Linha Tênue
34 Capitulo 31: Sombras do Passado.
Notas iniciais
O centro do Distrito 12 era muito diferente da Capital. Embora houvesse várias lojas, o comércio central dali estava longe das vastas ruas cheias de prédios imponentes e lojas de grife que compunham as ruas da Capital.
“Ali está a praça central, as principais lojas ficam ao redor dela, assim como o cinema.” Prim estava animada, apontando todos os pontos para o namorado, que parecia genuinamente interessado no que ela estava dizendo, enquanto caminhavam à nossa frente de mãos dadas como dois jovens apaixonados.
Aquelas ruas traziam recordações de uma infância e adolescência razoavelmente feliz. Afinal, era ali que eu passava parte do meu tempo livre com as meninas depois da escola ou no final de semana. Eram nessas lojas que comprava minhas roupas, sapatos e itens favoritos, em uma época em que aquilo parecia o melhor lugar do mundo, onde eu não conhecia outra realidade, onde a vida era mais simples, ou onde tinha menos conhecimento da realidade.
“Parece que tudo parou no tempo,” comentei, observando que o velho boliche ainda estava idêntico à última vez que o vi, a mais de dez anos atrás.
“A sorveteria ainda é a mesma!” exclamou Prim, empolgada. “Nós costumávamos vir aqui sem a mamãe saber. Lembra, Katniss?” Conformei com a cabeça, observando ela sorrir ainda mais ao apontar para o cinema. “Katniss me trouxe para ver meu primeiro filme aqui. Eu devia ter uns cinco ou seis anos, lembra?” Fiz um gesto afirmativo, e a memória daquela tarde de domingo veio à tona. Lembro de estar ao lado de uma sorridente Prim, com tranças em cada lado do cabelo, e de ter gastado toda a minha mesada na bomboniere para garantir que ela se divertisse com algo mais interessante para a idade dela do que um almoço chique planejado pelos meus pais.
“Você quer um sorvete?” William perguntou, e Prim concordou animada então seguimos em direção à velha sorveteria, onde, como uma criança, minha irmã misturou diversos sabores e coberturas.
“Só vai pegar uma bola?” Peeta perguntou enquanto adicionava mais uma bola à sua casquinha em formato de cesta.
“É o suficiente.” Embora gostasse de sorvete, minha mãe sempre dizia o quanto ele era prejudicial, o quanto engordava e que uma dama não deveria comer mais do que uma bola pequena sem cobertura ou adicionais.
“Uma pessoa em uma sorveteria com tantas opções, escolhendo um único sabor sem usar cobertura, não é minimamente confiável.”
“Você nunca me achou confiável mesmo,” disse baixinho, bem perto de seu ouvido. Ele apenas sorriu.
“Verdade.”
“Eu pago, faço questão.” William parecia feliz ao pagar a conta dos quatro, e vi que o loiro não se opôs, apenas agradeceu. Provavelmente, ele sabia que isso faria bem ao jovem, que geralmente não tinha tempo para acertar qualquer conta quando saíamos, já que o loiro sempre era rápido em assumir a conta nessas ocasiões.
Sentamos do lado de fora e observei os três conversando sobre aleatoriedades quando um homem se aproximou da nossa mesa, com um olhar vidrado no loiro ao meu lado.
“Eu não acredito, Peeta Mellark?” Olhamos para o estranho, e, pelo olhar de Peeta, ele também não o conhecia. “Desculpa, sou Rory Partner, um grande fã do seu trabalho.”
“Prazer, Partner.” O loiro sorriu para o estranho, que não devia ter mais do que 20 anos.
“Me desculpa de novo, não estou acreditando. Eu sei quem você é. Fui à feira de tecnologia no Distrito 3 este ano. Fui lá para te ver, mas deu tudo errado.” Ele estava falando rápido, com uma empolgação nítida. “Eu ia te apresentar um projeto, soube que sua empresa estava atenta a novos talentos e estava tudo planejado, mas meu voo atrasou e chegamos lá quase no final do evento. Vi sua apresentação no primeiro dia, até tentei te achar no final, mas não consegui. Falaram que você já tinha ido embora e que voltaria no outro dia, mas só tínhamos ingressos para o primeiro dia do evento. Estou falando muito rápido, desculpa, é que não pensei que teria outra chance de te ver até o ano que vem, então estava passando com minha namorada e te vi. E eu juro que meu projeto é bom e tem potencial. Está todo estruturado. Trabalho nele desde o ensino médio e agora faço faculdade. Todos meus professores falam que é bom e que eu devia levar para fora, mas você é o cara da tecnologia em Panem, e é grande lá fora. Achei que você poderia ver o potencial também. Acho que Panem deveria se unir e ser cada vez mais referência lá fora, sabe? Estou sendo inconveniente, desculpa. Você está em um momento de lazer. Mas juro que não é perda de tempo, sei que já deve ter ouvido isso de pessoas com projetos péssimos, mas o meu não é, não chega a ser inovador, mas tem potencial eu juro.” Ele falava tão rápido que parecia que havia esquecido até de respirar durante o pequeno monólogo.
“Sem problema, Partner. Este final de semana não estou trabalhando, vim aproveitar o feriado com a família. Mas, se você tiver um cartão, posso pedir para minha equipe procurar você e conhecer seu projeto. Tenho certeza de que no mínimo eles vão dar um feedback que pode ajudar.”
“Isso seria incrível, juro!” Ele começou a procurar nos bolsos desesperadamente. “Droga, acho que não estou com o cartão. Essas coisas ficam com meu sócio, ele que cuida dessa parte. Só um minuto.” Ele saiu rapidamente em direção ao balcão, enquanto todos na mesa observávamos ele se afastar.
“Uau, é sempre assim fora da Capital?” William perguntou, ligeiramente surpreso.
“Não, definitivamente não. Nas feiras, geralmente o pessoal me aborda, mas na rua não é comum. Poucos sabem quem eu sou ou associam meu nome à empresa.”
“Acho que esses são seus 5 minutos como um pop star,” Prim brincou, e o loiro riu.
“É um pouco assustador. Meu sorvete começou a derreter,” ele comentou em tom de brincadeira, enquanto observávamos o rapaz voltar.
“Aqui,” ele estendeu uma folha de papel, que parecia ser de um bloco de anotações. “Desculpe de novo, mas aqui tem meu nome e todos os meus contatos. Coloquei meu e-mail também.” Peeta pegou o papel e o guardou na carteira.
“Certo, vou passar adiante. Boa sorte com seu projeto, Partner. Confio que minha equipe vai avaliar com atenção.”
“Muito obrigado! E desculpe de novo.” Ele se afastou e pude ver quando ele encontrou uma menina da mesma idade do outro lado da praça. Ela sorriu para ele, que fez o mesmo antes de, aparentemente, relatar tudo o que havia acontecido.
“Depois dessa, o que acham de pegar uma sessão no cinema? Vi que tem um filme bacana começando em alguns minutos,” minha irmã perguntou, chamando minha atenção de volta à conversa.
“Eu vou declinar. Dona Effie pediu algumas coisas do mercado e ainda tenho que achar um tênis de basquete para o Alex. Mas vocês deviam ir, e nos encontramos na saída quando o filme acabar.” Peeta respondeu e apenas concordei com ele.
Dessa forma, nos separamos, seguindo pelas ruas em silêncio. Passamos pela loja de esportes em busca de tênis, e, embora as opções não fossem tão variadas quanto as da Capital, Peeta escolheu um bom modelo. Aproveitou também para pegar alguns outros itens, como braçadeira e meias de basquete.
“Sabe que o Alex ainda está só aprendendo a fazer lances livres sozinho? Ele não precisa de tudo isso agora.”
“Sim, mas se ele quer se sentir como um jogador de basquete, vai ter tudo o que precisa para isso.”
“É algum tipo de trauma por não ter o que queria na infância e agora você quer dar tudo a ele?”
“Não, meus pais me deram tudo o que era necessário. Mas, se posso oferecer essas coisas a ele, não vejo por que não.” Seguimos em direção ao mercado, e observei o loiro caminhar pelos corredores com uma naturalidade impressionante, escolhendo produtos e colocando-os no carrinho como se fosse uma tarefa comum, completamente diferente da imagem de grande empresário ocupado que a maioria das pessoas associava a ele. “Esse chocolate é ótimo. Annie adora. E aquele com amendoim, onde está? Ah, ali! Delly gosta desse.”
“Vocês têm um paladar bem infantil às vezes.”
“Chocolate não é coisa de criança, é bom gosto.”
“Você sabe quantas calorias têm os últimos itens que colocou no carrinho? Nos últimos minutos?”
Ele me olhou surpreso, e confesso que também me surpreendi com as minhas palavras. Talvez o ambiente ali, no 12, estivesse me fazendo refletir mais sobre os hábitos da minha mãe, o modo como ela consumia as coisas. E eu sabia que isso não era bom, afinal, para ela, a perfeição era fundamental. Já havia superado isso há muito tempo, mas, por algum motivo, o eco ainda ressoava em minha mente.
“É por isso que não te vejo comendo chocolate ou outros doces? Tem medo de engordar, Katniss?”
“Açúcar faz mal, Peeta. Mas eu como sobremesa, como de tudo. Não sou neurótica com alimentação, como você está insinuando, e sei que sabe disso.”
“Em excesso, talvez, mas comer uma sobremesa, um doce, um chocolate de vez em quando não faz mal a ninguém.” Não respondi e continuei andando pelo corredor. “Katniss, vamos lá. Escolha alguma coisa, um doce que te lembre a sua infância. Eu pago.” Ele estava claramente se divertindo, mas por um momento tentei lembrar de um doce que me trouxesse alguma memória da infância e não consegui pensar em nenhum.
“Não, obrigada. Podemos ir agora? A sessão da Prim deve acabar daqui a pouco, o filme é curto. E já andamos demais nesse mercado.” Tentei por um ponto final na conversa, fui em direção ao caixa, com ele logo atrás. Embora houvesse pouca fila, era estranho estar naquele ambiente. Não lembrava de ir ao mercado enquanto morava ali. A primeira vez que fiz isso foi depois de sair da casa dos meus pais, e ainda assim não era um momento que eu gostava. Odiava as filas, o ar ligeiramente gelado, a música de fundo e os anúncios inesperados. Mas, olhando para o homem ao meu lado, ele parecia genuinamente relaxado, batendo os dedos levemente na alça do carrinho enquanto esperava sua vez de passar no caixa. Peeta Mellark parecia ser um camaleão para tantas situações que não podia deixar de me surpreender.
“Vou deixar essas coisas no carro.” Concordei e observei ele indo em direção ao estacionamento, onde havia estacionado quando chegamos. Uma das muitas diferenças entre andar na Capital e ali era que, no 12, era muito mais prático fazer as coisas a pé. Para não ficar parada esperando, acabei seguindo pela calçada, olhando as lojas e observando as pessoas. Quatro garotas, com no máximo 17 anos, passaram rindo em direção a uma loja, e imagens de um passado mais despreocupado se fizeram presentes mais uma vez.
Um passado onde andava por aquelas ruas, com as meninas, onde tudo parecia tão mais fácil, mesmo que na época não parecesse. Parei em frente a uma vitrine, observando um vestido realmente lindo. Estava pensando em entrar e experimentar, quando ouvi uma voz ligeiramente familiar me chamar. Desviei o olhar da vitrine e avistei uma das pessoas que preferiria não encontrar.
“Katniss?” Ela chamou de novo, e senti um aperto inesperado no peito ao ver o sorriso genuíno que ela me deu. “Não acredito, minha querida...” Hazelle Hawthorne me abraçou, e fiquei sem reação por um momento, antes de permitir que meus braços retribuíssem o abraço de leve. “Você está tão linda. É tão bom te ver.”
“Sra. Hawthorne, quanto tempo.” Tentei sorrir, observando a elegante mulher, com um dos sorrisos mais doces que eu conhecia. Os anos não pareciam ter passado para ela; Hazelle continuava muito bonita, sempre elegante com seus vestidos midi clássicos em tons pastéis, sempre com mangas delicadas.
“Nada de Sra. Hawthorne, é Hazelle, lembra?” Concordei com a cabeça, tentando manter o sorriso, embora não tivesse vontade. Não por ela, mas por tudo, como se percebesse o desconforto que estava sentindo. Ela sorriu de leve, segurando minhas mãos e foi quando vi em seu olhar o que estava evitando a anos, a compaixão e o pesar que não mudariam nada. “Oh, querida, eu queria tanto ter ido te ver quando tudo aconteceu, juro. Mas Lian não achou que seria apropriado. Mas eu mandei flores e liguei tantas vezes... Queria ter ido depois, mas não sabia se seria o momento certo, e então passou tanto tempo , acho que não sabia o que fazer... sei que, independentemente do que eu diga, isso não vai mudar nada, mas sei o quanto foi difícil.” Aquele era um dos assuntos que mais queria evitar, ainda sim olhando pra ela sabia que havia sinceridade em cada palavra.
“Eu entendo, recebi suas flores, eram lindas. Foi muita gentileza, e uma falta de delicadeza da minha parte não ter respondido adequadamente.” Comentei com a voz mais natural que pude.
“Não se preocupe com isso. Como você está?” Estava prestes a responder quando vi o homem se aproximando e parando ao lado dela deixando a situação ainda pior.
“Olha só quem eu encontrei, Lian.”
“Srta. Everdeen, como vai?” Observei ele por um momento, e não fiz questão de sorrir. Embora tenha levado mais tempo do que deveria para perceber, Lian Hawthorne, embora já com cabelos grisalhos, era muito parecido com o filho, tanto na aparência quanto no temperamento.
“Eu vou bem, e o senhor, como vai?”
“Bem, todos estamos bem.” Hazelle concordou. “É uma surpresa vê-la no Distrito 12, achei que não veria mais isso. Seus pais saíram daqui determinados a não voltar. Isso mudou? Os Everdeen voltaram à cidade de origem?” Pude ver pelo canto do olho Peeta atravessar a rua e se aproximar e queria muito ir embora, mas não seria educado, e Hazelle não merecia isso.
“Não, meus pais continuam na Capital, sem planos de voltar ao 12, sequer para uma visita. Vim passar o feriado com a família do meu marido.” Apontei para o loiro, que parou ao meu lado, com uma expressão curiosa. “Peeta, esses são Lian e Hazelle Hawthorne. Este é Peeta Mellark, meu marido.” Ele estendeu a mão, e observei dois homens se cumprimentaram, enquanto Hazelle apenas sorriu, segurando a bolsa com as duas mãos, sem olhar diretamente para ele.
“Não sabia que tinha casado, querida.” ela voltou seu olhar gentil pra mim, e tentei sorrir como esperado.
“Foi esse ano. Uma cerimonia pequena, bem íntima. ”
“Meus parabéns. Aos dois.” Agradecemos, embora a única coisa que eu quisesse fosse ir embora.
“Então, seus pais são daqui? Moram perto, no centro? Não me lembro de nenhum Mellark por aqui.” Lian perguntou, avaliando o loiro atentamente. Sabia que, diferente de minha mãe, que pelo menos reconheceria a marca e a qualidade das roupas, ele estava apenas observando o fato de que Peeta estava vestido de forma casual, como jeans e camiseta.
“Não, eles moram mais afastados, em uma área mais rural do Distrito.” Notei o julgamento em seu olhar, agora mais claro e óbvio. Ele definitivamente não tinha a menor noção do poder e da influência do homem que estava parado à sua frente.
“Isso explica toda a sua casualidade, Katniss. Sua mãe sempre fez questão de ficar de olho nos seus modos. Paula não deve nem sonhar que você está por aí usando jeans e tênis como uma colegial. Que bom que seguiu outra carreira ao invés de modelo, ou já estaria buscando outras coisas não é.” Vi Peeta arquear a sobrancelha.
“Lian, não é educado falar assim. Katniss está ótima, vestida assim, mais casual, fica até mais jovem.” Ele voltou o olhar para a esposa, e pude ver o momento em que os olhos dela se voltaram para a calçada, antes dele sorrir com o canto da boca.
“Ainda assim, não é algo elegante para se usar na sociedade, pelo menos não para uma mulher casada, ainda mais no início do casamento. As pessoas notam. A mulher ajuda a refletir a imagem do marido.”
“Não acho que um jeans e um tênis possam refletir negativamente na minha imagem. Não consigo pensar em nenhuma roupa que não fique bem na minha mulher.” Peeta passou a mão pela minha cintura, me abraçando levemente enquanto falava.
“Bom, para se hospedar na área rural, deve ser adequado mesmo. Mas você ainda é jovem, tem muito o que aprender e quando você começar a frequentar os lugares que os Everdeen frequentam, sua opinião vai mudar. Acredite, a alta sociedade é muito crítica, digo isso como amigo da família. Então como conselho de um homem experiente invista um pouco em fazer a aparência dela refletir o homem que a sociedade quer ver, sei que Paula ensinou o suficiente a ela, basta você garantir que ela coloque em pratica.”
“Gosto dos lugares que frequento hoje, e tenho certeza que que Katniss, sabe muito bem a imagem que ela quer fletir para si, enquanto eu mesmo cuido da minha imagem, e não acredito que tenha muito a aprender com o senhor, mas agradeço a oferta.” Pude ver o semblante sempre confiante de um dos empresários mais bem sucedidos do Distrito 12, perder o brilho, ainda sim ele manteve a pose de superioridade.
“Alguns jovens acham que sabem mais do que os adultos experientes, mas não se esqueça, a vida acaba ensinando de uma forma mais dura quando não estamos dispostos a ouvir. Então se for sua pretensão entrar no mundo sua esposa, tem muito mais a ganhar revendo certos conceitos.”
“Estou plenamente feliz com meu próprio mundo, e acredito que ela fica bem melhor no meu mundo que que no dela.”
“Nossa esta ficando tarde. Querido temos que ir.” Hazelle, tentou sorrir quanto tocava no braço do marido. “Foi muito bom te ver Katniss.” sorri pra ela mais uma vez e acenei com a cabeça em concordância. Nos despedimos e seguimos pela calçada, Peeta com a mão na minha cintura e independente das aparências não quis que ele soltasse naquele momento.
Não demorou para encontrarmos Prim e voltar para a casa dos meus sogros. Eu só queria que o final de semana terminasse logo, para que pudéssemos voltar para a Capital, onde, de alguma forma, parecia ser mais fácil respirar.
“Ei, você está bem?” Prim sentou ao meu lado no sofá da sala, onde eu havia aproveitado o silêncio, enquanto todos estavam no quintal, organizando um churrasco cheio de risos e conversas animadas.
“Sim, só precisava de um pouco de calma. Os Mellark são intensos.” Ela riu enquanto concordava.
“Sim, bem diferente de como era lá em casa, né?” Concordei com a cabeça. “Você está bem mesmo? Vi seu olhar ontem no jantar quando...”
“Vi os Hawthorne hoje.” interrompi e ela me olhou com mais atenção, as perguntas visíveis em seu rosto. “Hazelle e o marido, na verdade.”
“Katiniss...”
“Ela continua super simpática, e ele também não mudou nada, pelo jeito. Hazelle merecia mais sabe, sempre tive essa sensação.”
“Você precisa deixar seu passado para trás, sem pensar nessa família. Olha para você agora, é hora de ser feliz, Katniss.” Tentei sorrir. Se ela soubesse a verdade sobre meu casamento, sobre a nossa família...
“Não se preocupe, o passado está onde deve estar. E você deveria ir atrás do seu namorado e aproveitar esse tempo juntos.”
“Certo, e você deveria ir atrás do seu marido, aproveitar que ele não está tão vidrado no trabalho.” Ela se levantou e estendeu a mão para mim. “É hora de voltar para a agitação. Parece que há uma disputa sobre quem faz a carne no ponto certo.”
Sorri antes de me levantar para acompanhá-la em direção ao quintal, onde as vozes e sorrisos que, de certa forma, não faziam parte do meu mundo, mas se encaixava perfeitamente no da minha irmã.
“Katniss, você está bem?” A voz da matriarca da família me surpreendeu na manhã seguinte, durante o almoço. “Notei que quase não comeu. Ontem no jantar, hoje no café da manhã e agora, você mal tocou na comida.”
“Estou bem, só estou sem apetite, mas tudo está delicioso, obrigada!” Pude sentir o olhar do loiro sobre mim enquanto Effie falava sobre a importância de se alimentar bem e até oferecia pedir que preparassem algo do meu agrado para o jantar, o que neguei gentilmente.
O restante do dia passou tranquilo com um passeio pelo campo. Peeta levou Prim e Willian para andar de cavalo, e dessa vez, apenas observei. Diferente de mim, minha irmã adorou a experiência. Ver a felicidade dela naquele momento era o suficiente, ou pelo menos fazia tudo ter um sentido minimamente válido.
O relógio marcava quase duas da manhã quando desisti de tentar pegar no sono e decidi descer para o primeiro andar. A casa estava em profundo silêncio. Segui direto para a varanda nos fundos da propriedade, com acesso pela porta da cozinha. Assim que abri a porta de vidro, senti o vento suave em meu rosto, trazendo uma sensação agradável que não costumava experimentar com frequência.
Embora as luzes da casa estivessem apagadas, o céu estava claro o suficiente e havia alguns postes de luz espalhados pelo jardim que estavam acessos e iluminavam o local criando um clima acolhedor. E devo confessar que o silêncio e a vista, mesmo que não tão nítida do lago entre as estrelas, era incrivelmente bonita. Talvez, em vez do robe de seda, tivesse sido mais inteligente escolher algo mais quente para colocar por cima da camisola, considerando que no outono as noites eram mais frias. Ainda assim, não estava disposta a voltar para o quarto, então apenas apertei mais o robe no corpo e voltei a olhar para o céu.
“Você não se alimentou direito novamente no jantar.” Me assustei ao ouvir a voz do loiro se aproximando, e instintivamente levei uma das mãos ao peito, me encostando na pilastra involuntariamente.
“Minha alimentação não faz parte do contrato.” Comentei baixinho, enquanto observava ele olhar as estrelas com as mãos nos bolsos do robe do pijama, que parecia ter sido colocado de qualquer jeito, já que não estava nem fechado.
“De fato, não faz, mas minha mãe já percebeu e está ficando preocupada. Ela tende a se preocupar com todos.” Ele não me olhou, então segui seu olhar em direção às estrelas, observando por um momento antes de falar.
“Vou conversar com ela depois, garantir que estou bem.”
“E você está? Prim parece bem atenta aos seus movimentos. Talvez devesse marcar um médico na segunda.”
“Quem escuta você falar, poderia acreditar que está realmente preocupado.”
“Você tem um papel a cumprir. Depois do feriado, minha agenda vai estar realmente lotada. Preciso que esteja pronta para representar seu papel.”
“Claro, não se preocupe. Vou estar com as melhores roupas. Pode até escolher, se quiser, e garanto que vou me portar como uma boa esposa deve se portar. Como você mesmo ouviu ontem, minha mãe me ensinou o suficiente.” Senti o olhar dele sobre mim, mas mantive minha atenção voltada para o céu. Quando senti a mão dele no meu pulso, ele me virou levemente para olhar em seus olhos.
“Eu não espero o mesmo que aquele idiota. Não insinue coisas que me comparem com ele. Sei que você tem o bom senso de se vestir adequadamente. Não tenho planos de controlar suas roupas; elas representam você, não eu. Nunca forcei nenhuma roupa em você. Você sempre usou o que quis, e não vou fazer isso.”
“Tem certeza? No contrato temos uma cláusula falando sobre sua imagem, sobre não denegrir sua imagem.” Provoquei, olhando em seus olhos azuis, ligeiramente turbulentos desta vez.
“Sim, para garantir que você não gere nenhum escândalo, não para controlar suas roupas.”
“Ah, sim, claro. Esqueci que existe uma linha tênue entre suas ações e o que você parece desprezar.” Ele deu um passo à frente, me olhando com intensidade, mas não me afastei.
“Isso não é verdade.” Eu podia sentir a respiração dele. “Nunca te forcei a nada. Você sempre teve escolhas. Eu não sou como aquele homem. Até porque, além de idiota, ele deve ser cego.” Ele deu mais um passo, e dessa vez, eu dei um leve passo para trás, sentindo a pilastra nas minhas costas, mas mantive meu olhar no dele, mesmo quando ele apoiou uma das mãos na pilastra atrás de mim. “Você tem um péssimo caráter, mas com seu corpo...” Ele deslizou a outra mão pela minha cintura, e um arrepio percorreu meu corpo inteiro. “Você definitivamente não teria se aposentado se tivesse seguido como modelo. Pelo contrário, acredito que estaria na melhor fase da carreira.”
“Isso é um elogio?”
“Uma constatação de um fato que você sabe, mas de alguma forma está pairando na sua cabeça.”
“Não tem nada pairando na minha cabeça.” Menti, e pude ver ele sorrir com o canto da boca antes de se aproximar mais, colocando os lábios próximos ao meu ouvido e sussurrando.
“Ótimo. Então, pare de brincar com a comida no prato durante as refeições e volte a se alimentar corretamente. Insegurança não combina com você.”
“E o que combina comigo?” Ele sorriu novamente, mas não respondeu. Tampouco se afastou. Seus olhos pareciam cada vez mais escuros, talvez pela pouca luz, mas eu conhecia o desejo e a luxúria, conhecia bem o suficiente para saber que era isso que estávamos sentindo. Como se lesse meus pensamentos, ele deu um leve passo para trás, afastando o corpo do meu, deixando aquele frio inesperado entre nós. Quase sem pensar, sem ao menos refletir sobre isso, puxei-o pelo robe, trazendo-o de volta para meu corpo, selando nossos lábios tão rápido e inesperado quanto tudo que estava acontecendo minha vida.
Não houve delicadeza no beijo apenas intensidade, como se houvesse uma necessidade urgente daquele contato, como se fosse o ar que estava precisando nos últimos dias. Senti a mão dele na minha nuca, um arrepio rápido percorreu meu corpo novamente. Minhas mãos deslizaram pela cintura dele, quase instintivamente. Embora por cima da camiseta do pijama, minhas mãos conheciam bem o que estava por baixo do tecido e o caminho a trilhar.
“Ai, droga...” A voz me assustou e senti o corpo dele se afastar rapidamente, levando todo o ar com ele por um instante. “Vocês têm um quarto no segundo andar, pra que fazer isso aqui fora?”
Olhei o dono da voz parado na porta da cozinha e, involuntariamente, xinguei mentalmente por ele ter aparecido do nada. Peeta se colocou discretamente na minha frente, ainda assim, virei de costas, arrumando rapidamente o robe que estava quase aberto, antes de voltar minha atenção para o homem parado na nossa frente.
“O que você está fazendo aqui, Thresh?”
“Estou hospedado aqui como você, companheiro. Esqueceu foi? Aliás, não só eu, mas toda a família. A casa está cheia lembra?”
“E você dorme aqui fora agora? Minha irmã expulsou você do quarto?”
“Engraçadinho, estava sem sono. Vim buscar algo doce na cozinha.” Ele ergueu uma barra de chocolate que estava segurando. “Ouvi um barulho e pensei que poderia ser alguém tentando invadir a casa, sei lá.”
“Alguém invadindo a casa? Você é curioso demais, isso sim.”
“Sim, porque tudo que imaginava era que vocês faziam o tipo que trabalha ao ar livre.”
“Thresh!”
“Desculpa, cara, mas sei lá. Só quero dizer que não sabia que era vocês. Talvez Prim e Will que foram colocados em quartos separados e tal, embora eu ache que eles são inteligentes o suficiente para combinar de se encontrar em um dos quartos, não na varanda.”
“Thresh, se você não ficar quieto, eu não respondo por mim, ok?”
“Parei, vou voltar pro meu quarto. Continuem o que estavam fazendo.” Sabia que esse seria o tema das brincadeiras no café da manhã do dia seguinte, e respirei fundo tentando não pensar nisso naquele momento.
“Thresh, sei que esse doce é para minha irmã, então eu não te vi, e você não me viu, certo?”
“Oi?”
“Esse chocolate é o favorito dela, e você não gosta dele.” Eles trocaram olhares sombrios e, só então, entendi a troca entre eles. “Meu pai ia detestar saber dessas coisas, sabe? Na casa dele, antes do casamento.”
“Qual é, Peeta? Um chocolate não quer dizer nada.”
“Claro que não. E todo mundo sabe que isso é normal. Vocês estão juntos há anos, vão se casar em alguns meses, e todas as piadas da família são engraçadas. Papai até se diverte com isso. Mas sabe meu pai sempre foi ciumento com as filhas, Annie sempre foi muito independente ainda sim, não lembro do Finn ter tanta liberdade antes do casamento, e Delly bem ela sempre foi a garotinha do meu pai, sabe? Ele nunca concordou muito com vocês dividirem o quarto aqui. Minha mãe teve que persuadi-lo. Mas uma coisa é fazer piada, outra é a realidade. E talvez, para garantir que tudo seja mais adequado até o casamento, seria melhor você ficar no quarto de hóspedes quando estiver aqui. O que acha, hein?”
“Você não tem esse poder.”
“Não, mas meu pai tem, Delly vai ficar uma fera, mas ele pode ser bem rígido sabe como é. Mas você que sabe.”
“Te odeio, cara, achei que éramos amigos.”
“Somos. Depois do Finn, você é meu cunhado favorito.”
“Vai ter volta, Mellark.” Observei o loiro rir enquanto o outro seguia de volta para a casa.
“Boa noite, Thresh.” Ele virou-se em minha direção. “É melhor eu ir dormir também.” E, sem qualquer outra palavra, ele saiu em direção à casa, deixando o frio atingir meu corpo de uma forma muito mais incomoda do que antes de sua chegada.
Logo depois do almoço, seguimos de volta à Capital em um voo relativamente calmo, embora repleto de conversas paralelas. Não vou mentir, senti um grande alívio assim que o avião pousou. Ali, eu teria meu espaço de volta, não precisaria mais lidar com meus fantasmas e poderia ficar longe do loiro, que, assim que chegou, se trancou no escritório para resolver assuntos da empresa, voltando ao modo empresário super ocupado.
Agora, eu podia retomar minha rotina e me concentrar nos números da empresa e no plano que iria apresentar ao loiro para tentar salvar o que restava da Mockingjay. O que não estava sendo nada fácil, já que de fato as coisas estavam ruins, além disso nas semanas que seguiram o feriado estava participando de muitos jantares e coquetéis com empresários, para acompanhar o loiro.
“Sra. Mellark, é um prazer recebê-la”, disse a secretária do meu pai ao me receber naquela tarde de dezembro. Talvez fosse a proximidade das festas de fim de ano, mas parar de ignorar as ligações do meu pai e procurá-lo na empresa me pareceu o mais sensato. E, ainda por cima, poderia aproveitar para tirar algumas dúvidas com o contador.
“Meu pai está na sala dele?” perguntei, apontando para o local e indo em direção à porta, mesmo que ele não estivesse lá poderia trabalhar por um tempo no escritório dele.
“Seu pai não está mais nessa sala desde as mudanças”, respondeu a secretária, um pouco apressada.
“Mudanças? Que mudanças?” parei, olhando sem entender, percebendo a pressa dela em levantar e o incômodo repentino.
“Olha só quem resolveu aparecer, minha filha mais velha e menos interessada nos pais”, vi meu pai parado em frente à porta que dava para o escritório coletivo, onde os outros funcionários ficavam. Ele parecia ter envelhecido alguns anos nas últimas semanas, e uma sensação de culpa me invadiu por tê-lo evitado tanto, mas eu precisava de espaço para pensar em soluções sem a influência dele ou as reclamações da minha mãe. “Por que a surpresa? Você e seu marido não conversaram? Vai dizer que não sabe das novidades?”
“Novidades?” perguntei, tentando entender o que ele estava insinuando.
“Nosso acionista majoritário assumiu a empresa, de certa forma. Agora, ele cuida de tudo… ou finge cuidar de longe. Se ao menos minha filha tivesse assumido tudo, mas não, nem pra isso ela serviu.” Olhei sem entender, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouvi o som de saltos e a voz feminina preencher o ambiente.
“Espero que não esteja fazendo escândalo, Phillip. Já temos problemas demais.” Olhei para a mulher que estava parada em frente à sala da presidência, com um olhar superior e um conjunto social de grife, sua postura completamente arrogante. “Vejo que temos visita. Senhora Mellark, a que devo o prazer da sua visita?”
“Você seria...?”
“Quanta indelicadeza minha.” Ela se aproximou e parou bem na minha frente. “Johanna Mason, presidente interina da Mockingjay, representando, obviamente, os interesses do senhor Mellark.” Fiquei atordoada com a informação. Peeta realmente havia tirado meu pai da presidência e eu não sabia disso. Ainda assim, aceitei o cumprimento e apertei a mão dela. “Algo que possa fazer por você hoje?”
“Não, vim falar com meu pai e com o contador. Nada que a senhora possa ajudar.”
“Ah, sim, espero que seus assuntos com Phillip não sejam pessoais. Afinal, ele está em horário de trabalho.” Ela se aproximou mais, falando em um tom mais baixo, para que só eu pudesse ouvir. “E aqui entre nós, o desempenho dele não está nada bom.”
“Nada que não possa ser discutido depois. Se me der licença, vou procurar o Gloss. Tenho assuntos relacionados à empresa para tratar com ele.”
“Ah, sim, claro. Vai precisar de mais documentos?” Olhei para ela, e embora não tenha dito nada, acredito que minha expressão tenha falado por mim, já que ela sorriu ainda mais. “O senhor Mellark me informou que você está analisando alguns documentos e que o acesso às informações foi liberado. Espero que o senhor Gloss esteja fornecendo dados úteis.”
“Sim, não se preocupe. Seu funcionário tem sido solícito.”
“Ele não é meu funcionário.”
“Ah, é verdade, ele é do meu marido, mas isso pode ser interpretado como se fosse meu também.”
“Bom, isso depende do tipo de união que vocês se casaram, do acordo pré-nupcial , a lei não é tão simples assim, posso afirmar como advogada, mesmo assim, fico feliz em saber que Gloss está sendo útil para alguém. Se puder ajudar com alguma informação pode me procurar.”
“Obrigada pela gentileza, mas não será preciso.” ela sorriu um sorriso com certo sarcasmo.
“Espero que possamos nos ver em breve. Tenho assuntos a tratar. Fique à vontade, senhora Mellark.”
Observei a mulher voltar para a sala onde estava, e não consegui conter a raiva que senti. Sua presunção, o fato de eu não ter sido informada sobre essa mudança e o envolvimento de Peeta Mellark em tudo isso me incomodavam profundamente.
Depois de falar com Gloss e pegar alguns documentos, fui encontrar meu pai para almoçarmos em um restaurante próximo à empresa. A refeição toda transcorreu praticamente em silêncio. Esperei que ele comentasse algo sobre as mudanças na empresa, mas ele não disse uma palavra, o que, por si só, já era estranho.
"Como está a mamãe?" perguntei, logo após pedir a conta.
"Magoada. Você e sua irmã a deixaram profundamente sentida, principalmente depois de tudo que ela fez por vocês a vida inteira. Nunca pensei que minhas filhas seriam esse tipo de gente, egoístas e que não pensam nos pais." Quis perguntar o que, afinal, ela havia feito de tão extraordinário, e o que, exatamente, minha irmã e eu fizemos de tão errado para sermos consideradas tão egoístas e sem consideração, mas guardei os questionamentos para mim. "O que o Gloss tanto te entrega? Que documentos são esses? O que você está fazendo, afinal?"
"Tentando encontrar uma forma de salvar a empresa." Ele me olhou sem entender. "Estou montando uma proposta de negócio para mantê-la aberta. Pretendo apresentá-la no início do ano."
"Não seria mais prático pedir a empresa para o seu marido? Um agrado que ele poderia te dar. E eu te ajudaria com o resto."
"Eu não quero um agrado. Quero provar que a Mockingjay pode ser um bom negócio. Ela não é um brinquedo. Há pessoas que dependem dela, não só o pessoal do escritório, mas os trabalhadores da fábrica no Distrito 12."
"E você acha mesmo que pode salvar a empresa? Acho melhor já ir preparando os avisos-prévios. Está com confiança demais, pro meu gosto." Tentei não levar para o lado pessoal, mas doeu. A descrença dele me atingiu em cheio. Ainda assim, tentei não demonstrar enquanto entregava o cartão de crédito ao garçom, sem nem olhar para a conta que ele havia deixado sobre a mesa. "Olha onde eu vim parar", ele continuou, amargo. "Estou marcando ponto, sabia? É ridículo. Mas quem foi que disse que filhos pensam nos pais, não é mesmo? Não dá pra esperar nada de ninguém."
"Já que você tem que marcar ponto, é melhor irmos, não é? Tenha uma boa tarde, pai."
Levantei, peguei minha bolsa e saí sem olhar para o homem que, em parte, era uma das razões da minha situação atual e que ainda assim me via como uma filha egoísta. Antes que minhas emoções me traíssem, caminhei em direção à porta.
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