Linguagem Universal
1 Capítulo 1
— Yo, Jun\'ichi!
Piscando, Jun pousou seu copo na superfície de madeira do bar, virando-se em busca de quem havia gritado seu nome. A música estava um pouco alta, e ele não tinha certeza de onde havia vindo o grito. — Aqui, Jun! Dessa vez, ele reconheceu a voz, e rapidamente acenou para o barman, mudando de banco e escolhendo um em frente ao outro homem, que trabalhava bastante naquele momento. — Konbanwa, Kazuo. — Konbanwa, Jun. Não tinha me ouvido? — Ouvi, mas não sabia que era você me chamando. — Jun confessou, coçando a parte de trás da cabeça de um jeito infantil e sorrindo — Mas o que houve? — Ah, nada. Eu gostaria de apresentá-lo a alguém. Ah, matte. — ele saiu correndo por detrás do balcão e sumiu na cozinha, gritando com alguém. Jun não entendeu absolutamente nada, e apenas tomou mais um gole do seu drink enquanto mudava de posição no banco, esperando seu amigo voltar e concluir a tal \"apresentação\". Foi quando o jovem de cabelos escuros se inclinou para a frente para pegar um guardanapo que ele viu um vulto, encostado à parede, no último banco em frente ao bar. Já estava pelo menos no seu segundo copo, e Jun sentia que estava sendo observado por aquela figura. Sentindo-se estranho, ele voltou para o seu lugar, mudando um pouco de posição e tentando vislumbrar o rosto do desconhecido. Porém, a iluminação do lugar não foi de grande ajuda, e ele continuou na ignorância, além de frustrado. — Você é Yamamura Jun\'ichi, não? O estranho falara. Com ele. — Hai. Sou eu... Você é? O outro homem se moveu para a frente e finalmente Jun pôde ver o seu rosto. O cabelo era castanho escuro como o seu, porém um pouco mais curto. As suas maçãs do rosto eram levemente saltadas, e os seus olhos muito penetrantes. Os seus lábios cheios estavam pintados de preto, assim como toda a sua roupa. — Kirito. Jun torceu o nariz quase imperceptivelmente. Ele preferiria que o estranho tivesse dado seu nome completo, assim como ele havia acabado de fazer. Porém, antes que ele divagasse mais sobre o assunto, o barman Kazuo voltou, com um sorriso no rosto. — Ah, já se apresentaram? — ele continuou, sem esperar por uma confirmação — Em todo caso, este é Yamamura Jun\'ichi, guitarrista. E este é Murata Shinya, também guitarrista. — Shinya? — Jun perguntou, erguendo uma sobrancelha. Kirito se levantou do seu lugar isolado e sentou-se ao lado do homem mais novo, ambos agora de frente para o barman. — Eu não uso meu nome. — Então devo chamá-lo de Kirito? — Exatamente. Kazuo sorriu, servindo aos dois mais uma dose de bebida. Jun nem havia terminado a sua primeira ainda. — Resolvi apresentá-los porque acho que podem se dar bem. Um dia desses, Jun me contou que quer formar uma banda. — Uma banda? — ecoou Kirito, parecendo interessado. — Sim... — concordou o guitarrista timidamente — Essa é a idéia. — Interessante. Meu irmão toca baixo. — Verdade? Ainda não conheço nenhum baixista. — É verdade sim. Bom, ele queria tocar guitarra, mas comprou um baixo por engano... — Kirito sorriu de um jeito levemente zombeteiro, e Jun retribuiu o gesto do outro com um sorriso genuíno dos seus — Então ele virou um baixista. O barman também permitiu-se sorrir e saiu de perto dos dois. Pelo que ele conhecia de ambos, poderiam sair dali bons amigos e com uma banda formada. — O que você acha? Jun tombou o seu corpo para a frente, pegando as letras das mãos de Kirito. — Deixa eu ver... Ele ficou alguns minutos em silêncio, sua concentração por completo na caligrafia corrida do outro guitarrista da banda. Banda que depois de algumas discussões, veio a ser nomeada Dizzy Lizzy. Jun não percebeu quando Kirito se moveu, mudando de lugar e sentando-se ao seu lado no pequeno sofá da sala. Somente quando sentiu a respiração do outro homem na sua nuca e um dos braços de Kirito trazendo-o mais para perto é que ele percebeu a presença do mesmo. — Ki-Kirito? — Hai? — ele respondeu com a voz baixa. O guitarrista base sabia que o outro homem tinha os lábios agora colados ao lóbulo da sua orelha, sentira o ar quente que escapava da boca de Kirito quando ele falou. — O quê... O quê você está fazendo? — Hmmm... Esperando você dar o seu aval. A respiração cálida do guitarrista líder da banda havia nublado a mente de Jun; ele não fazia idéia do que acabara de ler, e decidido a começar tudo de novo, descobriu que não conseguiria se Kirito continuasse tão perto, o calor do corpo do outro homem tão forte. — Kirito, eu... Poderia se afastar um pouco, por favor? Uma risada baixa e curta foi a resposta do outro homem, mas Jun de fato sentiu o braço que o prendia no lugar sumir, assim como a respiração quente no seu pescoço parar também. O outro guitarrista se levantou e retornou à sua posição inicial, na cadeira de frente para Jun. — Onde será que Kohta e Luka se meteram? A pergunta de Hidelow foi completamente ignorada quando ele entrou na sala. Jun simplesmente não havia notado a entrada do outro, ao passo que Kirito aparentemente não estava disposto a responder.
— Hey, Jun, Kirito. Eu perguntei onde estão Kohta e Luka. — Wakaranai. — Kohta é seu irmão! — Ele tem a vida dele. Os dois devem estar em um bar qualquer, bebendo. E deixando o trabalho para nós dois, como sempre. — Todos nós trabalhamos por igual. — Hah, você é cego. — Kirito, eu... — Parem os dois. — Jun interveio, subitamente consciente da presença do vocalista no cômodo e vendo uma briga que não precisava acontecer prestes a começar — Luka me deu o celular dele... — ele remexeu os papéis que estavam na mesa, em seguida entregando um bilhete para o homem que esperava impaciente ao lado da mesa — Ligue e tente achá-los. — Arigatou, Jun. Ja ne. Sem mais palavras, Hidelow deixou a sala e o silêncio voltou a reinar na mesma. Decidido a ler e comentar a letra de uma das próximas músicas, Jun recomeçou pela terceira vez a leitura do papel que Kirito lhe entregara. O som da caneta arranhando o papel era o único ruído que ocasionalmente quebrava o silêncio estabelecido na sala. Jun sentia seu coração bater tão descompassadamente que ele poderia jurar que Kirito ouvia também. Finalmente, terminando de ler todos os caracteres sem se atrapalhar, ele ergueu a cabeça. — Eu gostei. Kirito levantou o rosto, dando uma última olhada na folha em que trabalhava antes de encarar Jun: — Mesmo? — Mesmo... Mas eu tenho umas sugestões. O guitarrista líder novamente mudou de lugar, voltando ao sofá. Jun foi mais para a ponta, dando mais espaço para Kirito. Depois de alguns minutos de discussão e troca de palavras na letra, os dois concordaram que estava bom. Os outros três integrantes da banda também deveriam aprová-la, e se isso acontecesse, ela logo seria incluída no repertório para o lançamento do primeiro CD deles. — Hey, Kiri... Falta um título para a música... — Jun comentou, batendo a ponta com borracha de um lápis repetidamente contra a lateral da sua cabeça, como se isso o ajudasse a pensar. — Não falta. De repente, Jun viu-se prensado contra o braço do pequeno sofá que ocupava, as mãos de Kirito mantendo-o no lugar. Mesmo com a fraca luz do abajur que usavam para trabalhar de noite, o guitarrista base conseguia divisar um brilho estranho nos olhos do outro homem, cujos lábios estavam lentamente se curvando em um sorriso. — N-não? Qual é? O sorriso do outro guitarrista se alargou. — Sleep or Dead. A correria no pequeno camarim era frenética. Jun estava terminando de amarrar seu calçado em um banco quando quase foi derrubado da cadeira, com a pressa que Kohta passou por ele. — Kohta! Olhe por onde anda! — Gomen! — Luka, o que você fez com o lápis de olho? — Wakaranai... Ah, o Hidelow pegou. — Ainda estou usando. — Eu preciso do lápis! — Dois minutos, minna! O último grito silenciou o cômodo por alguns segundos, que logo voltou a ficar tão confuso e barulhento como antes, senão mais. — Jun, me passa aquele pente! — Okkei. — o guitarrista se inclinou para o lado e apanhou um pente preto, atirando-o para o baterista. — Itai! — exclamou Kohta, quando foi atingido pelo pente na parte detrás da cabeça. — Ah, gomen! — Foi o troco? — Não, não foi. — Jun sorriu. — Sei, sei... Jun se levantou do banco onde estava, alisando rugas imaginárias na sua vestimenta e entrando em uma espécie de provador de roupas, conferindo os últimos detalhes de sua roupa no maior espelho. Quase gritou de surpresa quando viu o vulto negro de Kirito entrar na minúscula cabine abraçá-lo por trás. — Kiri... — a mão do outro guitarrista estava sobre a sua boca em tempo recorde, e Jun não conseguiu continuar falando. — Shhh... — os lábios de Kirito começaram a beijar seu pescoço, mas pararam logo em seguida — Vim desejar boa sorte para você. Sem poder falar, o homem mais novo concordou com a cabeça. O guitarrista líder sorriu e beijou Jun uma última vez. — Luka está descontente com a banda... Kohta me contou que ele pensa em sair. Os olhos arregalados do guitarrista base traduziram a pergunta que estava na sua mente. — Sim, sair. Demo, não se preocupe... Eu sei de alguém que pode substituí-lo caso isso aconteça. Não vou deixar a banda que nós criamos acabar. Devagar, os olhos castanhos de Jun voltaram ao normal, e a mão de Kirito deixou a sua boca. Havia sido uma atitude arriscada do outro guitarrista vir conversar sobre tal assunto dentro do camarim, antes de um show, ainda por cima. Com sorte, os sussurros de Kirito não haviam sido ouvidos. — Um minuto! Aparentemente, nenhum dos outros três integrantes da banda havia dado pela falta repentina deles. Antes de sair da cabine, Jun agarrou Kirito pelo seu pulso, virando-o para si. Corando furiosamente, ele beijou o outro guitarrista antes de sair da cabine primeiro que o homem mais velho, rumo ao começo de mais um show.Continua...
Notas finais
No início de PIERROT, a formação original contava com Hidelow (vocal), Kirito (guitarra), Jun (guitarra), Kohta (baixo) e Luka (bateria). Foi apenas em 1995 que a banda se consolidou com a formação que teve até o final, com Kirito (vocal), Aiji (guitarra), Jun (guitarra), Kohta (baixo) e Takeo (bateria).
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