Linha Tênue
44 Capítulo 41: Erro de Rota
Notas iniciais


O trânsito estava caótico naquele horário. Meu voo havia atrasado, e tudo parecia sair, aos poucos, do que eu havia planejado para aquele dia. Depois de meses de pequenas e grandes discussões, eu só queria encontrá-lo e aproveitar o fim de semana sem brigas, sem silêncios longos, sem conversas importantes demais.
Talvez, só talvez depois de uma semana inteira sem qualquer sinal de enjoos ou indisposição, eu conseguisse resgatar algo íntimo, simples, romântico entre nós.
Um momento só nosso, depois de tantas semanas sem conseguir aprofundar qualquer carinho, semanas em que o sexo havia se tornado algo distante da nossa relação como nunca antes.
O táxi parou em frente ao prédio conhecido e subi direto para o apartamento 202. Nada parecia diferente no caminho. Ele provavelmente não estava em casa. Teria treino à tarde, o que havia impedido a viagem até a Capital para o nosso aniversário de namoro.
Não que eu fosse alguém que gostasse de comemorar datas, mas ele sempre foi e geralmente era o primeiro a insistir, a planejar algo, a querer transformar esses dias em um evento. O treino devia ser importante demais para impedi-lo de ir até mim.
Foi por isso que eu havia me esforçado tanto para a surpresa. A lingerie nova, do jeito que ele gostava. O pedido do jantar favorito dele. Uma noite a dois. Sem falar de casamento. Sem falar do bebê. Sem falar da minha possível mudança para o Treze, ou da possibilidade de ele deixar o time e ir para a Capital, mesmo com o custo de vida maior. Naquela noite, seríamos só nós dois.
A porta não estava trancada. Ele sempre esquecia de fechar quando estava em casa, mas nunca quando saía. Como se aquilo já não fosse suficiente, ouvi o som ligado. Alto demais. Meu corpo se moveu em passos lentos, quase cautelosos.
Deixei a bolsa sobre o sofá e segui em direção ao quarto. O barulho do chuveiro podia ser ouvido se eu prestasse atenção.
A cama bagunçada deveria ter sido um aviso. Assim como o perfume diferente no ar. As roupas espalhadas pelo quarto. Aquele era o momento em que eu deveria ter parado, e embora já tivesse juntado dois mais dois continuei andando até o banheiro.
Passos firmes, inconscientes como se alguma parte de mim já soubesse exatamente o que iria enfrentar. E então eu vi.
Ele estava ali. Nu, sob o chuveiro, em um momento mais do que íntimo com uma mulher que eu não conhecia.
Morena, cabelos longos. A pele dela colada demais contra a dele em meio a beijos e carícias .
O mundo não desabou de imediato.
Ele apenas… silenciou.
A semana após a despedida de solteiro passou rápido, puxada pela velocidade impressionante dos últimos preparativos para o casamento. Participei da prova dos vestidos das madrinhas, mesmo não sendo uma delas, já que o meu vestido estava sendo confeccionado no mesmo ateliê, em um tom muito bonito que combinaria perfeitamente com a roupa de Peeta, que seria um dos padrinhos.
Embora muitos pudessem achar estranho ele ocupar esse papel sem mim, eu não achava. Entendi que não cabia questionar nada naquele momento, toda a organização havia começado muito antes do meu acordo com Peeta surgir, e meu casamento nem ao menos era real. Algo que, ultimamente, vinha me incomodando de um jeito que eu ainda não sabia explicar.
Apesar de já admitir para mim mesma um sentimento cada vez mais consistente pelo loiro, pensar em um casamento de verdade ainda parecia acelerar as coisas. Ainda que, se eu fosse realmente parar para pensar, nada naquela situação tivesse seguido a ordem considerada certa afinal, eu já estava esperando a filha dele.
Ainda assim, fosse pelo irmão ou pela mãe, Delly fez o possível para me incluir ao máximo no casamento. Isso significava que, além de participar da última prova do vestido, ajudei com pequenos detalhes finais: a escolha dos acessórios, os ajustes de última hora, a confirmação do cronograma do dia e até aqueles momentos mais íntimos que costumam acontecer na semana de um casamento, conversas longas, risadas nervosas, lembranças compartilhadas e o cuidado quase coletivo que naturalmente se forma em torno da noiva.
Quando o grande dia chegou, confesso que a espera de um ano e meio de organização se fez valer. A cerimônia religiosa, realizada na catedral da Capital, foi uma das mais bonitas que já vi.
Thresh deixou de lado qualquer traço do homem brincalhão, sempre com uma piada pronta na ponta da língua, e deu lugar a um noivo com a ansiedade visível enquanto esperava, no altar, a mulher que amava.
Quando Delly entrou, acompanhada do pai, pude ver lágrimas surgirem em meio ao maior sorriso que aquele homem provavelmente já deu em toda a vida.
A loira estava deslumbrante. Usava um vestido de estilo clássico, elegante na simplicidade: tecido claro, de caimento impecável, ajustado ao corpo na medida certa. A renda aparecia em detalhes delicados, sem exagero, valorizando cada movimento. O cabelo estava preso de forma suave, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto, e a maquiagem realçava seus traços naturais sem apagar sua expressão luminosa.
Delly parecia calma, segura e incrivelmente feliz.
Ela manteve o sorriso firme, sem lágrimas, até ver Alex entrar pelo corredor segurando Kai no colo, levando as alianças, exatamente como havia planejado desde que soube da gravidez da irmã, no Dia de Ação de Graças. Confesso que a cena foi absurdamente fofa de se ver.
A recepção, em um dos salões mais prestigiados da Capital, foi impecável. Familiares e amigos se divertiam, e era visível que muitos tinham brindes preparados para os recém-casados. Peeta fez um belo discurso como padrinho, sincero e cuidadoso, e foi comovente vê-lo finalizar deixando claro que, não importava o que acontecesse, ela sempre teria o apoio dele para qualquer coisa.
Haymitch conseguiu emocionar a todos com palavras simples e cheias de afeto, dizendo que Delly sempre seria sua eterna menina e que sempre teria um lugar para voltar, não importava quando. Foi bonito ver pai e filha na pista de dança. E não pude deixar de pensar que jamais chegaria perto de ter um relacionamento assim com o meu pai. Ainda assim, me peguei desejando que, um dia, pudesse ver algo parecido na relação da minha filha com Peeta.
Os dias seguintes ao casamento foram bem mais tranquilos para mim. Optei por ficar em casa e descansar a maior parte do tempo, saindo apenas para as consultas e, em algumas ocasiões, para rápidas idas ao shopping ou para eventos esporádicos, mas nunca ficando muito tempo. O fato de já estar no último trimestre da gestação parecia ter colocado Peeta em modo de alerta. Sua presença em eventos era sempre breve, saindo assim que a etiqueta considerava aceitável partir sem ofender os anfitriões.
Apesar disso, ele vinha trabalhando em um ritmo cada vez mais acelerado, e agora eu conseguia perceber o quanto aquilo era pouco saudável para ele. Saía cedo e voltava tarde. Muitas vezes, mesmo com o jantar separado, ele simplesmente não comia. Sem contar as horas que passava no escritório em casa.
Era possível notar o cansaço em pequenos detalhes como nos ombros mais tensos, na forma como ele as vezes passava a mão pelo rosto antes de seguir para o escritório. Ainda assim, ele sempre tentava não demonstrar.
Não era a primeira vez que ele entrava nesse ritmo acelerado, mas em outro momento eu não tinha dado tanta atenção a isso. Mas agora era diferente e o excesso de trabalho e o cansaço constante passaram a me preocupar mais do que eu gostaria.
Outra coisa que estava em ritmo acelerado eram os preparativos para o quarto da bebê que já estava praticamente pronto, graças à ajuda e ao apoio constante de Effie, que, junto com Prim, participou de praticamente todas as escolhas. Ainda faltavam alguns detalhes, mas tudo já emanava bom gosto e delicadeza.
O ambiente havia sido planejado com cuidado, combinando conforto e elegância. As paredes eram decoradas com árvores suaves em tons claros de verde e bege, com pequenos animais como cervos delicados, coelhos e pássaros pintados com traços leves. Minha irmã havia sugerido trazer alguns traços do estilo princesa nos móveis, o que acabou deixando o ambiente ainda mais elegante, sem perder a leveza. O resultado era um espaço tranquilo e acolhedor, como se aquele quarto fosse um pequeno pedaço de uma floresta saída de um livro infantil.
Os móveis, todos em madeira clara e acabamento impecável, reforçavam esse equilíbrio entre sofisticação e delicadeza. Um tapete macio cobria parte do piso, e cortinas leves filtravam a luz que entrava pela porta dupla da sacada, deixando o ambiente ainda mais aconchegante.
Alguns elementos faziam discretas referências a cavalos, algo que acabei acrescentando pensando em Peeta, que, embora não dissesse muito, sorria a cada escolha, acrescentando sempre sua opinião discreta. Havia uma luminária em formato de cavalinho de balanço sobre a cômoda e pelúcias em três tons diferentes sobre uma das prateleiras, criando pequenos pontos de contraste no meio de toda a suavidade do quarto.
O berço, posicionado próximo à porta da sacada, foi montado pelo próprio Peeta, com a ajuda de Haymitch. E embora não tenha colocado muita expectativa quando ele disse que não seria necessário um montador e que ele mesmo faria isso, confesso que foi bonito de ver os dois trabalhando juntos. Eles pareciam saber exatamente o que estavam fazendo e se entendiam bem naquele tipo de tarefa. Não houve confusão, nem peças sobrando, apenas um entendimento silencioso, quase natural. As ferramentas passavam de uma mão para a outra sem necessidade de muitas palavras, e as peças iam se encaixando com precisão em meio a uma conversa leve sobre assuntos variados. Havia algo reconfortante naquela cena.
Como se, de alguma forma simples, aquele berço já carregasse uma historia futura, afinal seria uma bela recordação para contar a minha pequena um dia. O closet, muito parecido com o do quarto principal, embora relativamente menor, era a parte que ainda pedia mais organização. As roupinhas estavam sendo cuidadosamente lavadas e passadas antes de ocuparem os cabides e gavetas. Ainda assim, as gavetas de sapatinhos e lacinhos já organizadas davam um ar de realidade ao local, como se tudo estivesse, aos poucos, deixando de ser apenas preparo e passando a ser espera.
Havia também um banheiro adjacente, que estava sendo equipado para receber um recém-nascido, pensado nos mínimos detalhes para tornar tudo mais prático e seguro.
Acordei ligeiramente assustada. Embora não me lembrasse do sonho, a sensação era angustiante. Levei a mão ao outro lado da cama em busca de calor e conforto, mas encontrei apenas o espaço vazio.
Olhei o relógio.
Marcava 2h44.
Uma sensação ruim se instalou no meu peito, como se algo estivesse fora do lugar. Provavelmente ainda era resquício do pesadelo... Levantei e observei o quarto silencioso. Abri a porta devagar. A casa estava completamente escura, sem luzes acesas. Apenas a luz da lua atravessava as grandes janelas de vidro do corredor, espalhando reflexos prateados pelo chão.
Atravessei o corredor com cuidado, os passos leves evitando fazer qualquer barulho. A porta do quarto da Prim estava fechada e abri apenas o suficiente para vê-la dormir tranquilamente. Sua respiração era calma, constante… e, por um momento, senti o alívio se espalhar pelo meu peito. Fechei a porta com o mesmo cuidado e segui em direção ao primeiro andar, indo para o escritório dele.
Não havia dúvida de que ele estaria lá. A porta estava entreaberta, e era possível ver a luz acessa. Quando me aproximei lentamente, pude vê-lo sentado à mesa, já de pijama, completamente concentrado no notebook. Mas o que realmente chamou minha atenção foram os óculos.
Desde que tudo começou e que ele reapareceu na minha vida com toda a história de vingança, eu não o tinha visto usar óculos. Sempre deduzi que ele simplesmente não os usava mais. E, de alguma forma, aquela imagem simples me atingiu de um jeito inesperado.
Inevitavelmente, me lembrei do jovem que, por alguns dias, sentou comigo para me explicar exercícios de matemática. Que sorria a cada acerto simples, como se aquilo fosse uma grande vitória compartilhada. Que, às vezes, se perdia observando enquanto eu resolvia os exercícios, mas ainda assim permanecia atento ao que eu dizia, se empenhando ao máximo em cada explicação. O jovem de sorriso tímido, que raramente me olhava diretamente nos olhos, mas que conseguiu me fazer sentir especial de um jeito que os outros garotos nunca conseguiram.
Mesmo sabendo que muitos deles fariam qualquer coisa para estar ao meu lado. Mesmo tendo vários disputando apenas a chance de andar comigo pelos corredores, carregando minha bolsa como se aquilo fosse algum tipo de troféu ou conquista. Felizes por serem vistos pelos veteranos do time a ponto de ganhar uma tarefa ridícula como carregar uma bolsa.
Com ele, era diferente. Ele não ligava para o time ou para a popularidade do ensino médio. Mas sem dúvida naquela época ele teria carregado minha bolsa, apenas por educação , não para conseguir algo.
Sorri quase involuntariamente quando ele tirou a armação do rosto por um instante, levando as mãos aos olhos como quem tenta aliviar o cansaço da vista. Exatamente como fazia anos atrás… quando acreditava que eu não estava olhando. Foi nesse momento que ele olhou em minha direção.
Os olhos atentos. E senti a pele aquecer, como uma adolescente tímida sendo pega no flagra ao espiar um garoto, algo que nunca foi um problema para mim.
"Katniss, está tudo bem?"
"Sim… acordei e pensei em pegar água quando vi a luz" menti, entrando no cômodo. "Você não devia estar dormindo?"
"Tentando evitar trabalho no final de semana."
"Algum problema na empresa? Você anda trabalhando bastante nos últimos dias." Ele me olhou por um momento, como se avaliasse se responderia ou não, quase como em um dilema interno. Sentei na cadeira em frente à mesa dele, fingindo uma naturalidade que não estava sentindo.
"Não… na verdade, as coisas só estão mais agitadas com a ausência da Delly. Fico feliz que o Finn esteja de volta, mas a licença dele e da Annie não afetavam tanto meu trabalho. A Johanna ficou à frente do time jurídico… entretanto, a Delly, como vice-presidente, influencia, e muito na minha rotina."
Após o casamento minha cunhada havia saído em uma lua de mel que incluía uma viagem extensa por alguns Distritos e que se prolongou para mais duas semanas no exterior.
"Se eu puder ajudar com algo…" ofereci, mesmo sabendo que ele iria negar.
"Está tudo bem. Obrigado por oferecer."
"Não sabia que ainda usava óculos." Acabei comentando, tentando deixar o clima ameno e normal, ou pelo menos o mais normal que conseguíamos chegar.
"Ah…" ele olhou para a armação por um instante antes de colocá-la sobre a mesa. "Fiz uma cirurgia e reduzi bastante o meu grau, praticamente não preciso dele, mas às vezes a vista cansa demais."
"Você fica bem com eles" falei quase sem pensar, observando o olhar dele sobre mim. "É sério… te dá um ar mais culto." Um leve sorriso surgiu nos lábios dele.
"Ah, sim… então o termo nerd virou algo como culto agora. Pena que na adolescência não tenha sido assim."
"Adolescentes, na maioria, são idiotas e imaturos."
Parte de mim queria dizer que sentia muito. Que lamentava o quanto as coisas tinham saído do limite onze anos atrás. Mas outra parte aquela que ainda carregava um orgulho grande demais não conseguia. Ele me olhou atentamente como se estivesse me avaliando. Meu olhar acabou desviando, e foi então que notei um livro sobre a mesa que chamou minha atenção.
"Isso é… um livro de nomes?" Ele acompanhou meu olhar.
"É, sei que ainda não falamos sobre nomes, mas estava dando uma olhada."
Me inclinei levemente, puxando o livro para mais perto. Nos últimos meses havia olhado diversos nomes online, mas nunca assim… com ele.
Abri em uma página aleatória, passando os dedos devagar pelas páginas, até encontrar uma folha com alguns nomes marcados.
"Ava, Aya, Aurora, Ayla, Antonella, Eleni, Félicité, Helena, Íris, Lina, Lumi, Masal, Noa, Rhea, Sara, Nova, Olívia, Zoe…" murmurei. "São bonitos… você gosta de algum em especial?"
"Não, achei os significados interessantes. Separei para olhar melhor, só isso."
"É mesmo… Aurora é bonito, deixa eu ver…" procurei o nome no livro. "Vem do latim, deusa do amanhecer… gostei."
"Sim, é bonito." Passei mais uma vez os olhos pela lista.
"Ainda não falamos sobre nomes… mas algum que deva ser completamente desconsiderado?"
"Desconsiderado não… mas acho válido ver a sonoridade com os sobrenomes, para combinar melhor." Assenti de leve.
"Alguma promessa… ou homenagem que eu deva saber?" Ele demorou um segundo antes de responder.
"Na verdade, o nome da minha mãe biológica seria uma bonita homenagem." Aquilo me pegou de surpresa. Não que nos conhecêssemos tão bem, mas ele nunca tocava no assunto família biológica. Era fácil esquecer que havia outra família além dos Mellark.
"E qual seria o nome?"
"Hildegarda." Por um instante, permaneci em silêncio, repetindo mentalmente o nome. A sonoridade soava pesada, distante… difícil de imaginar em algo tão pequeno quanto um bebê. Mas tentei manter a expressão neutra, afinal era o nome da mãe biológica dele e não tinha ideia do quanto ela foi ou era importante pra ele.
"É um nome… antigo. Clássico, talvez… vintage até…" hesitei um pouco. "Mas não sei bem se combina com o sobrenome."
"Acho que combina. Nomes mais clássicos estão em alta agora." Fiquei ligeiramente sem reação por um segundo, ainda tentando decidir como dizer que não queria que minha a filha se chamasse Hildegarda sem ofender ninguém.
Foi então que percebi o canto do sorriso se formar nos lábios dele e então ele riu. Baixo, contido… mas verdadeiro.
"É brincadeira. Não tenho ideia de qual é o nome de qualquer parente biológico que eu tenha, e mesmo que soubesse não acho que homenagearia nenhum deles nesse momento." Soltei o ar em silêncio. "Você devia ter visto sua cara… nome clássico…"
"Sem graça…" Desviei o olhar, fechando o livro com cuidado, mas um pequeno sorriso acabou escapando.
"Foi engraçado, admite." Suspirei, sem olhar para ele.
"Talvez." O silêncio que se seguiu foi leve. Mais fácil do que antes.
“Vamos achar um nome, ainda temos algumas semanas.”
“Sim… mas confesso que estou ansiosa pra ver o rostinho dela. Ainda mais depois da última ultrassom… foi tão nítido, tão…" A imagem ainda estava viva na minha mente. O último ultrassom havia sido o morfológico 5D e tinha sido tão perfeito, tão detalhado, que mais parecia uma foto e isso só aumentava a ansiedade em finalmente ver minha pequena pessoalmente.
"Tão real," ele completou, em um tom mais baixo. "Eu sei, também me sinto assim. O ultrassom… o quarto dela tomando forma…" Assenti de leve. "Gosto de Eleni. Significa luz." Ele continuou o assunto anterior e parei por um momento avaliando mentalmente a sonoridade.
"É bonito.” Olhei novamente as anotações dele “Mas seguindo essa linha… temos Ayla também. Luz da lua." Ele fez um leve som de concordância, como se guardasse o nome.
Ficamos ali por um tempo, apenas conversando. Quando nos demos conta, já era bem mais tarde do que imaginávamos. Ele ainda ponderou ficar e trabalhar mais um pouco, mas o cansaço acabou vencendo, e ele me acompanhou até o quarto e deitou ao meu lado em um silencio confortável. E de alguma forma… a noite pareceu mais tranquila a partir dali.
Senti um movimento conhecido no ventre antes mesmo de abrir os olhos. Os movimentos, cada vez mais fortes e nítidos, já não me assustavam mais. Pelo contrário… eram reconfortantes. Uma ótima forma de começar o dia. Levei alguns segundos para perceber a voz dele.
Baixa. Contida.
E, quando percebi, mantive os olhos fechados como das outras vezes, sem querer interromper o momento deles.
"...sei que ando meio ausente." Houve uma pequena pausa. "...que a gente não tem conversado muito esses dias. A rotina do papai está um caos… e eu sei que isso não deveria interferir, mas vai melhorar, eu prometo. Sua tia Delly volta logo… ela precisava desse tempo longe, sabe?" Um breve silêncio. "...não conta pra ela, mas tenho que admitir que ela é meu braço direito no trabalho. Bem… sendo justo, todos são importantes. Sua tia Annie também está fora, cuidando do seu priminho… e seu tio está lidando com a ausência dela…" Um leve suspiro. "...no fim, você vai ver que todo mundo é fundamental pro funcionamento de tudo. Embora a assinatura do papai esteja na maioria dos papéis eu não sou ninguém sozinho. " Outra pausa, mais suave dessa vez. "...bom falei tudo isso pra dizer que eu prometo que vou estar mais presente principalmente quando você estiver aqui fora." Senti um movimento leve. "...conversei com sua mãe sobre nomes ontem… acho que você ouviu." Um sopro baixo de riso. E mesmo de olhos fechados, consegui imaginar o sorriso dele. "...temos muitas opções. Parte de mim queria esperar… ver seu rosto primeiro." Outro movimento, dessa vez mais forte. "...mas a gente escolhe antes, tá? Ainda temos um tempinho." A voz dele baixou ainda mais. "...é uma decisão importante… você vai carregar esse nome pelo resto da vida." Houve um pequeno suspiro, e eu reconheci aquele tom, o mesmo que ele usava quando pensava demais. "...então tem que ser um bom." Permaneci quieta, absorvendo cada palavra. "...meu dia vai ser caótico hoje… mas espero que o seu seja tranquilo." Uma pausa breve. "...sei que vai ser. Sua mãe está pegando leve. Não sei se vamos conversar hoje à noite… mas eu tô por aqui, tá?"
Foi nesse momento que não consegui mais fingir. De certa forma… não queria perder aquilo. Não queria que esses momentos existissem como algo escondido, como se precisassem ser.
"Você pode falar com ela enquanto eu estou acordada, sabia?"
Abri os olhos e encontrei o olhar dele.
Surpreso como alguém pego no flagra.
Sorri de leve, ele já estava parcialmente pronto para o trabalho, deitado ao meu lado de um jeito que contrastava com a formalidade que ele carregava o resto do tempo naquelas roupas.
"Desculpa… eu não queria te acordar…" ele disse, ainda se ajustando. "Há quanto tempo você está acordada?"
"Um tempinho…" respondi, acomodando melhor a cabeça no travesseiro, sustentando o olhar nos olhos azuis que, nos últimos dias, tinham se tornado difíceis de ignorar e que me fascinavam agora. "Eu sinto quando ela se mexe, sabia?" Dei um pequeno sorriso. "E ela se mexe bastante nesses… bate-papos de vocês." Parei, observando a reação dele. "O que me faz acreditar que eles começaram antes do que eu percebi." Ele desviou o olhar por um instante, levemente constrangido. "Mas quando ouvi da primeira vez… não quis interromper," completei, mais baixo.
"Li que é bom conversar com o bebê," ele disse, ainda sem me encarar completamente. "E… queria ter alguma conexão com ela desde já."
"Acho que conseguiu," respondi com suavidade. "Às vezes você esta falando com alguém perto de mim e ela se mexe."
"Mesmo?" ele perguntou, voltando o olhar.
Confirmei com a cabeça. O sorriso dele se alargou de forma quase involuntária. A mão dele se moveu em direção ao meu ventre… mas parou no meio do caminho.
Hesitante.
Segurei a mão dele antes que ele recuasse e a levei até a minha barriga.
"Você pode sentir sempre que quiser," falei baixo. "Não precisa pedir… nem tornar isso estranho. É sua filha."
Ele acariciou com cuidado. E, pelo leve movimento que senti, ela respondeu o toque. Fiquei em silêncio, apenas observando. Sabia que nem todos os homens valorizavam aquele tipo de momento.
E eu não queria ser o motivo de ele não viver aquilo.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável.
Era… tranquilo.
"Eu adoraria ficar o dia todo," ele disse por fim, ainda com a mão ali. "Mas tenho que ir pra empresa."
"Ah, sim… seu dia caótico está te esperando." Ele sorriu.
"Sim.” Se ergueu devagar, mas antes se inclinou e depositou um beijo leve no meu ventre.
Por um instante eu desejei que ele me beijasse também. Mas ele se afastou.
Pegou o terno na poltrona, vestindo com naturalidade enquanto ajustava a lapela.
"Tenha um bom dia, Katniss."
"Você também.”
O restante da semana passou de forma tranquila. Foi bom observar o contato de Peeta com nossa filha sem precisar fingir estar dormindo. De forma discreta e quase cuidadosa, ele passou a tocar minha barriga sempre que chegava, dizendo algo curto, baixo… como se fosse um segredo entre eles. E, quase todas as noites, antes de dormir, aquelas pequenas conversas continuavam.
Voltamos a falar sobre nomes, e apresentei a ele algumas opções que já havia visto antes. Embora não tivéssemos decidido nada, ainda assim eram bons momentos que na minha cabeça nos deixa mais próximos e com o clima mais ameno.
No domingo, durante o almoço de família, minha sogra comentou sobre o retorno da filha no final daquela semana. Isso significava que, enfim, Peeta poderia desacelerar um pouco e, de alguma forma, aquilo me trouxe alívio. Tudo parecia… em ordem. E apesar de tudo, do contrato de como as coisas aconteceram e de ter plena certeza de que ele não me amava, eu me sentia feliz como a muito tempo não sentia.
Até aquela manhã.
Uma terça-feira típica de outono. Apesar de ter acordado com uma sensação estranha, segui minha rotina normalmente. Tinha combinado um almoço com minha mãe e, por mais que não tivesse a menor vontade de ir, mantive o compromisso. Estávamos afastadas nos últimos meses. Ela insistia em falar sobre um segundo filho, mesmo antes de ter dado a luz a minha pequena e, de forma quase sempre indireta, deixava claro que o fato de eu não estar grávida de um menino era, de alguma forma, um problema.
Sem contar as reclamações constantes. Meu pai queria se mudar para um apartamento menor, reduzir os gastos o que, para ela, era um absurdo. Para mim parecia apenas que ele estava tentando preservar o que ainda tinham. Embora não tivesse a menor ideia do quanto era isso, já que ele havia dito que estava falido em nossa última conversa.
E, apesar de amar minha mãe, assim que o almoço terminou, paguei a conta e disse que voltaria para casa. Ela reclamou, como sempre, sobre não poder contar comigo para passar uma tarde inteira juntas, mas ainda assim se despediu.
Segui até o carro, onde Darius me esperava.
Ele conduzia pelas ruas da Capital como de costume, quando o painel do carro vibrou com uma chamada. Vi ele fazer o mesmo movimento de meses atrás atendendo imediatamente pelo fone.
"Outra vez? Tem certeza? Não… eu também acho estranho, ainda mais na mesma casa… certo. Vou seguir pela estrada dos fundos."
Olhei para ele, e como se sentisse meu olhar ele me observou pelo retrovisor.
"Aconteceu algo, Darius?"
"Disparo de alarme em uma das residências vizinhas, senhora," ele respondeu, voltando o olhar para a estrada. "A rua principal está com viaturas e aglomeração. Vamos acessar pela parte de trás da propriedade."
"Certo…" murmurei, olhando pela janela por um instante antes de perguntar. "Meses atrás isso aconteceu também, não foi? Você sabe o que houve?"
"Pelo que soube, o alarme disparou sozinho. Algum tipo de pane no sistema. As câmeras externas pararam de funcionar, mas não sumiu nada. Nenhum sinal de invasão. Acredito que seria prudente os proprietários analisarem a troca do sistema de segurança. "
Aquilo não me tranquilizou. Meu celular vibrou e não me surpreendi com a mensagem do Peeta. Respondi que estava tudo bem enquanto seguíamos por mais alguns quilômetros.
Por ser um bairro de alto padrão, as ruas eram quase desertas, e as casas mantinham uma distância considerável umas das outras. A estrada que levava aos fundos era ainda mais vazia apesar de bem pavimentada.
Foi quando senti o carro reduzir a velocidade.
Olhei para frente.
Um veículo estava parado no meio da estrada.
Parecia ter derrapado. Um dos pneus estava murcho, inclinado de forma estranha.
Ao lado dele, uma mulher e, próximo a ela, um bebê conforto, com a viseira abaixada, protegendo o bebê, que chorava. Alguém parecia estar no volante, inconsciente.
A cena bloqueava completamente a passagem.
POV Peeta.
O dia estava um caos, tomado por reuniões e por uma pilha de papéis que ainda precisavam ser lidos e assinados. Embora nosso último lançamento tivesse sido um sucesso e a recepção do público estivesse ótima, sempre havia algo para resolver no pós-lançamento, sem contar a pressão quase constante por novidades.
Parte do time de desenvolvimento parecia realmente animada com um novo projeto, enquanto outra parte insistia em focar em lançamentos para o ano seguinte com pequenas atualizações apenas. E, por mais que eu soubesse que alguns produtos, como celulares e televisores exigiam atualizações anuais e novos modelos como parte do próprio mercado, eu detestava lançar aparelhos com mudanças mínimas.
Aquilo era um debate constante com o time.
Por mais que eu entendesse as pressões do mercado e a lógica por trás delas, não fazia sentido, para mim, oferecer ao consumidor um modelo “novo” que fosse praticamente igual ao anterior.
Graças a Deus, Delly estaria de volta na segunda-feira para dividir o trabalho e os debates durante as intermináveis reuniões internas.
Eu estava perdido nesses pensamentos quando fui informado da presença de Brutus. O que, por si só, já não era nada normal. Meu chefe de segurança não aparecia no meu escritório sem aviso.
A porta se abriu, e ele entrou logo em seguida, fechando a mesma com cuidado atrás de si. Indiquei a cadeira à frente da mesa.
"Pode sentar. Por favor." Ele assentiu, mas permaneceu de pé por um segundo antes de se acomodar. "Aconteceu alguma coisa, Brutus?" questionei.
Eu já havia recebido uma mensagem informando sobre uma nova possível falha no sistema de segurança da casa vizinha. Era a terceira vez em um intervalo curto demais.
E, pela segunda vez, Katniss estava fora de casa no momento do ocorrido. Darius havia sido obrigado a recalcular a rota, evitando a entrada principal e utilizando a estrada que levava aos fundos da propriedade. Um desvio simples, à primeira vista, mas que, repetido daquela forma, começava a me incomodar. Aquilo precisava ser corrigido logo.
Aproveitaria que Brutus estava ali para definir uma nova medida caso aquilo se repetisse. Nada de acessos pelos fundos. Talvez fazer o retorno e seguir direto para outra residência da família ou, em último caso, para o escritório.
“Não exatamente, chefe, mas achei que o senhor iria querer ver isso agora, ao invés de esperar hoje a noite." Me inclinei levemente para frente interessado.
"O que você tem aí?"
"Bom… o senhor estava certo. Liam Hawthorne tem muito mais coisa escondida do que parece."
"Como assim? O que você descobriu?" Ele estendeu o tablet que sempre carregava. Peguei o aparelho, destravando a tela com a senha que eu já sabia de cor, enquanto ele começava a explicar.
"Oficialmente, Gale não tem nenhum tipo de ficha criminal. Nenhuma atividade suspeita registrada. Mas isso não significa que ele não tenha feito nada." Continuei olhando a tela. "Fui além dos registros oficiais. Cruzei dados… e consegui levantar algumas coisas sobre ele através do pai." Levantei o olhar. "Aparentemente, tudo é muito bem encoberto. Não totalmente apagado… mas escondido o suficiente para não aparecer quando olhamos apenas pelo nome do Gale. O patriarca da família vem encobrindo as façanhas dele há algum tempo."
"Que tipo de façanhas?" Brutus respirou fundo antes de continuar.
"Transferências. Muito dinheiro. Para pessoas envolvidas em situações suspeitas. Aparentemente, a mais difícil de esconder foi a de Oliver Carter. Trouxe tudo que consegui do caso." Deslizei a tela até a pasta com o nome que ele mencionou. "Esse foi um dos casos que quase não conseguiram encobrir.” As imagens abriram. O rosto do rapaz estava completamente machucado nas primeiras fotos. Inchado, marcado por hematomas roxos, mal se podia ver o olho esquerdo, o jovem estava irreconhecível. As seguintes mostravam o processo de recuperação. Que parecia ter sido lento. "Ele jogava no mesmo time que o Gale, no Distrito treze. Era possivelmente o jogador com maior chance de conseguir algo em um time maior naquela temporada," Brutus continuou. "Houve uma discussão… em uma festa. Que terminou com o Gale partindo pra cima dele. Ele continuou socando o Carter mesmo depois de ele perder a consciência. Pelo menos três pessoas precisaram segurá-lo para fazê-lo parar." Minha mão apertou levemente o tablet. "As lesões foram graves. O Carter quase perdeu a visão. Ele passou por pelo menos cinco cirurgias. Três delas de reconstrução facial. Parte dos ossos do rosto foi comprometida… e o nariz precisou de reconstrução quase total. Embora não tenha perdido completamente a visão… os médicos não conseguiram recuperá-la por inteiro." Meu olhar se fixou na última imagem. "Com isso ele teve que abandonar o esporte."
Aquilo não havia sido uma briga. Brigas pressupõem ação e reação dois lados envolvidos. Ali, não. Aquilo era um crime, algo que poderia facilmente ser tratado como tentativa de homicídio.
"Como isso não está na ficha dele?" perguntei, a voz mais baixa. "Ninguém chamou a polícia?"
"Chamaram," Brutus respondeu sem hesitar. "Ele ficou detido por mais de doze horas. Mas o pai fez uma transferência gigantesca para a família do rapaz e para quem atendeu a ocorrência. E para quem estava de plantão naquela noite." Levantei o olhar lentamente.
"E o registro?"
"Alterado. O chamado de agressão, o tempo que ele passou detido, tudo foi reclassificado. Hoje consta como perturbação da ordem, som alto em festa." Encostei na cadeira, era como se nada tivesse acontecido. Como se ele nunca tivesse sequer passado por uma delegacia. Liam Hawthorne tinha influência demais dentro do Distrito treze, com certeza.
"Você disse que isso era só um dos casos. O que mais você descobriu?"
"Outros nomes. Outras transferências. Não consegui levantar tudo, mas o que chama atenção são os valores." Observei a lista de nomes e valores, em outro arquivo. "Bem menores que o caso Carter. Mas ainda assim altos demais para serem ignorados."
"Todas são em nome de mulheres." Comentei, observando os nomes com mais atenção.
" Sim, jovens modelos. Todas tiveram algum tipo de relacionamento com ele… ou foram vistas com ele nos últimos anos."
"Você demorou um tempo considerável pra me trazer isso," falei, sem tirar os olhos da tela. "Então imagino que tenha mais."
"Sim." Levantei o olhar. "Fui atrás do Carter, mas não consegui falar com ele. Mas consegui contato com outro jogador do time. Ele estava presente naquela noite."
"Então me diz o que aconteceu."
"Segundo ele o Gale já vinha implicando com o Carter dias antes. Disse para alguns jogadores que ele olhava ‘de forma estranha’ para a namorada." Meu maxilar travou.
"Katniss." Eu não precisava que ele confirmasse. Pela data eu sabia que eles ainda estavam juntos naquela época.
"Sim," ele continuou. "Segundo esse jogador, o time evitava proximidade com ela. Evitavam qualquer assunto além do necessário quando ela não estava com ele. Mas o Carter não fez nada fora do normal. Ele conversava com todo mundo. Algumas pessoas viram os dois conversando uma semana antes… em público. Nada demais. Faculdade, futuro… conversa comum pra dois universitários. Mas depois disso, o Gale começou a implicar ainda mais com ele."
"Ela estava lá naquela noite?" Perguntei. A ideia de Katniss presenciar algo assim me incomodava mais do que eu gostaria de admitir.
"Não. Aparentemente ela nem estava no Distrito."
"Mas ele ouviu o Carter mencionar o nome dela, algo simples. Que ela era inteligente. Nada além disso."
"Mas foi o suficiente." Brutus assentiu.
"Ele partiu pra cima. Sem dar qualquer chance de defesa.”
"Essas mulheres… você conseguiu falar com alguma delas?"
"Poucas, mas o suficiente pra entender bem o padrão." Ele manteve o tom firme, quase técnico. "Todas relataram praticamente a mesma coisa. No começo, tudo funciona. Ele é intenso, presente, muito atento aos detalhes o tipo de homem que observa tudo. Um bom namorado. Mas isso muda quando o relacionamento começa a ficar mais sério. Ele não muda de uma vez. Vai aos poucos. Começa com sugestões. Comentários sobre roupas, sobre comportamento, faz pequenas críticas que parecem inofensivas. Mas depois vira discurso. Sobre como uma mulher deve ser. Sobre ser mulher pra casar. Mais correta. Mais discreta. Que sabe se portar. Que não se expõe demais." Ele fez uma pausa breve, ponderando as palavras. "Ele repete muito isso. Uma delas relatou que ele dizia com frequência que não toleraria ser desrespeitado por mulher nenhuma. Que já tinha passado por isso antes. Que não deixaria acontecer de novo. E então ele começa a querer moldar. As roupas primeiro, ele quer que elas fiquem mais fechadas, mais discretas. Depois o comportamento. Mais contido. Mais alinhado com o que ele espera. Ele também vai afastando as pessoas do convívio delas. E aí entra a aparência." Ele fez um leve gesto com a mão, como se organizasse a sequência. "Se o cabelo é curto, ele comenta que prefere longo. Indica um cabeleireiro, diz que conhece alguém ótimo com aplique. Se é claro… diz que gosta de tons mais escuros e indica o mesmo cabelereiro e começa a sugerir mudanças. Primeiro um castanho. Depois mais escuro." Ele respirou fundo antes de continuar. "E aí vem o problema com a bebida. Todas relatam que ele bebe com frequência. No começo parece social… controlado, mas o consumo vai aumentando. Principalmente quando estão juntos. Como se ele nunca estivesse satisfeito com alguma coisa. E cada vez que se encontram… ele bebe mais. Até perder o controle." O tom dele ficou mais pesado. "Ele fica mais autoritário. Mais exigente, mais instável. Segundo elas, é nesse ponto que ele mais perde o controle."
“Agressão ?”
"Não nelas diretamente. Mas no ambiente. Ele grita, quebra objetos, copos. O que estiver por perto. Uma delas relatou que ele deu um soco na parede durante uma discussão. Ofensas e pressão constante."
"Abuso psicológico."
"Sim." Brutus confirmou com um leve aceno de cabeça.
"E ainda assim… nenhuma confirmou agressão física direta ou fez alguma denuncia"
"Mas todas relataram abordagens policiais no fim. Discussões em via pública, ciúmes excessivo, direção imprudente, situações que levaram ele pra delegacia."
"Ocorrências que deveriam constar na ficha dele."
"Mas não constam. Alguém no Distrito treze colocou tudo debaixo dos panos." Ele fez uma breve pausa antes de concluir. "Ainda assim… é sempre assim que termina. O pai dele entra na história. Pede desculpas no lugar dele e encerra a relação, faz uma transferência generosa.”
“Algo mais que você não está me contando?” Ele demorou um pouco mais do que antes para responder, como se estivesse escolhendo com cuidado o que valia a pena expor.
“Não tenho muitas informações além do que já contei… mas tem mais coisa aí. Só está muito bem escondido, mas vou descobrir.” Ele fez uma breve pausa antes de continuar. “Tem um ponto que chama bastante atenção. Todas essas mulheres seguem um padrão.” Apoiei os cotovelos na mesa, atento. “Todas são modelos, mesma faixa etária e tipo físico. E, com o tempo, ele faz questão de que elas mudem. Sempre para cabelo longo com tons mais escuro. No fim, elas acabam ficando parecidas entre si.” Esperei entendendo onde ele queria chegar, mas aguardando para ouvir. “Sendo direto… acabam lembrando a sua esposa.”
“Você acha que ele está tentando deixá-las parecidas com a Katniss porque não esqueceu?” perguntei, encarando Brutus, tentando medir até onde ele já tinha ido com aquilo.
“Eu não posso afirmar isso dessa forma,” ele respondeu com cautela. “Homens podem ter um padrão de preferência. Isso, por si só, não diz muita coisa. Mas nesse caso não parece só isso. É específico demais. Repetitivo demais.” Confiança não era algo que eu distribuía com facilidade, mas Brutus não estava ali por acaso. Eu confiava nele com o que tinha de mais valioso na vida, a segurança da minha família. “Pelo que consegui reunir, não é só aparência,” ele continuou. “Ele trabalha em duas frentes. Primeiro, molda o comportamento. Vai conduzindo pra um perfil mais contido, mais discreto, mais tradicional. Como se tivesse uma referência muito clara na cabeça. Depois ele ajusta a aparência para encaixar em outra referência.” Olhei diretamente para ele.
“Duas referências?”
“Sim.” Ele assentiu. “Porque uma coisa não bate com a outra. O comportamento que ele tenta impor não corresponde à aparência que ele busca. Com todo respeito, chefe… sua esposa não apresenta o tipo de comportamento que ele tenta moldar nessas mulheres.” Aquilo era verdade. E, ao mesmo tempo dizia mais do que parecia.
As poucas interações com Liam Hawthorne vieram à memória com facilidade. As frases sutis. As exigências veladas. A forma como ele descrevia o que considerava adequado. E o quanto isso afetava Katniss. Então a outra imagem veio.
A esposa dele.
O encontro rápido em uma das ruas do Doze. A postura retraída. O olhar baixo. O corpo encolhido, como se ocupasse menos espaço do que deveria. Ela não aceitou um aperto de mão.
E bastou um olhar do marido para que ela se recolhesse ainda mais.
Aquilo era condicionado, era fruto do relacionamento deles.
“Então ele está tentando juntar duas coisas,” falei, mais baixo, organizando o pensamento. Desviei o olhar por um instante. Gale estava tentando criar uma relação como a dos pais, mas com alguém parecido fisicamente com a Katniss. “Dos dois, você descobriu alguma coisa? O que aconteceu para eles terminarem?”
“Ainda não, mas continuo investigando. Tem outras coisas que não fazem sentido. Saques de valores muito altos, em momentos específicos e eu ainda não consegui rastrear o destino. O dinheiro simplesmente some depois.”
Antes que eu pudesse aprofundar aquilo, o telefone dele vibrou. Ele pediu licença com um gesto breve e atendeu na mesma hora. A mudança na postura dele foi imediata. O rosto perdeu a cor. Os olhos ficaram fixos em um ponto, como se estivesse tentando acompanhar rápido demais o que estava ouvindo.
E naquele momento, antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, eu soube. Algo estava errado.
“O que foi?” Ele demorou um segundo a responder.
“Chefe… Eu sinto muito.” A pausa que veio depois foi curta, mas pesada o suficiente. “Mas temos um grande problema.”
No segundo seguinte, tudo silenciou e então meu mundo desmoronou como nunca antes.
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