Limiar

11 Eu te amo


Enquanto Daniel e Lavínia ainda estavam ocupados discutindo, eu subi para o quarto em que estava dormindo. Me joguei em cima da cama, de cara no travesseiro, fechei os olhos e tentei não pensar em nada.

Como se fosse conseguir…

A aranha. A cobra. Eu. A águia. O jaguar.

Claro que não ia dar certo. Como eu podia simplesmente agir como se nada estivesse acontecendo quando meu mundo estava desabando?

Não era para ser assim.

Meu celular começou a tocar. Era a veterana de cabelos coloridos. Rejeitei a ligação. Um minuto depois, ela insistiu. Rejeitei de novo, desliguei o celular e atirei ele no chão.

— Me deixa em paz! – eu gritei.

Para quem?

Por que isso tudo está acontecendo comigo? Eu só queria viver em paz…

“Já aconteceu antes”. “A mudança”. “Vai atrás”.

Não conseguia tirar da cabeça o que a aranha tinha dito pelo telefone.

E se…

Não!

Mas, se for…

Não!

Puxei o travesseiro e apertei ele contra a minha cabeça para sufocar os pensamentos.

“Por que mudaram? Sabe dizer?”.

Desisti. Larguei o travesseiro, abri os braços, virei para cima, fiquei olhando para o teto.

O que está acontecendo com você, Emile?

Fechei os olhos.

Eu estava sozinha naquela estação de metrô. Tinha algo lá que eu havia esquecido. Algo meu que eu havia perdido ali. Desci para os trilhos e fui andando para dentro do túnel. Logo, não conseguia enxergar mais nada. Eu estava sozinha no escuro, seguindo em frente em busca de um pedaço de memória perdido. Eu me sentia sozinha, como se o mundo inteiro fosse apenas eu. Mas havia algo na escuridão, deitado, me encarando com olhos que não estavam lá. Meu coração fraquejou. Minha boca se abria tentando puxar o ar que não existia. Eu ouvi o barulho de algo rastejando ao meu redor, se aproximando. Minhas pernas, meus braços, eu estava presa, completamente indefesa e imobilizada. E aí eu ouvi a voz sibilando dentro da minha cabeça.

“Qual o meu nome?”

Acordei. Estava suada, arfando. Olhei para o lado. Não tinha ninguém ali. Respirei fundo.

Esse sonho de novo…

Levantei da cama, pisei com cuidado no chão. Meu tornozelo ainda doía muito. Fui andando até o banheiro. Precisava me limpar, me livrar de todo aquele suor, toda aquela sujeira.

Eu esqueci a toalha.

Não cruzei com ninguém no caminho. As portas dos outros dois quartos estavam fechadas. Fui até a primeira, a lâmpada estava acesa, olhei pelo buraco da fechadura. O pai do Daniel estava lá, falando com alguém pelo telefone. Não conseguia ouvir a conversa, era como se o som parasse ao chegar à porta. De qualquer jeito, não era algo em que eu devesse me meter. Para ser sincera, eu não queria chamar a atenção daquele homem. Mesmo que ele estivesse me ajudando, ele ainda me dava medo. Não eram só os olhos; quero dizer, era principalmente os olhos, mas tinha algo a mais, uma coisa… uma coisa que eu não sabia definir. Eu só queria ficar longe dele. Fui até a porta do outro quarto. Estava escuro lá dentro, não dava para ver nada pelo lado de fora.

Se eu abrir só um pouquinho, não vão notar.

Coloquei a mão na maçaneta.

O que você está fazendo?

Eu só quero olhar.

Por quê?

Girei a maçaneta, abri a porta só o suficiente para colocar o meu rosto para dentro.

Uma batida.

Fechei a porta rápido. Corri para longe dali, direto para o banheiro. Entrei sem bater, passei o ferrolho na porta, me agachei no chão e tapei minha boca com as mãos para não deixar nenhum barulho escapar.

Eles estavam…

É só o natural.

Meu peito estava doendo, minha cabeça não queria acreditar nos meus olhos, eu me sentia tão…

Confusa? Feliz? Assustada?

Qual é a palavra?

Eu não consigo lembrar…

Devo ter ficado agachada ali por dez, vinte minutos. Não sei. Não me importava saber. Eu só queria ficar sozinha, em silêncio, até me recuperar. Devia ser rápido, devia ser fácil.

Então por quê…?

Levantei do chão. Tirei a roupa. Olhei para o espelho. Tinha uma garota lá. Qualquer um diria que ela era bonita. Muito bonita. O cabelo longo, brilhante, os olhos jovens, a pele morena, bem cuidada. É claro que a garota no espelho era bonita. Quem diria o contrário?

Então… por quê?

Liguei o chuveiro. Deixei o barulho da água afogar a minha cabeça. As gotas batendo no chão, no meu corpo, escorrendo pelo ralo, indo embora para Deus sabe onde.

“Como lágrimas na chuva”.

Não tinha chuva, porém.

Quando terminei, estiquei o braço para fora do box até o toalheiro. Não tinha nada lá.

Droga.

Sequei os pés no tapete, deixei a água escorrer o bastante para que não ficasse pingando no chão. Todos ainda deviam estar dormindo, então não seria um problema se eu saísse do banheiro daquele jeito.

Ninguém vai me ver, não é?

Peguei as minhas roupas e saí do banheiro. Só precisava ser bem rápida.

Uma batida.

Eu abri a boca, mas não consegui falar.

Uma batida.

Senti como um lagarto se sentia ao sair da água fria e se expor ao Sol do meio dia.

Uma batida.

Daniel estava lá. Parado no corredor. Ele ficou me olhando, sem se mexer. Eu fiquei olhando de volta, estática.

Fale alguma coisa.

Vamos, fale alguma coisa.

Não fique aí só olhando, fale alguma coisa.

Ele virou o rosto para o lado, sem nem olhar de soslaio para mim. Usei as roupas para me cobrir, encostei na parede, olhando para o teto. Depois de um tempo, quando meu rosto já tinha parado de queimar, consegui respirar o suficiente para que o ar alcançasse meu cérebro e me permitisse pensar coerentemente.

— O que é isso? – eu falei. – Um antiquário ou uma pensão com onsen? Estou me sentindo uma vestibulanda que fugiu de casa por não ter passado no vestibular.

— Você sempre tem uma referência pronta, não tem? – Daniel disse.

— É o meu papel. Eu sou a personagem com extremo conhecimento de cultura pop que garante as referências nas cenas cômicas. Infelizmente eu não sou baixinha e nem tenho cabelo azul, caso contrário seria perfeito.

Silêncio. Sempre silêncio.

— Desculpe – Daniel irrompeu. – Eu vou sair daqui.

— Excepcionalmente, vou ser uma alma caridosa e admitir que a culpa foi minha – eu falei. – Sinta-se privilegiado por me ouvir dizer “desculpe”.

— Certo, certo.

Ele saiu sem olhar para trás. Depois que a porta bateu, eu ainda fiquei paralisada por um instante.

Agora eu sei como heroínas de Date Sims se sentem.

Obrigada, Senhora Sorte.

Corri para ao quarto onde estava dormindo, peguei a toalha, me sequei e troquei de roupas. Antes de terminar de me trocar, senti um aperto no peito. Caí na cama, encarando o teto outra vez. Não tinha dor, só um incômodo indistinto, uma sensação de vazio que pede por preenchimento. Olhei para a minha própria mão.

Acho que não iria dar certo…

Fechei os olhos e suspirei, deixando meu braço desabar para o lado.

Céus, Emile, o que há com você?

Eu não faço ideia de quanto tempo passei ali. A quem eu estou enganando? Eu simplesmente não estava com a cabeça para nada. Não que eu entendesse por que. Eu só, sabe… não conseguia. Eu precisava respirar. Não estou sendo coerente, desculpem. Vamos adiantar a história até o próximo evento.

Quando estava anoitecendo, eu já estava vestida e pronta para sair. Assim que desci do quarto, vi Daniel, Lavínia e o pai do Daniel discutindo alguma coisa perto do balcão. Todos eles se viraram para me encarar quando notaram que eu estava descendo.

— Indo a algum lugar? – o pai de Daniel perguntou.

— Me encontrar com a Paula – eu disse. – Ela e o pessoal vão sair. Pensei em ir junto. Para ver como eles estão.

Eles não pareciam acreditar em mim. Ou talvez fosse melhor dizer que “não acreditavam que eu fosse mesmo sair”.

— Eu sei o que vocês estão pensando – eu falei. – Mas não tem como me convencer. Eu estou preocupada com eles. Você também devia estar, Daniel. Então o único jeito de me impedirem de ir é me prendendo aqui e se vocês fizerem isso eu grito até chamarem a polícia.

Confiança.

O pai de Daniel abaixou os ombros e ajeitou os óculos.

— Isso não vai ser necessário – ele falou. – Tenho certeza de que Daniel está prestes a se oferecer a ir com você.

Daniel concordou.

— Eles são meus amigos também – ele disse. – Se tem alguma chance deles estarem em perigo, eu preciso saber.

Lavínia saltou de cima do banco em que estava e agarrou a jaqueta de cima do balcão.

— Se é assim, eu vou ter que ir com vocês – ela disse. – E, além disso, um certo alguém já devia mesmo ter me apresentado aos amigos.

Daniel e Lavínia trocaram olhares rápidos.

Fantástico.

— Se tem que ser assim, então tudo bem – eu disse. – Vamos.

E assim, eu e eles saímos da loja, todos juntos, direto para o shopping onde estava marcado o encontro. Agora, tenho certeza de que a maioria de vocês sabe como um shopping é. Muitas lojas, muitas pessoas, grande. Esse não escapava disso. Era um lugar bonito, inclusive. Não fantasticamente bonito como um daqueles shoppings de países árabes ricos, mas vocês imaginam. Espero. Quando eu e eles chegamos à praça de alimentação onde todo mundo tinha marcado de se encontrar, o pessoal já estava todo lá. Apenas para confirmar, essas são as mesmas pessoas da cena do almoço, lá atrás. Paula, Dênis e Coiote. Assim que nos aproximamos, eles se levantaram para cumprimentar, mas logo toda a atenção se voltou para Lavínia. Dênis foi o primeiro a se aproximar dela, já com cara de quem quer fazer amigos.

— Ei, Dan, Emile e… – ele falou. – você é?

— Ela é a Lavínia – Daniel disse. – Lembra que vocês perguntaram da garota com quem eu estava saindo? É ela.

Lavínia olhou para o lado como se estivesse incomodada por alguma coisa. Daniel sorriu para ela, mas tudo que ele teve como resposta foi um olhar faminto. Lavínia se virou então para o resto do grupo.

— O que ele quis dizer – ela disse – é que eu sou a namorada dele, não foi isso?

— Exatamente – Daniel disse.

Paula se aproximou rápido, olhando para Lavínia com uma curiosidade que mais parecia uma lâmpada acesa em cima da cabeça dela.

— Lavínia, é? – ela disse. – Prazer. Meu nome é Paula. Você é mais bonita do que eu imaginei.

Tive a impressão de que Lavínia ficou vermelha. Não, definitivamente ela ficou vermelha como um morango.

Será que…

Esse olhar… essa expressão…

Poderia ser? Então é isso que chamam de…

—moe?—

Que técnica perigosa! Verdadeiramente, você é uma inimiga digna de…

Inimiga?

— Emile? – Paula chamou.

Olhei para o lado. Todo mundo estava me encarando.

— Tudo bem? – Dênis perguntou.

— Desculpe – eu disse. – Eu estava enfrentando uma organização de vilões num dos meus devaneios heroicos. Por sorte, ele entregou a deixa de derrota rápido.

Piscadelas.

Acho que exagerei.

— Essa foi definitivamente uma referência underground­ – Coiote falou. – Sem dúvidas, essa é a verdadeira Emile e não um Skrull disfarçado.

— Mas os Skrulls poderiam ter estudado a Emile e ensinado a cópia como fazer referências underground – Dênis disse.

— Por favor – Lavínia falou. – Skrulls são uma piada. A única explicação para o Quarteto Fantástico não descobrir que a Alicia era um é porque eles são idiotas.

Essa referência…

E então, os olhares se moveram para Lavínia. O meu incluso. Ela começou a ficar vermelha de novo.

— O que foi? – ela perguntou.

Dênis agarrou as mãos de Daniel enquanto, com pura alegria em seu rosto, ele o olhava nos olhos. Daniel tentou se afastar, mas Dênis possuía uma Habilidade que transformava sua Alegria em Ataque. Uma habilidade assustadora, de fato.

— Você é um homem feliz, Dan! – ele disse. – Como eu te invejo!

Todo mundo começou a rir. Acabei acompanhando eles. Mas, era estranho, apesar de gostar de estar com eles, apesar de estar me divertindo algo parecia… errado.

O que está acontecendo?

Paula estava olhando para mim. Sorri para ela da melhor maneira que consegui.

Depois disso, fomos para o cinema. Acabamos assistindo a um filme com monstros gigantes. Embora seja extremamente triste da minha parte ter que dizer isso, por duas horas eu me senti como uma criança de doze anos solta numa loja de brinquedos. Praticamente todo mundo estava vibrando com o filme. Em algumas cenas em particular o cinema quase veio abaixo com os gritos e as palmas. Assim que saímos, todos fomos de novo para a praça de alimentação, compramos uma pizza, refrigerantes e ficamos discutindo o filme e coisas acerca dele.

— Cara, ele derrotaria o King Kong brincando! – Coiote disse. – Você viu o tamanho dele? Aviões mataram o King Kong. E nem eram caças. Eram bimotores!

— Espera, espera – Dênis falou. – Você tem que levar em conta a versão da Toho do King Kong! Com os poderes elétricos e tudo!

— Ainda assim – Daniel falou. – Godzilla provavelmente venceria. Ele tem a vantagem de poder atacar à distância. Fora que eletricidade só era uma fraqueza dele na era Showa e só porque nem a Mothra nem o King Kong teriam a menor chance de outro jeito. Isso não é diferente de como quando o Swellow usou a Armadura de Trovão.

Dênis se virou para Paula de súbito, fazendo a nossa caríssima mascote de carisma 20 soltar um gritinho de susto.

— Paula! – ele falou. – O que você acha? King Kong ou Godzilla?

Paula parou para pensar por um momento, como se aquela realmente fosse a questão mais importante do mundo, antes de levantar um dedo e abrir um sorriso bobo.

— O que estivesse com o nome em segundo lugar no título! – ela disse. – Sabe como é sempre o monstro que tem o nome na segunda posição que vence. Freddy vs Jason, Alien vs Predador, Godzilla vs King Kong. É uma regra.

Houve um minuto de silêncio.

Posso ouvir os anjos aplaudindo.

— Isso foi surpreendentemente meta – Daniel disse.

— Definitivamente – Coiote concordou.

Dênis se virou para Lavínia.

— E o que você acha? – ele perguntou para ela.

— Godzilla – Lavínia respondeu.

— Assim, na lata?

— Igual como o Godzilla derrotaria o King Kong.

It’s a One Hit KO.

Dênis, curvado sobre o peso de uma derrota humilhante, voltou-se para única pessoa que poderia restaurar um pouco de sua dignidade. Erguendo sua mão em minha direção, eu podia sentir ele implorando por uma resposta.

Que dramático.

— Bom – eu falei – o King Kong é mais assustador e eu gosto mais dele, mas o Godzilla definitivamente venceria numa batalha um contra um. Desculpe.

Acho que eu vi o espírito dele saindo do corpo.

— Assustador? – Coiote perguntou. – Por que você diz isso?

— King Kong foi o primeiro filme que eu assisti. A versão original até. Foi muito impactante. Lembro que eu achei a cena em que ele luta contra os dinossauros brutal. Era como se o King Kong fosse uma manifestação física da raiva. Acho que eu acabei associando gorilas com violência.

Essa linha de conversa não durou muito mais. Em certo momento, o assunto acabou voltando para como Lavínia e Daniel se conheceram. Eu já sabia da história, então resolvi aproveitar para ir ao banheiro. Paula também se levantou, disse que ia junto. Dentro do banheiro, quando eu e ela estávamos lavando as mãos, ela começou a me encarar.

— Tem um inseto nas minhas costas? – eu perguntei.

Paula ficou séria de repente. Era óbvio onde aquilo ia dar.

— O que está acontecendo? – ela perguntou.

— Já disse para não se preocupar com isso. Eu estou bem.

— Não está, não. Dá para ver no seu rosto.

Me apoiei na pia e fiquei me olhando no espelho. Realmente estava lá.

Você realmente não sabe fingir, não é?

— As coisas só estão um pouco… fora do normal – eu disse.

Bem fora do normal.

— Não é o que parece – Paula disse. – Tem muita coisa estranha acontecendo, Emile. E agora que eu te vi, tenho certeza de que você está escondendo o jogo. Você disse que queria conversar, não é? Então, pode falar. Não importa o que esteja acontecendo, eu vou ajudar no que eu puder.

Se você soubesse, diria o mesmo?

Que cruel.

Lavei o meu rosto. Precisava me esfriar um pouco, tentar organizar as coisas na minha cabeça. Estava me sentindo como um rato num labirinto, correndo atrás do queijo, mas se batendo na parede sem parar.

— Sabe, eu sou adotada – eu disse. – Eu sempre soube disso. Quer dizer, é claro que eu sou adotada. Meus pais não parecem nada comigo. Todo mundo sabia disso. Mas eu nunca tinha pensado… pensado no que isso significava. Quer dizer… de onde eu vim? Eles me adotaram quando eu era um bebê, então eu nunca soube nada da minha família. Dos meus pais. Eu não sei. E se… e se tiver alguma coisa… alguma coisa lá atrás, sabe? Alguma coisa que eu não sei sobre mim. E se…

Não.

Não, não, não!

— Por que você começou a pensar nisso? – Paula perguntou.

Eu queria poder te dizer, mas não quero te colocar em perigo.

— Aquela mulher – eu disse. – A que foi na sua casa. Ela… ela disse que eu era… diferente.

— “Diferente”? Como assim?

Droga, Emile! O que diabos você está fazendo? Quer colocar ela em perigo?

— Desculpa – eu disse. – Não é nada. Provavelmente eu estou só imaginando coisas. Imaginação fértil demais, sabe? Vamos lá? Eles devem estar esperando.

Estava saindo do banheiro, mas, antes de me afastar dois passos, Paula me segurou pela mão. Me virei para ela, sorrindo, mas ela estava mais séria do que nunca.

— O que foi? – eu perguntei. – Eu já disse que não é nada.

— Eu te amo.

Uma batida.

Ri de leve.

— O que foi isso? – eu falei. – Você não é de contar piadas.

— Não é uma piada.

Eu só conseguia rir. Alguma parte de mim, acho, esperava que Paula começasse a rir também, que dissesse que tudo aquilo era só uma brincadeira.

Fala logo.

Vai, fala.

Fala!

Ela não disse que era uma brincadeira. Não vieram câmeras de televisão nem começaram a tocar uma música de aniversário. O mundo não mudou de repente e nada de estranho aconteceu. Aquilo era o mundo real.

Uma batida.

— Por que você me disse isso? – eu perguntei.

— Porque é verdade. Eu te amo, Emile. Então qualquer coisa que você precisar falar, eu vou ouvir.

Ha… ha.

— Desculpa – foi tudo que eu consegui dizer.

Saí correndo do banheiro. Não queria saber de ficar ali, não ia conseguir ficar ali, a minha cabeça não ia aguentar se eu ficasse ali.

Droga!

Corri para fora do shopping, minha cabeça estava explodindo. Estava chovendo, mas eu continuei correndo mesmo assim. Atravessei o estacionamento, passei direto pelo metrô e continuei correndo no meio da rua até minhas pernas cansarem e meu corpo ceder. Caí no chão de joelhos, me segurando com todas as forças para não desabar de vez.

O que está acontecendo?

Eu podia explodir ali. Tinha certeza de que ia explodir.

Por favor, para…

Ouvi o barulho de passos. Levantei o rosto. Tinha alguém ali na frente, parada, me olhando, segurando um guarda-chuva.

— Emile? – ela falou.

A pessoa correu na minha direção. Ela se abaixou, me colocou sentada, me segurando pelos ombros.

Cores. Muitas cores.

Reconheci a minha veterana ali.

— Por que você está aqui? – eu perguntei.

— Eu que pergunto isso! – ela disse. – Você está toda molhada!

A veterana me ajudou a me levantar. Me sentia toda dolorida, como se tivesse sido atingida por uma carro em movimento. Quase conseguia ouvir um zumbido no meu ouvido.

Como um… sibilar.

Atrás da minha veterana, tinha alguma coisa. Brilhante, verde, se movendo devagar no escuro.

Não.

Recuei. Minha veterana se aproximou de mim, como se não estivesse entendendo o que estava acontecendo.

Não.

Ela se virou para trás e não se mexeu mais.

“Qual é o meu nome?”.

Parada no meio da noite, ainda maior do que da última vez, me encarando em posição de bote, estava a Serpente.