Limiar

3 Humanos não podem voar


Era o fim. Eu só conseguia imaginar que aquele era o meu fim. Que eu ia morrer ali, devorada por uma serpente que não devia existir. De todas as mortes que eu conseguia imaginar, essa era provavelmente a mais estranha e cruel.

Eu não quero morrer assim.

Eu não quero morrer.

Eu não quero…

A serpente abaixou a cabeça e me encarou. Ela não tinha olhos, mas eu sabia que ela estava me vendo. Era algo que eu sentia dentro de mim, como agulhas furando minha espinha.

Qual a palavra? Eu não consigo me lembrar, mas tem uma palavra.

Por que eu estou pensando nisso?

A serpente abriu a boca. Eu fechei os olhos.

Eu não precisava ver aquilo. Ao menos esse direito eu podia me dar. Mas se pudesse mesmo desejar uma coisa, se tivesse alguém me ouvindo e eu pudesse gritar alguma coisa, só tinham duas palavras.

Salve-me.

Mas ninguém estava lá para me ouvir. Eu estava sozinha. Por isso fechei os olhos e esperei que tudo acabasse logo. Era tudo que eu podia fazer. Desejar, torcer. Se era para morrer, que pelo menos não doesse.

Qual era a palavra mesmo?

— Meu nome…

Eu pensei ouvir alguém falar comigo, como uma voz lá no fundo na minha cabeça. E era uma voz como uma fotografia de criança.

Quem está aí?

— Qual é o meu nome?

A voz insistiu como se realmente estivesse lá. Mas não tinha ninguém ali. Só eu. Eu e a serpente. Talvez…

Eu abri os olhos. A serpente ainda estava ali, parada, me encarando com seu rosto sem olhos, suas escamas brilhando como se me questionassem. Ela não me atacou. Ela não me matou. Eu estava viva.

— Qual é o meu nome? – a serpente me perguntou.

Uma cobra estava me perguntando qual era seu nome. Uma cobra no meio de uma estação de metrô abandonada estava me perguntando qual era seu nome.

“Decifra-me ou devoro-te”, foi tudo em que eu consegui pensar. Uma esfinge. Mas eu não sabia a resposta. Como eu podia saber? Como eu podia saber como aquela serpente se chamava? Por que tinha uma cobra me perguntando esse tipo de coisa? O que ela queria comigo? O que fazia ela pensar que eu sabia a resposta?

Calma! Eu preciso ficar calma! Calma? Como diabos eu posso ficar calma?

Eu não sabia a resposta. E porque eu deveria saber? O que isso tudo tinha a ver comigo? Isso não faz sentido. Nada disso faz sentido! Por que você está me perguntando isso? Isso não tem nada comigo! Não é problema meu! Você não é problema meu!

— Qual é o meu nome? – a serpente gritou.

A serpente se recolheu e atacou. Corri para longe antes que ela me atingisse. A parede atrás de mim se espatifou. Parte do teto cedeu sobre a serpente. A cauda dela veio contra mim. Eu pulei. Ouvi mais concreto cedendo, tentei correr para longe, atravessar as catracas, subir as escadas, talvez escapar para a rua. A serpente veio atrás de mim, me cercou, esmagou as catracas, se recolheu e deu um bote. Escapei. Não faça ideia de como, mas escapei. Corri. Alguma coisa agarrou minha perna, me puxou para o ar. Quando percebi, estava pendurada de cabeça para baixo, de frente para a serpente.

— Qual é o meu nome?! – a serpente rugiu.

— Eu não sei! – eu gritei de volta. — Eu não sei qual é seu nome!

A serpente chiou furiosa. Meu corpo subiu. Jogada. Eu tinha sido jogada para o alto pela serpente. Dentes e escuro. Milhares, milhões de dentes num túnel escuro.

Por que eu não consigo lembrar qual é aquela palavra? Droga…

Se eu pudesse voar, eu poderia sair daqui.

Era um pensamento estúpido.

Era uma ideia idiota.

Humanos não podem voar.

Quando jogados para o alto, humanos só podem cair.

E morrer.

“Decifra-me ou devoro-te”.

Por que tinha que ser assim?

Por que uma pergunta tão complicada?

“Qual é o meu nome?”

Como eu posso saber?

Eu não quero morrer assim…

Alguém, por favor…

Nos filmes, quando alguém está caindo, o herói aparece e salva essa pessoa. Mas eu só estava caindo. Não tinha heróis. Não tinha ninguém. Só eu e a serpente sem nome.

E então o universo tremeu.

Não como num terremoto, não como numa explosão. De repente, o universo parecia todo estar tomado de uma febre, como se um corpo estranho o tivesse penetrado. O ar girou e rugiu, o chão trincou.

Como se algo a tivesse atingido, a serpente foi jogada contra a parede, atravessou o concreto e desapareceu.

Eu caí. Não na garganta da serpente, não no chão. Nos braços de alguém. Eu estava salva. Eu estava salva. Céus, eu estava realmente salva. E então eu olhei para o rosto da pessoa que me segurava.

Perdi o ar.

— Daniel?

— Desculpe a demora – ele disse. – Você conseguiu se meter num lugar bastante estranho dessa vez.

— O quê? Como? O que está acontecendo? Aquela cobra… como você…

— Ele explica depois – alguém disse.

Eu nunca tinha ouvido aquela voz antes. Era uma garota. Cabelos escuros, olhos escuros, roupas justas, uma faca na mão. A garota se aproximou de Daniel e de mim. Daniel me deixou no chão.

— Ela está certa – ele disse. – Eu explico tudo mais tarde. Isso ainda não acabou.

— O quê? – eu perguntei.

Mas ele tinha razão. Ainda não tinha acabado. A serpente reapareceu do meio do cimento, corpo retesado, postura violenta.

— Eu vou chamar a atenção dela – Daniel disse para a garota. – Cuida da Emile. Toma cuidado.

— Não sou eu quem vai encarar o monstro gigante – a garota retrucou.

Daniel mudou de postura. Mais que isso. Tudo mudou. Era quase como se não fosse a mesma pessoa, como se o camaleão tivesse se tornado numa águia. Uma águia que agora se preparava para atacar. Ela estendeu as garras, abriu as asas e voou ao ataque.

E então ele atacou a serpente. O soco atingiu a serpente que estava a mais de trinta metros em menos de um segundo. O impacto balançou a estação inteira.

Rápido demais.

Forte demais.

Um humano jamais poderia fazer algo assim. Mesmo que treinasse por anos e anos, mesmo que jamais descansasse e dedicasse sua vida apenas a se tornar mais rápido e mais forte, um humano não alcançaria aquele nível. Era simplesmente impossível, algo além dos limites de pessoas comuns.

Mas ele havia feito. Bem ali, na minha frente, ele havia feito.

Em meio a uma estação vazia, ele havia atingido uma serpente gigante e forçado ela a recuar. Ele podia derrota-la. Se ele continuasse tentando, ele poderia matar a serpente. Como nas histórias.

A serpente sabia disso. Ela sabia que aquela pessoa diante dela podia mata-la. Toda criatura sabe disso. A sensação de encarar um inimigo que se sabe ser seu predador natural.

Porém, ela não tentou lutar contra ele. A serpente não tentou se defender dos socos ou feri-lo de volta. Ela o ignorou. Ela o ignorou e se atirou na minha direção.

Um trem passou ao meu lado. Se tivesse me atingido, eu estaria morta. Contudo, eu estava viva. Olhei para o lado. E então, eu gritei.

A garota que estava ao meu lado era o alvo. Foi ela quem a serpente atacou.

Meu estômago quis se atirar pela minha garganta.

Toda a metade do corpo dela do umbigo para cima não estava mais lá. Partida ao meio. Rasgada. Devorada pela serpente em um único bote.

A serpente estava atrás de mim, preparada para uma nova investida. Ela iria me atacar dessa vez. Me atacar com a força que arrancou metade do corpo de uma pessoa como se não fosse nada.

Eu gritei.

Alguém me agarrou.

O trem passou outra vez, e outra vez me errou.

— Toma cuidado! – disse a voz que eu não conhecia.

Era a garota. A garota que havia sido partida ao meio. Ela havia me puxado. A garota que eu tinha visto morta um segundo atrás havia salvado minha vida.

Um pesadelo. Era um pesadelo. Não havia outra possibilidade.

Mas da cintura para cima ela estava nua. Da cintura para cima, como a parte que a serpente devorou.

Uma cidade vazia.

Uma serpente que pergunta seu nome.

Um garoto rápido e forte demais.

Uma garota que estava viva depois de ser rasgada ao meio.

Nada disso podia existir. Nada disso podia ser real. Então por quê? Por que eu estava vendo essas coisas?

A serpente atacou outra vez com a mesma força. Não havia tempo para desviar dessa vez. A garota me empurrou para trás dela. Por cima de seu ombro, eu vi quando Daniel apareceu em nossa frente, estendeu os braços e agarrou a serpente pela cabeça, estendeu seu braço direito e…

O vento explodiu. Se não fosse pela garota ter me agarrado, eu teria sido arrastada pela rajada de vento.

Do outro lado da estação, a serpente estava caída. Porém, ela ainda se movia. A serpente levantou a cabeça e olhou para mim. Mas ela não atacou. Não dessa vez. Ela apenas rastejou rapidamente para os trilhos, desaparecendo no túnel.

Ela tinha fugido. A serpente tinha fugido.

Daniel veio na minha direção. Não. Não era para mim que ele estava vindo. Era para a garota. Ele tirou o casaco e estendeu para ela.

— Você está bem? – ele perguntou-a.

— Já tive cólicas piores que isso – a garota disse.

Ela vestiu o casaco, tirou um elástico do bolso e prendeu o cabelo num rabo de cavalo.

— Como você consegue agir assim? – eu falei. – Você foi rasgada ao meio! Era para você está morta!

— Eu sou péssima nessa coisa toda de morrer – ela disse. – Além disso, eu não quero chamar atenção.

A garota apontou para trás dela.

Tinha um grupo de pessoas conversando ali. Perto deles, estava um guarda e mais algumas pessoas sentadas nos bancos. A estação toda estava cheia de pessoas. O teto, as catracas, as paredes estavam inteiras. Como um pesadelo. Mas não era. As calças da garota estavam encharcadas de sangue.

Aquilo tudo realmente tinha acontecido.

Meu estômago virou do avesso. Meus joelhos bateram no chão. O chão começou a rodar.

Minha cabeça doía.

— Respira, respira – uma voz me disse.

Inspirei. Aspirei. Inspirei. Aspirei. Fundo, me enchendo de ar, me esvaziando. Manter a cabeça no lugar. Tinha que manter a cabeça no lugar. Apenas ficar inteira.

— Ela está bem? – o segurança do metrô perguntou para Daniel.

— Eu estou bem – eu respondi.

Usei Daniel como suporte para me levantar e fingi um sorriso para o segurança.

— Foi só uma tontura. Acontece de vez em quando. Eu estou bem.

O segurança não questionou e foi embora. Me sentei no primeiro banco que achei. Queria enfiar minha cabeça entre as pernas, parar de respirar e esquecer toda aquela confusão. Céus, isso era tudo que eu queria.

Daniel se sentou ao meu lado, colocou a mão sobre o meu ombro e ficou parado ali, como se já estivesse acostumado com aquilo.

Um mentiroso sempre vai mentir. Um fingidor sempre vai fingir.

— O que… O que foi aquilo? O que aconteceu? O que é ela?

— As clássicas – a garota murmurou.

— Essa sua atitude não vai ajudar agora – Daniel disse.

— Certo. Faça do seu jeito então.

Aquela garota me encarava como se me detestasse. Havia uma raiva fria nos olhos dela que eu nunca tinha visto antes. Como se tivesse alguma coisa muito escura escondida dentro dela. Quando o olhar dela cruzava com o meu, sentia como se uma faca cortasse minha garganta.

— Quem é ela? – eu perguntei a Daniel.

— Eu estou ouvindo, sabia? – ela reclamou.

— Ei! – Daniel chiou. – Desculpe. Ela é meio difícil às vezes. O nome dela é Lavínia. Ela é minha namorada.

Qual era a palavra?

— Namorada? – eu perguntei.

Cabelos pretos ondulados, rosto fino, olhos grandes, corpo ágil. Como uma pantera.

Mas, por quê?

— A coisa que te atacou – Daniel falou. – A serpente. Ela era uma anomalia.

— Anomalia?

— Sabe nas histórias em que há monstros que quebram as leis da natureza? Coisas como dragões, casas mal assombradas, vampiros, esse tipo de coisa? Essas criaturas, essas entidades, ou como preferir chamar, costumam chamar elas de anomalias. Falhas no sistema. Criaturas nascidas das dúvidas e do mistério e alimentadas pelas lendas e histórias.

— O quê? Vampiros? Está me dizendo que existem vampiros?

— Você não faz ideia… – a garota, Lavínia, disse.

Anomalias. Monstros. Esse tipo de coisa, essas criaturas que enchem as histórias de crianças, era real. Era como uma piada ruim, uma peça idiota pregada por algum programa babaca. Um monstro, uma serpente gigante, tão grande que nem cabia direito numa estação de metrô, no meio de uma cidade. Não era nem mesmo engraçado ou divertido ou qualquer coisa do tipo. Era só absurdo.

Toda aquela história era absurda.

— Como? Como essas coisas existem? Como eu nunca soube disso?

— Anomalias são… elas são complicadas. Na prática, para ser franco, elas não existem de fato.

— Você acabou de dizer que elas existem!

— Eu disse que era complicado. Sabe como quando acontece um terremoto? Você diz que o terremoto aconteceu naquele momento, mas não podia dizer que ele existia antes ou depois, certo? Como um fenômeno, você pode dizer que terremotos existem, mas eles só se realizam, eles só conseguem interagir com o mundo real, quando as placas tectônicas colidem. Anomalias são iguais. Você pode dizer que elas existem, mas elas só afetam o mundo real quando as condições estão certas. Poucas pessoas olhando, estar escuro, em alguns casos coisas mais específicas, como datas, climas, localidades, fases lunares. Tudo depende da história.

— Histórias?

— É como eu disse, anomalias são alimentadas por histórias e lendas. Quando alguém explica um fenômeno usando uma criatura ou uma divindade, ela está criando uma anomalia. Desse jeito. Elas são coisas criadas pela mente das pessoas.

Meu cérebro já estava rodopiando. Metade daquilo era impossível de entender. A outra metade, se eu me esforçasse muito, até conseguia abstrair. Eu queria ir para casa. Mas eu tinha que saber tantas coisas.

— Então aquela serpente…

— Ela era uma anomalia. Não sei exatamente de que tipo, mas era uma anomalia, com certeza.

— E ela? – eu disse olhando para a garota.

— Não é educado falar dos outros como se eles não estivessem te ouvindo, sabia? – a garota reclamou. – É, eu sou uma anomalia também. Assustada?

Ela sorriu para mim como se quisesse me devorar.

— Como você sabe de tudo isso? – perguntei a Daniel.

Ele fez aquela cara de quem não sabia bem o que dizer e ficou girando ela por aí até provavelmente pensar num jeito decente.

— Eu sou um mago – ele disse como se fosse a coisa mais comum do mundo. – E eu protejo essa cidade de anomalias.

Quando ele falou isso, de cara, não consegui levar a sério. Daniel era um mentiroso. Um mentiroso que sempre mentia. Uma mentira a mais não seria nenhuma novidade. Era apenas uma ocorrência natural, uma eventualidade, algo que simplesmente tinha de acontecer.

Porém, acreditar no que ele dizia explicava muita coisa.

As coisas impossíveis que ele acabara de fazer.

As explicações evasivas para as perguntas.

O cansaço quase constante.

As mentiras.

Tudo isso fazia muito mais sentido se eu aceitasse que aquela revelação continha uma verdade. Se a frase “eu sou um mago” tivesse valor de verdade positiva, então seria simples solucionar todos os problemas.

Ainda assim, simplesmente não tinha como não ser uma mentira.

Alguém como ele, uma pessoa que simplesmente desaparecia na multidão, não poderia ser um mago. Era só um garoto normal demais, simples demais, genérico demais.

O garoto que desaparecia na multidão e o garoto que derrotou a serpente.

O camaleão e a águia.

Não havia como esses dois serem a mesma pessoa. Era algo que eu não podia aceitar. Uma ideia inconcebível, inaceitável, impossível.

Mas naquela noite em que uma serpente gigante me atacara e uma garota amarra seu cabelo num rabo de cavalo após ser rasgada ao meio algo assim se tornava apenas mais uma ocorrência normal.

O impossível era possível. O mundo operava à revelia do sentido.

Era como se, de súbito, eu tivesse escorregado para outra realidade, uma com suas próprias regras e sua própria lógica. O outro lado de um espelho estranho.

Porém, não era nada disso. Não, a verdade era bem mais simples.

O mundo jamais tivera sentido. Eu apenas tinha tomado noção disso agora.

Literalmente, eu tinha despertado.

— Você disse que você cuida dessas coisas… dessas anomalias, certo? – eu perguntei. – Então, me diz, por que aquela serpente veio atrás de mim?

— É difícil dizer. Existem muitas possibilidades. Coincidência, maldições, algum aspecto familiar, o lugar, alguma atitude ou até uma ligação entre ela e você. Sem saber o que ela era não dá para dizer.

— A serpente… ela falou comigo.

— Falou?

— Foi só uma pergunta. Ela ficou repetindo o tempo todo “qual é o meu nome?”.

— Uma anomalia sem nome? – a garota disse.

— Eu sei, é estranho – Daniel disse.

— Por quê? – eu perguntei.

— É como eu disse, anomalias se alimentam de histórias e lendas. Mas para isso, é preciso que elas identifiquem aquelas em que elas aparecem. Ás vezes por algum aspecto visual, por alguma característica ou poder, mas geralmente é mesmo pelo nome. Nomes são muito importantes, porque eles carregam associações e, portanto, poder. Se aquela serpente não sabia o nome dela, é possível que ele tenha sido roubado ou ela tenha sido forçada a esquecer.

— Então ela é ainda mais forte que aquilo? – a garota disse. – Que lindo. Era tudo que eu precisava.

— Vamos dar um jeito nela antes que ela se lembre do nome – Daniel falou. – Mas acho que antes disso seria melhor falar com o meu pai.

Daniel se virou para mim e me olhou com uma confiança esquisita, como se quisesse me convencer de alguma coisa com o olhar.

— Eu acho que você devia vir com a gente – foi o que ele falou. – Meu pai é um mago. Ele pode saber alguma coisa sobre essa serpente e porque ela te atacou. Se você puder dizer para ele como aconteceu tudo, tenho certeza de que isso vai ajudar a resolver essa situação toda.

Não só ele como também o pai dele era um mago. Aparentemente, naquela ocasião a senhora Noite estava seriamente disposta a me surpreender, mas ao invés de me premiar com números da loteria ou um carro zero, ela optou por magos, serpentes e garotas imortais. O que vinha depois? Terroristas? Macacos?

Era problema demais para minha cabeça. Estava cansada. Estava irritada.

— Eu só quero ir para casa – eu falei. – Um banho gigante, um monte de chocolate e fingir que nada disso aconteceu. Não quero saber nada de serpentes, anomalias ou sei lá o que. Eu não sou uma maga ou um tipo de… seja lá o que ela for.

— Ei! – a garota reclamou.

— Eu sou só uma mulher normal. Se eu me cortar, eu vou sangrar. Se alguém me bater, eu posso desmaiar. E se eu for partida em duas, eu não vou voltar. Na verdade, nem precisa ir tão longe. Eu não sou o melhor exemplo de resistência que tem. Não quero me meter com nada perigoso. Eu quase morri hoje. Desculpa, mas não. Eu vou pra casa.

Esperei Daniel dizer alguma coisa, porém tudo que ele fez foi aceder com a cabeça. Sem discussão. Meio decepcionante até.

— Pelo menos deixa eu te acompanhar até a sua casa – ele falou.

— Não precisa. Eu estou legal. E, depois de tudo isso, eu quero um tempo sozinha. Eu posso até não parecer, mas estou bastante abalada.

Isso era uma mentira.

Provavelmente.

— Tem certeza? – ele insistiu. – A maioria das pessoas entra em choque depois desse tipo de coisa.

— Não me subestime. Ouvir algo tão condescendente de alguém como você é particularmente ofensivo. Por favor, evite esse tipo de comentários.

Ele sorriu. No fim, ele acabou acreditando nisso. Ou ao menos quis fazer parecer que acreditava. Sei lá. Dali, eu fui direto para casa. Enquanto eu esperava o próximo metrô chegar, eu conseguia sentir os olhos daquela garota nas minhas costas. Se o trem tivesse demorado mais um pouco, acho que o olhar dela teria me furado. Por sorte, aquele não seria o dia da minha morte.