Linha Tênue
40 Capitulo 37: Aprendendo a Confiar
Notas iniciais

O clima no estádio era de pura euforia. Observei a quadra, onde a mascote dos Falcões fazia sua apresentação animando a torcida antes do último tempo começar. O placar estava acirrado, típico das semifinais da liga profissional.
Sentado ao meu lado, ele parecia ligeiramente ansioso afinal seu time de coração estava ganhando por uma diferença mínima, que poderia mudar muito rápido. Sempre que vinha à Capital em temporada, ele precisava assistir a um jogo no estádio, mas quando conseguia vir a um jogo dos Falcões ele pirava. No fundo, eu sabia que o que ele realmente queria era estar ali, naquela quadra, como jogador profissional da primeira divisão, no time de coração. Na verdade, sabia que, em pensamento, ele se via naquele lugar. Entretanto, aquele sonho, embora ainda vivo, estava cada vez mais distante da realidade.
Ele já não era tão novo quanto a maioria dos jogadores que começavam na liga. Ainda assim, eu jamais diria isso em voz alta. Era algo que ele precisava perceber sozinho ou, talvez, algo que precisasse aceitar com o tempo. A realidade de que sua carreira provavelmente se encerraria na terceira divisão, onde seu atual contrato não tinha garantia de ser renovado.
Ainda assim, mesmo não sendo um jogo dos Tordo eu apreciava aquelas idas ao estádio com ele, especialmente agora, quando quase não concordávamos em nada e as discussões pareciam mais frequentes do que os bons momentos.
A arquibancada vibrava. Duas fileiras abaixo, um homem se sentou animado com um balde de petiscos cobertos de molho e, só de olhar, senti a boca encher d’água.
“Quero nachos.”
“O quê?” Ele perguntou, sem tirar os olhos da quadra, embora os jogadores ainda estivessem no vestiário.
“Nachos, Gale. Quero nachos.”
“Você nem gosta disso, vive dizendo que é gorduroso, que faz mal.”
“Mas eu quero. Só quero, deu vontade, me parece bom e gostoso, não sei explicar.” E de fato não sabia, ainda sim parecia que era a única coisa que queria naquele momento.
“Katniss, você não vai gostar. E o jogo já vai voltar, já já essa vontade passa.”
“Deixa, eu vou lá pegar.” Levantei antes que ele pudesse insistir.
Segui pelos corredores até a lanchonete. O lugar estava movimentado, mas não cheio. Nunca tinha parado ali antes, mesmo frequentando estádios com certa frequência.
O cheiro de comida se misturava ao som das conversas e risadas. Havia uma variedade de comida ali cachorro-quente, churros, pipoca… Mas o que eu queria mesmo eram os triângulos ligeiramente apimentados com molho. Peguei um combo que vinha com refrigerante e o cheiro me pareceu irresistível.
Quando voltei para o assento, o jogo já havia recomeçado. O olhar dele foi direto para o pacote nas minhas mãos.
“Não acredito que você vai comer isso.”
“Vou. Quer um pouco?”
“Não. Minha dieta não permite essas coisas, você sabe. Preciso estar em forma haverá olheiros no próximo jogo.” Dei os ombros e voltei minha atenção à comida. O primeiro pedaço era crocante, com um tempero apimentado e surpreendentemente bom, principalmente quando misturado no molho que havia escolhido.
“Isso é maravilhoso. Como eu nunca comi antes? Será que os outros sabores de molho são tão bons assim? Acho que vou levar um para casa depois. Podíamos comer vendo TV”.
“Amor, esse já é o suficiente, né? Não faz bem pra você.” O modo como ele falou soou como uma crítica velada.
“Por quê?”
“Vamos ver o jogo, é o último tempo.”
Assenti, sem responder dividido minha atenção entre o jogo e meu petisco recém descoberto. Assim que o jogo terminou, levantei e segui em direção à lanchonete novamente. Queria mais um combo, dessa vez para viagem. A ideia de ver um filme qualquer no final da noite comendo molhos variados com nachos era tentadora demais para deixar passar.
“Você vai comprar nachos pra levar mesmo?” Gale perguntou, incrédulo, me alcançando no corredor.
“Vou, sim.”
“Amor, você já comeu. Tem um cheiro forte… é pesado. Sem contar que faz mal. Achei que fôssemos jantar depois do jogo.”
“Podemos jantar. Aquele restaurante a duas ruas do meu prédio parece muito bom.”
“Você ainda quer jantar? Você comeu um balde disso.”
“Qual o problema, Gale?”
“Só acho que devia cuidar melhor da sua saúde. Você nem gosta desse tipo de coisa. Percebe que já engordou uns dois quilos desde a última vez que eu te vi? E isso não tem nem um mês.”
“Estou grávida, Gale. Obviamente que engordei.”
“Tá, mas… tanto assim?”
“‘Tanto assim’? Você estava lá e o médico disse que estou com um bom peso pro tempo de gestação.” Ele ergueu as mãos, num gesto que misturava rendição e deboche.
“Ok, seu corpo, suas regras. Não foi isso que você disse?”
As palavras dele me atravessaram como um soco no estômago. Usar uma frase que eu havia dito semanas antes, durante uma das nossas piores discussões quando ele deixou claro que não estava pronto pra ser pai e que ainda era cedo, que haviam opções para lidar com tudo.
Na época, eu disse aquilo tentando defender o pouco de autonomia que ainda restava em mim. Queria dizer que aquele tipo de decisão só cabia a mim e não a ele. Que seguiria com a gravidez independente dele participar ou não.
E agora, ouvi-la da boca dele, lançada com ironia, foi cruel demais, magoou demais. Demorei um segundo para respirar. A garganta ardia e toda e qualquer vontade de comer qualquer coisa que fosse acabou ali.
“Quer saber?” Tentei soar firme, mas a voz saiu ligeiramente trêmula. “Vai jantar sozinho, e procura um hotel pra ficar essa noite. Eu vou pegar um táxi e vou pra casa.”
Ele ainda tentou dizer algo, mas eu já estava de costas, caminhando sem olhar para trás.
O barulho do público saindo, os gritos, e a comemoração, tudo pareceu se apagar.
Só o que eu ouvia era o eco das minhas próprias palavras, misturado ao som abafado da torcida comemorando uma vaga na final e à certeza de que, de alguma forma mais uma parte de nós havia se quebrado.
Acordei com o som da chuva batendo contra o vidro da janela, algo pouco comum para a primavera, ainda sim olhei o relógio que marcava 2h45. Inesperadamente, senti a barriga roncar. O que era estranho, considerando que eu havia jantado normalmente naquela noite. Virei o rosto e encontrei o loiro dormindo ao meu lado, o sono leve e tranquilo.
Tentei virar para o outro lado, fechar os olhos e voltar a dormir, mas era inútil. Não sabia dizer se era fome ou apenas insônia, mas aparentemente seria uma luta perdida. Deixei meus pensamentos vagarem até que, de repente, a ideia de comer macarronada me pareceu irresistível.
Desisti de continuar deitada ouvindo a chuva e pensando em tipos de molho que podia compor uma boa macarronada e levantei devagar, tentando não fazer barulho. Peguei meu robe de seda verde escuro, que fazia conjunto com a minha camisola e desci as escadas com cautela.
A casa estava silenciosa, mergulhada na penumbra. Acendi parte das luzes da cozinha e fiquei ali, parada por um instante, observando os armários. Nada parecia me chamar a atenção. Obviamente, não havia nenhum macarrão pronto talvez eu pudesse pedir no almoço, mas algo me dizia que eu não conseguiria dormir se não matasse aquele desejo antes.
Revirei o armário e encontrei um pacote de macarrão instantâneo, provavelmente obra da minha irmã já que não conseguia imaginar Peeta comendo algo assim. Para minha sorte, havia também um pote de molho de tomate pronto. Não era exatamente o que eu imaginava, mas era o mais próximo de uma macarronada que conseguiria às três da manhã.
Li as instruções da embalagem e coloquei a água para ferver no fogão. O barulho suave da chuva preenchia o silêncio da cozinha enquanto me aventurava pelo território desconhecido.
“Katniss, o que você está fazendo?” Virei rapidamente. Peeta estava na porta, os cabelos bagunçados de pijama e o roupão aberto.
“Nada... só vim comer alguma coisa.”
“Alguma coisa?” Ele se aproximou, franzindo o cenho ao olhar a panela. “É isso que você chama de comida?”
“Estava pensando em macarrão... não consegui dormir.”
“E por que você não me chamou?”
“Você estava dormindo. Eu só ia comer e voltar pra cama. Tá tudo bem. Pode voltar a dormir.”
“Você realmente está com vontade de comer isso?” Ele arqueou uma sobrancelha, olhando o conteúdo da panela como se fosse uma ofensa culinária. E embora não parecesse bonito estava esperançosa de que bastaria naquele momento ao menos o suficiente para voltar a dormir.
“Vou comer só um pouquinho, não se preocupe. Sei que é calórico.” Eu sabia o quanto aquilo engordava e conhecia bem o que viria afinal, a imagem da esposa perfeita parecia sempre pairar no ar.
“Não estou preocupado com a quantidade que você vai comer, mas… se é isso que você quer comer, não parece nada apetitoso.”
“É macarrão, Peeta.”
“Não, não é.” Ele se inclinou para olhar mais de perto, rindo. “Isso aí mal dá pra chamar de macarrão instantâneo. Você colocou o tempero, pelo menos?” Cruzei os braços, fingindo indiferença. Não daria a ele o prazer de ouvir que eu havia esquecido de acrescentar o saquinho que vinha na embalagem.
“É o melhor que consegui a essa hora. Se puder me deixar comer, agradeço.”
“Nem pensar. Minha filha não pode comer isso pensando que é macarrão.” Ele pegou a panela das minhas mãos e a afastou. “Me dá uns minutos. Senta ali e deixa que eu resolvo isso.”
Ele tirou o roupão e colocou em uma das cadeiras antes de seguir até a geladeira, empurrando potes e separando ingredientes com a naturalidade de quem já sabia exatamente o que estava fazendo.
“Você sabe fazer macarrão, por acaso?”
“Claro.” Ele sorriu sem olhar pra mim. “Sempre tem massa fresca aqui em casa. E, quanto ao molho... Pra sua sorte é uma das minhas especialidades.”
Ergui a sobrancelha, duvidando, mas a possibilidade de ele fazer algo pior que o meu parecia pequena. Então apenas fiquei sentada na bancada, observando. Não demorou para o som do azeite estalando preencher o ambiente, e o perfume de alho e manjericão começar a encher o ar. Mas minha atenção estava nele, na maneira calma como se movia, como se cozinhar fosse a coisa mais natural do mundo.
“Não sabia que você cozinhava.” Comentei, surpresa, enquanto ele cortava os tomates com naturalidade e rapidez.
“Minha mãe diz que todo mundo deve saber o básico pra não passar fome… ou viver de congelados.” Ele deu um leve sorriso. “Então, dona Effie não ensinou só a Annie e a Delly a se virarem na cozinha. Não sou um chefe, mas me viro bem o suficiente na cozinha.”
“Tá parecendo mais do que ‘se virar’.” Murmurei, mas vi que ele ouviu pelo sorriso que deu.
Senti vontade de rir também. A cena toda era tão improvável, nós dois ali, de pijama, no meio da madrugada, com o som da chuva batendo nas janelas e o cheiro de macarrão invadindo a cozinha.
“Agora fiquei curioso.” Ele disse, mexendo o molho com calma. “Se você não sabe cozinhar e morava sozinha, como é que se alimentava?”
“Delivery e saladas.” Respondi, sem hesitar. Ele me olhou de lado, com aquele ar atento, mas não parecia julgamento apenas curiosidade, então continuei. “Sei fazer diversas saladas, e morava num lugar cercado de bons restaurantes o que facilitava muito.”
“Quando a Mags disse que você não levava jeito na cozinha, achei que estava queimando tudo de propósito.” Ri baixinho. De fato, eu não havia me esforçado nada pra aprender a cozinhar, mas de fato não tinha a menor noção de cozinha.
“Diferente da sua mãe, Paula Everdeen acredita em contratar cozinheira... e em frequentar bons restaurantes. Acredito que minha mãe nunca ligou um fogão na vida.”
“Nunca?” Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.
“Nunca. Pelo menos não que eu me lembre.” E era verdade. Das poucas lembranças que eu tinha da infância, nenhuma incluía minha mãe perto da cozinha.
“Tenho muitas memórias da minha mãe cozinhando.” Ele comentou, ainda mexendo a panela, o tom leve na voz. “Lembro dela fazendo biscoitos, da ficar sentado na bancada fazendo lição de casa enquanto ela preparava o jantar. E lembro do meu pai... da bagunça que era quando ele tentava fazer o café da manhã de aniversário dela. Sempre queimava alguma coisa, com três crianças querendo ajudar. Ou das vezes que ela não estava em casa e ele arriscava fazer o jantar.”
“É difícil imaginar o Haymitch cuidando de crianças sem a Effie por perto.”
“Ah, mas ele fez bastante isso. Meu pai sempre dizia que minha mãe precisava de um tempo pra ela... e que ele precisava de tempo com a gente. Isso nos rendeu domingos memoráveis.” Assenti, tentando imaginar algo assim.
Mas era tão distante da minha realidade que soava quase estranho, um pai presente, amoroso, que sabia o que fazer sem precisar de ninguém pra supervisionar. Na minha casa, sempre havia alguém contratado para cuidar da gente quando minha mãe não estava, até mesmo quando ela estava tinha gente ajudando.
Peeta desligou o fogo e colocou o molho no prato com a massa antes de virar com o prato nas mãos.
“Aqui está. Uma macarronada à la Mellark.” Ele colocou o prato à minha frente com um pequeno gesto de orgulho.
O molho ainda borbulhava levemente, e o cheiro era simplesmente irresistível. Não se comparava em nada à minha tentativa frustrada e só de olhar, senti a boca salivar.
“Obrigada.” Levei o garfo à boca e, assim que provei, a delicada mistura de sabores me surpreendeu. Talvez fosse a vontade repentina, ou o momento, mas era realmente maravilhoso. “Isso é bom.” Falei, e ele sorriu, sentando-se ao meu lado na bancada. “Você quer?” Ofereci, mas ele negou com a cabeça.
“Que bom que gostou.” Ficamos em silêncio por um tempo, e embora minha mente dissesse que já era o suficiente, me vi comendo tudo. No fundo, aquilo valia qualquer julgamento que viesse depois. Quando ergui os olhos para encará-lo, esperando um comentário afiado, ele apenas perguntou. “Quer mais?”
Os olhos dele, mesmo cansados, não tinham nenhum traço de crítica. Só uma curiosidade em meio a um olhar calmo e genuíno. Apenas assenti, e o observei encher o prato mais uma vez.
Dessa vez, ele não se sentou. Apenas começou a organizar a cozinha, mesmo sem ter feito muita bagunça.
“Obrigada… por fazer isso.”
“Não precisa agradecer.” Ele recolheu meu prato e colocou na lava-louças. Subimos em silêncio pela casa escura. Minutos depois quando já estávamos deitados, a chuva ainda caindo lá fora, ouvi sua voz baixa. “Katniss?”
“Hm?”
“Da próxima vez que você acordar com vontade de comer alguma coisa… se sentir algum desejo mesmo que durante o dia...” Ele fez uma pausa curta, o tom suave, quase sonolento. “Me chama. Eu vou fazer o meu melhor para conseguir o que precisa. Não quero que a bebê fique com fome, ou com vontade de nada ok?” Demorei um instante para responder, aquilo me pegou de surpresa, principalmente por parecer tão sincero.
“Tá bom.”
“Ótimas notícias.” A voz da doutora Porter soou leve. “Os resultados dos seus exames estão excelentes. Podemos considerar que você não tem mais anemia, e os níveis hormonais estão dentro do esperado. Seu peso está ótimo para dezoito semanas. A bebê está com um bom tamanho e se desenvolvendo muito bem.” Aquelas palavras eram música para os meus ouvidos. Tudo estava correndo bem. A gestação seguia tranquila, saudável e, por alguns segundos, senti o corpo inteiro relaxar. A doutora sorriu enquanto revisava minha ficha no tablet. “Não que eu não goste de ver vocês por aqui, mas acho que podemos estender um pouquinho mais o intervalo até a próxima consulta.”
“Tem certeza, doutora?” Perguntei, um pouco apreensiva. “Os exames não prejudicam a bebê, e eu realmente não me importo de vir.”
“Katniss.” Ela pousou o olhar em mim, com a calma. “Vamos continuar acompanhando, claro, mas com intervalos um pouco maiores. Essa frequência maior de consultas e exames era necessária principalmente no primeiro trimestre, por precaução, devido ao seu histórico. Agora que ultrapassamos essa fase, sua gestação está evoluindo muito bem. Aproveite esse momento, prepare as coisas para a chegada da bebê.” Assenti devagar, mas sabia que ela percebeu o medo nos meus olhos. A lembrança do passado de tudo o que eu havia perdido uma vez ainda pairava silenciosa entre cada consulta, cada exame, cada batimento ouvido no ultrassom. “Não se preocupe.” Ela completou, com um sorriso gentil. “Qualquer coisa, no mínimo sinal de algo diferente, vocês têm meu número. Eu e minha equipe estamos disponíveis a qualquer hora.” Ela fez uma breve pausa antes de acrescentar, num tom leve, quase casual. “Soube que você tem evitado sair de casa.”
Virei o rosto na direção de Peeta, sentado ao meu lado, e bastou um segundo para entender que ele havia conversado com a doutora pelas minhas costas. Ele mantinha o olhar calmo, sem o menor rastro de culpa.
“Não é que eu esteja evitando sair, só tenho preferido uma rotina mais leve. Em casa. Hoje e, dia da pra resolver praticamente tudo sem sair de casa.”
“Está certo querer descansar, você realmente estava no limite. Mas é importante lembrar que você pode e deve manter uma rotina ativa. Caminhar, sair, fazer atividades leves... tudo isso faz bem pra você e pra bebê. Sei que está preocupada, Katniss, mas garanto que não há nada, absolutamente nada, que indique qualquer complicação na sua gestação nesse momento.” Assenti em silêncio, e ela continuou. “Geralmente, não recomendo aulas de Lamaze antes de vinte e oito semanas, mas acredito que, no seu caso, seria bom começar antes. Trabalhar respiração, relaxamento, consciência corporal... conversar com outras futuras mamães pode te ajudar bastante.”
“Lamaze?” Repeti, um pouco incerta. Geralmente, essas aulas envolviam a presença de um acompanhante. Por um instante, pensei em Prim, ela já tinha se oferecido para ir comigo, anos atrás, quando o assunto surgiu.
“Sim, são aulas de preparação para o parto, com técnicas de respiração e alívio da tensão. Ajudam muito na ansiedade também. Temos uma clínica parceira excelente, eles também tem aulas de yoga gestacional. Acho que seria ótimo pra você, principalmente nessa fase.”
“Yoga gestacional?” Peeta se inclinou, interessado. “Parece interessante. Minha irmã fez algumas aulas. Ela também está grávida, na reta final, na verdade.”
“Olha só.” A doutora se animou. “Então sua bebê já vai ter alguém com idade próxima pra brincar.” Ela sorriu, trocando um olhar simpático comigo antes de continuar. “As aulas fortalecem o corpo, aliviam dores lombares e melhoram o sono. Além disso, são um ótimo momento pra se conectar com o bebê. Não apenas a mamãe, se o papai puder participar, é ótimo também.” Olhei para ele, que agora me observava em silêncio, com um pequeno sorriso no rosto.
“Gostei disso. Podemos tentar, se quiser. Acho que vai ser bom pra você… e pra bebê também.” A doutora se levantou, pegando um cartão sobre a mesa.
“Aqui está o cartão da clínica. Tenho certeza de que você vai gostar eu mesmo vou falar com a instrutora de lá sobre vocês.” Depois, olhou para mim com gentileza. “E, Katniss, respira. Está tudo certo, de verdade, sua bebê está bem.”
Enquanto saíamos da sala, o som distante de outros pacientes ecoava pelo corredor, mas, dentro de mim, só havia o eco suave da voz dela: “Está tudo bem, sua bebê está bem.”
Assim que Darius abriu a porta do carro, respirei fundo, observando o prédio à minha frente.
O letreiro discreto, as janelas amplas e o aroma leve de incenso que vinha do interior me fizeram hesitar por um instante. A ideia de fazer aquela aula sozinha, antes parecia apenas uma possibilidade, agora era praticamente uma realidade.
Peeta não havia ido me buscar, como tínhamos combinado naquela manhã. Em vez disso, mandou Darius me levar e avisou que me encontraria na clínica, devido a uma reunião.
Mas eu já conhecia esse tipo de desculpa voltada ao trabalho e as responsabilidades como ninguém. No fundo, sabia que estava por minha conta.
Caminhei pelo corredor iluminado, onde um grupo de gestantes deixava a sala do que parecia ser a aula anterior. As barrigas eram bem mais avançadas que a minha, todas riam, conversavam entre si, e ao lado delas estavam os companheiros carregando bolsas, toalhas e garrafinhas de água. Havia algo de bonito naquela naturalidade compartilhada e isso me fazia sentir ainda mais deslocada naquele lugar.
“Boa tarde! Seja bem-vinda. Posso ajudar?” A recepcionista perguntou com um sorriso gentil.
“Tenho uma aula marcada… yoga gestacional.”
“Claro! Seu nome, por favor?”
“Katniss Mellark.” Ela digitou algo, confirmou a inscrição e me observou por um segundo, talvez percebendo que eu estava sozinha. “Meu marido vai se atrasar um pouco.” Justifiquei embora não soubesse bem o porquê.
“Sem problema. A aula começa em alguns minutinhos. Pode aguardar na sala ao lado.”
Assenti e segui até a pequena sala de espera. O ambiente era calmo e o aroma de lavanda e camomila no ar quase me convenceu a relaxar. Sentei em um dos bancos laterais, segurando a bolsa no colo, observando as outras gestantes que chegavam acompanhadas e que pareciam se conhecer conversando entre elas até abrirem a porta da sala lateral e as pessoas começarem a entrar animadas. Por um instante, pensei em simplesmente levantar e ir embora, talvez voltar outro dia, com Prim, quando a porta principal se abriu com um leve rangido. Levantei os olhos… e lá estava ele.
Peeta entrou apressado, com o paletó pendurado no braço, a gravata ainda perfeitamente ajustada, o que o fazia destoar completamente do clima tranquilo do estúdio. A camisa social clara estava impecável, o cabelo levemente bagunçado, e o olhar atento percorria o ambiente como quem procurava algo.
Ele falou rapidamente com a recepcionista, que apontou na minha direção. Quando nossos olhares se encontraram, ele sorriu.
“Desculpa o atraso. A reunião se estendeu mais do que devia. Não consegui te buscar em casa.”
“Não tem problema. Você chegou bem a tempo.” E, de alguma forma, aquilo soou mais verdadeiro do que eu esperava. Entramos juntos na sala, o chão era coberto por colchonetes coloridos dispostos em círculo. As janelas amplas deixavam entrar a luz dourada da tarde e a instrutora nos recebeu com um aceno enquanto tirávamos os sapatos.
“Peeta e Katniss, certo?” A voz dela soou suave, acolhedora. “A doutora Porter me falou sobre vocês. Katniss, você está um pouquinho ansiosa o que é completamente normal. Por isso ela sugeriu começar as aulas um pouco antes. Não se preocupe, temos mamães que iniciam desde os primeiros meses, e até algumas que participam ainda no processo de planejar uma gravidez.” Ela sorriu e se virou para o restante da turma. “Boa tarde, pessoal! Hoje temos um casal novo conosco, Katniss e Peeta Mellark.” Recebemos cumprimentos gentis e alguns sorrisos simpáticos enquanto ela nos guiava até um colchonete vazio na sala. “O tema de hoje é presença e parceria.” Ela explicou. “Vamos trabalhar respiração, relaxamento e, principalmente, a conexão entre o casal e o bebê. Podem se sentar confortavelmente, de pernas cruzadas.”
Sentei primeiro e Peeta se acomodou à minha frente e, por um instante, pareceu deslocado, olhando os outros acompanhamentos até soltar um leve suspiro, afrouxar a gravata com um gesto rápido e dobrar as mangas da camisa até os cotovelos. Um movimento simples, mas que teve um efeito curioso. Já que de repente, ele parecia mais à vontade… e, admito, estranhamente atraente e sexy naquele cenário tão diferente do habitual.
“Talvez seja apropriado ter uma roupa esportiva no escritório.” Ele comentou e dei um meio sorriso.
“Vamos começar com um exercício simples e em dupla.” A instrutora continuou enquanto passava pela sala. “Casais, fiquem de frente, pernas cruzadas, joelhos se tocando. Mãos nos ombros um do outro. Isso agora respirem juntos, como uma gangorra. Inspirem, abrindo o peito. Expirem, arredondando a coluna.” Seguimos as instruções. Era estranho no começo, estar tão perto dele, encarando um ao outro em silêncio enquanto nossos movimentos se sincronizavam. “Inspirem de volta para o centro. Coluna longa. Agora, coloquem a mão direita sobre o próprio peito… e a esquerda sobre a mão do parceiro. Quero que sintam o batimento um do outro.” O toque dele era firme e quente contra minha pele. “Agora fechem os olhos e sintonizem com o ritmo do coração do outro, respirem juntos e sintam esse momento. Vocês estão compartilhando a chegada de uma nova vida, e essa conexão que estão sentindo agora esse equilíbrio e essa confiança deve se manter muito além desta sala. Abram os olhos compartilhem o momento um com o outro.” Ficamos assim por alguns instantes, os olhos dele fixos nos meus, o ar fluindo num compasso que parecia comum, íntimo. Um íntimo além do que estávamos acostumados, não eram toques planejados para um teatro para sociedade, não era sexo, era apenas um toque. “Agora, troquem de posição. Os parceiros ficam atrás, apoiando as mãos nos ombros delas.”
Peeta se ajoelhou atrás de mim no colchonete. Era curioso vê-lo ali, tão fora de seu ambiente natural, um homem acostumado a reuniões em salas fechadas com executivos, agora estava ali descalço, tentando ajustar a postura num estúdio de yoga. E, ainda assim, havia nele uma concentração sincera, uma dedicação quase cuidadosa.
Enquanto eu ajeitava a posição, ele puxou minha garrafinha d’água para mais perto, como se quisesse garantir que nada me faltasse.
“Vamos começar esse exercício com uma respiração leve. Sigam o ritmo da gestante.” As mãos dele pousaram sobre meus ombros, firmes, mas gentis. Ele se inclinou ligeiramente e murmurou próximo ao meu ouvido.
“Assim está bom?” Assenti, sentindo o calor da respiração dele perto demais. Hormônios terríveis.
“Fechem os olhos, inspirem pelo nariz… segurem… e soltem o ar pela boca.” O som das respirações sincronizadas preencheu a sala. A cada movimento, meu corpo relaxava um pouco mais, guiado pelas mãos dele, que se mantinham estáveis, presentes. De vez em quando, Peeta ajustava minha postura em silêncio atento, concentrado, como se tentasse aprender um idioma novo através do toque. Por alguns minutos, o tempo pareceu desacelerar. A música suave, o aroma de lavanda e camomila, o calor das mãos dele sobre mim tudo se misturava num ritmo calmo, seguro. “Agora, os parceiros devem sustentar as costas das gestantes, permitindo que elas se apoiem completamente. Durante o parto, vocês serão o apoio. A pessoa que vai dar força à mamãe. É importante saber aliviar a pressão da lombar, manter a coluna alinhada e estar presente sempre.”
“Mesmo que ela xingue.” A observação bem-humorada veio de um homem dois colchonetes à frente, arrancando risadas suaves do grupo.
“Sim, Jackson.” A instrutora respondeu, rindo também. “Mesmo que ela xingue você por estar com dor.” O riso se dissipou aos poucos, e o ambiente voltou a um silêncio acolhedor. Peeta fez o movimento com cuidado, guiando minhas costas até que repousassem contra o peito dele. Os braços o contornaram minha cintura, ajustando o peso com delicadeza. O calor do corpo dele era reconfortante. O som da respiração dele, em sincronia com a minha, criou um silêncio diferente entre nós. Por um instante, deixei a tensão escorrer pelos ombros, fechei os olhos e apenas respirei. “Muito bem pessoal. Essa é uma das partes mais importantes, permitir confiar no outro. Seu parceiro é o seu apoio, a pessoa em quem você deve confiar. Vocês estão nisso juntos.”
E, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente acreditei que podia confiar.
O andar da maternidade de um dos hospitais mais conceituados da Capital era realmente elegante. O piso claro refletia a luz suave dos lustres, as paredes tinham tons neutros e o aroma de flores frescas se misturava ao discreto cheiro de álcool. A segurança era impecável, e o ambiente mais lembrava um hotel cinco estrelas do que um hospital.
Caminhamos pelo corredor até o quarto e entramos após uma leve batida na porta. Não me surpreendi ao ver todo o clã Mellark reunido, houve uma onda de comprimentos cheios de entusiasmo assim que entramos. Diferente do que Finn temia, Annie não entrou em trabalho de parto na empresa.
Kai Mellark Odair nasceu em uma bela manhã de domingo, após algumas horas de trabalho de parto.
“Uma cópia do pai.” Finn decretou assim que nos aproximávamos, ele estava em um estado de euforia tão grande que dava pra ver de longe.
Effie estava ao lado da filha, ajeitando o travesseiro e a manta do neto com cuidado. Haymitch, logo atrás, observava o bebê com um sorriso discreto. Delly e Lavinia riam próximas à janela, mostrando fotos e vídeos no celular para Thresh. Era o tipo de reunião familiar barulhenta mais contida que só os Mellark sabiam fazer.
Cumprimentei Finn e Annie, dando os parabéns pelo bebê, e logo em seguida Peeta se aproximou, cumprimentou o cunhado e lhe entregou uma cesta decorada com balões e um ursinho de pelúcia vestido de marinheiro. Tema do quartinho dele. Depois, virou-se para a irmã, aproximando-se da cama e dando um beijo suave na testa dela.
“Ele é lindo, não parece nada com você, Finn. É a Annie por inteiro, olha só.”
“Também acho.” Annie respondeu entre risos. “Mas deixa ele se iludir um pouco.” Ela olhou para o irmão e acrescentou, com carinho. “Peeta, você quer segurar seu afilhado?” Vi os olhos dele brilharam no mesmo instante, um misto de felicidade e surpresa.
“Sério?” Ela assentiu, sorrindo.
“Se você aceitar, é claro.”
“Claro que aceito” Ele respondeu, sem hesitar. Annie estendeu o bebê, e Peeta o recebeu com cuidado. Havia ternura e segurança em cada movimento, uma certa naturalidade tranquila no modo como ele o segurava.
“Cuidado pra não derrubar meu filho, Mellark.” Finn brincou rindo.
“Sem chance disso acontecer, Odair.” Peeta respondeu sem desviar o olhar do bebê. “Mais fácil você não saber segurar ele. Eu já tenho prática… pergunta pra Lavinia.”
“É verdade! Ele aprendeu muito com o Alex. Lembro que, quando o Alex era bebê, nas visitas do Peeta ao Doze, ele estudava com ele no colo até tarde, foi bem na fase das cólicas.”
“Eu morria de medo dele dormir e derrubar o bebê, mas que nada… ele ficava com o Alex no colo por horas. O problema era quando voltava pra faculdade. Quem disse que o Alex queria dormir no berço depois disso?” Effie comentou com um sorriso.
O clima era leve, íntimo, cheio de carinho. Annie e Finn trocavam olhares ternos. Haymitch não fazia questão de esconder o orgulho e Effie, como sempre, já estava fazendo planos para as próximas semanas. Até o pequeno Kai parecia tranquilo em meio àquela algazarra contida. Dormia profundamente, como se já estivesse acostumado ao caos da própria família.
Foi então que meus olhos se voltaram para o canto do quarto. Sentado em uma poltrona próxima à janela, Alex observava tudo em silêncio, o celular esquecido em algum jogo pausado e o fone de ouvido na cabeça. Ele sorria, mas o sorriso não chegava completamente aos olhos.
Ficamos ali por um bom tempo. E confesso que achei muito bonita a história por trás da escolha do nome.
“Kai significa mar ou oceano em algumas línguas… e vocês sabem o quanto eu amo o mar.” Finn explicou sorrindo de leve. “Os olhos da Annie sempre me lembraram o oceano calmo, mas profundos. Eu queria que ele carregasse um pouco dessa força do mar, sabe? Essa ideia de algo que é bonito, imprevisível e cheio de vida ao mesmo tempo.” Annie sorriu, e completou a fala do marido com doçura.
“Além de tudo, Kai também significa em algumas línguas novo começo ou vitória. E, pra nós, ele é exatamente isso que ele é.”
Aparentemente, os dois tinham uma relação com o mar que ia muito além do iate com o nome da minha cunhada no Distrito quatro e o fato de que tinham se conhecido na faculdade de lá. O mar era algo que os unia em essência.
Foi quando voltei do banheiro que notei Lavinia parada no corredor com o filho. Ouvi a conversa quase sem querer.
“Você sabe que seus padrinhos amam você, assim como todos os outros não sabe. E que não é porque vão ter outro afilhado que isso vai mudar não sabe?”
“Eu tô bem, mãe. De verdade. Já sou grandinho demais pra ter ciúmes.” A resposta veio quase baixa demais, mas com firmeza na voz que poderia enganar muita gente.
“Por que você tá assim, então?”
“Acho que dormi mal.” Ele deu de ombros.
“Ah, Alex…” ela suspirou e houve um breve silêncio antes que ele voltasse a falar, a voz um pouco trêmula dessa vez.
“Mãe… é verdade que o padrinho cuidava de mim pra ajudar você?”
“É sim. O Peeta ajudou muito a mamãe. Não só ele, mas… ele, principalmente. Você sabe que moramos com Effie e Haymitch no Doze antes de irmos morar com seus padrinhos e a tia Annie aqui na Capital. E só depois de um tempo que fomos morar você e eu.”
“Não somos Mellark, né, mãe? Quer dizer o Kai é um Odair, mas também é um Mellark.” Lavinia fez uma pausa antes de responder, com calma.
“Não, não somos.” Foi então que Delly apareceu logo atrás deles, se aproximando com um sorriso suave.
“Mas todos os Mellark amam você, meu pequeno grande homenzinho. Ser um Mellark é mais do que carregar um sobrenome. Alex, a gente ama tanto você, que o nome não mudaria nada.” Observei ela abraça-lo com força e sussurrar algumas coisas em seu ouvido.
Voltei para o quarto, tentando não ser vista, mas notei a maneira como Lavinia abraçou o filho assim que Delly o soltou, calma, protetora, paciente e sorri involuntariamente. Assim que entrei Peeta estava segurava Kai nos braços novamente, o mesmo olhar sereno de antes, o mesmo cuidado quase instintivo.
E, por um instante, percebi que era isso que o unia a todos os Mellark, a capacidade silenciosa de cuidar, de acolher, de amar.
Na semana seguinte ao nascimento do Kai, aconteceria o playoff de basquete. E não foi surpresa alguma que os Tordos de Panem estivessem na disputa. A verdadeira surpresa foi o Peeta anunciar, na manhã de sábado, que iríamos ao jogo. Aparentemente, ele não havia esquecido a promessa feita ao afilhado meses antes.
Seguimos para o estádio com um animado Alex, vestindo a camiseta azul do time, o boné ajustado na cabeça e um sorriso que não cabia no rosto. Peeta, por outro lado, parecia ligeiramente perdido em meio à multidão de torcedores, mas ainda assim se deixou contagiar pela empolgação do mais novo e colocou o boné igual ao do afilhado e até tentou acompanhar a enxurrada de informações que Alex despejava sobre escalações e estatísticas.
“A gente vai ficar na VIP Box?” Alex perguntou, empolgado.
“Não.”
“Então… qual é o nosso lugar?”
“Você já vai ver. Calma.” Havia um certo mistério proposital na voz dele. Seguimos o fluxo até a bomboniere. “O que vocês vão querer comer?” Peeta perguntou, ao se aproximar do caixa.
“Pipoca e refrigerante! Balde grande, pra durar o jogo todo. E chocolate pra depois da pipoca.”
“Pipoca e chocolate pro jogador mirim…” Ele brincou. “E você, Katniss?”
“Nada, obrigada.”
“Certeza? Você sabe que o jogo é longo…” Confirmei com a cabeça, e ele apenas me lançou um olhar rápido antes de se voltar para o atendente. Enquanto ele fazia o pedido, Alex continuava tagarelando, e eu não pude deixar de sorrir.
“Você acha que a gente vai ver algum jogador famoso por aqui?”
“Talvez. Mas geralmente eles não ficam junto com a plateia. Ficam lá em cima, na área VIP. De vez em quando dá pra ver alguém passando.”
“Você já veio nesse estádio antes?”
“Já… há muito tempo. Mas não pra ver os Tordos.” Ele me olhou, curioso.
“Pra ver quem, então?”
“Os Falcões.” Admiti, e ele abriu a boca, indignado.
“Os Falcões?! Eles são os maiores rivais dos Tordos!”
“Eu sei. Ironia do destino.” A verdade é que, mesmo sendo torcedora dos Tordos desde pequena, sempre que vim até aquele estádio foi pra acompanhar Gale que torcia para os Falcões, que ironicamente eram os rivais da noite.
Peeta se aproximou, entregando o balde de pipoca a Alex e equilibrando a bandeja com duas bebidas em uma das mãos.
“Eu só não entendi por que a gente não esperou pela final. Você mesmo disse que os Tordos vão ganhar.” Alex riu, balançando a cabeça.
“Padrinho, você não entende… Tordos e Falcões são rivais há décadas! Esse jogo vai ser mais visto e mais comentado que a final. É por isso que os ingressos são tão disputados.”
“Entendi. Então estamos no jogo mais concorrido da temporada.”
“Exatamente!” O menino confirmou com orgulho.
“Mas eu não entendi por que você veio com a camiseta azul. O primeiro uniforme não é o preto?”
“Ajuda ele Katniss, ele tá perdido, não entende nada.”
“Hoje os Tordos jogam com o uniforme azul, porque os Falcões vão jogar de preto!”
“Muito obrigado, Katniss, pela explicação. Já que eu não entendo nada, embora tenha sido eu quem conseguiu a camiseta legal, o boné bacana e um monte de tralha de basquete nos últimos meses.” Ele fez uma pausa e completou, fingindo estar magoado. “Sem contar esses ingressos na Courtside, que, embora eu não entenda muito, acho que é o melhor lugar do estádio.”
Alex arregalou os olhos, completamente surpreso.
“A gente vai sentar na beira da quadra?” Peeta assentiu, apontando pra frente.
“Lá.” O loirinho ficou mudo por um segundo e depois abriu um sorriso tão grande que quase iluminou a quadra.
“Você é o melhor padrinho do mundo! Você entende tudo! Me desculpa se eu pensei errado.” Peeta riu, ajeitando o boné do garoto.
“Melhor assim.” Seguimos em direção aos acentos, o som da torcida crescendo a cada passo.
E, quando os refletores bateram sobre o piso brilhante e percebi o quão perto realmente estávamos, me dei conta de que eu nunca havia imaginado sentar em um lugar assim em um jogo profissional. Era como estar dentro da quadra. Era um clima totalmente diferente estar ali tão perto da quadra, dos jogadores, do som das bolas quicando e das vozes ecoando pelo ginásio.
Ver os atletas entrando em campo de tão perto, o banco de reservas quase ao nosso lado, ouvir o técnico orientando o time… era uma imersão completa, que trazia lembranças da minha época de torcida no colégio. Nada comparado à experiência de assistir das arquibancadas. Observei Alex, sentado entre nós, tomado por uma animação genuína.
Os olhos vidrados na quadra, o corpo inclinado pra frente, a pipoca completamente esquecida no colo. Ele vibrava a cada arremesso, gritava quando o placar mudava, comemorava como se cada ponto fosse dele. Peeta também sorria, não tanto pelo jogo, mas pela alegria do loirinho, o tipo de alegria pura que parecia iluminar o ambiente.
E eu… eu me deixei levar.
Entre o som dos tênis riscando o piso e o coro da torcida, voltei a sentir algo familiar, aquela velha emoção de quem sempre amou o esporte, as quadras, a energia da competição. Mas, mais do que isso, me permiti ser levada pelo riso eufórico de uma criança feliz e, por alguns instantes, vibrei junto, gritei junto, comemorei como se nada mais importasse.
Então, de repente, uma sensação estranha se fez presente, uma espécie de arrepio, um desconforto involuntário que me deixou alerta. Olhei ao redor, varrendo o público em busca de qualquer rosto conhecido, mas o estádio estava cheio demais, confuso demais, barulhento demais pra distinguir alguém.
Ainda assim, algo em mim insistia que estava sendo observada.
“Quer que eu vá buscar alguma coisa pra você? Um suco, algo pra comer?” Peeta perguntou durante o intervalo, inclinando-se em minha direção. Balancei a cabeça, tentando disfarçar o incômodo.
“Não, tá tudo bem.” Ele me observou por um instante, depois franziu o cenho. “Então vou lá pegar uma água. Você tá há muito tempo sem beber nada. Olha o Alex, por favor.”
Antes que eu pudesse responder, ele já se levantava, desaparecendo entre o fluxo de pessoas. Fiquei ali apenas acompanhando ele com o olhar até perdê-lo de vista. Voltei então minha atenção para Alex, que havia se levantado e caminhava pela lateral da quadra, observando tudo com fascinação. E foi nesse instante que a lembrança veio.
Um outro jogo, naquele mesmo estádio. Fechei os olhos, tentando afastar a sensação. Respirei fundo, focando na risada do Alex, que começou a comentar as jogadas com um torcedor sentado próximo.
Peeta voltou pouco depois, trazendo a garrafa d’água e um copinho com frutas picadas.
“Aqui.” Ele me entregou a garrafa já aberta. “Achei um quiosque com frutas.”
“Obrigada.” Bebi um gole, mais por necessidade de normalidade do que por sede. E tentei me convencer de que estava tudo bem. De que, entre milhares de pessoas, não havia motivo algum pra me sentir observada. Ele não estava ali, aquilo era só minha cabeça tenho recordações do passado.
Ele não viria, não conseguiria ingresso, não em um jogo tão concorrido.
Os Tordos venceram a partida, e a sensação de vitória era impagável. Talvez por ser a única criança naquele dia na Courtside, os jogadores foram especialmente receptivos com Alex. Ele ganhou autógrafos na camisa, tirou fotos e, pra completar, uma das bolas usadas no jogo. Não tinha certeza se os jogadores sabiam quem Peeta era, mas foram incrivelmente simpáticos conosco muito mais do que alguns atletas de times menores nos jogos dos Distritos que tinha ido no passado.
“Então você é torcedora dos Tordos?” Peeta perguntou, virando-se pra mim. Estávamos no meio da quadra, enquanto Alex circulava entre os jogadores, empolgado, tentando conseguir mais autógrafos e fotos.
“Sou.”
“E veio sem nenhum adereço do time?”
“Não cairia bem aparecer publicamente com uma camisa de basquete. Isso fica pros rapazes.”
“Quem disse?” O olhar dele era provocante, divertido. Apenas meneei a cabeça, sem vontade de falar sobre as velhas normas de vestimenta que minha mãe tanto prezava. “Estou vendo muitas mulheres com adereços e camisas dos times, por aqui.”
“Não sou adepta de tanta informalidade assim.”
“Claro, você é adepta a torcer só com a roupa das líderes de torcida.” O tom não era de deboche, era casual como uma brincadeira e me permiti sorrir.
“Exatamente, além do mais a roupa das lideres é valiosa, tanto quanto uma jaqueta do time.”
“Você pode e deve torcer do jeito que quiser.” Peeta, então, tirou o boné da cabeça, bagunçando os próprios cabelos e o colocou em mim.
“Não, vai ficar estranho.”
“Está ótimo.” Ele respondeu, ajustando o boné e uma mecha do meu cabelo. “Agora sim, parece uma torcedora de um time vitorioso.” Por um instante, achei que ele fosse me beijar, faria sentido, um pequeno teatro diante das pessoas que ainda saiam do estádio.
Mas, em vez disso, ele apenas voltou o olhar para Alex e acenou, chamando-o pra irmos.
E então, novamente, aquela sensação se fez presente. Mesmo com o estádio esvaziando, com a maioria das pessoas já deixando as arquibancadas, não consegui afastar a ideia de que alguém ainda me observava. Afastei esse pensamento com esforço, mas, no fundo, eu sabia que aquela sensação não era nova e tampouco infundada.
Depois de um sábado agitado em que chegamos tarde em casa, já que após o jogo fomos jantar e depois ao deixarmos Alex em casa ouvimos ele narrar cada detalhe do jogo para Lavinia com a empolgação de quem acabara de viver o melhor dia da vida, tudo o que eu queria no domingo era não fazer absolutamente nada.
Mas os Furman estavam organizando um evento no clube, e, embora eu tivesse me mantido afastada dos compromissos sociais nas últimas semanas, as recomendações da doutora Porter aparentemente haviam inspirado Peeta a me incluir novamente nesses eventos sociais.
Isso significou arrumar o cabelo, passar uma leve maquiagem e encontrar uma roupa que disfarçasse a barriga que já começava a marcar os vestidos mais largos que tinha.
Por fim, optei por um conjunto em tom cru de viscolinho, calça de caimento leve, camisa de mangas dobradas e sandálias pretas de salto. Peeta, como sempre, parecia impecável em seu blazer azul e sapatos de couro. O evento seria o primeiro de uma série de encontros de verão voltados para arrecadar fundos em prol de uma causa educacional.
Assim que chegamos, percebi que o clube estava deslumbrante. As árvores do jardim estavam iluminadas com pequenas luzes douradas, garçons circulavam com bandejas de champanhe e aperitivos, e grupos de convidados conversavam em pequenos círculos, entre risadas e cumprimentos formais.
Circulamos pelo jardim, cumprimentando algumas pessoas, inclusive os anfitriões, embora eu tenha achado estranho não ver Clove com os pais num primeiro momento.
Não demorou para que avistasse Madge. Senti um certo alívio ao vê-la sorrindo em minha direção. Embora não nos víssemos com frequência, ela havia me visitado recentemente e era a única pessoa, além da família, que soube da gravidez diretamente por mim. Claro que os boatos já tinham se espalhado, considerando minha ausência nas últimas semanas. Não foi surpresa receber felicitações a cada passo que dava ao lado de Peeta.
“Você está linda” Ela disse me abraçando com aquela sinceridade que ficava nítido que era verdadeira.
“Você que está maravilhosa.”
“E onde fica a rivalidade feminina com tantos elogios trocados assim?”
“Muito engraçadinho você, Peeta. Como você está?”
“Bem, e você?”
“Ótima. A chegada do verão também significa férias… então está tudo ótimo.” Ele sorriu, ajeitando o paletó.
“Vou deixar as duas belas moças conversando. E vou circular um pouco.”
Ele se afastou em direção a um grupo de empresários, e seguimos caminhando entre as mesas conversando amenidades.
“Ah não… lá vem ela.” Segui o olhar dela e lá estava Clove. Vestida em um modelo de verão impecável, de um tom claro que destacava cada curva, cabelo preso com perfeição, brincos discretos e aquele sorriso estudado, mas audacioso.
“Olha só quem resolveu aparecer novamente. Quanto tempo, Katniss.” A voz dela soou doce demais para ser sincera.
“Olá, Clove. Bela festa. Sua mãe disse que você organizou.”
“Obrigada. Sabe como adoro esse tipo de evento, não é? Ajudar as pessoas é tão necessário pra mim. E como o Peeta mesmo diz, a educação é fundamental. Aumentar as oportunidades pra que todos tenham chance de crescer e se tornar alguém.”
“Sim, é ótimo que o clube pense nisso e organize esses eventos.” Aquilo era mentira. Ela não se importava com nada disso.
“Mas vejo que os boatos eram verdadeiros. O herdeiro vem mesmo aí. Parabéns. Peeta me disse que você está de vinte semanas.”
“Obrigada.”
“Falei com a Effie ontem. Ela está radiante com o nascimento do Kai. Os Mellark são uma família linda. O nascimento dos seus deve estar deixando ela igualmente feliz. Três netos no mesmo ano, quem diria.”
“Os meus?”
“Sim, são gêmeos, não é?”
“Não. É uma menina.”
“Jura? “ Ela levou a mão aos lábios como se fosse de fato uma surpresa, “Ah, pensei que eram dois… sua barriga parece maior do que o esperado pra esse tempo. Tem certeza de que não está mais avançada?”
“Tenho, Clove.”
“Bom, não tenho muito contato com grávidas, mas a Annie estava com a barriga menor nessa fase, e era menino, o que dizem que costuma deixar a barriga maior. Ou seria o contrário?”
“Clove, não se compara uma gestação à outra. Cada corpo é diferente. E a Katniss está exatamente dentro do esperado para vinte semanas.” Magde disse com calma, mas em tom firme.
“Não queria ofender, só comentei. Mas você deveria tomar cuidado.”
“Cuidado com o que exatamente?”
“Bom a gravidez é um período difícil, cheio de mudanças e sabe como é aqui no clube mesmo já vi muitos casamentos acabarem nesse período. Ou pior… seguirem apenas por obrigação, por causa da criança, mas sem envolvimento real. Verdade, fiquei sabendo que a Anastasia Seller foi traída enquanto estava grávida. Engordou horrores, o marido perdeu o interesse… e nove meses é muito tempo pra um homem jovem ficar sem sexo, não é? Então ele a traiu. Mesmo depois que o bebê nasceu, o casamento nunca se recuperou. Hoje vivem juntos só no papel e ele sustenta a amante num apartamento de luxo.”
O grupo atrás dela riu baixo. Madge desviou o olhar, visivelmente incomodada. Mantive o sorriso pequeno e controlado. Claro que aquilo era real, um relato típico de homens que buscavam outra enquanto a esposa está grávida.
“Bom, não preciso me preocupar com isso. Minha relação com o Peeta não mudou em nada.” Menti, embora por uma fração de segundo, percebi que fazia um bom tempo, desde a descoberta da gravidez, pra ser mais exata, que não havia mais o teatro dos beijos em público, os carinhos ensaiados, as demonstrações perfeitas que ele costumava oferecer ao mundo.
“Isso é ótimo, mas não deixe de ficar atenta às armadilhas que a vida costuma pregar.” Antes que eu pudesse responder, ela avistou Peeta ao longe e sorriu, triunfante. “Ah, aí está ele.” Sem qualquer outra palavra ela saiu em direção ao loiro.
Fingi não me importar, continuei andando com Madge , mas de canto de olho, observei os dois. Ela falava demais, se inclinava demais. Ele, educado, respondia com o mesmo sorriso neutro que usava em qualquer evento. Ainda assim, algo dentro de mim se revirou.
Quando o jantar foi anunciado, Peeta voltou. Pousou a mão na minha cintura e me guiou até a mesa. Pela primeira vez em semanas, não senti vontade de comer. Ainda assim, me forcei a engolir algumas garfadas.
“Você está bem? Está sentindo alguma coisa? O sabor da comida não está fazendo bem?”
“Não, estou bem. Só cheia. Acho que o lanche da tarde me encheu demais.”
“Certeza?” Assenti e voltei minha atenção às conversas paralelas.
“Vocês já sabem se é menino ou menina?” Uma das mulheres da mesa perguntou.
“Menina.” Peeta respondeu com um sorriso.
“Que maravilha! Já escolheram o nome?”
“Ainda não.”
“Não demorem a tentar o segundo então, quem sabe venha um menino.” Sorri, por educação, e deixei o assunto morrer com a chegada da sobremesa, embora tenha negado todas as opções que tinham.
“Tem certeza que está bem?” A voz dele veio baixa, preocupada. “Quer ir embora?”
“Estou, sim. Só sem vontade de doces hoje.”
Depois do jantar, houve um pequeno leilão beneficente. Era curioso observar tantos empresários poderosos fazendo lances por itens sem valor real, apenas pelo status de contribuir com uma causa que pra muitos ali não fazia a menor diferença.
Senti um enorme alívio ao entrar no carro no fim da noite e assim que Peeta deu partida, joguei a bolsa no banco de trás e fechei os olhos, recostando a cabeça no banco.
“Eu já sabia que as pessoas podiam ser inconvenientes.” Ele começou, a voz tranquila. “Mas juro que não imaginava tanto. Só hoje ouvi umas dez sugestões de nomes e umas vinte dicas de paternidade, vindas de gente que nem sabe onde os próprios filhos estudam. E ainda me disseram pra já pensar no segundo.”
“Provavelmente porque é uma menina.” Acabei soltando, e ele me olhou de canto de olho.
“Por que você diz isso?”
“Porque muitos homens sonham com um menino.” Ele franziu o cenho, refletindo. “Sempre dizem que menino ou menina, tanto faz. Mas... todo homem imagina ter alguém pra dividir certas coisas. Fazer atividades de pai e filho.”
“E por que não atividades de pai e filha?” Ele sorriu, olhando de relance pra mim.
“Porque é diferente. Muitos pais tentam moldar o filho à própria imagem, pra que façam as mesmas coisas, sigam os mesmos passos.”
“Meu pai nunca se importou com isso.”
“Mas ele teve você. Depois de duas meninas, adotou um menino.”
“Sim. Mas não foi porque eu era um menino. Na verdade, minha adoção teve mais a ver com a minha mãe do que com o meu pai.” O carro ficou em silêncio por um instante. “Meu pai estava completamente feliz com as duas filhas. Pra falar a verdade, tudo o que aprendi com ele, Annie e Delly já sabiam fazer. Ele levava os três pra pescar, andar a cavalo, ensinava sobre marcenaria essas coisas. E, embora eu não faça isso com tanta frequência hoje, Delly ainda é melhor do que eu com ferramentas. E Annie sabe mais de mecânica do que eu.”
“Então ele realmente não acredita nessa coisa de que certas atividades são só pra homens.”
“De jeito nenhum.” Peeta respondeu, com um brilho orgulhoso nos olhos. “Ser pai e ter tempo de qualidade com os filhos não depende do gênero. Depende de estar presente.” Deixei escapar um sorriso leve.
“Sua família não segue muito os padrões.”
“Talvez. Ou talvez o você precise começar a ver além dos padrões que está acostumada.” O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, pelo contrário era leve e reflexivo. E não pude deixar de pensar que talvez nossa filha tivesse sorte.
POV Peeta
Fechei os olhos por um momento, quase que involuntariamente. As pequenas pulsações incômodas no lado direito da cabeça estavam ficando cada vez mais intensas e tornando difícil manter a concentração. O tablet desligado ainda parecia gritar, pedindo uma decisão.
“Senhor Mellark…” A voz de Cecelia me trouxe de volta à realidade.
“Desculpa, o que disse?”
“O arquiteto ligou. Ele quer uma decisão sobre o tema do quarto da bebê.”
“Pede pra ele verificar com a senhora Mellark. Ela está à frente do projeto.” Ela arqueou uma sobrancelha, hesitante.
“Qual delas? Sua mãe ou sua esposa?”
Era uma pergunta válida. Minha mãe sempre havia estado envolvida nos projetos comigo, e agora ela e Katniss estavam fazendo juntas do quarto da bebê.
“Minha esposa.”
“Certo. O dono do haras do Distrito 11 retornou o contato, ele disse que tem um garanhão da mesma raça que a tempestade e gostaria de entender melhor sua proposta.”
“Marca com ele para próxima semana, vou precisar ir ao Doze e essas coisas é melhor ser falada pessoalmente.”
“Anotado. Ah, a doutora Maison já está esperando para a reunião das quinze, sobre os contratos da nova fábrica.”
“Obrigado. Pode pedir pra ela entrar.” Ela saiu, deixando a porta entreaberta.
“Quando o Odair volta a trabalhar?” Johanna perguntou entrando na sala como um furacão.
“Boa tarde pra você também, Maison.”
“Boa tarde, chefe.” A resposta dela era ligeiramente irônica. “Você já reparou que só me coloca em enrascada? Primeiro aquela empresa horrorosa que demorou séculos pra encerrar as atividades, agora os dois responsáveis do jurídico entram de licença e adivinha quem ficou com o trabalho deles? Eu. Sabe quantos advogados tem essa empresa?”
“Cinquenta e oito, contando com você. Mas sem contar o Finn e a Annie.”
“Engraçadinho.”
“Muitos ficariam felizes com a confiança.” Ela bufou, jogando-se na cadeira à minha frente. “Ou com o salário.”
“Que seja. Ainda assim, é muito trabalho.”
“Os contratos da nova fábrica já foram assinados, certo? Tudo correndo de acordo com o calendário programado?”
“Sim. O treinamento dos funcionários começa segunda. O time de RH garantiu que todos estarão devidamente capacitados no dia da abertura.”
“Ótimo.” Levei as mãos às têmporas, massageando levemente.
“O contrato com a empreiteira responsável pela nova loja também está quase finalizado…” Ela continuou, mas foi interrompida por batidas na porta. Cecelia entrou com uma bandeja. Sobre ela, um copo d’água e um comprimido. Ela colocou tudo na minha frente com um olhar que dispensava palavras. Sorri de leve. Minha equipe era realmente incrível, Cecelia, em especial, parecia ler minha mente.
“Obrigado.” Murmurei, tomando o remédio e torcendo pra que o efeito viesse logo.
“Peeta…” Johanna me observava atentamente. “Acabei de perceber que você está péssimo.”
“Jura, Johanna?”
“Sim. E se está com dor, devia ir pra casa. Ou para o hospital.”
“É só uma dor de cabeça.”
“Aham.” Ela cruzou os braços. “Achei que a empresa investisse horrores no seguro-saúde dos funcionários, por valorizar o bem-estar. Mas olha que ironia o dono se recusa usar.” Revirei os olhos.
“Não posso. Como você mesma disse, Annie e Finn estão de licença, e a Delly está atolada com os preparativos do casamento. Lavinia já está fazendo hora extra e ela tem o Alex , esperando por ela em casa.”
“Você precisa desacelerar, Mellark. Sabe que pode contar comigo, não sabe?”
Eu sabia. Em meio a todas as reclamações, Johanna era uma das pessoas mais leais e competentes que eu tinha ali.
“Ótimo. Então preciso que resolva isso pra mim.” Toquei na tela do tablet, desbloqueando e empurrando na direção dela. “Quero fora do ar. Não teve autorização, não agrega em nada, e ela não é uma figura pública.” A morena pegou o aparelho e começou a ler em voz alta:
DE ASPIRANTE A MODELO A ESPOSA-TROFÉUS
Sem carreira, sem destaque e agora... com herdeiro a caminho. A ex-modelo que nunca deslanchou nas revistas parece ter encontrado outro tipo de sucesso, o matrimonial.
Sem brilho na carreira de modelo fotográfica e com uma breve e apagada passagem pelo marketing, Katniss Everdeen, parece ter finalmente encontrado o caminho da estabilidade (e da visibilidade) ao se casar, no ano passado, com um dos empresários mais influentes e bem-sucedidos de Panem.
O casamento, discreto e quase secreto, passou despercebido pelos holofotes. Já que ao que tudo indica, o magnata buscou sua esposa diretamente de seu passado simples. Mas, ao contrário da trajetória meteórica dele, sua “digníssima” não demonstrou o mesmo talento, nem profissional, nem social.
Ainda assim, é a prova viva de que um casamento bem calculado pode ser o atalho perfeito para um futuro que prometia o fracasso. E agora com o título de mãe do herdeiro, conquistado pouco menos de um ano após o casamento, Katniss Everdeen sela de vez sua estadia na alta sociedade.
Afinal, quem precisa de ‘felizes para sempre’ quando se tem um sobrenome poderoso e uma conta bancária que dispensa amor?
“Nossa. Pegaram pesado aqui.” Ela ergueu os olhos, surpresa. “Mas foram espertos em não usar seu nome ou o da empresa.”
“Nunca permiti exposição da minha vida pessoal. Quem eles pensam que são pra usar o nome da minha mulher e citar a gestação dela assim? Como se fosse um golpe barato.”
Johanna analisou a matéria de novo, rolando a tela.
“As fotos…”
“Uma é antiga, provavelmente de quando ela fazia alguns trabalhos de portfólio. A outra é recente, tirada no evento dos Furman. Era um evento beneficente, mas privado, não havia imprensa. Provavelmente alguém vendeu.”
Ela suspirou, balançando a cabeça.
“É assim que funciona, Peeta. Quanto mais você tenta manter a vida privada, mais eles querem invadir. Antes, não tinham o que dizer, mas agora têm um alvo fácil.”
“Ela não é alvo fácil, usar o sobrenome de solteira nessa fofoquinha não muda que estão falando da minha mulher Johanna, quero isso fora do ar. Se for preciso, processe. Já sabe o que fazer, não é a primeira vez.”
“Sim, tirar do ar, pedido de retratação e se tiver processo reverter o valor da indenização pra uma instituição.” Ela se levantou. “Mas, sinceramente, Mellark… você precisa respirar um pouco. Ou vai cair antes da matéria sair do ar.”
Olhei pro copo d’água ainda pela metade e soltei um longo suspiro. Talvez ela estivesse certa.
Quando entrei em contato com Katniss naquela tarde, como vinha fazendo nos últimos dias, para saber se tudo estava bem, não perguntei sobre a matéria, nem se ela havia lido. Mas se ela leu, não demonstrou incômodo. E aquilo, honestamente, foi um alívio. A regra era clara, sem estresse. Era o que a doutora Porter reforçava a cada consulta e eu faria o possível para seguir à risca, pelo bem da minha filha.
Eu não tinha ideia do que havia causado o aborto anterior, nem com quanto tempo de gestação havia acontecido. Sabia apenas que era um assunto delicado, uma ferida que ela não queria revisitar e, de certo modo, eu entendia.
Não havia registro médico, e, embora a cicatriz fizesse sentido agora que eu conhecia seu histórico, ainda me soava estranho os Everdeen terem escondido tudo. Mas não iria perguntar sobre. Alguns limites eram cruéis demais pra serem ultrapassados. Estava entrando na garagem quando o celular vibrou. Assim que parei o veículo olhei a mensagem de Johanna.
“Matéria fora do ar.”
Um problema a menos, considerando o tanto que eu ainda tinha pra lidar naquele fim de semana, que, em teoria, deveria ser voltado à família e ao descanso.
A dor de cabeça, no entanto, não dava trégua. Peguei minhas coisas e entrei em casa. Prim estava no sofá, cercada de livros e anotações. Já estava no fim do período de provas, e na segunda teria a última. Mas havia algo no jeito como ela me olhou que denunciava o real motivo dela estar estudando ali e não no quarto dela como de costume.
“Boa noite! Prova de química segunda?”
“Boa noite, Peeta. Sim, a última.”
“Isso é bom, a formatura está chegando.” Ela ficou em silencio como se procura-se as palavras para o que tinha a dizer, então questionei. “Ela viu?” Prim assentiu, com um suspiro.
“Viu. Não falou nada, mas sei que odiou. Tenho certeza de que acompanhou os comentários, o dia todo.”
“Já saiu do ar. Estavam resolvendo desde hoje à tarde.”
“Que bom.” Assenti.
“Vê se não estuda demais. Boa noite Prim.”
Subi as escadas, e assim que entrei no quarto, ouvi o som do chuveiro. Afrouxei o nó da gravata, abri os primeiros botões da camisa e me sentei na poltrona. A cabeça ainda latejava. Fechei os olhos, tentando aliviar a pressão que crescia atrás das têmporas. Não sei quanto tempo fiquei ali até ouvir a porta se abrir.
“Peeta? Que susto.” Abri os olhos. Katniss estava parada à porta, puxando o cinto do roupão, ajustando o tecido contra o corpo como se quisesse garantir que nada além do necessário ficaria à mostra. Um gesto pequeno, quase imperceptível, mas revelador. Katniss nunca foi de se preocupar tanto com isso. Sempre foi prática o tipo de mulher que andava pelo quarto com naturalidade, às vezes apenas com a toalha, sem o menor constrangimento. Mas ali havia algo diferente. Uma hesitação. Um desconforto sutil e repentino que não parecia em nada com ela. “Não ouvi você chegar. Chegou faz tempo?”
“Só alguns minutos. Tá tudo bem? Já jantou?”
“Sim. E você?”
“Comi alguma coisa no escritório.”
Ela assentiu e se sentou na beira da cama, o celular nas mãos, mas sem realmente olhar pra ele. Peguei um comprimido na gaveta da cômoda, engoli seco e voltei a me sentar na poltrona.
“Não faz bem tomar remédio sem água, sabia? Você pode engasgar.” Sorri de canto.
“Eu sei. Mas a cozinha parece longe demais agora. Minha cabeça tá me matando.”
Ela me observou em silêncio por alguns segundos.
“Se quiser, posso fazer uma massagem. Geralmente ajuda.” Ela sugeriu repentinamente e levantei o olhar, surpreso.
“Massagem?” Ela respirou fundo, com certa impaciência.
“Nada demais, Peeta. É só um exercício que aprendi quando tinha muita dor de cabeça. Pode ajudar.” Hesitei por um instante, mas acabei concordando.
Ela se levantou, ajustou novamente o roupão, outro gesto automático, como quem quer esconder o que já está coberto e caminhou até o interruptor. Apagou a luz principal, deixando apenas as luminárias acesas. “A luz forte piora a dor.” Ela comentou, antes de se aproximar. Quando parou atrás de mim, hesitou por um instante. As mãos pairaram no ar antes de finalmente tocarem minhas têmporas. O toque era frio, mas agradável. Hesitante, como se ela temesse ultrapassar algum limite invisível. “Fecha os olhos e tenta relaxar.” Ela pediu baixinho.
Obedeci.
Os movimentos começaram lentos, cuidadosos. As pontas dos dedos deslizavam com leve pressão, alternando entre as têmporas e o couro cabeludo. A dor começou a ceder um pouco dissolvendo-se sob o toque dela. Ela respirava de maneira contida, quase tensa.
Mas havia algo profundamente terno naquela hesitação. Era um certo cuidado e zelo. E, embora parecesse loucura, havia calma naquele toque. Uma calma que vinha dela. Mantive os olhos fechados e apenas deixei que as mãos dela continuassem o movimento.
E, pela primeira vez em muitos dias, deixei a mente vazia.
Sem trabalho.
Sem preocupações.
O silêncio e o toque frio das mãos dela tornaram a dor mais suportável.
O sábado amanheceu bonito, típico do início do verão. Havia dormido bem na noite anterior, e acordei mais disposto do que esperava. Quando entrei na cozinha, minutos depois e Katniss já estava lá, terminando o café da manhã em meio a uma conversa tranquila com Miriam.
Cumprimentei as duas, pegando uma xícara e me servindo de café puro.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!"Deseja algo especial essa manhã?” Miriam perguntou, sempre atenta a tudo. Balancei a cabeça e sorri.
“Nesse momento, só o café. E esse pão, que parece maravilhoso. Obrigado.” Ela sorriu e voltou aos afazeres. O cheiro de pão recém-saído do forno misturava-se ao aroma do café, uma combinação familiar, acolhedora. “Prim ainda não desceu?” Perguntei, observando o movimento da cozinha.
“Ela saiu há pouco. Ia para biblioteca.”
“Ela já decidiu algo sobre a faculdade?” Katniss suspirou.
“Ainda não.” Embora tivesse ido muito bem no vestibular, Prim não havia conseguido bolsa nas universidades em que tentou, pelo menos não para o curso de Medicina embora tivesse nota suficiente para o curso pago, mas segundo ela, o foco agora era terminar as provas do colégio, mas eu sabia que no fundo Prim estava ponderando sobre os custos. Fiz uma nota mental para conversar com ela depois. “Vamos na sua irmã hoje?” Katniss perguntou mudando de assunto enquanto pegava uma tigela de frutas.
“Sim. Não consegui passar lá durante a semana.” Estava decidido que mesmo tendo algumas pendências de trabalho, aquele seria um dia de lazer. Toda a família se reuniria na casa da Annie para o almoço, e minha mãe certamente transformaria o encontro em um pequeno evento agradável.
“Ótimo. Preciso falar com a Effie sobre o quarto da bebê. O arquiteto ligou ontem, quer uma decisão sobre o tema.” Ergui a sobrancelha, surpreso. Era curioso ouvi-la se referir à minha mãe dessa forma e não como “sua mãe”, como fazia antes.
“Você já decidiu?” Ela deu de ombros, sorrindo.
“Ainda em dúvida. A dúvida está entre princesa e floresta encantada. Gosto do tema princesas, mas é um pouco clichê, muita gente escolhe. Quer opinar?”
“Oh, não. O tema fica por sua conta. Quando estiver decidido, aí eu entro com a minha opinião.”
“Vamos deixar você opinar depois então. Só não garanto que vamos considerar suas opiniões."
“Muito obrigado.” Fingi certa ironia e ofensa, arrancando um pequeno sorriso dela.
Estava no meio do café quando Brutus apareceu na porta da cozinha. A expressão dele bastou para alterar o ar calmo da manhã
“Senhor… temos um problema.” A voz de Brutus soou firme, mas com aquela hesitação que denunciava urgência. Deixei a xícara sobre o pires.
“O que foi?” Ele se aproximou, o tablet nas mãos.
“Acabou de sair.”
Peguei o aparelho. A imagem tomou a tela imediatamente eu, Katniss e Alex, lado a lado na primeira fileira do ginásio, durante o jogo da semana passada.
O enquadramento era perfeito, profissional demais para ser casual.
Uma foto de um momento casual, fora de contexto, parecia algo completamente diferente. E, acima dela, em letras garrafais, o título que me fez gelar.
PADRINHO OU PAI?
Um dos homens mais ricos de Panem estaria escondendo um filho da adolescência?
Por um instante, o tempo parou. O som dos talheres cessou. O cheiro agradável de café desapareceu. Até os pássaros do jardim pareciam ter ficado em silêncio. Olhei a imagem novamente. Katniss sorrindo de leve, Alex entre nós, concentrado no jogo uma cena inocente, transformada em combustível para escândalo.
O tipo de veneno, de fofoca cruel que se espalha rápido demais.
Engoli em seco, o estômago apertando enquanto meus olhos passavam pelo texto rapidamente.
E, de repente, o sábado tranquilo perdeu toda a leveza.

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