Linha Tênue
4 Hipocrisia.
Notas iniciais

Sábado — 18h52min
~Kagami Taiga~
— Cento e doze... Cento e treze... Cento e quatorze... — Kagami arfava, enquanto sentia os músculos dos braços cada vez mais doloridos. — Cento e quinze...
O suor escorria por seu rosto, molhando o assoalho onde apoiava sua mão e fazia suas flexões diárias. Estava nevando... Sem chance de jogar basquete na quadra. Precisaria compensar com exercícios em casa para não perder a forma.
Pelo menos assim se livrara do frio também!
— Cento e cinquenta! — Exclamou com os olhos fechados, soltando todo o peso do corpo no chão de madeira, com um baque surdo. Esticou os braços ao redor do corpo e relaxou por alguns segundos, sentindo o suor escorrer de todos os seus poros, em direção ao assoalho frio. — Cansei...
Kagami abriu vagarosamente os olhos e pegou a garrafinha d'água que deixou separada ali no chão, perto de si. Com os braços ainda moles, apoiou-se para se sentar e então começou a beber a água. Estava com muita sede, tomou até a última gota.
— Hora do banho... — Murmurou para si mesmo, limpando o pouco líquido que escorreu por seu queixo.
Levantou-se vagarosamente e começou a se alongar, andando em direção ao aparelho de som — sua fiel companhia desde sempre. Tinha o costume de fazer todas as coisas com música, mas com música bem alta. Ou seja, todos os vizinhos sabiam que gostava de ouvir Avicii quando se exercitava.
Batidas fortes vieram da porta assim que abaixou o volume da música. O ruivo sobressaltou-se na hora, já que era um medroso declarado. Depois que fora morar sozinho a coisa apenas piorou.
— Anda, Bakagami! — Ouviu uma voz grave e arrastada soando do lado de fora, seguida por mais batidas violentas e impacientes na madeira.
Era Aomine? Já? O ruivo olhou imediatamente para o relógio, um pouco eufórico demais para seu gosto. Ele falou que viria apenas as 21h, o que ele estava fazendo ali agora? E o porteiro nem avisou!
Imediatamente — e involuntariamente — Kagami cheirou o próprio sovaco. Lógico que estaria fedendo! Pulara infinitas vezes a corda e terminara sua sessão de exercícios com flexões. Estava suando pra caralho.
— Droga! — Exclamou, olhou ao redor em busca do desodorante, mas encontrou apenas a camiseta branca jogada em cima do sofá.
— Vai demorar muito, idiota? — A voz irritada do moreno soou novamente do outro lado da porta.
— Ah, quer saber? Foda-se! — O ruivo murmurou para si mesmo, fazendo uma careta. Não era menininha nenhuma pra se importar com essa besteiras de cheiro de sovaco. E além do mais, era só o Aomine!
Kagami andou até o hall vestindo rapidamente a camiseta por cima do suor mesmo. Com uma paciência que não lhe pertencia, espiou pelo "olho mágico" da porta e teve que sorrir de canto ao ver a expressão irritada e preguiçosa de Aomine do outro lado. Ele era um idiota. Destrancou a porta e a abriu.
— E aê! — Kagami cumprimentou de forma informal, dando espaço para ele entrar.
— Finalmente! — O moreno revirou os olhos, dando alguns passos para dentro do apartamento. — Você é surdo por acaso? Dava para ouvir a música lá da escada! — Aomine parou brevemente no hall para tirar o tênis preto All Star e olhou Kagami da cabeça aos pés com uma expressão intrigada.
— Você sabe que está duas horas adiantado? — O ruivo perguntou antes que ele pudesse dizer algo sobre sua aparência. Fechou a porta enquanto Daiki andava até a sala, removendo a jaqueta e atirando-a em qualquer canto... Era folgado mesmo, parecia realmente se sentir em casa ali.
— Sei! — Ele respondeu simplesmente, jogando-se no sofá e já pegando o controle que estava ali do lado. — E você sabe que está suado e fedendo?
— Sei! — Kagami riu do sarcasmo dele, percebendo que era a primeira vez que o via vestindo uma roupa branca, uma blusa de lã. Notou também que ele estava usando um perfume muito bom, e que o cheiro ficou para trás quando ele passou. Piscou rapidamente para desviar o pensamento. — Porque veio antes?
— Não tinha nada para fazer em casa e Satsuki me liberou mais cedo das compras infernais! — Ele respondeu com a voz preguiçosa, ligando a TV e apertando automaticamente o número 69 para ir ao canal da NBA. — E porque você está todo nojento? — Ele franziu a testa, olhando por cima do ombro para Kagami.
— Bem... Acho que isso não te interessa! — Kagami sorriu de canto, enxugando o suor com a gola da camiseta. — Certo?
— Hm, vai se foder então! — Ele soltou uma risada nasal e debochada, voltando a olhar para a TV enquanto erguia o dedo do meio em sua direção.
— Idiota! Vou lá tomar um banho. — Kagami respondeu por fim, dando um leve tapa na cabeça de Aomine quando passou por trás do sofá, andando em direção ao corredor. — Dá medo de dizer, mas fique a vontade. Tem cerveja e comida na geladeira. — O ruivo olhou para trás e o encarou com um sorriso afetado e recheado de ironia. — Não quebre nada e maneire na pornografia!
— Vai lá tomar banho vai! — Aomine debochou com um gesto de mãos, olhando-o novamente por cima do ombro com uma careta desgostosa. — Onde já se viu receber as visitas fedendo?
— Onde já se viu as visitas chegarem antes da hora? — Kagami riu, também mostrando o dedo do meio enquanto sumia pelo corredor, deixando-o para trás.
O ruivo foi até o quarto com a intenção de pegar uma roupa qualquer para vestir, porém quando se deu conta estava há minutos na frente do guarda-roupa tentando escolher alguma coisa mais legal do que suas habituais camisetas de manga comprida.
— Que ridículo! — Riu de si próprio, balançando a cabeça quando escolheu as peças. Nunca fora de se importar com a aparência e muito menos com roupas. Porque isso agora? Era só o Aomine que estava ali!
Não era só o Aomine, era o Aomine que estava ali... Reajustou a frase mentalmente, sorrindo de canto. Duas horas adiantado, e impregnando a sala com aquele cheiro bom de perfume... Completou, abrindo mais ainda o sorriso.
— Pare, Taiga! — Se repreendeu imediatamente, arregalando um pouco os olhos.
Tentou ficar sério ao perceber o rumo que as coisas estavam tomando em sua mente desde o dia anterior. Não podia estar gostando de Aomine, não é? Conversavam direito há menos de duas semanas e ele ainda era um babaca! Tudo bem que na noite passada teve um breve clima no sofá, mas foi por causa da situação toda: A proximidade, o pornô gay no fundo, a frase ambígua sobre meia-nove... Só! Além de que aconteceu apenas na cabeça de Taiga!
O ruivo estava em busca de uma desculpa para negar a situação e pensar que aquilo era algo completamente errado... Mas estava difícil encontrar essa desculpa, simplesmente porque não tinha nada de errado naquilo! Era fácil gostar de Daiki, apesar dos apesares.
E Himuro.... Bem, não queria pensar nisso agora. Talvez fosse realmente sua deixa para superar aquilo que um dia tiveram. Talvez!
***
— Meu caralho! Se aposentem! — Kagami exclamou, levantando-se do sofá de forma irritada, apontando incrédulo para a televisão. — Até a minha mãe acertaria essa, puta que pariu!
— Vão se foder! — O moreno também se irritou ao ver os Lakers perderem a bola no último lance do jogo. — Cara, eles não sabem mais jogar basquete!
— Não sabem! — O ruivo reforçou, sentando-se pesadamente no estofado, mas sem desviar o olhar da TV. — Pronto, foi a derrota mais vergonhosa da temporada!
— Nem dá gosto de ver! — Aomine comentou incrédulo, tomando um gole da cerveja para tentar se acalmar. Não adiantou. — Mas meu cacete, a bola estava ali dentro da cesta, estava ali! — Apontou irritado para a TV, como se pudesse mudar as coisas. — Ali!
— Ok, já era agora! — Kagami suspirou fundo, apoiando as costas no sofá e abrindo os braços por cima do encosto. — Eles estão fora...
— Pois é! — Aomine bufou, fechando os olhos. — Agora o negócio é torcer para os Bulls.
— Prefiro os Spurs! — O ruivo comentou, olhando para o teto com a cabeça apoiada no encosto do sofá.
— Bulls! — Daiki retrucou, olhando-o de canto.
— Spurs! — Kagami virou o rosto para olhá-lo também, estreitando os olhos.
— Bulls! — O moreno insistiu, sorrindo de canto com uma expressão marota.
— Idiota! — O ruivo teve que rir da infantilidade, balançando a cabeça enquanto voltava a encarar o teto. — Torça pra quem quiser! Nos vemos na final, otário.
— Quer apostar? — Aomine revidou com a voz calma e perigosa, virando-se no sofá para encará-lo, aproximando-se um pouco.
— Saiba que se os Spurs vencerem você vai precisar fazer algo muito vergonhoso para mim, Aomine Daiki! — Taiga sorriu de forma desafiadora, estendendo a mão para ele.
— Mas quem vai fazer isso é você Taiga, quando os Bulls ganharem o torneio! — O moreno sorriu, apertando sua mão com força, selando a aposta.
Quando Kagami fez menção de soltar-se do aperto, Aomine não permitiu, apenas segurou sua mão com mais firmeza ainda. Naquele exato instante o ruivo sentiu o coração acelerar um pouco... A sensação era bem familiar.
Daiki permanecia com o habitual sorriso de canto, agindo como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Na verdade era como se ele o avaliasse. Não! Aomine decididamente o avaliava com o olhar.
Kagami não fazia a mínima ideia de como estava sua face no momento, mas desejou do fundo da alma ser tão inexpressivo quanto Kuroko. Aqueles olhos azul-escuros de Daiki o deixavam hipnotizado, e por isso tinha certeza de que não conseguia esconder nenhuma das suas reações.
Sua respiração estava se tornando cada vez mais difícil, sua mão começava a suar contra a pele dele, e seu corpo esquentava aos poucos enquanto engolia em seco... Porém, o que realmente denunciou sua súbita euforia foi o olhar automático e rápido que lançou aos lábios de Aomine. Ele ampliou minimamente o sorriso ao notar a mudança do foco de sua atenção.
Droga, o que era aquilo tudo? Queria muito beijá-lo, e os lábios dele praticamente pediam por isso! Merda, de onde vinha essa vontade? Não conseguia pensar em outra coisa naquele momento. Kagami mal lembrava que eram os maiores rivais do universo há duas semanas. Costumavam se odiar, e de repente estavam ali novamente no sofá, de mãos dadas, se encarando com aquela tensão ao seu redor.
Aomine com certeza iria notar e estranhar seu comportamento, quem sabe até mesmo o socaria se imaginasse suas intenções. Mas então porque agia assim? Porque não soltava sua mão de uma vez? Droga... Ele parecia querer também, não tinha como saber! Kagami só sabia que aquilo parecia estar durando séculos, apesar de que passaram apenas alguns segundos desde quando selaram a aposta.
Inesperadamente, o interfone tocou, dando um leve susto em ambos! Aomine sorriu um pouco mais e desfez o contato, para desapontamento do ruivo. Mais um clima arruinado! Já era a segunda vez que isso acontecia entre eles.
Mas será que Daiki também era...? Impossível...
— Não vai atender? — Aomine perguntou, erguendo as sobrancelhas, ainda o avaliando.
— Ah... Vou sim! — Kagami balbuciou, levantando-se na hora, em uma tentativa de restaurar a compostura. — Deve ser a pizza... Hm... Ache alguma coisa para a gente assistir enquanto eu busco lá em baixo!
— OK! — O moreno confirmou, voltando-se para os controles jogados no sofá.
Respirando fundo, Kagami foi até o interfone e atendeu, mas não prestava real atenção nas palavras do porteiro. Já sabia do que se tratava.
Saiu apressado pela porta, em busca da pizza que pediram. Precisava respirar um pouco do ar que Aomine não estivesse respirando também. Um ar que não tivesse aquele cheiro bom de seu perfume.
~Aomine Daiki~
Assim que Kagami saiu do apartamento, Aomine suspirou fundo e soltou o peso do corpo no sofá. Estava muito tenso, apesar de não aparentar. E não era para menos, Taiga tinha um olhar penetrante e desafiador demais, se ficassem se encarando por mais alguns instantes não resistiria, o beijaria sem pensar duas vezes.
— Você também quer, não é Taiga? — Aomine perguntou para o acento vazio que o ruivo ocupava instantes atrás. — Ah, quer sim! — Afirmou com um meio sorriso, fechando os olhos.
Kagami não parecia ser um cara gay, mas o clima que ficou ali no ar deixava tudo bem claro. Aomine era experiente o suficiente para saber que havia uma atração mútua — que surgiu sabe-se lá de onde! Precisou rir com a linha de pensamento, pois aquilo realmente chegava a ser cômico.
Bem que dizem: Existe uma linha tênue entre o ódio e o amor! Não que amasse Taiga, nada a ver, mas não o odiava mais. Bem pelo contrário, gostava bastante da companhia dele, sentia-se a vontade ali... O que era raro, já que preferia se isolar a maior parte do tempo.
A única coisa que deixava o moreno um pouco assustado era a forma como as coisas aconteciam. Nunca se sentiu dessa forma, nem mesmo com Kise — que foi o mais perto de um relacionamento que teve em sua vida. Suas mãos nunca suaram assim, e também nunca ficou tão eufórico ao encontrar-se prestes a beijar uma pessoa, seja ela homem ou mulher.
Não podia estar realmente gostando de Taiga, certo? Quer dizer, estavam conversando amigavelmente há apenas duas semanas, não tinha nem como! Era só atração física, gostos em comum, formas de pensar parecidas, enfim... Não sabia. Mas apreciava a forma como a coisa estava se desenrolando. Queria saber onde iria dar!
***
— Já reparou que somos parecidos? — Kagami perguntou com a boca cheia, dobrando melhor a perna no sofá. — Até no sabor de pizza...
— Pior que já reparei sim! — Aomine concordou, olhando para o filme que passava na TV, mas não prestava real atenção no conteúdo. Já assistira Star Trek algumas vezes em sua vida, ao ponto de decorar algumas falas.
— Tirando a parte dos peitos. — O ruivo soltou uma risada irônica, partindo o pedaço de queijo que ligava sua boca à pizza. — Nunca vi alguém como você nesse quesito. É muita safadeza para uma pessoa só!
— Só acho bonito. Tipo, muito bonito mesmo! — O moreno deu de ombros, colocando mais um enorme pedaço de pizza de quatro queijos na boca. — Mas é só um pedaço de carne, e não é uma condição.
— Como assim? — Kagami franziu a testa, confuso, olhando de canto para o moreno.
— A pessoa não precisa realmente ter peitos enormes para eu gostar dela! — Aomine respondeu, erguendo as sobrancelhas ao olhar para o ruivo.
— Hm... Sei! — Kagami soltou uma risada curta e abafada. — Isso me fez lembrar de um troço que queria te perguntar esses dias. Você e a Momoi tem um rolo, não é?
— Quê? — Aomine congelou no ato e começou a rir, engasgando-se brevemente com a pizza. — Claro que não! Ela é como uma irmã para mim.
— Esse troço de irmãos aí decididamente não me convence! — Kagami riu de forma sombria, olhando novamente para a TV.
— Como assim? — O moreno perguntou curioso, ainda rindo um pouco.
— Longa história, deixa pra outro dia! — O ruivo disse, mudando rápido de assunto com um gesto apressado de mãos. — Mas vocês já ficaram, no mínimo!
— Nah! — Daiki respondeu com um movimento de cabeça, apenas para acentuar mais ainda a sua negação. — Ela tem seus pontos positivos... Tipo os peitos enormes. Consegue ser legal quando quer e tem uma boa coleta de dados, mas é muito cheia de frescuras e meninices. Não me daria bem com alguém assim, não suporto.
— Ah não? — Kagami comentou de forma distraída, com a boca cheia.
— Não! — Aomine respondeu, olhando para a TV. — Sou bem cuidadoso com minhas escolhas, não é qualquer um que passa pelo meu filtro de preferências.
— Ah, você é chato nisso também? — Kagami lançou a pergunta de forma irônica, mordendo novamente a pizza.
— Lógico! — Aomine deu de ombros. — Para a pessoa ter o direito de desfrutar da minha incrível companhia precisa passar por alguns quesitos básicos! — O moreno disse, arrancando uma risada incrédula de Kagami. — Sério! Sou bem criterioso.
— E esses critérios seriam...? — Ele balbuciou as palavras entre risos.
— Antes de qualquer coisa, essa pessoa precisa entender que eu nunca vou mudar. Sou assim e acabou! — Aomine disse de forma curta e séria, olhando nos olhos rubros ao seu lado. — Claro, deve no mínimo gostar de basquete e não ter frescuras com muitas coisas bestas. Também precisa ter a plena certeza de que jamais deixarei de ver pornografia na minha vida... Aliás, era até preferível que assistisse comigo e se inspirasse. — O moreno fez uma breve pausa para pensar. — Deve gostar de pelo menos 75% das coisas que gosto, isso sem falar que ser legal é uma obrigação! E precisa realmente me merecer, lógico! — Acrescentou, com um gesto displicente. — Fisicamente eu nem ligo tanto, mas deve ter uma aparência bem satisfatória e atraente.
— É! Só lamento. — Kagami disse, dando alguns tapas cômicos nas costas do moreno. — Você vai morrer solteiro, meu caro.
— Ah, não vou mesmo! — Aomine disse com a voz arrastada, dando mais uma mordida na pizza.
— Essa pessoa não existe, seu idiota! — O ruivo riu, revirando os olhos antes de concentrar-se em sua cerveja. — Ou vai dizer que já achou alguém assim?
— Uma vez eu imaginei ter achado, mas não foi bem como eu esperava. — Daiki sorriu de canto, lembrando-se de Kise. Decidiu testar Kagami. — A parte das frescuras bestas, da pornografia e de que eu não vou mudar não ficaram muito claras para ele.
— Ele? — Kagami perguntou imediatamente, engasgando-se com a bebida.
— Ah sim, não tenho preferência de sexo! — O moreno disse de forma displicente, tomando um gole de sua sexta e última garrafa de cerveja. Provavelmente era só por causa da bebida que conseguia falar essas coisas tão naturalmente. — Ambos são bem interessantes.
Kagami nada respondeu, apenas ficou encarando-o incrédulo com a garrafa no meio do caminho. Daria tudo para saber o que estava passando por aquela mente ruiva e vazia agora.
— Que foi? — Aomine perguntou com as sobrancelhas erguidas.
— Bem... Serei sincero. — Ele disse, tentando disfarçar o meio sorriso surgindo em seus lábios. — Eu com certeza não estava esperando isso de você!
— Vai dizer que tem algo contra?
— Seria uma enorme hipocrisia se eu tivesse! — Kagami deu de ombros de forma simples, levando novamente a garrafa até os lábios.
— Como assim? — Foi a vez de Aomine se interessar, mas conseguiu disfarçar a tempo.
— Não tenho eliminatórias para escolher alguém, exceto por um detalhe... — Kagami disse com a voz baixa, olhando para a TV, após fazer uma breve e receosa pausa. — Tem que ser um cara.
Aomine precisou esperar alguns segundos para processar a informação. Taiga foi direto demais. Aquela resposta de certa forma deixou o moreno um pouco surpreso e sem uma reação imediata. Mas gostou.
— É... — Daiki disse com uma risada nervosa, ajeitando-se no sofá. — Também não estava esperando isso de você. Sério mesmo?
— Sim, mas isso é uma coisa que quase ninguém sabe. E que quase ninguém vai saber! — Kagami voltou a encará-lo, estreitando os olhos. — Então fique de boa aí.
— Não acredito que você pensou que eu sairia gritando isso na rua! — Aomine fingiu sentir-se ofendido.
— É bem a tua cara! — Ele afirmou, atirando uma almofada no moreno.
— Quanta calúnia, Taiga. — Aomine sorriu de canto, afastando o objeto e aproximando-se um pouco. — Mas relaxe. Se quiser que isso fique em segredo, não se preocupe. Ficará.
— Agradeço! — Kagami sorriu de canto, o encarando.
Os dois ficaram se fitando por um longo instante, e agora a coisa estava um pouco diferente. A tensão parecia um pouco maior e a vontade de beijá-lo também cresceu estrondosamente. Talvez porque agora seria mais fácil...
— Só não vá ficar estranho comigo porque eu te contei isso! — Kagami ergueu as sobrancelhas, voltando o olhar para a TV.
— Não vou. Seria hipocrisia da minha parte também! — Aomine sorriu ao esticar os braços por cima do encosto do sofá, voltando a atenção para o filme. — Relaxe Taiga!
~Kagami Taiga~
Claro, muito fácil ele pedir para relaxar! Kagami pensou de forma debochada, sentindo todos os músculos do corpo ficarem mais tensos a cada instante. O braço de Aomine agora passava por trás de sua nuca. Não chegava a encostar, mas o calor de sua pele era levemente perceptível. Daiki estava cada vez mais perto e parecia fazer isso por querer.
Bem, se provocar era a intenção, deu maravilhosamente certo Aomine... Kagami pensou de forma irônica, sentindo o maldito e delicioso cheiro invadir violentamente seu olfato.
Taiga não ousou virar-se para olhá-lo, sabia que iria beijá-lo se isso acontecesse, ainda mais agora que estava embalado por seis garrafas médias de cerveja. Já nem ligava mais para o fato de que o cara ali ao seu lado era Aomine Otário Daiki — seu eterno e odiado rival no basquete, dono de uma lista infinita de defeitos e que tinha a receita para irritá-lo. Kagami simplesmente o queria. E muito! Não soube dizer em que momento isso foi acontecer, mas aconteceu e agora estava sendo difícil segurar. Principalmente sabendo que o machão Aomine Daiki não tinha "preferência de sexo".
Ele parecia bem experiente pelo modo como expôs as coisas! O ruivo pensou, engolindo em seco involuntariamente. Droga... A curiosidade só aumentava. O clima era palpável, principalmente naquele silêncio gritante entre os dois.
O filme tornou-se o último foco da atenção de Taiga. Preferia prestar mais atenção na coxa do moreno, que chegava cada vez mais perto da sua com discretos movimentos... No calor suave que atingia sua nuca através da blusa de lã branca que ele usava... No cheiro amadeirado do perfume... Nas pequenas reações do corpo de Daiki, que assistia o filme de forma compenetrada.
Seria uma longa noite... Como essa merda foi acabar assim?
***
Droga! Kagami praguejou mentalmente pela milésima vez, assim que se dirigiam juntos até a porta. Aomine já estava indo para casa, pois era bem tarde e começava a nevar com mais intensidade lá fora. Ambos perderam a hora enquanto assistiam filme após filme, embalados pela pipoca que Kagami fez. Só se tocaram que já era quase 2h da madrugada quando acordaram de um longo cochilo no sofá.
E o ruivo não conseguiu tomar uma atitude naquele meio tempo...
Como era um idiota, Kagami começou a pensar demais nas coisas e conseguiu achar um motivo para frear sua necessidade de beijá-lo. Não foi surpresa nenhuma o receio o atingir em cheio quando o nome "Himuro Tatsuya" passeou por seus pensamentos. Aquilo estava se tornando uma verdadeira praga! Ele poderia simplesmente sumir de sua mente de vez em quando... Hoje seria bem conveniente.
— Minha mãe vai me matar! — Aomine disse de forma preguiçosa enquanto olhava para a tela do celular, na qual constava cerca de seis ligações perdidas.
— Caralho, que frio! — Kagami reclamou, abraçando o próprio corpo assim que abriu a porta e o vento gelado o atingiu em cheio. — Vai chegar bem em casa? — Perguntou distraidamente para Aomine, assim que saíram pelo corredor.
— Que bonitinho ele se preocupando comigo! — Daiki riu de forma sarcástica, virando-se para apertar a bochecha de Kagami em um gesto exagerado e dolorido.
— Tomara que seja soterrado pela neve, idiota! — Kagami também deu risada, mas ficou sério quando sentiu a mão de Aomine descer até seu queixo, segurando-o brevemente entre seu polegar e seu indicador.
— Te aviso quando eu chegar. — Ele sorriu de canto, dando um leve peteleco em seu nariz ao afastar os dedos. — Até mais, Taiga!
— Espera! — Kagami chamou, segurando-o pelo braço em um impulso, assim que Aomine começava a se afastar.
— Hm? — O moreno virou-se para encará-lo com as sobrancelhas levantadas em sinal de leve surpresa.
Ok, e agora? Estava prestes a fazer a pior merda de sua vida...
Kagami não sabia o que dizer, apenas praguejou mentalmente por não ter tomado uma atitude antes, da mesma forma que não estava conseguindo tomar agora. O queria, simples assim... Era só dar um passo e beijá-lo, sabia que era uma atração mútua. Dane-se o fato de ele ser ele!
— Hm... A gente vai jogar basquete na segunda-feira? — Foi o que o ruivo conseguiu perguntar, para seu próprio desapontamento.
— Claro. — Aomine disse em um murmúrio arrastado, endireitando o corpo e aproximando-se um pouco mais. — Você ainda não merece meu Air Jordan.
Os dois ficaram se encarando por um longo instante depois daquela frase... Infindáveis segundos que apenas tornaram a respiração de Kagami mais difícil. Curiosamente, a de Daiki também.
Droga, como acabaram assim?
Novamente seu olhar foi atraído pelos lábios do moreno, que repuxavam-se em um costumeiro sorriso de canto, extremamente provocante e magnético. Kagami já não conseguia mais disfarçar sua vontade, porém dessa vez Aomine fazia o mesmo, deixando mais do que clara sua própria intenção. Sim, era recíproco!
Quando os olhares voltaram a se cruzar, a química foi instantânea. Ambos aproximaram o rosto com uma certa urgência, e por fim seus lábios se juntaram, afoitos. Ficou mais do que evidente que compartilhavam a mesma necessidade.
Taiga arrepiou-se ao sentir as mãos quentes e firmes do moreno deslizarem por seu pescoço, em direção à sua nuca. Era bom, muito bom... Os lábios de ambos moviam-se numa sincronia um pouco confusa de início, mas que logo se tornou extremamente agradável, pois habituarem-se com o ritmo um do outro.
Deveria tê-lo beijado mais cedo! Foi o que Kagami pensou antes de sua consciência praticamente ser substituída pela satisfação, para então nublar. A partir daquele momento tudo tornou-se insignificante ao redor deles, o frio agora era inexistente e o medo de serem flagrados virou algo simplesmente nulo.
Levado pela situação, Kagami o puxou para mais perto, também pela nuca, e enterrou os dedos em seus cabelos azuis e macios. Sentiu a respiração do moreno acelerar-se com o toque e gostou da reação, por isso entreabriu os lábios sem hesitar, permitindo que a insistente língua dele passasse. Não se arrependeu! O gosto de Daiki era indescritível e extremamente delicioso. Talvez até viciante.
Na verdade não era apenas o gosto... O beijo de Aomine era viciante, completamente diferente de qualquer sensação que já experimentara nos seus quase 17 anos de vida, e a cada segundo tornava-se infinitamente melhor. A língua dele se movia de uma forma tão sensual e possessiva que Kagami começava a sentir-se mais quente do que deveria. Parecia febril.
Taiga retribuiu o gesto à altura, tentando igualar-se àquela pessoa que agora o empurrava contra a parede, segurando firme em seus ombros. Arrepiou-se da cabeça aos pés ao sentir o corpo quente de Daiki prensando-o com força no cimento gelado. Sua razão ruiu de vez naquele instante.
Aomine era muito intenso e sabia exatamente o que estava fazendo. Seus dedos subiam novamente pelo pescoço de Kagami com firmeza, e seu corpo o pressionava da mesma forma. Daiki exalava segurança e controle por todos os poros.
O ruivo, por outro lado, era nada experiente e mal sabia se suas mãos traçavam o caminho certo pelas costas largas do moreno... Mas não era por isso que deixava de fazê-lo. O corpo de Aomine esboçava singelas reações com o toque de seus dedos e aquilo era muito gostoso.
Sem pensar muito, envolveu o moreno com força e o trouxe para mais perto ainda, na intenção de aumentar o contato dos corpos. Já não se importava mais se era Aomine Daiki ali, pelo contrário, até achava interessante a ideia de estar beijando um rival nato! Entretanto, ele não parecia um rival agora... Aquilo era uma coisa bem distante, para falar a verdade.
O barulho da saliva e das línguas se tocando encheu seus ouvidos assim que inclinaram o rosto minimamente para facilitar o beijo, e aquilo apenas aumentou a intensidade da cena. O ar quase lhe faltava e uma formicação se espalhava por seu baixo ventre, cada vez mais forte. Kagami sabia que estava ficando excitado com tudo aquilo, entretanto, mesmo sendo inexperiente, não tinha intenção de sair dali tão cedo... Estava muito bom, muito bom mesmo!
Para sua frustração, Aomine finalizou o beijo instantes depois e afastou minimamente o rosto para encará-lo. Os olhos azuis estavam tão intensos e próximos, e aquele sorriso, aquele cheiro de perfume, a situação... Tudo fazia sua consciência praticamente desaparecer.
Caralho, como foram acabar assim? Quando começou a sentir atração pelo imbecil do Aomine Daiki? Foi o que Kagami pensou, fitando a face do moreno em sua frente. Ambos ofegavam e suas respirações cruzavam.
— A gente se fala, Taiga! — Ele sussurrou bem baixinho contra sua boca, finalizando com um beijo rápido e uma leve mordida em seu lábio inferior.
— Oe...? — Kagami riu meio bobo e incrédulo, sem reação, vendo-o andar de costas na direção oposta com um sorriso mais bobo ainda.
— Segunda-feira, 18h, na quadra do Maji. — Aomine parou na esquina do corredor, dando uma leve mordida nos próprios lábios, como se estivesse considerando voltar. Parece que desistiu, para desapontamento do ruivo.— Até lá, Taiga! — Dito isso, ele sumiu de sua vista com um meio sorriso brincado em seus lábios.
Kagami ficou paralisado e boquiaberto por muitos segundos, apenas olhando para o lugar onde ele estava há instantes.
Inconscientemente elevou os dedos, mas desistiu de encostá-los em seus lábios. Não queria tirar o gosto de Aomine dali, ainda podia sentir um pouco seu toque. A pressão do beijo dele permanecia queimando, assim como a saliva umedecendo seus lábios.
Aquilo sim fora um beijo de verdade, e agora queria mais!
— Uau... — Sussurrou para si mesmo, começando a voltar à realidade. — Que merda foi essa. — Riu sozinho.
~Aomine Daiki~
— Ai meu caralho! Ai meu caralho! Ai meu caralho! — Daiki sussurrava repetitivamente para si mesmo, descendo apressado os lances de escada enquanto passava as mãos no rosto.
Nem em um milhão de anos o moreno esperava aquilo tudo de Kagami Taiga. Tão intenso, espontâneo... E sexy! Seus lábios gravaram o toque do beijo do ruivo e agora praticamente imploravam por mais. A mente e o corpo de Aomine também!
A súbita vontade de subir novamente todos aqueles lances de escada o preencheram, mas não podia. Não hoje... Ou iriam parar longe demais.
— Taiga... — Aomine sorriu, mordendo novamente os lábios ao fechar os olhos, tentando restaurar a cena. — Não acredito que isso foi acontecer. E logo com você, seu maldito.
***
~Kagami Taiga~
Cheguei em casa e ñ fui soterrado pela neve. Boa noite, Taiga!
Aquela mensagem de texto deixou um sorriso no rosto de Kagami por mais tempo do que deveria. Ou ainda estava sorrindo por causa do beijo? Ou pelos dois motivos? Com certeza era pelo conjunto da coisa toda.
— Boa noite, seu idiota! — O ruivo disse para o celular em suas mãos.
Assim seria fácil para Kagami seguir em frente. Bem fácil, diga-se de passagem! Himuro Tatsuya não chegara nem perto de sua mente depois daquilo, e isso era um bom sinal... Novamente seu subconsciente pertencia à Aomine Daiki.
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