só posso pedir para que me desculpem pela demora... Explicações no vídeo das considerações finais. Vamos de leve. Boa leitura meus anjos!

Sábado — 6h38min

~Aomine Yumiko~

Soltando um muxoxo de pura preguiça, a mulher fechou a porta da casa com um leve baque e deixou os sapatos de salto alto largados pelo tapete da sala — como sempre —, apesar de eles estarem com um pouco de umidade em sua sola. A chuva caía com muita intensidade do lado de fora, aumentando mais ainda a vontade de Yumiko desabar em uma cama quente e macia e dormir até o fim dos tempos. A madrugada de trabalho no aeroporto fora deveras exaustiva, como se as férias escolares de verão tivessem sido adiantadas... Não queria nem imaginar como seria o movimento no local quando elas realmente chegassem.

Andando à passos lentos e cansados em direção à cozinha, a mulher soltou seus cabelos curtos e azuis, presos em algo parecido com um coque disforme e desgrenhado — mas que fora milimetricamente arrumado antes de sair de casa. Arrastando suas meias finas pela madeira do assoalho, Yumiko chegou à cozinha com os olhos quase fechados, tamanho era seu cansaço.

— Bom dia! — A voz grave e melodiosa de Daiki soou pelo ambiente assim que a mulher o adentrara, intuitivamente. O susto que levou no ato não foi pequeno, levando-a a segurar a respiração para não gritar.

— Você quer matar a sua mãe? — Yumiko reclamou com os olhos arregalados, levando a mão ao peito palpitante. Alguns segundos depois do baque inicial, ao ver o filho apoiado na pia da cozinha rindo de si, Yumiko parou para pensar claramente e se deu conta de que Aomine Daiki estava acordado as 6h40min, em uma manhã de um sábado chuvoso. Não podia significar boa coisa. — Está tudo bem amor? — Uma mínima preocupação tranpareceu por sua voz.

— Tudo ótimo! — Ele sorriu mais ainda, largando uma xícara parcamente lavada na bancada da pia. — Consegui até fazer um projeto de omelete. Ficou uma bosta. — Daiki deu de ombros, conformado, espreguiçando-se.

— Quem é você e o que fez com meu filho? — Yumiko perguntou, pasma e irônica, esticando o braço para se apoiar na cadeira de forma teatral, enquanto caminhava até ela.

— Ah, começou. — O moreno revirou os olhos vendo sua atitude, mas logo sorriu de canto, como sempre. — Só acordei cedo porque hoje tenho o Interescolar. Ou você esqueceu? — Aomine perguntou, enxugando as mãos na toalha de secar a louça, levando Yumiko a desaprovar internamente a atitude, já que o pano das mãos estava apoiado no lugar do pano das mãos. Ele era muito desatento.

— Não esqueci não. — A mulher ergueu uma das sobrancelhas, desafiadoramente, enquanto ajeitava-se na cadeira. — Tanto é que me recordo que seus jogos acontecem apenas no período da tarde.

— Sim, mas a abertura formal do campeonato é as oito e meia da manhã. — O moreno replicou com naturalidade, assentando-se logo à sua frente. — Então quero estar lá.

— Está doente, amor? — Yumiko perguntou, inclinando o corpo e esticando o braço por cima da mesa, na intenção de tocá-lo na testa. — Acordou com febre? — Debochou, não conseguindo segurar o riso.

— Retardada. — Ele riu de sua atitude, dando um tapa fraco em sua mão. — Só estou de bom-humor.

— Motivo? — A mãe ergueu uma das sobrancelhas ao se ajeitar novamente, já suspeitando do que se tratava tudo aquilo.

Daiki estava agindo assim — sonhador, digitando no celular o tempo todo, sorrindo como um bobo, cantarolando pelos cantos — desde o dia anterior, então o sexto sentido de Yumiko já apitara em alerta. A mulher tinha um ótimo palpite sobre o motivo de tanta alegria no semblante de seu filho, porém estava esperando que ele contasse por si só, em seu próprio tempo.

— Ah, então eu preciso de um motivo para estar de bom-humor? — Daiki ironizou durante a pergunta, erguendo as sobrancelhas, apenas para provocá-la.

Era impressionante como ele conseguia ser irritante e cínico quando queria. Custava apenas responder e sanar sua curiosidade?

— Nesse caso sim. — A mulher assentiu com simplicidade, cruzando os braços por cima da superfície da mesa. — Quando se trata... Hm... — Fez uma pausa dramática para olhar no relógio do pulso. — Das seis e quarenta e seis da manhã de um sábado chuvoso, acredito que deva existir um bom motivo para você estar acordado, fazendo omelete e piadinhas... E tenho certeza que esse motivo não é o Interescolar. — Yumiko cerrou os olhos, avaliando as reações do filho. Ele era muito parecido consigo.

— Ok. Isso foi bem justo. Vou contar. — Daiki riu, sem jeito, passando os dedos por entre seus cabelos espalhados. — Tudo indica que... — Ele ampliou o sorriso, fazendo uma pausa dramática também. — Eu e o Taiga estamos voltando.

O sorriso não coube no rosto da mulher, assim como o alívio de ver o brilho nos olhos do filho não coube em seu peito. Tudo estava bem agora. Reconhecia seu menino mais uma vez.

***

07h36min

~Kagami Taiga~

— Não dormiu direito, hein Kagami? — A voz severa e grave de Hyuuga cortou o silêncio em algum ponto as suas costas, assim que passaram pelo portal de cimento e vidro que compunha a entrada do Centro Poliesportivo de Tóquio.

'Não... Eu estava ansioso demais para dormir, por isso fiquei conversando com o Daiki até as quatro da manhã sobre como os filmes da Marvel são melhores que os da DC Comics.'. O ruivo respondeu mentalmente, sorrindo, mas virando-se para encará-lo com uma careta culpada e rendida. Tudo no semblante do capitão indicava que ele estava puto consigo, afinal, o ruivo dormira durante o trajeto inteiro que fizeram de ônibus, então perdera a tradicional reunião pré-campeonato.

— Kagami-kun, quantas vezes a gente já brigou com você por causa disso? — Riko bufou logo ao seu lado, surgindo exatamente como Kuroko fazia de vez em quando. Por pouco o ruivo não se assustou. — Saiba que se você fizer alguma estupidez na partida por causa de indisposição... — Ela ameaçou com a voz baixa, passando o dedo em riste pela garganta. — Morto!

O ruivo engoliu em seco, mas tranquilizou-se ao ouvir a risada descontraída dos outros membros do time. Até mesmo Riko sorriu depois daquilo, aliviando completamente o clima pesado. Mesmo que Teppei não estivesse mais ali, sua filosofia entranhara-se no time da Seirin: A diversão deve vir em primeiro lugar!

Apesar de todos estarem bem sonolentos enquanto cruzavam aquele corredor tão conhecido — e apinhado de jogadores de várias escolas —, a tensão gostosa já marcava presença. Era a ansiedade pré-jogo, sempre tão forte na vida de Taiga que mal o permitia pregar o olho durante a noite. No entanto o frio na barriga tinha um motivo a mais dessa vez... Porém ele só viria para o ginásio durante a tarde.

Preguiçosos não acordam numa manhã chuvosa de sábado. O ruivo foi obrigado a sorrir de canto com o próprio pensamento, lembrando-se de Daiki. Vê-lo agora estava se tornando uma questão de urgência, mesmo que ainda fosse um pouco cedo para pensar dessa forma desesperada e até mesmo boba.

A grande verdade era que Taiga sentia uma falta gigantesca do moreno, algo que já vinha sendo acumulado desde o final do ano anterior, antes mesmo de viajar para Los Angeles... No entanto essa vontade agora parecia tranbordar por todos os seus poros, como se fosse um verdadeiro vulcão em erupção. Tudo bem que prometeram recomeçar do zero e com calma, mas Kagami sentia uma necessidade muito maior do que isso... Mesmo sendo teoricamente 'errado'.

Era como se seu olfato, seus olhos, sua pele, seus lábios, seu... Bem... Era como se tudo em seu corpo estivesse pedindo pelo presença de Daiki, pelo contato, pelo calor de sua pele, pela sua essência preguiçosa, arrogante e extremamente sexy. Mas essa necessidade não estava apenas relacionada ao sexo — apesar de que a única coisa concreta que fizeram no passado estava relacionado à foda em si —, mas em tudo. Precisava sentí-lo. Seu coração pedia pelo moreno, já que fora o mais danificado com essa distância toda. Apenas isso. Dane-se se era um gesto precipitado de sua parte.

Com um suspiro que misturava o cansaso e a frustração, Kagami permaneceu caminhando silenciosamente pelos corredores junto aos companheiros. Teria que esperar e focar apenas no Interescolar por hora.

Ao redor era possível perceber o burburinho das outras escolas à respeito da Seirin, assim como também era evidente a falta de discrição de alguns alunos, que apontavam enquanto o time estava passando. 'Eles foram os campeões da Winter Cup', Kagami ouviu alguém falar à sua direita, mas não virou-se para localizar o fofoqueiro. Obrigou-se a sorrir com orgulho, mesmo que suas pálpebras estivessem fechando sozinhas.

— Oe... Preciso lavar meu rosto. Tá foda. — O ruivo anunciou segundos depois para quem quisesse ouvir, passando a mão com força pela face. Acabou atraindo os olhares de Kuroko e Izuki, que caminhavam ao seu lado.

— Vai lá Kagami-ku-

— RIKO-CHAN! — A voz estridente e animada de Momoi ecoou por todo o local, interrompendo Kuroko e chamando mais atenção do que deveria. Como sempre.

Intuitivamente Kagami ergueu os olhos, anteriormente fechados. Onde ela estava Aomine também estava, era uma dedução bem simples e que sempre dava certo... Porém dessa vez não foi assim, para seu ínfimo desapontamento.

Momoi Satsuki vinha sozinha, cruzando o corredor com um largo sorriso e com uma prancheta em mãos. Parecia bem entusiasmada quando pulou para abraçar Riko, dando um beijo estalado em sua bochecha. Todo mundo estranhou a atitude, até mesmo a própria treinadora, que parecia envergonhada demais para se manifestar.

— Oi oi, Seirin! — Momoi cumprimentou, ainda com o braço livre passando ao redor da cintura de Riko, sorrindo para os demais presentes. — Preparados para hoje?

— M-muito! — A treinadora disse, estupidamente corada, com a voz trêmula e nada convincente.

— Ah, que bom! Espero que amanhã a gente possa disputar juntos a semi-final, já que estamos na mesma chave! — Momoi sorriu, apertando Riko contra si. Taiga desviou o olhar, pois era uma cena bizarra e contrangedora demais para suas retinas suportarem. Se estivesse no lugar da treinadora, desejaria sumir. — Kagamin, posso falar com você por um minutinho? — A voz de Momoi chamou sua atenção novamente, fazendo-o sobressaltar-se.

O fato acabou atraindo o olhar de todos.

— Hm... Acho que... Sim? — O ruivo engoliu em seco, franzindo a testa enquanto olhava para os lados, meio confuso. Foi repentino demais para seu gosto.

— Ótimo! — Ela sorriu, voltando-se imediatamente para Riko. — Já devolvo seu ás, ok? — Disse com uma piscadela, deixando um beijo na outra bochecha da treinadora (que mais parecia um pimentão vermelho).

Após trocar algumas palavras rápidas com Kuroko, Momoi veio decidida em sua direção e enganchou-se em seu braço com uma naturalidade espantosa. Era a vez de o ruivo desejar sumir por si só, ainda mais vendo o olhar estupefato dos amigos do time em sua direção. Eles estavam pensando merda, muita merda. A vontade de explicar o acontecimento surgiu de forma involuntária em Kagami, no entanto não saberia como explicar... E nem conseguiria, pois Momoi já o puxava para a direção oposta com uma força que quase não condizia com seu tamanho.

— Ansioso para os jogos de hoje? — Ela começou o assunto assim que viraram uma das esquinas do lugar, guiando-o para sabe-se lá onde no meio daqueles corredores cheios de portas iguais.

— Ãhn, sim. — O ruivo afirmou, olhando para a frente como se estivesse tudo bem. — E... Você? — Não soube como continuar a conversa, então optou pelo óbvio.

— Sempre fico. Mas estou confiante. Conseguimos ótimos jogadores esse ano e Wakamatsu é um excelente capitão. — Momoi sorriu, dirigindo-se até a máquina automática de bebidas, que ficava no final do corredor dos banheiros. Kagami aliviou-se por dentro, já que aquela seria a melhor desculpa para desvencilhar-se da menina. O banheiro. E além de tudo, precisava lavar o rosto (e mijar agora). Uniria o útil ao agradável. — Quer um suco, Kagamin? — Ela perguntou antes que o ruivo pudesse tomar qualquer atitude, soltando-o ao caminhar em direção à máquina.

— Ah... Não! — Taiga respondeu de imediato, levantando uma das sobrancelhas. Constrangido, continuou: — Mas... Obrigado.

— Tudo bem. — Satsuki sorriu de canto, já escolhendo um suco de laranja com um clique no botão. Assim que se virou com a latinha já em mãos, ela sorria de uma maneira mais serena. — Vou ser rápida, Kagamin, prometo. Só queria te agradecer.

— O-oi? — O ruivo estranhou, vendo-a sentar-se em um banco comprido de madeira que havia ali perto. Seguiu até lá, sentando-se ao lado dela. Precisaria tentar ser educado dessa vez, mas não levava muito jeito com meninas.

— Por você ter ouvido o Dai-chan e por ter dado a ele uma segunda chance. — Ela sorriu, fechando os olhos em seguida. — Vocês são muito bonitinhos quando estão juntos, e ele gosta muito de você. — Momoi reforçou, tirando o lacre de sua latinha.

— Hm... — O ruivo coçou a nuca, sem saber como agir ou o que dizer ao certo. — Eu... Eu também gosto dele. — Engoliu em seco, olhando para o chão. — Não tinha como... Não dar uma segunda chance. — Deu de ombros, sem conseguir encarar a menina.

— Fico muito feliz em saber disso. — Momoi soltou uma risadinha engraçada, tomando o primeiro gole de seu suco. — Sabe, estive ao lado do Dai-chan durante esse tempo todo, e sei que ele demorou para se convencer de que errou com você, mas eu sei também que lá no fundo ele sentia muito remorso por tudo. Bem, ele tem aquele jeitão orgulhoso que é difícil de derrubar.

— É. Mas já... Já está tudo certo entre a gente. — Kagami limitou-se a dizer, fazendo um gesto no ar com uma das mãos. Não estava nem um pouco inclinado à falar sobre sua vida particular com ela, mas não por falta de educação, apenas por puro constrangimento.

Ela era uma menina, a melhor amiga de Aomine e estava perto demais, quase encostando em sua coxa!

— Você faz muito bem ao Dai-chan, e isso me deixa muito feliz. Ele volta a ser o Dai-chan de sempre, sorridente e feliz, sem aquela ruga feia na testa. — Momoi comentou com animação, tomando mais um gole em seu suco. Após uma curta pausa silenciosa, ela continuou: — Sabe Kagamin, ele sentia muito a sua falta quando vocês estavam separados. Ele acha que não sei, mas eu o flagrava olhando para as alianças durante a aula toda nos últimos tempos.

— Hã? — O ruivo sobressaltou-se, virando o rosto de imediato para encará-la pela primeira vez naquela manhã. Ela tinha os olhos cor-de-rosa demais, e aquilo era meio desconcertante. — Que... Que alianças?

— Hã? Eu disse alianças? — Ela riu, mas parecia estar apenas disfarçando, pois logo tomou um gole de seu suco. — Eu quis dizer que ele ficava olhando para o celular, lendo as conversas de vocês. Nossa! — Momoi riu novamente, dando um tapa em sua própria testa. — Desculpe, estava pensando em outra coisa e troquei as palavras.

— Ahn, ok. — Kagami franziu a testa, deixando o assunto para lá. Ela deve ter se confundido mesmo, pois alianças significam namoro e compromisso... Nada a ver com alguma atitude que Daiki tomaria, ainda mais nas ciscunstâncias em que se encontravam.

— Bem. Era isso. Só queria te agradecer por fazer bem ao Dai-chan e trazê-lo de volta. Você o ajuda mais do que imagina. — Momoi levantou-se sorrindo enquanto ajeitava a saia e pegava novamente a prancheta. — Obrigada!

— Hm... De nada. — Kagami sorriu sem jeito, levantando-se também. Não fizera grande coisa, então não sabia o que dizer, por isso mudou de assunto: — Você... Sabe se ele vem agora de manhã? — Perguntou, tentando parecer alheio, mesmo quando queria desesperadamente saber do fato.

— Acho que não. — Ela soltou um muxoxo pesaroso, percebendo sua frustração. — Acredito que só venha para jogar, durante a tarde mesmo.

— Imaginei. — O ruivo assentiu, sorrindo de canto ao olhar distraidamente para a plaquinha do banheiro masculino. — Ele é um preguiçoso.

— É sim. Bem, vou procurar os outros. — A menina acenou e começou a andar até o final do corredor. — Boa sorte nos jogos, Kagamin.

— Valeu. — O ruivo fez um gesto com a cabeça, vendo-a se afastar.

Assim que Momoi sumiu pela esquina do corredor, Kagami suspirou fundo, soltando o ar pela boca com calma. O ruivo sempre teve dificuldades extremas em ficar sozinho com garotas — até mesmo estar na companhia de Alex era complicado —, mas com Satsuki era mil vezes pior, talvez por ela ser bonita, feminina e possuir peitos gigantes. Era bem incômodo.

Deixando o fato de lado, Kagami olhou para a máquina de bebidas procurando por seu suco preferido. Blueberry. Ainda havia dois sobrando, então acabaria comprando um, mas apenas depois de fazer xixi e lavar o rosto. Torcia para que ainda estivessem lá quando saísse do banheiro.

~Aomine Daiki~

O moreno caminhava pelos corredores do Centro Poliesportivo de Tóquio com sua paciência natural, olhando para os lados com as mãos nos bolsos da jaqueta escura do uniforme. Vinte porcento de si buscava por Satsuki e o resto da galera da Touou, já os outros oitenta porcento estavam desesperadamente farejando Kagami em qualquer buraco que via pela frente.

Onde estavam os encontros acidentais agora?

Daiki percebia-se em um estado incontrolável de vontade de ver Taiga, tanto é que acordara cedo naquele sábado chuvoso e tão propício para ficar na cama apenas para isso. Essa euforia era uma sensação tão boa que levava Aomine a sorrir espontaneamente, em qualquer lugar, em qualquer situação. Parecia um verdadeiro retardado, mas isso não importava.

Às vezes o moreno parava para pensar que não se reconhecia mais, no entanto não era bem assim, pois finalmente encontrava-se dentro de si novamente. Houve um tempo em que fora alguém livre do tédio e do individualismo egoísta e exacerbado que cultivara com tanto apreço nos últimos anos... Felizmente agora voltava a ser o mesmo de antes, e simplesmente porque estava apaixonado e sem medo de assumir isso para si mesmo, porque Taiga o fazia bem pra caralho, porque ele o dera uma segunda chance, porque ele era a pessoa que faria parte sua vida por tempo ilimitado. Fora sua escolha.

Desde quinta-feira, quando fizeram as pazes, Aomine sentia uma vontade imensa de mostrar para Taiga que não cometeria novos erros, que levaria a sério o relacionamento que estavam recomeçando, que poderia ser o cara que o faria mostrar os caninos enquanto sorria.... Provaria a ele que o amava, porque sim, o amava. Não havia outra explicação para tanto rebuliço e mudanças em sua vida.

Era um sentimento bem mais forte do que aparentava no início de tudo.

— Cadê você, Bakagami? — O moreno resmungou com a voz lenta e baixa, olhando para os dois lados de uma esquina, em busca do uniforme da Seirin. Não encontrou nada além de um bando de alunos animados de outras escolas.

Tudo ali era igual demais, logo acabaria se perdendo.

Com um suspiro preguiçoso, Aomine caminhou em direção à máquina de bebidas no final do corredor dos banheiros, dando uma pausa em sua busca. O moreno escovara os dentes duas vezes naquela manhã — uma antes e outra depois da refeição —, mas parecia que o gosto do omelete horrível que preparara mais cedo não saía de sua boca. Tomaria alguma coisa para acabar com aquela sensação incômoda.

Daiki olhou para os sabores de suco disponíveis na máquina e um sorriso de canto surgiu em seus lábios ao ver que ainda restavam duas latinhas de Blueberry Juice. Era o seu preferido. Compraria as duas, apenas para ter uma de reserva. Pura preguiça de voltar até ali mais tarde...

Após depositar o dinheiro na máquina e ver as latinhas rolarem pelo compartimento, o moreno agachou-se com uma calma proposital para apanhá-las. Precisaria economizar bastante energia naquela manhã, já que jogaria duas vezes durante a tarde, e em uma das partidas havia um prazer especial contido... Era contra o Franjinha, o cara arrogante e nojento que roubara um beijo de Taiga, mesmo sabendo que ele tinha dono.

Não que Aomine fosse uma pessoa super vingativa ou que costumava misturar as coisas, mas uma vitória humilhante no basquete seria uma ótima forma de colocar o Seboso em seu lugar. Já não fora com a cara dele desde o começo, e além de tudo ele o provocara o tempo todo na festa de aniversário de Kuroko, exibindo-se por estar com Kagami... Agora teria o que merecia, mas em quadra.

Ainda haveria Murasakibara no meio do caminho, mas aquele era outro detalhe.

Em meio aos pensamentos entusiasmados sobre a partida contra Yosen, Aomine girou o tronco para abrir o zíper da bolsa que pendia de seu ombro direito, na intenção de guardar uma das latinhas ali. Um movimento na porta do banheiro adentrou seu campo periférico de visão, e o moreno não precisou de meio segundo para descobrir quem era o dono daqueles cabelos vermelhos e castanhos. Seu coração quase explodiu no ato, e as latinhas quase escorregaram de sua mão.

— A-Aomine? — A voz surpresa de Taiga cortou o burburinho das pessoas que passavam pelo corredor perpendicular, levando o coração do moreno a acelerar mais ainda.

Obrigado, encontros acidentais. O moreno pensou, sentindo um sorriso besta cortar seu rosto, assim que voltava-se na direção de Kagami. Aomine tinha certeza que agia como uma menininha desesperada naquele exato momento... Mas não era o único, e isso o fez sorrir mais ainda.

~Kagami Taiga~

O ruivo imaginava que a sensação de desintegrar-se por inteiro reservaria-se ao encontro acidental que tivera com Daiki na quadra do Maji Burguer, na última quinta-feira... No entanto ver Aomine parado em frente à máquina de bebidas — quando ele supostamente deveria estar dormindo em sua cama quente e macia — superou todas as suas expectativas. Não havia apenas borboletas passeando por seu estômago, e sim a fauna planetária completa.

— Oi Taiga. — Aomine o saudou com a voz arrastada de sempre, sorrindo de canto.

— Oi. — O ruivo respondeu com a voz afobada, não conseguindo achar outra coisa para dizer.

Kagami estava contando os minutos para ver o moreno mais uma vez, no entanto agora que estavam ali não sabia como agir ou o que dizer. Parecia um débil paralisado na frente da porta do banheiro masculino. Aquela porcaria de sorriso torto e charmoso de Daiki sempre o desarmava e fazia o ar faltar em seus pulmões... Mesmo depois de tudo o que passaram. Desde as coisas boas, até as ruins.

— Hm... Gosta de... Blueberry Juice? — Aomine perguntou com um inglês recheado de sotaque nipônico, jogando a mochila para o lado do corpo enquanto se aproximava com duas latinhas do suco em mãos.

— Na verdade é o meu preferido. — O ruivo sentiu as bochechas se retesarem, assim que um sorriso muito bobo começava a aparecer em seu rosto. Estava agindo exatamente como uma menininha idiota... Mas não era o único, e isso o agradava muito. Daiki também estava nervoso, pois sua mão tremia um pouco.

— Então... Quer um? — Ele murmurou, estendendo-lhe o suco com embalagem roxa e azul.

— Uhum. Valeu. — Assentiu, sorrindo para ele. Os dedos de ambos esbarraram-se durante a entrega da latinha, levando Kagami a sentir um leve e ridículo calafrio na espinha. Mas que merda de situação clichê. O ruivo inconformou-se internamente antes de retomar a compostura e continuar sua frase: — Bem... Na verdade eu planejava comprar um desses antes que alguém pegasse os dois restantes. — Ergueu as sobrancelhas de forma acusatória e divertida, olhando do suco para o moreno.

Ele estava tão bonito, mesmo com a cara de sono. Principalmente com a cara de sono.

— Hmmmm... Sorte que eu comprei um deles pensando em você. — Aomine forçou uma ironia na voz, arrancando uma risada rápida de Kagami.

O ruivo não precisava ser muito esperto para deduzir que estava completamente entregue, e isso era quase um problema... Mas parecia tão natural e certo. Ao olhar para trás, Kagami quase não conseguia mais ver as coisas ruins, apenas percebia o incômodo da saudade e a imensa vontade de estar perto dele. Decidira superar e recomeçar com Daiki, mas será que era certo confiar assim, cegamente?

Sim, e que se foda. Pensou em conclusão, encarando-o com um sorriso crescente e teimoso. Estava feliz dessa maneira, e se pudesse o beijaria ali mesmo para deixar seus sentimentos bem claros. Mas não, nada de agir precipitadamente. Do zero, começariam do zero.

— Achei que você só acordava depois das 15h nos finais de semana. — O ruivo comentou distraidamente, observando-o abrir o lacre com um estalido característico.

— Hoje eu tinha um motivo para estar aqui mais cedo. — Ele sorriu de canto, encarando o ruivo de forma sugestiva enquanto tomava o primeiro gole de seu suco.

Finalmente Kagami compreendeu o sentido da expressão 'derreter-se por alguém', já que sentira seu corpo virar gelatina assistindo aquela cena e ouvindo aquelas palavras. Ninguém deveria ser assim, tão intenso! Mesmo sem querer, Aomine ficava extremamente sexy.

Pare, Taiga. Não é hora de pensar nisso.

— Saquei. — O ruivo disse, abrindo o lacre de seu próprio suco em uma tentativa de disfarçar seu nervosismo.

— Hm... Vai fazer o quê agora, Taiga? — Ele perguntou como quem não quer nada.

— Teoricamente precisaria procurar o resto do meu time, pois em meia hora deve começar a Abertura. — Kagami ergueu o olhar, tomando um gole de seu suco. Blueberry era o melhor. — Por...? — Franziu a testa, simulando curiosidade.

— Hm... Sei lá... — O moreno riu, olhando para os lados com uma expressão travessa. — Achei que... A gente podia dar uma volta e... Deixar a Abertura de lado. — Ele finalizou, voltando-se para Taiga com o olhar mais convincente e sacana do mundo.

— Que feio. — Kagami não segurou a risada, mesmo quando queria parecer sério. — Por mim pode ser. — Concordou com a ideia dando de ombros, assim como concordara com o mano a mano na quinta-feira. Ou seja, no impulso, sem pensar muito nas consequências. — Onde quer ir? — Perguntou, ignorando o fato de que levaria uma bronca galáctica de Hyuuga e Riko.

— Antes de qualquer coisa, na cantina, porque estou com uma puta de uma fome. Fiz meu café da manhã e ficou uma droga.— Ele torceu o nariz, encarando o ruivo, que precisou rir ao imaginar o moreno na cozinha. — Mas depois não sei... Onde o vento nos levar?

— Idiota. — Kagami o xingou com bom humor, revirando os olhos. — Pode ser. Estou com fome também.

Imprudente. Estava sendo muito imprudente. Mas era por uma boa causa. Uma ótima causa. A melhor causa do mundo.

***

8h17min

~Himuro Tatsuya~

Olhando seu reflexo curiosamente impassível no espelho do banheiro, o rapaz tentava controlar a enorme fúria silenciosa e nociva que corria junto com seu sangue. Estava praticamente impossível deixar aquilo dentro de si. Explodiria a qualquer minuto, conhecia-se muito bem para ter certeza.

Tatsuya acabara de passar pela cantina do Centro Poliesportivo na companhia de Murasakibara — que queria comprar seus doces idiotas de sempre —, e acidentalmente viu Taiga sentado em uma das mesas do canto do local... Ao lado daquele infeliz, miserável, desgraçado, filho da puta do Aomine. E eles estavam rindo, exageradamente próximos, comendo quantias ridículas de lanches. Só faltava darem as mãos e começarem a se beijar na frente de todo mundo.

— FUCK! — O rapaz gritou repentinamente, arregalando os olhos enquanto ouvia o eco de sua voz reverberar pelas paredes de azulejo do banheiro.

Himuro percebeu que atraiu alguns olhares esquisitos das poucas pessoas ao seu redor, mas não sentiu vergonha ou algo do gênero. Precisava extravasar sua raiva de alguma maneira. Quem sabe faria isso mais tarde no joelho de Daiki, por ele ter tido a audácia de se aproximar do ruivo mais uma vez... Ou no meio da fuça de Kagami, por tê-lo descartado e partido para outra tão rapidamente, e sem um único pingo de remorso. Ou talvez faria os dois.

— Muro-chin? —A voz arrastada e infantil de Murasakibara surgiu em algum ponto à sua direita, na porta do banheiro. — Tudo bem?

— Tudo ótimo. — O rapaz suspirou fundo, ajeitando a franja com as mãos. Virou-se na direção do companheiro de time e sorriu de forma dissimulada. Era bom nisso. — Pronto. Vamos para a quadra. A abertura deve estar começando. — Disse, guardando sua raiva para mais tarde.

Não adiantaria dissipar aquilo tudo antes da hora.

***

~Kagami Taiga~

— Você é o campeão na cozinha. Não me resta mais dúvidas. Não depois disso. — O ruivo ironizou, colocando o último pedaço de seu pão doce na boca, mastigando com um pouco de dificuldade devido às risadas que teimavam em escapar por entre seus lábios.

— Mas o que eu vou fazer se a porcaria do ovo grudou na panela? Não dava para girar. — Aomine uniu as sobrancelhas, inconformado e quase irritado com a situação. — Pode ir parando com a zoação, idiota. — Ele bufou, olhando para a janela, onde os salpicos da chuva batiam incessantemente.

Taiga percebeu que o moreno não mudara em nada durante esses meses, e isso ficou extremamente claro após alguns minutos daquela agradável e divertida conversa. Tudo era como antes, se davam tão bem que chegava a ser espantoso, mesmo após a onda de raiva que sentira por ele.

Nem parecia que haviam se separado, e isso era extremamente animador para o ruivo, que parecia flutuar naquela cantina. Era quase bom demais para ser verdade. Até mesmo suspeito.

— Ai Daiki... — Kagami riu mais ainda, tapando o rosto com uma das mãos. — Ok, vou te ensinar à fazer omelete. Presta atenção no Taiga aqui. — Disse com uma dose extra de sarcasmo, chamando atenção de Daiki com um movimento de mãos. — A primeira coisa é você usar uma frigideira. Sabe? — Perguntou, fazendo o formato do utensílio no ar, com os dedos. — Aquela mais baixa, ampla, com cabo comprido para você manusear melhor...

— Hm... Sei, sei. — Ele assentiu a contragosto, revirando os olhos enquanto tomava um gole de seu terceiro Blueberry Juice.

— Você unta a frigideira com óleo ou manteiga. — Kagami explicou vagarosamente, como se o fizesse para uma criança. Daiki parecia uma naquele momento, querendo saber mais do que os outros, assentindo como se tudo o que o ruivo estava dizendo fosse óbvio. — E então, após você fazer a mistura de seu omelete em outro recipiente, você despeja ali e espera um pouco. Anotado? E depois de assar um lado, você vira com uma espátula. — Taiga ressaltou, desenhando o objeto no tampo da mesa com a ponta dos dedos, contendo a risada. — E então, quando os dois lados já estiverem quase prontos, você pode tentar girar no ar. Do contrário realmente vai voar ovo para todos os cantos.

— Hm. Tá. Não sou eu que vou cozinhar no futuro mesmo... — Aomine suspirou com um desinteresse forçado. — Vamos? — Ele perguntou, apoiando a mão no joelho do ruivo para se levantar.

Kagami poderia morrer ali mesmo, ainda sentindo a pele formigar por debaixo de sua calça de uniforme. Quando Aomine o tocava, seja acidental ou propositalmente, seu corpo inteirinho parecia incendiar por dentro. O ruivo temia que quando se beijassem ou fossem fazer outras coisas, pudesse sofrer uma combustão espontânea. As chances eram grandes.

— Vamos para onde? — Kagami perguntou, levantando-se e tomando ar nesse meio tempo. Não poderia dar bandeira.

— Já disse, para onde o vento nos levar. — Aomine sorriu de canto, atraindo imediatamente o olhar de Taiga para seus lábios.

Malditos lábios perfeitos. Como eu queria sentir o gosto deles mais uma vez...

— E... E para onde isso seria? — O ruivo ergueu novamente o olhar, encarando Aomine com a maior naturalidade que conseguiu reunir. Não poderia dar uma de impulsivo agora, ali. Ainda estavam se resolvendo.

— Para um lugar onde eu possa... — Ele susurrou, também olhando para os lábios do ruivo de forma sugestiva. — Hm... Ficar só com você. — Daiki ergueu as sobrancelhas, voltando a encarar os olhos de Kagami. — Ainda tenho algumas coisas para te dizer. Você sabe. — O moreno deu de ombros, olhando ao redor com um certo constrangimento. — Não sou bom com palavras, e quando tem muita gente ao redor só piora.

— Tá... — Kagami disse, controlando-se para não fazer algo estúpido ou ridículo demais. Estava extremamente agitado por dentro, era quase impossível manter a impassividade em sua expressão. Atitudes dignas de uma menininha. — Hm, vamos lá pra fora então? — Deu de ombros, buscando parecer alheio à cena. — Não deve ter muita gente lá.

— Claro. — Aomine assentiu da mesma forma, jogando a alça da bolsa sobre seu ombro.

Ele já sacara tudo. Kagami Taiga estava completamente rendido.

***

~Aomine Daiki~

Era possível sentir o vento gelado trazendo respingos de chuva cada vez mais para perto dos dois, que sentavam-se em um banco na parte externa e parcamente encoberta do Centro Poliesportivo, porém nada daquilo parecia incomodar Taiga. Ele olhava para frente, apoiando os cotovelos em seus joelhos, e sua expressão variava de séria para boba em questão de segundos, como se quisesse conter o sorriso. Não estava dando muito certo, e isso levava Aomine à sorrir também.

— O que foi? — O moreno perguntou com curiosidade, sergundos depois, movendo o rosto para chamar atenção do ruivo.

— Sei lá... — Ele murmurou, virando-se sutilmente para encará-lo também, ainda com a mesma expressão retardada. — É engraçado estar aqui com você, depois de tudo o que aconteceu. Parece tão... Fácil e natural. Não acha? — Ele franziu a testa, acentuando a pergunta com um toque de humor, como se tivesse usando palavras sem sentido.

— Acho. — Daiki assentiu com a cabeça, juntando os dedos em cima do colo. Uma sensação muito boa percorria seu interior naquele momento, uma mistura de entusiasmo e apreensão, e aumentava a cada segundo que passava ao lado de Taiga. — Como se não tivesse mudado quase nada entre a gente. Né? — Arriscou, franzindo a testa.

— Isso. — Ele confirmou com um meio sorriso, endireitando-se no banco, apoiando-se no encosto de madeira. — Percebi ali na cantina. Está tão normal...

— Mas isso é bom, certo? — O moreno questionou, deslizando pelo banco para aproximar-se um pouco mais dele. — Tipo, é bom ver que a gente está se acertando, mesmo depois de tudo aquilo.

— É sim. — Taiga respondeu com um sorriso torto, observando sua movimentação com o canto dos olhos.

O silêncio instaurou-se entre os dois depois de bastante tempo de conversa jogada fora. Apenas o som das gotas de chuva atingindo o cimento, as árvores, o telhado; e as vozes longínquas da abertura do campeonato eram audíveis agora. O vazio não tornava a situação desconfortável, pelo contrário, parecia uma abertura para Aomine pensar em como agir. Sabia que precisava tomar uma atitude naquele momento, Taiga parecia esperar, então fez a primeira coisa que veio em sua mente.

— Ei... — Daiki chamou a atenção dele mais uma vez, tocando sutilmente em seu braço com a ponta dos dedos. — Eu... Preciso te contar uma outra coisa que não ficou esclarecida antes de você viajar, e que esqueci de falar na quinta-feira. — Disse com a voz lenta, não dando espaço para pensar muito ou desistir da ideia.

O ruivo não disse nada em resposta, apenas redirecionou o olhar para seu rosto e esperou. Parecia curioso, mas um pouco relutante com o rumo que a conversa tomava. Era perceptível que Kagami ainda estava desconfiado consigo e com a situação como um todo, mesmo aparentando sentir-se à vontade há alguns minutos atrás, na cantina. Parecia uma atitude contraditória, mas o moreno era capaz entendê-lo. Ele ainda precisava confiar em si.

— Hm... Então. Lembra da nossa última... Noite? — O moreno perguntou com um leve constrangimento, brincando distraidamente com a manga do uniforme de Taiga. — Quando eu disse que... Sabe, aquela história de sujar a cama com porra e tal. — Arriscou ser mais direto, buscando o olhar do ruivo.

— Ah. Lembro sim. — Ele arqueou as sobrancelhas, um pouco surpreso com o assunto repentino.

Daiki não sabia de onde aquilo surgiu, mas foi o que recordou no momento, então não poderia dar-se ao luxo de esquecer novamente. Chega de procrastinar as coisas.

— Eu... Bem... Eu acho que você me entendeu errado. — Continou, ainda sustentando o olhar rubro de Kagami. Ele engoliu em seco, mas assentiu com a cabeça. — Quando eu disse que estava acostumado com minha cama... Sabe... Suja de gozo. — Aomine riu de si mesmo, balançando a cabeça. — Eu não estava dizendo que muitas pessoas fizeram isso por lá, porque não é assim e nunca foi. Só que eu... Costumava... Tocarpunhatapensandoemvocê. Por isso ela ficava suja. — Completou com a voz apressada, não escondendo a vergonha ao olhar para os próprios dedos. — Então queria te pedir desculpas por ter deixado tudo estranho quando falei aquilo, mas eu não soube reverter na hora. Foi mal. — Sorriu, finalizando. Queria se esconder em um buraco.

— Ah. — Kagami não soube como responder, apenas riu um pouco e permaneceu boquiaberto, nitidamente envergonhado. — Eu... É. Eu tinha entendido errado. — Ele soltou uma risada nasal, coçando a nuca com a mão livre. — Mas é bom... saber. É bom saber? — Taiga perguntou novamente, atraindo seu olhar de forma bem humorada.

— Acho que é. — Aomine deu de ombros, encostando agora na pele do pulso de Kagami com os dedos. Notou a reação positiva dele com o toque, e gostou. Era um incentivo para continuar. — Não quero que fique uma situação chata entre a gente, então tudo o que eu lembrar eu vou te falando... Sabe, das minhas cagadas quando a gente estava junto.

— Hm... Ok. — O ruivo mordeu os lábios, encarando-o com as sobrancelhas arqueadas. — Eu...

Aomine o encarou também, percebendo que o ruivo não sabia muito bem o que dizer. Parecia contrangido, tanto quanto o moreno, mas o encarava de um jeito interessante. Se Daiki tivesse um pouco de coragem e o impulso de antigamente, inclinaria-se para beijá-lo ali mesmo, nem que fosse apenas um selinho. Os lábios dele quase pediam por isso, como na primeira vez em que o fizeram.

Sentia tanta falta... O cheiro frutal e gostoso de Taiga o atraía, a forma suave como ele o olhava também. Não o perderia nunca mais, muito menos para si próprio. Era uma promessa que fizera para si mesmo, e que apenas se tornava mais forte agora que estava ali, perto do ruivo mais uma vez. Era sua segunda chance, e não abriria mão disso jamais.

— Eu senti sua falta. — Taiga completou a frase repentinamente, encarando-o com firmeza. — Nesse tempo todo que a gente ficou brigado. E, tipo, fiz minhas cagadas também, então não precisa ficar se culpando, e muito menos se desculpando por tudo. — Ele deu de ombros, sorrindo de canto de forma tímida. — Decidimos começar do zero, né? Entaõ vamos anular as coisas que fizemos de errado.

— Sim. — Aomine assentiu com a voz praticamente apagada, sentindo o batimento acelerar ao ouvir aquelas coisas enquanto o ruivo sustentava seu olhar.

— Então relaxa. Sabe que já te desculpei. — Ele mordeu os lábios, em um sinal de nervosismo. — Por tudo.

Com um impulso de coragem, Daiki deslizou um pouco mais os dedos e segurou os de Taiga entre os seus. A mão dele estava quente e levemente suada, exatamente como a sua, e de alguma forma isso agradou o moreno mais ainda... Principalmente quando Taiga retribuiu o gesto com a mesma firmeza e confiança.

Aomine nunca sentira essas coisas antes, parecia tão inexperiente e idiota, mas cada vez gostava mais da sensação. Sabia que com Taiga era a mesma coisa. Aprenderiam um com o outro.

Notas finais
Só isso por hoje pessoal... Explicações aqui: https://www.youtube.com/watch?v=fMPEAjeG-GA Respostas do capítulo 20 aqui: https://www.youtube.com/watch?v=JweNFXZfy84 Obrigada a todos, e me desculpem pela demora. Espero voltar em breve, o quanto antes! Amo vocês. Beijos enoooooooooooooooooooorme da Lana-chan!