Limiar

2 O mundo é cheio de mistérios


Após uma boa quantidade de acontecimentos que não devem ter parecido os mais interessantes para qualquer um que não seja eu, finalmente cheguei à aula. Imagino que comparando com uma aventura épica, esse parece um avanço bastante trivial e pouco excitante, mas fiquem tranquilos, as partes agitadas já chegam.

Como eu mencionei, aquele não era exatamente meu dia de sorte, portanto naturalmente meu professor já estava na sala quando cheguei, o que me garantiu um olhar bastante severo, que, eu já sabia, seria o mesmo com que ele olharia a minha monografia. Era tudo que eu precisava…

Tentei chamar o mínimo de atenção possível indo direto para uma cadeira. E enquanto vasculhava em busca de um lugar, vi um garoto sentado num canto perto da janela. Se tivesse que descrever ele, diria que era o exato oposto da minha veterana. Se ela era um elefante indiano no serrado, ele era um cameleão numa floresta densa, o tipo de pessoa que ninguém percebe a menos que esteja procurando por ele. A cadeira ao lado dele estava vaga, então achei que não fosse má ideia me sentar ali.

— Bom dia – murmurei para ele enquanto me sentava.

— Ah, oi – ele respondeu.

Ele parecia alguém que havia acabado de acordar quando disse isso, com um sorriso um pouco confuso e aquele jeito desconcertado de olhar.

— Considerando a sua resposta, vou supor que você não dormiu direito essa noite – falei. – Por acaso passou a noite inteira acordado procurando pornografia na internet? Ou quem sabe tenha saído por aí pulando de telhado em telhado tirando fotos de garotas dormindo.

— Eu não sou algum tipo de personagem pervertido de um anime dos anos 1990, sabia?

— Oh.

Não nos falamos muito mais pelo resto da aula. Não estava a fim de provocar o professor mais do que já havia provocado chegando atrasada. Não podia me dar ao luxo de arriscar uma reprovação e um semestre a mais. Ou talvez fosse mais correto dizer que eu não queria arriscar um semestre a mais. Na prática, era a mesma coisa, acho. Enfim. Como nada de relevante aconteceu nessa aula e em meus limitados conhecimentos de narrativa eu acredite que falar sobre lógica modal não seja algo muito apreciado em pleno segundo capítulo de um livro, vou adiantar isso e ir para o próximo evento razoavelmente interessante.

E esse aconteceu no restaurante da faculdade. Eu costumava almoçar lá todos os dias por que a variação de cardápio me agradava, além de ser uma ótima oportunidade de interação social e criação de laços que me ajudariam bastante caso tivesse que despertar a personificação do meu Ego. Obviamente, isso não vai acontecer. Sinto muito se você tinha alguma expectativa ligada a isso.

De todo modo, era costume daquele garoto almoçar lá também. E agora notei que ainda não dei o nome dele e é bastante problemático ficar chamando ele de “garoto”, já que mais alguém que poderia ser chamado assim está prestes a entrar na história e confusão é a última coisa que quero causar no momento. Portanto, saibam que o nome do garoto com que me encontrei na sala era Daniel. E para evitar problemas futuros, irei dizer o nome de todas as personagens que forem introduzidas daqui em diante, considerando que isso não seja um spoiler e que eu saiba qual é esse nome.

Adiante.

Como sempre almoçávamos juntos e aquele era um dia completamente normal, fomos andando juntos até o restaurante. Fazia Sol e havia pouco vento, deixando o dia ainda mais quente. Sentia como se eu fosse derreter dentro das minhas roupas.

— Como você aguenta ficar de casaco nesse calor? – perguntei a Daniel, que estava usando um casaco naquele calor.

— Costume, eu acho. Além disso, não está tão quente assim.

— Oh. Suponho que máquinas do futuro mandadas para assassinar o líder da rebelião sejam feitas para resistir a altas temperaturas. Sem dúvidas, isso explica muito bem a situação. Me desculpe pela pergunta estúpida.

— Pode parar com as referências esdrúxulas. Eu só me dou bem com o calor. Isso não é tão estranho assim. Um monte de gente prefere o calor.

— Você não parece uma pessoa assim.

— Não?

— Não. Você parece uma pessoa que gosta de dias frios. Tenho certeza que você se daria muito bem esquiando no gelo.

— Talvez eu devesse te dar um gelo.

“Dar um gelo”? Quantos anos você tem?

Uma gíria tão antiquada. Um rapaz de tempos tão modernos. Absurdo!

Ou talvez ele tenha apenas resolvido fazer uma piada com a minha própria frase.

Que intelecto afiado!

— Como anda o seu trabalho? – ele me perguntou.

— Bem. Sem nenhum problema considerável, pelo menos. Na medida do possível, é um bom emprego. Apesar disso, estou pensando em ver outro.

— Não estão pagando bem?

— Não é isso. Bem, é isso, na verdade. Eles pagam bem, mas não o bastante para eu morar sozinha. Acho que esse emprego novo pode ser melhor para isso. Uma amiga me conseguiu a entrevista e eu pensei, bem, posso ao menos tentar. Se não der certo, tudo bem. E você? Trabalha?

— De certo modo.

— De que modo?

— São meio que bicos. Trabalhos que faço quando eles aparecem.

— Um freelancer?

— Pode-se dizer que sim.

Estranho.

— Engraçado. Você não parece o tipo que faria freelancing. Por alguma razão, é mais fácil te imaginar como um empregado de alto escalão de uma empresa ou alguma coisa do tipo.

— Acha mesmo?

— Acho, sim.

Talvez seja só uma primeira impressão permanente. Quem sabe…

Um momento depois, já estávamos na porta do restaurante, praticamente. Por alguma razão, parecia que o tempo funcionava de um jeito diferente naquele curto trecho de espaço que separava meu prédio e o restaurante.

Quando nós dois chegamos, quase não havia mais lugares onde sentar. Tivemos que caçar uma mesa enquanto carregávamos as bandejas e só encontramos porque, por sorte, alguns colegas já estavam lá e na mesa que ocupavam ainda sobravam três lugares. Os três que estavam sentados eram velhos conhecidos e uma aluna mais nova.

E agora, as descrições dos três.

O primeiro deles, alto e forte, era um dos nossos veteranos que por razões que não convém contar cursava algumas matérias conosco. Sempre usava camisas sem mangas e bonés, todo mundo o chamava de Coiote por causa de uma camisa do Coiote do Papa-léguas que ele usou uma vez. Ao lado dele, estava um rapaz mais baixinho, meio gordinho, de óculos e jeitão de amigo de todos, cabelo espetado, roupas largas e um escapulário ao redor do pescoço. Esse era o Dênis. Por fim, a terceira pessoa que estava naquela mesa era uma garota de dezessete anos, cabelos curtos assim como seu vestido preto, o tipo de pessoa para quem os homens param para olhar na rua. Bom, até eu pararia se visse, já que não é comum ver garotas com quase um metro e oitenta andando por aí em vestidos curtos. De todo modo, ela se chamava Paula e era nossa bixete.

E com isso, termino a descrição dos três. Espero que tenha ido bem nisso.

Daniel e eu os cumprimentamos de longe e nos sentamos com eles.

— Quanto tempo, vocês dois! – Denis disse. – Andaram sumidos. Ficaram ricos e esqueceram dos pobres?

Disse o garoto rico.

— Não é nada disso – Daniel falou. – Eu ando almoçando mais tarde e a Emile me acompanha.

— Alguma razão para isso? – Coiote perguntou.

— Eu gosto da comida fria daqui.

— Para alguém que dorme nas aulas isso é mais do que suficiente. Agradeça e seja feliz ou talvez eu tenha que cortar sua comida pela metade.

— Metade?

— Talvez um quarto.

— Como você quer que eu sobreviva?

— Quem falou em sobreviver?

Todos começaram a rir. Paula enrolou o braço ao redor do meu pescoço e me puxou para perto dela. Por um momento, eu pude jurar que meu pescoço ia partir ao meio…

— Como eu senti falta de vocês! – ela disse. – Almoço nenhum tem graça sem vocês!

— Isso é exagero seu – eu falei. – Agora eu preciso realmente respirar…

— Ah, certo. Desculpa. Às vezes eu me distraio.

— Para o bem da minha saúde e da paz mundial, por favor, tome mais cuidado. Você provavelmente conseguiria quebrar o pescoço do Hulk desse jeito.

— Não exagera – Denis disse. – Ninguém consegue quebrar o pescoço do Hulk.

— O Super-Homem consegue – Coiote falou.

— E lá vamos nós de novo – Paula comentou.

Os dez minutos seguintes se resumiram a uma série de discussões confusas e interconexas, passando da gravidade de Krypton ao empuxo magnético de uma supernova e por fim parando num comentário particularmente notável sobre como Nietzsche perderia uma queda de braços contra Gandhi. O que Gandhi estaria fazendo numa disputa com Nietzsche, porém, ninguém soube explicar.

De fato, o mundo é cheio de mistérios.

Acontece que quando toda essa estranha linha de conversa chegou ao fim, foi a vez do silêncio desconfortável chegar, cheio de manha, sentando conosco e ficando ali nos encarando, se espalhando, como se não tivesse nada para fazer. Por alguma razão, ele gostava de fazer isso. Mas Denis não gostava do silêncio desconfortável desde que ele começou a acompanha-lo toda vez que tentava conversar com uma garota e por isso tentou se livrar dele na primeira chance que teve.

— Ei, Dan, ouvi dizer que você está saindo com alguém – foi a maneira que ele encontrou de assustar o silêncio.

Os olhos e ouvidos de todos na mesa se voltaram para aquela conversa como se fosse algo que jamais tivessem ouvido antes. O que provavelmente era o caso.

Na verdade, nem eu tinha ouvido isso antes.

Vai ver é uma piada.

— Quem te disse isso? – Daniel perguntou.

— Um amigo meu. Ele disse que te viu andando com uma garota num shopping um dia desses.

— É sério? – Paula perguntou. – Você está saindo com uma garota?

— Por que você está tão surpresa com isso?

— É que eu sempre achei que você, sabe, que você fosse gay.

Coiote e Denis começaram a gargalhar enquanto Daniel encarava Paula como se tivesse acabado de descobrir que ela era uma alienígena disfarçada que pretendia se infiltrar no grupo para separa-lo.

— O que te fez pensar isso? – Daniel perguntou-a.

— Sei lá, você nunca saiu com ninguém, sabe? Sempre ficou todo lá, na sua. Você não pode me culpar por pensar isso.

— Cara, me diz que alguém gravou isso! – Dênis disse.

— Qual é! Eu errei, ok? Acontece.

— Mas é verdade? – eu perguntei. – Você está mesmo saindo com uma garota?

Daniel desviou o olhar de mim como se estivesse tentando esconder alguma coisa. Talvez realmente estivesse, mas, no fim, acho que ele desistiu da ideia.

— É, é verdade – ele disse.

Dessa vez, ninguém riu. Houve algumas tapinhas nas costas e umas exclamações surpresas. Teve até um gritinho de alguém, mas risadas, nenhuma.

— Quem é ela? – Coiote perguntou. – Alguém que eu conheço?

— Ela é bonita? – Denis perguntou.

— Não, você não conhece ela. E, sim, ela é bonita, embora eu tenha a impressão de que não deveria dizer isso para você.

— E como você conheceu ela? – Paula perguntou.

— É… complicado.

— A gente tem tempo.

— Nem todos – eu disse.

Peguei minha bandeja, minha mochila e me levantei.

— Eu tenho que ir – falei. – Foi mal sair assim. Não quero chegar atrasada.

E com isso, eu saí do restaurante. Agora, suponho que vocês estejam se perguntando qual parte disso tudo foi importante para o desenvolvimento dessa história. Não posso revelar isso, mas garanto que o desenrolar desses eventos foi o responsável por boa parte de tudo mais que aconteceria comigo nos dias que se seguiriam.

De todo modo, assim que saí do restaurante, corri até o ponto de ônibus na expectativa de pegar o próximo e chegar cedo ao trabalho. Para o meu azar, porém, nenhum ônibus apareceu depois de quase vinte minutos esperando. Estava quase na minha hora. Dificilmente iria conseguir chegar a tempo, mas precisava tentar. Se o ônibus não vinha, teria de ir a pé.

Eram três quilômetros de onde eu estava até o metrô. Tinha meia hora para chegar ao trabalho. Apertei os cadarços dos meus tênis, prendi firme a mochila e lá fui eu.

Para minha sorte, tanto meu fôlego quanto minha velocidade eram acima da média. Com bastante esforço, eu poderia facilmente ultrapassar uma bala numa corrida de cem metros. Ou a menos conseguia ser mais rápida que a maioria das pessoas, mas tenho certeza de que vocês entenderam o que eu quis dizer. Fui correndo pelo trajeto inteiro, ouvindo todos os barulhos da cidade passando pelos meus ouvidos.

Buzinas, motores, conversas, pássaros, eletricidade, portas, mangueiras, cachorros, vento, folhas, insetos, passos, batimentos cardíacos, freios, bicicletas, sirenes, semáforos, toques de celular, óleo fritando, caminhões descarregando produtos, sinetas de portas, choro de crianças. O mundo era cheio de sons. O mundo era feito de sons. Mesmo que eu fechasse os olhos, eu sabia que tudo estava lá. E só precisava continuar correndo. Sem parar. Sem pensar. Esquecer tudo e correr. Correr até o fim do mundo era o que eu queria fazer e depois continuar em frente, atravessar a estratosfera e correr até a Lua.

Mas eu não podia fazer isso. Infelizmente, um contrato de trabalho exige um empregado esteja na Terra para que possa ser reconhecido como um funcionário. Por essa e outras razões que não importam, tive que parar no metrô. Ainda tinha mais ou menos vinte minutos. Se nada mais desse errado, ia chegar na hora.

Naturalmente, como eu disse que estava sem sorte naquele dia, tenho certeza de que vocês já imaginam que mais coisas deram errado. E se imaginaram isso, parabéns, recebam meus mais sinceros e sarcásticos parabéns.

O que deu errado dessa vez, como talvez alguns possam ter previsto, é que o metrô também demorou a chegar. Segundo as conversas entre as pessoas que esperavam o trem chegar, alguém havia caído nos trilhos do metrô e levaria bastante tempo até que os funcionários conseguissem colocar a situação, com o perdão da piada, de volta nos trilhos.

Em outras palavras, inevitavelmente iria chegar atrasada.

Enquanto estava parada esperando e imaginando uma maneira de justificar meu atraso para meu chefe, em algum lugar as primeiras notas da marcha imperial começaram a tocar. Depois de dois segundos, notei que esse lugar era meu celular. Era uma mensagem da minha veterana com o endereço do emprego dela.

Não bastasse enviar meu currículo sem me informar, me mandou o endereço sem que eu pedisse. Intrometida e forçosa, definitivamente. Mas até que isso é fofo. De todo modo, eu já estava atrasada mesmo e o tal endereço não era difícil de acessar. Já que essa era a situação em que eu estava, podia faltar ao trabalho e ir fazer a entrevista. Poderia pensar numa explicação mais tarde.

Esperei o metrô voltar a funcionar e lá fui eu.

O tal local da entrevista não era perto do centro e o prédio ficava um tanto quanto isolado do resto da vizinhança, mas isso não era um grande problema. Me apresentei na portaria e eles me indicaram para onde deveria ir. Havia um bom número de pessoas além de mim atrás daquele emprego. A maioria adultos com famílias, vestidos em ternos e com livros de autoajuda em baixo dos braços.

Fácil demais.

Fiquei quase uma hora esperando o entrevistador chegar e no momento em que ele finalmente apareceu, começaram as “dinâmicas”. Jogos entre pessoas. Simulações incompetentes de cenários reais. Deveriam ser difíceis, desafiadores, forçar as pessoas a usar suas mentes para superar os problemas. Na verdade eram só chatas. Depois das dinâmicas, o entrevistador começou a chamar um a um para conversar. Ordem alfabética, naturalmente. Levou uma hora até chegar em mim. Fiquei dez minutos na sala respondendo perguntas bobas até ser liberada. Infelizmente, aquilo não era o fim da maratona de testes chamada entrevista de emprego.

Espero que o salário valha a pena…

Já estava escuro quando o entrevistador dispensou todas as pessoas prometendo ligar no dia seguinte para os selecionados. Àquela altura eu nem sequer me importava mais. Estava cansada, estava com fome, precisava ir ao banheiro. Fiquei cinco minutos andando pelo prédio da empresa procurando um banheiro que funcionasse e não estivesse num estado indescritível de sujeira. Ainda passei na cantina que tinha dentro da empresa, peguei uma garrafa de água e um pão de queijo. Comi e só aí fui embora.

A essa altura, todos os entrevistados já tinham ido embora. Eu estava andando sozinha na rua, no meio da noite. Quando eu cheguei, não tinha notado, mas os postes ali não funcionavam e com a falta de casas próximas, a rua inteira parecia abandonada há anos. Estava mais frio do que eu esperava que fosse estar e eu não tinha levado nenhum agasalho. Provavelmente, se eu corresse conseguiria me esquentar, mas não quis arriscar chamar atenção. Nunca tinha ido ali e nem sabia nada sobre a região. A última coisa que eu precisava era ser assaltada.

Fui andando. Refiz o caminho que tinha usado para chegar ao prédio, mas, por alguma razão, não achei a estação em que tinha descido. Provavelmente tinha errado em algum ponto. Sem pontos de referência ou conhecimento, me restava procurar alguém para pedir informação. Comecei a procurar pessoas, porém nenhuma aparecia. Ninguém, absolutamente ninguém. Eu até entendo poucas pessoas quererem passar por uma região mal iluminada a noite, mas tinha um metrô e uma empresa perto. Tinha que ter alguém. Devia ter alguém. Mas, por alguma razão, nem uma alma viva aparecia enquanto eu procurava.

Peguei meu celular e liguei para minha veterana. Encontraria um lugar para ficar e pediria para ela me encontrar depois. Devia ter feito isso desde o começo. O telefone chamava, chamava e sempre caía na caixa postal. Droga. Não sabia mais o que fazer. Mandei uma mensagem para o Daniel com o meu endereço, pedi para ele me buscar.

Por que eu fiz isso?

Minha cabeça não estava no lugar. Era só isso. Eu estava nervosa por estar perdida. Era só isso. Queria chegar logo em casa, me enfiar no banho, jantar e esquecer aquele dia. Tudo estaria melhor amanhã. Era só questão de chegar em casa. Eu só não sabia como.

Fui atrás de um lugar para ficar. Uma lojinha, lanchonete, até um bar servia. Só não queria ficar no meio da rua mais um minuto. Mas não tinha nada. Nada. Nenhum tipo de negócio estava aberto. Era como se, de repente, todo mundo tivesse decidido que era hora de ir dormir.

Azar tudo bem, mas isso já é demais.

Continuei procurando e procurando até que cheguei a uma estação de metrô, a mesma pela qual tinha chegado ali. Quase morri de alívio na hora. Ia mandar uma mensagem para o Daniel dizendo que não precisava mais ir me buscar, mas estava sem sinal. Tudo bem. Faria isso na próxima estação.

Ao menos era o meu plano.

Só que a estação estava vazia também. Não só não tinha nenhum usuário, mas nem os funcionários estavam em qualquer lugar a vista.

Definitivamente, isso não é normal.

Fui direto para as catracas, passei meu cartão e acabou que ele foi aceito. Desci as escadas correndo, torcendo para ver ao menos uma pessoa em algum lugar ali. Nada. Nem nas plataformas, nem em lugar nenhum. Meu celular ainda estava sem sinal. Eram quase oito da noite. A essa altura, se Daniel tivesse visto minha mensagem, ele já devia estar chegando ali. Ainda ia ter que explicar essa situação para ele.

Droga, Emile, o que deu em você?

Dez minutos e nada de um trem aparecer ou alguma pessoa aparecer. Nada! Nada, droga! Tinha alguma coisa errada. Era como se eu estivesse presa em algum tipo de filme de terror.

O que diabos eu fiz para isso acontecer?

Nessas idas eu já nem me importava mais em chegar em casa. Tudo que eu queria era ver alguém, qualquer um. Qualquer um.

Eu não quero ficar sozinha!

E então as luzes da estação piscaram. Não uma nem duas delas. Todas elas. Como num filme antes do monstro aparecer.

A heroína está sozinha na estação de metrô. As luzes falham uma, duas, três vezes e não acendem mais. Ela pega seu celular e o usa como lanterna. Ela está assustada, seus batimentos disparados, sua respiração pesada. Ela ouve um barulho e grita. Alguma coisa se arrastando. Alguma coisa muito grande. Ela vai se afastando com cuidado, tentando não fazer barulho. Uma luz aparece no escuro. Verde, brilhante. Como olhos. A heroína derruba o celular. Ela quer gritar, mas se segura. Não pode fazer barulho ou o monstro irá vê-la. Tem que ficar calada. Totalmente calada. Andando, ela bate as costas numa parede. Não tem mais volta. As luzes estão se aproximando. O celular caído no chão ilumina um pedaço do monstro. A heroína vê escamas. Verdes, grandes, brutais. As luzes piscam e um vislumbre do monstro aparece.

Longo, grande, assustador, terrível.

Só impressões. Nada claro. Ainda não é hora de matar. Por enquanto, só sustos, só medo. As pernas da heroína falham, ela se senta no chão. Ela quer desaparecer, escapar do pesadelo. Ela já consegue ouvir a respiração do monstro. Ele está perto. A heroína tapa a boca com as mãos para segurar o grito entalado na garganta. Ela só quer que tudo aquilo acabe logo. Um pedido tão simples. Ela está desesperada. O medo tomou a cena. As luzes piscam novamente, dando outro vislumbre da criatura.

Uma boca sedenta, presas horrendas, olhos vorazes.

Os barulhos param. Depois de alguns instantes, a heroína recupera um pouco de esperança. Ela acha que o monstro foi embora. Ela acha que pode escapar. Esperança. Não muita, mas é necessária. Fazer acreditar. E então, quando as luzes se acendem, a heroína vê o monstro. Suas mãos falham e o grito escapa.

Era uma serpente, mas não podia ser real. Uma serpente jamais poderia ser tão grande. Ela mal cabia na estação. Algo como aquilo não podia existir. Jamais. Era um pesadelo, só um pesadelo. Num pesadelo, aquilo poderia existir. Não de verdade. Nunca. Nunca. Aquela criatura, aquela serpente negra rajada de veios, aquela serpente cujos olhos vertiam sangue, aquela serpente não podia ser real. Algo como aquilo não podia existir segundo as regras do mundo.

Era grande demais.

Era assustadora demais.

Mas estava ali, bem à minha frente. Eu a via com meus próprios olhos, claramente como via a mim mesma. Ela não podia ser real, mas eu a via.

Nada daquilo fazia sentido.

Eu só tinha uma certeza.

Eu ia morrer ali.