Limiar

12 Uma única batida


Depois de ir ao shopping com Daniel, Lavínia e o pessoal da faculdade, enquanto estávamos no banheiro, Paula se confessou para mim. Sem saber o que fazer, eu corri. Foi quando me deparei com a veterana de cabelos coloridos. Mas antes que eu pudesse ter tempo para tentar explicar o que estava acontecendo, a Serpente apareceu de novo.

A neblina, as luzes difusas, a forma da Serpente… tudo parecia um filme de terror mudo, preto e branco.

Como Nosferatu.

Minha voz não saía. Meu corpo não se mexia. Eu só conseguia encarar a Serpente, ali parada, sempre pronta para o bote.

Um pesadelo. É só um pesadelo.

Calor.

Olhei para o lado. Minha veterana estava segurando minha mão. Ela parecia…

Assustada? Não, não é isso.

— Corre! – ela gritou.

Não deu tempo de questionar. Não. Mesmo que desse, não teria sido diferente. Minha reação seria a mesma dela. Correr.

Como sempre…

Ela começou a correr me puxando pela mão. Eu não olhei para trás. Eu não queria olhar para trás. Mas conseguia ouvir a Serpente se aproximando, sibilando, perguntando…

“Qual o meu nome?”.

— Eu não sei! – eu gritei. – Eu não sei, droga!

— Do que você está falando? – a minha veterana perguntou.

Ela não conseguia ouvir a Serpente.

Talvez…

Não!

Acelerei a corrida. Agora era eu quem puxava minha veterana pela mão. A cada rua pela qual eu passava, a cada vez que virava uma esquina, a cada loja que encontrava, torcia para ter alguém ali. Mas não tinha. Nunca tinha. Me atirei contra a porta de uma loja. Estava trancada. Tentei chutar, mas não abria.

“Qual o meu nome?”.

A Serpente estava perto e chegando mais perto muito rápido. Olhei para trás. Os olhos dela estavam ali, brilhando na névoa, atravessando tudo para me encontrar.

Tem que ter um jeito…

Me virei para o lado.

Isso!

Os trilhos do trem ficavam do outro lado da rua. Pela estação, dava para alcançar a passarela, de lá o campus da faculdade e de lá dava para sumir. Tinha que dar para sumir. Tinha que ter alguém lá.

Por favor…

— Vem! – gritei para minha veterana.

Corri com ela até as grades de segurança, comecei a escalar correndo, ela também, ao menos até a blusa dela prender nas grades. A Serpente estava quase chegando. Eu comecei a puxar, gritar, até a blusa rasgar e ela cair da grade direto para cima de mim. Só deu tempo de me levantar, puxar ela e correr, antes da Serpente arrebentar as grades gritando.

“Qual o meu nome?”.

Me atirei para as escadas, puxando a veterana junto de mim. Por sorte, ali as escadas eram cerceadas por paredes e a Serpente era grande demais para passar por ali.

Obrigado, Senhora Sorte.

Eu só parei de correr quando já eu estava na passagem elevada entre os dois lados da estação, perto o bastante da faculdade para me permitir achar que estava segura. Eu despenquei no chão, abaixei a cabeça no meio dos joelhos…

Por que tem tudo que ser assim?

Eu só quero uma vida normal.

Minha cabeça doía muito, como se presas estivessem apertando ela por fora. Eu estava com o estômago embrulhado, os pulmões queimando, a garganta irritada.

Por que isso não acaba?

O que eu fiz de errado?

Por que isso está acontecendo comigo?

Eu sou só uma garota normal, OK?

Eu faço tudo direito, eu me esforço, eu ajudo tudo mundo, então por que isso está acontecendo comigo?

Uma mão no meu ombro.

Minha veterana estava me olhando, confusa, preocupada, assustada… não sei.

— Emile… – ela disse. – Você está bem?

É claro que eu estou bem! Como eu poderia não estar bem?

Eu acedi e me levantei.

— Vamos – eu disse. – A gente precisa chegar no campus logo.

— Por quê? – a veterana disse. – A gente devia procurar ajuda! A polícia, o exército, a guarda florestal, sei lá, alguma coisa!

Acho que eu ri um pouco.

— Não acho que eles iam poder fazer muita coisa – eu falei. – Nos filmes de cobras gigantes a polícia nunca consegue fazer nada contra as cobras, lembra? Como em Boa versus Píton.

A veterana ficou me encarando como se eu tivesse dito algo muito estranho.

— Além disso – eu falei – você não acha estranho a estação estar vazia? E a rua, e as lojas todas trancadas e essa névoa?

Ela começou a se afastar devagar, me encarando com um olhar que eu não sabia descrever.

— O que você está tentando dizer? – ela falou.

Eu estava prestes a dizer algo muito idiota. Eu tinha plena noção disso. Mas, ainda assim, de que outro modo eu poderia colocar?

— A gente está presa num filme de terror – foram as palavras que eu encontrei. – Tudo isso é um filme de terror idiota. E eu não vejo a hora dele acabar porque eu não aguento mais um minuto disso. Agora vamos sair daqui. Minhas roupas estão molhadas e eu não quero ficar doente. Odeio isso.

Nem olhei mais para trás. Fui andando para a saída que dava na passarela. Acho que eu ainda tinha um pouco de esperança de que quando saísse dali a névoa tivesse se dissipado e as pessoas reaparecessem. Assim, num passe de mágica.

Naturalmente, não é o que vai acontecer…

A passarela estava vazia. Mais que isso. Não dava nem para ver a avenida que passava ali embaixo, muito menos o campus, do outro lado. Talvez o mais correto fosse dizer que não dava para ver nada além da passarela. Era como se, de repente, eu estivesse andando numa ponte sobre o nada.

Sibilar.

Eu conseguia ouvir o barulho de leve, em algum lugar, lá embaixo, se esgueirando, deslizando…

— Emile… – a veterana murmurou.

Virei para ela, fiz um sinal positivo de leve com a cabeça.

— A gente vai atravessar – eu falei.

Devagar, passo atrás de passo, tentando fazer o mínimo de barulho que desse, eu fui atravessando a passarela. De vez em quando, eu via a névoa espiralar, se mexer, em algum lugar, ouvia um barulho como de algo se movendo na água, da chuva batendo contra couro ou um sibilar. A passarela não terminava. Eu conhecia bem aquela passarela, sabia exatamente o tamanho que tinha, sabia que tinha andado pouco, mas ainda assim ela parecia interminável. Tudo parecia muito maior do que devia ser. Sufocantemente maior.

Brilhante.

Á frente, se aproximando, se erguendo…

Gigantesca.

A Serpente parou poucos metros à minha frente, armou a pose de ataque, abriu a boca.

Eu não conseguia respirar. Meu pulso, eu tinha certeza, tinha saltado.

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis batidas rápidas.

Corre.

Dei um passo para trás. A Serpente atacou. Em menos de um segundo, o chão de pedra centímetros à minha frente explodiu com o golpe da Serpente e ela já estava armada para outro.

Ela não tinha errado. Aquilo fora só um aviso.

— Emile… – ouvi alguém murmurar.

A Serpente me encarou nos olhos. No vazio do rosto dela, parecia ter algo que eu… algo que eu…

Não…

Olhei para trás. Talvez eu pudesse…

Correr?

Não. Era impossível. Antes que eu desse um passo, aquele monstro já teria me engolido. Eu queria rir. Eu queria chorar. Mas só o que fiz foi ficar em completo silêncio.

“Qual é o meu nome?”.

Nenhuma lágrima vinha.

Por que eu não consigo nem chorar?

É o normal a se fazer, não é?

Eu quero chorar.

Abaixei a cabeça.

— Eu… eu não sei – falei.

Meu peito estava pegando fogo. Minhas unhas furavam minhas mãos.

— Eu não sei quem é você! – eu gritei. – Eu não sei qual é o seu nome! Eu não tenho como saber de nada disso!

A Serpente gritou. Tudo que eu tive tempo de fazer foi fechar os olhos. Podia sentir ela vindo.

Por favor…

Eu ouvi o mundo se despedaçar como um espelho a quebrar. Eu senti o chão sob os meus pés tremer. Eu ouvi o ar gritar. Mas, outra vez, não teve dor.

Eu abri os olhos.

Era como nas histórias românticas onde o Cavaleiro sempre surge no último momento para salvar a Princesa do Dragão. Ele estava lá, de novo, saltando tão alto, seu punho contra a cabeça da Serpente, a Lua brilhando no alto, iluminando toda a cena como uma pintura medieval, uma reconstrução da lendária cena de Tenochtitlán.

Uma única batida.

Um sorriso começou a surgir, mas…

Uma única batida.

Ela apareceu, correndo sobre o corpo da Serpente, subindo em sua cabeça, golpeando ela com as facas e saltando sob o luar, poderosa, elegante, belíssima, o cabelo dela balançando devagar, os olhos brilhando cheios de força, uma pantera, nobre, indomável, projetando sobre mim sua imensa sombra.

Como eu poderia ter qualquer chance…

A Serpente foi jogada para trás, mas não caiu. Daniel e Lavínia pousaram, os dois de pé, prontos para seguir em frente. Lavínia se virou para mim.

— Corre daqui! – ela disse.

Não parei para pensar. Corri, como ela disse.

“É o que você sempre faz, não é?”.

Parei alguns metros depois, ainda na passarela e olhei para trás, para os dois que lutavam contra a Serpente enquanto eu fugia.

Por que dói tanto?

Daniel parecia estar desenhando alguma coisa no ar quando os dedos dele começaram a brilhar e fogo surgir ao redor de sua mão.

Magia…

Ele atirou o fogo contra a Serpente, atingindo-a com força o bastante para jogá-la para trás e deixar uma marca de queimadura em seu peito.

Senti uma pontada de dor, rápida, mas intensa, percorrer minha coluna. Minha perna falhou, meu joelho bateu no chão.

O que foi isso?

Outra pontada veio logo depois dessa. Minha coluna estava sendo arrancada para fora do meu corpo.

O que está acontecendo?

As pontadas não pararam de vir, cada vez mais fortes. Minhas mãos formigavam, uma sensação estranha enchia o meu peito. Minha cabeça não estava aguentando mais. Senti o concreto molhado contra o meu rosto. Meus olhos estavam fechando. Minha cabeça doía. Meu peito doía.

Por quê?

Não. Não, não pode ser. Não. Não. Não. Não. Não não não não não não nãonãonãonão!

O chão tremeu. Vi a Serpente saltando da passarela, fugindo. Depois disso, nada…

Eu estava sozinha. Tudo estava escuro. Não tinha ninguém, só eu e um mundo completamente vazio. Não sentia nada. Solidão, medo, frio, corpo. Nada. Estava se desfazendo, sendo penetrada pelo escuro. Uma linha fina e longa se rompeu. Um limiar quebrou. Tinha o escuro e tinha eu… e o escuro era eu… então só existia eu. Toquei as paredes do meu corpo fora de mim. Eu era um quarto e eu estava num quarto e pelo lado de fora eu me via ali. Eu fechei os olhos e então eu era só o preto e o silêncio. Não. Não silêncio. Havia algo.

Uma batida.

Uma batida.

Meu coração. Mas doía.

Por quê?

Algo me invadiu. Fazia barulho, brilhava tão forte.

Isso são… vozes?

Tinha pessoas e as pessoas não eram eu. Então… quem elas eram?

Por favor, parem…

Quem eram as pessoas que estavam falando? Por que elas existiam?

Por favor…

Quem era a garota que estava com medo? Por que ela estava com medo? Não dava para ouvi-la. Ela estava chorando.

Vão embora!

Gritos. Muitos gritos. Pessoas estavam com medo, estavam desaparecendo. Tinha tiros. A garota gritava e chorava ainda mais alto. Ela estava sofrendo. As pessoas também gritavam. Elas estavam sofrendo? Ela não sabia. Ela caiu. Abaixo dela, apenas um abismo sem fim. Ela não estava com medo. Ela só… não entendia. A garota abriu seus olhos. Tinha alguém ali. Tão elusivo e tão misterioso. Parecia desaparecer quando você tentava se aproximar, mudar de cor para não se revelar por inteiro. Atrás tinha alguma coisa tão bonita que, às vezes, escapava e brilhava, bem, bem pequena, mas tão, tão linda… Mas tinha outra pessoa ali, tão imponente, uma Lua. Ela tinha a luz inteira para si, guardava ela com cuidado para que ninguém chegasse perto. A garota não podia se aproximar. Ela não era forte. Suas mãos e suas pernas e sua garganta estavam presas por uma Serpente que a queria devorar. A garota se contorcia na cama, estrangulada pela Serpente. Seus braços iam se partir, suas pernas iam quebrar, sua garganta ia estourar. A garota só podia assistir, calada, à sua morte.

Por favor, não…

Prenunciado por um trovão, um Dragão desceu sobre a Serpente, tomou-a em suas garras e a ergueu para o alto, apertando sua cabeça e proferindo palavras tão estranhas. A garota sentia sua espinha ser pressionada enquanto seus braços, pernas e garganta paravam de doer. O Dragão esmagou a cabeça da Serpente…

Eu gritei. Minha coluna parecia ter se partido, mesmo que eu ainda sentisse minhas pernas e meu corpo, essa era a única coisa que eu podia imaginar causando uma dor como aquela. Meu corpo inteiro estava tremendo.

Eu não quero morrer.

Senti braços me pegarem e mãos apertarem minha cabeça. Ouvi alguma coisa, talvez fossem palavras. A dor gradualmente passou até sobrar só um resquício vago do que fora no começo.

Tão claro…

A luz estava acesa. Marcos, o pai de Daniel, estava ao lado da minha cama, me olhando seriamente. Eu conseguia me mexer, mas meu corpo estava estranho. Não parecia eu.

— O que aconteceu? – eu perguntei.

— Tinha uma cobra te estrangulando – Marcos respondeu. – Se eu tivesse demorado mais um pouco, ela teria te matado.

Olhei para o pé da cama. Caída no chão estava uma Serpente que queimava rapidamente, sumindo em cinzas escuras. Nos meus braços estavam as marcas do corpo dela me apertando, no meu pescoço eu sentia a força dos músculos dela.

— Como ela entrou aqui? – eu perguntei.

— Ela não entrou – Marcos respondeu. – Aquilo não era uma cobra comum. Era uma Anomalia e uma Anomalia nunca entraria aqui sem que eu notasse.

Eu sabia o que ele queria dizer.

Não diga isso.

Eu sabia o que tinha que perguntar.

Eu não quero…

— O… o que você está dizendo? – eu perguntei.

Por que eu perguntei isso?

Por que eu tinha que ter perguntado?

Marcos se levantou e me olhou nos olhos. Dessa vez eu não consegui fugir.

— Essa Serpente – ele disse – como a outra, provavelmente, nasceu de você.

Uma garota queria morrer, mas não podia.