Notas iniciais
Boa noite minha gente linda e perfeita! Saudade de vocês *o* Aí está mais um capítulo para vocês... Hoje um pouco mais curtinho. Espero que gostem... Hm... É! Espero que gostem /o/ Só para lembrar: Quando aparece os asteríscos (***) significa passagem de tempo, ok? Nos vemos lá em baixo nas considerações finais! E por hora é isso. Boa leitura meus anjinhos!

Dia seguinte — 6h39min

~Aomine Yumiko~

— Uh, que frio. — A mulher reclamou com um sussurro, assim que fechou a porta de casa com um baque mínimo para não acordar Daiki. O vento do lado de fora estava extremamente gelado, então foi um alívio adentrar aquela sala tão quentinha e parcamente iluminada pela luz diurna.

Como de costume, Yumiko atirou sua bolsa entre os objetos espalhados pelo sofá e deixou seus sapatos por cima do tapete mesmo, pois sempre esquecia de retirá-los no hall de entrada. A verdade é que a mulher não se importava tanto com aquela tradição desnecessária — sabia que os maus fluídos não entrariam em sua casa só porque havia uma fina camada de pó em baixo de seu salto.

Com um suspiro cansado e recheado de preguiça, ela soltou os cabelos e continuou seu itinerário de forma distraída, dirigindo-se ao quarto de Daiki, que provavelmente estava no décimo primeiro sono — e com certeza acompanhado. Yumiko sorriu com a própria linha de pensamento, lembrando da animação do filho no dia anterior... Ele finalmente veria o tal Kagami Taiga depois de ficarem um bom tempo afastados.

Apesar de não saber absolutamente nada sobre o affair de Daiki, Yumiko quase considerava o rapaz como parte da família, simplesmente por ele estar colocando sorrisos no rosto sempre tão sério e fechado de seu filho. Daiki estava voltando a ser o menino de sempre, alegre, espontâneo e mais disposto à tudo — era um ótimo sinal.

— Ai... — Ela fez uma careta, ao sentir uma dor chata na sola de seu pé descalço, assim que cruzava o corredor bagunçado.

Curiosa, olhou para o assoalho e franziu a testa ao constatar que pisara em cima de um anel de prata, e que havia outro repousando logo ao lado — que provavelmente rolara e ricocheteara na parede. Agachou-se de imediato para ajuntá-los, e a surpresa foi inevitável quando constatou que era um par de alianças. Não pode deixar de sentir uma certa pontada de felicidade também... Afinal, se Daiki chegou à esse ponto, então com certeza esse seria um relacionamento sério.

— Mas por que estão no chão? — Se perguntou, intrigada, lendo os nomes gravados no metal gelado. 'Daiki' em uma, 'Taiga' em outra.

Aquela era com certeza demonstração enorme de afeto e comprometimento — ainda mais se tratando de Aomine Daiki —, no entanto o fato de os anéis estarem jogados pelo chão do corredor não tinha como ser algo positivo. Yumiko teve a confirmação de sua suspeita quando olhou para frente e viu a porta do quarto de seu filho completamente fechada.

Ele só fazia isso quando estava realmente chateado. Seu coração de mãe pesou... Algo estava muito errado.

~Kagami Taiga~

Há meses o ruivo não subia até o terraço do prédio onde morava. O ambiente gelado, úmido e repleto de entulhos quase sempre passava desapercebido por sua vida cheia de afazeres, mas naquela situação até que veio a calhar. Apesar de o frio quase congelar a ponta de seu nariz, fora a céu aberto que Kagami passara a maior parte da madrugada — inclusive presenciou o sol nascer timidamente por detrás daquelas nuvens carregadas.

A primeira vez que o ruivo fora até o local deveu-se à mera curiosidade, nos primeiros dias de estadia no Japão — há mais ou menos um ano, quando ainda não conhecia ninguém e nem procurava aventurar-se por Tóquio. A segunda vez já teve um motivo mais específico: Concentração. Subira todos os lances de escada e sentou-se para pensar em seus objetivos e focar no campeonato de basquete entre as escolas que teria naquele ano. Deu muito certo, pois Seirin acabou como campeã da Winter Cup.

Hoje era a terceira vez. O motivo? Precisava respirar. Urgentemente.

Essa reação tão espontânea e natural do corpo humano estava quase se tornando impossível dentro de seu apartamento fechado. A essência e o maldito cheiro de Aomine Daiki pairava por todos os cantos — no entanto Kagami sabia que aquilo tudo estava incrustado apenas em sua própria mente... Assim como todas as palavras duras e nojentas que ele cuspira em sua face na noite anterior.

As lembranças trouxeram um sorriso triste e completamente forçado para seu rosto cansado. O ruivo não sabia se ria ou chorava de seu atual estado.

Os acontecimentos das últimas horas pareciam ter sido uma espécie de piada — ou ainda um pesadelo do qual não estava conseguindo despertar —, no entanto sua insônia deixava bem claro que tudo era a mais pura e dolorosa verdade. Fora feito de palhaço pela pessoa na qual depositara todos os seus sentimentos mais sinceros e intensos. Daiki com certeza tornou-se a escolha mais infeliz que seu coração poderia ter feito.

Apesar do erro gigante que cometeu ao permitir o beijo roubado de Tatsuya — outra provação sacana que a vida colocou em seu caminho —, Kagami tinha certeza de que não merecia aquela humilhação toda. A forma como as palavras de Aomine caíram sobre si ainda causavam machucados bem dolorosos em seu interior. Com certeza previra que Daiki o daria uma bronca nada educada quando contasse a verdade, porém jamais esperou um menosprezo com aquela dimensão.

Era revoltante saber que fora usado... Mas principalmente triste.

Durante a madrugada, incontáveis nós surgiam em sua garganta, em vários momentos quis voltar até a casa de Aomine para gritar-lhe tudo o que revolvia em seus pensamentos, diversas tsunamis e tornados de ódio e tristeza passaram por seu corpo... Porém no final sempre restava o dissabor da rejeição em sua forma nua e crua. Daiki simplesmente não ligava para seus sentimentos, não o amava, não o queria.

— E pensar que eu fiz praticamente a mesma coisa com o Tatsuya... — Sibilou para o ar em um tom de culpa, olhando os minúsculos pontos coloridos cruzarem o asfalto, muitos andares abaixo de si.

Querendo ou não, Kagami também recusara a confissão de Himuro e teoricamente rejeitara seus sentimentos, porém sem aquela patifaria e indiferença imensurável — pois ainda possuía um coração gentil, e não um feito de pedra como o de Daiki.

Não é todo dia que alguém chega em sua frente para se declarar — ainda mais se tratando de Tatsuya —, por isso se dissesse que esquecera as palavras doces e intensas do irmão seria uma enorme mentira. Ainda tinha tudo aquilo muito bem guardado em algum canto não ferido de seu coração... O canto que não gritava:

''Nunca dei a entender bosta nenhuma. Se você sentiu-se mal, olha, caguei para você. Na minha cabeça estava muito claro que a gente só fodia e jogava basquete nas horas vagas, então não sei porque você está fazendo tanto drama.''

— Argh... — Rosnou, olhando ao longe para afastar os pensamentos que insistiam em espocar em sua mente. — Eu ainda não acredito que isso realmente aconteceu. — Suspirou, girando sua fiel bola de basquete entre os dedos. Sentir a textura do couro alaranjado o acalmava, inexplicavelmente. — Por que você fez isso comigo, Daiki? — Murmurou de forma pesarosa, fechando os olhos com força ao enterrar os dedos no objeto em suas mãos, em uma tentativa falha de dissipar a dor que ia e voltava em seu peito.

A pior parte nem era o término do relacionamento — ou seja lá o que foi aquele fingimento todo que carregaram por quase dois meses —, mas sim o fato de que realmente sentia algo muito forte por Aomine, e que isso tudo não significava bosta nenhuma para ele. Fora cruelmente rejeitado, transformado em objeto... Mas quem cometeu o primeiro erro foi Taiga, com o beijo, então isso tudo era quase um castigo. Como dizia Justin Timberlake, na música que ironicamente ouviu na última vez que foi à casa de Daiki: 'O que vai sempre volta'.

Apesar de já ter praticamente processado os fatos, o que mais chocava o ruivo era a indiferença no semblante de Daiki, que sempre parecia tão feliz e confortável em sua companhia. Depois do abraço o moreno mudara da água para o vinho, como se realmente não quisesse ouvir suas satisfações recheadas de remorso... Ele inclusive parecia outra pessoa.

Mas foi assim porque realmente não estavam juntos. Kagami deveria ter percebido há tempos, ou pelo menos notado que 'fodiam em troca de nada'. Se fosse um pouco mais esperto com certeza evitaria aquele incômodo todo... E quem sabe até olharia para o passado com mais cautela, pensaria melhor sobre tentar algo sério com Tatsuya.

Quem sabe hoje estivesse sorrindo, e não sentindo raiva e falta de ar.

Não adiantava mais remoer os acontecimentos, assim como também não adiantava pensar no quanto queria ver Aomine se fodendo na vida, sendo feito de palhaço, sendo rejeitado, trocado, socado... Qualquer coisa. O ódio que sentia por Daiki naquele momento quase equiparava-se à paixão que sentira antes de viagem. A linha entre os dois sentimentos era realmente fina, tênue, e se rompera muito bruscamente.

— Chega! — Murmurou para si mesmo, endireitando a coluna e apoiando a bola na lateral do corpo. — Você não merece nem mesmo os meus pensamentos. — Fungou, fazendo um esforço para que a teimosa lágrima não caísse de seus olhos.

Não era nenhuma menininha para ficar chorando pelos cantos.

Mesmo que tudo ainda estivesse fresco em sua memória e que seus sentimentos por Daiki variassem entre amor e ódio, uma hora ou outra teria que superar. Se o moreno insistisse em aparecer em sua mente, daria um jeito de esquecê-lo... Se aquela ferida ainda estava sangrando bastante, restava apenas esperar pela cicatriz. Era só uma questão de tempo.

Não iria deixar-se cair por alguém que não merecia. Ambos erraram, mas ser otário e ficar preso à isso não era uma opção. Levantaria a cabeça e seguiria em frente, como um homem.

~Aomine Daiki~

Os passos levemente audíveis de sua mãe não foram o suficiente para que Aomine se movesse ou sequer desviasse seus pensamentos. Sabia que Yumiko estava parada à soleira da porta perguntando-se se deveria entrar ou não, mas no fundo ela podia sentir a resposta. O clima que pairava na casa deixava muito claro que Aomine queria ficar sozinho agora.

Precisava se acalmar um pouco, antes de falar com qualquer pessoa.

O vento gelado entrava sem cerimônia pela janela escancarada, no entanto o corpo inteiro de Daiki permanecia fervendo na cama, como se realmente fosse sofrer uma combustão instantânea, de dentro para fora. A sensação quase se equiparava à uma febre, mas não era uma infecção ou algo do gênero, e sim o choque de sua razão com sua emoção... Do seu amor com seu ódio... Do seu orgulho com o seu remorso.

Essa batalha interna acontecera apenas uma vez na vida do moreno — quando perdera seu amor pelo basquete e sofrera uma grande e involuntária mudança de personalidade, durante seus anos de Ensino Fundamental, na Teiko —, todavia não se comparava ao que sentia agora. Daiki não pregara o olho durante a noite toda, então a sensação permanecia a mesma desde que Taiga desaparecera de sua frente. E provavelmente de sua vida.

Estava em meio a um conflito enorme, com dúvidas, incertezas, muita raiva, muita paixão, decepção, frustração e uma quase imperceptível pitada de culpa pelas mentiras que contara. Era um misto de sentimentos que precisaria analisar com calma, da forma mais fria possível, para então conseguir chegar a uma conclusão sobre o que fazer... Todavia quando Kagami estava no meio, a frieza começava a se esvair contra sua vontade.

Apesar das mentiras humilhantes e nojentas que despejara em cima de Taiga — não tão facilmente quando esperava —, apesar da traição que ele simplesmente confessara em sua frente, apesar de ter se esforçado tanto para descobrir que não era o suficiente para ele, Daiki percebeu que era incapaz de ver o ruivo com o desdém que ele realmente merecia. Taiga não era um simples coadjuvante em sua vida, como as outras pessoas que passaram por ela... E era justamente isso que estava consumindo seus pensamentos.

— Isso é amor. Só pode ser! — Deduziu a contragosto, cerrando os punhos com força. — Como pode ser amor se agora eu te odeio tanto, maldito? — O moreno apertou a mandíbula com força para conter aquela nova onda impulsiva de raiva e dor que o invadia. — Por que você fez isso comigo, Taiga?

A ideia de ter sido substituído por um naco de passado deixava Aomine possesso, ainda mais após ter pensado que tudo estava bem e que Kagami realmente sentia alguma coisa forte por si. Mas não... Fora trocado, mesmo após começar a se doar pela primeira vez em sua vida. Era injusto. Nunca falou nada para Kagami, mas o quão tapado ele era para não perceber seus sentimentos? E ainda vinha com aquela história de que estava apaixonado...

— Apaixonado é o meu cu. — Daiki rosnou, fechando os olhos com força. — Se você estivesse, com certeza não beijaria ninguém às minhas costas... Muito menos aquele filho da puta que você insiste em chamar de irmão. — Continuou, voltando a fitar o teto. — Se você ainda insistia em usar a merda da corrente, então quase estava esperando por esse beijo, não é Taiga? Não venha me falar que foi roubado. Você me fez de palhaço! — Finalizou, unindo as sobrancelhas de forma inconformada e irritada.

Aquelas divagações verbalizadas faziam muito sentido em sua cabeça, sabia que era o dono da razão... Ou pelo menos lutava para convencer-se disso. Pode ser que tenha exagerado com as palavras duras que seu impulso soltou, mas o ruivo tinha que sofrer na mesma proporção que Aomine sofria. Era o mínimo. Se Taiga saíra com o franjinha para 'fazer as pazes' então pouco ligava para o que Daiki pensava ou sentia.

'Mas você nunca disse nada a ele, nem mesmo demonstrou que estava apaixonado... Não teria como o Kagami saber. Tanto é que ele acreditou piamente em todas as mentiras.' A parte racional de Daiki ponderou com calma, afastando aquela onda de ódio para colocar o remorso em seu lugar. 'Vocês dois não estavam juntos, então ele não sabia o que esperar desse relacionamento... Não havia promessas ou cobranças de nenhuma das partes. Como Momoi disse inúmeras vezes, ele estava inseguro, e ficou mais inseguro ainda depois de ouvir tantas mentiras deslavadas. Ele com certeza não vai mais querer olhar na sua cara, Daiki!'

— O Taiga me traiu, porra. — Irritou-se com seu próprio raciocínio emocional. Odiava aquele lado sentimental e fraco... Ele insistia em esmagar seu orgulho, que era sua única força no momento. — Chega disso. Acabou.

Estava decidido. Kagami cometeu o erro, e Daiki finalizou tudo ao mentir para se proteger. O perdão era uma coisa impensável agora que estavam mortos um para o outro. E o remorso que sentia lá no fundo... Ah, ele passaria uma hora ou outra, assim como aquela dor frustrante que tanto incomodava e o deixava sem ar.

— Eu não vou chorar por você! — Aomine foi frio, fechando os olhos assim que sentiu as primeiras lágrimas da manhã queimarem o interior seus olhos. — Você não vale mais nada para mim, Taiga. — Suspirou o misto de verdade e mentira.

Daiki sentia algo muito intenso pelo ruivo, talvez fosse realmente o tão famoso e bonito amor, mas isso iria embora em um piscar de olhos... Era só tentar! Sabia que iria conseguir. Seu peito apertaria de vez em quando e com certeza esbarraria com ele pelos caminhos tortuosos da vida, no entanto jamais se deixaria abalar tanto por um affair que durou menos de dois meses.

Era um Aomine e ainda tinha seu orgulho! O tempo se encarregaria do resto.

***

Nove dias depois.

~Kagami Taiga~

A aceitação e a superação vinham ocorrendo de forma lenta e gradativa para o ruivo. Mas estava complicado...

Os primeiros três dias após o 'rompimento' com Daiki foram os piores. Taiga dormia mal, comia apenas porcarias, quase não saía de casa e tampouco convidava os amigos para visitá-lo — não queria nem pensar em como contaria a verdade para Kuroko, e Himuro Tatsuya com certeza era a sua última opção de companhia naquele momento. O ruivo ficou fadado ao tédio da televisão e da internet — que apenas alimentava seu próprio martírio. O choro era quase inevitável nessas horas, assim como a droga da saudade que sentia de Daiki e os surtos de raiva que vinham logo em seguida. Deplorável.

Apenas no quarto dia Kagami percebeu o quão infantil estava sendo ao remoer as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas frustrações, os mesmos sentimentos nada saudáveis. Era um processo repetitivo que tornava-se cada vez mais desgastante e inútil. Nada daquilo iria mudar a situação. Não deixaria de gostar de Daiki do dia para a noite, mas tampouco resolveria seus problemas se ficasse esperando o mundo se manifestar à seu favor. Foi então que o ruivo deduzira que a dor era inevitável, mas o sofrimento era opcional. Estava na hora de levantar a cabeça e mostrar um pouco de autossuficiência também.

No quinto dia Kagami encontrara uma forma eficiente de ocupar a mente: Fizera uma limpeza geral em seu apartamento, lavara todas as suas roupas e jogara fora as quinquilharias inúteis — inclusive o novo CD de Imagine Dragons que comprara para Daiki, em Los Angeles. Ainda perguntava-se o que faria com aquele maldito Air Jordan — que parecia destacar-se dos demais objetos da casa, como se houvesse uma gigantesca flecha de neon apontando e piscando com as escritas 'AOMINE DAIKI ESTEVE AQUI'.

No sexto dia, Kagami decidiu ir sozinho ao shopping do distrito para comprar um novo par de tênis e assistir qualquer filme no cinema. Não havia nenhum longa-metragem interessante em cartaz, então optou pelo que parecia ser mais agradável... Acabou sendo uma bosta, porém conseguira alguns momentos de distração. Se continuasse assim, seria mais fácil seguir em frente.

Exatamente uma semana depois do término, as coisas começaram a melhorar de verdade, e por um único e simples motivo: Basquete. A neve não caía mais e a quadra do Maji Burguer estava liberada — apesar de permanecer úmida e bem gelada. O esporte era como uma terapia para Taiga, mesmo que o praticasse sozinho. Sentir a textura do couro, ouvir aquele quicar familiar da bola, testar seu tênis novo... Tudo era um processo de reabilitação, agora que estava há um bom tempo sem a sua droga favorita — e completamente nociva.

Hoje, no nono dia, o ruivo estava aperfeiçoando seus arremessos de três pontos enquanto esperava por Kuroko. Além de sentir uma imensa falta do amigo, precisava ouvir uma voz que não fosse a de sua consciência e a de seu coração... E nem a de sua mãe, que mesmo estando presente nos últimos momentos de turbulência em Los Angeles, não percebera seu mal estar. Por telefone não seria diferente.

Concentrado, Kagami segurava a bola entre as mãos, como se tivesse acabado de receber um passe decisivo em uma final de campeonato. Encarava seus oponentes invisíveis com agressividade, pensando para qual lado deveria correr. Direita, com um giro para a esquerda e um arremesso de três pontos ao parcamente imitar o 'Barrier Iump' de Hyuuga. Foi exatamente o que fez, e o êxito foi imediato.

— Sou muito bom. — Sorriu para si mesmo, no instante em que o barulho da rede balançando interrompeu o silêncio, seguido pelo baque da bola atingindo o chão na quadra. — E parece que virei um convencido de merda também. — Fez uma breve careta, já indo até o local onde a bola repousava.

— Kagami-kun?

— Kuroko! — O ruivo disfarçou o breve susto e virou-se de imediato, assim que ajuntou a bola. O sorriso ao ver o rosto familiar foi espontâneo, e retribuído da mesma maneira. Sentiu falta do amigo. — Tudo certo?

— Sim, e com você? — O menor estendeu o punho para que Kagami desse um golpe com o seu próprio.

— Melhorando. — Taiga deu de ombros, torcendo o nariz ao concluir o cumprimento. — Mas estou bem sim!

— Não entendi. — Kuroko disse, com um leve ar intrigado cortando sua natural inexpressividade.

— Hm, é uma longa história. — Kagami engoliu em seco, vendo-o deixar de lado o cachecol azul escuro, dobrado com cuidado. Fez um gesto de indiferença, tentando fugir do assunto. — Outra hora eu te conto.

— Kagami-kun! — Ele o olhou, com o semblante sério e calmo. — Tem alguma relação com o fato de você não estar mais usando o Air Jordan do Aomine-kun?

— Hm... — O ruivo olhou para o novo par de tênis, quicando distraidamente a bola no cimento. Por que ele tinha que ser tão atento àqueles detalhes? — Talvez. — Completou sem jeito, segundos depois, voltando a encará-lo.

— O que aconteceu? — Ele foi rápido ao perguntar.

— Não estamos mais juntos. — Kagami fingiu desinteresse, desviando o olhar para o Maji Burguer, ao longe. — Nunca estivemos juntos, na verdade. — Corrigiu-se com desgosto, franzindo as sobrancelhas. — Eu fiz merda, e ele fez merda também. Então acredito que foi melhor assim. Mas esquece, quer começar atacando hoje? — Perguntou em uma tentativa de desviar o assunto.

— Não vamos mais jogar. — O menor foi incisivo, ajuntando novamente seu cachecol. — Você vai me contar isso direito.

— Ah, Kuroko! — Kagami protestou imediatamente, encarando novamente o amigo, no entanto ele já virara as costas e caminhava para a saída da quadra. — Saco. — Resmungou, pegando sua própria blusa e o acompanhando com a bola embaixo dos braços. — Me espera, pelo menos.

Os dois seguiram em silêncio até o Maji Burguer, que parecia ser o destino mais óbvio naquele momento. A lanchonete era uma espécie de Q.G. com comida boa, então não teria melhor escolha — apesar de Taiga estar quase sem fome.

Kuroko parecia sério durante o trajeto, porém não mais do que Kagami. O ruivo sabia que uma hora ou outra teria que conversar com alguém sobre o ocorrido, e esse alguém com certeza era Kuroko. Além de considerá-lo seu melhor amigo, o menor era uma das pouquíssimas pessoas que conheciam alguns detalhes de sua vida pessoal... Entretanto ele era amigo de Daiki também, e isso deixava Taiga um pouco inquieto. Conhecia Kuroko o suficiente para saber que ele não tomaria partido por nenhum dos dois, mas revelar que praticamente 'chifrara' Aomine e que o moreno o usava como brinquedo sexual não era uma das coisas mais fáceis do mundo.

— Kagami-kun, pode ficar tranquilo. Não vou julgar você e nem o Aomine-kun, independente do que tenha acontecido entre vocês. — Ele disse com uma naturalidade espantosa, levando o canudo do milk-shake aos lábios assim que sentou-se na mesa mais ao canto da lanchonete. — Apenas gostaria de saber o que aconteceu e tentar ajudar de alguma forma.

— Você só pode ler pensamentos. Chega a dar medo. — O ruivo bufou, assim que depositou a bandeja com os habituais vinte cheeseburguers na superfície de madeira. — Mas obrigado. — Pigarreou, levemente desconfortável, sentando-se também.

Kuroko nada respondeu, apenas permaneceu prostrado em sua frente, esperando. Kagami desviou o olhar para seus lanches e fez uma longa pausa, como se procurasse escolher as palavras certas. Não havia uma forma fácil de contar que parecia quebrado por dentro, que estava frustrado, que ainda sentia remorso pelo beijo... Que amava Aomine, mas que o odiava também. Decidiu começar pelo início de tudo, por sua burrada.

— Você estava certo. — Kagami disse com pesar, reparando em detalhes insignificantes na impressão da embalagem de seu cheeseburguer. — Tatsuya foi o problema.

— Imaginei. — Kuroko manteve a inexpressividade, atraindo seu olhar. — Prossiga.

— Ele... — Começou a falar, desembalando o primeiro lanche. Não parecia tão apetitoso naquela tarde. — Ele se confessou para mim em Los Angeles. E disse... Hm... Ah cara, é estranho falar sobre essas coisas com você! — Kagami exasperou-se, olhando mais uma vez para o rosto de Kuroko. — É necessário?

— Sim. — Ele assentiu, sem piscar. — Vai falando.

— Ok. — Kagami deu a primeira mordida para camuflar a vergonha, só então prosseguiu, com a boca cheia. — Tatsuya disse que me amava, alguns dias depois de fazermos as pazes. — Revelou, sentindo o rosto esquentar de uma forma absurda. — E ele me beijou duas vezes. Mas... Mas em ambas foi só um selinho, e foi roubado. Eu não estava esperando! — Justificou-se, buscando o olhar julgador do amigo, mas encontrou apenas a feição habitual e observadora. — Eu não queria o beijo. Sério! E acho que Tatsuya entendeu que eu escolhi o Aomine no final. — Esforçou-se para não falar 'Daiki'. Não usaria mais seu primeiro nome.

— Hm. Entendi. — Kuroko assentiu, tomando mais um gole de seu milkshake. — E você contou ao Aomine-kun.

— Contei. — Kagami concordou, agradecendo por ele ser esperto e deduzir as coisas sozinho. — Não conseguiria mentir, e meu remorso também não iria deixar. Eu estava mal pra caramba quando fui falar com ele. — Taiga cerrou os dentes, lembrando novamente das palavras de Daiki. — Mas ele disse que não se importava e que eu não o devia satisfações, porque eu... Eu era só um passatempo. Nunca teríamos nada sério. — Finalizou, mordendo rapidamente o cheeseburguer, sem sequer olhar para Kuroko.

— Quê? — O menor ergueu minimamente o tom de voz, aparentando uma leve surpresa. — Aomine-kun te disse isso? — Ele juntou as sobrancelhas, confuso, deixando o milkshake de lado.

— Não com essas palavras bonitinhas. — Kagami jogou uma leve ironia na frase, sentindo o estômago embrulhar mais uma vez. — Mas sim, ele disse em alto e bom som. — Suspirou, desviando o olhar para a janela ao seu lado. — E fim. É isso. — Deu de ombros.

— Estranho. — Kuroko comentou, olhando para o copo em suas mãos. Parecia pensativo.

— O que é estranho? — Kagami prosseguiu, sentindo uma pequena onda de ira o invadir. — É estranho que aquele idiota tenha me feito de palhaço? Duvido! Não devo ter sido o primeiro babaca que caiu no papo dele.

— As peças não se encaixam. — O amigo pareceu não se importar com sua explosão repentina. Aparentemente estava falando consigo mesmo.

— Se encaixam sim, Kuroko. — O ruivo discordou, mordendo o pão com violência. Uma boa quantia de molho escorreu e acabou sujando sua calça, mas Kagami não se incomodou em limpar. — Eu errei no início, quando não consegui reagir ao beijo do Tatsuya... Mas pelo menos descobri que na verdade estava sendo usado por Aomine. Que eu estava... Sozinho. — Franziu a testa, sentindo um aperto familiar em seu peito.

— Até entendo que Himuro-kun é importante para você e que vocês naturamente se encontrariam em Los Angeles para fazer as pazes. — Kuroko murmurou, ainda com um tom brando de voz. — Entendo também que ele tentaria alguma coisa com você e que sua reação seria paralisar, principalmente se tratando de sua ingenuidade descomunal, Kagami-kun...

— Oe!

— Só não entendo o motivo de o Aomine-kun ter mentido tanto, sendo que ele também gostava muito de você. — O menor franziu as sobrancelhas. — Com certeza ele ficaria zangado, mas para chegar à esse ponto... Inventar tantas coisas...

— Aquele idiota não mentiu, isso eu posso te afirmar. — Kagami suspirou, totalmente descrente e irônico. Quem dera aquelas palavras fossem mentiras... — Ele foi bem direto e olhou nos meus olhos quando disse todas aquelas bostas.

— Aomine-kun é orgulhoso e impulsivo. — Kuroko falou mais uma vez, agora buscando seu olhar. — Ele provavelmente estava se defendendo.

— Bem, seja como for, caguei para ele. — Kagami soltou uma risada nasal e quase cruel, lembrando das palavras que o próprio moreno usara. — Aomine nem sequer me ouviu direito. E sabe o que mais? Eu sempre suspeitei que ele estivesse me usando, então quase foi bom eu ter descoberto antes de me envolver mais. Acho que depois o tombo seria bem maior.

— Kagami-kun, não quero me meter, mas tenho certeza absoluta de que vocês dois estão errados. — O amigo disse, franzindo as sobrancelhas. — Acredito que deveriam conversar novamente para esclarescer as coisas.

— Isso não vai acontecer. Não tem mais nada a ser esclarescido. — Kagami decidiu-se, sentindo mais uma onda de raiva o invadir. — Não estou nem um pouco afim de ouvir todas aquelas merdas mais uma vez. — Suspirou, unindo as sobrancelhas. — Machucou demais... — Comentou em voz baixa, sentindo o peito apertar. — Eu gostava muito dele, Kuroko.

— Eu sei. — O amigo o olhou, comrpeensivo.

— E eu falei isso para ele. — O ruivo prosseguiu, fitando agora o seu lanche. — Disse que me arrependi, que não quis o beijo, que estava apaixonado por ele e tudo o mais. Juro que estava esperando que ele brigasse comigo e que a gente rompesse... Mas não que ele me humilhasse daquela forma.

— Mas você também errou, Kagami-kun. Você não deveria ter chegado tão longe com o Himuro-kun.

— Eu sei que não, fui um idiota e não percebi onde tudo iria acabar. Só que para o Daiki não fez diferença nenhuma no final das contas, ele nunca quis nada comigo. — O ruivo suspirou, pegando um guardanapo para finalmente limpar a calça. Soltou mais uma risada nasal enquanto tirava o exesso de molho. — O mais irônico é pensar que o Tatsuya me tirou de um problema gigante. Só assim eu descobri o que eu singinifcava para o D... Para o Aomine. — Corrigiu-se, suspirando fundo. — Quase teria que agradecer a ele por me ajudar indiretamente.

— Kagami-kun! — Kuroko chamou sua atenção. — O que você vai fazer agora?

O ruivo voltou a encarar o amigo, que provavelmente entendera suas intenções apenas com esse breve olhar. Ele era esperto.

— Seguir em frente. — O ruivo deu de ombros, deixando o guardanapo usado de lado e já pegando um novo lanche. — Tenho certeza que Aomine vai fazer o mesmo, então não me importo.

— Entendi. — Kuroko parecia um pouco desgostoso. — Vocês dois são orgulhosos demais e ainda vão perceber que estão errados. Só espero que não demore demais.

— Pode ser que a gente esteja errado, mas ele me magoou demais. — Kagami disse, derrubando mais molho em sua calça ao morder o novo cheeseburguer. Estava uma pouco alterado e não prestava atenção nas atitudes. — Droga, vou lavar minha calça. — Finalizou o assunto, levantando-se para ir ao banheiro. — Kuroko, obrigado por ouvir, mas acho que não tem muito o que fazer a respeito.

— Ok Kagami-kun. — O menor assentiu, com um mínimo sorriso pesaroso. — Estou realmente triste por vocês dois, porém espero que dê tudo certo.

— Vai dar. — Kagami sorriu de forma forçada, andando pacientemente até o banheiro.

Eu vou dar um jeito... Vou fazer dar certo.

~Aomine Daiki~

— Dai-chan, eu estou ficando irritada de verdade! — Satsuki bradou, parando em sua frente na intenção de bloquear o seu trajeto.

— Não seja tão escandalosa. — O moreno desviou-a sem cerimônia alguma e seguiu seu rumo pelas calçadas do centro. — Desista.

Aomine começou a pensar que deveria ter recusado o convite de Satsuki, mas sua vontade de comer hamburguer de teryaki falou mais alto. No final das contas estava sendo melhor assim — afinal, assistir pornô, ler revistas e ouvir música não estava sendo o suficiente para desviar seus pensamentos. A voz de Satsuki pelo menos ocupava sua mente, e ecoava no ponto mais fundo de seu cérebro.

— Você está insuportável, sabia? — Momoi bufou, apressando o passo para caminhar ao seu lado novamente. — Estou ligando para sua casa a semana inteira, sua mãe não sabe me dizer nada, você está todo nojento e mau-humorado... Pode me falar de uma vez por todas o que aconteceu, caramba? Eu estou preocupada!

— Contente-se com minha companhia hoje. — O moreno resmungou pela milésima vez, coçando a orelha com o mindinho. — Ainda não estou afim de falar sobre isso.

— Você é um péssimo amigo de vez em quando, sabia? — Ela murmurou, tristonha. — Só quero saber por que você está tão triste... E principalmente o que aconteceu entre você e o Kagamin. É tão difícil assim me dizer?

— É! — Aomine respondeu de forma seca, virando a esquina que dava acesso à entrada do Maji Burguer. — Vamos falar de outra coisa, ok? Uma hora ou outra eu vou te contar, mas não hoje.

— Ok. — Ela suspirou, dando-se por vencida. — Mas só vou pagar metade dos seus lanches então. Estou magoada.

— Não faz mal. Melhor do que nada. — Aomine sorriu minimamente, abrindo a porta da lanchonete para dar passagem à amiga. — Vou mijar. Pode pedir vinte hamburgueres de teryaki para mim?

— Só dez! Oportunista desgraçado. — Ela estreitou os olhos, indo até o balcão. — Se quiser os outros dez, compre sozinho Dai-chan.

— Pelo menos tentei. — O moreno deu de ombros com um sorriso forçado e debochado, seguindo seu trajeto preestabelecido. Sua bexiga reclamara desde a metado do caminho, então precisava urgentemente ir ao banheiro.

Aomine notou que a lanchonete não estava muito cheia naquela tarde, apenas quatro mesas encontravam-se ocupadas. No início do ano era comum a pouco movimento, pois a maioria das pessoas estava de férias, e consequentemente viajando para visitar seus parentes e amigos. Na família de Daiki era assim também, sempre íam ao sítio de sua avó, mas esse ano foi diferente por decisão sua... Preferira ficar em Tóquio para esperar por ele.

— Tsc. — Estalou a língua no céu da boca, percebendo que mais uma vez seus pensamentos estavam voltando à Taiga. — Saco. — Resmungou em voz baixa, abrindo a porta do banheiro.

O moreno fazia qualquer coisa para se distrair, e até conseguia facilmente, mas uma hora ou outra tudo voltava a tona. Lógico que não seria tão fácil esquecer a pessoa que mais fez diferença em sua vida até o momento, no entanto também não parecia ser tão impossível assim... Se esforçaria até dar certo — mesmo que seu orgulho restaurasse a dor da traição e seu subconsciente a substituísse com a culpa das mentiras. Seria uma guerra constante, mas Aomine era forte e saberia lidar com aquilo. Era só uma questão de tempo até encontrar outro rolo para o distrair. E seria uma mulher dessa vez.

~Kagami Taiga~

O ruivo teve um leve sobressalto assim que ouviu o ranger da porta, barulho que acabou cortando o rumo de seus pensamentos — que mais uma vez estavam confusos e cheios de turbulências. Automaticamente, Kagami desviou o olhar da água corrente que molhava seus dedos e observou o reflexo no espelho, procurando distraidamente saber quem entrava no banheiro.

Aquilo com certeza foi a maior inconveniência e ironia que o destino poderia ter colocado em seu caminho. O minúsculo ataque cardíaco foi inevitável assim que reconheceu o moreno de cabelos azuis, dono do sorriso mais cativante e do coração mais frio que já conhecera.

Por que justo ele?

Completamente sem reção, sentindo o coração descompassado quase sair pela boca, e com os dedos trêmulos, Kagami desligou imediatamente a torneira e focou o olhar perdido na pia de mármore. Calma Taiga, respire fundo, enxugue as mãos e saia do banheiro. Finja que ele não está ali, que ele é invisível. Pensou, apertando o maxilar para encontrar uma pontada de sangue frio em seu corpo. Estava difícil, principalmente quando seu coração pulava como um louco.

— Você, huh? — A voz grave e arrastada de Daiki preencheu o silêncio e ecoou pelo banheiro. Foi inevitável Kagami erguer o olhar e observá-lo pelo reflexo do espelho.

Amor e ódio. Era isso que sentia por Aomine. No momento mais ódio do que amor, porém logo isso se inverteria mais uma vez, e depois novamente, e de novo... Até Kagami decidir acabar com aquela palhaçada e seguir em frente. Precisaria dar um jeito!

Engolindo em seco, o ruivo retirou duas folhas de papel do suporte e secou as mãos com uma paciência que nem mesmo conhecia. Sem olhar para Aomine, jogou-as no lixo após o uso e girou o corpo. Naquele momento os olhares se cruzaram brevemente, mas o ruivo traçou um caminho em linha reta até a porta, passando ao lado do moreno sem soltar uma única palavra.

A sensação de ignorá-lo era horrível e praticamente tirava seu ar, assim como o cheiro de perfume que sentiu ao se aproximar. Há alguns dias o que mais queria no mundo era beijar aquela boca, abraçá-lo e sentir o calor daquele corpo junto ao seu... E hoje gostaria apenas que ele se fodesse e ficasse o mais distante possível de si.

— Não me ignore Taiga! — Daiki foi incisivo, segurando seu braço assim que fez menção de sair do banheiro. O local onde a mão do moreno tocava parecia queimar, como sempre, porém hoje não era mais tão agradável.

Por que ele tinha que piorar as coisas? Daiki o segurava ali para fazer uma espécie de tortura? Já não estava bem clara a situação?

— Para você é 'Kagami'. — Taiga respondeu no mesmo instante, com uma frieza retirada do ponto mais dolorido que conseguiu encontrar em seu interior. Não virou-se para olhá-lo, mas continuou a falar: — E sobre seu tênis, vou pedir para alguém te devolver. — Desfez o contato com um movimento brusco, sentindo o coração apertar mais ainda. — Acho que era o único assunto pendente entre nós dois. Certo... Aomine? — Finalizou, olhando-o por cima do ombro ao assinalar o nome.

Assim que seus olhares se encontraram a sensação foi outra. Surpresa. Aquilo de alguma forma fez o interior do ruivo gelar por alguns instantes. Kagami jurou ter visto um lampejo de tristeza no semblante de Daiki, assim como no dia da derrota da Touou na Winter Cup, mas o olhar dele logo tornou-se desdenhoso e gelado... Como supostamente era para ser.

— Jogue fora. Era só um par velho que eu tinha em casa. — Daiki fez um gesto indiferente, virando as costas e andando até o mictório.

— Morra... — Kagami disse, saindo imediatamente do banheiro, evitando à todo custo bater a porta. A raiva que sentia era enorme, mas o aperto em seu estômago possuía uma proporção maior ainda.

Por que tinha que gostar tanto dele? Por que essa merda teve que acabar assim? Por que tinha que machucar tanto perder alguém que não ligava para absolutamente nada?

Com o olhar desfocado, Kagami caminhou até a mesa onde Kuroko ainda o esperava, com o copo de milkshake praticamente cheio entre os dedos. Apesar do sobressalto, não foi surpresa nenhuma encontrar Momoi Satsuki conversando com o amigo.

Não queria olhar para ela agora...

— Kagami-kun. — Kuroko levantou-se imediatamente, assim que viu o ruivo se aproximar. — Pedi para embalar seus lanches para a viagem. Vamos?

O ruivo apenas assentiu com a cabeça, mas a sua vontade era abraçar o amigo e agradecê-lo eternamente por ser tão esperto e cheio de tato. Kagami simplesmente precisava sumir daquela lanchonete, principalmente ao encontrar o olhar triste e rosado da menina.

Será que ela sabia? Perguntou-se, desviando o olhar para a porta do banheiro, e então para a saída da lanchonete. Pouco importava agora, só queria passar uma borracha naquilo tudo, esquecer Daiki e seguir com sua vida o quanto antes.

— Tchau, Momoi-chan.

— Tchau Tetsu-kun, Kagamin... — Ela acenou com desânimo, sentando-se à mesa que ocupavam há alguns minutos.

O ruivo não olhou para trás. Parecia um covarde fugindo, mas apenas precisava respirar... E bem longe daquele lugar. Longe de Daiki.

~Aomine Daiki~

O moreno olhava o reflexo no espelho, encarando seus próprios olhos azuis e tristes. Certificou-se de abrir bem as janelas, mas mesmo assim sentia uma imensa falta de ar, que nada tinha a ver com sua claustrofobia.

Estava doendo... Sentir o desprezo de Taiga estava doendo.

— Foi ele quem errou... — Murmurou, fechando os olhos para que as insistentes e insuportáveis lágrimas não caíssem. — Ele me trocou, não me considerou suficiente... — Cerrou os dentes e os punhos, numa tentativa de conter aquele mal-estar que se apoderava de seu corpo. — Por que diabos eu estou sentindo o remorso?

O destino sabia ser bem filho da puta. Ele insistia em colocar Taiga em sua frente, e nos momentos mais inconvenientes... Quando começava a entender os fatos, quando estava finalmente se levantando e sentindo que poderia seguir em frente tranquilamente, com a cabeça erguida, quando estava certo de que teve razão em seus atos.

Mas por que foi obrigado a fitar os olhos vermelhos do ruivo naquela tarde? Por que sentiu culpa e dor ao ser chamado de 'Aomine'? Por que queria voltar no tempo e conversar direito ao invés de criar mentiras ridículas, que nem faziam sentido?

— Merda! — Esbravejou, fungando e lutando contra aquelas porcarias das lágrimas. Elas não cairíam jamais. — Ele é só um cara. Foram só dois meses. Merda!

Por que tinha que machucar tanto?

Daiki rosnou e saiu do banheiro nos momentos seguintes. Não encontraria Taiga, tinha certeza disso, mas gostaria que ele ainda estivesse na lanchonete para que pudesse falar qualquer coisa... Só não sabia o que dizer. Seria melhor ficar em silêncio, nem sequer deveria olhar para ele... Nem nada. Apenas esquecer. Seria mais fácil.

Precisava respirar.

***

Duas semanas depois

~Himuro Tatsuya~

A vibração do celular viera como uma benção naquela madrugada.

Himuro despertara um pouco aflito, sentando-se na cama com o rosto levemente suado. Teve que rir de si mesmo ao constatar que estava repousando confortavelmente em sua cama — e não fugindo de um animal selvagem, um felino, em meio à uma floresta escura e sem fim.

— Pesadelos, huh? — Murmurou, apanhando o celular em baixo do travesseiro. Ainda era 3h da madrugada. — Taiga! — Seu sorriso apliara ao ver o remetente, porém crescera mais ainda ao ler o conteúdo da mensagem no WhatsApp.

Kagami Taiga: Oi Tatsuya. Tudo bem? Acho que a gente precisa conversar.Vai fazer alguma coisa no sábado?

— Não demorou nem um mês inteiro para você voltar? — Himuro constatou, satisfeito, tocando o anel que repousava em seu pescoço úmido do suor. — Deve ter dado uma merda grande com o seu Aomine... — Sorriu de canto, sentindo-se um pouco cruel, mas ao mesmo tempo feliz. — Sabia que você voltaria para mim, Taiga.

Sem esperar um segundo sequer, pôs-se a digitar. Sentia o coração pular como um louco... Estava na hora de cuidar de Taiga de verdade, como era para ter sido desde o começo.

...

Notas finais
Pois então minha gente, é isso por hoje... Agora meio que a coisa vai tomar forma, e perder forma também. Fiz sentido? Nha... Mudou um pouco o curso da história, espero que não se assustem! Mas temos um trio de bakas com sentimentos confusos... Então! Profecias e hipóteses? Musiquinha óbvia de hoje... I Hate Everything About You - Three Days Grace: https://www.youtube.com/watch?v=BpwCJzPlz8k E um bônus do Granrodeo que destrói meus feelings, e ainda com um AMV de KnB que achei agora (essa é para os masoquistas, só acho): https://www.youtube.com/watch?v=rNY9atFSIbc OBRIGADA por chegarem até aqui, favoritarem minha história, comentarem, me apoiarem! Amo vocês meus anjos, vocês alegram e muito o meu dia xD Beijão enoooooooooooooorme da Lana-chan e até o próximo capítulo! ;************************************************