Linha Tênue
32 Bônus III: Hora do peão tirar o cavalo do jogo.
Notas iniciais
Como um dos maiores jogadores de xadrez do mundo costumava dizer: "Estratégia é quando você olha para uma posição e entende o que pode acontecer no futuro, antes de tomar qualquer decisão."
E aquele era o momento em que eu precisava focar nisso. Qualquer decisão precipitada poderia colocar tudo a perder, e eu não podia me deixar levar pela emoção, não naquele momento. Era preciso manter os planos, afinal, eu sempre fui bom em elaborar planos.
Me recostei na cadeira, inclinando-a para trás, tentando relaxar um pouco. Malditos sejam Phillip e Paula Everdeen. Ao longo da minha vida, especialmente nos últimos dez anos, conheci muitas pessoas desprezíveis que valorizavam mais o dinheiro e o status social do que as pessoas, mas poucas foram tão desprezíveis quanto eles, a ponto de desprezar uma das filhas por uma escolha pessoal.
A atitude mesquinha de Paula Everdeen e todo aquele espetáculo haviam definitivamente arruinado uma boa noite, onde todos estavam se divertindo. O que tornava tudo ainda pior era que eu não tinha intenção de me envolver na bagunça que estava o relacionamento de Katniss com sua família, mas aquilo estava afetando Prim, e já havia ultrapassado os limites aceitáveis.
Olhar para Prim, tão frágil, mas ao mesmo tempo tão forte, tentando lidar com todos os preconceitos de uma mãe que aparentemente não nutria qualquer sentimento verdadeiro pelas filhas, mas que ainda assim era mãe dela, era de cortar o coração.
Obviamente, eu sabia que os Everdeen haviam expulsado a filha mais nova de casa. Sabia também que Katniss não queria que eu soubesse os detalhes que se seguiram ao dia em que sua irmã me informou que havia saído de casa e iria morar com o novo namorado, mas não havia como ignorar a situação. Algo havia acontecido quando elas foram à casa dos pais, pouco depois de Prim começar a morar ali. Darius contou que ambas saíram de lá visivelmente abaladas. Prim não parecia ter levado muita coisa na mudança, e era Katniss quem vinha arcando com as despesas da escola e dos materiais necessários para a educação da irmã. Mesmo assim, eu não estava preparado para o que acabara de acontecer.
A cena me fez lembrar de tudo que ocorreu dez anos atrás, quando pais, mais preocupados com a opinião dos outros, agiram da mesma forma com a única filha. A maneira como Paula falava lembrava muito os Chaney falando com Lavinia, quando souberam da gravidez.
A lembrança de como minha melhor amiga ficou após a fatídica conversa com os pais, e a recusa deles em aceitar a ideia de que ela queria ter o bebê, ainda era um tema que evitávamos tocar. No fundo, eu sabia o que era ser abandonado por aqueles que deveriam simplesmente te amar. Embora tenha tido a sorte de ser adotado por pais extraordinários, meus pais biológicos me deixaram. Não foram capazes de me amar o suficiente para ficar comigo. Seria hipocrisia dizer que esse sentimento ainda estivesse presente em minha vida, pois todo o amor e a sensação de família que vivi com meus pais e minhas irmãs empurravam esse tipo de pensamento para um canto bem escondido. Sem contar que elas, ao contrário de mim, haviam sido criadas por essas pessoas; eram a única família que conheciam. Eu mal me lembrava de ser abandonado, embora lembra-se vagamente de lares temporários antes do acidente.
Eu havia tido uma sorte imensurável com minha família, não tinha dúvidas do amor que meus pais e minhas irmãs sentiam por mim. Nunca me senti diferente. Meus pais me ensinaram muitas coisas valiosas e sempre me apoiaram em tudo, inclusive quando trouxe minha melhor amiga para casa, com uma mochila nas costas e os olhos cheios de lágrimas. Lavinia não tinha para onde ir, e eu não podia deixá-la nas ruas. Meus pais não hesitaram em dizer que ela poderia ficar, que terminaria os estudos, e que eles estariam ali para ajudá-la.
Alex não era meu filho, mas meus pais sempre o consideraram como um neto, porque, no fundo, minha amiga se tornou como uma filha para eles, assim como uma irmã para mim. Eu a defenderia assim como faria com Delly ou Annie, e, mais cedo, havia sentido que deveria fazer o mesmo por Prim.
A única Everdeen que realmente era diferente, que exalava bondade e via as pessoas além de seu status financeiro. Havia algo nela que me lembrava muito minhas próprias irmãs, e ouvir todo aquele absurdo me fez reagir. Embora esperasse que Katniss fosse defender a irmã logo de cara, percebi o quanto ela estava perdida e o quanto os pais pareciam não ouvir. Estava claro que ela não aceitava as palavras da mãe, que não queria que a irmã se magoasse, mas por um momento, vi uma filha sem voz, como se ela não tivesse forças para enfrentar a mãe de fato. Então, ela simplesmente desviava dos conflitos. De certa forma foi preciso alguém, no caso eu para iniciar a defesa da situação, e confesso que o fato da morena ganhar pelo menos um pouco de voz contra os pais, mesmo que no final da discussão era algo bom para o relacionamento dela e da irmã. Mas não adiantava pensar nisso, no fundo o que precisava mesmo era de uma boa noite de sono ou acabaria fazendo alguma besteira.
Subi em direção ao quarto. A maior parte das luzes da casa estava apagada, como de costume. Assim que entrei, avistei a morena fingindo dormir, como fez nos outros dias. E, como esperado, segui direto para o banheiro para uma ducha rápida.
Antes de me deitar na cama, percebi a tensão visível nela. Mesmo com o abajur apagado, virada para o lado da sacada fechada, de costas para mim, era óbvio que ela estava acordada. Definitivamente, ela já havia fingido melhor nos últimos meses. Ignorei, deitando do meu lado da cama, apaguei a luz do abajur. Estava quase pegando no sono quando senti a luz do abajur dela acender no quarto.
"Obrigada." O agradecimento saiu baixo, quase inaudível. Ela era orgulhosa, isso estava claro. Definitivamente, aquilo estava sendo difícil para ela.
Virei na direção dela e a vi, com o cotovelo apoiado na cama, olhando para mim. O cabelo solto, ligeiramente desalinhado, como se tivesse se virado várias vezes no travesseiro.
"Pelo quê, exatamente, Katniss?"
"Por defender a Prim. Por aparentemente não envolvê-la em tudo isso. Por deixá-la ficar. Ela... ela não é como meus pais." Houve uma pausa, como se ponderasse as palavras que iria usar. "Ela não é como eu. Nunca foi."
"Eu sei." De fato, eu sabia. Assim como sabia que Katniss amava profundamente a irmã, embora não entendesse exatamente o que Prim estava passando. E, com certeza, não estaria na mesma situação que ela de jeito nenhum. Mas, Katniss a amava e parecia disposta a protegê-la, como qualquer irmã deveria fazer. "Não tenho nada contra sua irmã, Katniss. Como já disse, ela é bem-vinda para ficar. E, embora você possa discordar, sou um homem de palavra e, me considero justo."
"Justo..." Ela riu com ironia, e eu a observei por um momento antes de continuar.
"Justo... pelo menos com quem merece."
"Sim, claro. Pena que essa 'justiça' não se aplica a mim."
"Você acha que não? Talvez seja hora de revisar seu conceito de justiça. Eu ofereço às pessoas, no mínimo, o equivalente ao que elas me oferecem."
"Ah, sim. Porque você é o juiz, o júri e o executor, não é mesmo?" Ela disse com sarcasmo, sem esconder o desprezo na voz, enquanto se sentava na cama.
"Disso você entende, não é? Fez esse papel por muito tempo." Me sentei também, olhando diretamente nos seus olhos.
"Você acha que me conhece, mas não tem a menor ideia de quem eu sou."
"Eu sei o tipo de pessoa que você é e o que é capaz. Isso é suficiente pra mim." Observei enquanto ela se aproximava, talvez involuntariamente, ou talvez para garantir que ouvisse o que ela dizia, já que seu tom estava mais baixo do que antes.
"Que tipo de pessoa você acha que sou?" me aproximei um pouco mais também, embora não tenha encostado nela.
"Alguém egoísta, que valoriza bens em vez de pessoas, que quer ser o centro do universo. Alguém que pensa em si mesma a maior parte do tempo, que faz o que quer sem se importar com o impacto nas outras pessoas. Alguém que sempre teve tudo o que quis, sem limites." Ela riu, olhando para o teto por um momento. "Me diga você sabe o que é querer algo e não ter? Já desejou muito uma coisa que não podia ter?"
Estávamos tão próximos que, por um breve instante, vi algo em seus olhos que me intrigou, como se a pergunta carregasse um peso maior do que parecia. Mas foi rápido, quase imperceptível, assim como o silêncio dela.
"Você não me conhece. Mesmo assim, não está totalmente errado. Mas você não é tão diferente de mim agora, não é mesmo? Tudo deve girar em torno de você. Agora você tem dinheiro e faz o que quer. Não aceita um 'não' na sua vida. E o fato de eu estar aqui é a prova de que você não aceita querer algo e não ter. Não aja como se fosse tão melhor do que eu."
Sabia que ela queria me provocar, ou, talvez, não queria mostrar que minhas palavras a afetaram. Eu queria muito revidar, mas estávamos perto demais. Quando dei por mim, ao invés disso, selei meus lábios nos dela. Minhas mãos foram instintivamente para sua nuca, e, como nas últimas vezes, não houve resistência da parte dela. Esses embates com ela eram uma das poucas coisas que realmente me tiravam do sério. O modo como ela sempre tentava manter a superioridade me deixava intrigado e irritado. Katniss era o sinônimo de tudo o que eu odiava em uma pessoa, mas, ainda assim, meu corpo reagia à nossa proximidade de uma forma que eu odiava admitir, mas que era difícil de controlar.
Eu precisava parar; havia limites que precisavam ser estabelecidos novamente. No entanto, no momento em que comecei a me afastar, ela se deitou na cama, puxando-me para perto com as mãos em meu cabelo, intensificando ainda mais o beijo.
“Katniss...” Usei todas as minhas forças para me afastar, embora a única coisa que realmente desejasse fosse ultrapassar o tecido da camisola de seda preta que ela vestia. Precisávamos parar, não podíamos continuar assim. “Não podemos fazer isso.” Decretei e ela pareceu pensar por um momento antes de falar.
“Somos dois adultos. Eu sei que você me odeia e que não tenho sentimentos por você, então por que não continuar?” Fiquei em silêncio, sentindo o corpo dela embaixo do meu. “Se você não sente nem um pouco de prazer, podemos parar. Mas se, assim como eu, você sente, não vejo razão para interromper isso.”
Fechei os olhos por um momento. Katniss era quase como meu inferno pessoal. Eu desejava que ela pagasse por tudo, queria vê-la sofrer da mesma forma que eu havia sofrido anos atrás. Odiava a maneira como ela era e como vivia a vida. No entanto, seria hipocrisia da minha parte negar que ela era linda e que eu ansiava por todas as sensações que poderíamos compartilhar juntos. O sexo entre nós era inegavelmente bom, e eu podia sentir meu corpo clamando por isso. Era possível sentir cada célula do corpo dela reagindo à nossa proximidade; a respiração quente próxima ao meu rosto era como um combustível extra para perder o controle. Naquele momento, por mais que seu cérebro gritasse pedindo para parar, para ser sensato e não fazer aquilo de novo, era difícil ouvir, principalmente com a perna dela roçando na minha como se para provocar.
Sem dizer uma palavra, encurtei a distância entre nós, beijando seus lábios com mais ansiedade e permitindo que minhas mãos deslizassem lentamente pelo seu corpo, primeiro por cima da camisola até alcançar a bainha e, em seguida, fazendo o caminho inverso por dentro do tecido, erguendo aos poucos. Sem pressa, já havia percebido que ela não gostava de pressa. Notei também a sensibilidade na linha do seu pescoço, onde não hesitei em levar meus lábios logo depois de me livrar da camisola, deixando meu corpo sentir o dela. Katniss me puxou para mais perto, então fui descendo lentamente os lábios, fazendo uma trilha de beijos lentos pelo corpo dela, que reagia a cada toque e a cada beijo. Isso só aumentava minha excitação e, apesar de todo o ódio que nutria, desejava que ela sentisse tanto prazer quanto eu. Sempre acreditei que um bom sexo precisa ser satisfatório para ambos; a reação da minha parceira era parte do que me dava prazer. Sexo era algo mútuo, não individual; independentemente do que tínhamos ou do que sentíamos, aquilo era sexo e deveria ser prazeroso para os dois.
Ela girou nossos corpos, posicionando-se por cima de mim, e eu não fiz questão de impedir. Embora eu gostasse de estar no controle e de conduzir a situação nas minha experiencias anteriores, com Katniss, havíamos estabelecido silenciosamente um jogo de dominação que era irresistível. Não me surpreendia que ela quisesse assumir as rédeas; devo admitir que ela sabia exatamente o que estava fazendo. E a visão dela em cima de mim era maravilhosa e uma das mais intensas que eu já havia experimentado, aumentando minha excitação. Aquele era o meu momento de simplesmente sentir os lábios dela deslizando pelo meu corpo. Em breve, eu inverteria as posições, e tinha certeza de que ela não iria se opor. Poderíamos repetir isso várias vezes, entregando-nos ao máximo para explorar o poder e o controle um sobre o outro. Nesse instante, nada mais importava; era puro instinto. Éramos duas pessoas completamente focadas em dar e receber prazer.
Olhei para o relógio e já passava das quatro da madrugada. Podia sentir o cheiro dela no travesseiro já que estava deitado no lado dela da cama. Ao meu lado, a respiração dela era lenta e tranquila. Não fazia muito tempo que ela havia finalmente adormecido. Não poderia dizer que estava arrependido; essa não era a sensação que me dominava. No entanto, não conseguia dormir. Muitas coisas passavam pela minha cabeça naquele dia, e decisões importantes precisavam ser tomadas.
Senti o movimento do corpo dela ao meu lado e a observei por um momento. Ela havia mudado de posição, saindo de bruços e se virando levemente de lado, com parte do lençol cobrindo seu corpo, embora a maior parte ainda estivesse à mostra. Katniss não era o tipo de mulher insegura em relação ao próprio corpo, e não fazia sentido que fosse.
Admirei a bela visão da mulher deitada na minha cama. Eu já conhecia cada parte do corpo dela. A carreira de modelo teria sido uma opção viável, sem dúvida. Nos últimos anos, antes de reencontrá-la, imaginei que esse era o caminho que ela havia seguido. Saber que ela havia escolhido outro rumo foi uma surpresa. Katniss ainda guardava mistérios que me intrigavam, coisas que pareciam não se encaixar, embora tivesse buscado o maior número de informações possíveis sobre ela.
Um exemplo disso era a fina cicatriz abaixo do umbigo, quase imperceptível, que parecia ser o resultado do trabalho de um bom cirurgião plástico. Não encontrei nada em seu histórico médico dos últimos dez anos que explicasse aquilo. E definitivamente, ela não tinha essa cicatriz na época da escola. As líderes de torcida usavam mais de um modelo de roupa para os jogos, e um deles, normalmente utilizado no início ou no final do ano letivo, provavelmente devido aos dias mais quentes, era uma saia com a costura em V abaixo do umbigo. Aquela cicatriz teria ficado visível.
Talvez fosse um procedimento estético realizado quando ela ainda tentava a carreira de modelo, ou algo feito para agradar a mãe, mas que não constava em seu histórico médico. Provavelmente feito em uma clínica discreta. Não tinha motivos para ficar pensando nisso naquele momento e definitivamente precisava dormir, então apaguei o abajur, evitando pensar em tudo que estava acontecendo.
Os dias que se seguiram à visita inusitada dos Everdeen foram consideravelmente tranquilos, considerando o turbilhão de acontecimentos que estava passando. O escritório estava a todo vapor devido aos lançamentos com datas já marcadas. Havia grande expectativa sobre o novo console, que tinha a pré-venda programada para segunda quinzena de dezembro, o que aumentava a expectativa sobre um volume significativo de vendas durante o período de Natal. Mesmo que os clientes tivessem que esperar três meses até o lançamento, o comercial e o marketing estavam confiantes no sucesso e na nossa consolidação no mercado de games. Especialmente depois do sucesso do PC gamer de alta performance lançado no ano anterior, que havia marcado nossa estreia em um dos maiores e mais lucrativos segmentos do setor tecnológico.
"Essa integração da assinatura do catálogo de jogos do console com o PC não me parece lucrativa", comentou Seneca, mais uma vez apresentando sua visão sobre a venda do nosso serviço de assinatura para a nova plataforma. "Acredito que poderíamos criar um pacote mais caro que contemplasse isso, mas no valor atual, não vejo vantagem. Estamos atrás de um público novo, mas também seria interessante gerar lucro com nossos jogadores já existentes."
"Nossos clientes já pagam assinatura para jogar no PC. Por que iriam pagar mais caro para jogar no console?" Delly, sentada ao meu lado, questionou e fiquei em silêncio enquanto Seneca respondia.
"Embora os PCs gamers estejam cada vez mais potentes e rápidos, incluindo o nosso modelo a jogabilidade no console é diferente. Estamos planejando lançar jogos exclusivos que podem entrar no serviço de assinatura, o que, sem dúvida, incentivará os consumidores a pagar por uma assinatura mais cara, ou quem sabe uma outra assinatura com desconto para quem já for assinante do serviço para PC."
"Mas onde está o benefício para o consumidor?" Annie, perguntou de forma analítica e Seneca ficou em silêncio por um momento, antes de continuar.
"São plataformas distintas, e por isso devem ter preços diferentes. Estamos entrando em um mercado novo, com concorrentes fortes, e os custos para firmar parcerias e obter licenças para novos jogos são altos. Sem contar os investimentos previstos nos lançamentos exclusivos que estão em nossos planos. Os lucros não virão de imediato. É preciso investir agora para colher os frutos depois." Seneca era bom nos negócios, mas geralmente só pensava em lucros e números era hora de intervir e colocar um ponto final na proposta.
"Não vamos cobrar duas vezes de um mesmo consumidor para que ele jogue em plataformas diferentes."
"Senhor Mellark, é preciso pensar nos ganhos." Ele insistiu e respirei fundo antes de responder com firmeza.
“Sim, e nós vamos colher esses lucros no momento certo, mas não vamos fazer isso às custas dos nossos consumidores. Nossos clientes são leais à marca Crane, e essa fidelidade é o que sustenta nosso negócio. Não vamos arriscar quebrar essa confiança. Quem já tem a assinatura no PC também terá acesso ao serviço no console. Novos assinantes pagarão o valor sugerido para a nova plataforma e terão acesso aos jogos no PC, conforme o sistema. Vamos ser justos com nossos consumidores, sem tirar vantagem deles."
Minhas irmãs concordaram, mas percebi que alguns diretores presentes não estavam tão satisfeitos com minha decisão. “Mais alguma pauta?” perguntei, observando todos negarem com a cabeça. “Ótimo, espero que todos aproveitem o feriado. Na segunda-feira, temos uma reunião importante com o marketing para falar sobre a divulgação do console, mas também sobre os novos dispositivos de casa inteligente. As vendas estão crescendo bastante.”
Vi a maioria dos presentes se levantar e se despedir educadamente, deixando a sala de reuniões, restando apenas minha família.
“Nem acredito que a última reunião do dia finalmente terminou.” Finn se recostou na cadeira, afrouxando o nó da gravata com naturalidade. “Não vejo a hora de chegar na casa da minha sogra e devorar todas as maravilhas que me aguardam pelos próximos quatro dias.”
“Quem escuta pensa que você não tem comida em casa.” Annie ainda digitava algo no notebook, olhando para o marido por cima da tela.
“Qual é, amor? Quatro dias de folga, sem papelada, sem ligações... é um verdadeiro paraíso! E vamos poder nos curtir também. Aquele piquenique ainda está nos meus planos.” Finn sorriu, sem dúvida atingindo seu objetivo já que minha irmã sorriu de volta.
“Bom, deixa eu buscar o Alex em casa. Ele já mandou umas dez mensagens perguntando se estou a caminho.” Lavínia guardou suas coisas na bolsa e se levantou, indo em direção à porta. “Você ensinou meu filho a ser pontual, e isso é irritante às vezes, Peeta.” Sorri, pensando em como Alex sempre valorizou a pontualidade desde pequeno. “Encontro vocês daqui a pouco.” Ela saiu apressada.
“Thresh está chegando aqui no prédio também. Por algum milagre, estamos todos no horário, o que é ótimo. Detestaria chegar no Distrito 12 somente amanhã de manhã.” Delly comentou enquanto digitava algo no celular.
“Podemos aproveitar e jantar juntos. Tenho certeza que consigo uma mesa naquele restaurante perto do aeroporto.” Annie não demorou para pegar o celular. “Será que a Katniss e a Prim conseguem nos encontrar lá em meia hora?”
“Provavelmente não, Katniss sempre está atrasada.” Delly revirou os olhos, enquanto Annie manteve sua postura neutra, como sempre fazia ao ver o posicionamento da irmã mais nova sobre minha esposa.
“Até nisso vocês são diferentes.”
“Os opostos se atraem, não é o que dizem?” Usei um tom leve, tentando não gerar uma confusão.
“Vai dizer que amar também é aceitar os defeitos um do outro?”
“Delly, por favor, Ação de Graças, lembra?” Annie interveio antes que qualquer discussão se iniciasse. Mas pude ouvir Delly murmurar algo sobre o Ação de Graças ser só no dia seguinte. “Então vou pedir uma mesa para cinco.”
“Para quatro, apenas. Não vou conseguir acompanhar vocês.” Os três me olharam, confusos. “Tenho uma reunião ainda.”
“Não tem reunião, já passa das seis e nossas secretárias foram orientadas para que essa fosse a última do dia. Só segunda-feira, agora.” Annie olhou o que acredito ser sua própria agenda no computador.
“Não é da M.Company, são outros negócios.”
“Ah, sim, claro. Seu negócio falido.”
“Delly...”
“Não quero discutir, Annie. Só estou falando a verdade.”
“Negócio falido ou não, tenho que ir.” Levantei, tentando evitar qualquer possível confronto desnecessário. “Encontro vocês no aeroporto.”
Eu havia pedido a uma das minhas advogadas que me acompanhava na empresa para marcar uma reunião sem informar que eu estaria presente, para saber se meu sogro apareceria. Dada a situação da empresa, esperava que sim, mas não me surpreendi quando, ao chegar no escritório da Mockingjay, descobri que Phillip Everdeen não estava lá. E não era pelo horário tardio da reunião, a verdade é que ele nunca estava no escritório. Isso me fez pensar sobre como a empresa conseguiu sobreviver tanto tempo. Afinal, como meu pai sempre dizia, "o que engorda o gado é o olho do dono". Sendo um dos sócios e presidente, era de se esperar que ele estivesse mais presente ou, pelo menos, tivesse alguém de confiança para ajudar a tocar os negócios.
“Senhor Mellark, que bom vê-lo.” Sorri para a secretária, pedindo desculpas pela hora, ainda mais sendo véspera de feriado. Ela apenas sorriu e me conduziu até uma sala, onde o contador já me esperava, junto com Johanna. Notei a surpresa dele ao me ver, mas fingi não perceber.
“Agradeço pela presença de vocês. Realmente, não consegui marcar mais cedo, sei que é véspera de feriado, então vamos ser rápidos, para que possamos ir ao encontro de nossos familiares ou amigos.” Sentei na cadeira na ponta da mesa. “Então, Gloss, como estão as contas dos últimos meses?” Eu já havia dado uma olhada nos documentos que ele me enviou, mas queria ouvir sua versão. Enquanto ele começava a falar sobre os números, eu observava atentamente os papéis. Aquelas contas estavam uma bagunça, e eu sabia que ele estava tentando esconder algo. “Você conseguiu fazer o levantamento que pedi?” perguntei depois de ouvi-lo por quase trinta minutos tentando justificar os números, que não tinham justificativa alguma. Ele hesitou, parecendo desconfiado, mas me entregou uma pasta. Eu a peguei e a passei para Johanna. “Johanna, pode dar uma olhada nisso, por favor? E me dê seu parecer.”
“Posso passar as informações que precisar, senhor Mellark.”
“Nada contra o seu trabalho, Gloss, mas eu já trabalho com Johanna há anos. Preciso de uma visão menos contábil e mais jurídica, se é que me entende.” Ele não pareceu muito satisfeito com a observação, mas se calou.
“Para quando precisa disso?” Johanna perguntou, com sua habitual objetividade. Ela era de minha inteira confiança e começou a trabalhar comigo quando as coisas começaram a crescer, e desde então, não houve ninguém fora minha família em quem eu confiasse mais. Ela havia deixado seu cargo na M.Company para me representar na Mockingjay, com a promessa de que, assim que as coisas se estabilizassem, ela retornaria ao seu confortável escritório, resolvendo as coisas que Finn não queria resolver.
“Aproveite o feriado, Johanna, mas o mais rápido possível.” Ela assentiu com a cabeça, mas sabia que teria as informações prontas até segunda-feira, talvez antes. Afinal, Johanna era uma das poucas pessoas que odiava feriados, especialmente aqueles com reuniões familiares. “Algum outro ponto, Gloss?”
“Ah, sim. A senhorita Katniss Everdeen…” Ele fez uma pausa ao perceber o olhar que eu lhe lancei. “Quer dizer, a senhora Mellark, entrou em contato várias vezes nos últimos dias pedindo documentos da empresa, números, resultados antigos e recentes.”
Eu já sabia disso. Depois da conversa que tivemos, na qual ela pediu um tempo para tentar trazer uma solução, era comum vê-la se afundando em papéis e à frente de um computador.
“Estou ciente. Ela está se inteirando de alguns aspectos do negócio,” respondi, sem demonstrar muita emoção ou dar maiores informações.
“Isso é bom, quer dizer, a Mockingjay é um negócio de família, da família dela. Sei que o senhor Everdeen sempre quis que ela assumisse a presidência.”
“Não concordo. A Mockingjay deixou de ser uma empresa de família quando abriu capital, e depois da saída do Plutarch, isso ficou ainda mais claro.” Ele estava, de fato, envolvido nas artimanhas da empresa, mas eu não me importava. “Katniss não vai assumir a presidência. Tenho outros planos para minha esposa. Mas, pode continuar enviando os documentos que ela pedir.”
Estava curioso para saber que tipo de "solução mágica" ela traria. “Acho que podemos encerrar por hoje. Tenho uma longa viagem pela frente.” Levantei e apertei a mão dele. “Johanna, posso te oferecer uma carona?” Ela confirmou com um aceno e seguimos juntos, em silêncio, até meu carro na garagem. Dirigi até o estacionamento, onde ela havia deixado o próprio veículo. “Então, como realmente estão as coisas?” perguntei, quebrando o silêncio confortável entre nós.
“Horríveis. Não sei nem por onde começar a descrever a confusão que é essa empresa. Sem contar que o Phillip Everdeen me odeia, pelo menos nos poucos momentos em que ele aparece aqui. A fábrica no Distrito 12 está um caos. Em resumo minha sugestão seria fechar tudo hoje mesmo.”
“Vamos segurar mais um pouco,” respondi, calmo.
“Você gosta de rasgar dinheiro, é isso? Se quiser pode me dar esse dinheiro, me ajudaria muito sabia.”
“Você é bem paga, Johanna.”
“Estou começando a achar que não o suficiente para tanta confusão. Eu era minimamente feliz na M.Company. Pelo menos lá as pessoas sabiam trabalhar.” Sorri, não levando a sério o último comentário. Conhecia bem o jeito dramático dela, mas também sabia o quanto ela era comprometida com o trabalho. “ Bom aqui estão os resultados verdadeiros que localizei essa semana, assim como minhas observações.” ela estendeu uma pasta preta.
“Obrigado! Em breve, você vai ter mais trabalho, mas prometo que vai ter uma boa bonificação de Natal.”
“Mais trabalho quanto?”
“Já pensou em assumir a presidência?”
“Não, por favor, não. Deixa aquele velho lá.” Ela fez uma careta, e eu sorri, sabendo que tirar a presidência de Phillip estava nos meus planos há algum tempo. Agora, após os últimos acontecimentos, eu desejava ainda mais.
“Vai ser por pouco tempo, te aviso assim que tomar a decisão.”
“Detesto você.” Ela abriu a porta do carro com uma dramatização excessiva, e eu ri.
“Mentira, você me adora. Sou seu amigo mais próximo.”
“Não tenho amigos.” E com isso, ela saiu do carro e caminhou em direção ao seu próprio veículo.
Acabei pegando um trânsito considerável para uma quarta-feira a caminho do aeroporto. Embora fosse uma hora atípica, muitas pessoas estavam indo em direção ao aeroporto ou à rodovia que levava à saída da Capital devido ao feriado. Embora eu não tenha me atrasado para o horário combinado de decolagem, não me surpreendi ao encontrar todos já esperando por mim dentro do avião. Após uma rápida saudação, me sentei ao lado da minha esposa no fundo da aeronave, beijei levemente seus lábios — como esperado de um bom marido — e, enfim, afrouxei o nó da gravata, abrindo os botões da gola da camisa. Ela não disse nada, mas me lançou um olhar desconfiado.
A comissária de bordo se aproximou e me ofereceu uma bebida. Aceitei, voltando minha atenção à conversa que acontecia entre os outros passageiros. Não demorou muito para que o piloto anunciasse que havia recebido permissão para decolagem, e, logo, estávamos no ar no horário programado, com previsão de chegada por volta das 2 da madrugada. Minha mãe já havia reclamado sobre o horário e, sem dúvida, continuaria a reclamar quando chegássemos já que como sempre ela achava que deveríamos sair mais cedo.
Logo, a cabine ficou mais tranquila. As pessoas começaram a se voltar para conversas particulares em tons mais baixos ou a assistir aos filmes disponíveis. Observei Prim e Will no assento na minha frente. Eles formavam um belo casal, e, apesar do alvoroço que os Everdeen estavam fazendo, ninguém parecia realmente tentar conhecer Will para avaliar se ele era uma boa pessoa. Para sorte de Prim, ele parecia ser.
Nos últimos meses, havia incentivado Prim a levar Will em casa e sugerido várias saídas em casal para ter a oportunidade de conhece-lo melhor. Ele se mostrou uma pessoa boa, humilde e esforçado, algo que ficava claro à medida que mais pessoas o conheciam. Para conseguir esses quatro dias de folga, ele havia trabalhado turnos duplos durante a semana. E, apesar de estar claramente exausto, ainda sorria para Prim a cada palavra que ela dizia. Quando a comissária passou novamente, ele parecia um pouco sem graça ao recusar o serviço de bordo.
Ele havia me contado que seria a primeira vez que voaria e, embora sorrisse, parecia genuinamente nervoso. Convencê-lo a nos acompanhar ao Distrito 12 não foi fácil. Foi necessário uma conversa particular, na qual expressei meu receio de que Prim quisesse ficar na Capital para passar o feriado com ele, e que isso poderia gerar confusão se Paula resolvesse procurá-la. Só então ele cedeu. Outro aspecto inegável era o quanto ele era orgulhoso, uma característica que poderia ser vista tanto como um defeito quanto como uma qualidade. Ele havia até mesmo questionado sobre a passagem para o Distrito 12 e cogitado pegar um voo comercial. Convencê-lo de que sua presença no voo com toda a família não alteraria em nada o valor do transporte e que voos comerciais para o 12 não eram comuns e normalmente difíceis de achar saindo da Capital não foi uma tarefa fácil.
Outro ponto, mais compreensível, foi sua recusa educada à vaga na M.Company. Eu sugeri que marcássemos um horário com o pessoal do RH para verificar a possibilidade de ele se encaixar em alguma posição na companhia, talvez em um dos programas de estágio. Mesmo sabendo que ele ainda não estava estudando, eu tinha certeza de que isso mudaria assim que ele ingressasse na empresa, onde tínhamos ótimos parceiros e programas educacionais. Isso, sem dúvida, seria bom para ele, já que o estágio teria uma carga horária bem menor do que as longas jornadas que ele passava no restaurante. Ele poderia fazer um curso e ter mais tempo para se dedicar a estudar para entrar na faculdade.
Mas Will queria caminhar com as próprias pernas, como ele mesmo disse. Se não fosse por minha ligação, e ele apenas tivesse deixado o currículo, provavelmente não o contratariam, já que ele não preenchia os requisitos para a vaga de estagiário. Eu respeitava isso, mas também sabia que, às vezes, um apoio extra poderia fazer toda a diferença. E tinha planos de ajudá-lo de alguma forma, talvez com uma indicação para os Fuhrman. Não sabia se o salário no clube era tão bom, mas os sócios tendem a oferecer gorjetas generosas, quase como uma competição silenciosa entre eles.
Como esperado, Alex foi o primeiro a adormecer, antes mesmo do fim do filme que estava assistindo. Não demorou muito para que fosse o único acordado, aproveitando a oportunidade para analisar alguns documentos no computador, comparando-os com a pasta que Johanna me entregou mais cedo. Phillip estava brincando com fogo ao testar minha inteligência, e por um momento, olhei para a morena adormecida ao meu lado e me perguntei se ela sabia dos novos desvios. O chefe da família Everdeen era meu próximo alvo. Um cavalo no xadrez que, se bem posicionado, poderia fazer coisas incríveis, mas também limitado, fácil de ser eliminado se não usado corretamente.
Pousamos no horário previsto, e todos pareciam sonolentos ao desembarcar. O tempo estava ligeiramente frio, com o vento cortante. Os três carros já estavam esperando por nós, e não demoramos a seguir pela estrada vazia, naquele horário, em direção à casa dos meus pais. Olhei pelo retrovisor, garantindo que os dois carros, dirigidos por Finn e Thresh, estavam logo atrás de mim.
Encostamos os carros pouco antes das três, na casa dos meus pais, e senti aquela sensação boa de estar em casa, que tanto amava. O clima, o ar, o cheiro tudo era diferente ali e me trazia uma paz inexplicável. Minha mãe estava acordada, esperando por nós, e logo veio ao nosso encontro. Beijei seu rosto rapidamente antes de ajudar Lavinia, pegando Alex, que já havia caído no sono de novo e não parecia disposto a acordar. Ele era um pouco menor e mais magro do que o esperado para sua idade, o que tornava fácil carregá-lo, mesmo quando estava mais pesado por estar dormindo. Segui em direção às escadas, rumo ao quarto dele, que, como esperado, estava prontinho, esperando por ele. O acomodei na cama e o cobri com o edredom, mas antes que pudesse apagar o abajur em formato de lua, ao lado da cama, ele abriu os olhos e não pude evitar sorrir. Como de costume, parecia que a cama tinha uma fórmula mágica para acordá-lo. Sempre foi assim, desde bebê — sempre que o colocávamos no berço, ele acordava.
“Chegamos?” Ele olhou ao redor, fixando os olhos no teto, nas estrelas que havíamos colocado para ficar levemente iluminado, mesmo com o abajur apagado.
“Sim, chegamos, campeão. Você já está no seu quarto, e já passou da hora de dormir.”
“Padrinho, você pode colocar uma cesta de basquete no quintal?” A pergunta me pegou de surpresa. Embora sempre tivesse gostado de esportes tento uma fase onde gostou de futebol, o que Alex sempre gostou mesmo foi de lutas, ele fazia karatê, e antes disso, praticava judô e jiu-jítsu. Talvez fosse minha cara de surpresa, ou o sono, mas ele continuou. “No prédio, a quadra fica sempre cheia de gente e eu não sei jogar ainda.”
“Vamos falar sobre isso amanhã, campeão. Volta a dormir.” Passei a mão nos cabelos dele, que virou para o lado e fechou os olhos. Assim que me virei em direção à porta, vi minha amiga encostada no batente. Ela sorriu e entrou, beijando o rosto do filho antes de me seguir para o corredor, fechando a porta atrás de si. Pude ouvir a movimentação da casa, onde minha mãe provavelmente estava mostrando os quartos de hóspedes que haviam sido arrumados para Prim e Will.
Abri a porta do quarto da frente, o dela, e entramos, fechando a porta.
“O destino gosta de pregar peças, não é?” Lavinia suspirou, sentando na cama, enquanto eu me acomodava na poltrona. “De todos os esportes, basquete… Agora ele tem um time favorito, quer ver jogos, quer aprender a jogar.”
“Quando isso começou? Ele não falou nada até agora pouco.” Embora não fosse a figura paterna dele, sempre fui presente. Levava para passear, estava com ele nos grandes momentos, e falava com ele, mesmo que brevemente, todos os dias.
“Essa semana. Mas ele veio com essa ideia da cesta de basquete quando fui buscá-lo. O que vou fazer, Peeta?”
“Vai deixar ele jogar. Se for uma fase, ele logo vai deixar pra lá. Se não for, e ele realmente for bom, vamos voltar a ver jogos escolares, porque ele não vai querer jogar comigo, eu não tenho a menor habilidade pra isso.”
“Porque não basta as características físicas, não basta o sorriso… Ele tem que gostar das mesmas coisas.” Lá estava o fantasma que ela sempre tentava evitar.
“Ei, o que eu te falei quando ele nasceu?”
“Você sugeriu pintarmos o cabelo dele de ruivo.” Demos risada ao lembrar da cena. Lavinia havia entrado em trabalho de parto prematuramente durante o feriado de Natal. Eu havia chegado da faculdade naquele dia como se ele estivesse me esperando para nascer. Alex nasceu com 32 semanas, muito pequeno, e não foi colocado nos braços da mãe de imediato, já que ele precisava ser levado para a UTI neonatal, então apenas o mostraram rapidamente antes de saírem com ele. Minha mãe havia acompanhado o parto e me avisado que Lavinia estava emocionalmente abalada. Quando a vi, a única coisa que ela conseguia dizer era que ele era loiro, um medo que a assombrava durante a gestação, temendo que ele fosse parecido com o genitor. Quando a acompanhei até a UTI e o vi tão pequeno na incubadora, todos estavam com medo, mas ela, com apenas 17 anos recém completos, sem o apoio dos pais, me perguntou o que deveria fazer, e a frase saiu sem pensar, numa tentativa de amenizar o clima.
“Depois disso…”
“Que alguns tufos de cabelo loiro e alguns traços meramente herdados pela genética não diziam quem ele era, que ele seria a minha bondade e a minha coragem.”
“E ele é, Lavinia. Ele é você inteira. O jeito de andar, falar, as manias tudo nele é você, um pouco é inédito dele mesmo, mas no mais é você. E outra coisa pelo que lembro você gostava de basquete antes de tudo acontecer, então não vamos fazer disso algo grande.” Ela concordou com a cabeça.
“Se ele voltar a perguntar sobre o pai, Peeta, parece que estou andando por um campo minado ultimamente, como se a qualquer momento ele fosse perguntar.” Quando Alex fez essa pergunta anos atrás, soube que o mundo dela havia desabado. Mas ele era pequeno demais e aceitou a explicação simples de que nem toda criança tinha um papai.
“Aí você vai pensar no que dizer na hora, e sabe que posso estar com você se precisar. Eu amo vocês, você sabe disso. E ainda não é tarde para dizer que ele é meu filho,” brinquei, e ela sorriu, meneando a cabeça.
“Obrigada, mas não aceitei isso há dez anos. Não vou aceitar agora.” Embora eu não tivesse qualquer intenção romântica com ela, a proposta de registrar Alex como um Mellark sempre foi sincera. Eu teria sido o melhor pai possível para ele. Não importava as fofocas e o julgamento das pessoas. “Mas eu não teria achado um padrinho melhor pra ele. Você deu pra ele e pra mim muito mais do que um sobrenome sabe disso não é? Você dividiu sua família com a gente, e serei eternamente grata por isso.”
“Ele tem uma família grande e barulhenta,” comentei, apontando com a cabeça para a porta, de onde era possível ouvir a movimentação dos outros indo para seus respectivos quartos. “E uma mãe incrível. Então, pare de ficar colocando minhocas na cabeça mulher.”
“Obrigada, você deveria dormir, está com uma cara péssima.”
“Verdade, essas últimas semanas foram um caos. Boa noite.”
“Boa noite, Peeta.”
Segui pelo corredor e encontrei Finn descendo em direção à cozinha para um lanchinho, Delly reclamando sobre as malas de Thresh, que estavam atrapalhando o caminho, dizendo que ele deveria começar a deixar as coisas na casa. Meu pai estava resmungando sobre o barulho, querendo dormir, mas ninguém parecia levar isso a sério como sempre, com três filhos em idades próximas ele teve muito tempo para se acostumar ao caos noturno. Minha mãe, no entanto, estava cheia de sorrisos, ajudando aqui e ali. Dei boa noite a todos e continuei até o final do corredor, em direção ao meu quarto. Fiquei aliviado ao perceber a redução do barulho assim que fechei a porta atrás de mim.
Katniss já estava puxando o edredom para se deitar. A camisola de seda, que caía perfeitamente sobre seu corpo, era de uma beleza simples, e quase irresistível. Desviei o olhar e fui direto para o banheiro, uma chuveirada ajudaria a dormir. Embora estivesse com fome, a única coisa que realmente queria naquele momento era algumas horas de sono.
Estava prestes a me deitar quando o celular vibrou. Estranhei a hora, mas mesmo assim me levantei e olhei a mensagem. O contato estava sem nome, mas eu sabia exatamente quem era. Por mais que eu quisesse dormir, sabia que, se Brutus estivesse me enviando uma mensagem naquela hora, era porque ele tinha informações importantes:
“Suas suspeitas estavam certas. Conta no exterior.”
“Quanto?” enviei de volta, e a resposta veio quase que imediatamente. Olhei o valor aproximado e não pude deixar de pensar no quanto Phillip Everdeen se achava esperto, se fazendo de vítima diante da filha. Apaguei a mensagem após agradecer pela informação.
Peguei o notebook deixado sobre a escrivaninha e digitei um e-mail rápido, uma decisão que, embora me causasse dúvidas quanto ao momento, já não podia adiar.
“Parabéns, você começa na presidência na segunda-feira.” Johanna provavelmente iria reclamar até a próxima geração, mas a verdade era que já estava na hora de tirar o cavalo do jogo.
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