Linha Tênue
14 Minta.
Notas iniciais

28 de dezembro — 14h — Tóquio
~Aomine Daiki~
Depois daquele clima comercial que o Natal trazia, as ruas centrais de Tóquio já apresentavam um novo ar, mais voltado à comemoração do Ano Novo e toda a sua simbologia de renovação. Conforme o festival se aproximava, já era possível avistar alguns kadomatsu prostrados nas entradas das casas e lojas — era uma decoração bastante bizarra na opinião de Daiki, mas na cabeça da maioria das pessoas fazia sentido usar.
Nada diferente do comum, nada que já não conhecesse. Nada que realmente merecesse sua atenção naquela tarde gelada, porém sem neve.
Daiki caminhava pelas calçadas de forma distraída enquanto Satsuki tagarelava aleatoridades ao seu lado. Apesar de não estar sequer prestando atenção, Aomine sentia-se grato por Satsuki estar sempre o acompanhando. Mesmo nunca admitindo, o moreno sabia que a amiga o fazia ver as coisas da forma certa e era bem persistente nisso, sempre lutando com todas as forças contra a sua teimosia natural, até que a ficha caisse e Daiki se desse conta de que ela tinha razão.
Isso sem falar que Momoi o auxiliava em praticamente todos os momentos. Inclusive naquele. Sozinho jamais daria conta de cumprir a missão.
— Dai-chan, ali tem uma! — Satsuki disse de forma animada, finalmente atraindo sua atenção. Ela apontava para uma relojoaria do outro lado da rua. — Vamos lá ou quer continuar procurando por outras?
— Pode ser ali. — Daiki sorriu de canto, avistando o lugar onde compraria o suposto 'presente' de Taiga. E seu também, teoricamente, pois usaria o outro par da aliança. Mal acreditava que realmente estava fazendo isso.
Assim que se dirigiam à borda da calçada, o moreno deslizou os dedos para o bolso da jaqueta e apanhou o celular para dar mais uma discreta olhadela. Kagami não respondera suas últimas mensagens no WhatsApp, e aquilo estava começando a frustrá-lo.
Ele provavelmente deve estar ocupado. Pensou com um longo suspiro, olhando para o trânsito ao guardar o celular novamente no compartimento.
— Sabe Dai-chan, ainda estou bastante surpresa com sua decisão. — Ela sorriu, apertando o botão para que o semáforo fechasse em breve. — Acho que nunca vou entender como isso foi acontecer entre vocês dois.
— Por incrível que pareça, eu já entendi. — O moreno sorriu de canto, dando de ombros. — Depois de pensar como um condenado, deduzi que relamente gosto dele. Simples assim.
— Ai, Dai-chan! — Ela o encarou sorridente, enganchando-se em seu braço. — Estou feliz que você esteja finalmente voltando a ser o Dai-chan fofo de sempre.
— Hm... — Aomine resmungou, revirando os olhos. — Nunca fui fofo. E sempre fui eu.
— Não, você mudou bastante naquele período da Teiko e sabe disso. E era fofo sim, sem essa ruga feia na testa.— Momoi apertou-o, como uma espécie de punição. — Kagamin está te trazendo de volta. Vou precisar agradecê-lo qualquer dia desses.
— Vai nada! — O moreno disse com veemência, virando o rosto para olhá-la. — E pare de falar essas besteiras. Só vou pedi-lo em namoro.
— Não vai 'só pedi-lo em namoro', Dai-chan. — Ela comentou com desdém, assim que o sinal fechou e os carros começaram a frear antes da faixa de pedestres. — Vamos analisar tudo isso por outro ângulo... O garoto mais galinha que já conheci na vida vai finalmente sossegar o facho e namorar firme com o cara que costumava xingar nas horas vagas.— Satsuki sorriu, cruzando a rua, ainda enganchada em Aomine. — É um milagre. Nem te vejo mais olhando para as meninas por aí.
— Que seja. — O moreno deu de ombros, torcendo o nariz ao perceber que as palavras da amiga realmente faziam um pouco de sentido. Mínima coisa. Nem era tão galinha assim... E ainda olhava para as meninas, principalmente para os peitos delas. — Mas não ouse me chamar de gay, ouviu bem?
— Isso nunca passou pela minha cabeça. — Satsuki disse com um sorriso doce, apoiando a cabeça em seu braço, esfregando os cabelos rosados ali.
Aomine não soube classificar se havia ironia ou não em suas palavras, porém preferiu acreditar que não. A nomenclatura era apenas um rótulo, que não deveria ser colocado em sua pessoa. Simplesmente gostava de um cara, um ser humano como todos os outros. Na verdade bem mais foda que todos os outros.
— Então não haja dessa maneira. — O moreno desviou o olhar em forma de repúdio, prestando atenção na fachada da loja onde iriam entrar. — Me faz parecer seu amigo gay.
— Bobo. — Ela sorriu radiante, soltando o braço de Daiki ao adentrarem a relojoaria. — Só estou feliz por vocês.
— Hm. — Resmungou, coçando a orelha com o dedo midinho. — Claro.
O som melodioso e digital soou pelo espaço amplo e repleto de prateleiras de madeira polida, atraindo a atenção de um senhor de meia-idade, cheio e parcialmente careca. Ele aproximou-se por detrás do balcão, e, após uma breve reverência, os cumprimentou:
— Sejam bem-vindos. Em que posso ajudá-los?
Daiki permaneceu em silêncio, sentindo o rosto esquentar ao lembrar o real motivo de estar ali. Estava dando um passo gigante. Não sabia exatamente como pedir.
— Boa tarde. — Momoi se prontificou ao perceber sua hesitação, sorrindo gentilmente. — Gostaríamos de comprar um par de alianças de compromisso.
— Ah sim, só um momento. — O senhor sorriu, virando-se para buscar alguma coisa em suas prateleiras. — Vocês dois formam um belo casal. Estão juntos há quanto tempo? — Ele perguntou segundos depois, com um tom gentil, virando-se para encará-los.
— Não somos um casal. — Aomine respondeu apressado, notando o incômodo de Satsuki e o seu próprio. — É para outra pessoa. — Finalizou, dando-se conta de que o vendedor iria estranhar o fato de estar comprando uma aliança para dois homens. Que se dane...
— Oh, me desculpem. — Ele fez uma breve reverência, um pouco sem graça. — Eu e minha boca! Não é a primeira vez que isso acontece.
— Tudo bem. — Satsuki respondeu, com o rosto um pouco vermelho, agitando a mão. — Não faz mal. — Ela sorriu.
— Bem, aqui estão os modelos e aqui é o provador. — Ele indicou, ainda um pouco embarassado, colocando os objetos em cima do vidro do balcão.
Provador? Aomine perguntou-se, olhando para um aparato onde estava anexada uma boa quantia de anéis. Deduziu que era para conferir o tamanho do dedo. Quanta burocracia... Achei que era só vir e comprar. Fez uma careta, empurrando o objeto com o indicador, como se fosse algo perigoso.
— Por favor, escreva aqui o nome do casal para eu gravar na aliança, certo? — O vendedor sorriu, deixando uma caneta e um papel ao lado do 'provador'. — Vou deixá-los a vontade.
— Obrigada. — Momoi acenou para o senhor, que se afastava para atender uma senhorinha que acabara de entrar na loja. — Ai que vergonha. — Ela sussurrou para Aomine, com uma risada curta e engraçadinha, já pegando o objeto com os outros aneis. — Vai, descobre ai o tamanho do seu dedo.
— Não acredito que estou fazendo isso por aquele idiota. — Aomine bufou, fitando pacientemente o aparato que agora tinha em mãos. — Isso é muito desnecessário.
— É, aí está a prova que você gosta mesmo dele. — Satsuki apontou, já preparando-se para escrever o nome dos dois na folha de papel. — Daiki e Taiga ou Aomine e Kagami?
— Ah, sei lá... — O moreno suspirou, fazendo uma nova careta ao descobrir que o tamanho do seu dedo era 25. — Ahomine e Bakagami? — Sorriu com a ideia repentina, encarando a amiga.
— Não ouse. — Ela foi veemênte, erguendo as duas sobrancelhas. — Daiki e Taiga. É bonitinho. Começa com o mesmo ideograma.
— Nunca havia reparado nisso. Gostei! — O moreno assentiu, olhando novamente para o objeto em sua mão. — E como eu vou saber a porra do tamanho do dedo daquele idiota? — Sussurrou e olhou imediatamente para a amiga: — Nada de piadinhas sobre dedos! — Fechou a cara.
— Hm? — Ela resmungou confusa, com as sobrancelhas franzidas. Ainda estava absorta no papel.
— Deixa para lá. — O moreno soltou uma breve risada, percebendo que foi o único que maliciou a frase. — Vou chutar 25 também. — Deu de ombros, colocando o peculiar 'provador' de lado.
Se tinham quase a mesma altura, calçavam o mesmo número e tinham pênis com tamanhos parecidos, provavelmente teriam a mesma circunferência no dedo. Obrigou-se a rir com o pensamento, constatando que fazia um pouco de sentido.
Daiki pôs-se agora a analisar os tipos de aliança que haviam no suporte de veludo verde-escuro. Planejara escolher a mais discreta possível, no entanto, outra, com tamanho médio, chamara mais sua atenção. A removera e colocara na palma de sua mão, pensando que em breve teria uma dessas no dedo... E, ao contrário do que temera a vida inteira, não seria uma algema. A estaria usando por vontade própria.
Ainda observando o anel, o moreno parou para pensar que nunca reparara direito nas mãos de Kagami. Isso era algo um pouco ruim, pois na verdade nunca reparara em quase nada nele.
Corrigiria isso em breve...
— Pronto? — Satsuki sorriu, deixando a caneta de lado.
— Pronto. — Assentiu, vendo-a acenar novamente para o vendedor, que ainda estava atendendo a senhora. Ele gesticulou que em breve viria receber o pedido. — Quanto deve custar? — Aomine perguntou-se, moredendo os lábios.
— Dois mil yenes pelo par com a circunferência até 24. — Ela apontou para uma pequena tabela colada no vidro da prateleira. — No caso de vocês, dois mil e duzentos.
— Ah, caramba. — Aomine frenziu a testa, apalpando a carteira no bolso traseiro do jeans, com pesar. — É bom que aquele idiota seja um ótimo namorado. Não acredito que vou gastar tudo isso com uma porra de anel de compromisso. — Fechou os olhos, com um suspiro.
— Vai valer a pena. Pare de ser chato e pão duro. — Ela o empurrou brevemente com o ombro. — Falando nisso, ele já sabe que você gosta dele ou você ainda está bancando o idiota, esperando que ele adivinhe?
— Ah, lá vem você de novo com as chatisses. — O moreno falou com a voz arrastada, ainda com o olhar perdido na tabela, enquanto girava o anel gelado entre os dedos. — Mandei um Whats meio bonitinho para ele hoje.
— Mesmo? — Momoi sorriu radiante. — O que você escreveu?
— 'Você faz falta, volta logo.' — Aomine verbalizou a mensagem que chegara a decorar, de tanto passar os olhos pelo chat.
— E ele? — Satsuki o olhou, radiante e evidentemente satisfeita.
— Ele não me respondeu ainda... — Aomine deu de ombros, observando o vendedor se aproximar mais uma vez, sorridente.
Mesmo tendo viasualizado a mensagem. Concluiu a frase mentalmente, com pesar, colocando a aliança no vidro do balcão a sua frente.
***
Los Angeles — 28 de dezembro — 22h34min.
~Kagami Taiga~
O ruivo lutava para manter os olhos fixos na tão esperada final do torneio de basquete da NBA, que era transmitida pela TV da sala de sua casa, entretanto sua mente não o deixava prestar atenção por mais de um minuto. O jogo já estava no último quarto e os Spurs tinham a vantagem de 16 pontos sobre os Bulls. Kagami provavelmente ganharia a aposta, então não dava mais tanta bola para os lances. Seus pensamentos estavam mais perdidos nas mensagens que Aomine o mandara desde o dia anterior, as quais não teve coragem de responder.
Decidido a mudar de ideia, Taiga apanhou o celular que estava jogado entre suas pernas dobradas no sofá, e abriu pela milésima vez seu WhatsApp. Apesar de já ter praticamente decorado o conteúdo, a leitura daquelas palavras o fazia pensar melhor em tudo o que estava acontecendo. Era uma espécie de penitência para si mesmo.
Aomine Daiki: Taiga, tá pronto p/ perder a aposta dos Bulls e dos Spurs?
Aomine Daiki: Já to até pensando na sua punição.
Aomine Daiki: Isso sem falar nos outros favores que vc me deve, desde o fliperama.
***
Aomine Daiki: Tá fazendo o q d bom?
***
Aomine Daiki: Morreu aí q ñ responde?
***
Aomine Daiki: Vc faz falta, volta logo.
Essa última mensagem o pegara completamente desprevinido, horas atrás. Kagami percebeu uma gigante — e nada merecida — onda de felicidade inundar seu interior ao ler aquelas cinco simples palavras, porém ela sumiu no instante seguinte. O ruivo já não tinha mais tanta certeza de que seu retorno ao Japão seria agadável ou prazeroso.
Lógico que não seria.
— Caralho, o que foi que eu fiz? — Resmungou o mantra que passeava constantemente por sua mente, deixando o celular apoiado na barriga ao deitar-se no sofá, com as pernas dobradas. — Acabei com tudo. — Lamentou-se, fechando os olhos com força.
Se referia aos beijos inesperados de Himuro... A culpa corroía cada vez mais seu estômago.
Não deveria ter permitido a aproximação. O ruivo sabia que era forte o suficiente para tê-lo afastado se quisesse, mas não foi capaz. Simplesmente paralisou, como uma criança indefesa e ridícula — com quase dois metro de altura.
Por que diabos tenho que ser tão ingênuo?
Kagami confiou cegamente nas ações de Tatsuya até aquele instante, e realmente acreditou que não houvesse uma segunda intenção em todos os momentos alegres que compartilharam naquele recomeço. Em sua mente estava tudo certo, agiam novamente como irmãos, verdadeiros amigos. Estava tudo indo tão bem... Tudo entrava nos eixos. Doce engano...
Então realmente era essa a razão de todos os meus pressentimentos ruins? O ruivo pensou, passando a mão demoradamente em seu rosto cansado. Kuroko tinha razão. Himuro era o motivo da minha inquietação. Por que não o ouvi? Por que não tive mais cuidado?
Por que você fez isso, Tatsuya?
— Não acredito que você se declarou para mim... Mesmo sabendo do Daiki. — Kagami suspirou, percebendo que os sons do jogo foram completamente substituídos pela voz conhecida, que ainda ecoava em sua mente.
'Ele nunca vai te amar como eu te amo!'... ' Quantas vezes ele olhou nos seus olhos e disse o quanto você é especial, doce, incrível?'... 'Você é tudo para mim'... 'Eu fiz algo tão errado para você me esquecer tão facilmente?'... ' Fica comigo, Taiga. Sei que ainda estou ai dentro de você!'... 'Vou te esperar, mas não para sempre!'
As frases estavam tão frescas em sua memória que pareciam ser constantemente sopradas em seus ouvidos. Kagami quase era capaz de sentir o cheiro de chopp e hortelã ao seu redor.
Apesar de estarem bêbados na ocasião, foi perceptível que o efeito do álcool se dissipara em poucos instantes, como se fosse algo completamente psicológico — onde todos geralmente colocam a culpa no dia seguinte. Porém o ruivo não teria para onde fugir.
— Droga. — Kagami fechou os olhos, com raiva, sentindo o estômago apertar mais e mais a cada segundo. — Por que diabos não falei a verdade para Tatsuya quando tive oportunidade? — Lamentou-se, apertando uma almofada que estava ali jogada, como se quisesse livrar-se da frustração que o percorria por inteiro. — Meu caralho, como sou burro.
Deveria ter contado que estava completa e incontestavelmente apaixonado por Daiki, mesmo que o moreno jamais tenha dito algo tão intenso quanto as palavras que ouvira na noite passada... Todavia qual seria a forma menos difícil de admitir aquelas coisas para Himuro? Como falar que o sentimento que nutria por Aomine era paixão, e que o que sentia por Tatsuya era algo completamente fraterno e inocente? Como revelar que não queria mudar isso, não agora que finalmente se encontrou em seus sentimentos? Como dizer que, mesmo inseguro, era com o moreno que queria ficar?
Tatsuya era uma pessoa tão doce e importante para si, a última coisa que o ruivo desejava no mundo era magoá-lo. Entretanto, ao agir dessa forma protetora, feria a si mesmo. Acabara de colocar um fim em seu recém-adquirido sossego, em seus planos no Japão, em sua declaração para Aomine... Em tudo! Sua índole não permitira mentiras, fingimentos ou sangue frio para negar que sentiu-se minimamente alvoroçado com o beijo, mas que ficou desgostoso no segundo seguinte. Sua escolha já havia sido feita. Era Aomine, não tinha volta.
— Caralho, como eu vou olhar para o Daiki agora? — Mordeu os lábios em um sinal de nervosismo, fixando o olhar na lâmpada que o cegava, logo acima de sua cabeça. Uma gosma ácida subiu por sua gargata no mesmo instante em que voltou seus pensamentos para o ponto da história que mais o preocupava: A reação do moreno. — Eu não acredito que fiz isso!
O arrependimento veio de imediato, como uma bolada de basquete atingindo o meio de sua cara. A dor na cabeça era a mesma, pelo menos.
Taiga era uma pessoa correta demais para levar aqueles selinhos roubados com pouca seriedade. Mesmo que não compartilhasse o mesmo sentimento por Tatsuya, o auto julgamento era involuntário... Isso sem falar que jamais conseguiria esconder as coisas de Aomine. Mesmo que não estivessem juntos, sentia-se na obrigação de dar satisfações à Daiki, pedir desculpas pelo ocorrido e esperar pelo esporro — e então viria o pé na bunda. E sim, com certeza viria!
Seu subconsciênte insistia, lá no fundo: 'Minta Taiga! Vai ficar tudo bem se você mentir. Ele não vai descobrir jamais, e vocês podem continuar juntos.', todavia Kagami não era capaz. Não sabia mentir... E mesmo se conseguisse esconder, uma hora ou outra faria o diria algo que acabaria com essa farsa.
— Ai meu pau. — Murmurou, fechando os olhos ao sentí-los doloridos pela luminosidade. — Eu sou um idiota. — Um nó se formou em sua garganta áspera, mas ficou preso ali.
Existe aquele dito popular: Os bonzinhos só se fodem. Lá estava Kagami, experimentando a sensação e assistindo sua própria derrota de camarote. O ruivo sabia que pensava demais, antecipava os passos e que estava fazendo um tremendo drama ao remoer todas aquelas coisas, no entanto tinha certeza de que seria o fim. Agora era só esperar pelas palavras duras que Aomine diria antes de dar tchau.
Um apito característico e uma vibração exagerada o tirou de seus pensamentos. Com calma, Kagami abriu os olhos e virou o rosto minimamente para a direita, ao mesmo tempo em que um sorriso triste surgia em seus lábios.
— Ganhei a aposta, Aho. — Suspirou, voltando a fechar os olhos ao sentí-los arder. Não tinha nada a ver com a luminosidade agora. — Mas acho que te perdi.
***
Tóquio — 28 de dezembro — 16h08min.
~Aomine Daiki~
O plano inicial de Daiki era voltar para casa naquela tarde, esconder-se em seu confortável quarto e refletir sobre as alianças de compromisso que agora tintilavam no bolso traseiro de sua calça. Tinha muita coisa para pensar, pois aquele fora um passo enorme e decisivo em sua vida, no entanto estava mais preocupado em como pediria Kagami em namoro sem parecer uma menininha boba... Porém, antes que pudesse verbalizar sua vontade, Satsuki insistiu em ir até o Maji Burguer encontrar Kuroko — e quando Momoi era inquisitiva (principalmente se tratando de Tetsu), não havia como contrariar.
Durante o trajeto já decorado por seus pés, Aomine cantarolava alguns riffs aleatórios da música Nothing Left to Say, de Imagine Dragons, enquanto sua cabeça perdia-se em um universo paralelo e vazio — o qual não visitava há um bom tempo. Daiki gostava tanto daquele lugar que demorou cerca de dez segundos para sair do 'piloto automático' e perceber o celular vibrando contra sua perna. O frio na barriga foi imediato, assim como o sorriso teimando em aparecer em seu rosto. Claro que era Taiga.
Finalmente, idiota! Pensou ao tomar o celular em mãos e confirmar suas suspeitas. Foi ávido ler a sequência de mensagens — levemente extensa, e com boas pausas entre os textos — que Kagami enviara.
Kagami Taiga: Oi Daiki.
Kagami Taiga: Por onde começar?
Kagami Taiga: Bem, foi mal por não ter respondido antes. Estava resolvendo uns problemas... Que no final das contas não consegui resolver. Apenas compliquei mais ainda.
Kagami Taiga: Enfim. Como esperado, ganhei a nossa aposta. O jogo acabou há mais ou menos uma hora. Spurs 78 x 66 Bulls.
— Agora. Me. Fodi.— Aomine praguejou de forma cômica, engolindo em seco ao reler aquela última frase. A diferença no placar foi bem acentuada.
— O que foi Dai-chan? — Satsuki murmurou, com as sobrancelhas franzidas, um pouco confusa.
— Os Bulls apanharam para os Spurs. — O moreno explicou vagamente com um gesto indiferente de mãos, manifestando sua frustração com o time. — E eu perdi uma aposta por causa desses incompetentes.
— Entendi. — Ela sorriu gentilmente, voltando a olhar para a calçada apinhada de gente. — Boa sorte então.
— Hm... Depois penso nisso. — Daiki decidiu deixar suas lamentações para quando fosse assistir o jogo no Youtube. Colocou os pensamentos de lado e voltou o olhar para a tela do celular. Ainda havia mais texto.
Kagami Taiga: Você também faz falta. Pra caralho.
Kagami Taiga: Falando nisso, precisamos conversar.
Claro que precisavam conversar. Aomine tinha muitas coisas à dizer... Mais precisamente tudo o que não teve coragem ou ímpeto de falar até o momento.
Kagami Taiga: Saio daqui na madrugada do dia 02. Dia 03 apareço na sua casa, pode ser?
Kagami Taiga: Acho que é isso. Tenho que ir.
Kagami Taiga: Se cuida. Até mais.
Até mais, Taiga! O moreno pensou com um discreto e verdadeiro sorriso, já digitando uma única resposta.
Finalmente Daiki sentia-se preparado para assumir os fatos. Para sua própria satisfação, pensara muito bem em tudo e constatou que não estava agindo por impulso — afinal, isso sempre resultava em alguma merda grande, sem excessões. Aomine perdeu as contas da quantas pessoas (geralmente rolos de uma semana) já magoou por fazer as coisas sem pensar, por mentir ou falar alguma merda e principalmente por se defender. Seu lado explosivo era bem desgraçado e imprevisível — além do orgulho forte e da independência, essa fora outra herança de sua mãe.
Mas dessa vez não tinha nada de impulso ali, apenas certeza. Era um sentimento diferente. Na verdade tudo com Taiga foi diferente, desde o início.
Destino. Não havia palavra melhor para resumir a situação.
Tinham gostos parecidos, ele era sua versão ruiva — um pouco mais manhosa —, praticamente o salvou de um marasmo sem fim e de sua crise existencial, era o responsável por 75% de seus sorrisos e com certeza também estava apaixonado. Não tinha erro. Era com ele que queria ficar, e isso estava evidente desde a Winter Cup, como Momoi insistia em atirar no meio de sua cara... Só não conseguiu ver antes por ser um idiota. Mas agora via, e claramente.
Talvez fosse o mais perto do 'amor' que já chegou até agora... E sim, em menos de dois meses. Esse acaso com certeza não seria em vão!
***
Los Angeles — 28 de dezembro
~Kagami Taiga~
Aomine Daiki: Eae Taiga. Achei q vc tinha morrido, idiota, rsrsrs. Então me fodi c/ a aposta, né? Ñ faz mal, vc ainda me deve mtos favores. Vou estar t esperando dia 03, precisamos mto conversar... Enfim, se cuida. Até +
— Desculpa... — O ruivo sussurrou para o celular, soltando-o em seu próprio rosto em um sinal de derrota. — Desculpa Daiki.
***
Tóquio — 31 de dezembro — 22h08min.
~Himuro Tatsuya~
O frio estava muito forte no quarto de Tatsuya naquele momento. Apesar de preferir o outono, o rapaz aos poucos começava a encontrar os lados positivos naqueles breves arrepios do inverno, que apoderavam-se de sua pele. Eram semelhantes aos que sentiu quando robou os beijos de Kagami.
Os beijos não correspondidos, tão frios quanto... E que ainda o deixavam um pouco triste.
— Já era previsto. — Consolou-se com um meio sorriso, decidido. — Paciência Tatsuya. Vai dar certo e você sabe disso. — Suspirou, sentindo o vento bater com força em sua face, fazendo sua franja espalhar-se.
Himuro apoiava-se no parapeito da janela de seu quarto, em L.A., observando o alvoroço das pessoas por entre as cortinas entreabertas de suas casas. Todos preparavam-se para a celebração da chegada do Ano Novo, e o mesmo acontecia no andar de baixo de sua residência — o cheiro de comida inclusive já adentrava seu quarto.
Apesar de o clima estar quente e convidativo na cozinha, Himuro não estava realmente interessado em descer. Não apreciava tanto aquelas datas comemorativas para ficar entusiasmado — afinal eram acompanhadas de uma extrema falsidade capitalista —, porém o Ano Novo sempre foi sua preferida. O motivo? Fogos de artifício. Era lindo, quente e perigoso — a combinação perfeita.
Tatsuya costumava ir à praia assistir às pirotecnias quando morava em Los Angeles, e esse ano não seria diferente. Mas provavelmente esse ano estaria sozinho, pois nos anteriores Taiga o fazia companhia.
— Você insiste em voltar na minha cabeça, não é? — Sorriu, erguendo os dedos automaticamente para o tocar anel, que também balançava com o vento. O objeto na corrente era como uma ligação muito forte entre os dois. Em seus devaneios até imaginava poder sentí-lo Taiga através daquilo, mas era coisa de sua cabeça. — Como você está? Está sentindo remorso, não é? — Murmurou em tom de culpa, mordendo os lábios.
Claro que ele estava. Himuro o conhecia muito bem para conseguir imaginar cada um dos pensamentos que provavelmetne passavam por aquela mente. Apesar da aparência valentona e emburrada, Taiga era a pessoa mais gentil e correta do mundo, com certeza estava sentindo-se culpado e cada vez mais dividido.
Mas para haver a clareza, a confusão é necessária. Justificou-se de forma diplomática, observando um solitário carro cruzar o asfalto. Seu olhar o acompanhou, até que sumisse na curva da esquina — assim como o ruivo fizera na noite do beijo.
No momento em que viu Kagami sair de sua casa, Himuro quase sentiu-se mal por tê-lo deixado perdido e atônito. Era evidente que Taiga sentia algo por Aomine, no entanto, se depois de tanto tempo os dois sequer estavam juntos, com certeza Daiki o fazia de idiota e talvez até estava usando-o. Esse era o comum 'amor de pica', porém Taiga era ingênuo demais para perceber as coisas ao seu redor... Provavelmente sairia magoado no final da história, e isso era a última coisa que Tatsuya gostaria de ver.
O ruivo com certeza precisou daquela chacoalhada de realidade para abrir os olhos. Agora era só uma questão de tempo até tudo voltar ao normal. Himuro seria novamente seu protetor e estaria sempre ao seu lado... Só restava esperar pelo momento em que ele correria por si só até seus braços.
Levaria um mês ou dois?
— Até o Japão, Taiga. — Murmurou com carinho, ainda brincando com o anel gelado em seu pescoço.
***
Tóquio — 03 de janeiro — 06h22min
~Kagami Taiga~
O cansaço do ruivo materializou-se assim que abriu a porta de seu apartamento e colocou a chave no aparador azul. A frase 'lar, doce lar' voltou a fazer sentido naquele ato corriqueiro, no entanto seu olhar continuava distante, e a sensação de que havia um pedaço de concreto em sua cabeça permanecia intacta. Kagami só não sabia se aquilo tudo era culpa da longa viagem ou das horas que gastou, inutilmente, tentanto encontrar uma solução para o problema onde se metera.
Talvez a culpa era das duas coisas. Mais da segunda que da primeira.
Taiga deduziu que uma mente lerda como a sua não tinha capacidade para resolver problemas daquela dimensão em menos de uma semana. Talvez nem em menos de um mês. Ou quem sabe simplesmente não conseguiria resolver, o que era mais provável. Querendo ou não, foi infiel, e não havia como mudar isso.
Incontáveis vezes Kagami colocou-se no lugar do moreno, imaginando como reagiria se ele dissesse que fora beijado outra pessoa durante sua ausência. A resposta que encontrou não foi nada positiva. Se apenas o pensamento já o deixava enjoado (ainda mais ao visualizar Kise realizando tal feito), não queria nem pensar em como Daiki se sentiria quando ouvisse a sua história. Daria merda, provavelmente brigariam e fim. Era quase uma premonição, assim como o ralado em seu nariz ao cair de skate.
Por outro lado, o ruivo também deixava os pensamentos se direcionarem para Himuro em certos momentos. Assumia a posição de Tatsuya e a única sensação que vinha era um rombo gigante no peito. O magoara e o desamparara totalmente... Foi um completo babaca. Não deu uma resposta convincente para a confissão intensa e profunda que ele fizera, não explicou seus motivos e muito menos seus sentimentos, não fez absolutamente nada... Apenas paralisou e pediu incontáveis desculpas. Teria que redimir isso uma hora ou outra, mas o medo de entrar em contato voltava com toda força.
Calma Taiga. Você vai resolver um problema de cada vez! Primeiro Daiki, e depois Tatsuya. Suspirou, deixando sua bolsa no meio do caminho enquanto andava até o sofá, largando-se ali mesmo. Na verdade você não vai conseguir resolver nada!
Decepcionara a todos os envolvidos naquele triângulo. Inclusive a si mesmo.
Chegava a ser sombriamente engraçada a mudança que houve em sua vida. Há alguns dias queria mais do que tudo ver Aomine mais uma vez, beijar sua boca, abraçá-lo, sentir o cheiro amadeirado do perfume misturado com o de sua pele, falar tudo o que sentia por ele (mesmo se fosse unilateral)... E agora estava ali roendo as unhas, com medo de ver aquele magnético sorriso de canto desaparecer aos poucos, dando espaço para um olhar furioso e indignado.
O remorso machuca mais que ciúmes... Constatou com um sorriso triste nos lábios. Mas vai ser bem feito! Fui um babaca, tenho que me foder e sofrer as consequências. Quem sabe assim aprendo a deixar de ser inocente.
— No final das contas acho que minha mãe está certa. — Suspirou com pesar, fechando os olhos ao sentir o cansaço apoderar-se de seu corpo. — Sou novo e burro demais para me envolver com outra pessoa. Sou um idiota.
Desculpa Daiki...
***
20h12min
~Aomine Daiki~
Ansiedade. Esse era o status de Aomine no atual momento. Não era para menos, afinal estava a poucos minutos de rever o cara que mais gostou na vida, prestes a se declarar de verdade pela primeira vez em sua existência e ainda por cima selaria tudo aquilo com as alianças de compromisso — estrategicamente escondidas no bolso traseiro de seu jeans escuro.
Daiki já não se reconhecia mais — descobriu que tampouco ligava, pois de acordo com Momoi, estava voltando a ser o Aomine 'fofo de sempre, sem a ruga feia na testa'. Sinceramente o moreno não lembrava direito de seu outro 'eu', então era normal assustar-se com as mudanças repentinas e bruscas. No entanto soube aceitá-las muito bem assim que descobrira a razão.
Taiga era a razão.
Desde o início de seu envolvimento com o ruivo, Daiki já começara a perceber alterações em sua vida. Começou a apreciar novamente o basquete, simplesmente deu um Air Jordan super caro para ele, convidou-o espontaneamente para alguns mano a mano (em pleno inverno), tornaram-se amigos, sentiu um impulso imenso para beijá-lo assim que brigaram pelo controle da televisão, e por fim se beijaram da forma mais intensa e natural possível... E então vieram os pensamentos que o tiravam o sono, a constatação de que realmente gostava dele, o sexo mais foda e gostoso de sua vida, a paixão repentina e de proporção assustadora, o ciúme daquele franjinha ensebado que mal conhecia para julgar, a falta de coragem para abrir seus sentimentos, um deslize com uma frase na hora da despedida... Em breve seria o reencontro e a afirmação de que queria seguir com ele, sabe-se lá como, sabe-se lá até onde, sabe-se lá até quando.
E agora estava ali, mordendo os lábios com a euforia e a saudade. Parecia uma menininha desesperada e sinceramente não gostava de tal atitude, mas era inevitável — assim como aquele frio na barriga que não o permitia fazer absolutamente nada.
— Anda Taiga... — Murmurou, tamborilando os dedos na mesa da cozinha em um sinal de impaciência. — Já era para você ter aparecido.
Como se um Gênio atendesse seus pedidos naquele instante, a campainha soou e seu estômago revirou-se de imediato. Em um impulso, Aomine levantou-se e quase derrubou a cadeira com o movimento brusco, no entanto pouco ligou, simplesmente andou apressado até o hall de sua casa, respirando fundo pelo menos três vezes durante o trajeto.
— Não sou uma menininha. — Sussurrou, umedecendo os lábios com a língua assim que chegou a porta e acendeu a luz da varanda, apertando o interruptor. — Não. Sou. Uma. Menininha. — Finalizou, secando a palma suada de sua mão na parte de trás de seu jeans. Sentiu o relevo das alianças através do tecido da calça e apenas ficou mais nervoso ainda. — Ai caralho. Tá. Ok! É só o Taiga. — Riu nervoso, abrindo a porta dois segundos depois.
Não é só o Taiga. É o meu Taiga! A frase surgiu em sua mente, assim como o sorriso teimoso em seu rosto. Vendo-o ali parado — revezando o peso de seu corpo entre as duas pernas de forma impaciente, olhando para o chão com as mãos no bolso —, só fez Aomine ter certeza de sua decisão. E acho que te amo... Se é que isso é possível em tão pouco tempo!
~Kagami Taiga~
Não sorria assim para mim, Daiki. O ruivo pensou ao vê-lo se aproximar do portão, sentindo um aperto muito forte em seu estômago. Era a mistura da alegria ao ver o cara por quem estava incontestavelmente apaixonado e do forte remorso, que insisita em cutucar-lhe com algo pontiagudo e quente.
Minta Taiga. Minta que vai dar tudo certo. O subconsciente pediu mais uma vez com um tom despreocupado, como se fosse algo corriqueiro. Você o ama e não quer ficar longe dele. E sim, você provavelmente o ama! A voz reforçou a situação, trazendo mais culpa ainda para seu âmago.
— Oi Taiga. — O moreno o saudou com um tom tremido e arrastado, destrancando o portão com um pouco de dificuldade. Até o timbre daquela voz era perfeito.
— Oi Daiki. — Kagami engoliu em seco, apertando as mãos suadas dentro do bolso da jaqueta. Não conseguia controlar o sorriso gigante ao vê-lo, mas tampouco encontrava alívio naquela situação. — Tudo bem? — Arriscou perguntar, mordendo os lábios de forma incosciente assim que a dobradiça do portão rangeu.
— Tudo. — Aomine respondeu com a respiração pesada, encarando-o intensamente à poucos centímetros de si.
Daiki estava tão bonito, com a mesma blusa de lã branca que usara no dia em que se beijaram pela primeira vez, e com um jeans escuro que delineava suas pernas. O vento gelado soprava contra o rosto de Taiga e trazia ao seu olfato o cheiro amadeirado que tanto queria sentir... E também quase podia perceber o calor natural de Daiki, apenas com aquela pouca aproximação. Sua maior vontade era simplesmente abraçá-lo e beijá-lo ali mesmo, sem explicações ou palavras... Mas não podia.
Minta!
— Tá esperando o que, idiota? — O moreno riu, nitidamente nervoso, observando-o com uma certa curiosidade. Aqueles olhos azuis eram tão hipnotizantes, estavam tão límpidos... Mas Kagami não conseguiu encará-los por muito tempo.
— Eu... — O ruivo murmurou, engolindo em seco e desviando o olhar para os próprios pés, já pensando no que deveria falar a seguir. Para sua surpresa, foi impedido de continuar sua frase com um abraço desengonçado e repentino.
Naquele momento o sentimento foi mais forte que sua razão.
O ruivo simplesmente devolveu o gesto e o apertou com força contra si, como que para expurgar todas as merdas que fizera, afastar seus receios, matar a saudade e destruir por completo seu remorso. Não seria tão simples, porém naqueles breves instantes pareceu que tudo havia sido uma piada de mau-gosto ou um pesadelo, como os que costumava ter antes de conhecer Daiki.
Aqui é o meu lugar, droga. Com ele. Não devia ter permitido aquilo, aquele beijo, aquela merda. Sou um idiota! Kagami estava tão certo de seus sentimentos que sua vontade de mentir começava a tomar forma, mas não poderia fazer isso com ele. Enganá-lo não era uma opção. Teria que falar.
— Daiki... — O chamou, enterrando o rosto na curva de seu pescoço, fechando os olhos com pesar. Não teria para onde fugir, mas não choraria tampouco. — Desculpa. — Sussurrou, aspirando o cheiro perfeito que aquela pele morena soltava. Quem sabe pela última vez.
— Você não está atrasado, idiota. — Ele riu, afastando-se para encará-lo, com uma expressão confusa. O moreno estava a poucos centímetros de seu rosto, poderia simplesmente inclinar-se e beijá-lo, mas não foi capaz. — Para de falar merda, Bakagami. — O moreno balançou a cabeça, sorrindo novamente. — Vem, tá frio. — Disse, pegando em seu braço e fazendo menção de puxá-lo para dentro do terreno.
— Não posso. — O ruivo mordeu os lábios com mais força, dando um passo para trás, contra sua vontade.
— Hm? — Aomine franziu a testa, virando-se para olhá-lo. — Por...?
— Porqueeufizmerda. — O ruivo murmurou rápido, sentindo a realidade novamente bater com violência em seu corpo. Buscou o olhar de Daiki naquele instante, percebendo o sorriso desaparecer aos poucos em seu rosto. — Eu fiz merda. — Repetiu com mais calma agora, percebendo um arrepio horrível cruzar seu corpo.
Aomine nada disse, apenas voltou-se completamente para si e esperou, apoiado no batente do portão. Taiga não sabia como classificar a expressão facial dele, pois parecia ficar mais vazia a cada segundo. Ele estava sério, fechado e novamente com a ruga na testa.
Nada daquilo era um bom sinal, mas isso já era esperado. O que viria em seguir com certeza seria pior.
— Eu preciso te contar. Em Los Angeles... Eu e Tatsuya nos encontramos e fizemos as pazes, como irmãos... Mas ele me beijou, mesmo sem eu querer. — Kagami engoliu em seco, olhando firme para os olhos dele. Não sabia muito bem como revelar aquilo, mas estava sentindo a pior dor que era capaz de recordar. — Mesmo sabendo que eu sou apaixonado por você, ele me deu um selinho... E eu não consegui fugir a tempo. Me desculpa.
Apenas esperou, com o coração na mão.
~Aomine Daiki~
Como assim?
A mente de Daiki parou de funcionar no exato momento em que aquele nome amaldiçoado e a palavra 'beijou' apareceram na mesma frase. Foi o suficiente para si. A sensação de algo quebrando em seu interior veio acompanhada de uma dor imensa, gosmenta e verdadeiramente incômoda — como se tivesse dado o soco em um vidro e sentisse o sangue escorrer por entre seus dedos.
Via os olhos perdidos de Taiga, seus gestos preocupados de mãos e sua boca movendo-se de forma contínua, como em um filme mudo, no entanto não queria explicações ou desculpas. Já estava de bom tamanho sentir um enorme rombo no peito, perceber que foi um idiota ao confiar e se apaixonar por Kagami, e ainda por cima saber que agira como um otário nesse tempo todo ao sentir saudade, ao pensar que falara alguma merda antes de ele ter viajado, ao culpar-se por nunca ter revelado seus reais sentimentos... Pelo menos agora sua boca fechada e seu 'tempo certo' viriam a calhar. Ele jamais conheceria a dimensão de sua mágoa.
Então não fui o suficiente para você? Aomine mentalizou de forma sombria, no mesmo instante em que a dor do orgulho ferido começava a latejar por todo seu corpo — era capaz inclusive de sentir as alianças queimando em seu bolso traseiro, como se fosse uma cruz encostando em um demônio. Não acredito que confiei e depositei tudo que eu tinha em você, Taiga!
Daiki ainda via a boca dele abrir e fechar, murmurando palavras aleatórias que não faziam sentido para si, pois nem se dava ao trabalho de prestar atenção. Os lábios 'daquele' desgraçado tocaram os de Taiga. E Taiga permitiu... Aomine poderia socar o nariz do ruivo naquele instante ou simplesmente fechar o portão em sua cara e ignorá-lo. Mas não. Não deixaria tão barato.
Se fosse cair, tudo bem... Mas o levaria junto para o chão.
Minta! O subconsciente pediu, em um ato totalmente impulsivo. Daiki não hesitou em obedecer o ato que tanto temia. Aí estava a prova incontestável de que realmente havia uma linha tênue entre o amor e o ódio.
— E por que você está me falando tudo isso? — O moreno ergueu uma das sobrancelhas, reunindo todo o sangue frio que existia em seu ser. Não foi difícil, considerando sua dor.
Taiga parou de se mover e o encarou atônito, com os lábios entreabertos.
— Quer dizer... Você não me deve satisfações. — Aomine deu de ombros, soltando uma curta risada. — Não estamos juntos, idiota. Achei que você soubesse disso. — Cruzou os braços, largando o peso de seu ombro contra a mureta, na qual já se encostava parcamente. — Ou não sabia? — Ergueu as sobrancelhas, simulando surpresa.
— Eu...
— Taiga, nós não somos um casal. Olhe para a gente. — O moreno pediu, com um gesto de mãos. — A gente só se diverte! — Acrescentou, sentindo o corpo esquentar com todas as mentiras que contava. Era seu impulso e sua adrenalilna agindo em conjunto, mas não ligava. Estava magoado demais para sentir pena agora.
— Quê? — O ruivo franziu a testa, estreitando os olhos.
— Ou você achou que... — Aomine murmurou em voz baixa, inclinando levemente o rosto e fazendo graça. — Você achou que eu estava apaixonado por você?
Taiga nada respondeu, parecia perplexo demais.
— Tipo, não. Nada a ver. — O moreno coçou a nuca, olhando para os arredores da calçada antes de encarar o ruivo novamente. — Eu achei que desde o início você sabia que estavamos só... Sabe...
— Fodendo em troca de nada? — Kagami completou a frase com uma frieza brusca, a mesma frieza que pairava em seu olhar agora.
— Se você quiser colocar assim... Então é! — Aomine deu de ombros, segurando firme para não acabar com seu teatro. A reação do ruivo foi repentina, mas era algo quase esperado de uma pessoa tão parecida consigo. Claro que ele não aceitaria calado. — E por isso o que você faz ou deixa de fazer não me diz respeito. — Aomine continuou, com um suspiro. — Assim como o que eu faço também não te interessa. Simples.
— É sério ou você está tirando uma com a minha cara? — Ele perguntou de forma sombria e incrédula, estreitando os olhos.
— É sério. Não somos nada. — Aomine respondeu, como se fosse algo simples, encarando-o com a expressão vazia que lutava para manter.
— Entendi... — Kagami continuou, fitando a calçada por longos instantes, pensativo.
— Entendeu mesmo? — Aomine franziu a testa, apertando a mandíbula antes de continuar. — Não parece.
— Claro que não parece. — Taiga o encarou mais uma vez, agora irritado. — Você está me dizendo que tanto faz o fato de eu estar ou não apaixonado por você? Que realmente não dá a mínima?
— Eu não sabia que você estava. — Justificou-se, sentindo o rombo no peito apenas aumentar. Se você estivesse apaixonado não sairia por aí beijando outras pessoas enquanto eu estava aqui como um idiota te esperando. Concluiu mentalmente, cerrando os dentes, mas mantendo a expressão vazia. — Não era para ter chegado a esse ponto... Agora eu não posso fazer nada. Achei que você sabia que a gente não teria nada sério. — Deu de ombros. — Foi mal.
— Foi mal? — Kagami riu com desdém, franzindo a testa. — Foi mal o meu cu! Se eu soubesse que você era tão babaca e indiferente eu não teria sequer sentido uma única pontada de remorso nesses últimos dias. Eu não teria acabado com minhas unhas e sequer ficaria acordado por horas pensando em como te falaria sobre esse beijo roubado. Eu não teria me sentido sujo e muito menos me daria ao trabalho de ter vindo até aqui me explicar. — Ele respirou fundo antes de continuar, ainda sustentando seu olhar. — Acho que nem teria permitido a aproximação que tivemos, afinal não iria querer me apaixonar por você. Mas isso a gente não escolhe, não é?
Foi a vez de Aomine ficar em silêncio. Seu coração estava batendo muito rápido, dolorido e atônito com cada palavra que ouvia. Era algo como se Taiga estivesse se declarando, fazendo uma verdadeira confissão de sentimentos, mas encoberta de espinhos e ódio.
Era estranho o misto de coisas que passava por sua cabeça, porém Aomine não queria saber de desculpas esfarrapadas. Jamais voltaria atrás em sua decisão de levá-lo ao chão consigo. Taiga não merecia sua consideração, pois sua mágoa era muito grande... Ele saíra com o ex-sabe-se-lá-o-quê, 'fizera as pazes' e o beijara. Aomine fora simplesmente trocado por um pedaço de passado. Mesmo que Taiga não conhecesse seus sentimentos e mesmo que não estivessem juntos, ele poderia ter percebido o quanto Aomine gostava dele.
— Sabe... — O ruivo continuou a falar, após aquele longo e gritante silêncio. — Eu sempre me perguntava se estava sozinho nisso. Não sabia dizer se você correspondia ou se eu era o único que sentia alguma coisa nessa merda que a gente teve. E não é que eu estava certo com minhas paranoias? — Ele ergueu as sobrancelhas, também fingindo surpresa. — Sei que a cagada do beijo foi minha, de forma alguma estou tirando o meu da reta, mas agora eu quase me sinto 'menos mal' com isso tudo... Tipo, enxerguei uma pequena luz no fim do túnel. — Comentou, com ironia. — Porque só assim eu descobri quem você é de verdade, e percebi o quão otário fui ao me apaixonar por você.
— Sempre deixei muito claro que o que havia entre nós dois era sexo. — Aomine defendeu-se com uma nova mentira, mesmo sentindo a garganta apertar. Onde estavam seus argumentos? Cadê sua adrenalina para ajudá-lo agora? Por que estava sentindo-se culpado se foi ele quem estragou tudo?
— Olhando para trás eu percebo isso. — Kagami assentiu com desdém. — Acho que fui otimista demais com certas coisas, com certos gestos seus. Tipo as suas mensagens falando que sentia minha falta, as vezes que você tirou o anel do meu pescoço ou ainda agora... Com essa merda de abraço que você acabou de me dar. Tudo sempre foi vazio, é isso? — O ruivo perguntou, piscando com mais frequência enquanto mordia os lábios. — Agora você iria me levar para dentro da sua casa, a gente ia foder, e tchau. Sem palavras, sem nada?
— Escuta aqui Taiga... Não venha me cobrar nada! — O moreno desencostou-se da mureta, dando um passo na direção de Kagami. — Nunca dei a entender bosta nenhuma. Se você sentiu-se mal, olha, caguei para você. Na minha cabeça estava muito claro que a gente só fodia e jogava basquete nas horas vagas, então não sei porque você está fazendo tanto drama. — Suspirou, cerrando os olhos para encontrar mais sangue frio. Não estava mais tão facil mentir descaradamente. — Se você se apaixonou, olha, lamento. Não posso corresponder, ainda mais agora sabendo que você não é de confiança. — Finalizou, acentuando a última parte.
— Certo. — O ruivo assentiu com a voz tremida, dando mais um passo para trás. — Eu entendi. Então acho que não tenho mais nada a te dizer.
— Eu tenho... — Aomine engoliu em seco, encarando os olhos de Taiga com o último respingo de firmeza que existia em si.
— Hm? — Ele respondeu com frieza, encarando-o com a mesma intensidade.
Aomine conseguia ver nos olhos vermelhos o quão magoado ele estava após ouvir tudo aquilo, o quão arrasado ele encontrava-se. Seria assim se ele não tivesse beijado aquele verme? Com certeza não... Poderiam estar em meio a uma troca de carinho, em um diálogo gentil e verdadeiro, e o sentimento com certeza seria bom ao invés desse peso maldito que com certeza encontrava-se em ambos. O destino sabia ser cruel também.
— Boa sorte com o seu ex-franjinha. — Aomine finalizou, apertando a mandíbula mais uma vez, em uma tentativa de segurar a própria dor. Olhou para o anel ainda pendurado no pescoço de Taiga e então voltou a encará-lo. — Vocês combinam. — Soltou a última mentira, engolindo em seco. Não sabia mais se soava de forma convincente ou não, só queria ficar sozinho agora.
— Obrigado. — Ele respondeu com uma suavidade exagerada, virando as costas e seguindo em frente. — Ah! — O ruivo parou no caminho, fitando-o por cima do ombro com os olhos levemente marejados. — Deseje sorte também ao próximo trouxa que amar você. — Kagami sorriu tristemente, com a voz completamente embargada do choro que ele insistia em segurar. — Ele vai precisar.
Agora sim não restou mais nada a ser dito. O ruivo simplesmente virou-se e seguiu seu caminho, sem olhar para trás ou esperar qualquer outra manifestação de Aomine — que não seria capaz de dizer mais uma única palavra. Sua garganta estava completamente seca e trancada pelo enorme nó que surgiu ao ouvir a última frase.
Meio segundo depois Daiki não hesitou em fechar o portão com força, antes mesmo de Kagami virar a esquina e desaparecer. Estava com raiva... Falara demais. No entanto, ouvira demais também. Eram realmente parecidos, com a única diferença de que Taiga não mentiu uma única vez.
Isso não aconteceu, não é? Foi o que Daiki perguntou-se ao entrar em sua casa e apoiar as costas na madeira gelada da porta, assim que a fechou com um estrondo. Encontrava-se com seu interior tão quente que seria capaz de ter uma combustão instantânea... Mas ao mesmo tempo sentia-se tão frio e vazio. Você não fez isso comigo e eu não fiz isso com você, não é Taiga?
Acabaram de matar um ao outro. Ele com a verdade, Daiki com a mentira.
Pensar naquilo doía, mas seu ódio era quase maior, estava tão cego... O problema é que aquela era uma ferida traiçoeira. O responsável pelo rompimento com certeza foi Taiga, por ter dado o beijo, mas por que diabos Aomine sentia-se culpado também? Talvez por que nunca se confessara a ele? Ou quem sabe por que — justamente pelo fato de não estarem juntos —, não tinha o direito de julgá-lo pelo beijo?
Com força, bateu a cabeça na madeira da porta e segurou o choro que subia por sua garganta. Não derramaria uma única lágrima por Kagami, seria forte como um verdadeiro Aomine e manteria seu orgulho intacto — apesar de no momento ele estar em pedaços.
Se estava acabado não tinha porque ficar lamentando... Uma hora a dor passa e a vida continua. Era o que esperava.
— Eu iria te pedir em namoro, filho da puta... Iria dizer que te amo.— O moreno rosnou, colocando a mão em seu bolso traseiro do jeans, removendo as alianças que ali repousavam inocentemente. — Daiki e Taiga... — Debochou, derrubando os objetos no assoalho, à caminho de seu quarto. — Eu te odeio.
***
~Kagami Taiga~
Kagami não soube exatamente como chegou em casa, mas acabara de ouvir o barulho da chave atingindo seu aparador azul. Com o corpo sendo guiado pelo 'piloto automático', Kagami apenas sentou-se no assoalho e apoiou as costas na parede. Nem sequer acendeu as luzes, apenas tentou assimilar cada uma das coisas que ouvira e que dissera há momentos.
A mente do ruivo assemelhava-se ao conteúdo de um liquidificador em funcionamento. Nada estava claro, a não ser o fato de que fora usado esse tempo todo... E isso doía. Muito.
— Não acredito que você fez isso comigo. — Murmurou para o ar, referindo-se à Aomine.
Com ou sem os beijos de Tatsuya, o final seria o mesmo? O moreno acabaria magoando-o de qualquer forma? Provavelmente, já que Kagami de fato estava sozinho nesse 'amor de pica'. Era só isso para Daiki. Ele pouco se importava com seus sentimentos e suas razões... Não queria seu coração.
Em uma coisa o moreno estava plenamente certo: Nunca deu a entender que ficariam juntos. Mas para Taiga era como se realmente fossem um casal... Precisou falar a verdade, dar satisfações, sentiu o remorso, foi atrás e preparou-se para um rompimento, já admitindo seus erros e quase pedindo perdão. Ou seja, fez o maior papel de idiota da história dos relacionamentos!
É engraçado como o coração pode ser iludido apenas com um sorriso de canto, um beijo gostoso ou um abraço quente no meio da noite... Mas nem tudo é o que parece. Sabia do jeito egocêntrico de Daiki, mas não esperava que assumisse aquela proporção, ainda mais depois de pequenos indícios e pistas que ele deixava para trás. Por um momento Kagami realmente acreditou que ele correspondia, mas tudo o que tinha em mãos era fumaça e espelhos — uma ilusão.
— Caralho, como sou burro! BURRO! — Gritou, sentindo os olhos arderem novamente. Não derramaria mais nenhuma lágrima por aquele filho da puta.
Taiga realmente preferia que tivessem terminado por sua suposta traição, e não por ter assumido papel de brinquedinho sexual que perdeu a validade após misturar sentimentos. Aquilo magoava mais ainda.
— Eu te odeio, Daiki. — Sibilou para o ar, fechando os olhos em uma tentativa de trancar as lágrimas quentes que não mereciam cair.
Infelizmente Tatsuya tinha razão... Estava enganado.
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