Limiar

10 Eu realmente não entendo...


Depois de todos os problemas no hospital, eu estava de volta ao antiquário. No fim, não tinha descoberto nada. Tanto esforço e o único resultado fora levar uma surra da Aranha.

Droga de dor.

Quando eu e Lavínia estávamos voltando para a loja, eu notei que meu tornozelo estava machucado. Provavelmente aconteceu na queda. Não tive coragem de reclamar depois que chegamos. Não com a Lavínia naquele estado.

Me sinto estranha.

Eu estava esperando sentada em cima do balcão. O pai do Daniel tinha levado a Lavínia para o quarto dos fundos para tentar exorcizar a maldição dela. De vez em quando, eu ouvia um grito abafado vindo de lá de trás. Era terrível. Daniel chegou enquanto eles ainda estavam lá. Ele entrou correndo, todo preocupado.

— Cadê a Lavínia? – foi a primeira coisa que ele disse.

Acho que eu sorri de leve.

É só o natural.

Então… por quê?

— Ela está com o seu pai – eu disse. – Ele está tentando tirar a maldição dela ou algo assim. Eu realmente não entendo…

Uma pancada. Daniel socou a parede forte o bastante para ela tremer.

Por quê?

Eu nunca tinha visto ele com tanta raiva. O próprio corpo dele parecia diferente, mais compacto, mais… agressivo. Não tinha nada ali do Daniel que eu conhecia.

Ou talvez…

Não!

— Por que ela não me chamou? – Daniel exclamou. – E por que diabos ela te levou para dentro daquele lugar?

— Eu quis ir!

O que você está fazendo, Emile?

Eu não sei, Emile.

Daniel ficou me encarando. Uma parte da raiva parecia ter desaparecido dele. Mas tinha outra coisa no lugar. Uma coisa muito fria e muito assustadora. Ele foi em direção ao quarto dos fundos. Antes que ele chegasse lá, me levantei e segurei-o pelo braço.

— Seu pai disse para não entrar lá – eu falei. – Que era um processo complicado e precisava de concentração.

Por um momento, achei que Daniel fosse tentar se soltar. Mas não, ele simplesmente acedeu e foi para cima. Corri atrás, mas vendo as costas dele se afastando, senti um aperto no peito. Não consegui continuar subindo.

Estava sozinha de novo.

Um pouco depois disso, meu celular tocou. Era a Paula. Não me sentia dispostas a atender, mas ela ia se sentir mal se eu não respondesse. Pela hora que era, ela já devia estar de volta da faculdade. Podia ser alguma coisa importante. Acabei atendendo.

— Ei, Emile, tudo bem com você? – Paula disse.

Ela parecia preocupada.

— Eu estou bem – eu disse. – Aconteceu alguma coisa?

— Mais ou menos – Paula disse.

Definitivamente, ela parecia preocupada. Eu reconheceria aquela nota de enrolação na voz dela em qualquer lugar.

— Tudo bem com você? – eu perguntei. – Sua voz está estranha.

— Bom… é que tem uma pessoa aqui em casa atrás de você.

— Uma pessoa?

— É uma mulher. Espera, deixa eu perguntar o nome dela.

Não…

Eu ouvi uma voz do outro lado. Não. Era o eco de uma voz. Mas aquele tom, aquele jeito de falar…

— Tuuli – Paula disse. – Ela falou que o nome dela é Tuuli Aalto. Você conhece ela?

Calma. Mantenha a calma, Emile.

Estou tentando!

Daniel não parecia estar perto e, até onde eu sabia, Lavínia e o pai do Daniel ainda iam demorar naquele ritual. Mesmo assim, não queria arriscar que eles ouvissem. Saí da loja.

— Paula – eu disse. – Passa o telefone para ela, por favor.

— Ei, você está bem mesmo?

— Está tudo bem. Eu conheço ela. Passa o telefone.

Ouvi Paula dizer alguma coisa e o barulho do telefone mudando de mãos. E aí veio a voz dela.

— Yo, Emile – a Aranha disse. – Como está?

— O que você está fazendo na casa da Paula? Ela não tem nada a ver com isso!

— Calma, calma. Só queria falar. Não te parabenizei.

— Não vem com essa! Não toca nela!

A aranha riu.

— E se tocar? – ela falou. – Que acontece?

Droga.

Olhei ao redor. Não tinha ninguém na rua além de mim. Pelo menos eu podia ficar tranquila quanto a não ser sequestrada de novo. Mas isso não resolvia minha situação…

— Por que você está fazendo isso? – eu perguntei. – Por que você está atrás de mim? O que eu fiz?

— Nada – a Aranha respondeu. – Só é especial.

— Eu não sou especial! Eu sou só uma garota normal, droga! Nada disso era para estar acontecendo comigo!

— Não é a primeira vez, sabia?

— O quê?

— Não te contaram? Procure. Vai gostar.

— Do que você está falando?

— Dois anos atrás. Por que se mudaram? Três anos antes? Sabe dizer?

O aperto no meu peito voltou. Era a mesma sensação que um pescador devia ter ao ficar sozinho no meio do mar durante uma grande tempestade, vendo as nuvens se formando e não podendo fazer nada.

George Clooney saberia o que fazer…

Pare!

— Por que você está me dizendo isso? – eu questionei.

— É mais divertido – a Aranha respondeu. – Vai atrás. Dou tempo. Prometo. Seus pais, sua amiga, vão ficar bem. Relaxa, relaxa.

— Como eu posso confiar em você?

— Ela está viva, não está?

Droga!

— Estou indo agora – a Aranha disse. – Bye bye, Emile.

O telefone passou de mãos de novo. Ouvi Paula conversar um pouco ainda com a Aranha antes de se despedirem. Quando a Aranha parecia já ter ido embora, não consegui segurar um suspiro. Olhei para dentro da loja e vi que Daniel estava lá, me encarando. Apontei para o telefone e fiz sinal de que era a Paula. Ele anuiu e foi para o balcão.

— Você está bem? – eu perguntei para Paula.

— Estou sim – ela respondeu. – Mas o que foi isso, Emile? De onde você conhece aquela mulher?

— É uma história complicada. Mas, tenta ficar longe dela, tudo bem?

— Por quê? O que está acontecendo com você? Primeiro você vem dormir aqui em casa e desaparece no meio da noite, depois para de ir para a aula e agora uma mulher estranha vem atrás de você. Eu estou preocupada com você. No que você se meteu, Emile?

Também queria saber…

— Está tudo bem – eu disse. – Tudo vai voltar ao normal em breve.

— Vai mesmo? Eu fui na sua casa hoje. Não tinha ninguém lá.

Pense rápido.

— É que os meus pais foram para um cruzeiro – eu disse.

Sério?

Paula ficou em silêncio por alguns instantes. Estava na cara que ela não tinha acreditado nisso. Também, quem acreditaria?

Você precisa aprender a mentir, Emile.

— Onde você está? – Paula perguntou.

— Na casa do pai do Daniel.

Por que eu disse isso?

— Ele não tem uma namorada? – Paula falou.

— Ela está aqui também.

Outra pausa longa. Ela não estava comprando nada daquilo. Não queria ter que mentir, mas não podia permitir que ela se envolvesse ainda mais. Eu tinha sido negligente, burra. Era óbvio que não iam ser só meus pais. A Aranha ia atrás de todos que eu conhecesse, ia usar tudo que pudesse para me atingir. Enquanto essa situação toda continuasse, ninguém ia estar seguro.

Isso parece um pesadelo.

— Acho que você não confia em mim, não é? – Paula disse.

Decepcionada…?

— Não é isso – eu falei. – É só que as coisas estão… complicadas. Eu não sei o que fazer.

— Quer conversar?

— Já estamos conversando.

— Eu quis dizer pessoalmente. Eu e o pessoal vamos sair hoje de noite. Se quiser, pode vir junto. Eu ia te convidar, de qualquer jeito.

Sinto muito, mas não posso.

É o que eu tenho que dizer, não é?

— Obrigada – eu falei. – Você é uma boa amiga.

— Não sou? Agora eu tenho que ir. Nos vemos de noite no shopping, tudo bem? Toma cuidado, Emile.

E daí ela desligou. Ainda estava de dia, mas eu simplesmente não conseguia ver um metro à minha frente…

Quando voltei para dentro da loja, Daniel ficou me encarando.

Seja forte.

— Eu pareço alguém que descobriu como viajar no tempo usando um carro? – eu disse.

— Sem piadas – ele respondeu. – O que foi que a Paula disse?

Suspirei.

Obrigada, Senhora Sorte.

— A Aalto foi atrás da Paula – eu disse. – Aquele monstro falou que isso tinha acontecido antes e que eu devia ir atrás.

— “Isso” o quê?

— Eu não sei. Ela falou da mudança que a minha família fez dois anos atrás e algo assim. Eu não sei. Mas ela disse que ia dar tempo para ir atrás disso…

Daniel pareceu ficar pensando por uns momentos, olhando para longe, antes de voltar o rosto para mim.

— Isso é uma boa ideia – ele disse. – Qualquer informação a mais iria ajudar. Temos que descobrir por que a Fragarach está interessada em você e então talvez surja alguma pista de como enfrentar eles.

Você ainda está com raiva, não está?

A porta nos fundos da loja abriu. O pai de Daniel saiu de lá, limpando as mãos num pano que agora era praticamente todo vermelho. Ele jogou a toalha em cima do balcão e foi caminhando na direção do Daniel.

— Ela vai ficar bem – o pai de Daniel falou. – Considerando tudo, não acho que é tão surpreendente quão forte ela seja.

“Considerando tudo?”

Ele se virou para mim como se tivesse ouvido meu pensamento.

— Ainda assim, exorcizar a maldição foi mais difícil do que eu pensei – ele disse. – Tive que danificar o cérebro para evitar que ela ressuscitasse enquanto eu tirava os espinhos de dentro dela. Infelizmente, eu subestimei a capacidade do corpo dela então ela acabou acordando várias vezes. Aquela maldição é brutalmente eficaz. Mas está removida. Ela ainda precisa descansar por mais algumas horas. Apesar do corpo dela estar curado, o estresse mental ainda é um problema grave. Deem algumas horas a ela.

Daniel soltou ar com força.

— Obrigado por ter ajudado – ele disse.

O pai de Daniel tirou os óculos e começou a limpá-los. Desviei o rosto. Não queria me arriscar a ver aqueles olhos nus. Só me virei depois de uns segundos, quando os óculos já tinham voltado ao lugar de onde nunca deviam sair.

— É o meu dever paterno – ele falou. – Além do mais, foi uma boa oportunidade para estudar como aquela magia funciona. Se eu estiver certo, devo conseguir desenvolver uma maneira de contra-ataca-la em alguns dias.

— Ótimo – Daniel disse. – Eu vou fazer aquela bruxa pagar pelo que fez.

Óbvio que ainda estava.

Daniel se virou para mim. O pai dele acompanhou o olhar.

— A Aalto ligou para a Emile – Daniel disse. – Ela falou algo sobre a mudança da família dela.

— Mudança? – o Pai do Daniel perguntou.

— A gente se mudou uns dois anos atrás – eu falei. – Foi no fim do meu terceiro ano. Meu pai tinha pegado um emprego novo, mas ia ter que se mudar. Eu tive que ir junto. Até mudei de escola. Foi um problema.

— Onde vocês moravam antes?

— Numa cidade do interior.

O pai do Daniel me encarou com aqueles olhos, parecendo tentar encontrar alguma coisa em mim. O que, eu não sabia. Não naquela hora. Depois de um momento, ele mudou de olhar e puxou um celular do bolso.

— Esse foi um ritual cansativo – ele disse. – Vou tomar um banho e descansar depois. Não façam barulho, por favor.

— Certo – Daniel disse. – E obrigado.

— Você agradece demais.

E, digitando alguma coisa no celular, o pai do Daniel sumiu pelas escadas. Daniel ficou olhando para ele enquanto ele se afastava, seus punhos ainda cerrados. Eu tentei sorrir.

— Vocês se dão bem – eu disse. – Isso é incrível, especialmente para você.

Daniel virou para mim.

Confuso?

— Por que você acha isso? – ele perguntou.

— Sua personalidade estranha, sua seriedade cômica, esse é o tipo de coisa que só poderia nascer de alguém com enormes problemas paternais – eu respondi. – Caso clássico.

Acho que consegui sorrir. Daniel não. Ele ficou me encarando por uns instantes, sério, antes de desviar o olhar de volta para as escadas.

Droga…

Ouvi passos vindo de dentro do quarto dos fundos. Quando olhei para lá, vi Lavínia aparecendo andando, vestida só com um vestido branco leve. A cara dela estava fechada e as mãos ficavam repuxando o vestido.

— Como alguém consegue usar essa droga? – ela grunhiu. – Parece que eu estou pelada.

Daniel foi correndo até Lavínia. Tentou segura-la, ela resistiu, os dois começaram a discutir alguma coisa enquanto ficavam se tocando, fazendo caras.

Uma batida.

Um sussurro.

Me virei para trás. Não tinha ninguém ali. Só a porta, a rua vazia e a minha imagem refletida no vidro. Olhei para a Emile à minha frente e tentei fazê-la sorrir. Ela não conseguia.