Limiar

9 Você já está morta


O tal hospital ficava numa rua pouco movimentada no centro, uma dessas ruas laterais, em frente a um posto de gasolina, no meio de vários outros prédios largados às moscas. Não era o tipo de lugar em que alguém pensaria “ei, vou entrar aí” mesmo que não soubesse que uma bruxa morava no lugar. Se soubesse, provavelmente evitaria a rua como um todo.

Bem, isso seria a reação natural.

Saber disso apenas me deixava mais inconformada com o fato de que eu estava fazendo aquilo. Eu podia simplesmente deixar que Daniel e a garota cuidassem disso. Eles iriam atrás de tudo, encontrariam meus pais e ficaria tudo bem.

Não é?

Não, não precisava nem ir tão longe. Eu podia ter simplesmente ficado esperando do lado de fora do hospital e isso já me pouparia uma quantidade significativa de dor de cabeça.

— Vai entrar junto? – foi o que a garota perguntou.

Teria sido simples dizer não, mas eu simplesmente não consegui.

O que está acontecendo com você, Emile?

Adoraria poder responder a essa pergunta, Emile.

Droga.

Era de dia ainda, e claro. Não um desses dias estranhos e nebulosos. Não tinha nenhuma nuvem no céu, mas, ainda assim, parada diante daquele prédio enorme, eu sentia meu peito congelar. A fachada destruída, as pichações, os vidros quebrados…

Não era nada disso.

Um monte de prédios era assim. Eu já tinha entrado em alguns desses. Era outra coisa. Uma sensação bem clara. Talvez fosse o mesmo que um animal sentisse quando vai atrás de comida dentro de uma jaula ou quando entra no território de um predador. É uma certeza onipresente, mórbida de que algo estava prestes a acontecer e eu não poderia evitar.

Medo?

— Você pode ir embora se quiser.

A garota disse isso sem nem se dar ao trabalho de olhar para mim. Não tínhamos nem entrado no hospital e ela já agia como se eu fosse algum tipo de covarde.

Convencida.

— Eu me preocupo comigo – eu disse.

— Escuta, isso não é lugar para tentar provar coragem – ela respondeu, enfim se virando para mim. – Se a cadela estiver esperando lá dentro, vai rolar briga. Isso vai ficar perigoso. Então, se você só quer provar que é machinha, é melhor dar meia-volta e esquecer isso.

Quando a garota parou de falar, um sorriso apareceu nela.

— Se bem que dizem que coisas estranhas se atraem – ela disse. – Então acho que faz sentido você querer vir também.

Vaca.

— Escuta aqui – eu disse. – Eu não sou nenhuma aberração, OK? Mas isso tem a ver comigo. É da minha vida e dos meus pais que estamos falando aqui. Não quero saber se é perigoso ou não. Eu vou entrar.

A garota deu de ombros, me olhando como se estivesse acima de mim.

— Como quiser – ela disse. – Mas não espere que eu te salve caso aconteça alguma merda.

— Eu não espero. Agora vamos.

Depois disso, eu e ela fomos direto para dentro do hospital. A porta não estava trancada e nem havia algum tipo de barreira ou sabe lá Deus o que. Na verdade, parecia que tudo tinha sido deixado pronto para que alguém entrasse.

Suspeito.

O salão de entrada estava destruído também. Havia infiltrações por toda a parte, enchendo o lugar com um barulho constante de gotas caindo e batendo, sobreposto a um silêncio; eu não acredito que vou usar esse termo; sepulcral. Todas as luzes estavam quebradas. Não, o mais correto seria dizer que estava tudo quebrado. Se não tivessem me dito e não restassem alguns instrumentos médicos largados pelo chão, eu não conseguiria acreditar que aquilo tinha um dia sido um hospital.

— O que aconteceu aqui? – eu perguntei.

— Incêndio – a garota disse. – Começou no quarto andar e se espalhou pelo resto do prédio. Morreu muita gente. Um monte de bebês, entre eles. O quarto andar era a maternidade. Depois disso, o lugar ficou abandonado por uns anos. Aí veio aquele urubu da Gerth, tomou o lugar e encheu ele de familiares. Daniel e eu tentamos acabar com ela uma vez, mas a vagabunda tinha se protegido tanto que mal passamos do terceiro andar.

A garota deu uma risada baixa, sarcástica.

— Apesar de tudo, a cadela fez um favor se livrando daquela vadia – ela disse.

Não tive estômago para responder. Só ouvir aquela história me fazia querer vomitar, por mais que nada subisse e meu estômago nem se mexesse.

Vazio.

Foco, Emile.

Pensar nisso não ia me ajudar em nada. Segui em frente atrás da garota, parando quando ela parava, andando por onde ela andava. A cada passo a mais para dentro daquele prédio, a sensação de estar sendo sugada para dentro de um buraco aumentava. Era como andar em areia movediça. A partir do segundo corredor eu nem mesmo conseguia enxergar direito. Com as luzes quebradas e as janelas tapadas com madeiras, a luz que entrava era mínima, apenas o suficiente para eu não andar literalmente às cegas. Não tinha coragem de tocar as paredes. Sabia que tinha alguma coisa ali, escondida nelas, apenas esperando um descuido meu para me engolir. E olhos. Elas tinham olhos. Muitos deles, pequenos e compostos, escondidos nos cantos, me observando passar e mandando tudo para a rainha.

Uma teia de aranha.

Minhas mãos estavam tremendo. É claro que eu estava com medo. Naquela situação, quem não ficaria? As vozes que vinham dos quartos, as imagens dos cadáveres queimados pelo incêndio, a sensação pegajosa do ar. Estava tudo tão claro na minha cabeça quanto poderia estar.

Meu pé ficou preso. Não vi no que. Não importava no que. Puxei-o com força demais, caí gritando, chutando o que quer que fosse. Tinha um fantasma ali. Uma criança morta, queimada, tentando me agarrar com mãos sem dedos, me encarando com um rosto sem olhos. Eram dezenas delas, vindo das paredes, do chão do teto, se agarrando em mim.

— Saiam de perto de mim! – eu gritei.

Uma mão agarrou meu ombro. Soquei-a e me afastei. Quando vi, não era um fantasma. Era a garota, me encarando séria.

— Se acalma – ela disse. – Não tem nada aqui. É só a sua cabeça.

Olhei ao redor. O corredor estava vazio.

A garota continuava me olhando como se não estivesse surpresa com aquilo, como se soubesse que eu ia gritar e me assustar, me julgando por isso.

Quem você pensa que é?

Me levantei logo. Limpei a sujeira. Tinha sido só um susto. Não ia acontecer de novo. A condescendência já tinha sumido do rosto da garota, só tinha sobrado uma surpresa calada.

Gostou?

— Tem certeza de que está bem? – ela disse.

— Não se preocupe comigo. Eu… eu só fiquei nervosa com a história. Só isso. Eu estou bem.

— Isso pode ter sido um ataque mental. Magia.

— Esse tipo de coisa existe?

— É bem comum, acho. O pai do Daniel vive falando disso. É a especialidade dele.

Os olhos…

Olhando para trás, a sensação que eu tinha sentido naquela hora na loja fora a mesma. Parecia óbvio para mim que aquilo tinha sido algo como o truque mental Jedi ou um tipo de hipnose. Era a única resposta óbvia. E era o tipo de coisa que dava para esperar de uma bruxa.

— Ainda dá para voltar atrás – a garota disse.

— Não! Eu vim até aqui. Não vou me dar por vencida.

A garota fez uma interjeição irritante piorada por um sorriso metido.

— Você é cabeça dura – ela disse. – Bem como o Daniel disse.

— Ele disse isso?

— É. “Quando ela decide alguma coisa é realmente difícil fazer ela desistir” ou alguma coisa do tipo. Não pensei que era tão grave assim, mas acho que isso tem lá seu lado bom.

Se aquilo deveria ser um elogio, meu instinto natural dizia que de modo algum poderia o ser. Não soava assim. Na verdade, ouvir isso daquela garota me fazia sentir como se estivesse levando uma bronca de alguém por ter acabado sendo devorada por um tubarão ao tentar fugir de um vampiro indo para o terraço de um prédio.

Por que eu estou pensando nisso?

Fortuitamente; se é que essa palavra significa “com sorte”; não tinha vampiros nesse prédio. Ou ao menos era no que eu acreditava e que, pelo amor de Deus, tinha que ser verdade. Vampiros num hospital era a última coisa de que eu precisava.

Você está fazendo isso de novo, Emile.

Desculpe, Emile.

Me sentia andando pelas paredes, indo em círculos para o mesmo lugar, pegando escadas que não davam em lugar nenhum, tomando passagens recursivas. Eu nunca conseguiria sair dali. Não sozinha. Eu só estava seguindo aquela garota de tão perto quanto conseguia, tropeçando atrás dela.

Batidas de tambor.

Não.

Meu coração?

Droga, Emile!

A garota parou no meio de um corredor, antes de uma escada e ficou olhando para frente, como se estivesse vendo alguma coisa lá. Tentei olhar por cima do ombro dela, mas não via nada.

— Tudo bem? – eu perguntei.

— Não – ela respondeu. – Tudo fácil demais. Espera aqui.

— Não! Eu não vou ficar sozinha nesse lugar!

A garota se virou para mim.

Irritada?

— Eu não posso ficar segurando a sua mão – ela disse. – Eu disse que era perigoso e você quis vir.

— Eu sei disso! – exclamei. – Mas… eu vou com você. Para perguntar para ela. Se alguma coisa acontecer, eu corro. Eu sou rápida.

— Bem, você tem pernas longas. Mas acho que isso não te salvaria. E o Daniel ficaria bem bravo se acontecesse alguma coisa com você. Isso pode acabar virando um problema grande.

— Eu tomo responsabilidade pelo que quer que aconteça!

A garota suspirou e enfiou as mãos por dentro do casaco, puxando duas facas e as empunhando.

— Mas vê se fica calada – ela disse.

Acedi.

Fui em frente, alguns passos atrás da garota. Todo meu corpo estava arrepiado. Eu sentia claramente a pressão ao redor de mim crescendo a cada vez que o barulho dos meus passos ecoava pelo corredor vazio.

A última pisada, a primeira no sexto andar, logo após a escada, foi seguida de silêncio.

Uma única batida.

Minha voz ficou presa na garganta.

Vermelho.

Meu estômago se revirou, minhas pernas fraquejaram.

Havia uma poça de sangue no chão. Grande, vermelha, escorrendo na minha direção, descendo de um corpo pendurado do teto, como um pedaço de carne, aberto, jorrando para fora.

Pelos.

Aquela mulher, Tuuli Aalto, estava lá, com a faca na mão, abrindo o corpo. Ela se virou devagar, sorrindo.

Presas.

Ela largou a faca. A batida metálica do aço no chão chegou devagar, alongada.

O grito não conseguiu sair. Minhas mãos não deixaram.

— Yo, Emile – a aranha disse. – Você veio rápido.

Como se só tivesse então notado que havia mais alguém ali, ela se virou para a garota à minha frente e seu sorriso se alongou.

— Kris? – ela disse. – E essa postura… Filipino, certo? Tempo que não vejo desses. Lavínia. É você, certo?

A garota estava sorrindo também.

O que é você?

— Eu sou tão famosa assim? – ela disse.

— Acho, um pouco. Bem conhecida, sim. Mas, vamos, vamos. Vieram aqui para quê? Não foi visitar, é? Deviam ter avisado. A bagunça está grande. Mudança recente, entende?

Nojento.

O jeito de ela falar, dela agir, dela se mover… Eu sentia algo estranho, um incômodo.

Qual é a palavra?

Meus lábios não queriam se separar. Forcei-os, mas aí o ar não escapou. O grito preso não deixava as palavras passarem.

Rápido, rápido, batendo rápido.

Meus joelhos estavam tremendo. Minhas pernas só queriam sair dali, correndo.

Hahaha…

Covarde.

Você é uma covarde, Emile.

Fale. Por favor, fale.

— Meus…

Vamos. Vamos…

— Meus pais… Onde estão meus pais? O que você fez com eles?

Aalto olhou para mim com olhos apertados, preguiçosos, cabeça pendendo para o lado.

Entediada?

O sorriso voltou pouco depois, preguiçoso também, mas diferente, carregado.

Ela lambeu os lábios, mostrando as presas. Longas, finas.

— Eles não estão aqui – Aalto disse. – Azar, azar.

— Onde eles estão? – eu gritei.

— Quem sabe?

Ela se virou para o cadáver ao seu lado, levantou a cabeça até a altura de sua boca.

— Você sabe? – ela perguntou no ouvido do cadáver.

Ela encostou o ouvido na boca do corpo e ficou esperando. E então soltou.

— Ela não sabe – Aalto disse. – Desculpe.

Nojo. Eu só conseguia sentir nojo daquilo. Era como estar dentro de um filme de mau gosto.

— Você é um monstro! – eu disse.

— Não somos todos? – Aalto respondeu.

Corre. Agora.

Dei um passo para trás. A escada estava perto, só uns passos atrás de mim.

Fugir. Você precisa fugir.

Virei de costas.

Olhos. Pelos.

— Já vai? – a aranha disse.

Ela estava na minha frente, um degrau abaixo de mim na escada.

Quando?

Caí sentada.

Não.

Fui jogada para trás.

O quê?

Um lampejo à minha frente, cortando o escuro, refletindo a pouca luz, formando um arco. O reflexo foi interrompido no meio do movimento, porém. A garota estava na minha frente, forçando as facas para frente enquanto Aalto as segurava com as mãos nuas.

— Rápida! – a Aalto disse. – Você é rápida!

— Cala a boca! – a garota gritou.

Com um chute, a garota tentou empurrar a Aalto da escada, mas a mão da aranha parou o golpe. A faca livre desceu, acabou acertando a parede. Os golpes eram rápidos demais. Tudo que via era manchas se movendo, borrões de velocidade. O barulho, o som das pancadas, seco, duro, bruto, era tudo que eu tinha de certeza.

Aquela cena… Nada daquilo parecia ser real.

Não era para ser assim. Não era para funcionar assim.

A garota saltou para frente, levou a aranha com ela escada abaixo. As duas rolaram, caíram de pé, uma de frente para a outra. A aranha olhou para o próprio braço. Tinha um corte na manga da sua jaqueta.

— Droga – ela disse. – Gostava dessa jaqueta.

A aranha sorriu, tirou a jaqueta e atirou para o lado. Por baixo, só tinha o sutiã. Ela se inclinou para frente, esticou os braços. As mãos dela, os dedos estavam juntos.

Como facas.

A garota levantou a guarda.

Um segundo depois, tudo que eu via era de novo os borrões da troca de golpes.

Estava diferente. A garota estava recuando agora, sendo empurrada escada acima a cada golpe. Eu não conseguia nem mais ver os rastros de movimento da aranha.

Aquela velocidade… aquilo não podia ser humano. Era rápido demais. Tudo que eu ouvia era o zunido do ar a cada vez que ele era cortado.

Me afastei da briga. Se eu fosse pega no meio daquilo, eu nunca conseguiria me defender. Aqueles movimentos, aquilo já não era mais algo que eu pudesse acompanhar. Era uma luta de monstros, de criaturas cuja própria existência desobedecia as leis da natureza.

Anomalias.

Por mais que eu tivesse visto nos últimos dias, aquilo era diferente. A briga com a serpente não fora nada como aquilo. A brutalidade, a vontade de matar carregada em cada movimento…

Eu sentia meu peito carregado de uma sensação estranha, quente, agitada.

Qual a palavra?

Ouvi um gemido.

Vermelho.

Sangue voou na parede. A garota saltou para trás, caiu com o joelho apoiado no chão, sua mão esquerda já não mais segurando a faca. Tinha um corte ali, pequeno, atravessando o casaco e indo até a pele. Aalto se aproximou andando devagar, olhando para a sua mão direita. Tinha sangue nas unhas dela.

— Ei, ei – ela disse. – Você foi bem. Boa garota. Foi divertido até. Quase suei.

A garota se levantou apontando a faca que restava para a aranha.

— Cala a boca, sua cadela – ela disse. – O que você pensa que eu sou? Esse cortezinho não é nada.

— Errado – a aranha retrucou. – Ele é tudo. Eu devia dizer “você já está morta”?

O sorriso da Aalto cresceu. A garota pisou com força, saltou contra ela.

Não.

Ouvi um grito agoniado. A garota caiu de joelhos no chão, segurando o braço esquerdo. O rosto dela, todas as feições estavam contorcidas, agonizantes. Ela deixou a faca cair, agarrou com força o próprio braço esquerdo.

— Que porra é essa? – ela gemeu.

— Uma maldição – a aranha disse. – O sangue da ferida vira agulhas. As agulhas furam a carne, faz sangrar mais, cria mais agulhas, fura a carne e faz sangrar mais, cria mais agulhas… Entendeu? Crescendo pelos nervos e veias. Logo, chega ao coração e bye bye. Mas você não vai morrer. Não. O certo seria “você não vai ficar morta”. Mas te segura por… um minuto? Dois, acho. Não vai andar por mais um tempo, também. Suficiente.

Não…

Aalto se agachou em frente à garota e, sorrindo, acariciou a cabeça dela.

— Dói, não é? – ela disse.

A garota agarrou a aranha pelo pescoço, puxou o rosto dela para perto do seu. Ela estava sorrindo. Não era um sorriso de deboche, nem de escárnio. Era pura e simplesmente um desafio.

— Eu não estou sentido nada, sua cadela – ela disse.

Sem esforço nenhum, a aranha tirou a mão de seu pescoço e empurrou a garota contra a parede, lentamente apalpando-a enquanto tocava a si mesma.

— Mentirosa, mentirosa – ela cantarolou. – Sinto na minha carne. Está se contorcendo por dentro, eu sei. Mal consegue segurar. É forte, não é? A sensação te toma toda. Te esquenta. Mostra a sua voz para mim. Quero ouvir. Aposto que é linda.

As mãos da aranha não paravam de acariciar o corpo da garota, desciam, subiam, deslizavam, até pararem nos seios. Ela começou a apertar com as palmas.

Para.

O rosto da garota se contorcia de dor, as lágrimas escorriam pelo rosto.

Para…

Um empurrão curto, forte. A garota gemeu alto, agonizante, sofrido. E aí parou.

Não!

A aranha se levantou, se virou para mim.

Caí no chão, de joelhos, prostrada, olhos fechados. Eu ainda conseguia ouvir. Os passos dela, se aproximando, chegando perto. Aquela sensação, aquele sentimento…

Eu não consigo lembrar.

Ela estava perto.

Por que eu não consigo lembrar?

Eu não tinha como escapar.

Por quê?

Ela ia me pegar.

Qual a palavra?

Eu ouvi um barulho. Um rugido, um grito, como se algo que tivesse estado preso por muito tempo tivesse sido solto, como se algo muito escuro e muito violento ganhasse forma e voz. Eu abri meus olhos.

O quê?

A cena inteira não deve ter durado mais que um segundo, mas na minha tudo aconteceu muito devagar.

A parede interna à minha frente explodiu, atirando cimento e pó ao ar. A aranha mal teve tempo de se virar. Quando ela olhou para o lado, eu conseguia ver o espanto no rosto dela. Do buraco na parede, veio um monstro.

Cinza, arame farpado, presas.

Era a mesma coisa que tinha atacado o carro quando me sequestraram. Ela agarrou a cabeça da Aalto com uma mão e a atirou através a parede, para dentro de um dos quartos do hospital. Batendo no peito, a coisa pulou atrás dela. Daí para frente, eu só conseguia ouvir gritos e rugidos e o barulho de pancadas muito fortes e coisas quebrando. O chão, as paredes, tudo estava tremendo.

O que está acontecendo?

Eu senti alguém me tocar.

A aranha?

Gritei de susto. Olhando para cima, vi a garota, seu rosto ainda distorcido pela dor.

— Vamos cair fora daqui – ela disse. – Agora!

Não tive nem tempo de concordar ou discordar, e não importava que não tivesse, eu ia escolher ir com ela. A garota me agarrou pelo braço e foi me puxando pelos corredores abaixo. Eu sentia a mão dela tremendo, ouvia a respiração e os batimentos cardíacos doídos, forçados.

Como?

— Você está bem? – eu gritei.

— Ainda não chegou no coração – ela disse. – Tenho um tempo ainda.

— Não é isso! A dor!

— Já tive piores.

Ela simplesmente continuava correndo, mesmo com o corpo sendo tomado por aquela maldição.

Por quê?

Por que eu me sinto tão…

Triste?

Não…

O quê?

Qual a palavra?

O barulho parou de repente. Na hora, Lavínia se interrompeu e virou para trás.

— Ela… – eu murmurei. – Morreu?

— Não. Eu ainda sinto a droga da maldição no meu corpo. Ela está viva.

— Mas aquela coisa atirou ela através de uma parede!

Que tipo de monstro é ela?

Lavínia caiu com o joelho no chão apertando o próprio peito. Ela começou a tossir sangue. Me abaixei à frente dela.

— Você está bem? – eu gritei. – Ei!

— Droga – ela sussurrou. – Meu pulmão…

Ouvi passos atrás de mim. Passos de pessoa.

A aranha.

— Foge daqui – Lavínia disse.

— Não!

Uma batida na parede. Eu olhei para trás.

Droga…

Ela estava lá, as mãos encharcadas de sangue, de pé na escada, sorrindo.

— Yo – ela disse.

Senti algo me agarrar e me atirar para o ar. Fechei meus olhos. Ouvi o barulho de vidro quebrando. Quando olhei de novo, vi o prédio se afastando e o céu aberto em cima de mim.

Não… Assim não.

Num momento, estava caindo. No outro, senti o chão contra o meu corpo e uma dor horrível passando por dentro de mim.

Estou viva?

Foi difícil levantar, mas tive que fazer. E daí eu vi que estava no meio da rua, em frente ao hospital abandonado. Ao redor, várias pessoas tinham parado para olhar a cena. Uns metros à frente, tinha um carro com o teto afundado. Lavínia estava em cima dele. Corri até ela.

— Ei! – eu gritei. – Você está bem? Lavínia!

Ela se levantou devagar, se curvou para frente e virou o rosto para mim.

— Fica quieta um segundo, por favor – ela disse.

Graças a Deus…

Lavínia pulou de cima do carro e me agarrou pelo braço.

— Vamos sair daqui – ela disse. – Isso já chamou atenção demais.

Acedi.

Enquanto ela me levava embora, eu olhei para cima. A aranha estava na janela, olhando para baixo, acenando e sorrindo.

“Nos vemos em breve”.