Linha Tênue
3 Me dê o Controle.
Notas iniciais

Duas semanas depois . Sexta-feira — 14h58min
~Kagami Taiga~
Aquela ladainha sobre História do Japão Feudal estava sendo eterna e exaustiva na opinião de Taiga. Para sua alegria, o sinal melodioso não tardou a soar pelos corredores da Seirin, dando por encerrada a última aula da semana! Finalmente chegara a sexta-feira, o maravilhoso prelúdio para o final de semana.
O ruivo levantou-se prontamente e lançou um olhar significativo para Kuroko, que sentava-se às suas costas. O sorriso do amigo era similar ao seu, indicando apenas uma coisa: Treino! Imediatamente, Kagami começou a arrumar os materiais de forma desorganizada, mal prestando atenção nos papéis e lápis que jogava aleatoriamente dentro da bolsa.
Kagami considerava aquele o momento mais sublime do seu dia, quando se reunia com seus parceiros para fazer algo que amava acima de tudo: Jogar basquete! E depois ainda tinha o bônus de enfrentar Aomine nas triviais partidas mano a mano que disputavam. Se Daiki não fosse tão preguiçoso poderiam fazer aquilo todos os dias também!
Claro que Kagami não conseguiu passar pelo moreno nas partidas que disputaram na semana passada e no decorrer desta, mas curiosamente estava se irritando menos com esse fato — salvo no calor do momento, quando sentia vontade de atirar Aomine para muito longe, apenas pela arrogância natural do maldito. Mas tudo bem, hoje jogariam novamente e com certeza o derrotaria!
Aquilo ainda era estranho para o ruivo... Se dar bem com Aomine Daiki nunca fez parte dos seus planos, mas aconteceu rapidamente, e de forma fácil. Conversavam por horas seguidas sobre qualquer coisa, e isso apenas deixava cada vez mais claro que eram muito parecidos.
Kagami tinha que admitir: Se divertia bastante na companhia de Daiki, mesmo quando antagonizavam sobre algum assunto e brigavam por incansáveis minutos! Tê-lo como amigo era bem melhor do que ficar sozinho em casa olhando para as paredes até sentir sono.
Outra coisa peculiar na semana — além da presença constante de Aomine, lógico — foram as insistentes formas de contato de Himuro Tatsuya. Ele mandava várias mensagens no celular, convidando Taiga para fazer alguma coisa... Kagami sabia que ele procurava conversar e restaurar o relacionamento de irmãos que tinham.
Mesmo com aqueles inúmeros convites, não se encontraram uma vez sequer desde a Winter Cup. Não estava ignorando Himuro de propósito, apenas via as mensagens horas depois de elas terem chego, e então já era tarde para marcarem algo. Até respondia com um pedido de desculpas e trocavam algumas palavras, mas a conversa não fluía direito...
A verdade é que não sabia se estava preparado para conversar com Tatsuya, e tinha medo do que ele queria dizer com "restaurar o relacionamento que tinham". Claro, ainda eram irmãos, mas o ruivo não sabia explicar o motivo de tanta relutância... Pressentimento?
Entretanto, não era nisso que Kagami queria pensar naquele momento. Agora estava seguindo com Kuroko pelos corredores, em direção ao ginásio — sua segunda casa. Talvez fosse a primeira, e o outro lar seria seu apartamento... Não sabia mais! Só sabia que amava jogar basquete e que mal esperava pelos próximos campeonatos! O gosto da vitória foi maravilhoso.
***
18h12min
~Aomine Daiki~
— E aê? — O moreno o cumprimentou com a voz arrastada e preguiçosa, assim que entrou nos limites da quadra.
— Está atrasado... — Kagami comentou em voz alta, sem virar-se para olhá-lo. O ruivo quicava continuamente a bola no chão de cimento e corria de um lado para outro fingindo driblar um oponente invisível.
— Foda-se! — Aomine soltou uma risada nasal, jogando despreocupadamente sua bolsa no chão para que colidisse com a de Taiga, derrubando ambas.
O ruivo não pareceu prestar atenção nesse fato, pois já preparava-se para arremessar a bola, posicionado na linha lateral do garrafão. Daiki não pôde perder a oportunidade de irritá-lo... Correu silenciosamente para bloquear o lance que ele estava quase concluindo. Majestosamente, deu um tapa na bola assim que ela saiu das mãos de Taiga, fazendo-a voar para fora dos limites da quadra.
— Toco! — Exclamou com a voz empolgada e recheada de sarcasmo, rindo da falta de reação do ruivo. — Cheirando a quadra já cedo, Bakagami?
— Filho da puta! — Ele estreitou os olhos e o empurrou, mas o sorriso brincou em seus lábios. — Vai ter volta, Ahomine!
— Ah, claro que vai! — Ironizou, tirando a jaqueta enquanto ele corria para buscar a bola. — Você e suas falsas promessas... Olha o meu tênis aí nos seus pés!
— Cala boca, vamos logo! — Kagami irritou-se brevemente, mas logo seu olhar se tornou desafiador. — Hoje vou chutar sua bunda e provar que mereço!
— É, como sempre! — Daiki teve que debochar enquanto caminhava até a ponta do garrafão, onde ele o esperava animado para começar.
Precisava admitir, Kagami tinha muita disposição e força de vontade. Isso provavelmente era contagiante, pois em que vida Aomine Daiki sairia do conforto de sua cama para jogar basquete no meio do inverno? Já faltava aos treinos com Touou para ficar de boa, vendo suas revistas e ouvindo música... Mas com Taiga era diferente, ou melhor, se tornou diferente.
Aquilo tudo ainda era estranho para Aomine. Quando menos esperava, olhava no relógio para verificar quanto tempo faltava para jogar com Taiga. O basquete agora o divertia novamente graças ao ruivo, que fora o único cara capaz de derrotá-lo. O admirava secretamente por isso e se sentia cada vez mais tentado em vê-lo repetir tal façanha, mas agora no mano a mano... Ele tinha muito potencial!
Kagami Taiga era seu rival por natureza e isso nunca mudaria, mas essa rixa agora se resumia ao basquete! Ironicamente, Taiga tornou-se seu melhor companheiro nos outros quesitos... Talvez tornou-se até mesmo um amigo, como Tetsu na época da Teiko. Ele era legal e seus gostos batiam de forma surpreendente. Conversar com Taiga era muito fácil, e rir com qualquer bobeira que ele dizia também!
Só esperava não estar confundindo as coisas, como naquela vez com Kise... Taiga tinha potencial para isso também!
Sem tempo para pensar em mais nada, Aomine assumiu a posição de defesa e tratou de marcar Kagami, que vinha como um tigre para cima de si. Ele amava o basquete, tanto quanto Aomine, dava para ver em seus olhos vermelhos. Eram realmente parecidos!
***
— Preciso passar numa Conveniência antes de ir para casa! — Kagami comentou assim que saíram juntos do Maji Burguer, com seus estômagos cheios. — Se quiser ir na frente pode ir!
— Nah... Vou com você! — O moreno deu de ombros, com a voz arrastada. — Não tenho nada de melhor para fazer em casa, e pode ter chego alguma revista nova para eu comprar.
— Como quiser! — Kagami disse, arrumando a mochila em cima dos ombros pela terceira vez desde que saíram da lanchonete. Ele tinha aquele costume, Aomine notou.
— Pois então Taiga, você estava falando que mora sozinho... — O moreno continuou o assunto que Kagami interrompeu.
— Ah é! — Ele agitou a cabeça, como se tivesse lembrado da conversa anterior naquele momento. — Meu pai teoricamente deveria estar morando comigo, mas precisou voltar para a América à trabalho. Comércio exterior e essas coisas.
— Então qual foi o sentido de você ter vindo para o Japão? — Daiki perguntou confuso, jogando a bola distraidamente para cima com uma das mãos.
— Também não sei! — Kagami deu de ombros, virando a esquina que dava acesso à uma rua mais movimentada. — Acho que meus pais só queriam se livrar de mim! E eu concordei. — Ele riu de si mesmo, voltando a ajeitar a mochila. — Na verdade eles se preocupam muito com trabalho, as vezes até demais. Ficam viajando da América para o Japão o tempo todo, mas preferem que eu estude por aqui mesmo, só porque a escola é bem mais difícil.
— Se fodeu! — Aomine sorriu de canto, segurando um bocejo.
— Mas está sendo melhor do que eu esperava! — O ruivo admitiu, erguendo as sobrancelhas. — Tirando o fato de ficar sozinho em casa... Isso cansa!
— Hm, cansa mesmo...
— Pois é, e sua história? — Kagami virou o rosto para olhá-lo com uma expressão interessada. — Você disse que também é sozinho... — Ele sorriu de forma irônica antes de continuar. — Claro, você tem o dom de afastar as pessoas naturalmente por ser um metido, mas do que estava falando?
— Idiota! — Aomine o empurrou com o corpo, rindo do sarcasmo exagerado de Kagami. — Se eu afastasse as pessoas você não viria correndo para jogar basquete comigo o tempo todo!
— Quem me convidou todas as vezes foi você! — O ruivo estreitou os olhos de forma acusatória, devolvendo o empurrão.
— E você aceitou na hora! — Aomine sorriu triunfante, mas o interrompeu antes que ele pudesse falar outra coisa. — Bem, sobre a minha história... Nada de interessante! Moro apenas com minha mãe porque meu pai a abandonou quando eu tinha uns oito ou nove anos. Não lembro. — Deu de ombros. — Parece que meu pai tinha outra família e eu nasci de um acidente, por isso não deu certo com minha mãe. Ela era "a outra", digamos assim. — Daiki continuou com uma breve risada, girando a bola em seu indicador. — Inicialmente morávamos em uma casa de campo e tínhamos um pequeno sítio, mas depois eu e minha mãe nos mudamos para a cidade. Foi aí que eu conheci o basquete, entrei na Teiko, e agora na Touou. Meu pai paga meus estudos até hoje e blá, blá blá... A história de sempre!
— Putz, que foda... — Kagami fez uma expressão que lembrava uma mistura de solidariedade e falta de palavras. Era estranho... Nem parecia a cara de bicho ruim dele!
— Já me conformei com isso há tempos! — Daiki sorriu de canto, tentando aliviar o clima. — Sou sozinho porque minha mãe é bem louca e está sempre ocupada com alguma coisa nova. E só... Não tenho muitos amigos também, apenas Satsuki, Kuroko e você. Os outros são apenas para ilustrar.
— E eu? — Kagami sorriu de canto, parando em frente à porta de uma Loja de Conveniência para encará-lo.
Aomine desejou poder ler os pensamentos de Taiga depois daquilo. Ele fez uma expressão muito interessante, mas que não conseguia dizer o que significava.
— É, e você! — O moreno repetiu com as sobrancelhas arqueadas, empurrando-o para que entrasse na loja. —Vai logo!
— Gostei! — Ele admitiu enquanto se virava, abrindo a porta e fazendo o som digital e melodioso ecoar pelo local, anunciando novos clientes.
Enquanto Kagami se embrenhava pelas gôndolas em busca de sabe-se lá o quê, Aomine foi na seção das revistas para dar uma olhada. Suas preferências resumiam-se à fotos de mulheres com peitos grandes e notícias recentes sobre seus ídolos do basquete. Infelizmente não tinha nada de novo. Comprava todas as edições mensais, mas as de novembro ainda não chegaram às lojas.
Discretamente, Aomine olhou para trás procurando saber se estava sendo observado, entretanto ninguém parecia se importar com sua presença naquele momento. Como quem não quer nada, pegou a revista onde a lendária Hitomi Tanaka compunha a capa e começou a folhear em um silêncio exagerado, como se estivesse cometendo um crime.
Peitos enormes... Pensava consigo mesmo ao olhar as fotos que já tinha visto milhões de vezes. Nunca cansaria. Tinha alguns pôsteres no quarto para confirmar aquilo.
— Pego em flagrante! — Kagami sussurrou bem próximo à sua orelha, minutos depois, fazendo-o arrepiar-se e rasgar acidentalmente um pedaço da revista. Estava tão compenetrado nas imagens que nem percebeu a aproximação de Taiga, mesmo que ele estivesse a míseros centímetros de seu corpo.
— Bakagami, seu filho da puta! — Aomine irritou-se, sentindo um leve calor subir por seu rosto. Não sabia se o rubor tinha ligação com o fato de ter rasgado a revista, ter sido flagrado vendo pornografia ou ter se arrepiado com o hálito dele em sua orelha. — Agora vou precisar comprar essa merda toda estragada. — Reclamou, batendo nele com os pedaços de papel em sua mão. — Você vai pagar por ela!
— Vou nada! — Kagami estava se segurando para não rir em voz alta. — Não vamos comprá-la! É só colocar por trás das outras. — Ele murmurou, tirando o exemplar de suas mãos e fechando-o como dava, apesar do enorme rasgo na dobra. — Ninguém viu, e a câmera está virada para o outro lado. — Kagami finalizou, devolvendo-a à prateleira.
— Que merda! — O moreno sussurrou, olhando para trás e confirmando as palavras que ele dissera. No fundo ainda estava um pouco incomodado com a situação, mas começou a rir de repente. — Você é bem ligeiro, Taiga!
— E você é um pervertido! — Kagami rebateu, encarando-o com um sorriso enorme e divertido.
Foi então que o moreno reparou nos caninos escapando pela lateral dos lábios dele. Eram realmente pontiagudos e engraçados. Dava ao rosto dele um ar bem legal...
— Tá, agora cala a boca e vamos logo! — Daiki desconversou, empurrando-o para que ele andasse por entre a gôndola. Olhou discretamente para cesta de compras que ele tinha em uma das mãos. — Já terminou?
— Quase! — Kagami respondeu, indo até a seção das bebidas, olhando por cima do ombro com uma expressão inocente. — Tenho que me preparar para amanhã!
— O que tem de bom amanhã? — Aomine perguntou distraidamente, olhando para a prateleira das cervejas e já avistando sua preferida: Kirin Ichiban. A mão de Taiga foi direto nas garrafas que olhava, pegando um engradado com seis unidades médias.
— Como assim, "o que tem de bom amanhã?" — Kagami riu incrédulo, colocando a bebida em seu cesto. — Lakers x Clippers. O clássico dos clássicos!
— Puta merda, é mesmo! — Aomine disse, erguendo as sobrancelhas inconformado com o próprio esquecimento. Sem pensar duas vezes, pegou mais um pequeno engradado da cerveja e colocou no cesto de Taiga. — Esse eu pago, mas pode deixar gelando pra mim!
— Oe, como assim? — Kagami perguntou, franzindo as sobrancelhas.
— Vou assistir na sua casa! — Aomine deu de ombros, olhando novamente para o que ele carregava. — Anda logo, vamos pegar mais comida para mim. Só isso aí não vai chegar!
— Espera aí! — O ruivo riu incrédulo, desviando-se das mãos que já o empurravam pelo corredor. — Você está se convidando para assistir o jogo no meu apartamento?
— Sim! — Respondeu com a voz arrastada, como se fosse óbvio, desviando do ruivo e seguindo por entre a gôndola. — Anda Taiga!
— Você é folgado demais! — O ruivo reclamou, acompanhando-o um pouco inconformado.
Aomine não disse nada, apenas virou o rosto e o encarou com um meio sorriso. Sabia que ele não iria negar... Ele era legal demais pra isso, apesar de seu jeito mau-humorado.
Daiki divertiu-se mentalmente ao pensar que só com aquele rosto fechado mesmo ele conseguiria comprar cerveja, mesmo sendo de menor! Parecia um velho sarna e resmungão.
***
— OK, sua casa realmente é super vazia! — O moreno comentou ao adentrar o apartamento de Taiga pela primeira vez.
— Já te disse, menos coisas para limpar! — Kagami deu de ombros, levando o que comprou para a cozinha mais adiante. — Pode colocar as coisas aqui em cima.
— OK! — Aomine comentou, deixando o tênis na entrada, cruzando a sala e levando as sacolas para uma bancada de mármore escuro que ali havia.
O moreno olhou ao redor e percebeu que o apartamento era um lugar bem agradável de estar. A sala era ligada à cozinha, separado justamente pelo local onde estava deixando as compras... Aquela bancada seria algo como uma mesa? Provavelmente. Uma das passagens que tinha no cômodo dava acesso à um corredor, onde havia mais algumas portas. E ainda tinha a enorme saída para a sacada, encoberta por uma cortina azul escura.
Aomine deduziu que apartamentos eram legais... Teria um desses algum dia! Mas precisaria ter mais tons de azul e ser mais decorado.
— Quer sentar? — Kagami perguntou, apontando para o sofá de canto enquanto guardava as coisas na geladeira.
— Uhum! — Concordou, praticamente se jogando no estofado e já começando a se sentir em casa, apesar de tudo ali ser organizado e limpo demais para parecer seu lar. — Vou ligar a TV!
— Ok!
O moreno procurou pelo controle ao seu redor, mas haviam três ali jogados no sofá. Pegou-os na mão e tentou decodificar o que cada um fazia. Sem sucesso. De qualquer forma não daria o braço a torcer, jamais chamaria Taiga para ajudá-lo. Apertou o característico botão vermelho e para sua sorte a televisão ligou.
TV japonesa! Tinha certeza que não passava NBA ali. Olhou para o outro controle e então para os dispositivos eletrônicos em cima da televisão...
— Merda! — Resmungou, engolindo o orgulho e aumentando o tom de voz: — Taiga, como vejo NBA aqui?
— Use o controle cinza-claro para mudar de transmissor. Aperta o botão verde, aí vai para a TV americana. — Ele explicou em voz alta, sem desviar a atenção da geladeira. — Depois você só vai mudando de canal com o controle maior.
— Valeu! — Sussurrou quase inaudivelmente, executando o que ele pediu. Taiga era só um idiota, mas até que prestava para algumas coisas...
Imediatamente, o canal Discovery Channel começou ser transmitido — em inglês, para desgosto de Aomine. Não era aquilo que queria assistir, por isso olhou o controle maior e encontrou o botão onde poderia mudar de canal.
Tinha de tudo ali. Desde coisas idiotas como cachorros sendo vacinados, até caras estranhos falando sobre carros rebaixados ou comendo minhocas para sobreviver numa floresta. Aomine achou um canal interessante — e legendado — que demonstrava os usos das armas na Segunda Guerra Mundial, mas não queria ver isso agora. Apertou mais uma vez o botão dos canais e então o paraíso passou por seus olhos: Peitos! E balançando ainda por cima!
— Oe, o que você tá vendo aí? — Kagami exclamou exasperado lá dá cozinha assim que o som dos gemidos femininos ecoou pela casa. — Muda esse canal, seu idiota!
— Jamais! — O moreno sorriu satisfeito, segurando com firmeza o controle enquanto o canal Playboy continuava passando em sua frente. Riu ao ver Kagami andar bufando em sua direção com o rubor subindo por seu rosto.
— Muda a merda do canal! — O ruivo pediu em um tom irritado, apoiando um dos joelhos no estofado e uma das mãos no encosto do sofá, esticando o braço restante em uma falha tentativa de roubar o controle de Aomine.
— Olha só, tem mais canais como esse... — O moreno dava uma risada debochada, afastando o controle do alcance de Kagami ao mesmo tempo que abria um menu de canais. Além do Playboy viu algo como Sexy Hot e tinha também um For Men logo abaixo. Todos +18.
— Me dê o controle! — Kagami rosnou com uma expressão irritada, inclinando-se e esticando-se um pouco mais. Ele estava como o rosto muito vermelho, tanto quanto o seu cabelo, e aquilo apenas divertia Daiki ainda mais.
— Só depois de verificar essas coisas! — Aomine riu, afastando o ruivo com a mão restante, empurrando-o com um esforço pelo peito enquanto olhava para a tela em sua frente. — E o que será que tem nesse outro canal aqui?
— Não, pára! Esse não! — Ele murmurou entre dentes, ainda tentando pegar o controle.
Com a intenção de provocá-lo, trocou para o For Men, mas arrependeu-se na hora... Não sabia que era um canal de pornografia gay. Ambos paralisaram no ato, olhando para a TV. Um silêncio desconfortável reinou no local por alguns instantes, cortado apenas pelos gemidos roucos de dois homens fazendo sexo em uma cozinha industrial.
— Meia nove, Daiki! — Kagami disse com a voz mais controlada, voltando a encará-lo com os olhos rubros semicerrados. Sua irritação inicial parecia ter amenizado após aqueles segundos de desconforto.
— O... O quê? — O moreno perguntou incrédulo e com a voz falha, virando imediatamente o rosto para fitar Kagami.
Foi sua vez de ruborizar quando os olhares se encontraram. Nunca tinha visto o ruivo tão de perto, nem mesmo durante as partidas basquete. Um arrepio cruzou sua espinha quando sentiu a respiração quente e acelerada dele batendo em seu rosto.
Realmente estavam próximos. Demais.
Para completar o cenário, as palavras de Kagami ainda ecoavam por sua mente. Estava imaginando coisas, só pode! Taiga não falou daquele tipo de meia nove, falou?
Qualquer pessoa com a mente minimamente suja sabe o significado da posição meia nove, e a cabeça de Aomine era do pior tipo, tanto é que inconscientemente imaginou a cena acontecendo. Repreendeu na hora. Será que Taiga era...? Não, impossível... Mas então o que era isso tudo?
— O canal da NBA é o número 69, idiota. — Kagami esclareceu com o tom de voz baixo, erguendo as sobrancelhas e esboçando um quase imperceptível sorriso de canto.
Diante da explicação, Aomine ruborizou mais ainda e sentiu-se — no mínimo — patético por ter pensado que ele se referia à posição sexual. Lógico que Taiga não era gay, bi, pan ou derivados... Nem todo mundo era!
Com o rosto ainda próximo e sem desviar o olhar, Kagami afastou o braço de Daiki, que o segurava pelo peito, e esticou-se mais ainda para pegar o controle de sua mão. Os dedos de ambos se encostaram minimamente quando o ruivo apanhou o objeto, e naquele momento as coisas pareceram se intensificar mais ainda.
O rosto de Taiga passou muito perto do seu durante o movimento da volta, e por um breve instante Aomine realmente imaginou que ele iria beijá-lo... Daiki inclusive moveu-se alguns milímetros para responder ao impulso do ruivo, aproximando-se quase que imperceptivelmente. Por sorte seus reflexos eram ótimos! Parou no ato quando viu Taiga afastar-se, ainda o encarando... Daria com o nariz no queixo dele e seria ridículo.
Foi a interpretação mais errada e inconsequente de sua vida. Mas que bela merda. O que tinha na cabeça para pensar que Kagami Taiga o daria um beijo, assim, do nada? Droga, que patético Daiki. Patético!
— Você é muito folgado, sabia? — Kagami soltou uma risada nasal, erguendo-se novamente para apoiar-se com o joelho no sofá. Ele olhou por alguns segundos para a TV, apertando o número 6 e o 9 no controle. — Pronto, isso é mais saudável para essa sua mente pervertida.
— Bem a minha... — Aomine engoliu em seco, ajeitando-se no sofá enquanto os gritos animados da torcida preencheram a sala, levando embora todo aquele clima que surgiu ali. E sim, surgiu um clima gigantesco... Qualquer um sentiria! Ou isso tudo aconteceu apenas na mente de Daiki?
— Vou guardar isso comigo! — Kagami exclamou de forma divertida e sarcástica, agitando o controle enquanto voltava para a cozinha. — É um item perigoso em suas mãos.
— E esses seus canais aí? — Aomine debochou, ainda tentado disfarçar sua falta de reação.
— Fazem parte de um pacote fechado, não posso escolhê-los! — Ele sorriu de canto, olhando-o por cima dos ombros com uma expressão inocente. — Ninguém manda ficar xeretando onde não deve!
— Humpf! — O moreno ficou sem resposta novamente, voltando a olhar para o jogo de basquete que estava reprisando. Não prestava real atenção, pois estava pensando no que acabara de acontecer. Além do mais, sabia que o Miami Heat perderia para o Chicago Bulls por poucos pontos.
Ok, quase beijara a porcaria da boca de Kagami Taiga, é isso mesmo?
Se a situação continuasse assim entre eles, aconteceria exatamente o mesmo que ocorreu com Kise no tempo da Teiko! Não que Daiki realmente se importasse, até gostava da ideia... O ruivo realmente era um cara legal que conseguiu prender sua atenção e distraí-lo nos últimos dias. E sim, ele era bem atraente!
Aomine olhou de esguelha pra Kagami por alguns segundos e então voltou-se para a TV, pensando que conseguiria facilmente se envolver com o ruivo. Seria tão natural quanto foi tornar-se próximo a ele, principalmente levando em conta que pensavam e agiam de forma muito parecida. Seria bem melhor do que com Kise, justamente por isso.
Sorriu de canto, olhando para a televisão... Começara a reparar em Taiga na Winter Cup por causa do basquete, mas não custava levar para aqueles lados também. Gostaria muito se fosse, para falar a verdade.
Só tinha dúvidas em como ele reagiria. Um soco bem dado no meio de sua boca, talvez? Bem, precisaria especular antes de sair beijando.
~Kagami Taiga~
Taiga ainda tinha a respiração um pouco acelerada quando terminava de guardar as compras na geladeira. A cena — no mínimo intensa — de minutos atrás ainda se repetia em sua mente.
Kagami sentira aquele clima apenas nas vezes que se encontrava a sós com Himuro Tatsuya, geralmente quando estavam prestes a se beijar ou até mesmo quando se beijavam, de fato. E agora isso acontece do nada, no sofá de seu apartamento com o imbecil do Aomine Daiki? Foi algo realmente inesperado e um pouco confuso!
Viu nos olhos do moreno que ele levara o "69" para o lado totalmente oposto ao qual se referia. Daiki nem sequer considerou que Taiga indicava o número do canal, simplesmente direcionou pra a parte pervertida da coisa... E, céus, aquilo quase colocou um fim na sanidade de Kagami por breves instantes. Sorte que agora pensava antes de agir, ou iria beijá-lo num impulso que veio sabe-se lá de onde... Levaria um soco na hora!
Ou será que ele era gay? O ruivo se perguntou, olhando de esguelha para Aomine, deitado confortavelmente em seu sofá como se estivesse em casa. Impossível... Ele andava com aquelas revistas pornôs para lá e para cá e não tinha cara de alguém que ficaria com outro homem. Além de tudo, Kagami jurava que ele tinha um lance com Momoi Satsuki, mesmo ela afirmando que amava o Kuroko.
Kagami só beijara a boca de Himuro até hoje, será que conseguiria realmente fazer o mesmo com Aomine? Engoliu em seco, inconformado, imaginando a cena. Um calor subiu por suas bochechas e seus dedos formigaram de vontade, chegou inclusive a fechar os olhos para alimentar o devaneio, entretanto repreendeu-se na hora. Pare, Taiga! Não misture as coisas...
Tarde demais. A curiosidade de sentir aqueles lábios tornou-se enorme, e se teve um breve clima porque não tentar? Simples, porque era a porcaria do Aomine ali e ele não era gay! E porque, mesmo negando, Kagami ainda sentia alguma coisa por Himuro... Uma maldita coisa que queria se livrar o quanto antes!
Seria essa uma forma? Não, não seria. É o Aomine Otário Não-Gay Daiki ali no sofá. Ponto final. Não tinha mais o que contestar.
***
— Enfim, acho que os Bulls realmente vão ganhar essa temporada! — Daiki bocejou assim que o jogo reprisado terminou.
— Ah, aposto que sim! — Kagami bufou, apoiando os braços por cima do encosto do sofá. — Se não fosse os Lakers, preferia que fosse os Spurs...
— Que horário os Lakers vão jogar amanhã? — Aomine perguntou pela terceira vez naquela noite, virando o rosto para olhá-lo.
— 22h.
— Vou ter bastante tempo para dormir então! — O moreno bocejou de novo, piscando com mais frequência enquanto se esticava do outro lado do sofá de canto. — Chego aqui pelas 21h, ok?
— Ok! — Kagami deu de ombros, bocejando também.
Ainda era cedo, mas já sentia sono. Talvez a preguiça de Aomine fosse tão contagiante quanto o seu sorriso.
— Vou vazar, Taiga! — Ele levantou-se vagarosamente, olhando mais uma vez para a TV. — E dê um jeito de colocar legenda nisso.
— Se você não tivesse estragado o controle eu até daria! — Kagami reclamou, olhando para o botão solto do aparelho. Deixara no chão mais cedo e Aomine pisara sem querer quando voltou do banheiro .
— Ah, pare de resmungar, você que o largou pelo meio do caminho! — Ele se justificou, ajuntando a mochila do chão.
— Claro, você e suas desculpas! — Kagami comentou de forma divertida, levantando-se também. — Vou descer junto contigo... É capaz de você se perder no caminho.
— Idiota! — Aomine riu de canto, mas não negou, apenas o esperou.
Desceram pelas escadas rindo e comentando sobre o jogo que acabaram de assistir. Agiam normalmente, a conversa fluía como sempre e não teve mais nenhum tipo de clima diferente, apenas as habituais trocas de xingamentos e os empurrões. Era como se a cena do sofá nem tivesse acontecido.
Para Kagami era um certo alívio, fora apenas uma vontade passageira de sua cabeça... Pelo menos era o que achava!
Por que diabos considerou dar um beijo naquele idiota mesmo?
***
O ruivo estava quase pegando no sono. Se encontrava mais precisamente no estágio onde seu corpo já repousava, mas sua mente não parara de funcionar completamente: O famoso subconsciente, que dava abertura aos sonhos. Esse lugar era constantemente visitado por Himuro Tatsuya há anos, porém, curiosamente, a pessoa que pisou ali naquela noite foi Aomine Daiki.
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