Linha Tênue

39 Capítulo 36: Notícias e Revelações


Notas iniciais
Boa noite! Espero que todos estejam bem. Nada saiu exatamente como planejado (de novo), mas enfim... o capítulo chegou! Bora acompanhar esse casal nessa gravidez.


A sala de espera estava razoavelmente cheia. O ar-condicionado zumbia baixo, misturado ao som distante de passos e vozes abafadas. O cheiro de álcool e desinfetante pairava no ar.

Observei os casais sentados próximos a mim, alguns distraídos com o celular, outros trocando sorrisos nervosos. Mas foi um deles que chamou minha atenção nos últimos minutos.

Ela não aparentava ter mais de vinte e sete anos, ele não mais do que trinta. A barriga dela já era visível, e cada olhar dele se voltava para ela como se o resto do mundo tivesse deixado de existir. Nos poucos minutos em que os observei, era como se ela fosse o sol e ele, alguém que orbitava ao redor, fascinado.

Os sorrisos trocados, o toque instintivo dele sobre o ventre dela, a ternura simples de quem parece inteiro ali, naquele momento. E por um instante, senti inveja. Não da gravidez em si, mas da atenção que ele dava pra ela, da felicidade compartilhada naquele momento.

Olhei para o meu próprio ventre quase que automaticamente, ainda não havia nada visível, mas, de algum modo, eu sabia que algo já acontecia ali, silencioso e frágil. Mas diferente dos outros casais ali eu estava sozinha.

Peguei o celular mais uma vez.

Mais uma mensagem enviada.

Mais uma visualização sem resposta.

Nenhuma surpresa, mesmo tendo falado com ele mais de uma vez o horário da consulta. A verdade era simples desde a descoberta da gravidez, ele parecia cada vez mais distante como se a notícia tivesse criado entre nós um abismo que crescia a cada dia.

Tentei desviar o pensamento para a sacola ao meu lado, dentro dela, dois macacõezinhos que eu havia comprado no shopping a caminho dali. Tons neutros, tecido macio. As últimas semanas tinham sido preenchidas por pequenas compras, era como se não conseguisse ver algo pra bebê e não comprar.

“Everdeen.”

Levantei ajustando a blusa e segurando a sacola antes de seguir sozinha até a sala do médico.

“Boa tarde, como vai?” O médico era um homem de meia-idade, de voz calma e olhos gentis. “Está sozinha hoje?”

“Sim. Acho que o pai ficou preso no trânsito… mas podemos começar.”

“Claro.” Ele sorriu, folheando meu prontuário. “Como tem se sentido? Enjoos, tontura, alguma dor?” Antes que eu respondesse, bateram na porta. E a recepcionista entrou, sorrindo.

“Temos um pai atrasado aqui que quer participar.” Então ele surgiu ofegante, o cabelo desalinhado, o sorriso pronto como de costume.

“Desculpa, amor. O trânsito estava horrível. Obrigado por me deixar entrar, doutor.”

Tentei relevar. Afinal, ele já parecia mais participativo do que no mês anterior, quando descobrimos a gravidez.

O fato de não ter sido planejada o deixara ligeiramente surpreso, pra não dizer insatisfeito.

Mas, aparentemente, ele estava começando a aceitar melhor a ideia de ser pai.

“Sem problema. Vamos seguir, então.” O medico respondeu calmo e recomeçou a consulta. Eu havia ganhado pouco mais de um quilo. “Um bom número para o primeiro trimestre.” O médico comentou e então falamos sobre alimentação, vitaminas, sono. Até que o momento mais aguardado chegou: a ultrassom.

O médico espalhou o gel sobre minha barriga e moveu o transdutor com cuidado até que um pequeno borrão apareceu na tela. Enquanto o médico observava atento.

“Esta tudo bem ? “ A pergunta veio de forma automática, quebrando o silencio que preenchia a sala.

“ Está sim, olhem só... aqui está” Por um instante, o resto do mundo desapareceu. Aquele era o primeiro vislumbre de uma vida que já mudava tudo pra mim. “Tudo parece ótimo. O bebê tem um bom tamanho para a idade gestacional...”

“E o sexo? Já dá pra saber?” Olhei de relance para ele, sem conseguir disfarçar o incômodo com a interrupção.

“Bom, papai...” Mesmo após a interrupção repentina o médico manteve o tom calmo. “Geralmente só partir da 18ª semana da pra ver pela ultrassom com segurança. Ainda é um pouco cedo.”

“Mas se for menino dá pra ver antes, né?” O médico sorriu, paciente.

“Em alguns casos, sim, mas é difícil afirmar agora. Se estiverem curiosos, há o exame de sexagem. É seguro e o resultado sai em poucos dias.” Ele virou-se para mim, animado.

“O que acha? Podemos fazer hoje, não é, doutor?”

“Podemos falar sobre isso depois?” Murmurei, sem desviar os olhos da tela.

“Vamos fazer logo. Meu pai vai querer saber, e eu também. Tenho um jogo na próxima semana e não consigo vir aqui novamente esse mês. Mas você pode me falar o resultado.” Ele deu uma risada breve. “Vai, amor, sei que é um menino. Mas não custa confirmar.”

A impaciência na voz dele cortou o ar como uma lâmina fria. O médico permaneceu em silêncio, apenas aguardando. Respirei fundo.

Aquela frase “Sei que é um menino” ecoou dentro de mim, pesada, como uma sentença. Por que havia 50% de chance de ser menina. Continuei olhando para o monitor. Para aquele pequeno borrão que, para mim, já era tudo. E que, para ele, parecia apenas um imprevisto que possivelmente se tornaria um herdeiro pra sua família.

“Vamos esperar.” Respondi, por fim. “Quero descobrir no momento certo... juntos.”

Ele soltou um suspiro e balançou a cabeça, frustrado, mas não insistiu.

O médico continuou o exame com delicadeza, mostrando, cada parte que estava se formando, e quando ele ligou o som para que ouvíssemos o coração o meu próprio bateu forte, mas assim que olhei para o homem em pé ao meu lado só vi alguém que não havia conseguido o que queria, os braços cruzados no peito olhado a tela como se ele mesmo pudesse determinar se era ou não um menino. Voltei a atenção ao som dos batimentos. Aquele era o som mais bonito que eu já tinha ouvido.

E Gale mal o percebeu.


Embora as últimas semanas tenham sido tranquilas e quase como se, por algum milagre, minha agenda tivesse sofrido uma redução drástica de eventos e compromissos sociais, os dias passaram como um borrão. Eu havia decidido focar em relaxar e não pensar demais, embora o passado estivesse sempre rondando meus pensamentos. Eu queria levar aquela gestação até o fim e, mesmo com todas as incertezas que me aguardavam, tentei ao máximo manter a calma.

Nesse tempo, tive consultas com o nutricionista, o endocrinologista e com o hematologista, seguindo a orientação da doutora Porter. Que acabei escolhendo para acompanhar meu pré natal, de alguma forma, ela me transmitia confiança, além de já conhecer bem o panorama da minha situação, sem contar que era uma ginecologista-obstetra e cirurgiã neunatal muito reconhecida.

Peeta não questionou minhas escolhas, tampouco fez qualquer sugestão contrária. Apenas me acompanhou em silêncio, atento a todas as informações, sempre ao meu lado, e pra minha surpresa ele segurou minha mão durante mais um ultrassom.

E foi o som firme e intenso daquelas batidas de coração que me deram coragem de parar diante de uma loja de bebê no shopping próximo ao hospital, onde havíamos almoçado. Fiquei alguns segundos observando a vitrine, mas a coragem não foi suficiente para dar o passo seguinte.

“Posso ajudá-la?” Uma vendedora perguntou se aproximando com um sorriso. “Está procurando um presente?”

“Não… só achei o conjunto da vitrine bonito, obrigada.”

Me afastei lentamente, comprar a primeira roupinha deveria ser simples, quase natural. Da última vez tinha sido. Mas agora parecia tão difícil. Olhei pra Peeta alguns passos atrás, finalizando uma ligação.

“Preciso voltar para o escritório. Posso deixá-la em casa. Mas, se quiser andar um pouco mais, aviso o Darius para buscá-la.”

“Se puder me levar, agradeço. Não estou no clima de compras hoje.”

Ele me lançou um olhar atento. O simples fato de ter escolhido almoçar no shopping já havia me surpreendido. Quando, depois da consulta ele falou em comer algo, imaginei que escolheria um restaurante no caminho de volta. Mas aquele desvio, ainda que curto, não parecia ter sido por acaso.

“Katniss…” ele começou, mas o celular voltou a tocar. Ele pediu para que aguardasse com um gesto rápido e atendeu o telefone se afastando de novo, continuei andando até parar diante de outra vitrine. As roupinhas minúsculas me chamaram a atenção novamente. Geralmente, eu passava direto, mas agora, por algum motivo, aquelas peças me chamavam atenção quase que involuntariamente.

“Devíamos entrar. Garanto que seu cartão ainda tem limite.” A voz dele soou atrás de mim, leve, quase divertida. Eu o encarei surpresa.

“Oh, não… você precisa voltar ao trabalho.”

“Katniss, já faz três semanas. Você, que no último ano passou mais tempo em shoppings do que eu achei possível, ainda não comprou nada para o bebê.”

“Quem disse que não comprei nada?”

“Você não comprou. Não tem saído de casa, a não ser para as consultas. Você não pode se fechar assim. A doutora Porter mesma recomendou uma rotina o mais próxima do normal possível.”

“Você cancelou meus eventos sociais.”

“Para você descansar um pouco, não para passar os dias trancada em casa.”

“Não estou com ânimo para compras. Se não puder me levar, espero o Darius. Sei que ele não vai demorar.”

“Tudo bem… mas, antes, quero comprar algo. Vem comigo.”

“Peeta…” Protestei, mas ele apenas pegou minha mão com firmeza e entrou comigo na loja.

“Boa tarde!” Ele foi direto em uma das vendedoras, como se já soubesse exatamente o que queria. “Gostaria de ver o macacão da vitrine.”

“É um modelo muito procurado” Ela respondeu animada. “Vai ser presente? Sabe o tamanho?”

“Minha esposa está grávida. Acho que, nesse momento, não temos preferência de tamanho. Vamos precisar de todos os tamanhos no final das contas.” A vendedora sorriu e, em poucos minutos, havia uma pilha de bodies, macacões, mijões e sapatinhos dispostos diante de nós. “Gosto desse. O que você acha?” Era um conjunto neutro, bordado com um ursinho delicado e acompanhado de uma mantinha fina no mesmo tecido. Realmente lindo.

Toquei o tecido macio e um nó se formou na minha garganta. Se Peeta percebeu meus olhos marejados, fingiu não notar. E agradeci silenciosamente por isso.

“É bonito.”

“Então vamos levar este também. E olha o tamanho desse sapatinho…” Sorri olhando o sapatinho minúsculo. Então, deixei a ideia se tornar real mais uma vez na minha mente, aquelas roupas seriam usadas por alguém. Por um serzinho pequeno que estaria comigo em breve.

Peeta me deixou em casa cerca de uma hora e meia depois. E, enquanto observava as roupinhas que havíamos comprado, criei coragem para contar a primeira pessoa sobre a gravidez.

Prim ficou em choque, como se não acreditasse no que eu dizia. Então, como da outra vez, ela me abraçou forte, me parabenizando pelo bebê. Mas havia algo diferente naquele abraço. Não era apenas felicidade. Havia surpresa, ternura e uma sensação de milagre inesperado.

Era o abraço de alguém que sabia, ao menos em parte, o que eu havia enfrentado. Que esteve comigo no momento mais difícil, que foi ombro para as minhas lágrimas, que tentou me passar forças mesmo quando seus próprios olhos se enchiam d’água. Alguém jovem demais na época para compreender tudo… mas que, ainda assim, nunca deixou de estar ao meu lado.

Minha irmã logo começou a fazer planos, imaginando a criança que iria paparicar. Ver Prim tão leve e feliz arrancou de mim um sorriso inevitável e natural.

Quando Peeta chegou, ela correu até ele, animada, dando os parabéns e falando sem parar sobre o futuro. Entre a revelação para minha irmã e a entrada na décima segunda semana, Peeta decidiu que era hora de contar ao clã Mellark.

“Peeta, querido, você pode ver uma casa aqui perto para mim? Desisto de tentar fazer sua irmã ficar comigo no 12 depois que o bebê nascer. Então, se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. E como vou ficar mais tempo por aqui, já que os preparativos do casamento da Delly vão estar a todo vapor, não vale a pena continuar no hotel. Acho que só volto ao 12 no fim do verão.”

“Você não precisa de uma casa, pode ficar aqui mãe.” Annie comentou com calma. “Já falamos que vocês não precisam ficar em hotel. Há quatro casas que adorariam hospedar vocês, não sei por que insiste em não aceitar.”

“Vocês precisam do espaço de vocês. Já falamos sobre isso. Sem contar que, conheço meus filhos, vocês vão me fazer ficar indo de uma casa a outra, como fazem com a Mags.”

“Meus irmãos vão entender que vocês devem ficar aqui comigo, então não haverá disputa dessa vez.” Ela sorriu para os irmãos, como se estivesse se preparando para defender um caso. “O que me leva à questão de que acredito que vocês deveriam começar a ver uma nova governanta para a casa de vocês.”

“Como é que é?” Delly questionou do outro lado da mesa.

“Mags gerenciar as três casas vem funcionando, mas temos que admitir que é uma rotina cansativa.”

“Concordo. Mas por que você acha que nós é que temos que procurar alguém? E não venha com esse papo de que você é a mais velha, que isso não cola.”

“Ora, Delly, eu serei a pessoa com um bebê e vou precisar de apoio e pessoas de confiança ao meu lado, principalmente quando voltar a trabalhar.”

“Todos que trabalham em nossas casas são de confiança, Annie. Contente-se com as semanas que negociamos após o parto e antes do meu casamento. E comece a procurar uma babá… ou leve a pauta de uma creche para a empresa na próxima reunião. Mas não esqueça de uma proposta bem formulada, você sabe como o presidente é exigente.”

“Você não devia estar de licença, não?” Thresh perguntou do nada.

“Ainda faltam sete semanas. A médica disse que, se tudo seguir como está, posso trabalhar até a data prevista para o parto.”

“O que me leva à minha pauta da próxima reunião, uma obstetra na enfermaria da empresa.” Finn brincou, embora se alguém concordasse ele nitidamente aceitaria de bom grado. “Já pensou nas vantagens? Pela sua irmã, ela vai entrar em trabalho de parto na sala dela.”

“Já falamos sobre isso, o hospital é pertinho da empresa. Não tem risco nenhum. Não serei a primeira nem a última mulher a trabalhar até o final da gestação. Muitas mulheres entram em trabalho de parto trabalhando.”

“Sim, mas você não precisa fazer isso.”

“Finnick, já falamos sobre isso...”

“Podemos voltar à minha residência de duas estações?” Haymitch interveio com a naturalidade de quem já conhecia bem o rumo da conversa ou a filha que tinha.

“Três estações, pai.” Peeta corrigiu, atraindo a atenção de todos para ele.

“A ideia é ficar por aqui, até o final do verão, filho. Depois vamos voltar a rotina.”

“Bom acho que vocês vão querer estar por aqui também no outono, quando seu outro neto nascer.”

O silêncio tomou conta da mesa. Effie franziu a testa, confusa, até que, como se somasse dois mais dois, seus olhos se voltaram para mim.

“Você está…?” Confirmei com um aceno de cabeça meio sem jeito, não sabendo o certo o que dizer.

O silêncio se quebrou em segundos, substituído por uma explosão de vozes animadas. Minhas cunhadas sorriram, todos se levantaram em meio a parabéns e abraços, e vi Haymitch bater de leve no ombro do filho com um sorriso orgulhoso.

Minha sogra, porém, foi quem mais me surpreendeu. Effie se levantou de imediato, levando as mãos à boca como se tentasse conter a emoção, mas seus olhos já brilhavam.

“Meu Deus… vocês vão me dar outro neto!” Ela disse atravessando a sala para abraçar Peeta com carinho, como se ele ainda fosse o seu menino, e murmurou os parabéns e algo como “Estou tão orgulhosa de você”.

Em seguida, ela foi até mim. E, ao contrário do abraço educado e formal que imaginei que viria ela me envolveu com força, como se quisesse me proteger do mundo inteiro.

“Parabéns, querida. Um filho é o presente mais lindo que a vida poderia dar. Que esse bebê venha cheio de saúde, e não esqueça que nós estaremos sempre aqui.”

Havia tanta ternura em suas palavras que meu peito se apertou. Nos olhos dela não havia apenas alegria pela notícia, mas também uma promessa silenciosa de apoio que não era familiar pra mim.

Após toda a euforia e felicitações, começaram a nos encher de perguntas sobre a gestação. Para minha surpresa, Peeta tirou da carteira a foto da última ultrassom e mostrou à família. Effie se rendeu às lágrimas discretas. Annie quis saber mais sobre a médica que escolhemos e logo começou uma conversa quase cúmplice comigo, embora eu ainda não tivesse muito o que compartilhar. Lavinia também se juntou a nós, trazendo sua experiência. De forma estranha, me senti bem em meio àquela bagunça que normalmente me parecia tão fora de lugar.

Mas inevitavelmente chegou o momento de contar aos meus pais. E embora eu não estivesse animada, sabia que era preciso.

Optei por fazer isso sozinha e fui até a casa deles na tarde seguinte. O clima não era dos melhores, considerando tudo o que havíamos dito nos últimos tempos. Ainda sim tentei manter o clima o melhor possível, antes de abordar o assunto.

“A ingrata da sua irmã ainda está com aquele garçonzinho?” Como sempre minha mãe disparou do nada em meio ao chá.

“Mãe, achei que tínhamos um trato de não falar da Prim.”

“Claro, claro. Agora tenho que aceitar imposições sobre o que posso falar da minha filha… onde já se viu.”

“Estou grávida.” Soltei de uma vez a notícia. Meu pai abaixou o jornal enquanto minha mãe me olhava com descrença.

“Você não pode. O médico disse que não seria possível, depois de tudo o que aconteceu.”

“Ele estava errado. Estou com doze semanas. A médica explicou que o doutor foi precipitado naquele diagnóstico. Cada médico interpreta os resultados de uma forma. Ela disse que, por eu ser jovem, minha lesão no útero cicatrizou bem. É uma gravidez que exige atenção, mas está dentro do esperado.”

“Eu não acredito… que notícia maravilhosa!” Pela primeira vez em muito tempo, vi os olhos da minha mãe brilharem. Mas não era um brilho simples de alegria. Era algo mais frio, quase calculado. “Ah minha filha… isso muda tudo! Um herdeiro para o Império Mellark! Isso muda absolutamente tudo.”

“Mãe, esse bebê não é do Império Mellark. Esse bebê é meu filho.”

“Sim, e é justamente isso que faz toda a diferença.” Ela insistiu, a voz carregada de entusiasmo que não parecia ter nada a ver comigo. “Você não vê? Aquele contrato ridículo que você assinou já não importa. Você pode até não ficar com nada em caso de divórcio, mas o seu filho sempre será filho dele. Isso significa que Peeta vai ter que manter você. Sempre.”

O contrato voltou à minha mente, junto com a cláusula que menos me preocupei até então, a que dizia que em caso de divórcio, a guarda seria dele. Meu corpo estremeceu. Não, não podia ser. Aquilo tinha sido apenas uma ameaça, uma provocação para me irritar. Ele não faria isso… faria?

“Katniss, você está bem?” A voz do meu pai me trouxe de volta.

“Sim… só um mal-estar.”

“Paula, não estresse a menina.” Ele ergueu os olhos do jornal, mas o tom era de quem avaliava negócios, não de quem falava da filha. “Ela precisa de uma gestação tranquila. Nada que possa pôr em risco o bebê. E como Peeta recebeu a notícia? Imagino que esteja satisfeito. Ele queria ser pai, não é?”

“Ele está feliz”, respondi com sinceridade. De fato, Peeta parecia feliz. “Sim, ele queria.”

“Isso é ótimo.” Meu pai recostou-se, satisfeito. “Já sabem o sexo do bebê? Fizeram o exame de sexagem?”

“Ainda não. O foco era garantir que o bebê estivesse bem.”

“Claro… mas vão fazer, não é?” Minha mãe se apressou em perguntar.

“Não sei mãe.”

“ Bom talvez fosse melhor manter a surpresa. Se for menina, a notícia chega junto com o bebê. Isso ameniza um pouco…” Ela deixou a frase no ar, mas o que queria dizer era óbvio, amenizaria a decepção.

“Será um menino, Paula. Tenho certeza.” A convicção do meu pai soou quase como uma ordem, mas não me surpreendeu, ele sempre pensava em um menino. “Não pode ser diferente. Essa gravidez é um sinal. Mesmo que as irmãs dele tenham filhos homens, só o filho dele vai carregar o sobrenome Mellark. E isso… isso muda tudo.”

“Bom, as pessoas usam o sobrenome da mãe hoje em dia. Muitas mulheres mantêm o sobrenome de solteira após o casamento. Katniss, por exemplo, pegou o sobrenome do marido, mas continua uma Everdeen.”

“Mas isso não conta. Para a sociedade, o que prevalece é o sobrenome de casada.”

Eles falavam como se eu não estivesse ali. Como se o bebê que eu carregava não fosse o neto deles, mas um troféu, uma garantia, um investimento a render.

E foi impossível não comparar. Na noite anterior houve abraços, lágrimas, euforia. Houve parabéns sussurrados entre risos e mãos que me envolveram com cuidado, como se quisessem proteger a mim e ao bebê. Ali, com meus pais, não. Não houve abraço. Não houve parabéns. Nem sequer um gesto simples de carinho. Apenas cálculos, previsões, especulações sobre o futuro. Para eles, meu filho não era um neto a ser amado e mimado. Era um “herdeiro”.

Meu peito apertou. Segurei o ar por alguns segundos, tentando não demonstrar. Não daria a eles a satisfação de me ver abalada. Em silêncio, repeti para mim mesma que, para mim, não importava. Menino ou menina, esse bebê era um milagre e eu faria de tudo por ele.

Embora dizer que minha sogra nunca havia me ligado fosse uma mentira afinal, nesse quase um ano de casamento com Peeta, ela às vezes ligava para confirmar algum evento ou apenas saber se eu estava bem, como fez quando descobriu minha anemia meses atrás , essas ligações não eram frequentes. Sempre desconfiei que ela falava mais com Prim do que comigo, no fundo, minha irmã já era quase uma Mellark honorária.

Entretanto, nas duas semanas seguintes ao anúncio da gravidez, Effie passou a me procurar todos os dias, fosse por telefone ou por mensagens. Ela parecia realmente interessada em saber como eu estava, se estava me alimentando bem, fazia sugestões de alimentos, queria detalhes sobre os enjoos e sobre a data da próxima consulta. Até apareceu em casa, numa tarde em que Peeta estava trabalhando, o que, sem dúvida, foi a maior surpresa até então.

“Uau… que lindo, obrigada.”

De fato, o presente era delicado e de excelente gosto: algumas roupinhas em tons pastéis, alguns brinquedinhos e sapatinhos minúsculos. Aqueles eram os primeiros presentes que o bebê ganhava, além do que havíamos comprado alguns dias antes. Observei minha sogra sorrir, satisfeita.

“Confesso que agora não consigo mais passar por lojas de bebê sem comprar tudo em dobro. Com dois netos a caminho, minha mente parece inteiramente voltada para roupinhas e decoração é mais forte do que eu.” Sorri de volta, sincera. Nos últimos meses, o que mais se via eram os Mellark comprando presentes para o bebê da Annie. Entretanto, eu não esperava o mesmo para o meu filho, não com o tipo de relação que tinha com a família de Peeta. “O que me leva à próxima questão…” Ela se inclinou levemente para frente, animada. “Vocês já decidiram qual será o quarto do bebê?”

“Ainda não… mas estou pensando naquele que fica ao lado do nosso.”

“Acho uma excelente escolha. Confesso que, quando Peeta estava construindo a casa, imaginei aquele cômodo justamente para isso. É amplo, arejado, com uma bela vista e fica pertinho de vocês, o que faz toda a diferença na infância.” Ela fez uma breve pausa e completou com certo receio na voz. “Aliás, se me permite um conselho, o mesmo que dei à Annie alias, montem o quarto do bebê desde já, para que ele tenha seu próprio espaço. Mas, nos primeiros meses, ajeite também um cantinho no seu quarto, com um berço menor, para as noites.”

“A senhora acha mesmo viável o bebê dormir conosco? Li alguns artigos dizendo para evitar…”

“Ah, hoje em dia há tantos artigos e opiniões sobre maternidade…” Ela gesticulou levemente, com um sorriso compreensivo. “Na prática, cada mãe descobre o que funciona para si. Ainda assim, acho importante que você e Peeta mantenham o espaço de vocês e o bebê, o dele. Mas nos primeiros meses, querida, ele vai acordar várias vezes à noite para mamar, e você vai estar exausta. Acredite às quatro da manhã, depois de já ter levantado algumas vezes, atravessar o corredor até o outro cômodo pode parecer um percurso muito mais longo do que realmente é. Sem contar que, estando no mesmo quarto, você terá a ajuda do Peeta mais facilmente. Ele pode pegá-lo para você, colocar para arrotar, essas coisas. Com o tempo, quando as mamadas diminuírem, aí sim vocês o colocam para dormir no quartinho dele.”

Parecia fazer sentido. Olhando para ela, com toda a serenidade de quem já havia passado pela maternidade, Effie transmitia a experiência dos bons e dos maus momentos de lidar com um bebê.

“Outra coisa, acho bom começarem a procurar um arquiteto para o projeto. Assim tudo fica do jeitinho que você imagina. Não espere pelo Peeta… homens, em geral, não se ligam tanto nessa parte. E o meu filho, com a paciência que tem, provavelmente só pensaria nisso no último minuto, quando todo mundo já estivesse correndo para entregar.” Ela tomou um gole do chá antes de continuar. “Mas tenho certeza de que ele vai participar ativamente assim que você tocar no assunto. Peeta gosta de se envolver nos detalhes.”

“Vou falar com ele sobre isso, pode deixar.”

“Katniss…” percebi que a voz dela ficou mais suave. “Sei que tem sua mãe por perto. Longe de mim tomar o lugar dela, e é natural que você se sinta mais à vontade com ela, mas quero que saiba que estou aqui por vocês. Adoraria participar de todos esses momentos, se me permitir, o projeto do quarto, as comprinhas… e, depois do nascimento, se precisar de mim, estarei por perto. Peeta estava mais do que certo em falar que vou ficar mais tempo na Capital, quero muito estar aqui no nascimento e nas primeiras semanas.”

Senti as lágrimas se formarem involuntariamente. Minha mãe não tinha exatamente esse perfil. E eu não esperava que ela estivesse ao meu lado para esses momentos.

“Desculpe, não quis deixá-la assim” Effie sorriu de leve tocando levemente minha mão. “É que… com Annie, não precisei dizer nada, ela sempre soube que podia contar comigo. Ser a avó materna deixa subentendido as coisas, a avó paterna por outro lado, sinto como se fosse bom dizer, pois quero que você saiba que quero estar ao seu lado. Não começamos da melhor forma, mas somos família. Agora, ainda mais.”

“Não… eu que peço desculpas. Não sei o que está acontecendo comigo.” De fato, nas últimas semanas, tudo parecia me fazer lacrimejar isso quando não acabava chorando de vez.

“São os hormônios, querida.” Effie riu baixinho. “Lembro que, na gestação da Annie, fiquei tão emotiva que chorava por qualquer coisa. Uma vez chorei vendo um comercial de carro para família.” Ela voltou a rir, e eu acabei rindo junto. “A família parecia tão feliz por ter o carro para viajar, para o dia a dia… aquilo me destruiu”

“E durou a gestação toda?”

“Não, foi melhorando aos poucos. Já na gravidez da Delly, em vez de chorar, fiquei estressada, principalmente com o Haymitch. O modo como ele respirava me irritava nos primeiros meses.” Rimos novamente. “A única que me trazia paz era Annie. Ironias da vida Delly nasceu superapegada ao pai. Não gosto de admitir, mas ele a acalmava com muito mais facilidade do que eu.” Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha antes de continuar. “Já com Annie, como mãe de primeira viagem, eu queria fazer tudo. Estava sempre em alerta. Haymitch também trabalhava demais na época. O segundo filho traz um pouco mais de leveza à maternidade. As experiências, os erros e acertos do primeiro acabam servindo de guia… embora cada filho seja diferente é como um novo desafio. Peeta, por exemplo… quando chegou, já com seis anos. Foi um desafio tão misterioso pra mim quanto quando trouxe Annie pra casa, sem ter ideia do que significava ser mãe. Ele fazia de tudo para parecer independente, como se não precisasse de mim pra nada. Levou um tempo para entender que era parte da família e que eu queria cuidar dele. Também foi um processo de adaptação. Totalmente novo, mesmo ele não sendo um bebê.”

“Bom, pelo menos na adoção não havia os hormônios.”

“Ah, mas a espera muitas vezes é pior do que os hormônios.” Effie sorriu de leve, mas o olhar se tornou distante. “Fiquei tão emotiva quanto na gravidez da Annie, tão estressada quanto na da Delly… e ainda fui tomada por um medo terrível das coisas darem errado, de ele ser adotado por outra família, de não nos aceitarem. Cada papel que eu preenchia era uma incerteza. A visita da assistente social me deixava pensando se eu estava fazendo algo errado, se podia perder tudo a qualquer momento.” Ela respirou fundo antes de continuar. “Não tem como explicar… como eu podia amar e, ao mesmo tempo, temer perder um serzinho que eu tinha visto por tão pouco tempo. Não saber como ele estava era agoniante, toda noite eu me via pensando como ele estava, se estava comendo direito, tomando os remédios, se estava com dor. Cada visita em que precisei deixá-lo para trás me destruiu um pouco, sabe?” O olhar dela se perdeu, distante, como se revisitasse nitidamente aquela época. “Mas então deu certo… e ele veio pra mim. E só isso importava.”

Durante os minutos seguintes, me vi apenas ouvindo, as histórias, as lembranças, as pequenas “artes” que os três haviam vivido. Não havia dúvida. Effie amava os filhos de um jeito diferente do que minha mãe demonstrava. Não havia o que questionar.

Os dias seguintes foram, sem sombra de dúvida, movimentados, mas tranquilos. Para minha surpresa, não precisei tocar no assunto do quarto do bebê já que Peeta o fez por conta própria dois dias depois da visita de Effie. E essa conversa nos levou a um ponto ainda não discutido: o sexo do bebê.

Definir um tema seria muito mais fácil sabendo se seria um menino ou uma menina. E, embora eu ainda não me sentisse totalmente pronta para saber, também não havia argumento convincente para adiar. Assim, fazer o exame de sexagem e reunir as famílias naquela tarde de sábado acabou sendo inevitável.

Flores em tons neutros, uma mesa discreta com doces e um bolo pequeno. Balões brancos e dourados enfeitavam o jardim, e no centro, uma grande caixa decorada com fita de cetim guardava o segredo que todos esperavam.

“Peeta está se fazendo de calmo, mas a ansiedade está estampada no rosto dele.” Haymitch comentou, divertido.

“Ah, me lembro do dia em que Annie e eu descobrimos o sexo do bebê. O coração parecia que ia sair pela boca.”

“Alex, você bem que podia me contar o que é, né, amigão? Talvez dar um sinal, só pra saber se eu deveria mudar minha aposta.”

“Sou o guardião do segredo, tio Thesh. Não posso falar nada.”

“Não perca seu tempo, Thesh.” Lavinia comentou com um sorriso. “Ele está levando a missão a sério. Não me deixou ajudar em nada. Fui só a motorista, esperando do lado de fora da loja. Não sei nem onde ele guardou o envelope que o medico entregou.”

Quando Peeta pediu para Alex ser o guardião do segredo, não me pareceu nada demais afinal, alguém teria que ficar responsável. Mas agora vendo ele tão animado com a ideia entendi o motivo. Peeta queria incluir o afilhado o máximo possível, garantir que o mais novo soubesse que as coisas não mudariam entre eles. Nos últimos anos, Alex tinha sido a única criança em meio àquela família e agora dois bebês estavam chegando um deles filho do que parecia o mais próximo da figura paterna dele.

“Com licença.” Pedi, levantando discretamente.

“Está tudo bem?” Peeta perguntou, atento. Assenti e segui em direção à casa.

Ironicamente, o jardim florido parecia tão sufocante quanto o interior da casa. Talvez fosse a ansiedade, talvez a caixa branca e enorme no centro da decoração, uma simples caixa que, ainda assim, parecia carregar peso demais.

“Katniss, querida, está tudo bem?”

Minha mãe surgiu à porta. E tentei sorrir.

Embora tanto ela quanto meu pai estivessem ignorando Prim, a presença dos dois não era exatamente uma surpresa. Afinal, a imagem da família perfeita precisava ser mantida.

“Sei que geralmente os pais têm algum palpite mas que evitam falar.” Ela começou, ajeitando o colar. “ Aposto que você tem um, não quer dividir comigo?”

“Na verdade, não tenho, mãe.” Diferente da maioria, eu não tinha um palpite, ou sensação tão pouco um desejo disfarçado de palpite.

Claro, ainda ouvia ecoar a voz do meu pai insistindo que “um menino seria o ideal para herdar o nome da empresa”. Mas, sinceramente, minha única prioridade era ter um bebê saudável.

“E Peeta? O que ele acha que é?”

“Não sei, mãe.”

“Como não sabe? Vocês não falaram sobre isso?”

“Não, o foco é ter um bebê saudável.” Vi ela suspirar impaciente.

“Ora, Katniss, isso é o foco de qualquer mãe. Mas um palpite é comum! Aposto que ele está torcendo por um menino. E, agora que sabemos que você pode engravidar, vocês podem tentar de novo caso seja menina...”

Deixei de ouvir o resto. A ansiedade voltando a me embrulhar o estômago enquanto eu tentava me preparar para qualquer possibilidade, menino ou menina, mas havia uma diferença silenciosa entre as duas. Uma menina talvez fosse mais fácil de manter por perto, mais próxima de mim. Um menino, imaginei, seria paparicado por Peeta, como Alex sempre fora. Já uma filha… talvez o fizesse hesitar menos em me deixar ficar com ela, talvez a possibilidade dele ignorar aquela cláusula ridícula fosse maior.

“Você está me ouvindo, Katniss?”

“Desculpa, não entendi a última parte, mãe.”

Antes que ela respondesse, Marian apareceu à porta, tudo estava pronto. Voltamos ao jardim, onde todos se reuniram diante da grande caixa branca.

“Alguém vai mudar o palpite?” Thesh perguntou empolgado. “Alex, não vai mesmo me dar um sinalzinho pra ajudar?”

“Nem pensar!” Alex cruzou os braços, rindo.

“Então fechamos as apostas. A maioria está apostando em um menino. Será que teremos mais um garoto correndo por aí? Ou será que Peeta não vai mais dormir tranquilo pensando em proteger uma princesinha?”

“Menino, com certeza” Meu pai falou alto com uma certeza e determinação que sabia ser verdadeira.

“Esse é o palpite da maioria pelo visto, temos poucas apostas de que será menina.” Thresh conferiu as anotações no celular. “Só Effie, Prim e Haymitch estão apostando numa princesa. Dona Effie quer variedade na nova geração fala a verdade, assim pode comprar a loja de bebês inteira em todas as cores.”

“Lembrando que é palpite, não desejo” Effie disse com tranquilidade. “Menino ou menina, não importa.”

“Os pais não vão dar palpite mesmo?” Delly questionou. “Peeta sempre acerta!”

“Acertou das duas últimas vezes”, confirmou Annie. “Em dezembro, no nosso chá, ele foi um dos poucos que apostou em menino.”

“Dessa vez, sem palpites.” Peeta respondeu sorrindo. “Vamos acabar com a curiosidade logo.” Ficamos lado a lado diante da caixa.

Meu coração batia rápido, como se tentasse acompanhar o som abafado das risadas ao redor. Então senti os dedos de Peeta se entrelaçarem aos meus, um gesto simples, mas firme o bastante para me fazer respirar fundo. “Pronta?” A voz baixa, com aquela calma típica.

Assenti, incapaz de falar. Seguramos juntos as pontas do laço e a contagem começou.

Dez... nove... oito...

Meu peito parecia pequeno demais para tanta coisa acontecendo.

Sete... seis... cinco...

Senti o vento bater nos fios soltos do meu cabelo.

Três... dois... um...

Puxamos o laço ao mesmo tempo.

A tampa se abriu e, por um segundo, todos pareceram prender a respiração então balões cor-de-rosa subiram em direção ao céu, dando cor ao jardim no mesmo instante que pude ouvir os aplausos e gritos.

Era uma menina.

Por um instante, não consegui me mover. Embora estivesse feliz parte de mim não queria olhar para o loiro, não queria ver a decepção que conhecia bem, aquela que acompanhou meu pai por anos e anos e que provavelmente acompanharia minha filha.

Mas antes que eu reunisse coragem para olhar, senti os braços dele me envolverem em um abraço apertado, quente, quase protetor. Ele me ergueu ligeiramente do chão, e só então rindo contra meu cabelo, murmurou.

“Uma menina” A voz dele me deu coragem de erguer o olhar , então eu vi, olhos marejados, sorriso largo, o rosto inteiro tomado por um brilho que eu não esperava. “A nossa menina. Nossa princesa.”

Aquela simples palavra, nossa, me trouxe um calor no peito , uma sensação que não sentia há um tempo. Olhei para os demais e pude ver a agitação de todos.

Effie era pura alegria, Prim pulava dizendo que já sabia com o celular na mão provavelmente falando com William enquanto Haymitch brindava com quem estivesse por perto. Um a um eles foram se aproximando para nos dar os parabéns. Meus pais foram os últimos.

Meu pai tentou sorrir, mas o sorriso morreu nos olhos e reconheci o mesmo olhar que carregava com frequência decepção e frustração na mesma medida.

“Não é possível, eu não acerto uma!” Thresh reclamou, arrancando risadas da família.

“Ah, aproveitando, mãe… o envelope que te dei mais cedo, por favor.” Peeta pediu. Effie entregou o envelope branco, lacrado com cuidado e ele o abriu devagar, o sorriso já se formando antes mesmo de mostrar o conteúdo. “Três a zero” Disse, rindo. “Acho que posso me considerar o vidente oficial da família.”

“Não vai me dizer que seu palpite era uma menina?” Finn perguntou divertido.

“Você acha mesmo que eu erraria justo na vez da minha filha?” Ele ergueu o papel, e lá estava escrito, em sua caligrafia firme: menina. “Não era palpite eu tinha certeza.”

“E de onde veio essa certeza, recebeu uma copia do exame?”

“Não, eu sonhei com ela.”

O olhar dele voltou para mim, e naquele momento em meio a balões cor-de-rosa, às risadas eu percebi que nada nele lembrava decepção. Não havia atuação ali ele estava genuinamente feliz.





Notas finais
E dessa vez não teve suspense, o sexo do bebê foi revelado, e é uma menina. Temos um pai totalmente feliz e babão? Sim. Porque não teve uma gotinha de atuação do loiro nesse capítulo. Espero que tenham gostado. Aproveito também para agradecer pelas imagens lindas que a Bel fez para o capítulo, eu amei. Aliás, falando na Bel, vocês já conhecem as fanfics dela? Quem ainda não viu, vale muito a pena conferir: enredos incríveis, imagens maravilhosas e, o melhor, atualizações bem mais frequentes do que as minhas, o que eu sei que todo leitor ama. Vou deixar o perfil dela, pra quem não conhece conhecer. https://plusfiction.com/user/558253/books Desejo uma ótima semana a todos. Me contem o que acharam do capítulo, especialmente o que acharam de ter cenas do passado. Afinal, ainda temos muito o que descobrir, não é? Beijos.