Linha Tênue

33 Capitulo 30: Ação de Graças


Notas iniciais
Boa noite, pessoal! Primeira atualização do ano e eu estava morrendo de saudade de vocês! O final de ano foi bem corrido, então o capítulo acabou saindo um pouco atrasado, mas desejo um 2025 maravilhoso para todos e que, neste ano, nossos encontros sejam ainda mais frequentes. LT fechou 2024 com muito carinho de todos vocês e fiquei imensamente feliz com a recomendação da Keila Mellark. Muito obrigada de coração! Este capítulo é dedicado a você.

Acordei com o som vindo do corredor e, instintivamente, olhei o relógio do celular. Definitivamente era mais tarde do que eu costumava acordar. Mesmo assim, ainda sentia como se meu corpo não estivesse preparado para o longo final de semana prolongado que estava por vir. Todos haviam dormido tarde depois de chegarmos no meio da madrugada na casa dos meus sogros, ainda sim pela animação visível e pelo som das vozes e risadas, isso não fazia muita diferença para os membros do clã Mellark.

Definitivamente, não estava acostumada a isso, nem a uma casa tão cheia de gente por um período tão longo. Não pude deixar de sentir uma certa dor de cabeça ao pensar no caos e na falação que geralmente marcam os jantares com os Mellark, que agora se prolongariam por quatro dias. Para mim não fazia nem sentido, afinal, o Dia de Ação de Graças nada mais era do que uma refeição em que as convenções sociais diziam ser necessário reunir a família. No entanto, doze pessoas ao redor de uma mesa por, no mínimo, três refeições, além das conversas fiadas e interações desnecessárias durante todos esses dias, exigiam muito de qualquer um.

Já não havia como voltar a dormir, então me sentei na cama e, para minha surpresa, ao invés do costumeiro espaço vazio, encontrei o loiro ainda dormindo, deitado de barriga para cima, com o edredom cobrindo seu corpo até a cintura, sem camisa, como costumava dormir nos últimos dias. Uma mudança sutil ao longo dos meses, que para alguns poderia ser intimidade, porém para mim era logica e praticidade, já havíamos feito sexo mais de uma vez e conhecíamos bem os corpos um do outro, não apenas de olhar, mas também por termos explorado o suficiente para conhecer. Assim, embora ele continuasse muito respeitoso com relação ao meu espaço pessoal, as camisas de pijama ficaram de lado e eu não pensava muito sobre qual camisola usar não para provocar como já havia feito antes , e sim para simplesmente ficar mais confortável.

Levantei e comecei a me preparar para descer. Embora fosse um dia em que minha mãe sempre insistia para usarmos as melhores roupas, sabia que, com a família do loiro, a vestimenta seria mais tranquila. Então, optei por um vestido leve e casual, levemente soltinho, com um delicado decote em na parte superior. A estampa era um floral discreto, suave e muito delicado.

Antes de sair do quarto, parei em frente à cama e observei por um momento o homem deitado nela. Seus cabelos, ligeiramente bagunçados, pareciam o resultado de uma toalha passada às pressas, depois do banho, antes de se deitar. O peito, liso, não era musculoso, mas bem definido. E, mesmo com a cicatriz, ainda era uma visão muito bonita. Ele se mexeu, virando a cabeça para o lado em que estava, mas não abriu os olhos. Como ele conseguia dormir com o barulho da casa inteira e com alguém se arrumando no próprio quarto era um mistério.

Não encontrei ninguém no corredor dos quartos. Bati na porta do quarto destinado à minha irmã na noite anterior e, como não obtive resposta, optei por descer em direção às vozes. A cena na sala de jantar não me surpreendeu; todos já estavam em uma conversa animada ao redor da farta mesa de café.

“Bom dia!” disse de forma geral, e pude ouvir as diversas respostas à minha saudação enquanto me sentava em uma cadeira vazia ao lado da minha irmã.

“Peeta já acordou?” Effie perguntou de maneira gentil.

“Ainda não. Achei melhor deixá-lo dormir mais um pouco. Ele não dormiu no voo e tem trabalhado demais nos últimos dias. ” Tentei usar um tom amigável, eles não precisavam saber que no fundo que só estava evitando o loiro.

“Ele não tem jeito, vai acabar ficando doente. Os cinco vão, de tanto que trabalham naquela empresa.” Ela apontou para os quatro presentes, que fingiram não perceber, concentrados no café.

“Você dormiu bem?” Perguntei à minha irmã enquanto os outros voltavam à conversa.

“Sim, foi pouco tempo, mas foi tão tranquilo. Deixei até a janela aberta para entrar um pouco de ar frio. Fechei com o nascer do sol e dormi mais um pouco.”

“Que bom. E você, Willian?” Perguntei, tentando sorrir. Estava me esforçando um pouco mais desde o incidente com meus pais.

“Dormir muito bem, obrigado. Aqui é tão silencioso.” Concordei ligeiramente com a cabeça, embora discordasse. Achava a casa do loiro muito mais silenciosa, afinal, apesar de estar localizada em um lugar de fato muito tranquilo, aquela casa nunca era realmente silenciosa. Mas lembrei do lugar onde ele morava e da rua movimentada, então foquei em servir uma xícara de café e observar os outros membros da mesa pelos próximos 30 minutos conversando com minha irmã e ocasionalmente com namorado dela.

“Bom dia, família.” O loiro entrou com um largo sorriso e foi recebido com a mesma animação. Notei que ele passou pela cadeira do pai e o cumprimentou com um abraço, beijando a mãe antes de se dirigir até minha cadeira, inclinando-se e beijando levemente meus lábios.

“Até que enfim você acordou, irmãozinho. Pensei que ia dormir até o almoço.”

“Até queria, mas fui traído pelo meu estômago.” Minha sogra começou a falar sobre ele precisar se alimentar melhor e dormir pelo menos sete horas por noite.

“Você está com um semblante cansado, está trabalhando demais.”

“Me diga, Katniss, esse cansaço excessivo do meu cunhado é por causa do trabalho na empresa ou é porque você o faz ter uma dupla jornada em casa?” Vi diversas reações ao redor da mesa entre eles: o olhar furioso da minha sogra, o sorriso do meu sogro e de Finn, Annie escondendo um sorriso atrás da xícara de café. A pergunta me pegou de surpresa e acabei disfarçando o fato que engasguei com uma fruta, tossindo de leve, enquanto o loiro apenas ria, continuando a se servir com naturalidade.

“Thresh!” Delly deu um dos costumeiros tapas no ombro do noivo, que apenas sorriu.

“O que? É válido saber. Se for por causa da empresa, uns dias de folga resolvem. Se for por causa do trabalho em casa, aí não tem o que fazer. Nem ele vai querer ajuda. Vai escolher o cansaço sem pensar duas vezes.” Ele olhou para nós com um sorriso de quem sabia que estava causando desconforto. Tomei um gole de suco antes de responder.

“Eu acredito que os dois, Thresh. Peeta trabalha bastante na empresa e em casa.” Sorri, pensando ironicamente que, de fato, ele vinha passando muito tempo no escritório de casa nos últimos meses.

“Padrinho, você não deve trabalhar em casa. Casa é um lugar para lazer. Mamãe sempre diz isso. Ela não trabalha em casa.” Alex comentou do outro lado da mesa com uma inocência que não pude deixar de notar, claramente não herdada do pai. Esse comentário fez Lavinia engasgar com o suco.

“Acredite, Alex, trabalhar em casa é um momento de lazer para o seu padrinho. Porque, aparentemente, Katniss aqui ajuda ele.”

“Haymitch!” Dessa vez, a advertência veio de minha sogra, que olhou para ele com um olhar sério, embora fosse possível ver que ela estava escondendo um sorriso.

“O que eu disse de errado? Sendo casado há poucos meses, não espero que ele esteja trabalhando em casa sozinho. Isso seria lastimável. Não é, meu filho?”

“Não estou trabalhando sozinho, pai, pode ficar tranquilo. Katniss contribui bastante.” O loiro parecia achar graça, enquanto eu me concentrava em não ficar sem graça com o chefe da família no meio de toda aquela piada.

“Que ótimo, importante trabalhar para garantir patrimônio para a próxima geração. Os Mellark precisam continuar. O que me faz questionar: Odair, você anda trabalhando em casa?” Finn parou de comer e congelando ligeiramente por um momento.

“Pai!” Annie olhou séria para o mais velho, enquanto Thresh começou a rir mais abertamente.

“O que foi? Vocês estão casados há anos e a empresa não cresce. Já estou esperando há algum tempo. E quanto a você?” Ele apontou para Thresh, que parou de rir na hora. “Espero que não esteja trabalhando na casa da minha filha.” Dessa vez, a risada partiu do loiro ao meu lado.

“Pai, eles provavelmente trabalham aqui, na sua casa.”

“Você, como irmão, deveria me ajudar a impedir isso, não rir.”

“Então todo mundo pode trabalhar em casa, menos eu?” Delly olhou irritada para o pai, que apenas confirmou com a cabeça fazendo ela revirar os olhos.

“Lavinia também não pode, fico feliz em saber que não está, afinal, não vi nenhum possível sócio se apresentando.”

“Somos duas adultas, pai.”

“Sim, mas ainda não são casadas. E para trabalhar em casa, é preciso ser casado.” Ele se virou para minha irmã e o namorado, que estavam acompanhando a interação com sorrisos leves. “Isso vale para vocês dois também, nada de trabalho por aqui no feriado.” os dois ficaram ligeiramente corados.

“Você sempre incentivou o Peeta a trabalhar em casa desde a adolescência, quando ele ainda estava longe de casar. Não acha que isso é machismo?”

“Não era incentivo, era orientação. Eu só queria evitar um crescimento empresarial prematuro.”

“O papai gosta de imaginar que vocês não trabalham, Delly. Deixa ele se iludir.”

“Obrigado, filho, esse é exatamente o ponto.”

“Eu também não gosto de imaginar que você e a mamãe trabalham, mas ainda assim não fico espalhando por aí.”

“Delly…” Effie olhou séria para a filha, fazendo alguns ao redor da mesa rirem.

“Peeta e eu não queremos pensar nisso, Delly.” Annie sorriu. “Esses dois só trabalharam para o crescimento da empresa, até chegaram a terceirizar parte desse processo.”

“Terceirizado? Sério?” o loiro fingiu estar ofendido, enquanto ela apenas sorria.

“Vai pensando, minha filha. Não tenho planos de me aposentar tão cedo.”

“Por que precisa estar casado para trabalhar em casa?” Alex perguntou, com um olhar confuso, típico de quem ainda não entende muito bem as coisas.

“Chega de falar de trabalho.” Effie interrompeu o assunto com firmeza, mas havia uma cumplicidade entre eles que era reconfortante. Não pude deixar de pensar que nunca teríamos esse tipo de conversa com meus pais, especialmente com tanta naturalidade.

O restante da manhã passou de forma tranquila e se estendeu mais do que o normal, como se ninguém estivesse com pressa em começar o dia. Embora eu não soubesse exatamente o que o dia traria, não me surpreendi quando, após o café, a família se dividiu em pequenas tarefas. Minha sogra e minhas cunhadas se dirigiram à cozinha para ajudar a equipe responsável pelo jantar, aparentemente elas tinham o hábito de preparar a sobremesa. Peeta e Alex saíram rumo à cidade, em busca de algo que haviam combinado na noite anterior, enquanto os demais pareciam apenas aproveitar o dia. Acabei seguindo o mesmo ritmo, embarcando em uma leve caminhada pela propriedade, acompanhada pela minha irmã e seu namorado.

Prim parecia encantada com toda aquela atmosfera de casa de campo. Quando morávamos no Distrito 12, nunca tivemos o hábito de sair da cidade. William, que nasceu e cresceu na Capital, também parecia gostar do ambiente, algo completamente novo para ele.

Como todos haviam acordado tarde, quase como se fosse um acordo silencioso, ninguém se reuniu para o almoço. Todos comeram algo por conta própria, aqui e ali. O jantar estava marcado para as sete, mas antes disso, todos se arrumaram com roupas simples, porém elegantes, em uma paleta de cores outonais escolhida por Effie semanas antes. Ela havia planejado uma foto de família, que também seria usada como cartão de Natal.

Assim, antes do pôr-do-sol, todos se reuniram do lado de fora, onde nos organizamos para a sessão de fotos com uma equipe de fotógrafos. Confesso que, apesar de ter percebido ao longo dos meses o quanto minha sogra gostava de fotos, me surpreendi com a produção e organização que ela havia preparado para aquela sessão. A primeira foto foi da família “original”, composta pelos três irmãos e os pais. Depois, vieram fotos com Lavínia e Alex, algumas fotos individuais e também dos casais, incluindo minha irmã e o namorado, que ficaram ligeiramente corados quando foram chamados para a foto. E, claro, a grande foto do dia, em que todos se reuniram ao redor dos meus sogros.

Assim que as fotos terminaram, nos reunimos para ver uma pequena prévia do resultado. Confesso que não olhei com muita atenção, mas admito que as fotos ficaram realmente bonitas. Embora fotos nunca fossem um problema para mim, já que aprendi desde cedo a me portar diante das câmeras, afinal, não fazia muito tempo que meu sonho era viver disso.

“Olha, Katniss, essa foto de vocês dois ficou realmente linda, vocês formam um belo casal”, minha irmã comentou. Tentei sorrir diante do elogio e, ao olhar a imagem, admito que tanto eu quanto Peeta ficamos bem, mas, considerando toda a organização, não era surpresa alguma.

“Acredite, o mérito é todo da sua irmã. Ela realmente fica muito bem nas fotos”, Peeta comentou por trás de mim, de forma galante, enquanto me abraçava. Pude ver Prim sorrir e concordar.

“Só nas fotos?”, perguntei, provocando, afinal, ele não era o único bom ator naquele teatro para a família.

“Você sabe que não”, ele respondeu virando ligeiramente meu corpo para ficarmos frente a frente, e depositando um beijo rápido nos meus lábios. “Você é linda todos os dias.”

“Quando é que essa fase de lua de mel vai passar? Será que é o curto tempo de namoro que está fazendo isso durar tanto?” Delly comentou ao nosso lado. Fiz o possível para não revirar os olhos; ela realmente não gostava de mim e o sentimento era mútuo.

“Não vejo você reclamando do casal ali”, Peeta respondeu, apontando para a outra irmã e o marido, que estavam abraçadinhos e falando baixinho. “E olha que eles estão casados há anos.” Ela revirou os olhos e se afastou. Logo depois, a equipe de fotógrafos se despediu, acertando a data de entrega das fotos e a escolha do design para o cartão de Natal na semana seguinte.

Seguimos todos para a sala de jantar, onde a mesa já estava posta, impecavelmente. Não me surpreendi quando a família manteve o tradicional costume de, antes de começarem a refeição, compartilhar motivos de gratidão. Um a um, começaram seus breves discursos. Meu sogro foi o primeiro e a demonstração de carinho que dele com a esposa me surpreendeu já que ele reforçou, com palavras sinceras, que sem ela não teria razões para ser grato a tudo que ele mais amava.

Depois dele, os outros seguiram, mas sem uma ordem apenas se levantando e falando e no fim todos expressaram gratidão pela família, pela união e por estarem juntos, aquelas coisas que normalmente via em filmes. Fiquei pensando no que dizer, já que esse não era um costume na casa do meus pais, mas sabia que, ali, seria inevitável. Quando chegou a vez de Peeta, percebi que ele se levantou antes de começar a falar, como se já soubesse exatamente o que iria dizer.

“Sou grato por ter tido a oportunidade de fazer parte desta família. Sou grato à minha mãe, que me salvou não uma, mas duas vezes.” Ele olhou para ela, que estava na ponta da mesa, ao lado do marido. “Uma no hospital, e a outra quando decidiu que eu seria parte dessa família. Sou grato ao meu pai, por todos os ensinamentos e pelo amor incondicional que sempre recebi. Sou grato pelas minhas irmãs, que estão sempre ao meu lado, mesmo quando não concordam com todas as minhas decisões.” Ele olhou para os demais à mesa enquanto falava, e era impossível não notar a sinceridade em sua voz. “Sou grato pelos amigos que a vida me deu, tanto os antigos quanto os novos, e pela minha irmãzinha meio torta que também recebi.” Vi Prim e William sorrirem ao perceberem o olhar afetuoso de Peeta. “Sou grato pelo meu afilhado, que amo profundamente e que me ensina tantas coisas todos os dias. Sou grato por vocês acreditarem em mim e no meu sonho, mesmo quando ninguém mais acreditava. Sou grato por tudo o que conseguimos conquistar juntos.” Ele fez uma pausa rápida, que poderia ter passado despercebida pelos outros, mas para mim, era clara: ali o teatro começava. Então, ele se virou para mim e segurou minha mão. “E, claro, não poderia deixar de ser grato à minha esposa. Sou imensamente grato por ter te reencontrado e pela oportunidade de viver tudo o que estamos vivendo no nosso casamento.” Como um cavalheiro, ele beijou minha mão antes de se sentar novamente ao meu lado.

“Bom, confesso que não costumávamos agradecer no Dia de Ação de Graças lá em casa. Mas, como meu primeiro agradecimento nesta ocasião, acho que nada mais justo do que dizer o quanto sou grata por uma pessoa que está ao meu lado desde que nasceu: minha irmã Prim, por ser a melhor irmã que eu poderia ter.” Falei com total sinceridade, olhando para minha irmãzinha, sentada à minha frente. Em seguida, me voltei para os demais presentes e continuei: “Sou grata a todos vocês, que me receberam na família da melhor maneira possível.” Embora soubesse que não era exatamente a pessoa favorita daquela família, todos sorriram gentilmente, provavelmente devido à ocasião. “E, claro, sou grata a você, meu amor.” Olhei para o loiro e, com meu melhor sorriso, observei seu olhar atento. “Sou grata por ter me casado com um homem tão generoso e justo, que faria qualquer coisa para me ter ao seu lado.” Ele percebeu perfeitamente a alfinetada e sabia que a última parte era pura ironia, mas ainda assim, sorriu.

Os discursos continuaram, e eu sorri ao ver minha irmã tão feliz agradecendo a cada um dos presentes, inclusive a mim. Quando falou de Peeta, ela o chamou de "irmãozão torto", fazendo todos rirem. Aquilo era tão a cara dela. Mas a verdadeira surpresa da noite ficou para o último agradecimento, quando Annie, após expressar sua gratidão pela família, pelos presentes e pelo marido, disse ser grata pelo filho ou filha que estava carregando.

Houve um silêncio na mesa, e todos, exceto Finn, pareciam estupefatos. Foi Effie quem se levantou primeiro, indo até a filha e a abraçando com um carinho que transbordava, dando os parabéns pelo bebê e falando palravas que não dava para ouvir, mas que pelo sorriso da minha cunhada eram de felicitações. Então, como se todos saíssem do choque, todos se aproximaram do casal, e eu, naturalmente, também fiz o mesmo, desejando que o bebê nascesse saudável. A partir daquele momento, a gravidez de Annie foi o principal assunto do jantar, com inúmeras perguntas.

“Vocês não fazem ideia de como foi difícil guardar isso de vocês. Eu quase deixei escapar várias vezes na última semana.” Tanto Annie quanto Finn estavam visivelmente radiantes, e essa felicidade parecia contagiar todos ao redor, pois nunca tinha visto a família Mellark tão eufórica.

“Não acredito que meu sobrinho ou sobrinha vai estar no meu casamento! Vai ser a coisa mais linda! Assim que nascer, teremos que providenciar um vestidinho parecido com o meu ou um terno parecido com o do Alex. Vai ser tão fofo ver meus dois sobrinhos entrando juntos.”

“Sério, Delly? Você realmente quer um bebê durante a cerimônia?” Annie não parecia nem um pouco surpresa.

“Claro que sim, afinal, não é um bebê qualquer. É seu filho, Annie! Segunda-feira já vou avisar à organizadora que teremos que adaptar o som e as luzes, baixar o volume, para que o ambiente seja adequado para ele ou ela.”

Quando o jantar terminou, a conversa se deslocou para a sala de estar, e a noite seguiu até que, um a um, começamos a nos recolher para os quartos. Notei o olhar da minha irmã sobre mim, mas fingi não perceber, desejando boa noite a todos e subindo em direção ao meu quarto, embora não estivesse realmente com sono.

Acordei assustada e ao olhar o relógio, vi que ainda não passava das seis. Sabia que não conseguiria dormir de novo, então me levantei, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Após um banho rápido, me arrumei para o dia, a última estadia naquela casa me ensinou que a melhor escolha de roupa era sempre o básico e confortável. Optei por uma calça jeans flare de tom escuro, uma blusa de algodão e tênis branco. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo, deixando duas mechas soltas ao redor do rosto. A maquiagem foi discreta, com um toque de cuidado extra nos olhos para esconder qualquer sinal de olheira. Uma escolha de roupa que, com certeza, incomodaria minha mãe.

Pela primeira vez vi a casa em um silêncio quase completo, embora já houvesse movimentação na cozinha, provavelmente para o café da manhã. Parte de mim queria pegar um dos carros e sair sem destino, mas outra parte queria apenas caminhar e me perder em meus pensamentos. Quando vi o céu começar a tingir-se de tons de laranja, não hesitei e segui caminhando, até que, não muito depois, avistei o nascer do sol. Era uma visão linda, que transmitia uma paz rara nos últimos tempos. Embora não quisesse pensar nisso na noite anterior, não consegui deixar de sentir uma certa inveja da união e felicidade daquela família. Como conseguiam ser tão unidos, tão felizes? Por que tudo na vida deles parecia tão diferente da minha? Eu sabia dizer quanto tempo caminhei, e nem tinha certeza de que ainda estava nos limites da propriedade quando decidi retornar.

Ao me aproximar da casa, percebi a diferença. As janelas estavam abertas, e parecia que todos, ou ao menos a maioria, já estava por aí. Estava prestes a entrar quando ouvi o som de uma bola. Ao me aproximar da lateral da casa, vi Alex, vestindo um uniforme dos Tordos de Panem, tentando, sem sucesso, arremessar uma bola de basquete em uma cesta aparentemente nova e ajustada, mais baixa do que o padrão.

“Droga.” Ele resmungou, claramente desapontado com o erro.

“Achei que você fosse da galera da luta.” Ele se virou para mim e sorriu, aquele sorriso fácil que já estava começando a me parecer familiar. Nos últimos meses, eu tinha convivido o suficiente com ele, fosse nos jantares de família, nas visitas que ele fazia ao loiro, ou nas competições dele, que acompanhava Peeta, que parecia não perder quase nenhuma.

“Eu sou, mas estou tentando algo novo. Embora, aparentemente, não tenha muito talento para isso.” Vê-lo ali, como um mini jogador de basquete, me fez lembrar de Marvel nos tempos de escola na Hawking, no ensino fundamental. Não pude deixar de pensar em como Marvel não reconheceu o garoto. Não precisava de DNA para saber que era filho dele. Considerando que ele ia com frequência ao Distrito 12, não entendia como os Quaid não percebiam que ele era uma cópia exata de um deles.

“Você pode tentar chegar um pouco mais perto da tabela. Mesmo os grandes jogadores começam acertando os lances livres mais perto.” Ele ponderou minhas palavras por um momento antes de dar alguns passos à frente. “Use o pé de apoio um pouco mais à frente do outro, para que fique alinhado com a sua mão de lançamento. Flexione um pouco os joelhos antes de lançar, mas não precisa pular.” Ele seguiu as instruções e, embora não tenha acertado, ficou mais perto disso, sorrindo enquanto pegava a bola.

“Acho que foi um pouco melhor. O que acha?”

“Com certeza ficou melhor. Pode tentar de novo, só precisa de um pouco mais de força.” Ele concordou e tentou novamente.

“Você joga?”

“Não, mas fui líder de torcida por muitos anos, então assisti a muitos jogos e treinos do time do colégio.”

“Legal.” Continuamos conversando enquanto ele tentava acertar a cesta. “Eu consegui, você viu?”

“Muito bem, você foi ótimo, agora é só continuar treinando e não só lances livres, passos com a bola em movimento essas coisas.”

“Aí está você.” Desviei o olhar para o loiro, que se aproximava com uma xícara de café nas mãos. “Acordou cedo hoje. Ninguém te viu sair.”

“Pedi o sono, nas primeiras horas da manhã.”

“Padrinho, a Katniss está me dando umas dicas e já estou bem melhor, fiz até uma cesta. Você sabia que ela foi chefe das líderes de torcida? Ela tem um monte de truques.” Ele não esperou pela resposta e continuou. “Sabia que tem tênis específico pra jogar? Ontem nem pensei em perguntar pro vendedor. Achei que qualquer um servia. Será que jogo melhor com o tênis certo?”

“Podemos ver um pra você depois, campeão.”

“ Podemos ver isso hoje?"

“Claro, na cidade deve ter.”

“Legal, Katniss, você gosta dos Tordos de Panem?” Alex mudava de assunto tão rapidamente que alguém desatento poderia facilmente se perder no que ele estava falando as vezes.

“Claro, é o melhor time que tem, mais títulos conquistados nos últimos 75 anos.”

“Sabia que escolhi bem. O padrinho prometeu que vai me levar a um jogo nessa temporada. Você podia ir com a gente. Vai ser bem legal. E se eles forem para final, vamos ir também.”

“Eu adoraria.”

“Alex, eu vim aqui porque sua mãe está te chamando. Algo sobre você não ter arrumado a cama como combinado.”

“Ih, eu esqueci.” Ele correu em direção à casa, deixando a bola no chão.

“Considerando que tem pessoas pra arrumar a casa e que, sem dúvida, vão rearrumar a cama dele, é meio sem sentido ele ter que fazer isso todo dia.”

“Isso dá a ele responsabilidade. Faz com que ele valorize as pessoas que cuidam das coisas pra ele. Arrumar a cama não vai fazer nenhum mal.” Ele olhou para a tabela por um momento antes de tomar um gole de café. “Então, você aprendeu muitos truques de basquete sendo líder de torcida?”

“Passei boa parte da minha vida acadêmica dentro de uma quadra. As pessoas não têm ideia do quanto as líderes de torcida passam tempo treinando. Aquela coreografia exige prática, confiança, e isso leva tempo. Sem contar que tanto o time quanto as líderes de torcida só tinham um técnico no nome; no fundo, éramos nós por nós mesmos.”

“Sim, demorei a perceber que as líderes de torcida e o time eram um grupo só, sempre com os mesmos planos.”

“E lá vamos nós.”

“Não vamos, na verdade, vamos até a cidade. Estava conversando com a Prim durante o café. Ela quer mostrar o Distrito para o William e, aparentemente, preciso comprar um tênis de basquete. Saímos em vinte minutos. Você devia comer algo.” Antes que eu pudesse responder, ele se virou e foi de volta para a casa.

Notas finais
É isso, um bebê Odair a caminho… Espero que tenham gostado! Eu, particularmente, adoro as interações em família e o impacto que isso tem na Katniss. Fico ansiosa para saber a opinião de vocês sobre o capítulo, então, por favor, deixem seus comentários. Com as mudanças na plataforma, ainda não consigo responder diretamente, mas leio todos os comentários, mais de uma vez, e fico muito feliz com o retorno de cada um de vocês a cada capítulo. Muito obrigada! Desejo a todos um ótimo final de semana.