Linha Tênue

43 Capítulo 40: O Que Não Foi Salvo.


Notas iniciais
Boa noite! Olha quem voltou em menos de um mês e com capa nova, lindíssima, feita pela Bel... O enredo começa a se desenrolar de forma mais intensa e, por isso, achei prudente incluir um aviso para garantir que ninguém se sinta desconfortável durante a leitura. ⚠️ Aviso de gatilho ⚠️ O capítulo a seguir aborda temas delicados, como emergência hospitalar, perda gestacional e crise de ansiedade. Leia com cuidado e no seu próprio tempo. Vamos ao capítulo...



Katniss Everdeen, grávida, vinte semanas. Teve uma queda, bateu a barriga.”

A voz do paramédico se fez presente enquanto eu sentia o solavanco da maca sendo colocada no carrinho assim que a porta da ambulância se abriu. Havia pessoas correndo pelo corredor ao meu lado. O barulho das rodas, alto demais. Tudo estava rápido demais.

As luzes no teto me deixaram tonta. A dor no ombro havia voltado e era horrível. Mas toda a minha preocupação não estava ali. Não estava no ombro, e sim no único lugar do meu corpo que não estava realmente doendo.

A pequena saliência na minha barriga parecia intacta. Quietinha. Como se nada tivesse acontecido. Ainda assim, algo dentro de mim sabia que algo estava errado, que não estava tudo bem. A batida havia sido forte demais. O medo já havia tomado conta de mim há muito tempo.

“Ei, amor… vai ficar tudo bem. Vocês vão ficar bem. Nós vamos ficar bem.” A voz de Gale estava ligeiramente nervosa. As lágrimas se acumulavam nos meus olhos e eu não tinha certeza de quanto tempo mais conseguiria aguentar em meio a tanta dor e incerteza.

“Dá espaço pra ela. Deixa os médicos trabalharem.” A voz de Liam se fez presente. Calma, analítica. Ele havia seguido a ambulância com o carro do filho. Parecia estar mentalmente fazendo um levantamento dos danos.

“Senhor, precisamos levá-la agora.”

“Eu vou junto.”

“O senhor não pode entrar.”

“Sou o pai. Ela é minha noiva.”

“Entendo, mas são normas. Precisamos cuidar deles agora. Seria muito importante se o senhor pudesse preencher a ficha dela na recepção. Assim que fizermos os exames, alguém vem trazer notícias.”

Ele ainda protestava, mas quem quer que estivesse empurrando a maca não parou. Quando a maca passou pelas portas duplas, deixando o corredor para trás, senti meu corpo ficar mole. Como se tivesse relaxado depois de segurar tudo por tempo demais. A sala era pequena, mas havia médicos demais ali.

Senti mãos por todo lado. Pessoas me conectando a aparelhos. Eletrodos no peito. Algo apertando meu braço. Uma picada rápida no outro. Meu corpo parecia cada vez mais lento, pesado, distante.

“Cadê o obstetra?”

“Cadê o aparelho de ultrassom?”

Talvez fosse a chegada ao hospital. Talvez fosse o fato de tantas pessoas estarem ao meu redor ao mesmo tempo. Tudo parecia perto demais, rápido demais, e ainda assim distante. Como se eu estivesse alguns centímetros fora do meu próprio corpo.

“Monitor cardíaco.”

“Pressão caindo.”

“O que temos aqui?”

“Trauma abdominal em gestante. Vinte semanas. Ombro deslocado, aparentemente já colocado no lugar. A ortopedia foi acionada, mas isso não é prioridade agora.”

Alguém ajustou a luz sobre mim.

“Srta. Everdeen, consegue falar comigo? Me escuta. Fica acordada, tá bem?”

Eu não conseguia falar. Mas eu ouvia tudo. Cada comando. Cada urgência contida em vozes treinadas para não demonstrar medo.

O gel frio se espalhou pela minha barriga, escorrendo devagar demais. Tentei me mexer. Não consegui. Meu corpo não respondia. Não tinha força para verbalizar qualquer coisa.

“Procura o batimento fetal com calma.”

“Mais pra esquerda.”

“Espera… tenta outro ângulo.”

O silêncio que se formou era pesado. Denso. Longo demais para ser normal.

“Troca o transdutor.”

“Droga…” A palavra me atingiu como um aviso. “…a cavidade está cheia de sangue.”

Cheia de sangue.

Isso não era bom. Eu sabia disso, mesmo sem entender de medicina.

“Precisamos de uma sala de cirurgia agora!”

“Chama o anestesista.”

“Pede pro banco sangue O negativo, agora.”

“Hemorragia interna confirmada. Quanto tempo desde a queda?”

“O noivo trouxe há poucos minutos.”

A maca disparou pelo corredor, rápido demais. As mãos que me empurravam não pediam licença, não explicavam nada. Apenas iam. O teto passava acima de mim em linhas brancas intermináveis, uma após a outra, como se o corredor não tivesse fim.

O frio aumentou. Primeiro na pele. Depois por dentro. Até os ossos.

“Srta. Everdeen, consegue falar comigo?”

Minha boca se abriu. Nada saiu. Não tinha forças.

“Ela não vai conseguir responder.”

“Vamos, vamos…”

As portas do centro cirúrgico se abriram com um estalo seco. O som ecoou dentro da minha cabeça. O ar mudou. Parecia mais frio, mais limpo. O cheiro forte de antisséptico. Senti que me mudaram para outra maca. A luz era mais forte. Crua. Sem piedade. Não conseguia ver direito.

Senti mãos prendendo meus braços. Primeiro um. Depois o outro. A dor no ombro ficou mais forte. Tiras firmes prenderam meus pulsos. Não machucavam, mas não permitiam fuga, mesmo sem eu ter a menor condição para isso.

Meu corpo entrou em alerta. Instinto puro. Luvas estalaram. Instrumentos foram organizados. Alguém falou números. Alguém confirmou meu nome. Tudo acontecia sobre mim, não comigo.

Uma mão tocou meu braço com cuidado demais. Como se eu fosse frágil demais.

“Katniss, eu sou o anestesista.” A voz era calma. Treinada. “Vou te dar a anestesia agora, tá bem? Você não vai sentir mais nada. Vai apagar rapidinho. Só conta até dez pra mim.”

A máscara encostou no meu rosto. O plástico era frio. O ar tinha um gosto estranho, metálico e pesado. Meus olhos arderam. Não vi a correria. Mas senti. Não consegui contar em voz alta. Contei em silêncio.

Nove.

Oito.

Meu corpo afundou na maca, pesado, distante. Não sentia mais dor.

Sete.

E foi exatamente nesse instante, antes do escuro, antes do apagão, que eu entendi.

Não porque alguém me disse.

Não porque alguém confirmou o que eu já imaginava.

Mas porque o silêncio era alto demais.

Eles estavam correndo para me salvar.

Não meu bebê...Eu sabia disso.

Seis.

E então… Não houve mais nada. Apenas a certeza de que eu o perdi.



O quarto ainda estava mergulhado na escuridão quando acordei em sobressalto. O coração acelerado, a respiração curta, como se eu ainda estivesse presa àquele outro lugar. O cheiro do hospital. O branco agressivo. O silêncio pesado demais.

“Katniss… está tudo bem?”

Sobressaltei com o susto. A luz foi acesa logo em seguida e, por alguns segundos, tive dificuldade de entender onde estava. As formas foram se organizando aos poucos. O quarto conhecido. Os móveis. Até que ele entrou em foco.

Peeta.

O alívio veio antes do pensamento. Meu peito desacelerou quando percebi que era só isso. Um pesadelo.

“Você está bem? Está sentindo alguma coisa? Você gritou.” A voz dele estava alerta, baixa, como se qualquer descuido pudesse me quebrar.

“Estou bem.” Respondi rápido demais. “Foi só um sonho.” Ele me observou em silêncio por um instante, atento demais. Como se soubesse que havia algo ali que eu não pretendia dividir.

“Vou pegar alguma coisa pra você. Talvez ajude.”

Quis dizer não. Não queria que ele se levantasse. Havia um espaço respeitoso entre nós, cuidadosamente mantido como havia sido durante o ultimo ano e ainda assim a presença dele tornava o quarto menos opressor. Mais seguro.

“Não precisa”, murmurei. “Eu estou bem. Você pode voltar a dormir.”

“Não é nada. Já volto.”

Observei enquanto ele se afastava, sentindo um incômodo estranho por não ter um motivo plausível para pedir que ele ficasse. Acendi o abajur ao lado da cama, tentando afastar a sensação que ainda grudava em mim. O pesadelo tinha sido real demais. Porque não era só sonho. Era uma lembrança.

Minha mão deslizou até o ventre, num gesto quase inconsciente. Por um instante, a sensação era de proteção. Minha pequena estava ali, segura. Estaria comigo em breve.

E então vinha o vazio. A certeza silenciosa de que ela não conheceria o irmão. Assim como eu não conheci. E isso ainda doía, não pensar com frequência havia sido algo que aprendi, mas nenhum profissional da saúde poderia mudar o que sentia. Os anos de terapia ensinaram a seguir em frente não a se livrar da dor. Nada nem mesmo os remédios que ajudaram em momentos de crise eram capazes de acabar com aquele vazio que vinha sempre que lembrava da perda dele.

Quando Peeta voltou, trazia uma xícara nas mãos.

“Minha mãe fazia isso quando eu não conseguia dormir.” Ele comentou, oferecendo a xícara. “Ajuda.” Aceitei com cuidado. O leite era quente, levemente adocicado, com um fundo caramelado. Simples, mas confortável.

“Obrigada. O que é?”

“Leite com açúcar queimado. Minha mãe dizia que servia pra tosse, insônia… e pra acalmar pesadelos.”

“Pra tosse?” Perguntei, quase sorrindo. Agora conhecendo melhor Effie era fácil imaginar ela fazendo do leite adocicado uma solução pra várias coisas.

“É. Não me pergunta por quê. Nem deve ter base científica”, ele deu de ombros. “Mas funciona, pelo menos comigo funcionava.”

Bebi devagar, sentindo o calor se espalhar pelo peito. Quando terminei, coloquei a xícara no criado-mudo.

“Acho que você devia tentar dormir de novo. A semana vai ser longa.”

Ele confirmou com a cabeça e apagou o abajur dele. Levei a mão até o meu, pronta para fazer o mesmo, mas parei quase imediatamente. O escuro me faria pensar demais. Lembrar demais.

“Pode deixar aceso”, ele comentou, já se ajeitando na cama. “Eu durmo fácil.”

Uma mentira gentil.

No último ano, eu tinha aprendido a reconhecer o quanto o sono dele era leve. Só nos dias de extremo cansaço ele dormia mais pesado.

“Obrigada, mas está tudo bem”, murmurei, apagando a luz mesmo assim.

Virei de lado, o coração levemente apertado. As lembranças. As escolhas estúpidas do passado.

Foi então que senti os braços dele ao redor da minha cintura. Um abraço leve, cuidadoso. Meu corpo ficou rígido no primeiro segundo, surpresa demais para reagir.

“Você precisa dormir”, ele sussurrou. “É só um abraço. Não é nada demais. Mas ajuda.”

A respiração dele era calma perto do meu pescoço. Presente sem invadir. Firme sem prender.

Nem perto demais.

Nem longe o suficiente para que o escuro voltasse a me engolir.

E eu guardei tudo.

O medo.

O passado.

E esse futuro incerto.

Observei o movimento na piscina, onde o grupo de mulheres ria e se divertia. Embora nenhuma delas estivesse dentro d’água, o dia era ideal para isso. No auge do verão, ter a área da piscina de um dos hotéis mais chiques da Capital reservada exclusivamente para a despedida de solteira de Delly Mellark definitivamente não era pouca coisa.

Confesso que não tinha certeza se participar daquele dia era uma boa ideia. Ainda assim, para minha surpresa, o convite havia sido feito diretamente pela loira, que garantiu que gostaria muito da minha presença naquele momento. Soava estranho, mas acabei aceitando. Sem contar que minha ausência seria notada e a última coisa que eu queria era ver meu nome em alguma manchete ou nota discreta comentando o fato de eu não ter comparecido à despedida de solteira da minha cunhada.

Embora a família do meu marido não fosse adepta da exposição pública, especialmente Peeta, que fazia questão de manter a vida pessoal longe da imprensa. Na última semana o casamento vinha sendo amplamente comentado, e Delly parecia genuinamente feliz em dividir aquele momento com quem quisesse acompanhar.

Ainda assim, quando Darius estacionou o carro em frente ao hotel naquela manhã, eu não esperava algo daquela proporção. Uma boa parte do local havia sido reservada para a festa, que reunia cerca de vinte mulheres. Pela manhã, a programação havia sido restrita à noiva, às madrinhas, à minha sogra, à Prim e a mim.

Tudo havia acontecido na suíte presidencial, um café da manhã tardio cuidadosamente montado, serviço de spa no quarto e aqueles robes personalizados, com nossos nomes bordados, que serviriam de figurino para uma sessão de fotos milimetricamente planejada.

Mais tarde, encontramos as demais convidadas na área da piscina, completamente fechada para o evento. Um DJ particular comandava a música, drinks exclusivos circulavam sem pausa, coquetéis coloridos eram entregues em bandejas espelhadas.

“Esses aqui são sem álcool.” Delly explicou, aproximando-se com um sorriso. “Pedi pra criarem dois drinks especiais. Nada de vocês ficarem só na água de coco.”

O garçom me entregou a taça com cuidado, e eu sorri ao observar o tom dourado suave da bebida, decorada com fatias finas de limão siciliano, raminhos de hortelã fresca e um leve toque de água com gás aromatizada. Uma pequena plaquinha presa à borda indicava o nome. “Mamá Fiesta.”

Annie recebeu sua própria bebida, rosada, com pétalas de hibisco e frutas vermelhas. Ela ergueu a taça com cuidado.

“Mamá Alegre” Ela leu, sorrindo para Delly. “Você é terrível, obrigada maninha.”

As duas brindaram suavemente, e naquele instante um salva-vidas, usando uma sunga mínima, atravessou a piscina, tirando a camisa de forma exageradamente sexy e fingindo flertar com as mulheres. Risadas altas se espalharam, acompanhadas de comentários atravessados e brincadeiras típicas de despedida de solteira.

“Delly devia cair na piscina e se afogar só pra ser salva.”

“Você não tá sentindo falta de ar?”

As brincadeiras arrancavam gargalhadas, e minha cunhada ria sem qualquer traço de constrangimento. O clima era descontraído, leve e cheio de energia e a sensação de que aquele dia estava reservado apenas para celebrar, sem pressa ou regras sociais demais.

Em meio ao barulho, à música e ao calor insistente, minha mente escapou por um instante.

Para aquele abraço, na noite anterior. No jeito como Peeta não fez perguntas, não tentou entender, não tentou consertar nada. Na forma como ele apenas me puxou para perto e me manteve ali até que pegasse no sono. Lembrei do peso do braço em torno de mim, da mão firme na minha cintura, fazendo movimentos circulares leves como se estivesse fazendo carinho em nossa filha. No silêncio seguro que tomou o quarto.

Quando acordei aquela manhã ele já não estava mais em casa. Eu sabia que Thresh também estava comemorando o dia na companhia de seus padrinhos e amigos. A despedida de solteiro dele acontecia no clube, em um espaço reservado, com direito a golfe, tênis e, provavelmente, muita bebida. Não duvidava que belas mulheres estivessem por perto também, já que era algo tipicamente esperado, mesmo em um ambiente menos festivo.

Peeta havia mandado uma mensagem perguntando se eu estava bem, mas não comentou nada sobre como estava sendo a despedida da qual participava. Não que isso me preocupasse, já que ele estava na companhia do pai e dos cunhados, o que deveria ser motivo suficiente para que se comportasse como o homem casado que todos acreditavam que ele fosse.

Ainda assim, quase sem perceber, peguei o celular e rolei as redes sociais em busca de qualquer indício de como estava sendo a tarde dos homens. Nada. Nenhuma postagem, nenhuma imagem, nenhum sinal. Do nosso lado, também ninguém parecia disposta a registrar o momento todas estavam ocupadas demais se divertindo para pensar em publicar qualquer coisa.

Guardei o celular e voltei a observar a piscina, tentando convencer a mim mesma de que estava tudo bem.

O restante do dia transcorreu sem nada fora do esperado. Fiquei a maior parte do tempo com Prim, aproveitando a calma à beira da piscina, enquanto ela falava mais do que eu. Pouco antes do entardecer, seguimos para um salão no hotel. Ao entrar, percebi que haviam transformado o espaço em um verdadeiro salão de beleza. Havia muitos profissionais prontos para nos atender, todos atentos e cuidadosos.

O pequeno grupo que me recebeu começou a trabalhar no meu cabelo com paciência, definindo melhor meus cachos e dando mais forma sem deixá-los pesados. Algumas mechas ficaram soltas ao redor do rosto, enquanto o restante caiu de forma natural. Fizeram também minhas unhas e uma maquiagem leve.

Depois do nosso momento de beleza, todas se arrumaram com vestidos de uma das boutiques que ficou à nossa disposição para escolha e seguimos para um dos restaurantes do hotel. Um grupo de vinte mulheres vestidas elegantemente atravessando o saguão chamava atenção sem esforço. Ainda mais com Delly caminhando à frente, guiando o grupo com uma pequena coroa de princesa na cabeça e uma faixa atravessada sobre o vestido, onde se lia “Noiva”.

Jantamos no restaurante e, somente depois, o grupo seguiu para a festa principal. O bar do hotel estava fechado exclusivamente para a ocasião. Assim que entramos, ficou claro que o ambiente havia sido transformado. As luzes eram baixas, cortadas por reflexos coloridos que se moviam lentamente pelas paredes. A música era alta e pulsante, fazendo o chão vibrar sob os pés.

As mulheres se espalharam rápido, algumas dançando, outras rindo alto demais, como se aquela noite permitisse excessos que normalmente seriam evitados. Delly parecia no lugar certo, cercada de atenção, brilho e comemoração. Observei tudo por alguns instantes antes de me misturar a um pequeno grupo, sentindo o contraste entre o barulho da música e o que se esperava de uma despedida de solteira intensa, barulhenta e cheia de vida.

A noite seguiu animada e incluiu até mesmo um pequeno show no palco montado ao fundo do bar, incentivado pela DJ que mantinha a energia sempre alta. Delly subiu ao palco, e junto com Annie e Prim, ri ao ver minha sogra no meio dos rapazes, completamente entregue ao momento, sob os gritos e aplausos das mulheres ao redor.

Quando achei que a noite estava chegando ao fim, as portas se abriram. Thresh entrou no local acompanhado do grupo dele, vindo diretamente da própria despedida. Os rapazes estavam bem vestidos, em um estilo social esportivo que misturava elegância e descontração, chamando atenção imediatamente.

Annie e Prim se afastaram quase no mesmo instante, cada uma em busca de seu respectivo parceiro. Não as segui, mas meus olhos começaram a procurar instintivamente o loiro. Foram precisos só alguns segundos para encontrá-lo. Peeta conversava distraidamente com um dos homens, com aquele sorriso fácil que surgia sem esforço. A postura relaxada contrastava com o ambiente barulhento, e, por algum motivo, meus olhos ficaram presos nele.

Como se percebesse meu olhar, o dele encontrou o meu. Vi seus lábios se moverem, dizendo algo rápido antes de começar a caminhar na minha direção. O tempo pareceu desacelerar levemente enquanto ele se aproximava. Quando chegou até mim, beijou meu rosto de forma suave, quase cuidadosa.

“Como vocês estão? “ Ele perguntou, lançando um olhar rápido para minha barriga, sorrindo de leve. “Delly garantiu que, ao longo do dia, haveria momentos para você descansar. Não queria que fosse cansativo demais.”

Ele se inclinou um pouco, falando próximo ao meu ouvido para que eu pudesse escutá-lo em meio ao som alto da música.

“Bem… estamos bem.”

“Ótimo. Mas, se quiser encerrar a noite, tudo bem. Não temos que ficar.”

“Não, está tudo bem.” Minutos antes, eu estava pronta para ir embora. Agora, queria apenas vê-lo daquele jeito por mais tempo.

“Você está muito bonita. O cabelo assim cai muito bem em você.”

“Você não está nada mal.” Ele riu, um riso fácil, confortável.

Era como se uma nova fase da noite estivesse começando. Casais começaram a se formar na pista de dança enquanto os noivos animavam todos perto da mesa do DJ. Conversamos com algumas pessoas, a noite seguiu leve. Em algum momento, Peeta apareceu com um suco pra mim, colocou a taça na minha mão como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Depois disso, não se afastou mais.

Quando a música mudou, o convite veio logo em seguida, chamando os casais para a pista, agora em um ritmo mais calmo.

Vi meus sogros entrarem primeiro. Depois Annie e Finn, Prim e William. Foi então que Peeta estendeu a mão. Aparentemente nosso pequeno teatro iria começar de novo, mesmo depois de tanto tempo. Era de se esperar afinal a família dele estava ali, só que, dessa vez, algo em mim estava diferente, algo não gostava da ideia de fingir.

A dança era simples, antes, dançar com Peeta sempre pareceu um jogo calculado, cheio de provocações silenciosas de ambas as partes. Mas dessa vez só seguimos o ritmo calmo da melodia, a mão dele permaneceu firme, mas cuidadosa, na minha cintura. A proximidade não vinha da música nem do ambiente, mas da atenção silenciosa que ele me dava, ajustando o ritmo ao meu. Não havia sedução ali, só um cuidado que trazia calma, uma calma estranha, quase frágil, como se eu estivesse dançando com ele pela primeira vez. E isso de certa forma me atraia ainda mais. Me fazia querer ele ainda mais.

O barulho ao redor perdeu importância. A música servia apenas para marcar o tempo enquanto ficávamos próximos o suficiente para sentir a presença um do outro.

Dançamos assim por duas músicas. Somente no final da segunda ele se afastou. Senti um incômodo imediato com a distância, e sem pensar, me aproximei outra vez, um convite silencioso para continuar. Mantive o olhar no dele, depois na boca dele, tempo demais para evitar pensar na sensação da boca dele na minha.

Quando a música acabou, segurei a mão dele com firmeza e o puxei em direção à saída. Não foi um gesto pensado. Foi reflexo.

“Katniss…”

“Você disse que poderíamos encerrar a noite.”

“Está tudo bem?”

Confirmei com a cabeça e seguimos até o elevador em silêncio. Delly havia reservado uma suíte para cada convidada. A minha ficava no último andar, assim como a das outras mulheres da família.

O trajeto pareceu longo demais talvez pelo silêncio, talvez pela urgência que eu sentia crescer por dentro era difícil saber ao certo.

Assim que as portas do elevador se abriram, caminhei direto até o quarto. Digitei o código e entrei. Era o mesmo onde eu havia estado mais cedo para me trocar. O ar ainda carregava algo familiar, um resquício do meu próprio perfume.

Peeta permaneceu próximo à porta. Havia confusão em seu rosto, misturada a uma atenção cautelosa, como se tentasse compreender aquele movimento que não fazia parte da nossa dinâmica.

“Eu quero você.” As palavras saíram rápido demais, ligeiramente embaralhadas pela pressa, pelo nervosismo que eu me recusava a admitir.

“O quê?”

Eu poderia tê-lo beijado. Poderia ter encurtado a distância, deixado o corpo falar por mim como sempre fiz. Todas as outras vezes tinham começado assim um impulso, um olhar sustentado por tempo demais, um beijo que simplesmente acontecia e nos levava aquele momento. Nunca houve anúncios. Nunca houve pedidos. Apenas nossos corpos tomando decisões por nós.

Mas, dessa vez, eu falei.

Fiquei ali, parada, com um espaço incômodo entre nós, e repeti mais devagar, mais claro.

“Eu quero você.”

O olhar dele mudou. Ficou atento. Sério. Como se tentasse me decifrar.

Nossa relação não funcionava assim. Eu sabia. Ele sabia. Meu orgulho gritava para eu parar, para desfazer aquilo antes que eu parecesse fraca, antes que me tornasse tola por dizer em voz alta que eu o desejava que eu o queria na minha cama.

“Bem… meus hormônios estão…” Sim, eu seria covarde. Culparia os hormônios. Qualquer coisa servia naquele momento, porque a coragem que eu havia reunido começava a escorrer pelos meus dedos. “Quer saber, deixa. Talvez a gente devesse voltar…” Falei já me virando em direção à porta, incapaz de sustentar o olhar dele por mais tempo.

Então senti a mão dele no meu pulso. Leve, mas firme o suficiente para me deter. Ele me puxou de volta com cuidado, como se cada movimento fosse calculado para não me assustar, não me machucar. O corpo dele se aproximou do meu sem pressa, sem urgência, e seus lábios encontraram os meus em um beijo lento, contido no início. A outra mão subiu até a minha nuca, quente, segura me trazendo para mais perto, até minhas costas encostarem suavemente na parede. Não havia pressa ali. Só uma sensação boa demais para ser interrompida. Minhas mãos foram primeiro para os cabelos dele, deslizando sem pedir permissão, enquanto a mão dele que estava na minha cintura descia lentamente, explorando com uma calma e um pouco de provocação, como se soubesse exatamente o que estava fazendo.

Levei as mãos até os botões da camisa dele quase por instinto, guiada mais pelo corpo do que pela cabeça. Antes que eu conseguisse desfazer o segundo botão, ele se afastou devagar só o suficiente para que a ausência fosse sentida.

“Você está com pressa?” A voz dele saiu baixa, próxima demais, os olhos atentos aos meus, não respondi. Mordi o lábio de leve, deixando que o silêncio falasse por mim o que eu não tinha intenção de colocar em palavras.

O canto da boca dele se moveu em um sorriso presunçoso. Em seguida, senti seus braços envolverem minhas pernas, me erguendo com cuidado. O gesto foi firme, seguro, como se ele tivesse absoluta certeza do que fazia. Não houve hesitação da minha parte. Nenhuma insegurança com o movimento.

Ele me levou até o quarto sem desviar o olhar, como se aquele curto trajeto fosse apenas a continuação do beijo interrompido. Então ele me colocou no meio da cama com a mesma atenção, sem pressa, sem brusquidão e voltou a encontrar meus lábios, agora com um pouco mais de intensidade. A boca percorreu lentamente meu pescoço, subindo até meu ouvido, onde ele murmurou com a voz ligeiramente rouca.

“Eu não estou com a menor pressa.”

Parte de mim tinha urgência em tê-lo. Mas a maior parte queria exatamente aquilo, aproveitar cada sensação que ele podia me oferecer. Em meio a isso, nem percebi em que momento meu vestido deixou de ser uma barreira. Só senti quando o corpo dele se afastou por um instante, o olhar atento percorrendo o meu , quase um raio-X humano.

Senti o rosto corar. Mas antes que qualquer insegurança encontrasse espaço, ele sorriu.

“ Você é linda.” Ele se aproximou novamente e voltou a me beijar com mais intensidade, a voz baixa roçando minha pele. “A mulher mais linda que eu já vi.”

Ele não me amava.

Aquilo não era amor. Era desejo. Luxúria contida, calculada. Eu era o maldito quadro bonito a ser exibido.

E parte de mim gostava disso. Gostava de saber que ele ainda me desejava. Que meu corpo ainda o chamava, ainda o atraía. Era confortável ser vista assim, ser desejada daquela forma.

Mas havia algo novo em mim, uma parte que eu ainda estava aprendendo a reconhecer. Uma parte que não queria ser apenas o desejo. Que queria ser a escolha além do toque, além da urgência do corpo. Que queria ser amada.

Só que eu sabia.

Sabia que não poderia ter o coração dele. Não depois de parti-lo como fiz anos atrás. Não depois de estragar tudo.

Fechei os olhos.

Ainda assim…

Ser o desejo dele continuava sendo uma forma de tê-lo.

E, naquela noite, isso parecia o suficiente.

Acordei com o som distante de um celular vibrando. Levei alguns segundos para entender de onde vinha, ainda meio submersa no inconsciente, até sentir um movimento ao meu lado. Abri os olhos a tempo de ver Peeta tateando o colchão, procurando o aparelho às cegas. Como não encontrou, as mãos desceram até o chão, onde ele achou a calça da noite anterior e puxou o celular do bolso.

Puxei o lençol um pouco mais para cima, cobrindo meu corpo, enquanto o observava atender.

“Alô… não, cara, ainda está cedo.” A voz estava rouca, carregada de sono. “Quem foi o gênio que teve a ideia de tomar café a essa hora?” Houve uma pausa. “Não, eu estava dormindo. Sim, encontro vocês lá. Não… não precisa esperar.” Ele desligou e jogou o celular sobre o criado-mudo antes de se espreguiçar com calma. Um movimento simples, quase automático o tipo de gesto que ele fazia todas as manhãs e que eu só tinha começado a reparar de verdade havia pouco tempo. “Bom dia.” Ele parecia levemente surpreso ao me ver ainda na cama. Geralmente, eu era a primeira a levantar, a estar pronta antes mesmo de o dia começar, depois de passar a noite com ele. Mas, naquela manhã, algo em mim decidiu apenas… ficar. Aproveitar o silêncio, o calor sem pensar em nada. Apenas aproveitar o sono agradável.

“Bom dia” Respondi, ele sem dúvida percebeu a mudança. Ainda assim, como um bom cavalheiro, não comentou nada, agindo como se fosse apenas uma manhã qualquer.

“Parece que o pessoal todo resolveu se reunir para o café da manhã”, comentou. “Aparentemente temos um grupinho de ressaca.” Ele fez uma pausa breve, escolhendo as palavras. “Mas, se você quiser dormir mais um pouco, não tem problema. Posso pedir algo pra você tomar café aqui.” Neguei com a cabeça.

“Tudo bem. Posso descer. A Prim provavelmente vai estar lá.” Ele confirmou com um aceno e se levantou.

“Vou tomar um banho.”

Observei enquanto ele procurava as roupas com aquela segurança tranquila de quem sabia exatamente onde estava. Passou por mim e seguiu para o banheiro do quarto com naturalidade.

Uma hora depois, nos juntamos aos outros à beira da piscina. O sol já estava alto no céu, e o clima era claramente de pós-festa e não era difícil identificar o grupo de ressaca já que Thresh estava de óculos escuros, largado em uma das espreguiçadeiras, com a expressão típica de quem tinha exagerado. Delly e Finn não pareciam muito melhores, embora tentassem manter alguma dignidade sentados à mesa do café.

“Acho que uma das vantagens de estar amamentando é não precisar passar por isso”, Annie comentou, enquanto observava Alex empurrar o carrinho com Kai ao redor da piscina. Os dois haviam passado o dia anterior sob os cuidados das babás contratadas pela família.

“Fala baixo, por favor, Annie.” Thresh pediu, levando a mão à testa. “Minha cabeça dói.”

“Imagina acordar com o choro no meio da madrugada.” Finn comentou, com a aparência de quem definitivamente não tinha dormido o suficiente. “Por que eu fui na sua, Thresh? Por que bebi tanto? Eu devia ter seguido o exemplo do Peeta. Ele foi sensato, bebeu com moderação.” Ele suspirou nitidamente se arrependendo dos excessos do dia anterior. “Sou pai de família agora. Meu filho é novo demais pra entender que chorar machuca a cabeça do papai.”

“E ainda assim Peeta foi o último a chegar para o café.”Delly comentou em tom baixo.

“Sim.”Peeta respondeu, tranquilo. “Porque pude dormir sem dor de cabeça. E sem precisar abraçar o vaso durante a noite.”

“Annie, você tinha mesmo que mandar aquela foto no grupo da família?”, Finn reclamou.

Sorri, lembrando da imagem que tinha visto mais cedo no grupo, do qual eu havia sido adicionada há poucos meses. Aparentemente, carregar um Mellark vinha com certos privilégios. Embora, ao entrar, eu tivesse descoberto que Prim já fazia parte dele havia tempos.

“Eu passei a noite inteira cuidando do Kai sozinha, amor”, Annie se defendeu, rindo. “Eu merecia, no mínimo, me divertir um pouco.”

“Não beber deve ser o sonífero perfeito”, Thresh provocou, mesmo acabado pela própria ressaca. “Foi o primeiro a sair da festa e o último a aparecer agora. Aproveitando pra dormir enquanto a princesa não nasce?”

Peeta não respondeu. Apenas estendeu um prato com frutas na minha direção.

“Vai sonhando que ele dormiu a noite toda”, Haymitch comentou, em tom divertido. “Deve ter sido o que menos dormiu de vocês.”

“Sério, Peeta, dá um descanso pra sua mulher grávida” Thesh provocou.

“Você devia falar isso pra ela.” Finn respondeu, agarrando a oportunidade de mudar o foco da conversa. “Isso se chama hormônios da gravidez, meu amigo. Peeta está vivendo a fase três” ele completou, animado demais para alguém de ressaca.

Haymitch riu, meneando a cabeça enquanto Thesh parecia perdido.

“E o que é a fase três?”

“Fase um: enjoo. Fase dois: choro ou raiva e, de alguma forma, a culpa é nossa. Mas enquanto todo mundo diz ‘aproveita e dorme antes do bebê nascer’, a fase três começa e não você não vai dormir. Só digo uma coisa, aproveita, meu amigo. Porque o período no deserto está chegando. E ele é longo. São 40 dias que parecerão 40 anos.”

“Finnick, para de falar como se todas as grávidas fossem iguais”, Annie repreendeu o marido. “Ou você vai entrar nesse deserto de novo.”

“Então Annie, depois daquela foto, ele ficou abraçado no vaso a noite toda? “ Peeta trouxe o assunto de volta e Finn fechou a cara.

E, apesar do cansaço, da ressaca de alguns e das reclamações, havia algo leve ali. Um tipo de caos familiar que começava a se infiltrar na minha rotina de forma positiva. Effie se preocupando com todos, conversas atravessadas, pequenas intrigas e provocações que não eram realmente sérias.

E então havia Peeta que transitava pelas conversas como sempre fazia. Falava quando era chamado, ria no momento certo. Com naturalidade, passou uma fatia de pão com geleia para mim, quase sem perceber o gesto. Depois, completou meu copo com mais suco ao passar a jarra adiante. Gestos pequenos demais para parecerem estranhos para família dele, mas que pra mim eram grandes.

Aquele barulho que todos faziam não se encaixava na sociedade, aqueles momentos imperfeitos e perfeitos ao mesmo tempo, algo que agora não me incomodava, pelo contrário me fazia sorrir quase sem perceber .

Então aquela sensação boa se dissolveu. Não por um silêncio repentino, a conversa continuava, as risadas também, ainda assim tive a impressão de que algo estava fora do lugar. Como se, em meio àquele cenário confortável, houvesse algo errado.

Endireitei o corpo devagar, fingindo prestar atenção em Prim, mas meus sentidos já estavam atentos. Era uma sensação conhecida demais. Olhei ao redor, uma vez, depois outra. Não vi nada, embora alguns outros hóspedes estivessem tomando café em mesas mais afastadas nada parecia fora do lugar.

Prim foi a primeira a sair da mesa, alegando que precisava ligar para o Willian, que aparentemente tinha decidido voltar para casa no fim da noite, em vez de ficar no hotel. Effie e Haymitch se levantaram logo depois, comentando que iam dar uma volta pelo hotel.

“Padrinho, podemos ir até o salão de jogos jogar um pouco?” Alex perguntou, se aproximando da mesa com animação.

“Claro.” Peeta respondeu sem hesitar.

“Katniss, quer ir com a gente?”

Observei o loirinho por um instante antes de confirmar com um aceno de cabeça. O tom dele era sincero como se realmente quisesse que eu estivesse com eles.

Seguimos em direção ao salão de jogos infantil do hotel. Peeta e Alex caminharam ao meu lado, já discutindo qual jogo escolher, a conversa fluindo fácil entre eles.

Assim que chegamos, os dois foram direto para uma das mesas de jogos. Sentei em uma das poltronas próximas para observar. A intimidade entre eles era evidente, construída ao longo dos anos, sem esforço.

“Katniss, você viu?”

Confirmei com a cabeça, sorrindo para a alegria do mais novo com a vitória.

Alguns minutos depois, eles trocaram de atividade. Peeta se abaixou ao lado de Alex, explicando algo com paciência, rindo quando ele errava o movimento. Tudo parecia natural demais. Fácil demais. E isso só reforçava a certeza silenciosa de que ele seria um ótimo pai.

Foi no meio desse pensamento que a sensação voltou.

Meu corpo enrijeceu sem aviso. Me endireitei na poltrona, o coração acelerando de leve, como se tivesse perdido o compasso por um instante.

Ignorei aquela sensação e mantive o foco nos dois, na risada alta de Alex, na leveza do momento rotineiro. Forcei a respiração a se manter estável. Alguns minutos se passaram assim.

Levantei devagar e passei por eles com um sorriso breve, murmurando que iria ao quarto. Peeta me acompanhou com o olhar, atento demais.

“Tá tudo bem?” Confirmei com a cabeça.

“Alex, não se esqueça de jogar na máquina de basquete.” Usei um tom leve antes de sair.

O corredor que levava aos elevadores estava movimentado, hóspedes indo e vindo entre as áreas de lazer e os restaurantes. Entrei no elevador e apertei o botão do meu andar.

As portas começaram a se fechar e então, uma mão surgiu entre elas, impedindo o movimento.

De alguma forma, não precisei olhar para saber quem era. As portas se abriram novamente, e a presença dele ocupou o espaço sem pedir licença, como se tivesse calculado o momento exato.

“Olha só…” A voz veio baixa, carregada de ironia. “Estava com saudades.”

“Gale.”

“Catnip. Quanto tempo.” Fiquei em silêncio, sentindo o coração acelerar de novo. Ele olhou o painel do elevador com atenção.

“Cobertura… impressionante.” Então ele apertou o botão do andar do bar. “Vamos tomar uma bebida? Conversar. Pelos velhos tempos.”

“Não tenho nada a falar com você.”

“Vamos lá, Katniss. Cinco minutos do seu tempo.” O sorriso dele era fácil demais, quase automático. “Você anda tão inalcançável ultimamente. Tem ideia do quanto é difícil chegar até você?”

“Já disse não.”

“Então prefere que eu te acompanhe até o seu quarto?” Olhei para ele, surpresa. E ele sustentou o olhar por tempo demais, avaliando minha reação como quem testa um limite. “Seu marido está ocupado agora sendo babá do filho do Marvel. Vi que você entrou na onda também. Vive andando com ele por aí, levando a jogos de basquete.” Ele fez uma pausa curta, quase dramática. “Uma bela família. Vibrando e sorrindo a cada jogada.” Os olhos dele se estreitaram levemente. “O garoto parece gostar de basquete tanto quanto o pai.” Outra pausa, calculada, eu o conhecia e sabia que ele estava se divertindo. “Ou será que ele é um Mellark? Isso não seria um escândalo? Alias já foi.” Meu estômago se revirou. “Bom, de qualquer jeito,” continuou, “não acho que fruta combine com jogo de basquete. Sempre achei que você fosse do tipo que prefere nachos.” As peças se encaixaram rápido demais. Na foto divulgada, eu não segurava nada nas mãos. Ele estava lá. Observando. Ele conhecia o passado em detalhes para distorcer. Aquela matéria infeliz tinha o dedo dele. “Ah, e os outros Mellark estão espalhados por aí,” acrescentou. “Sei que estou sendo razoável pedindo só cinco minutos.”

As portas se abriram no andar do bar. Ele permaneceu parado, prendendo o sensor com o corpo. Eu não queria ir, mas também não confiava que ele não me seguiria. Saí à frente, escolhendo uma mesa o mais próxima possível de outras pessoas.

“O que você quer?”

“Sempre direta. Sempre petulante.” Ele chamou o garçom. “Um whisky sem gelo. E um suco de cranberry para a senhora.”

“Só o whisky.” O garçom hesitou diante da minha intervenção repentina. Gale me observava com atenção excessiva, os olhos acompanhando cada movimento meu, como se estivesse confirmando algo que já sabia. Ele assentiu com a cabeça, dispensando o rapaz. “O que você quer, Gale?”

“Conversar. Você anda tão sem modos ultimamente, Katniss. Paula deve estar decepcionada.” Ele sorriu. “Veja só, nem responde minhas mensagens.”

“Não tenho nada para conversar com você. Nada. Você não devia nem estar aqui.”

“Por quê? Este é um excelente hotel. Posso pagar por ele também.” Ele inclinou a cabeça. “Se pensarmos bem, é estranho ver você em um hotel quando tem uma casa na Capital.” A voz baixou um pouco. “Pegou algo na sua cama recentemente?”

“Não devo explicações a você.” Ele riu da minha expressão.

“Estava brincando.” O garçom trouxe a bebida. Gale tomou um gole lento, sem desviar o olhar, como se tivesse todo o tempo do mundo. “Soube da festa das garotas. A Mellark mais nova vai casar, não é? Boa parte do hotel estava restrita ontem.”

“Seu tempo está acabando.”

“Você está realmente cronometrando?” Ele riu de novo. “Qual é, somos próximos. Eu te conheço.” Ele estendeu a mão na minha direção. Me afastei rápido demais para disfarçar. Gale apenas continuou observando, atento demais, como se registrasse cada reação, cada movimento fora do lugar. “Quero começar dando os parabéns.” O olhar dele desceu brevemente antes de voltar ao meu rosto. “Quem diria que eu te veria grávida de novo. Embora você parecesse mais radiante da outra vez.” Não respondi. “Nem um obrigada?” Ele esperou um instante, avaliando o silêncio, então continuou. “Confesso que fiquei surpreso quando soube. Se não tivesse visto sua barriga, diria que era mentira. Afinal, até onde eu sabia, isso seria impossível.” Meu estômago se revirou. “Lembro de toda aquela comoção no hospital. De como tudo aconteceu rápido.”

“Era só isso?” perguntei, mantendo a voz firme.

“Você não acha que eu deveria saber? Que você deveria ter me contado?”

“Por que eu deveria?”

“Você sabe o quanto eu sofri.” A voz dele baixou ainda mais, quase cuidadosa. “Fui eu quem pediu para tentarem salvar seu útero quando você não podia decidir nada. Eu tentei garantir que tivéssemos um filho no futuro.” Ele respirou fundo, como se organizasse lembranças. “E mesmo assim disseram que não seria suficiente. Que você não engravidaria de novo.” O silêncio se alongou entre nós e as palavras dele eram como pequenas pedras de sal em uma ferida não cicatrizada. “Isso me devastou nos últimos anos, Katniss.”

“Isso é algum tipo de piada, Gale? Porque não tem graça.”

“É um menino?”

“Não interessa o que é.”

“Eu teria te dado qualquer coisa que você me pedisse.” Ele se inclinou um pouco mais, reduzindo a distância que eu vinha mantendo. Afastei a cadeira de forma discreta para trás, abrindo outro espaço entre nós. “Mas a única coisa que você queria era um filho que eu não podia te dar. Um filho que não podia trazer de volta à vida.” Fez uma pausa curta, os olhos fixos em mim, sem piscar. “Eu falei com o médico na época. Tratamentos. Possibilidades. Qualquer coisa que nos desse outra chance.”

Outra pausa e isso estava me corroendo ainda mais. “Mas ele disse que seu corpo não conseguiria.” Ele não havia mudado nada sempre achando um jeito de jogar as coisas sobre mim. “E ele te deu isso, única coisa que achei que não poderia te dar.”

“Gale...” então ele continuou como se não meu ouvisse.

“Mas eu poderia ter te dado isso também, não poderia?” A voz veio mais baixa, quase gentil demais. “Andei procurando saber. Vocês não fizeram nenhum tratamento mirabolante.”

Ele inclinou a cabeça, como quem encerra um raciocínio que já vinha sendo repetido na própria mente.

“Ou seja, os médicos estavam errados.” Ele fez uma pausa curta. “Podíamos ter esperado. Nosso filho teria vindo. ”Os olhos dele não se afastaram dos meus. “Eu poderia ter te dado um filho. Nunca teríamos acabado, entende? Tudo o que aconteceu teria sido só uma fatalidade. Esse filho poderia ser meu.”

A última frase ficou suspensa entre nós. Era como se tivéssemos vivido passados diferentes versões incompatíveis da mesma história. “Eu poderia ter te dado tudo.”

“Mas não é.” Minha voz saiu firme demais para o quanto eu me sentia. “Nós não demos certo, Gale. Esse filho é do meu marido. Do Peeta.”

“Então é um menino. Como o nosso?”

“Não. É uma menina.” Não sei explicar por que contei. Talvez porque precisava colocar algo entre nós. Talvez porque, naquele momento, a única coisa que eu queria era sair dali, me trancar no quarto e respirar em um lugar onde ele não estivesse.

Ele demorou um instante para reagir, como se precisasse reorganizar o que tinha acabado de ouvir.

“Uma menina?” Ele franziu levemente a testa. “Tem certeza? O ultrassom pode ter errado.” Havia surpresa na voz dele. E, por um segundo curto demais para ser ignorado, algo que parecia decepção o que não fazia o menor sentido.

“Tenho.” Mantive a voz estável à força. “Fiz o exame de sexagem e o último ultrassom confirmou. É uma menina, Gale.” Ele ficou em silêncio, pensativo demais. Eu reconheci aquele olhar. Sabia que aquela era a minha deixa. “Eu tenho que ir.” Levantei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Caminhei rápido em direção ao elevador, sem olhar para trás. Só respirei de verdade quando as portas se fecharam. Havia um casal lá dentro, conversando em tom baixo, mas não consegui prestar atenção. Apertei o botão do meu andar com força demais, torcendo para que chegasse logo.

Quando finalmente cheguei, errei o código da porta duas vezes. Meus dedos tremiam, desobedientes, até que enfim responderam e consegui entrar no quarto vazio.

Fechei a porta atrás de mim e encostei nela por um segundo, o coração disparado, o som da voz dele ainda martelando na minha cabeça. Trazendo de volta aquele dia infeliz. A sensação de perda que nunca tinha realmente ido embora. Não sei quanto tempo fiquei ali, ate que consegui ir direto para o banheiro.

Assim que a porta se fechou, o ar pareceu faltar. Meu peito apertou, a respiração ficou curta, irregular, como se eu tivesse corrido por quilômetros sem sair do lugar. Apoiei as mãos na pia, inclinando o corpo para frente, tentando puxar o ar de forma consciente.

Não adiantou.

A visão começou a ficar turva, os sons abafados, o coração batendo rápido demais.

Sentei no chão frio do banheiro, encostando as costas na parede, uma mão no peito, a outra protegendo a barriga quase por instinto. Sabia que não podia tomar nada, mas desejei desesperadamente pelo meu remédio. Queria sentir o corpo acalmar, ou ao menos ter a certeza de que aquilo iria passar em algum momento.

As imagens vinham desordenadas na minha cabeça, uma sobre a outra, sem lógica. Chorei sem perceber quando tinha começado, lágrimas silenciosas, prendendo a respiração para não fazer barulho, como se alguém pudesse ouvir mesmo sabendo que estava sozinha. Como sempre estive.


POV Peeta

Depois de uma derrota vergonhosa na máquina de basquete, fui com Alex em direção à piscina para ver se ainda havia alguém por lá. O garoto estava ficando bom, e Katniss sabia disso, por isso o lembrete para que jogássemos. Ele parecia gostar dela, queria passar tempo ao seu lado. E, por mais estranho que fosse, ela também parecia gostar desses momentos. O sorriso que surgia lembrava muito os que eram dirigidos a Prim, e isso me fazia acreditar que eram, ao menos, sinceros.

No caminho, encontramos Annie. Estávamos seguindo para o restaurante, onde os outros estavam, quando avistei Gale Hawthorne no saguão do hotel.

Ele não devia estar na Capital. E, principalmente, não naquele hotel.

Aquilo não parecia acaso. Nunca era. Nada ao redor daquele homem era coincidência.

“Annie, cuida do Alex, por favor.” Pedi. “Vou passar no quarto um minuto, ver se a Katniss vai descer.”

Ela concordou com a cabeça, sem questionar. Segui em passos apressados para o elevador, com a sensação incômoda de que eu tinha perdido alguma informação importante.

Digitei o código do quarto e entrei. Estava vazio. A camareira tinha deixado tudo organizado e limpo. Ainda assim, algo estava errado.

“Katniss?” Chamei, avançando alguns passos. Foi então que ouvi um som baixo vindo do banheiro. Não era água. Não era movimento. Era algo contido demais para ser ignorado. Aproximei-me da porta. “Katniss… você está aí?” Nenhuma resposta. Bati de leve. “Katniss, me responde.” Nada. Nenhum barulho claro. Apenas aquele som abafado, irregular. Abri a porta.

Ela estava sentada no chão, encostada na parede, chorando em silêncio, como se estivesse tentando não ser ouvida. O corpo curvado, uma mão no peito, a outra protegendo a barriga. Tremia, embora não estivesse frio.

Meu olhar percorreu o banheiro por instinto, procurando qualquer sinal de que algo estivesse errado com nossa filha. Não havia nada. Nenhum rastro, nenhum indício. Ainda assim, meu peito apertou. A recomendação da médica desde o início era evitar estresse, e aquela já era a segunda crise em um intervalo curto demais.

Ajoelhei devagar no chão, ficando na altura dela. Não perguntei nada. Não pedi explicações. Apenas estendi a mão com cuidado. Assim que toquei seu braço, ela se retraiu, assustada, como se tivesse levado um choque. Então ergueu o rosto.

“Peeta…”

“Ei… sou eu,” disse com calma. “Eu estou aqui.” Sentei ao lado dela, encostando as costas na parede também, deixando espaço suficiente para que não se sentisse acuada. Apoiei uma mão no chão e deixei a outra próxima da dela, sem tocar de novo. “Respira comigo,” pedi, no tom mais tranquilo que consegui.

Inspirei devagar, de propósito, alongando o movimento. Esperei. Expirei no mesmo ritmo. Continuei, sem pressa, como se o tempo não tivesse importância nenhuma.

Eu conhecia aquela sensação. Sabia como o corpo traía fácil, como algo tão simples quanto respirar podia parecer impossível quando a mente entrava em naquele estado.

Depois de alguns segundos, repetindo a respiração toquei sua mão outra vez, com cuidado, apenas o suficiente para que ela soubesse que não estava sozinha. Quando ela não se afastou, mantive o contato.

“Tá tudo bem,” murmurei. “Só respira comigo.”

Fiquei ali com ela, acompanhando cada tentativa de ar, cada pequeno avanço. Aos poucos, senti o tremor diminuir. O choro perdeu força. O corpo começou a ceder, mesmo que lentamente.

Quando percebi que ela já conseguia se manter sentada sem tanto esforço, me aproximei um pouco mais.

“Vou te levantar agora, tudo bem?” Avisei antes de tocar nela. Ela não respondeu, mas não resistiu quando a peguei com cuidado. Mesmo grávida, Katniss era incrivelmente leve. Levei ela até a cama, ajeitei os travesseiros e a cobri com calma, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquele equilíbrio frágil.

“Você está sentindo alguma coisa?” perguntei baixo, entregando a água que peguei no frigobar. “Quer que eu chame sua médica?”

“Não,” respondeu fraca, dando um gole antes de se deitar. “Ela tá mexendo… tá tudo bem.”

Assenti, aceitando. Sentei ao lado dela por um momento.

“Quer que eu peça alguma coisa pra você?”

Ela negou com a cabeça.

Não havia nada da mulher que eu conhecia ali. Nada da postura firme, da segurança, do jeito superior que às vezes me irritava. Só alguém exausta, vulnerável, tentando se manter inteira.

Deitei ao lado dela com cuidado e a puxei devagar para perto. Katniss se encaixou em mim quase sem perceber, o corpo buscando abrigo. Passei um braço ao redor dela, firme o suficiente para transmitir segurança, leve o bastante para não pressionar.

Não falei mais nada.

Fiquei ali, respirando no mesmo ritmo, sentindo o corpo dela relaxar aos poucos. A respiração ficou mais lenta, mais profunda. O peso do corpo cedeu contra o meu.

Quando percebi que ela tinha adormecido, levei a mão à barriga dela, sentindo o movimento lento. O alívio veio imediato.

“Eu adoro quando você se mexe,” murmurei baixo. “Mas que tal deixar a mamãe dormir agora? Ela precisa.”

O movimento não cessou de imediato, mas foi diminuindo nos minutos seguintes.

Algum tempo depois, levantei com cuidado, peguei o celular e enviei uma mensagem para minha mãe, avisando que não desceríamos para o almoço, que estava tudo bem, mas que Katniss estava dormindo.

Segui até a varanda anexa ao quarto e fechei a porta atrás de mim. Disquei um número conhecido. Brutus atendeu antes do segundo toque.

“Hawthorne está na Capital.”

“Não faz sentido, senhor. Ele não entrou em nenhum voo comercial. Posso garantir.”

“Ele está aqui no hotel.” Olhei a vista por um momento, enfiando a mão livre no bolso da calça.

“Vou acionar Darius.”

“Não. Ele está de folga.” Respirei fundo. “Eu mesmo vou ficar de olho nela hoje.”

“Vou entender como ele chegou sem que nosso time percebesse.”

“Certo. Quero uma nova investigação sobre ele.” Acrescentei. “E investiga Liam Hawthorne também, ele pode ser a fonte das informações que precisamos. Quero saber por que Gale tem vindo à Capital nos últimos meses. Quero saber o que ele quer.”

“Sim, senhor.”

“E, Brutus… providencia um segundo recurso para a Katniss quando Darius não estiver disponível.” Minha voz saiu baixa, firme. “Não quero esse homem perto da minha filha.”

Desliguei e voltei para o quarto.

Katniss dormia profundamente.

Deitei ao lado dela novamente, com cuidado, atento a cada pequeno movimento.

Havia algo ali, algo que estava muito bem guardado e de alguma forma não consegui descobrir ainda sim, precisava saber.


Notas finais
É isso. Espero que tenham gostado... Só para avisar, meu conhecimento médico se limita a séries que, embora ótimas, não são totalmente fidedignas à realidade, então me perdoem por qualquer incoerência. Me contem o que acharam! Vejo vocês em breve. Ótimo final de semana. Beijos