Limiar

1 Vênus estava em Áries


Se alguém tentasse prever que algo anormal aconteceria naquele dia e apostasse nisso vinte e cinco centavos, essa pessoa ficaria vinte e cinco centavos mais rica no fim do dia. Porém ninguém jamais faria isso, pois, para todos os efeitos, aquela era uma manhã perfeitamente normal. O Sol nascera no lugar certo, os telefones funcionavam e até mesmo os relógios marcavam o horário correto. Tão correto, de fato, que um deles, na hora em que havia sido programado para tocar, começou a tocar. Primeiro foram apenas soadas leves, como pequenas batidas numa xícara. Logo, eram quase pancadas num sino.

De baixo de algumas cobertas, uma mão se esticou para bater no telefone. Não era uma mão grande, muito menos uma mão com garras ou tentáculos. Era apenas uma mão normal de uma garota normal. Se havia algo de especial nela era o fato de que aquela mão era minha. As cobertas também eram minhas, assim como o despertador e o quarto. E quando, depois de uma pancada bem aplicada, o despertador parou de tocar, o silêncio também era meu.

Naturalmente, não havia como aproveita-lo. No fim das contas, se um despertador toca, é obrigação da pessoa que o programou se levantar. Por um momento, enquanto ainda estava deitada, queria não ser essa pessoa. Mas o destino não é tão gentil, e minha identidade não tão problemática para que eu conseguisse muda-la com tanta facilidade. Ou ao menos era o que eu achava sobre a última parte, mas isso não importa agora. O que importa agora é que, sendo eu a pessoa responsável por programar o despertador, cabia a mim o dever de “se levantar”. Não se tratava de um ato de coragem ou de responsabilidade, mas de simples relação contratual. O despertador tocava, eu me levantava. Era o nosso combinado.

No fim, por mais que os meus desejos dissessem o contrário e as cobertas tentassem com todas as suas forças me agarrarem, consegui sair da cama. Meu corpo estava dolorido, meus olhos pesados, meus cabelos bagunçados. Olhei para o meu imperdoável companheiro contratual e o sorri.

— Você não perdoa, não é?

Abri o armário e as gavetas e peça a peça escolhi minhas roupas. Nada demais, porém. No fim das contas, eu não esperava me encontrar com ninguém especial enquanto estivesse usando aquelas roupas, então acho que era justificável não me preocupar demais com elas.

Dito isso, acho que se algum aficcionado por moda me visse, provavelmente ficaria horrorizado e tentaria me despir e me colocar dentro de outros panos. Mas não tinha jeito. Não importasse o que eu escolhesse para vestir, provavelmente isso aconteceria. Bem, na verdade não, afinal seria estranho que alguém saísse tirando minhas roupas no meio da rua. Pelo bem ou pelo mal, a vida não é um anime ecchi.

Acho que estou divagando demais. De volta aos trilhos.

Depois de me vestir, escovar os dentes e pentear o cabelo, desci para cozinha. Meus pais ainda estavam dormindo, provavelmente, então tive que fazer meu café sem barulho. Em outras palavras, nada de liquidificadores. Não que eu pretendesse usar um, mas limitações são limitações. Fui pelo caminho mais simples. Torradas, manteiga, café e uma maçã. Nada demais, como eu falei.

Os relógios marcavam algo por volta das nove horas. Faltava uma hora até minha aula começar. Tempo o suficiente. De casa até a faculdade, usando o metrô, não demorava mais que uns vinte minutos. Em outras palavras, havia acordado na hora certa.

Parabéns, Emile.

Se bem que quem deveria ser creditado era o despertador, afinal, ele acordou antes de mim para me tirar da cama. Ou talvez ele nem dormisse. Talvez devesse perguntar um dia desses. Não que esperasse que ele fosse responder. Falta de cordas vocais não ajuda na fala.

Quando estava saindo de casa, ouvi passos descendo as escadas. Ao me virar para trás, lá estava a minha mãe. Ela era menor do que eu, algo bastante impressionante já que eu mesma não era exatamente enorme, tinha cabelos curtos, usava óculos por cima de olhos puxados.

— Bom dia – ela me disse.

— Bom dia.

— Já vai sair?

— É. Acordei cedo e resolvi aproveitar. Acho que vou andando do metrô até a faculdade.

Minha mãe desceu até perto de mim, segurou minha camisa e ficou mexendo na gola por uns momentos. Quando terminou, abriu um sorriso.

— Você está animada hoje – ela disse.

— Estou?

— Tem algum motivo para isso?

— Acho que eu dormi bem.

— Entendo, entendo. Vai trabalhar hoje?

— Vou sim. Mas não devo chegar tarde, não, se tudo der certo.

— Não, tudo bem. É que eu e seu pai vamos sair e só vamos voltar de noite.

— Algo que eu deva saber?

— Nada demais. Vamos visitar um amigo dele que vai se mudar. Acho que ele está indo para os Estados Unidos ou algo assim. Vamos jantar lá.

— Certo então. Nesse caso, acho que vou jantar fora. Tudo bem por você?

— Tudo bem.

— Estou indo agora. Bom dia, mãe.

— Juízo.

Ditas as despedidas, amarrei meus tênis e lá fui eu, desbravando um mundo fascinante numa jornada valorosa.

Era o que eu gostaria de dizer, porém isso seria uma grande mentira. A menos que você considere dez minutos de caminhada pelas ruas de uma cidade grande uma jornada valorosa. E se você faz isso, provavelmente tem sérios problemas, portanto, por favor, experimente sair um pouco mais de casa. Não que eu tenha o direito de me meter na vida alheia, mas, ei, só estou tentando ajudar, ok?

De um jeito ou de outro, naquela manhã a cidade estava… normal. Não normal como num filme de terror em que as coisas estão estranhamente normais e você fica esperando o monstro aparecer e começar a destruir tudo. Mais na linha de normal normal. O trânsito estava pesado e o ar seco. Não chovia tinha algum tempo, então a cidade parecia mais laranja do que em outros dias, mas isso não era nada notável.

Enfim…

Àquela hora o metrô não estava lotado. Consegui sentar sem ter que empurrar ninguém e até mesmo deu para ficar vendo o que passava nas televisões instaladas no trem. Não que tivesse nada de particularmente interessante lá, mas descobri que pessoas não explodem no vácuo e que a Vênus estava em Aries, portanto aquele seria um dia de grandes mudanças e de uma decepção romântica. Aquele era um dia em que Vulcano não deveria estar particularmente feliz e Fobos, Eros, Deimos e Adrestia estariam se reunindo à mesa para conversar sobre suas conquistas. Não sei onde Harmonia e Anteros ficam nisso tudo, mas tenho certeza de que alguém pensou nisso.

— Com licença – alguém do meu lado disse.

Só aí notei que estava na estação final. Era aí que eu deveria descer, portanto, foi o que eu fiz. Corri para fora do vagão antes que as portas se fechassem e no processo esbarrei em alguém.

— Desculpa! – falei para ela.

Depois disso, saí da estação correndo com mais cuidado e segui andando até a faculdade. Eram vinte minutos de caminhada por um trecho tranquilo. Algumas pessoas costumavam fazer jogging dentro do campus, outras preferiam ciclismo. Um trecho pelo qual eu costumava passar estava em obras, então tive que cortar caminho por outro lugar. Não que isso fosse um problema considerando quão aberto era o campus. Era uma das coisas que eu gostava nele. Não havia limites definidos para as faculdades, bastava um pouco de vontade e se poderia chegar a qualquer lugar.

Era como uma fita de Möbius.

Cheguei ao prédio da minha faculdade quinze minutos adiantada. Achei melhor ir direto para a sala ao invés de ficar passeando.

Ou ao menos era o que eu teria feito se não tivesse me encontrado com ela no meio do caminho.

Ela era minha veterana, uma garota de cabelo multicolorido, roupas largas e jeito de menina. Era uma visão engraçada ela andando pelos corredores da faculdade. Parecia meio deslocada, uma existência à parte de tudo. Assim que me viu no corredor, ela começou a acenar e correr na minha direção.

Com alguma sorte ela não esbarraria em mim.

Só um pouco de sorte.

Vamos, não custa nada…

Não.

A meio metro de mim, ela tropeçou em seus próprios pés e, como um avião desgovernado, me derrubou no chão. Os olhos todos caíram em cima da gente, as risadas foram inevitáveis.

No fim, não havia escapatória. Certas coisas são definidas pelo próprio destino.

— Foi mal – ela me disse. – Acho que eu tropecei.

— Eu também tropeçaria se andasse com os sapatos desamarrados… Sua vida seria bem mais simples se você aprendesse a dar nós.

— Eu sei amarrar meus sapatos. Eu não amarro para deixar eles livres.

E para esbarrar em mim, aparentemente.

— Acho que seus sapatos não se importariam em ficar um pouco presos, não é? Na verdade, acho que eles adorariam isso. Vamos lá, prenda seus sapatos!

— Ninguém gosta de ficar preso!

— Então use botas!

— Aí eu perderia a desculpa para esbarrar em você!

Como eu pensei.

Era como estar numa comédia barata cujo humor depende de refrãos, piadas e chavões. Exceto que eu não recebia para fazer parte disso. Pelo contrário, pagava o caro preço da minha moral e imagem.

O mundo certamente é um lugar inflexível.

— De qualquer jeito, eu queria falar com você – minha veterana disse.

— Sobre o quê?

— Aqui não. Podemos ir na cafeteria?

— Faltam cinco minutos para começar a aula.

— Não faz mal chegar atrasada uns minutos. Além do que, seu professor sempre chega tarde, não é?

— Isso é.

— Então pronto. Não vou demorar, eu prometo.

Provavelmente iria me arrepender daquilo, mas mesmo sabendo disso, aceitei. Ao menos um pouco de café me faria bem.

A cafeteria não estava lá muito cheia. Muitos dos alunos já deviam ter ido para as salas então até algumas das (poucas) mesas estavam livres. Eu pedi um café e pegamos uma das mesas.

— Então, o que você queria?

A veterana me olhou como quem queria dizer alguma coisa, mas não sabia exatamente como então ficava reformulando as frases na cabeça até encontrar as melhores palavras. O que provavelmente era o caso. Depois de quase um minuto assim, ela sorriu e começou a falar.

— Como vai o seu trabalho?

— Meu trabalho? Ah, vai bem. Peguei uns alunos chatos semana passada, mas nada demais. Por quê?

— É que então, lá onde eu trabalho estão contratando. Meu chefe me perguntou se eu sabia indicar alguém e na hora pensei em você. Você estava planejando sair de casa no ano que vem, não é?

— É, estava, sim. Mas com o que eu ganho não daria para me sustentar decentemente.

— Então, por isso eu pensei em você. O trabalho é turno completo, mas só entra à uma da tarde e não fica longe daqui. Se você quisesse, podia até ir andando e chegaria a tempo. E o salário é bem melhor do que você ganha. Não daria para alugar um apartamento sozinha, mas se você apertasse um pouco e seus pais te dessem uma mão, provavelmente teria como se virar.

— Não sei. Eu quero sair de casa para parar de depender dos meus pais. Pedir dinheiro para eles para morar fora não faria sentido para mim.

— Achei que vocês se dessem bem.

— Achou certo. Eu não quero sair de casa por isso.

— Pelo que então?

— É complicado.

Ela fez um muxoxo, mas não questionou.

— As entrevistas vão ser hoje de tarde – minha veterana falou. – Se quiser ir, me manda uma mensagem que eu te passo o endereço.

— Eu não devia enviar o currículo antes?

— Já fiz isso por você.

— Desde quando você tem o meu currículo?

A veterana de cabelos multicoloridos e roupas largas riu e, se levantando, foi saindo.

— Ei! Onde você conseguiu meu currículo?

— Se você conseguir o emprego eu prometo que te conto!

Ela nem se deu ao trabalho de olhar para mim quando disse isso.

Francamente.

Terminei meu café e fui para a sala. Passava cinco minutos das dez, logo minha aula iria começar. Com um pouco de sorte, chegaria antes do professor.

Minha sorte, porém, não estava no seu auge naquele dia, como eu descobriria em pouco tempo…