Linha Tênue
25 Fodeu.
Notas iniciais
~Hyuuga Junpei~
Com a paciência beirando o limite, Hyuuga Junpei suspirou fundo em mais uma tentativa falha de se acalmar, olhando pela milésima vez o relógio no pulso enquanto percorria os corredores do Centro Poliesportivo de Tóquio em busca de um Kagami Taiga desaparecido — e decididamente morto após o Interescolar.
Os passos apressados do capitão ecoavam pelo ambiente gélido e completamente vazio — afinal, todas as pessoas com bom senso encontravam-se exatamente onde deveriam estar: No ginásio principal, assistindo os jogos com seus respectivos times, concentrando-se para entrar em quadra no decorrer do dia... Ao contrário de Kagami, que não tinha um pingo de responsabilidade naquele corpo e decidira simplesmente sumir.
Hyuuga procurava pelo ruivo desde o término da Abertura Oficial, assim como Kuroko, que vasculhava todos os banheiros... E até agora nada daquele maldito, nem mesmo o celular ele foi capaz de atender. Em menos de meia-hora começaria o aquecimento para o primeiro jogo da Seirin, e o desgraçado não voltara de seu passeiozinho — no mínimo esquisito e inesperado — com Momoi Satsuki.
— Não acredito que esses dois estão saindo. Chega a ser ridículo. — O capitão resmungou inconformado, chegando em uma das milhares portas que davam acesso ao lado de fora do Centro. — Mas até para namorar tem hora. Merda! — Complementou a sua indignação, olhando de um lado para o outro no pátio molhado em busca de uma cabeleira vermelha.
A chuva caía com bastante força e a brisa não era das mais agradáveis, para piorar tudo. As gotículas trazidas pelo vento molharam imediatamente as lentes dos óculos de Hyuuga, avacalhando completamente com o restante de seu humor... E com sua visão... Mas não o suficiente para que não enxergasse o que estava procurando.
Após contornar o Centro inteiro olhando de porta em porta, finalmente o avistou. Lá estava Kagami, sentado em um banco ao longe, tranquilamente, na companhia de alguém. Momoi, provavelmente. Isso ainda era ridículo demais para parecer verídico, mas não vinha ao caso agora.
— Você está fodido, Kagami... — Hyuuga sibilou ameaçadoramente, buscando enxergar melhor enquanto dava o primeiro passo para fora da construção de vidro.
~Kagami Taiga~
Ai meu caralho... O ruivo pensou, fechando os olhos e engolindo em seco ao mesmo tempo. Se estava sendo precipitado, burro ou ingênuo, já não ligava mais. Apenas queria, e muito, aqueles lábios magnéticos dos quais não conseguia desviar o olhar até então, os lábios com os quais sonhava e até mesmo desejava secretamente ao estar beijando outra pessoa — Himuro na verdade.
Aquilo tudo parecia tão longínquo agora...
Como se fosse um sonho distante, ou até mesmo um dejá-vù, Taiga podia sentir a ponta dos dedos longos de Aomine roçando sua nuca com suavidade. Tudo parecia correr em câmera lenta ao seu redor, e nada era mais importante ou digno de atenção do que o hálito gostoso do moreno batendo em seu rosto, cada vez mais próximo e intenso, quente e convidativo.
Não era nem de longe a primeira aproximação ou contato mais íntimo que tiveram na vida, porém só de ouvir Daiki falar ‘Quero te beijar agora Taiga... Sério... Estou com saudade.’ segundos atrás, com aquele sorriso charmoso e sacana, foi o suficiente para que tudo ruísse na mente de Kagami. Novamente só restava a emoção, pois a razão fora passear lá para outro canto... Talvez no ginásio principal, que era exatamente onde deveria estar agora.
Detalhes. Estaria fodido depois, mas pouco importava. Ali estava bem melhor agora.
Taiga sentia-se completamente atraído por Daiki — como sempre —, com muita saudade de tudo o que tiveram um dia, mas estava com bastante receio e um pingo mínimo de medo. Por sorte aprendera a disfarçar e até mesmo controlar muito bem suas reações nos últimos tempos... Quase todas na verdade, pois a ansiedade e o frio na barriga ainda permaneciam muito vivos, e isso quase restaurava o primeiro beijo compartilhado no corredor de seu prédio,impulsivo, magnético, completamente erótico. Mas dessa vez o clima estava um pouco diferente, havia uma grande parcela de sentimento integrado, o que tornava tudo aquilo menos carnal e muito mais intenso e forte. 'Verdadeiro' era a palavra.
Eu te amo, seu idiota. Kagami sorriu com o pensamento, segundos antes dos lábios finalmente se encostarem.
O primeiro toque úmido e elétrico levou Kagami a estremecer e recuar um pouco, quase imperceptivelmente. Não era relutância, apenas incredulidade. Sentira tanta falta daqueles lábios, de onde saíram palavras tão duras, mas tão longínquas... O que importava era o agora e o depois, nada mais. Estavam recomeçando, agora da forma certa.
Sem hesitar mais, Taiga aproximou-se com certa urgência, entreabrindo minimamente a boca para que ela se encaixasse à de Aomine, ao mesmo tempo em que elevava os dedos para tocar-lhe os cabelos azuis da nuca. A sensação nunca se perderia, tudo era tão bom quando estavam juntos. O melhor beijo, o melhor sabor, o calor mais aconchegante. Isso sem falar que tudo acontecia da forma que era para ser, com calma. Os lábios se moviam em um compasso lento, mas gostoso e completamente sincronizado, tornando-se mais perfeito à cada segundo. Havia carinho, palavras não ditas e até mesmo um grito silencioso de saudade contido naquele ato.
Aomine parecia aliviado, por isso soltou um suspiro forte e satisfeito contra o rosto de Kagami, entreabrindo mais os lábios enquanto puxava o ruivo em sua direção, também pela nuca. Nesse momento as línguas de ambos se encostaram, levando o ruivo à estremecer com o calor que tanto sentira falta. Sem pensar muito, Kagami aproximou-se mais de Daiki, trazendo-o contra si pelos cabelos, mas sem muita força, apenas o suficiente para que ele jamais fosse embora dali.
O beijo continuou dessa maneira, selando o que haviam quebrado com suas besteiras e palavras do passado. Nada mais importava, pois estavam juntos novamente, e aquele estava sendo um gesto diferente de tudo o que já compartilharam até agora. Estava tão gostoso, quente, úmido, lento, até mesmo provocativo após um tempo... O cheiro amadeirado de Daiki preenchia seu olfato, e o contato de sua língua causava os arrepios mais intensos e gostosos da face da Terra.
Sentiu uma puta falta de Aomine.
Depois do que pareceram longos séculos, o ar inoportuno tornou-se necessário. Tentando segurar o sorriso teimoso, Kagami afastou-se de Daiki com suavidade, evitando abrir os olhos. Estava tão feliz, e o moreno também estava... Conseguia perceber, nem mesmo precisou ver para sentir.
— Estava com uma puta de uma saudade. — O ruivo disse com a maior sinceridade do mundo, apoiando a testa na de Daiki. — Mesmo que você seja o cara mais idiota, preguiçoso e convencido do mundo, eu senti sua falta. Pra caralho.
— Você é mais idiota, Taiga. Por isso a gente combina e sente falta um do outro. — Aomine rebateu, rindo e arrancando uma risada gostosa de Kagami.
— Provavelmente. — O ruivo assentiu, afastando-se e abrindo os olhos... Mas quando o fez, quase caiu do banco e a exclamação ficara presa em sua garganta, como um verdadeiro nó. A certeza da que empalidecera foi praticamente absoluta, pois tudo esquentara e esfriara muito rapidamente dentro de si. — C-Capitão? — Perguntou com a pouca voz que conseguiu, arregalando os olhos para Hyuuga Junpei. Ele os encarava, boquiaberto, à poucos passos, nitidamente incrédulo com o que acabara de presenciar.
No mesmo instante o moreno virou-se para olhá-lo também, afastando-se de Kagami de forma intuitiva. Foram flagrados, e Daiki também parecia assustado com a ideia... Não tanto quanto Taiga, afinal acabaram de ser pegos pela pessoa que com certeza arrancaria cada mínimo pedaço de couro das costas do ruivo. Mas essa era a menor das preocupações. Agora Hyuuga sabia de tudo, que Kagami era gay, sobre seu relacionamento com Aomine... Tudo! O que ele iria pensar? O que ele sairia por aí falando?
— Ah... Eu... — Kagami tentou encontrar algo para dizer, apressado, mas nada além de resmungos saíram de sua boca.
— Você... Hm... Sumiu. Estamos te procurando há tempos. — Hyuuga disse segundos depois, desviando o olhar e coçando a nuca em um sinal de desconforto. — Anda Kagami. Temos que aquecer em quinze minutos.
— Eu.. Bem... — Taiga gaguejou novamente, não conseguindo esconder a preocupação. Aomine não era capaz de soltar uma única palavra, pois também estava bastante nervoso.
— Relaxem, não vou falar pra ninguém. — Ele afirmou rapidamente, ajeitando os óculos salpicados de gotículas da chuva ao perceber o clima pressionador no local. — Só... Só anda logo. Tá todo mundo esperando.
Taiga não sabia muito bem como agir, e nem mesmo conseguiu afirmar nada. Apenas viu Hyuuga virando as costas e se retirando com pressa, então desviou o olhar preocupado para Aomine.
— Fodeu! — Murmurou, engolindo em seco, apressando-se em colocar a mochila por cima do ombro, ainda sentado no banco.
— Ei, relaxa Taiga. Podia ter sido outra pessoa, e então seria bem pior. — O moreno sorriu de canto, ainda um pouco assombrado, mas divertido. — Ele não vai sair espalhando aos quatro ventos. E foda-se se espalhar, né? — Daiki perguntou com relutância, erguendo as sobrancelhas e dando de ombros.
— É. Talvez. — Kagami foi obrigado a sorrir com a ideia, mas não sentia-se realmente preparado para isso. Estava muito bem com seu segredo, nem todo mundo precisava saber de sua vida pessoal. — Hm... Acho que é melhor eu ir. Parece que vou levar uma bronca dos infernos.
— Vai sim. Não apanhe muito da sua treinadora, ou não vai conseguir jogar contra a gente. — O moreno zombou, ajeitando a mochila nos ombros também.
— Espero que consiga. Tenho que te dar uma surra no jogo de amanhã. — Kagami levantou-se apressado, nitidamente desconfortável, mas sorrindo com facilidade. — Hm... Vai assistir aos jogos agora?
— Claro. — Aomine afirmou, aproximando-se um pouco mais.
— Ok. — O ruivo murmurou, notando que Hyuuga o esperava na porta, mas olhando para o lado de dentro do Centro. — Então... Até depois?
— Até depois. — O moreno afirmou com um meio sorriso, olhando rapidamente para trás, para o capitão da Seirin. — Bom jogo, Taiga. — Ele disse, voltando-se para Kagami.
A maior vontade do ruivo resumia-se em dar mais um beijo daqueles em Aomine, mas a situação não permitia. Inclinou-se rapidamente e deu-lhe um selinho longo, certo de que ninguém estava olhando... Nem mesmo Hyuuga. Com um aceno de cabeça e um meio sorriso, deixou o moreno e dirigiu-se para onde o capitão estava.
Que merda... Fodeu! Pensou, engolindo em seco ao sentir os respingos de chuva molharem seu rosto no trajeto. Fora descuidado, mas também não era o fim do mundo. Poderia ter sido pior, poderia ter sido outra pessoa — tipo Himuro, o que resultaria em morte —, mas estava tudo bem. Pelo menos era nisso que gostaria de acreditar.
Apesar de tudo, estava feliz. Muito feliz! Radiante, para falar a verdade. Tudo estava realmente bem agora.
Kagami virou-se rapidamente e sorriu de canto para o moreno, que acenou novamente com o rosto. Ainda tinham tantas coisas para falar, para fazer, para restaurar... Porém Kagami não queria mais ter tanta calma assim, como haviam combinado. Queria o moreno exatamente como antes, do momento onde pararam, com a intimidade e afinidade que possuíam antes de tudo ruir.
— Vamos logo. — Hyuuga disse, percebendo sua aproximação, cortando seus pensamentos pela metade. — Todo mundo está preocupado, seu idiota.
Kagami nada disse, apenas sentiu o estômago afundar minimamente ao adentrar o Centro Poliesportivo com o capitão ao seu lado. Era uma mistura do baque da realidade sobre os jogos, sobre a bronca que com certeza receberia de Riko e principalmente sobre o fato de Hyuuga realmente saber de tudo.
— Já disse que não vou contar para ninguém. — O capitão murmurou com impaciência, como se fosse capaz de ler pensamentos, virando-se para encarar o ruivo enquanto caminhavam.
— Eu... Eu sei. — Taiga gaguejou, mordendo a parte interna da bochecha ao fitar o chão.
— Não deixe isso atrapalhar o seu desempenho no Interescolar, ou eu te mato. — Ele praticamente mandou, voltando a olhar para o caminho em sua frente.
— Não vou, capitão. — Kagami afirmou, engolindo em seco mais uma vez. — São coisas diferentes. Basquete é basquete. E... Ele é ele. — Referiu-se à Aomine, mesmo estando com vergonha de falar sobre o que acabara de acontecer.
— Sim, pode até ser, mas você não parece concentrado. Foi um ato bem irresponsável de sua parte, ter sumido do nada. — Hyuuga aumentou o tom de voz. Ele estava mais sério do que o comum, e parecia bastante zangado. Com certeza estava pensando um monte de besteiras à seu respeito, aquele tipo de coisa desconfortável que as pessoas logo relacionam com um casal gay.
— Sim. — Taiga reconheceu com um tom de culpa, ajeitando a mochila em suas costas. — Sei que foi irresponsável... Mas... Eu e ele... — Tentou encontrar as palavras para explicar o fato de estar recomeçando com Aomine, que estava com saudade, que gostava dele acima de qualquer coisa, que haviam brigado feio e que agora se reconciliaram... Porém nada vinha à sua boca.
— Não precisa explicar, Kagami. — Surpreendentemente o capitão falou em um tom mais baixo e brando, quase triste. — Eu te entendo muito bem e não vou te julgar. Vamos nos concentrar no jogo agora e vencer esse Interescolar, ok? — Ele finalizou, deixando claro que o assunto encerrava por ali.
— Ok.
~Hyuuga Junpei~
O caminho até o ginásio parecia mais longo do que o esperado, no entanto nada tinha a ver com a vontade imensurável de matar Kagami ou com o nervosismo para com o Interescolar. Esses assuntos não o atormentavam ou sequer ocupavam um milésimo de seus pensamentos agora. Hyuuga só conseguia lembrar de Teppei após ter visto o ruivo beijando Aomine, após ter ouvido as palavras que eles disseram um para o outro... O susto e a incredulidade foram as primeiras reações, claro, mas depois só restou a merda do remorso por não ter feito o mesmo quando teve oportunidade, em relação à Kiyoshi.
A maior verdade é que sentia uma imensurável saudade daquele estúpido, daquela voz sonolenta e arrastada, do jeito sossegado e gentil — totalmente oposto ao seu. Ainda era capaz de ouvir Kiyoshi dizer que pretendia voltar da América assim que se recuperasse da cirurgia na perna, mas ele nunca afirmou ou deu certeza disso. As oportunidades nos EUA são gritantes em todos os sentidos, e essa dúvida sempre deixava um vazio maior do que o necessário no estômago de Junpei.
Não, infelizmente não eram namorados como Aomine e Kagami (outro casal completamente improvável, independente do ângulo que você olhasse), e isso deixava o capitão com uma certa inveja, com um pesar enorme por nunca ter dito a verdade nua e crua para Teppei. Hoje se arrependia, mas ainda tinha esperanças de que ele voltaria para ouvir seus sentimentos... Já que perdera a grande oportunidade quando ele revelara os seus.
Droga! Volta para mim seu idiota, para eu poder te dizer essas merdas entaladas na minha garganta... Pensou com pesar, assim que chegaram ao ginásio principal. Se arrependimento matasse, agora estaria enterrado.
— Tudo bem, capitão? — Kagami perguntou como calma, interrompendo seus pensamentos.
— Sim. Concentre-se nos jogos e na bronca que irá receber de Riko. — Hyuuga apressou-se em responder, buscando concentrar-se também. Não era hora de se lamentar por um erro movido por orgulho... Já fizera demais isso.
***
~Aomine Daiki~
Com os pés apoiados no encosto da cadeira vazia em sua frente e com as mãos atrás da cabeça, Aomine dirigia o olhar de um lado para o outro na quadra, acompanhando a vitória esmagadora de Seirin sobre Reitaku. O jogo estava uma verdadeira marmelada, e daria um belo de um sono se Taiga não estivesse em quadra, destacando-se como sempre. Era impossível desgrudar os olhos dele... Assim como era impossível tirar o sorriso do rosto.
Mostrar os dentes era uma ação quase espontânea do corpo do moreno agora, e motivos não faltavam: 01)Sentia-se explodindo por dentro pelo simples fato de que conseguira! Estava novamente com Kagami, firme e forte, mas principalmente consciente do que deveria fazer daqui para frente. 02) Há poucos minutos se beijaram de uma maneira única depois de alguns meses separados — que mais pareceram anos, sinceramente. 03) Esbarrara com o Franjinha na escada que dava acesso às arquibancadas, e a cara de cu dele foi a melhor. O seboso não parecia nada satisfeito, então provavelmente já sabia de tudo... Com certeza presenciou ou ouviu alguma coisa. 04) Antes do aquecimento da Seirin, Aomine conseguiu ver de longe o ruivo levando bronca de sua treinadora, e foi engraçado demais perceber como ele, um marmanjo de quase dois metros de altura, diminuiu perante a garota magrela e sem peitos. 05) A reação assombrada e surpresa de Momoi ao vê-lo aproximar-se da arquibancada mais cedo foi impagável. Ela com certeza não o estava esperando naquela manhã chuvosa. 06) Taiga ficava gostoso demais jogando basquete, e ver aquilo de outro ângulo deixava um volume a mais na calça de Daiki... Um volume que estava ali desde o primeiro quarto da partida. Agora já estava no último.
Ou seja, o sorriso era só uma consequência do enorme rebuliço de emoções boas no interior do moreno, emoções que nunca sentira antes. Estava feliz de verdade, simples assim. Mal esperava para que esse jogo chegasse ao fim, pois planejava convidar Taiga para almoçar ou qualquer coisa do tipo. Só queria ficar com ele em qualquer momento possível.
Se estava agindo como uma menininha boba, não ligava mais. Estava apaixonado, de verdade. Pra caralho. Estava novamente com seu Taiga.
~Himuro Tatsuya~
— Vai rindo, filho da puta. — O rapaz sibilou quase inaudivelmente, direcionando o olhar para o outro lado da quadra, onde Aomine sentava-se sorridente e radiante na arquibancada, vez ou outra conversando com a menina do cabelo rosa, mas sempre com os olhos em Kagami. Sempre!
Himuro já entendera mais do que bem que o jogo estava perdido, Taiga não era mais seu, no entanto não deixaria isso acabar de uma maneira tão simples como aparentava estar sendo. Era um rapaz extremamente frio e vingativo quando queria... E hoje queria, e muito, revelar esse lado negro que mostrava-se cada vez maior. Tatsuya estava completamente magoado, sentia uma terrível dor no peito e um vazio no estômago apenas por pensar que Taiga o deixou, que agora estava com outro, beijando outro, fazendo coisas que não aceitou fazer consigo... Com certeza não seria tão fácil assim para eles.
Tatsuya pensara com calma nos últimos momentos, após ter visto Aomine e Kagami juntos na cantina, e não culpava o ruivo por completo. Ele só era burro, um mongol, e foi idiota ao ponto de sempre enxergá-lo como irmão, de não perceber os fatos, de jogar todo o passado pela janela. No entanto a questão de sentimentos e essa baboseira chamada amor, ah, isso sim era culpa daquele maldito Daiki, preguiçoso e arrogante. Ele envenenara Taiga, o manipulara muito bem, fizera alguma coisa para deixá-lo perdido, obcecado demais, teoricamente apaixonado. O motivo de o ruivo tê-lo esquecido tão facilmente, ter superado o relacionamento que tiveram, não ter sentido um maldito pingo de remorso por magoá-lo era um só: Aomine Daiki. Ele sim sofreria por isso... E Kagami, consequentemente.
Se Himuro não podia ter Taiga, Aomine também não teria. Resolveria esse assunto antes mesmo dos jogos da tarde começarem.
***
~Aomine Daiki~
A manhã passou simplesmente voando, apesar do tédio exacerbado que pairava pelo Centro Poliesportivo.
O moreno não conseguira encontrar Taiga depois do jogo contra Reitaku — vitória da Seirin, com uma diferença de 28 pontos —, e não teve as mensagens respondidas por ele. Provavelmente o time todo fez um ótimo trabalho em deixá-lo amarrado e amordaçado no vestiário para que não desaparecesse novamente, ou quem sabe eles todos estavam descansando para o jogo contra Shutoku, que aconteceria naquela tarde. Ambas as alternativas eram válidas e bem plausíveis.
Após o almoço com Momoi e o resto do pessoal da Touou, Aomine encontrou um corredor mais ou menos vazio para dormir, entre cantina e o banheiro — quanto menos andasse para qualquer um dos dois lugares, melhor —, e ali ficou por tempo indeterminado. Arrumara o despertador do celular por precaução, e ele tocaria exatamente dez minutos antes do aquecimento para a partida. Era o suficiente para chegar para o primeiro quarto.
Daiki sentia-se bastante cansado, já que acordar cedo não era seu forte, mas estava principalmente desanimado por não ter encontrado o ruivo naquele meio tempo. Por mais que isso tudo soasse de uma forma muito gay e completamente dependente, Aomine não ligava mais... Só queria vê-lo, passar o tempo ao lado dele, beijá-lo novamente, recuperar os meses que perderam, e isso não era pecado — pecado mesmo seria a sua postura quando o encontrasse na boa e velha privacidade do apartamento ou em qualquer outro lugar onde só os dois estivessem... Com calma, claro. Ou não.
O som repetitivo, melodioso e irritante começou a soar em algum ponto abaixo de sua cabeça, e o celular vibrava continuamente em seu colo. Era a maldita hora de acordar, sem direito à soneca. Daiki sabia que precisava ir, jogar e fazer sua parte como ás da Touou.
O Taiga vai assistir ao jogo, com certeza. O pensamento o fez sorrir e abrir os olhos no mesmo instante.
— Estou virando uma menininha carente, só pode... — Resmungou divertido perante sua própria atitude, apertando o botão do celular para que o ruído parasse, ao mesmo tempo em que esfregava os olhos com os dedos da mão restante.
— Está? — Alguém questionou logo à frente, levando Aomine a erguer o rosto bruscamente e despertar de uma vez.
Ah, vai se foder! O moreno pensou com impaciência, suspirando fundo ao reconhecer aquela cara ridícula.
— O que você quer, Franjinha? — Daiki perguntou com a voz firme, levantando-se para encarar Himuro Tatsuya de frente. Não fez a mínima questão de esconder o desinteresse na voz.
Odiava esse cara de uma forma praticamente inexplicável, mesmo que não o conhecesse ou sequer tivesse conversado com ele, no entanto só de pensar que ele estivera com Taiga por tanto tempo já dava um nó desgraçado em sua garganta. As provocações ridículas que ele fazia resultavam em mais um nó, e com certeza ele estava ali para isso... Provocar. Aquele rostinho arrogante, nojento e encoberto por muito cabelo seboso apontava exatamente isso.
— O que eu quero? Tantas coisas... Antes de tudo eu queria que você sumisse para sempre, morresse, sei lá. Mas imagino que você não vai fazer isso por mim. — Ele sorriu com presunção e sarcasmo, desencostando-se da parede oposta à qual Daiki apoiava-se para dormir. — Brincadeirinha. — Himuro soltou uma risada breve e afetada antes de continuar. — Mas de verdade, o que eu queria mesmo é que você deixasse o Taiga no lugar onde ele realmente pertence, que é ao meu lado, como sempre foi... Mas é lógico que você também não vai fazer isso.
— Não sei onde você quer chegar com esse papo. É o Taiga que escolhe onde ele quer ficar, não é? E parece que a escolha é sempre a mesma. — O moreno disse com um meio sorriso, evitando cair na conversa venenosa.
Arrebentaria ele no jogo. Não da forma como gostaria, mas já seria gratificante o suficiente enfiar cesta após cesta em seu time.
— Claro, claro. — Himuro suspirou de forma cansada e teatral, olhando para o final do corredor com as sobrancelhas arqueadas. — Agora é a hora em que você diz que ele sempre volta para você, que ele te ama e blá blá blá? Você não sabe de nada. Nunca vai amar ele da maneira que eu amo, e ele também não vai te amar como me ama.
— Sério que você veio até aqui e esperou eu acordar para falar esse tipo de merda? — Aomine perguntou em meio à um bocejo, ajuntando a mochila e jogando-a por cima do ombro. Não estava nem um pouco interessado naquele papinho irritante, ainda mais depois de ter tirado uma soneca boa.
— Fique longe dele, Daiki. — Tatsuya pediu com calma, mas com os olhos estreitos, voltando a encará-lo.
— Ele não faz ideia de que você é um cretino, não é? — Daiki soltou uma risada nasal, balançando o rosto negativamente ao ignorar o que ele dizia. Estava tentando esquivar-se, não era a melhor hora para se estressar ou brigar. Se daria mal por estar onde estava. — Te vejo na quadra, Franjinha. — O moreno despediu-se rispidamente, sentindo o sangue ferver ao dar as costas para o rapaz.
— Você não sabe nada sobre o Taiga. — Ele prosseguiu com o tom de voz um pouco mais alto, levando Aomine a parar no meio do caminho. Não queria encorajá-lo a falar mais, porém sua pausa involuntária foi o suficiente para Himuro continuar: — Aposto que não sabe qual é o sabor de sorvete preferido dele, e nem deve saber que ele toma café sem açúcar. Você não faz ideia de que ele tem mania de escovar os dentes, nunca descobriu que ele quer muito tatuar um tigre nas costas e também não imagina que ele tem medo de ficar sozinho porque os pais sempre o deixavam de lado quando ele era criança. Eles fazem isso até hoje na verdade.
Aquelas palavras levaram o moreno a se virar novamente, impaciente. Se a intenção era atingi-lo, de certa forma Himuro conseguiu. Ele tinha razão sobre isso, não sabia quase nada sobre Taiga, e o fato de o Franjinha saber mais foi um pouco difícil de engolir. Infantil, mas eficaz.
— No final das contas eu não sei o que ele viu em você. — Tatsuya soltou uma risada inconformada, revirando os olhos. — Não era você que estava lá abraçando-o quando ele tinha pesadelos, e não foi você que o ensinou a jogar basquete. Aposto que nunca levou ele em algum lugar legal para comer bolo de chocolate e nem deve saber andar de skate... Ele adora, sabia? Surfar também. Ah, e correr! Ele gosta de sair para correr no verão, principalmente lá em Los Angeles, porque ele ama a praia. E sim, eu estava com ele em todos esses momentos. Fiz tudo com ele. Por ele. — O rapaz afirmou, franzindo a testa. — Mas afinal, o que você fez por ele até hoje? Comeu ele? Jogou basquete e fez piada? — Himuro riu consigo mesmo ao constatar que estava certo. — Parabéns, você é indispensável.
Aomine sentia o sangue ferver mais intensamente em seu corpo, no entanto não havia palavras em sua boca para rebater aquilo. Sabia que ele dizia aquelas coisas apenas para irritá-lo. Era óbvio que não conhecia tudo sobre Taiga, não crescera com ele e era agora que o relacionamento entre ambos iniciava de verdade, porém o moreno estava começando a se sentir verdadeiramente ridículo por saber tão pouco a respeito do cara que amava.
Himuro estava conseguindo provocá-lo... Majestosamente. O moreno tinha a cabeça quente e um jeito impulsivo, não tinha como essa conversa acabar bem.
— Sabe, fiquei realmente surpreso ao ver que vocês voltaram tão rápido depois de tudo. — Ele mudou o tom de voz, para algo mais informal, colocando as mãos nos bolsos da calça ao se aproximar um pouco mais. — Achei que você era um pouco mais orgulhoso e que não iria suportar o baita par de chifres que levou. Deve gostar muito dele para aceitar tudo o que aconteceu entre nós dois em Los Angeles.
— Ah cara, vai se foder. — O moreno não aguentou mais ficar quieto, então disse, olhando para os lados, fazendo força para o soco não sair agora. Já fechava o punho, mas apertava com mais força para que ele não se movesse involuntariamente na direção do rosto pálido de Tatsuya. — Você acha que está por cima de tudo e todos, que é o fodão, que o mundo gira ao redor desse seu umbigo... Mas é um verdadeiro bostinha carente que não consegue aceitar que o Taiga te largou para ficar comigo, porque é de mim que ele gosta.
— É. Ele acha que gosta. Está na fase de achar que sabe o que quer. Você sabe como ele é... Bem, talvez não saiba. — Himuro não se abalou com sua explosão, apenas deu de ombros e continuou com as alfinetadas sarcásticas. Elas estavam machucando algum ponto no interior de Daiki, e não pareciam ter fim. — Mas sabe, quando a gentefodeu em Los Angeles, no meu quarto, agora no final do ano, ele não pareceu nem um pouco confuso em relação à isso, ou em relação à você... Bem, só depois ficou fazendo corpo mole porque achou que as coisas mudaram. Mudaram nada! Ele voltou para mim depois de tudo, assim que vocês romperam, porque você deve ter feito alguma merda que o magoou... E então a gente continuou na mesma. Juntos. Porque no fim das contas ele sempre vai voltar para mim. Eu sou indispensável na vida dele, e o seu chifre aí prova isso. — Ele finalizou, apontando simbolicamente para a testa de Daiki.
— Quê? — O moreno estreitou os olhos, sentindo uma nuvem conhecida nublar sua mente e deixar apenas a frase 'a gente fodeu em Los Angeles, no meu quarto' ecoando por ali. O resto parecia um filme lento, deveras ruim, que fazia o estômago embrulhar ainda mais. — Como assim? — A interrogação quase não saiu, já que sua garganta secara instantaneamente.
— Oops. Ele não te disse nada disso, não é? — Himuro riu, tapando a boca com uma das mãos em uma fingida e cômica insinuação de culpa. Não havia nada de divertido ali. Nada mesmo. — Viu só! Você não conhece o Taiga. Ele mentiu para você e você caiu como um patinho. Mas... O que ele te disse? Sobre Los Angeles... O que ele te disse? — O rapaz aparentou curiosidade, aproximando-se mais ainda.
Que foi um beijo roubado. Que ele não queria que esse beijo tivesse acontecido, e então sentiu remorso. Que ele me escolheu por estar apaixonado. O moreno respondeu mentalmente, cerrando os punhos e apertando o maxilar para conter a onda de fúria em seu interior. Estava difícil. Tudo estava queimando e se tornando turvo e gelado ao mesmo tempo.
Fora enganado... Duas vezes. A primeira quando o ruivo estava com Himuro em Los Angeles, aparentementefodendo às suas costas, enquanto comprava alianças e o esperava como um idiota apaixonado... A segunda quando Taiga mentiu em sua cara sobre o que havia acontecido; até mesmo chorou em sua frente, jurando estar arrependido por causa de um 'beijo roubado'. A falsidade não tinha limites — mesmo que aquilo não parecesse ser coisa do ruivo, sempre tão justo, sincero, até mesmo ingênuo.
Taiga é um belo de um ator, isso sim. O orgulho ferido disse, inflando com força total, alimentado pela raiva e impulsividade que estava sentindo ao descobrir que fora feito de trouxa pelo cara que amava. De novo. Era muito idiota por acreditar em Kagami e em sua lenga-lenga vitimista. Sofrera e se culpara como um condenado por causa dele, para descobrir que ele fodia com o 'irmão' às suas costas. Não havia palavras para descrever o ódio que começava a subir por seu esôfago, como um refluxo ácido.
Os olhos acinzentados de Himuro estavam radiantes com aquilo tudo. Ele o encarava como se pudesse ler seus pensamentos e zombar de sua frustração interna. Verme insuportável. Aomine sentia o almoço embrulhando o estômago, assim como podia sentir mais uma vez as alianças queimando em algum ponto dentro de sua mochila.
É óbvio que o Franjinha está mentindo para estragar tudo. Deixe de ser otário, Daiki. O pensamento ocorreu na parte sã da mente do moreno, já que o impulso tomava conta de cada uma de suas outras células — como sempre acontecia ao se sentir ameaçado. Você sabe que o Himuro é um ser irritante e sujo que gosta de provocar. Deve estar com ciúmes e raiva, querendo que Taiga se foda por ter voltado com você. É só veneno, vingança. Não caia nessa e não foda com tudo... De novo!
Lógico que era isso. A dedução foi óbvia. Em que mundo deveria confiar nas palavras do cara que desprezava ao invés das palavras do cara que o fez se apaixonar de verdade pela primeira vez na vida? O moreno culpou-se por deixar-se levar pelo papo gosmento de Himuro, ao mesmo tempo em que um grande alívio lavou toda aquela massa negra formando-se em seu interior. Há alguns meses talvez não tivesse capacidade de se controlar, mas hoje faria isso de uma nova forma... Principalmente ao ver o quão baixo Himuro podia ser, apenas para tentar acabar com tudo o que ainda estava construindo com Taiga.
— Já terminou de falar? — O moreno murmurou para o rapaz, de forma ameaçadora, jogando a mochila no chão ao partir para cima dele. Foda-se se estava ali, no meio do Centro Poliesportivo. Ele merecia um soco bem no meio da fuça repartida por cabelo.
A onda de adrenalina foi tão rápida e eficaz que nem mesmo Aomine soube como deixou Himuro Tatsuya caído, com o nariz sangrando. Sentia um leve incômodo nos nós dos dedos fechados em punho, e podia ver um pouco do sangue do rapaz ali, em sua pele. A sensação era libertadora, mas não o suficiente... Vê-lo choramingando aos seus pés ainda não era o suficiente.
Ele quase o manipulou. Quase! Quase o fez acabar com tudo o que recomeçava a construir com Taiga, e por puro veneno... Isso sem falar que o provocava desde o aniversário de Kuroko com aqueles sorrisinhos nojentos e insinuantes, e agora fazia o mesmo ali, no Centro, falando aquele bando de merdas apenas para que Aomine se sentisse mal, menos digno, e até mesmo para sentir raiva de Kagami e acabar com tudo mais uma vez. Ele passara dos limites da mediocridade.
O que ele espera? Que o Kagami volte para ele depois disso? Ridículo!
— Você é a pessoa mais podre que eu conheço, sabia? — Aomine rosnou com agressividade, ajuntando-o pela gola da jaqueta branca e lilás do uniforme, que agora continha algumas manchas pequenas e vermelhas de sangue para contrastar. — Fico só pensando nas merdas que você deve ter feito pelas costas do Taiga, ou até mesmo como você o manipulou. — O moreno o encostou contra a parede com força, levando-o a fazer uma careta de dor, emitindo um som estranho. — Meu Deus, como você é um bostinha. — Riu-se da expressão aflita no rosto dele, assim que ele começou a se debater, tentando reagir.
Antes que esperasse, o moreno sentiu uma pancada do lado esquerdo de seu rosto. Ele o atingira, não com tanta força, mas o suficiente para que o largasse e cambaleasse um pouco.
— O Taiga não está mais comigo por culpa sua, seu desgraçado! — Himuro quase gritou, limpando o nariz com a manga da jaqueta, encarando Aomine com agressividade. Seu cabelo estava desgrenhado, deixando à mostra os dois olhos furiosos. — Antes de você aparecer tudo estava bem, ele era meu, sempre estava ao meu lado, me admirava. Você foi uma praga, e ainda vai se foder muito nessa vida por ter se metido comigo. Espero que vocês dois se fodam, e que se matem, que sofram pra caralho juntos. Não tem como isso dar certo entre vocês!
Aomine atingira o limite de sua razão. Sabia que aquilo tudo estava passando para a mais pura infantilidade, que era apenas uma briga ridícula, sem sentido, por uma causa que não seria mudada — ciúme, relacionamentos terminados e afins —, no entanto queria quebrar aquele filho da mãe por ter tentado manipulá-lo, apenas por ser uma víbora. Se ele gostasse de Taiga, simplesmente tentaria superar aquilo ao ver que o ruivo estava feliz... Mas ao contrário disso, ele desejava o pior. Era quase doentio.
Ainda movido pela adrenalina, o moreno foi na direção de Tatsuya, fechando o punho novamente para atingi-lo no abdome, com bastante forma. Não era muito familiarizado com brigas — duas ou três foram o seu máximo —, no entanto sabia que iria doer bastante se atingisse logo acima de seu estômago. O grunhido de dor que ele soltou foi a confirmação de suas suspeitas, ele mal teve tempo de reagir.
— O que está acontecendo aqui? — Uma voz masculina e zangada ecoou pelo espaço vazio e gelado, levando Aomine a olhar imediatamente para a o lado direito do corredor. Provavelmente aquele homem era o zelador ou faxineiro do Centro, pois ele largara um carrinho com vassouras, panos e outros utensílios de limpeza e vinha em sua direção com largos passos.
Ah caralho. Fodeu! Daiki pensou com a pouca consciência que existia por debaixo da corrente de adrenalina, ainda segurando Himuro pela gola da jaqueta ensanguentava. Seu corpo gelou na hora. Fora flagrado no meio de uma briga... Seria expulso do Interescolar, com certeza. Merda!
O momento de distração foi o suficiente para que levasse uma nova pancada no lado esquerdo do rosto. O golpe repentino deixou o moreno um pouco zonzo e cambaleante, pois pegara em um lugar próximo à sua têmpora. Mesmo com a dor contínua e latejante que ali surgiu, Aomine não soltou Himuro, apenas o encarou com raiva, percebendo que ele já daria um novo golpe, do lado direito dessa vez.
— Parem com isso, vocês dois! — O mais velho exclamou e começou a correr, zangado, buscando evitar novos golpes entre os dois.
O que é um peido para quem está cagado? Aomine pensou com sarcasmo em um último momento de raiva e impulsividade, metendo um soco com muita força no lábio de Himuro, que caiu novamente no chão. Foi apenas o tempo de o zelador o afastar com violência, empurrando-o pelo peito com força, enquanto pedia ajuda através de um rádio que mantinha preso em seu cinto.
Pronto. Agora estava decididamente na merda!
***
Com os olhos fechados, Aomine apertava e soltava o maxilar na mesma intensidade em que sua têmpora latejava. Encontrava-se na enfermaria há pelo menos uma hora e meia, tempo em que o jogo de Touou x Kirisaki Daiichi ocorreu — Seirin x Shutoku também. O moreno não sabia dos resultados e ninguém conhecido veio vê-lo ainda, apenas a enfermeira que fez dois pontos em sua sobrancelha partida, o zelador dando-lhe uma bronca colossal e mais algumas pessoas responsáveis pelo campeonato, notificando-o que estava fora do Interescolar e da Winter Cup daquele ano como punição pelas atitudes 'bárbaras e animalescas em relação à um colega'.
Colega é o meu ovo! Aomine pensou ao ouvir a bronca.
Do outro lado do quarto — na ala mais distante possível, com alguns enfermeiros por perto —, Himuro Tatsuya sentava-se em uma das camas, em silêncio, olhando para frente. Ambos estavam expulsos do campeonato e receberam ordens expressas para ficar ali até o treinador ou responsável de cada time comparecer para buscá-los. A coleção de broncas não acabaria tão cedo, mas de certa forma Aomine pensava que valeu a pena, pois Tatsuya estava com a boca partida e inchada e o nariz por pouco não quebrara.
— Conheço alguém que vai ficar muito satisfeito por você ter machucado seu irmãozinho mais velho. — Tatsuya cantarolou do outro lado do quarto com uma breve risada, ainda provocando como se estivesse por cima da carne seca.
— Morra! — Aomine respondeu sem entusiasmo, ainda mantendo os olhos fechados. Sua cabeça estava doendo demais para tentar rebater aquilo. Não valeria a pena. Mas corajoso ele era, precisava admitir.
— Silêncio! Os dois! — Disse um enfermeiro de óculos, que sentava-se em uma das escrivaninhas e manipulava alguns papéis.
O moreno apenas suspirou fundo, sorvendo aquele cheiro horrível de desinfetante, ouvindo uma breve risadinha sem graça de Himuro. Ser insuportável, parecia um doente mental obcecado. Merecia levar mais alguns socos para aprender, porém agora que Aomine mantinha a cabeça mais fria, pressentia que estava na merda mesmo. Teria que enfrentar Momoi, o treinador, sua mãe e o próprio Taiga...
Fodeu!
***
~Kagami Taiga~
— Muito bem pessoal, hoje deu tudo mais do que certo nos jogos. Admito que estava com medo de Shutoku, mas vocês foram ótimos, como sempre! — Riko sorriu mais do que satisfeita, anotando o resultado do jogo contra o time de Midorima em sua prancheta. — Vencemos mais essa etapa. Agora vistam-se logo para voltarmos à quadra, nossos próximos oponentes serão decididos agor-
Naquele momento a porta do vestiário abriu-se e bateu com um estrondo contra a parede de azulejos, interrompendo Riko e assustando os demais membros do time da Seirin. Uma Momoi Satsuki desesperada entrara em busca de Kagami, pois logo veio em sua direção com passos decididos, como se o ruivo fosse a única pessoa presente no vestiário.
— Kagamin, o Dai-chaneoHimuro-kun acabaramdebrigar no corredor, foramexpulsosdocampeonato e agora estão naenfermariamachucados. Precisam esperaratéalguémchegarláparaliberação. — Ela mal fazia pausas para respirar, apenas agitava os braços com pressa, chamando atenção de todos os presentes, que estavam assustados e agora curiosos. — Vaaaamos! — Ela o apressou com veemência, puxando-o pela gola do uniforme de basquete, o qual nem teve tempo de tirar.
— Espera Momoi. Espera! O quê foi? — O ruivo franziu a testa, confuso, levantando-se, mas não permitindo que ela o puxasse para longe dali. Entendera apenas poucas palavras do que ela disse.— O que você está dizendo?
— Ai Kagamin! Estamos sem tempo. — Ela respirou fundo, ainda alterada e aflita, soltando sua roupa de basquete suada. — O Dai-chan e o Himuro-kun brigaram feio no corredor, agorinha. Os dois foram expulsos do Interescolar e agora estão na Enfermaria, machucados, esperando os responsáveis para poderem sair. — Ela repetiu, puxando novamente o ruivo, mas agora pelo braço.
Taiga precisou de três segundos para absorver a informação. Simplesmente arregalou os olhos ao assimilar o acontecido, sentindo a boca secar. Puta que pariu! Fodeu!
— Vamos logo, Kagamin! — Momoi insistiu, franzindo a testa.
— Ei, espera! Mas o que o ele tem a ver com isso tudo? — Riko perguntou, confusa e imponente, parando logo atrás do ruivo assim que a rosada tentava levá-lo embora, mais uma vez naquele dia.
— Tudo a ver. O Daiki e ele são namorados. — Momoi explicou para a treinadora com uma evidente pressa, sem pensar muito no que estava falando. Dois segundos depois ela arregalou os olhos rosados e encarou Taiga, com uma expressão de 'oops'.
Puta que pariu! Agora sim terminou de foder tudo! Kagami sentiu o ar fechar-se mais ainda às suas costas naquele exato momento, como se todos gritassem um 'oh' inaudível. Sem olhar para trás, o ruivo fechou as pálpebras e sutilmente pediu com um gesto para que ela recomeçasse a andar, sentindo o rosto esquentar enquanto seu interior gelava por completo. Não disse mais nada quando saiu do vestiário, mas tinha certeza que parecia um fantasma de tão pálido.
Não tinha tanto problema o fato de Hyuuga ter descoberto sobre sua vida particular por acidente naquele dia... Mas agora todos sabiam. Todos! E justamente quando recebera a notícia que Aomine e Himuro quase se mataram, estavam machucados e expulsos. O motivo até já conseguia imaginar.
Fodeu! Sua cabeça iria explodir. O que mais seria necessário para que pudesse viver sua vida em paz, com a pessoa que gostava, sem acontecer mil coisas ao seu redor para tirar-lhe o sono?
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