Linha Tênue

48 Capítulo 45: Xeque-mate


Notas iniciais
Boa noite, meus queridos! Tudo bem? Primeiramente, feliz Dia das Mães para todas as mamães que acompanham esse enredo. E um ponto importante: Esse não é o último capítulo. Eu não conseguiria finalizar tudo hoje colocando cada detalhe como gostaria. Mas a data do dia 13/05 segue firme, e amanhã à noite eu posto o último capítulo. Mas vamos ao penúltimo....



Nove dias após o nascimento, depois de recuperar as gramas perdidas e, enfim, começar a ganhar peso, se alimentando melhor sem a necessidade de complemento no copinho, mesmo que isso levasse o tempo dela, a alta finalmente veio.

E a sensação de chegar em casa foi indescritível.

Minha mãe havia finalizado o quartinho dela e preparado uma pequena recepção com a família, com direito a uma faixa brega, como Delly insistia em dizer, e tudo mais.

Afinal, era domingo e eu sabia o quanto minha mãe amava domingos.

Em casa, já mais estável, minha filha virou a atração que todas as tias queriam. As quatro pareciam quase se gladiar para ficar mais tempo com ela no colo, e competindo para tentar ter a atenção dela por mais tempo.

Enquanto isso, minha mãe apenas sorria, sendo praticamente excluída da disputa, já que, segundo elas, minha mãe já havia passado tempo demais conosco no hospital, o que não era mentira.

Embora eu tenha conseguido um dia de visita para que todos conhecessem minha filha, tivemos que seguir as normas do hospital, que não permitiam aquele número de pessoas por tempo demais. Por isso, mesmo com toda a vontade de todas elas de ajudar e estar presente, apenas minha mãe ficou comigo praticamente todos os dias.

Meu pai ficava indo e vindo com frequência, mas Effie Mellark parecia uma águia naquele hospital.

Observei Katniss sorrir enquanto Delly tirava foto atrás de foto do que acabamos chamando de “o encontro da nova geração”. Alex, sentado no sofá, tentava segurar Rayna e Kai com um cuidado enorme, mas completamente desajeitado. Sem dúvida, aquela imagem ia parar como protetor de tela de noventa por cento da família antes do fim do dia. O meu, sem dúvida, seria esse.

Ver aquele sorriso me trouxe um alívio que eu nem tinha percebido que estava procurando.

Principalmente porque eu tinha notado o quanto ela ficou diferente assim que saímos do hospital.

Ela travou.

Não foi imediato. Pelo contrário, foi repentino.

Ela estava animada desde que assinaram a alta da nossa filha, falando baixo, ainda cansada, mas leve… e eu só percebi depois de prender o bebê conforto no banco de trás e fechar a porta com cuidado.

Quando olhei, ela não tinha entrado.

Estava parada.

O olhar fixo no carro, como se não fosse só um carro.

Ela não dizia nada. Não chorava. Não tremia. Mas também não se mexia.

E eu sabia que aquilo era hesitação. Era medo.

Me aproximei devagar, como se qualquer pressa pudesse piorar a situação. Toquei de leve no braço dela, chamei seu nome, e só então ela piscou, como se estivesse voltando de muito longe.

Levou um segundo. Talvez dois.

Então ela entrou no carro, em silêncio, tomando cuidado demais com cada movimento, evitando olhar ao redor.

Durante todo o caminho, observei pelo retrovisor o quanto ela não tirava os olhos do bebê conforto, mesmo com Rayna dormindo tranquilamente. Era como se precisasse confirmar, o tempo todo, que ela ainda estava ali.

Segura.

Nós não tínhamos falado diretamente sobre o sequestro. Não de verdade. Eu tinha mencionado terapia algumas vezes nos últimos dias, com cuidado, sem pressionar. Ela não recusava… mas também não demonstrava estar animada com a ideia.

Mas depois daquela reação na porta do carro, ficou claro pra mim que não dava mais pra adiar.

Ela precisava de ajuda.

Principalmente porque havia outra coisa que também não podia mais ser adiada.

O depoimento.

Meus advogados tinham conseguido, junto ao promotor, adiar o depoimento dela e do Darius enquanto os dois estavam internados. Foi o máximo que deu pra fazer nesses dias.

Mas esse tempo estava acabando, a alta do Darius estava prevista para o dia seguinte. E, com isso, vinha o inevitável. Na semana seguinte, eles teriam que ir até a delegacia.

Eu não fazia ideia do que tinha acontecido durante o período em que ela ficou presa naquela casa. E, na maior parte do tempo, eu evitava pensar nisso. Não porque não importasse, mas porque a minha cabeça insistia em preencher os espaços com possibilidades que eu não queria encarar.

Mesmo assim, o pensamento voltava.

Sempre voltava.

Os médicos fizeram todos os exames possíveis. Não havia sinais de agressão física, mas aquilo não significava nada.

Não significava que ela estava bem.

Não significava que não havia trauma.

E definitivamente não significava que nada tivesse acontecido.

E isso, por si só, já era suficiente para me manter em alerta constante

Embora não quisesse deixar minha família, na segunda à tarde segui direto até a casa de Darius para vê-lo, e fiquei aliviado ao encontrá-lo bem, apesar de tudo.

“Sinto muito não ter ido vê-lo antes.”

“Não se preocupa, senhor. Brutus e os rapazes me mantiveram atualizados, sempre falavam que o senhor pedia notícias… e sobre o hospital, eu sei que não foi pelo seguro, mesmo sendo muito bom. Acho que não cobriria o quarto que estava. E eu soube que a chefinha nasceu. Meus parabéns.”

“Obrigado.” Sorri e mostrei a ele no celular uma foto dela. “Vocês quase receberam alta no mesmo dia, ela foi liberada ontem.”

“Ela é linda…” Houve um breve silêncio, como se ele pensasse no que dizer. “Eu sinto muito por não ter conseguido protegê-las, senhor.”

“Darius, por favor… você foi incrível. Eu vi as filmagens. Você quase morreu por elas.”

“Não acho que ele realmente iria atirar.” Olhei pra ele descrente, sabendo que ele não estava falando a verdade. Aquele homem provavelmente iria sim atirar, e ele sabia. “Era o meu trabalho. Mantê-la segura… e eu não fiz isso. Eu devia estar com a arma em mãos quando me aproximei do carro. Eu pensei em pegar, mas não queria assustá-la.” Ele respirou fundo. “Bom… eu falei com o Brutus sobre uma realocação. Talvez no prédio da empresa, algo mais interno. Se não for um problema pro senhor. Eu entendo se pedir minha dispensa.”

Fiquei alguns segundos olhando pra ele, sem entender. Quando Brutus me falou do pedido, eu não julguei. Ele tinha se machucado, e eu entenderia até mesmo se ele não quisesse mais atuar como segurança, mas aquilo não mudava o que ele tinha feito.

“Darius… em nenhum momento eu considerei te dispensar.” Ele levantou o olhar, surpreso. “Se você quiser algo mais tranquilo por um tempo, você pode escolher com o Brutus onde é melhor ficar. A empresa, qualquer casa da família… onde fizer mais sentido pra você agora. Mas, até lá, você vai se cuidar.” Ele ficou em silêncio. “Isso inclui a sua posição antiga.” Continuei. “Embora agora, além da Katniss e da Prim… você também tenha a Rayna. Então talvez você tenha que se preparar pra ouvir um choro aqui e ali.”

Ele soltou o ar, quase um sorriso.

“Obrigado, senhor.”

“Não.” Balancei a cabeça de leve. “Eu que agradeço.” Conversamos por mais um tempo. Os advogados entraram em contato enquanto eu ainda estava lá, marcando o depoimento deles para o dia seguinte.

Voltei para casa já decidido a conversar com Katniss. Eu precisava garantir que ela estivesse ciente de que teria que prestar depoimento. Encontrei ela saindo do quarto da Rayna.

“Ei… já chegou? Ela acabou de dormir.” Embora ela passasse a noite no nosso quarto, durante o dia a ideia era deixá-la dormir no dela. Tentei sorrir.

“Podemos conversar?” Ela concordou com a cabeça e seguimos para o quarto. O olhar dela permaneceu preso na babá eletrônica, como se ainda estivesse lá dentro.

“Você foi para a empresa? Achei que ia passar o dia lá.”

“Não.” Encostei a porta, observando enquanto ela se sentava na cama. “Na verdade, vou passar os próximos dias em casa. A Delly está cuidando de tudo no meu lugar por enquanto. Se ela precisar de ajuda, eu vejo daqui… mas ela está se saindo muito bem.” E de fato, minha irmã estava me ajudando muito nesses dias. Ela não perguntou onde eu havia ido, mas o olhar dela perguntava. “Fui visitar o Darius. Ele recebeu alta hoje. Já está em casa.”

“Isso é ótimo.” Ela sorriu de leve.

Uma das primeiras coisas que ela perguntou, depois de tudo, foi sobre ele. Se estava vivo. Se estava bem. E, sendo sincero, eu não esperava isso, mas talvez devesse. Nos últimos meses, Katniss não vinha sendo mais aquela mulher que eu conheci anos atrás. Aquela que fez o que fez na época da escola.

“Katniss…” me sentei ao lado dela na cama. “Acho que você já imagina isso, mas o Gale está preso. Ele e todos os envolvidos no...” A palavra ficou presa na minha garganta. “No que aconteceu.”

Sequestro ainda era difícil de dizer na frente dela.

“Ah… ainda.” Ela falou baixo, e a surpresa dela com o fato me surpreendeu também. “Bom… quando a polícia invadiu… eles trocaram tiros. Acredito que isso dificulte a saída dele da cadeia.”

“Sim, esse é mais um agravante. A maior parte foi presa na casa, mas também localizaram outras pessoas depois.” Respirei fundo. “Bom… com a sua alta e a do Darius, não temos mais como adiar o depoimento de vocês.”

“Ah…”

“Vamos precisar ir à delegacia amanhã.” Observei o olhar dela ficar um pouco perdido, embora ela ainda concordasse com a cabeça. “Eu sei que não é fácil… mas precisamos seguir com os trâmites.”

“Certo.” Houve um breve silêncio.

“Katniss… existe algo no passado de vocês que seja importante destacar nesse momento?” Ela me olhou. “Eu não queria perguntar assim… mas acho que seria bom saber. Não precisa me contar agora, pode falar com os advogados e o promotor… mas ele já teve algum comportamento violento antes?”

Ela ficou em silêncio por um momento, como se estivesse decidindo se falaria ou não. Então olhou novamente para a babá eletrônica antes de responder.

“Na escola não éramos namorados… eu sei que você acredita que menti, mas não éramos. Eu não menti sobre isso. Éramos amigos… amigos que ficavam, mas não mais que isso. Embora ele sempre tivesse muito interesse em mudar isso. Na faculdade ele conseguiu. Era como se fosse o esperado… com as nossas famílias sendo próximas como eram. Gale nunca foi tranquilo. O que aconteceu na minha casa não foi algo isolado… ele fazia esse tipo de coisa. Intimidava novatos, fazia piadas de mau gosto… mas na faculdade o temperamento dele ficou pior. Ele estudava no 13 e eu aqui… então, quando estávamos juntos, ele demonstrava muito mais ciúmes. E eu… eu nunca tive um temperamento tranquilo. Principalmente naquela época, ou seja nossas discuções na maioria das vezes era acalorada. De qualquer forma…” Ela respirou fundo. “Eu estava com vinte semanas quando fui até a casa dele sem avisar… e peguei ele com outra.” Fiquei em silêncio, apenas ouvindo. “Não estávamos nos dando bem… por vários motivos. A gravidez não foi exatamente planejada. E, pra ser sincera, eu não fiquei tão surpresa assim. Não depois de tudo… sabe? Eu ainda acreditava que ele me amava… mas não me surpreendi.”

Ela engoliu seco antes de continuar.

“De qualquer forma, discutimos. Falamos coisas… muitas coisas. Até que…” A voz dela falhou por um segundo. “Ele me bateu.” Senti meu corpo enrijecer em uma vontade enorme de soca-lo eu mesmo. “Eu tentei sair depois disso. Eu disse que tinha acabado… mais de uma vez, mas eu não consegui.” Ela desviou o olhar. “No fim… eu acordei depois… com uma hemorragia… e com o ombro já colocado no lugar.” O silêncio pesou no quarto. “Ele entrou em pânico… e, enquanto eu estava desacordada, não pediu ajuda. Não chamou ninguém… não me levou pro hospital. Só depois de horas, quando o pai dele chegou… que eu tive socorro.” A voz dela ficou mais baixa a cada fala até que ela não conseguiu continuar.

Os olhos cheios de lágrima.

E, naquele momento, tudo que eu senti foi raiva.

Raiva do que ele fez.

Raiva do que ela passou.

Raiva de saber que ele teve tempo… e mesmo assim escolheu não ajudar.

“Sinto muito…” Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. “Mas por que você não denunciou? Ele devia ter sido preso.”

“Os Hawthorne têm muita influência no Distrito 13…” ela respondeu, sem me olhar. “Quando eu dei entrada no hospital, Gale disse que eu tinha caído.”

Aquilo não fazia sentido.

Nenhum profissional aceitaria aquilo sem questionar, sem pedir uma investigação.

“E eu… naquela época… eu só queria ir pra casa.” Ela respirou fundo, como se aquilo ainda doesse. “Eu acordei com um luto… e uma sentença.” O quarto pareceu menor, e vi o olhar dela voltar pra babá eletrônica.

“Eu não estava bem. Eu fiquei perdida… precisei de terapia, tomei remédio por meses. Era como se, sem eles, eu não conseguisse levantar da cama e fazer o mínimo. Foi nessa época que comecei a ter crises de pânico.” A voz dela ficou baixa novamente. “Eu só queria não precisar ver ele nunca mais.” Silêncio. “Meus pais… conseguiram tirar isso do meu histórico médico. Minha mãe estava preocupada com como eu reagiria às perguntas… meu pai garantiu que eu não veria o Gale, que ele não me procuraria mais.” Ela finalmente me olhou. “Eles só quiseram… que tudo fosse esquecido e que fica-se bem logo.” Uma pausa. “E, no fundo… eu não tinha força pra lutar.”


Embora nitidamente ela não quisesse deixar nossa filha, Katniss a deixou com minha mãe e Prim naquela terça-feira. E fomos até a delegacia, eu precisava entender como as coisas estavam. E não deixaria que ela fosse sozinha.

Dr. Carise nos encontrou na entrada do prédio.

Ele fazia parte da equipe jurídica da empresa havia anos e, embora não atuasse diretamente na área criminal, nas últimas semanas tinha se tornado alguém encarregado de impedir que aquilo destruísse ainda mais a minha família. Acompanhava o caso de perto junto ao promotor, me mantinha informado e garantia que nenhuma decisão fosse tomada sem que estivéssemos preparados.

Finn, assim como Annie, havia se oferecido para ir conosco, mas recusei. Preferi deixá-lo focado nos negócios da empresa, e não tinha certeza de como ela se sentiria com os dois ouvindo o que aconteceu.

“Se em algum momento ficar demais, nós paramos”, ele disse diretamente para Katniss enquanto caminhávamos pelo corredor. “Você não precisa mostrar força o tempo todo.” Ela apenas assentiu.

“Eles tentaram levar o caso para o 13”, o investigador comentou enquanto nos conduzia pelo corredor. “Não conseguiram.” Aquilo não me surpreendeu. Liam Hawthorne não fazia nada sem calcular o terreno. Se existisse uma chance de levar aquilo para um lugar onde tivesse influência, ele tentaria. “Pegamos todos os envolvidos. A maioria já estava na casa”, ele continuou. “O hacker foi localizado há três dias.”

Assenti, absorvendo a informação.

Fomos conduzidos até a sala onde o promotor aguardava. Fomos apresentados rapidamente e ele não perdeu tempo.

Direto. Objetivo.

Como eu precisava que fosse.

A ideia era resolver aquilo o mais rápido possível e voltar para casa.

A primeira coisa feita, depois de uma conversa breve, foi o reconhecimento dos envolvidos. E eu odiei vê-la olhando um por um atrás do vidro enquanto advogados entravam e saíam para falar com seus clientes.

Katniss permaneceu em silêncio enquanto eu era obrigado a ficar alguns passos atrás, sem qualquer contato visual ou físico com ela.

Os primeiros homens foram rápidos.

Ela reconheceu dois quase imediatamente, com a voz baixa, contida. Falava os números com precisão. Como alguém tentando terminar aquilo antes que desmoronasse.

Então Gale entrou e tudo nela mudou.

Foi sutil no começo. Tão sutil que talvez ninguém além de mim tivesse percebido.

Os dedos dela começaram a tremer levemente. E eu desejei, com tudo em mim, atravessar aquela sala e dizer que ele não podia mais machucá-la.

Mas não pude me aproximar. Do outro lado do vidro, Gale Hawthorne parecia absurdamente tranquilo, apesar de estar preso havia dias.

Dr. Carise percebeu imediatamente. Olhou para mim antes de dar um passo discreto para mais perto dela. Preparado para interromper aquilo, se fosse necessário.

Então eu vi Gale sorrir.

Mesmo sem conseguir vê-la. Mesmo sem ter certeza de que era Katniss e não Darius, quem fazia o reconhecimento naquele momento.

Não foi um sorriso aberto.

Foi pior, só um pequeno movimento no canto da boca.

Íntimo, convencido. Como se ainda acreditasse que existia alguma coisa entre eles.

Katniss estava com medo.

E naquele momento entendi que o medo dela não era do homem atrás do vidro.

Mas do homem que conheceu naquela casa.

Não o garoto que conheceu anos atrás.

Não o homem por quem um dia sentiu algo.

Mas alguém completamente consumido pela própria obsessão.

Ela deu um pequeno passo para trás, instintivamente, como se o corpo dela reagisse antes mesmo da mente.

Quis ir até ela imediatamente, mas o promotor fez um gesto discreto para que eu permanecesse onde estava. Quando Katniss finalmente falou, a voz saiu baixa. Fraca demais para alguém que sempre soube sobreviver.

“Número dois. Gale Liam Hawthorne.” O investigador deu duas batidas leves no vidro e alguém do outro lado ordenou que ele desse um passo à frente.

“Foi esse homem que a sequestrou?” O silêncio dela durou um segundo longo demais e então Katniss assentiu.

“Sim.” Ela se virou logo em seguida, e foi aí que vi as lágrimas nos olhos dela.

Não hesitei dessa vez. Atravessei a distância entre nós rapidamente e a abracei antes mesmo que ela começasse a desabar.

“Está tudo bem, ele não pode te machucar, ele nunca mais vai chegar perto de você , eu juro.”

O reconhecimento da mulher, foi feito por foto já que ela estava em uma penitenciária feminina mais afastada.

“Senhor e senhora Mellark”, o promotor começou, assim que voltamos a sala abrindo uma pasta à sua frente. “Estamos com todos os envolvidos identificados. Alguns já formalmente acusados anteriormente.”

“E o Hawthorne?”

“É o principal investigado. E, até o momento, o único com uma equipe de defesa estruturada. Os demais estão com advogados próprios, como viram alguns com defensoria pública, mas, em sua maioria, interessados em negociar.”

“Que tipo de acordo?”, perguntei.

Ele sustentou meu olhar por um segundo antes de responder.

“Redução de pena em troca de colaboração. Eles testemunhariam contra o mandante.” Eu não gostei daquilo, mas deixei que ele continuasse. “Os Hawthorne vão pressionar”, ele seguiu. “Contrataram advogados experientes e vão tentar minimizar a participação dele. Ele já nega envolvimento direto em vários pontos e propôs um acordo absurdo.” Ele fez uma pausa antes de continuar. “Temos o vídeo da câmera do painel do veículo, o que nos coloca em vantagem para uma negociação mais razoável. Se não houver acordo, a defesa provavelmente tentará outras estratégias no julgamento. Conseguir depoimentos favoráveis dos comparsas pode fortalecer o argumento de que ele não executou diretamente todo o crime, embora tudo tenha partido dele.”

Fiquei em silêncio, observando Katniss perder um pouco da cor.

Ele não estava errado.

Mas também não estava olhando aquilo da mesma forma que eu.

“E precisamos considerar que recusar um acordo”, o promotor continuou, agora mais cauteloso. “Significa que a senhora Mellark precisará depor. E eu não vou mentir para vocês… esse processo não é fácil. A defesa vai tentar descredibilizá-la.” Respirei fundo. “Eles podem trazer à tona a relação anterior dela com Hawthorne. Tentar construir outra narrativa.”

“Nunca escondemos o passado deles”, respondi. “Sempre ficou claro que eram ex. E, para mim, isso só piora tudo. Ele é um perseguidor obsessivo.”

“Sim, isso ajuda no caso. Mas ainda assim será explorado. E pode ser difícil, principalmente depois de tudo.”

Dr. Carise, até então em silêncio ao meu lado, cruzou os braços antes de falar pela primeira vez desde que entramos na sala.

“A defesa pode tentar criar narrativa”, ele disse calmamente. “Mas existe uma diferença muito grande entre um relacionamento anterior e mais de quarenta e oito horas de cárcere privado de uma mulher grávida, no último trimestre.”

O promotor assentiu levemente.

“E concordo.”

“Além disso”, Dr. Carise continuou, “há provas físicas, testemunhas, uma ação policial e uma vítima encontrada em cativeiro. Isso não é um caso sustentado apenas por um depoimento ou pelo fato de eles terem se conhecido no passado.”

Aquilo pareceu aliviar um pouco da tensão no rosto de Katniss.

“Quais acusações?”, perguntei, direto.

O promotor virou algumas páginas.

“Sequestro, cárcere privado, associação criminosa, invasão de sistema, tentativa de homicídio, pelo disparo contra o seu segurança e lesão corporal grave.” Meu maxilar travou. “Existe uma estratégia que pode deixá-los encurralados a aceitar um acordo mais cabível”, ele continuou. “Se alguns dos envolvidos aceitarem colaborar, conseguimos fortalecer o caso contra o mandante e garantir uma pena maior para ele.”

Balancei a cabeça imediatamente.

“Eu não quero acordo com nenhum deles.” O silêncio foi imediato.

“Senhor Mellark…”, ele começou, mais cuidadoso agora, “o que o senhor está pedindo não é simples. Em casos assim, negociar pode garantir resultados mais rápidos e seguros.”

“Esses homens atacaram a minha mulher.” Minha voz saiu baixa, controlada e mais firme. Muito mais porque Katniss estava ali do que por qualquer outra coisa. “Ela estava grávida. Ficou mais de quarenta e oito horas naquela casa. Entrou em trabalho de parto.” O promotor permaneceu em silêncio. “Eles espancaram o meu segurança. Quebraram o nariz, quebraram costelas… e atiraram nele.” Ainda silêncio. “Darius poderia ter morrido”, completei. “Ela poderia ter morrido. Minha filha também.” Sustentei o olhar dele. “Eu quero o mandante disso na cadeia.” Respirei fundo, mas não recuei. “E quero que quem puxou o gatilho pague. E que todos os envolvidos paguem também. Sem acordo benéfico para nenhum deles.”

Dr. Carise não tentou me interromper. Nem me acalmar. Porque sabia exatamente o motivo de eu estar dizendo aquilo. O promotor assentiu devagar.

“Isso significa um processo longo.”

“Eu não estou buscando rapidez.” Parei por um segundo. “Nem facilidade.” Mantive os olhos nos dele. “Estou buscando justiça...Para os dois.”

O silêncio que veio depois foi pesado.

Porque todos naquela sala sabiam que eu não estava falando apenas de Katniss.

Estava falando de Darius também.

“Senhora Mellark”, o promotor disse, voltando-se para ela, “a senhora concorda com o seu marido?” Katniss não respondeu imediatamente.

Os dedos apertaram um pouco mais a manga do casaco antes que ela assentisse devagar.

“Sim.” A voz saiu baixa, mas sem hesitação.

“Bom”, o promotor disse, fechando parte da pasta. “Então vamos ao seu depoimento.”

Na hora seguinte, ouvi Katniss narrar tudo o que havia acontecido naquelas horas.

Como rodaram de carro por horas.

A casa.

O quarto preparado para recebê-la.

Como Gale parecia completamente fora de si.

Como falava em fugir com ela para o exterior.

Os documentos falsos.

Como agia como se Rayna fosse filha dele.

Então o cabelo cortado.

Os planos absurdos.

As tentativas de agir como se fossem um casal.

E a pior parte não era nem ouvir os detalhes.

Era ouvir o tom da voz dela.

Porque Katniss não narrava aquilo como alguém contando um crime.

Narrava como alguém que ainda estava tentando entender como sobreviveu.

Ela contou como obedecia.

Como evitava contrariá-lo.

Como fingia calma quando, na verdade, estava aterrorizada.

“Eu comecei a sentir as contrações… e o clima na casa piorou”, ela disse em determinado momento, a voz mais fraca. “Ele não ia me levar para um hospital. Eu sabia disso.” Senti minhas mãos fecharem em punhos imediatamente. “A mulher… Pam… ele a chamava de Pam”, Katniss continuou. “Ela disse que faria o parto ali mesmo.” O silêncio na sala ficou absoluto. “Ela começou a separar algumas coisas e ele ficou nervoso. Andava pela casa o tempo todo.” Katniss respirou fundo antes de continuar. “Então as luzes apagaram. E alguns segundos depois eu ouvi barulho vindo de fora.” Ela apertou as mãos uma na outra. “Ouvi a porta do andar de baixo ser arrombada. Depois os tiros.” A voz falhou levemente. “Eu achei que fosse morrer. Achei que ele fosse fazer alguma coisa ainda pior.” Engoli em seco, observando os dedos dela tremerem. “Mas quando a polícia entrou no quarto…” Katniss parou por um instante. “Ele não se mexeu.” O silêncio ficou pesado outra vez. “ E quando as luzes acenderam ele só ficou me olhando.” Ela desviou os olhos para a mesa. “Como se ainda acreditasse que eu iria embora com ele. Como se ele estivesse na razão."

“Acho que o senhor já tem tudo o que precisa, não é, doutor?”, Dr. Carise disse enquanto fechava a pasta. “Minha cliente já colaborou bastante hoje e eu adoraria levá-la para casa.” O promotor assentiu.

“Claro. Se precisarmos de mais alguma coisa, entraremos em contato. Mas o depoimento e o reconhecimento foram fundamentais para a continuidade do caso, senhora Mellark. Obrigado pela colaboração.”

Já estávamos saindo do prédio quando Katniss se virou para mim.

“Eu preciso de um minuto. Vou ao banheiro.”

“Tudo bem.” Fiquei esperando do lado de fora, caminhando lentamente em direção ao pequeno pátio em frente à delegacia enquanto Dr. Carise falava ao telefone alguns passos atrás de mim. Foi então que os vi.

Não apenas Liam Hawthorne, mas meu sogro ao lado dele.

Assim que Liam me percebeu, começou a caminhar na minha direção. Seguro demais para alguém cujo filho estava preso por sequestro.

“Exatamente quem eu gostaria de encontrar, senhor Mellark.” Meu maxilar travou imediatamente.

“Não posso dizer o mesmo, senhor Hawthorne. O senhor é uma das últimas pessoas que eu gostaria de encontrar hoje.”

Um sorriso discreto surgiu no rosto dele.

“Olha só… sem etiqueta hoje.”

“Por que eu teria etiqueta?”, rebati friamente. “Estamos em frente a uma delegacia. E com interesses claramente diferentes.”

“Não vejo dessa forma. Você vê, Phillip?” Meu sogro aparentemente não esperava me encontrar ali. Apenas assentiu de leve em cumprimento, desconfortável demais para realmente sustentar meu olhar.

Aquilo só piorou meu humor.

“Eu gostaria de conversar com você”, Liam continuou. “Chegar a um acordo de cavalheiros.” Soltei uma risada curta, sem humor algum.

“Acordo de cavalheiros?”

“Sim. Um acordo de cavalheiros.” Ele ajeitou o paletó com tranquilidade irritante. “Meu pai costumava dizer que não existe ‘não’ no mundo dos negócios. Existem pessoas que não sabem negociar.” Senti meu sangue ferver.

“Estamos falando de negócios agora?”

“Tudo na vida é negócio, senhor Mellark. Entretanto…” ele inclinou levemente a cabeça. “Acredito que os seus interesses estejam ultrapassando um pouco os limites.” Demorei um segundo para processar o absurdo daquilo.

“Como é?”

“Meu filho está preso há mais de uma semana. Não consigo sequer autorização para transferi-lo para mais perto de casa.” Ele suspirou, como se aquilo fosse um transtorno injusto para ele. “Não vou fingir que Gale não errou. Isso seria hipocrisia da minha parte. Entretanto… tudo isso é realmente necessário?”

Fiquei encarando aquele homem por alguns segundos. Tentando entender se ele realmente tinha coragem de me perguntar aquilo.

“Você está brincando comigo?”, perguntei, baixo. “Porque eu sinceramente espero que isso seja algum tipo de piada.”

“Não precisa agir de forma impulsiva.” Liam manteve o mesmo tom calmo. “Ninguém aqui desconhece o passado de vocês. Toda aquela coisa adolescente. Gale me contou.” Ele deu de ombros. “Imagino que ainda exista mágoa. Ego. Disputa.” Meu corpo inteiro enrijeceu.

“Disputa?”, repeti devagar.

“Pela Katniss.” Ele sustentou meu olhar sem hesitar. “É fácil perdoar uma mulher quando ela erra, não é? Mas entre homens…” um sorriso quase arrogante apareceu em seu rosto. “Fica ressentimento. A necessidade de vencer.”

Aquilo foi suficiente.

“Não existe disputa pela Katniss”, cortei imediatamente. “Ela é minha mulher.” Minha voz saiu muito mais fria do que alta. “E o seu filho é um criminoso.” O sorriso dele desapareceu pela primeira vez.

“Criminoso?” Liam soltou uma pequena risada incrédula. “Não. Tolo? Talvez. Impulsivo? Com certeza. Mas apaixonado.” Ele inclinou levemente a cabeça. “Digamos que Gale não pensou com a cabeça certa.” Aquilo fez alguma coisa dentro de mim romper. Fui direto na gola da camisa dele, segurando o tecido com força suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio por um instante.

Eu queria socar aquele homem.

Queria arrancar aquele ar de superioridade do rosto dele.

Aquele mesmo sorriso irritante que Gale tinha, mas me controlei.

Mais por Katniss do que por mim.

Dr. Carise apareceu imediatamente entre nós, segurando meu braço e me afastando antes que a situação piorasse.

“Senhor Mellark ”, ele chamou firme, baixo. “ Aqui não é o melhor lugar.”

Liam ajeitou o paletó lentamente, como se ainda tentasse manter alguma dignidade.

“Ele sequestrou uma mulher grávida”, continuei, sem desviar os olhos dele. “Foi o mandante de um crime que terminou com um homem baleado.” Meu peito subia e descia rápido demais. “Ele a levou sob coerção e ameaça psicológica. Manteve minha esposa em cárcere privado por dias. Fez ela entrar em trabalho de parto dentro de um cativeiro.” O silêncio ficou pesado entre nós. “Então não tente transformar isso em rivalidade masculina ou disputa de ego.” Liam já não sorria mais. “Porque o seu filho não é um homem apaixonado.” Sustentei o olhar dele. “Ele é um narcisista obsessivo e perigoso… que vai passar muitos anos atrás das grades.”

Liam riu, debochado.

“Vamos lá, senhor Mellark… me diga o seu preço.” Senti meu corpo inteiro enrijecer. “Todo homem tem um preço.” Dr. Carise imediatamente ficou atento ao meu lado, mas Liam continuou falando como se estivéssemos discutindo um contrato qualquer. “Analisando friamente a situação, não houve nada tão grave assim.” Ele deu de ombros. “Seu segurança está bem. Ouvi dizer que o senhor gastou uma boa quantia no hospital, mas posso cobrir isso.” Meu maxilar travou. “As despesas da internação da Katniss. Da sua filha também.” Ele inclinou levemente a cabeça. “Mas elas estão bem, não estão? Como eu disse… nada realmente grave.” Eu realmente achei que fosse perder o controle ali. “Além disso”, continuou com tranquilidade irritante, “tenho certeza de que conseguimos negociar alguma coisa razoável. Um delito menor, talvez. Afinal…” ele abriu um pequeno sorriso, “aparentemente Gale precisará responder por algo desta vez.”

Desta vez.

Aquilo me incomodou imediatamente. Porque não havia certeza se ele falava apenas do que Gale tinha feito com Katniss anos atrás ou de outros crimes que a família Hawthorne já tinha abafado antes.

“Diga seu valor, Peeta.” Liam abriu os braços discretamente. “Sou um homem de palavra.”

“Você acha que isso é sobre dinheiro?”

“Tudo é sobre dinheiro.”

“Se você está brincando comigo, eu aconselho parar agora.”

“Não estou brincando.” Ele sustentou meu olhar sem hesitar. “Sua esposa ficou abalada, claro. Mas julgamentos são desgastantes. Exposição pública devido a seu status social. Ela tende a se abalar fácil.”

Aquilo foi suficiente para me fazer dar um passo à frente.

“Minha mulher não ficou ‘abalada fácil.” Minha voz saiu baixa e perigosa. “Ela passou pelo inferno naqueles dias.” Liam apenas me observou. “E quer saber de uma coisa? Isso só me dá mais certeza de que ela quer que o seu filho pague pelo que fez.” O silêncio ficou pesado. “Então, se for preciso, nós vamos a julgamento.”

“Peeta… talvez devêssemos tentar enxergar o outro lado”, Phillip falou de repente. Virei lentamente para encará-lo.

“Como é?”

“Liam garantiu que vai manter Gale afastado.” Ele parecia medir cada palavra com extremo cuidado. “Pense racionalmente. Um julgamento vai ser complexo. A mídia vai transformar isso num espetáculo. Isso pode prejudicar a imagem da sua empresa… gerar prejuízos reais.” Aquilo começou a me enojar. “E ele está disposto a compensar financeiramente os danos causados”, continuou. “Talvez seja melhor resolver isso da maneira menos pública possível.” Liam sorriu discretamente.

“Escute seu sogro.” Ele ajeitou o paletó. “Ele é um homem inteligente. Sabe medir o valor das coisas. Ambos somos homens de negócio.”

Então as peças que faltavam, finalmente começaram a se encaixar.

Os valores transferidos sem destino.

As contas paralelas dele. O fato de que ele parecia sempre ter algo além do dinheiro desviado da empresa. De nunca anunciar abertamente a falência. Olhei diretamente para Phillip.

“Você aceitou dinheiro dele.” Ele empalideceu imediatamente.

“Peeta...”

“Você recebe dinheiro dessa família há anos, não recebe?” O silêncio dele foi suficiente e naquele instante eu entendi tudo.

“E agora você estava tentando vender sua filha de novo.”

“Eu não vendi minha filha.”

“Então o que exatamente você fez?” Phillip passou a mão pelo rosto rapidamente.

“Haviam despesas.”

“Despesas?”

“O hospital da Katniss naquela época custou caro. Ela precisou de cirurgia.” Ele falava rápido agora. “Um cirurgião plástico refez parte do procedimento para que ela não ficasse com uma cicatriz grande.” Meu estômago revirou. “Depois vieram psicólogos, psiquiatras… você acha que isso tudo é barato?”

“Você realmente está tentando justificar isso?”

“Você ainda tem muito a aprender, Peeta”, Liam comentou calmamente. “Sua garotinha ainda tem muitos anos pela frente. Agora tudo parece lindo porque ela é um bebê. Mas crianças crescem.” Meu corpo inteiro enrijeceu. “Custam caro. Dão problemas.” Eu estava prestes a responder quando ouvi a voz dela.

“Você recebeu dinheiro por mim?” Todos nós nos viramos imediatamente. Katniss estava parada alguns passos atrás. Pálida, os olhos vermelhos.

Phillip congelou.

“Katniss...”

“Você me vendeu?” A voz dela falhou. “E não diga que estava fazendo o melhor pra mim enquanto aceitava dinheiro deles.” As lágrimas que ela segurou durante horas na delegacia começaram finalmente a cair. “Para você é sempre um negócio, não é?”

“Katniss, eu posso explicar...”

“Não.” Ela balançou a cabeça imediatamente. “Não fala que foi por mim. Por favor.” Mais lágrimas desceram pelo rosto dela. “Porque tudo pra você é dinheiro. Tudo.” Phillip respirou fundo, claramente desesperado.

“Mas foi por você.” A voz dele saiu mais firme agora, quase defensiva. “Você não aguentaria aquilo. E você ficou bem. Um julgamento naquela época não teria feito bem pra você… nem pra sua mãe.” Katniss apenas o encarava. “Imagina a Prim descobrindo tudo naquela época. Ela era só uma adolescente.” Ele passou a mão pelo rosto. “Eu fiz tudo por amor a você.”

“Você não sabe o que é amar.” A voz dela saiu baixa, mas firme. “Isso não é amor. Nunca foi.”

“Não diga o que não sabe”, Phillip rebateu, já perdendo parte da calma. “Eu sei que foi difícil, mas nós não perdemos tanto assim.” Katniss o encarava como se não reconhecesse o próprio pai.

“Eu perdi meu filho”, ela disse, a voz quebrando completamente. O silêncio veio imediato. “Você entende isso?” Phillip desviou os olhos por um segundo.

“Foi triste. Eu também queria meu neto, mas...” Ele hesitou. “Era só um feto. Ele não estava pronto. Nem todo bebê vem ao mundo.” Eu vi Katniss parar por um instante. Como se o mundo tivesse simplesmente deixado de existir ao redor dela. Vi a dor atravessar o rosto dela de uma forma que eu nunca esqueceria.

“Não pra mim.” A voz saiu destruída. “Eu sentia ele todos os dias.” Mais lágrimas escorreram. “Pra mim… naquela época… ele era tudo. Naquele dia eu perdi tudo.”

“Filha…”

“Peeta… me leva pra casa, por favor.” A voz dela saiu quebrada. Como se estivesse exausta demais até para continuar chorando.

Concordei imediatamente, passando os braços ao redor dela e a puxando para perto do meu corpo.

“Vamos embora.”

“Mellark.” A voz de Liam me fez parar. Virei lentamente o rosto em direção a ele. “Tem certeza de que não vai haver acordo?” Senti Katniss enrijecer entre meus braços.

“Se depender de mim”, respondi friamente, “o seu filho vai passar muitos anos na cadeia.” Liam soltou uma risada curta.

“Você realmente quer comprar essa briga?” Ele inclinou levemente a cabeça. “Nenhuma mulher vale tanto assim.” Aquilo foi suficiente para fazer meu sangue ferver outra vez. “Talvez você não saiba”, ele continuou calmamente, “mas eu pago o que for pelo meu filho. O que for.” O sorriso voltou devagar ao rosto dele. “E acredite… é muito dinheiro.”

Soltei Katniss por um instante. Só o suficiente para dar um passo à frente e ficar cara a cara com ele. Percebi o Dr. Carise ficando imediatamente alerta ao nosso lado.

“Ótimo”, respondi baixo. Sustentei o olhar dele sem desviar. “Porque eu estou disposto a pagar o dobro. O triplo.” O sorriso dele diminuiu aos poucos. “Pra ver o seu filho atrás das grades pelo tempo exato que ele merece. De acordo com a justiça ”

A volta para casa foi silenciosa.

Pesada.

Eu não sabia o que dizer.

E Katniss claramente não queria conversar.

Ela permaneceu olhando pela janela durante quase todo o caminho, abraçada ao próprio corpo como se ainda tentasse se manter inteira depois de tudo o que tinha ouvido.

Quando estacionei, ela não esperou que eu abrisse a porta.

Saiu do carro imediatamente.

E naquela noite se agarrou à Rayna como se precisasse sentir que ainda existia alguma coisa segura no mundo.

Fiquei observando as duas por alguns segundos da porta do quarto.

Katniss respirava o cheiro da nossa filha repetidamente, os dedos presos na manta pequena demais para realmente protegê-la de qualquer coisa.

Mas talvez não fosse sobre proteção.

Talvez fosse sobre lembrar a si mesma de que ainda existia vida depois de tanta destruição.

A mulher na minha frente estava longe de ser a garota que conheci anos atrás.

Longe daquela rainha forte e imponente, mas também não era a mulher que imaginei que fosse. Nem a mulher que reencontrei quando aceitou aquele contrato. Estava claro como as palavras do pai a haviam machucado. Como, de certa forma, aquele momento tinha sido uma ruptura.

Liam Hawthorne era manipulador.

Um homem que acreditava que dinheiro comprava tudo.

Inclusive pessoas.

Inclusive silêncio.

Inclusive dor.

E a pior parte era que o próprio pai dela havia aceitado aquilo. Eu não conseguia entender. Com poucos dias de vida, Rayna já tinha se tornado o meu mundo. Como pai, a única coisa que eu queria era protegê-la.

Então como Phillip foi capaz de fazer aquilo?

Aquilo deixou meu estômago embrulhado.

Saí do quarto em silêncio e caminhei até o escritório.

O tabuleiro de xadrez ainda estava ali.

As peças exatamente na mesma posição em que eu as havia deixado dias antes.

Um problema de xeque-mate inacabado.

Nível difícil.

Aproximei-me devagar, observando as peças espalhadas sobre a madeira escura.

O xadrez tinha feito parte da minha vida por tanto tempo.

Um jogo que nasceu baseado na guerra.

E talvez fosse exatamente por isso que continuasse tão fascinante.

Não existia sorte.

Só cálculo.

Antecipação.

Sacrifício.

Você não vencia apenas capturando o rei adversário. Vencia entendendo o tabuleiro inteiro. Aceitando perder peças menores para proteger as mais importantes. Ganhando espaço e induzindo o outro jogador a acreditar que ainda estava no controle quando, na verdade, a partida já havia acabado muitos lances antes.

Sorri sem humor ao encarar o peão preto entre os dedos. A peça mais descartável do jogo e a mais ignorada.

A que ninguém percebe avançando até ser tarde demais.

Observei novamente o tabuleiro.

Então finalmente vi.

A sequência.

Era simples.

Poucos movimentos.

O rei branco já estava encurralado havia muito tempo. Peguei o celular do bolso sem desviar os olhos das peças e disquei o número de Finn. Do outro lado, a ligação foi atendida rapidamente.

“Alô?” Respirei fundo.

“Finn… preciso da sua ajuda. Não comenta isso com ninguém ainda. Inclusive com Annie.” Meus dedos moveram a última peça no tabuleiro.

“Mas preciso que prepare os papéis do meu divórcio.” Do outro lado da linha, a surpresa veio imediata.

“Peeta… cara, você tem certeza?”

“Sim.” Fechei os olhos por um instante. “Esquece o pré-nupcial. Prepara um acordo justo. O melhor para Rayna.” Desliguei alguns minutos depois.

Então encarei o tabuleiro por mais alguns segundos.

A rainha branca continuava intacta, embora já não pudesse interferir na jogada.

Finalizei o último movimento.

“Xeque-mate.”


Notas finais
É isso, eu espero que vocês tenham gostado. Promessa de dedinho que amanhã eu trago o próximo, que no caso é o POV da Katniss. Me digam o que acharam e o que vocês acham que vem no próximo. Beijos e até amanhã!