Linguagem Universal
2 Capítulo 2
— Eu não acredito! Foi incrível!
— Parabéns, Aiji! — Minna, omedetou! Kirito sorriu. Estava realmente morto de cansaço, mas a noite havia sido inesquecível. Eles haviam conquistado o Nippon Budokan, um dos locais mais cobiçados para apresentações em todo o cenário do rock no Japão. Da música no Japão, corrigiu-se mentalmente. — Kiri? O vocalista piscou, voltando a sua atenção para a voz que o tinha chamado. Encontrou o olhar preocupado de Jun. — Daijoubu? — Tudo ótimo, Jun. Sorrindo novamente, Kirito se contentou em observar os outros três membros da banda, que já se trocavam e tiravam a roupa do show. Takeo lavava o rosto, banhado em suor pelo grande tempo que tocara com todas as luzes nele, além do seu terno pesado. — Você que é feliz, Aiji. Pode usar essas roupas menos quentes... — murmurou o baterista, secando o rosto. — Você também poderia mudar de roupa, Take. — Mas eu não tenho as suas pernas. Um surto de risada alta encheu o cômodo, e até as pessoas encarregadas da manutenção do local ou da banda riram também. Sem conseguir parar de sorrir, Kirito deixou-se cair em um dos sofás. Nippon Budokan... Eles haviam chegado no Budokan. Em apenas um ano como major. — Hey, Kiri... Pensando? O vocalista apenas concordou, o olhar desfocado; na frente dos seus olhos, um filme com tudo o que havia acontecido nos últimos anos estava sendo exibido. — Jun... Você se lembra daquele dia no bar? — Quando fomos apresentados? — o guitarrista perguntou, franzindo as sobrancelhas. — Exatamente. Você... Imaginava que chegaríamos aqui? Um momento de silêncio entre os dois se seguiu, enquanto o outro fundador da banda pensava também. — Honestamente? — Hai. — Eu esperava. Kirito se virou, o seu olhar passando uma emoção que Jun não sabia definir direito. — Sou ka? — Hai... Eu sempre acreditei em nós... Na banda, eu quero dizer. — a correção rápida feita por Jun causou um leve rubor no seu rosto, enquanto o sorriso de Kirito havia se transformado em um outro muito mais malicioso. — Eu também esperava, Jun. Mas todas as mudanças que se passaram... Essas eu não poderia ter previsto. Silenciosamente, o guitarrista balançou a cabeça concordando, vendo Takeo e Kohta se retirarem da sala, já prontos para irem embora. Ele havia parado de se trocar na metade, enquanto Kirito continuava com a roupa usada no show, o cabelo ainda feito e o rosto maquiado com a cruz. — Você acha que estamos no rumo certo? — Kirito! Jun! Vocês não vão? Os dois pararam a conversa e ergueram simultaneamente o rosto para encarar o último integrante que havia se juntado à banda: Aiji. — Vamos sim... Diga aos outros que já estamos indo. — respondeu o vocalista pelos dois. — Hai, se apressem então. Ja! O alto homem de cabelos roxos saiu do cômodo assobiando a melodia do refrão de Clear Sky para si mesmo, deixando finalmente os fundadores da banda a sós. Mais um período de silêncio se seguiu até Kirito retomar a conversa: — Quando você diz se estamos no rumo certo... Se refere ao PIERROT ou a nós, Jun? Os olhos escuros e gentis do guitarrista se arregalaram e ele olhou para baixo, encarando os próprios pés como se fossem a coisa mais interessante da face da Terra. Ele murmurou a resposta, falando tão baixo e enrolado que o vocalista não conseguiu ouvir. — O quê disse? — Kirito... Você sabe o que respondi. — Não tenho certeza... Gostaria de ouvir você dizer novamente, poder compreender cada palavra que deixa os seus lábios... — o vocalista ergueu o rosto do outro homem e aproximou a sua boca da de Jun, clamando-a em um beijo. Kirito sentia prazer na aflição e no medo de serem pegos, mas parecia que Jun não compartilhava da mesma idéia. — Kirito! — ele sussurrou após se separarem — Não pode fazer isso aqui! E se alguém vir? — Você não se preocupava com isso antes, Jun. O comentário do vocalista da banda pareceu silenciar o homem mais novo por alguns momentos, até ele replicar: — Na época não tínhamos tanto a perder, Kirito. Jun se levantou do sofá que estava dividindo com Kirito, terminando de tirar a sua roupa do show e lavando o rosto para se livrar da maquiagem. — E quando eu disse \" nós\", eu me referia a ambos os casos... Kiri. — Eu sei. — Então qual é a sua resposta? — Sim. — Para ambos os casos? — Sim. Jun se virou para o vocalista, surpreso ao encontrá-lo despido da parte de cima das suas roupas. Engolindo em seco e tirando os olhos do tórax muito convidativo de Kirito, ele focou seu olhar no rosto do vocalista. — Você só tem isso a dizer? — Sabe Jun... Um \"sim\" significa muita coisa. Não é o que se responde quando se casa, no altar? O jovem guitarrista sentiu seu queixo cair contra a sua vontade, enquanto Kirito se trancava em um dos banheiros por perto. Os cinco integrantes da banda estavam em um dos seus bares favoritos, comemorando o sucesso do show feito no Budokan. Era um dos bares que eles costumavam freqüentar desde os tempos indies do PIERROT, e conheciam a maior parte dos empregados do local. Outro ponto positivo era a quase ausência de fãs, o que dava mais privacidade para os cinco bem-sucedidos músicos se descontraírem.
— Aiji, eu achei você corajoso hoje. Desde quando decide brincar com o oni? — Kohta comentou, bebendo mais um gole demorado da sua cerveja. — Desde quando eu decidi que era justo. Takeo e Kohta riram, enquanto Kirito apenas sorriu demoniacamente para o guitarrista solo da banda. — Então para cada vez que eu beijá-lo no palco terei um retorno? — Ou algo mais. Baterista e baixista novamente riram e gritaram vários \"ooooh\" de surpresa fingida, quando Jun retornou à mesa, mal conseguindo carregar todos os copos de bebida que haviam sido pedidos para ele. — Da próxima vez, alguém vai me ajudar. — Jun, Jun! Você perdeu as declarações de Aiji... — comentou Kohta, retirando o seu copo da mão de Jun e rindo — Eu acho... — Kohta bebeu do seu novo copo, e somente aí Jun percebeu que seu copo anterior já estava vazio — Eu acho... Que a idéia do fan service do oni é uma desculpa. Aiji cruzou os braços, fingindo estar ofendido e olhando de esguelha para o vocalista. — Ah, é isso, Kirito? Eu estou sendo... Usado? — ele pronunciou a última palavra com uma dor falsa, fazendo drama. — Hmmm... A verdade é cruel, não é Aiji? Nisso, o vocalista se inclinou e tomou os lábios de Aiji, e os dois se entregaram a um beijo estranhamente mais longo que o normal. Enquanto isso, Takeo e Kohta gritavam e aplaudiam, derrubando um dos copos de cerveja no meio das palmas. Jun ficou sem reação ao ver a cena. Mas como vocalista e guitarrista estavam ocupados demais no beijo e os outros dois integrantes da banda bêbados demais para notar qualquer coisa, ninguém percebeu. Jogando a sua mala furiosamente no sofá de casa, Jun controlou-se para não ir até a cozinha e pegar uma das facas para cravá-la no pescoço de Kirito logo depois. Ou em algum lugar que doesse mais. Deitando rapidamente na sua cama por cima dos lençóis, ele rolou na mesma, fitando o teto. Um dia que era para ser tão especial na sua vida havia acabado de se transformar em um pesadelo. Ele não entendia mais nada. Depois da conversa nos bastidores, Jun achava que estava tudo bem... Quando de repente era surpreendido por uma demonstração de \"coleguismo\" exacerbada entre Kirito e Aiji no bar. O fan service ele podia tolerar, sabia que era algo programado. Não impusera um freio em tudo porque sabia que o vocalista tinha razão, aquilo realmente atraía fãs, além de divertir a maioria deles. Mas fora dos palcos? Parecia provocação. Ele não imaginara que haveria de presenciar isso tudo. Não mesmo. Ele sempre estivera ao lado de Kirito durante as decisões mais difíceis que diziam respeito à banda que formaram juntos: a saída de Luka e Hidelow, com a entrada de Takeo e Aiji logo em seguida; a mudança da função de Kirito na banda, que passou a ocupar os vocais, cedendo seu antigo posto para o recém-chegado Aiji; a troca do nome da banda; o contrato com a Toshiba EMI. Em absolutamente todas as ocasiões, Jun esteve ao lado do vocalista. Ele não podia dizer que Kirito não havia feito o mesmo, mas depois da cena do bar, tudo que ele ouvira até então do outro homem parecia uma grande e imensa mentira. E por mais que isso doesse, ele não conseguia imaginar sua vida diferente, sem a presença do vocalista nela. — Shinya... Piscando, Jun se levantou na cama, pensando ter ouvido batidas na porta. Olhando para o relógio na sua cabeceira, viu que já eram duas horas da manhã passadas. Levantado-se a contragosto, se dirigiu para a porta, abrindo-a rapidamente e pronto para brigar com qualquer um que estivesse batendo àquela hora. Exceto o causador do seu mau-humor. E era justamente Kirito quem estava do lado de fora. — Ki-Kirito? — Posso... Entrar, Jun? Sem dizer nada, o guitarrista se moveu para o lado, dando espaço para o outro homem entrar. Fechando a porta silenciosamente, ele parou no meio da sala, encarando Kirito. — Gomen, Jun. O homem mais novo não demonstrou alteração nenhuma na sua face. — Eu sei que presenciou a cena do bar... E eu acho que você merece explicações. — Mesmo? Kirito ergueu as sobrancelhas, suspirando logo em seguida. — Eu sei que você não vai acreditar, mas... Eu fiz tudo isso por nós. — Por nós? O vocalista ergueu a cabeça assustado com o sarcasmo que ouviu na voz de Jun. Os lábios do guitarrista estavam contraídos em sorriso tão irônico que não combinava com a calma e expressões gentis que o homem mais novo geralmente demonstrava. Antes que Kirito pudesse continuar falando, Jun sentou-se ao seu lado no sofá, os olhos brilhando com uma raiva tão inesperada que havia deixado o vocalista mudo. — Você tem coragem de dizer isso, Kirito? Nós? Eu sempre estive ao seu lado, eu sempre apoiei suas decisões... Durante todos esses anos nós trabalhamos para o sucesso da banda, desde quando ela ainda era apenas um sonho que nós compartilhávamos, Kirito! Bufando, ele continuou: — Ainda hoje me responde que estamos no rumo certo. Então esse é o rumo certo para nós também? Você se divertir com Aiji na minha frente? Voc... Kirito agarrou Jun pela gola da sua blusa e beijou-o rapidamente, colocando mais emoção e sentimento naquele beijo do que em qualquer outro que trocaram durante os mais de cinco anos que se conheciam. O ódio e desprezo que o homem mais novo sentia do vocalista foi aos poucos sumindo, dando espaço a uma confusão sem precedentes na sua vida. — Jun... Eu sei que você está coberto de razão. Não tenho como negar seus argumentos... Mas o que fiz hoje foi por nós. Assim como eu também penso assim sobre o fan service. Seja o que quer que você pense... Eu não gosto de Aiji, nunca gostei. O guitarrista ficou em silêncio, esperando a conclusão do raciocínio de Kirito. Era raro vê-lo pedindo desculpas, e Jun pretendia aproveitar cada segundo daquela experiência. — Kohta... Ele e Takeo já estavam desconfiando que nós éramos mais do que melhores amigos, Jun. Sei que seu desejo não é tornar nossa relação pública, e respeito isso. E o melhor jeito para continuar protegendo nossa privacidade era mudando o foco da atenção. Olhando firmemente para Jun, o vocalista continuou: — Eu sei que isso não basta para você... Mas tenha certeza de que eu estava sendo honesto no camarim. Eu não brinco com os sentimentos de ninguém, muito menos os seus. Eu não teria coragem de arruinar nada que criamos juntos. Seja a banda, seja o nosso amor. Sem dizer mais nada, Kirito se levantou do sofá, se dirigindo para a porta. Jun estava completamente mudo de espanto, completamente envergonhado pelas suas ações anteriores. Ele não tivera a decência de esperar por uma explicação de Kirito... Ele simplesmente tirara conclusões precipitadas. Ele deveria saber que tudo que o seu amante fazia era planejado, calculado. E que ele jamais seria machucado de propósito. Levantando-se rapidamente do sofá, ele usou os dois braços para prender o homem mais alto contra a parede, murmurando logo em seguida: — Fique. O fantasma de um sorriso curvou os lábios vermelhos do vocalista, que mesmo sem maquiagem, continuavam tão atraentes como sempre. — Sim. Ao ouvir a resposta do outro homem, Jun levantou mais a sua cabeça, beijando o seu amante demoradamente. Agora, ele sabia dar o valor devido ao \"sim\". O semblante de cada integrante do PIERROT era sério. Muito sério, a ponto de a sala inteira parecer diferente, não sendo mais aquela que acolhera cinco músicos extasiados pelo sucesso no Nippon Budokan com o \"Film\" RISING A [MAD SKY]. Suspirando, Kirito passou uma das suas mãos pelo seu cabelo escuro. O gesto foi acompanhado de perto por Jun, sentado ao seu lado e com uma cara tão negra quanto a do líder da banda, os lábios apertados em uma linha fina. — Bem... Eu não tenho mais nada a dizer. Aiji tinha os olhos brilhantes, prestes a chorar. Era sempre ele quem dizia que a banda importava mais do que tudo para ele. Não era como se fosse diferente para o resto, mas sem dúvida, era o guitarrista líder, sempre tão confiante no palco, que mais exteriorizava suas emoções. Pedindo desculpas em voz baixa, Aiji se retirou da sala, e a porta do banheiro mais próximo foi batida e em seguida trancada. Kohta tinha um olhar desolado, que se focou em Kirito alguns minutos depois. — Então... É isso? Vamos terminar? Takeo permanecia em silêncio, o seu olhar mudando do vocalista para o guitarrista que sobrara na mesa. — Não. O Murata mais novo piscou, fitando o irmão. — Como assim \"não\"? — Quer dizer que não vamos acabar.
O silêncio se abateu sobre a sala novamente por alguns minutos, até Takeo falar: — Então não vamos ceder às exigências da Toshiba? Vamos simplesmente ignorar e continuar no nosso caminho? — Essa é a idéia. Pela primeira vez, Jun se pronunciava sobre o problema com a gravadora e com a quebra do contrato. Os outros três homens presentes na sala voltaram suas cabeças para o guitarrista moreno. — Não vamos deixar o que nós criamos terminar. Não é o queremos. Vocês conseguem ver a vida de vocês sem essa banda? Sem os ensaios? Sem shows, sem os fãs? Sem poder... Continuar passando a mensagem que desejam? Sem perceber, Jun havia se levantado, apoiando as mãos na mesa e continuando a discursar. — Eu me lembro de como tudo isso começou... E não vai, não pode acabar tão cedo. — a voz do guitarrista assumiu um tom de súplica — Nós produzimos e conquistamos tanta coisa... E digo mais. Eu vi o presente acontecendo, vi o nosso talento ser reconhecido. Mas o final disso... Ainda está longe para ser sequer vislumbrado. As palavras de Jun pareceram ecoar na sala vazia durante algum tempo, até Aiji retornar para seu lugar entre Kirito e Kohta, os olhos vermelhos. Kohta inclinou-se para o lado e sussurrou um resumo do discurso de Jun para o guitarrista mais alto, que apenas arregalou os olhos à medida que ia sendo informado sobre o que se sucedera. Kirito estava verdadeiramente impressionado. Ele jamais esperara que Jun falasse para todos algo tão profundo, e que pudesse surtir mais efeito do que ele, geralmente o mestre das palavras. Se levantando, ele apenas olhou cada um presente, demorando-se ligeiramente mais no outro fundador da banda. — Muito bem, decidimos o que fazer. Se antes a resposta certa era um \"sim\", dessa vez será o \"não\". Vamos recomeçar do fim. Vamos ser um paradoxo nessa indústria. Outras quatro cabeças concordaram silenciosamente com a decisão de Kirito. Não demorou muito e cada um tomou seu rumo, deixando Kirito e Jun à sós. — Jun... — Kirito começou, olhando com uma ternura fora do comum para o seu amante — Eu não sei o que faria sem você. O guitarrista se deixou beijar pelo vocalista, enlaçando-o pelo pescoço e trazendo-o mais para perto. A cadeira que ocupava protestou contra o excesso de peso, mas nenhum dos dois pareceu notar. — Jun... — murmurou o homem mais velho entre os beijos, as suas mãos descendo pelo corpo do guitarrista lentamente. — Hai? — Eu... Tive a idéia para uma nova música. Vai marcar a nossa mudança. — Como você quiser. Quando deixaram o prédio da agora ex-gravadora naquela noite, ambos tinham uma certeza em mente: aquilo não seria o fim, nem o começo. Seria a continuação dos seus sonhos.Continua...
Notas finais
Este capítulo tratou de um momento marcante na história de PIERROT: o rompimento súbito com a antiga gravadora major deles (a TOSHIBA EMI), época em que a banda retornou para sua gravadora indie, lançando um único single: PARADOX. Pouco tempo depois e ainda no mesmo ano, a banda foi para a Universal J, onde ficaram até terminarem em 2006.
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